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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alterações climáticas e ignorância, ou pior, agnotologia

Índice de Risco Climático,2025 [fonte]

Estamos a atravessar uma onda de calor. O tema das alterações climáticas está na ordem do dia. Por bons motivos? Depende. Como a ignorância é muita, tropeço a cada passo por esses murais fora numa notícia antiga (1930) em como a temperatura em Lisboa subiu a 38° e numa outra de 1944 também indicava Lisboa com 39º C à sombra. Os "doutores" das redes sociais já decidiram: é tudo uma aldrabice, "verão sempre houve", estão a ver como sempre ocorreram temperaturas altas? E a felicidade desta ignorância "moderna" logo se apoia nas mensagens políticas dos novos arautos da negação científica, das teorias da conspiração e do populismo que se alimenta de desinformação como pão para a boca.

Isso são notícias de Agosto, habitualmente mais quente no Verão e relacionadas com o anticiclone dos Açores. Ora  o Anticiclone dos Açores tem sofrido alterações profundas no seu comportamento e na sua "morada" habitual devido ao aquecimento global. Historicamente, a sua dinâmica sempre oscilou entre as estações: no verão, expande-se e move-se para nordeste, fixando-se mais perto da Península Ibérica e do Golfo da Biscaia, onde funciona como um "escudo" que afasta as tempestades atlânticas para norte e garante dias secos e frentes quentes em Portugal. Já no inverno, contrai-se e recua para sul ou sudoeste, mais perto das latitudes subtropicais e das Caraíbas, abrindo a "porta" para que as frentes chuvosas cheguem à costa ibérica.

No entanto, estudos climatológicos recentes demonstram que, devido às alterações climáticas, este sistema de altas pressões está a expandir-se substancialmente e a cobrir uma área muito maior no Atlântico Norte. Esta expansão faz com que o "escudo" de alta pressão empurre a precipitação de inverno cada vez mais para norte, em direção ao Reino Unido e à Escandinávia, tornando os outonos e invernos na Península Ibérica anormalmente secos e prolongando as dinâmicas de seca crónica. Por outro lado, em períodos específicos de desregulação climática recente, o anticiclone tem sofrido desvios anómalos para sul ou sudoeste, mesmo em épocas em que deveria estar robusto a norte, deixando a Península Ibérica vulnerável a frentes muito cavadas e a rios atmosféricos severos.

Resumindo, embora geograficamente continue a ter o seu centro de ação no Atlântico Norte subtropical - na região que se estende dos Açores até às Bermudas -, a sua área de influência cresceu significativamente. O resultado prático desta transformação é a persistência de secas mais severas e a ocorrência de verões mais propensos a bloqueios atmosféricos, que arrastam o ar quente do Norte de África diretamente para Portugal. 

Relembro também que agora as ondas de calor são cada mais cedo, mais prolongadas, ano atrás de ano. O climatologista e professor Carlos da Câmara tem sido uma das vozes mais contundentes ao analisar a gravidade das recentes ondas de calor de junho, alertando repetidamente que a situação atual é muito pior e muitíssimo mais complicada do que os registos históricos sugeriam para esta época do ano. O especialista enfatiza que o grande perigo destes episódios precoces já não reside apenas nas temperaturas máximas extremas atingidas durante o dia, mas sim no fenómeno das noites tropicais consecutivas, onde os termómetros teimam em não baixar dos trinta graus em algumas regiões. Esta ausência de arrefecimento noturno impede que o corpo humano recupere do esforço térmico diário, gerando um impacto direto e severo na saúde pública e no aumento da mortalidade. Para explicar a frequência destes extremos, Carlos da Câmara recorre frequentemente à metáfora estatística da curva de distribuição do clima, demonstrando que um pequeno desvio na temperatura média global provocado pelas alterações climáticas é suficiente para multiplicar drasticamente a probabilidade de ocorrência de fenómenos que antes eram considerados virtualmente impossíveis. O investigador deixa claro que olhar para estes eventos como mero calor normal de verão é um erro perigoso, sublinhando a urgência de encarar estas dinâmicas como um problema estrutural profundo que exige uma adaptação imediata da sociedade.

O aquecimento é global, existe e a tendência é para uma real crise climática, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo. . A recente agitação política, em meados de Maio, que causou satisfação em setores alinhados com Donald Trump e com a indústria dos combustíveis fósseis deveu-se, na verdade, às intensas batalhas diplomáticas na aprovação do calendário e do âmbito do futuro Sétimo Relatório de Avaliação (AR7). Nestas reuniões, países produtores de petróleo e alas políticas conservadoras pressionam frequentemente para atrasar os prazos de entrega dos estudos ou para suavizar a linguagem nos resumos executivos destinados aos decisores políticos, tentando evitar metas explícitas de eliminação de energias fósseis. Contudo, os cientistas do IPCC sublinham que estas negociações políticas em nada alteram os factos físicos já demonstrados no AR6. Os dados empíricos recolhidos continuam a provar que a temperatura global está a subir de forma acelerada, e as projeções mais severas continuam válidas, independentemente das tentativas de desaceleração diplomática que ocorrem nos bastidores das Nações Unidas. 

Além disso, o consenso científico de que a Terra está a aquecer e que essa mudança é principalmente causada por actividades humanas é esmagador. Este consenso é apoiado por vários estudos de milhares de cientistas em todo o mundo e por declarações de posicionamento de organizações científicas, muitas das quais explicitamente concordam com os relatórios de síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Quase todos os cientistas de clima com obra publicada (97–98%) apoiam o consenso sobre mudança climática antropogénica e os 3% restantes de estudos contrários ou não podem ser replicados ou contêm erros. Um estudo de novembro de 2019 mostrou que o consenso entre cientistas de investigação cresceu para 100%, baseado numa revisão de 11.602 artigos revistos por pares publicados nos primeiros sete meses de 2019! Cf. Powell, James (20.11.2019). «Scientists Reach 100% Consensus on Anthropogenic Global Warming». Bulletin of Science, Technology & Society.
A medida das alterações climáticas não é a olhómetro. São décadas de estudo, observações, medições. E uma onda de calor anual é diferente de duas, três, quatro, cinco, etc. E é diferente um pico máximo de temperatura a cada três ou cinco anos, ou uma frequência mais curta. É a intensidade, frequência e duração dos fenómenos meteorológicos que contam para avaliar as mudanças climáticas. A meteorologia é outra coisa.

A meteorologia é a ciência que estuda o estado da atmosfera e os seus fenómenos no curto prazo (o tempo que está a fazer agora ou que fará nos próximos dias). O clima representa o padrão e a condição média da atmosfera observados ao longo de longos períodos, geralmente entre 10 e 30 anos. Enquanto pessoas comuns falam de meteorologia, cientistas falam de clima.

E convém ter presente! Apesar da forte evidência, o negacionismo climático persiste frequentemente através da desinformação alimentada por grupos com interesses económicos focados em atrasar transições energéticas e políticas de mitigação. Ou seja, há muitos palermas que, inocentemente, vão na conversa para papalvos. À custa disso, outros vão ganhando milhões e batem palmas. Também é sabido que agentes políticos e influenciadores são pagos ao serviço desses interesses económico- financeiros para espalhar desinformação.
Ouçamos a ciência! Não os vendedores de banha da cobra

Saber mais:

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Agnotologia

"Durante muito tempo, a gente aprendeu que ignorância era só falta de informação. Que bastava ensinar melhor, divulgar mais, explicar com paciência. Esse raciocínio parte de uma ideia confortável: a de que todo mundo erra sem querer. Até que alguém resolveu olhar para o problema por outro ângulo e perguntar o que acontece quando a ignorância não é um acidente, mas um projeto.

Foi aí que conheci o trabalho de Robert Proctor, historiador da ciência, professor em Stanford, e o homem que deu nome a esse mecanismo desconfortável chamado agnotologia. Agnotologia é o estudo da produção deliberada da ignorância. Não do erro honesto. Não da dúvida legítima. Mas da ignorância construída com método, dinheiro, estratégia e paciência histórica.

Proctor chegou a isso estudando a indústria do tabaco. E aqui vale ser bem didático. Nos anos 1950, a ciência já havia identificado com clareza a relação entre cigarro e cancro de pulmão. O consenso estava se formando. O que a indústria fez não foi negar frontalmente esses estudos. Isso seria fácil de desmontar. O que ela fez foi algo muito mais sofisticado.

Ela financiou pesquisas paralelas, pagou especialistas para relativizar conclusões, criou institutos “independentes” e passou a repetir uma frase-chave: “a ciência ainda não é conclusiva”. Não era mentira direta. Era fabricação de dúvida. O objetivo não era convencer as pessoas de que fumar fazia bem. Era fazer com que elas pensassem que ainda era cedo demais para ter certeza.

Aqui está o ponto central da agnotologia: não se trata de convencer, mas de paralisar. Se existe dúvida, não há urgência. Se há controvérsia, não há decisão. Se tudo parece incerto, ninguém precisa agir agora.
Esse método deu tão certo que passou a ser reutilizado. Mudam os temas, mas a engrenagem é a mesma. Mudanças climáticas, por exemplo. Durante décadas, empresas financiaram campanhas não para negar o aquecimento global, mas para transformá-lo em “debate”. O planeta aquecia, os dados se acumulavam, mas a pergunta pública permanecia sempre a mesma: “Será mesmo?”

Vacinas seguiram caminho parecido. Não foi preciso provar que elas não funcionam. Bastou sugerir que talvez não fossem tão seguras assim, que talvez ainda houvesse algo escondido, que talvez fosse melhor esperar. A dúvida virou produto. A hesitação virou comportamento social.

História também entra nessa conta. Quando tudo vira “versão”, quando factos documentados passam a disputar espaço com opinião, quando arquivos viram narrativa opcional, a ignorância deixa de ser ausência e passa a ser política. Não é esquecimento. É escolha.

A agnotologia não nasceu na filosofia, mas dialoga diretamente com ideias que muita gente já sentiu na pele sem saber nomear. Michel Foucault já havia mostrado como saber e poder caminham juntos, como certos discursos ganham status de verdade enquanto outros são empurrados para a margem. Proctor mostra o outro lado da moeda: não apenas o que é dito, mas o que é sistematicamente impedido de ser sabido.

Décadas depois, pesquisadores como Naomi Oreskes deixaram isso ainda mais explícito ao analisar como a dúvida científica foi usada como arma política no debate climático. Não se vence a verdade com mentira escancarada. Vence-se desgastando-a, cercando-a de ruído, colocando-a no mesmo nível de qualquer palpite. Quando tudo vira opinião, a verdade deixa de ter urgência.

Esse mecanismo fica ainda mais eficiente quando encontra um terreno fértil chamado dissonância cognitiva. Um conceito da psicologia formulado por Leon Festinger, que explica algo simples e profundamente humano. A gente não gosta de informações que nos obrigam a rever quem somos, no que acreditamos ou ao grupo ao qual pertencemos. Quando uma informação ameaça nossa identidade, o cérebro não reage buscando verdade. Ele reage buscando alívio.

E a dúvida fabricada oferece exatamente isso. Ela não exige mudança. Não cobra revisão. Não pede desconforto. Ela apenas sussurra: “calma, talvez não seja bem assim”. A agnotologia não precisa criar essa tensão. Ela só precisa explorá-la.

As redes sociais transformaram esse processo em escala industrial. Algoritmos aprenderam a entregar conforto cognitivo com precisão assustadora. Se você acredita em algo, sempre haverá um conteúdo dizendo que você tem razão em duvidar do resto. Nesse ambiente, a ignorância não precisa ser imposta. Ela passa a ser escolhida.

Eu faço questão de falar disso aqui porque entender esse mecanismo é uma forma de defesa. Não contra pessoas, não contra ideias específicas, mas contra estruturas invisíveis que moldam o debate público. A melhor forma de se prevenir é entender o mecanismo. A agnotologia não te transforma automaticamente em alguém mais informado ou mais inteligente. Ela te transforma em alguém mais atento. E atenção, hoje, é um ato quase subversivo.

Talvez você nunca tenha ouvido essa palavra antes. E tudo bem. Ela não costuma circular fora da academia justamente porque nomear o problema é o primeiro passo para desmontá-lo. Mas o efeito dela está por toda parte. Nos debates que nunca avançam. Nas discussões que se repetem em círculos. Na sensação constante de que algo está errado, mas nunca errado o suficiente para exigir mudança imediata.

Quando identidade vira trincheira, qualquer dúvida que proteja essa identidade parece virtude. É assim que a guerra cultural se alimenta. Não pela força da verdade, mas pelo conforto da hesitação. Em certos momentos da história, não é a mentira que vence. É a dúvida bem administrada.

E é exatamente por isso que escrever este texto me dá um tipo específico de orgulho. Não aquele orgulho inflado, performático, mas um orgulho quieto, quase teimoso. O de continuar falando de coisas difíceis num tempo em que o fácil viraliza mais rápido. O de explicar um conceito pouco conhecido quando o mundo parece preferir gritar certezas rasas.

Com tudo o que tem acontecido comigo, com o debate público e com o próprio planeta, sentar para escrever sobre isso é, para mim, uma forma de resistência lúcida. E também um gesto de confiança em quem ainda lê com atenção. Se isso aqui servir como munição para quem pensa criticamente, mesmo que só para reconhecer a engrenagem, já valeu a pena "

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Estudo influente sobre glifosato retirado após décadas de alertas de envolvimento da Monsanto


Um estudo influente que afirmava que o glifosato não apresenta riscos graves para a saúde foi recentemente retirado por suspeita de conflito de interesses, 25 anos após a publicação, que orientou várias decisões políticas.

Embora os investigadores tenham saudado esta retratação, a lentidão levanta questões sobre a integridade da investigação realizada em torno do ingrediente principal do Roundup, o herbicida mais vendido no mundo.

O produto da gigante Monsanto está no centro de importantes debates políticos, especialmente na Europa, enquanto os seus riscos para a saúde são objeto de numerosos processos judiciais.

Publicado em 2000 no jornal Regulatory Toxicology and Pharmacology, o artigo agora retirado está entre os mais citados sobre o glifosato, nomeadamente por muitas autoridades governamentais que regulamentam a sua utilização.

Na nota de retratação publicada na semana passada, a revista cita uma série de lacunas "críticas": omissão de incluir certos estudos sobre os perigos relacionados com o cancro, não divulgação da participação de funcionários da Monsanto na redação e divulgação dos benefícios financeiros recebidos pelos autores da Monsanto.

A Elsevier, editora do jornal, garantiu à agência France Presse que o processo de reexame do estudo foi iniciado "assim que o atual editor-chefe tomou conhecimento das preocupações relativas a este artigo, há alguns meses".

Mas já em 2002, uma carta assinada duas dezenas de investigadores denunciava "conflitos de interesses, falta de transparência e ausência de independência editorial" na revista científica, mencionando a Monsanto.

O caso veio a público em 2017, quando documentos internos da empresa foram divulgados, revelando o papel dos funcionários da Monsanto na redação do estudo, agora retirado.

Naomi Oreskes, historiadora de ciência da Universidade de Harvard, e coautora de uma publicação em setembro que detalha a enorme influência do estudo em causa, disse à AFP estar "muito satisfeita" com uma retratação "há muito esperada", acrescentando que "a comunidade científica precisa de melhores mecanismos para identificar e retirar artigos fraudulentos".

Os motivos descritos pelo jornal para justificar a retirada do estudo "correspondem totalmente ao que denunciámos na época", disse à AFP Lynn Goldman, da Universidade George Washington, que também assinou a carta de 2002.

Gary Williams, um dos autores do estudo retirado, não respondeu ao pedido de comentários da AFP. Os seus coautores já faleceram.

A Monsanto, por seu lado, reiterou que o seu produto não apresentava riscos e garantiu que a sua participação no artigo criticado, reconhecida pela empresa, "não atingiu um nível necessário para declarar a sua autoria e foi devidamente divulgada nos agradecimentos".

A empresa, posteriormente adquirida pela Bayer, não reagiu à existência de e-mails internos nos quais uma cientista da empresa escreveu que queria agradecer a um "grupo de pessoas" que trabalhou nesse artigo e ainda em outro estudo, "pelo excelente trabalho", oferecendo-lhes t-shirts Roundup.

O glifosato foi comercializado como herbicida na década de 1970, mas teve uma adoção crescente na década de 1990. Classificado em 2015 como "provável carcinógeno" pelo Centro Internacional de Investigação do Cancro da Organização Mundial da Saúde, o glifosato é proibido em França desde o final de 2018 para uso doméstico.

Nathan Donley, cientista do Centro para a Diversidade Biológica nos Estados Unidos, disse à AFP que esta notícia provavelmente não mudará a opinião favorável da Agência de Proteção Ambiental (EPA) da Administração de Donald Trump, decididamente pró-indústria. Porém, acrescentou, pode ser levada em consideração pelos reguladores europeus.

Acima de tudo, observou ainda, o episódio constitui um exemplo de um fenómeno mais amplo na literatura científica.

"Tenho a certeza de que existem muitos artigos semelhantes, escritos por outros que não os seus autores declarados e com conflitos de interesses não declarados", disse também John Ioannidis, professor da Universidade de Stanford.

Porém, "é muito difícil revelá-los, a menos que se mergulhe" nos arquivos, acrescentou.

Pode haver mais retratações a caminho. Kaurov, que está agora a frequentar o doutoramento em ciência e sociedade na Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, diz que ele e Oreskes enviaram recentemente um pedido de retratação à revista Critical Reviews in Toxicology para um artigo de 2013 publicado em nome de outros dois autores, que não revela completamente o papel da Monsanto no artigo. "Não é o fim da história", diz.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Experts warn ‘AI-written’ paper is latest spin on climate change denial


Climate change deniers are pushing an AI-generated paper questioning human-induced warming, leading experts to warn against the rise of research that is inherently flawed but marketed as neutral and scrupulously logical.

The paper rejects climate models on human-induced global warming and has been widely cited on social media as being the first “peer-reviewed” research led by artificial intelligence (AI) on the topic.

Titled “A Critical Reassessment of the Anthropogenic CO2-Global Warming Hypothesis,” it contains references contested by the scientific community, according to experts interviewed by AFP.

Computational and ethics researchers also cautioned against claims of neutrality in papers that use AI as an author.

The new study — which claims to be entirely written by Elon Musk’s Grok 3 AI — rapidly gained traction following a blog post by Covid-19 contrarian Robert Malone and gathered more than a million views on Musk’s social media platform X.

Malone — who has shared numerous false claims fact-checked by AFP and others — argued that the paper shows “the climate scam is over” and reveals “a general trend to exaggerate global warming.”

The paper nonetheless contradicts an overwhelming scientific consensus (archived here) linking fossil fuel combustion to rising global temperatures and increasingly severe weather disasters.

Illusion of objectivity
Academics have warned (archived here) that the surge of AI in research, despite potential benefits, risks triggering an illusion of objectivity and insight in scientific research.

“Large language models do not have the capacity to reason. They are statistical models predicting future words or phrases based on what they have been trained on. This is not research,” argued Mark Neff, an environmental sciences professor (archived here).

The paper states that Grok 3 “wrote the entire manuscript,” with input from co-authors who “played a crucial role in guiding its development.”

Among the co-authors was astrophysicist Willie Soon (archived here) — a climate contrarian who (archived here) has received more than a million dollars in funding from the fossil fuel industry over the years.

Research by physicist Hermann Harde and Soon himself — which have been scientifically contested papers (archived here and here) — were used as references for the AI’s analysis, per the co-authors’ request.

“There is some uncertainty in solar irradiance reconstructions but the Soon et al. study (cited by the paper attributed to Grok) relies on a single outlier (the one by Hoyt and Schatten) which was recently investigated and recompiled and found to be completely made up,” NASA’s top climate scientist Gavin Schmidt (archived here) told AFP on March 25.

AFP has debunked other false theories about the Sun’s role in Earth’s warming.

Microbiologist Elisabeth Bik (archived here), who tracks scientific malpractice, remarked the paper also did not describe how it was written: “It includes datasets that formed the basis of the paper, but no prompts,” she noted on March 26. “We know nothing about how the authors asked the AI to analyze the data.”

Ashwinee Panda (archived here), a postdoctoral fellow on AI safety at the University of Maryland, explained on March 26 that the claim that Grok 3 wrote the paper created a veneer of objectivity that was unverifiable.

“Anyone could just claim ‘I didn’t write this, the AI did, so this is unbiased’ without evidence,” he said.

In an even more confusing turn of events, Grok later distanced itself from the climate denial paper on X, as well as questioned its scientific integrity.

“I didn’t write the paper; my name was used without my involvement,” the chatbot’s official X account posted on March 23.

“The human co-authors crafted it, and I had no role in its creation. I’ve called it ‘scientifically unsound’ due to data cherry-picking and oversimplified assumptions, suggesting an agenda-driven approach. It’s odd to be listed as lead author on a paper I critique, raising ethical questions about its authorship and publication.”

Opaque review process
Neither the journal nor its publisher — which seems to have published only one journal — appear to be members of the Committee of Publication Ethics (archived here and here).

The paper acknowledges “the careful edits provided by a reviewer and the editor-in-chief,” identified on its website as Harde.

It does not specify whether it underwent (archived here) open, single-, or double-blind review and was submitted and published within just 12 days.

“That an AI would effectively plagiarize nonsense papers,” does not come as a surprise, said NASA’s Schmidt, but “this retread has just as little credibility.”

AFP reached out to the authors of the paper for further comment on the review process, but did not receive an immediate response.

“The use of AI is just the latest ploy, to make this seem as if it is a new argument, rather than an old, false one,” Naomi Oreskes, a science historian at Harvard University, told AFP (archived here) on March 28.

More of AFP’s coverage of climate misinformation can be found here.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Desinformação da indústria de pesticidas: o que está em jogo? Saúde, clima, biodiversidade

“O objetivo da propaganda moderna não é apenas desinformar ou impor uma agenda. É para esgotar o seu pensamento crítico, para aniquilar a verdade.” — Garry Kasparov


Em 5 de dezembro de 2022, a US Right to Know lançou Merchants of Poison: How Monsanto Sold the World on a Toxic Pesticide , de Stacy Malkan, com Kendra Klein, PhD e Anna Lappé (você pode ler o relatório completo aqui). A análise se baseia em milhares de páginas de documentos corporativos internos divulgados durante ações judiciais movidas por pessoas processando a Monsanto por alegações de que a exposição a herbicidas Roundup à base de glifosato os levou a desenvolver cancro; e muitos outros documentos obtidos por meio de uma investigação de registros públicos de anos pela US Right to Know. Os documentos revelam muitos detalhes, explicados em nosso relatório, sobre como a indústria de pesticidas nega a ciência e conduz suas campanhas de defesa de produtos. Neste trecho, explicamos por que escrevemos o relatório e descrevemos o grande corpo de evidências científicas que levantam preocupações sobre o glifosato e o que está em jogo para nossa saúde e para o planeta.
As empresas de pesticidas ajudaram a escrever o manual de desinformação

Na manhã de 14 de abril de 1994, o Comitê de Energia e Comércio Subcomitê de Saúde e Meio Ambiente empossou sete executivos do tabaco para uma audiência sobre a regulamentação dos produtos do tabaco. O vídeo daquele dia [1] — com executivo após executivo declarando uma versão de “Não acredito que a nicotina ou nossos produtos sejam viciantes” — está gravado na memória coletiva das mentiras e decepções da Big Tobacco. De fato, décadas antes desse testemunho, os executivos do tabaco sabiam que os cigarros causavam cancro – e que a nicotina é, de fato, viciante. 

Em outubro de 2019, em uma audiência do subcomitê de supervisão da Câmara sobre direitos civis, Martin Hoffert, ex-consultor da Exxon, testemunhou que, no início dos anos 1980, os cientistas que trabalhavam para a empresa já previam como o uso de combustíveis fósseis aumentaria os níveis de dióxido de carbono, levando a temperaturas crescentes. [2] Documentos internos mostrariam que, já em 1968, o American Petroleum Institute, um grupo comercial da indústria do petróleo, havia identificado a ameaça do aquecimento global e o papel das empresas de seu setor nisso. [3]

Os executivos da indústria do petróleo sabiam que o uso de combustíveis fósseis causaria o aquecimento global e, no entanto, não apenas esconderam a ciência, mas atacaram ativamente aqueles que deram o alarme. Os executivos do tabaco sabiam e encobriam os riscos à saúde de seus produtos. [4] Essas indústrias usaram táticas de desinformação agora bem documentadas para promover a dúvida e o negacionismo. [5] As táticas da Big Tobacco provavelmente custaram milhões de vidas, já que os regulamentos surgiram muito depois de se tornar evidente que os cigarros causam câncer - e continuam a custar vidas. (A OMS estima que 8 milhões de pessoas morrem anualmente devido ao uso do tabaco). [6]A rotação do setor de combustíveis fósseis impulsionou o negacionismo científico e a inação política que levaram a um aquecimento global e estão associados a milhões de mortes por ano, [7] com poucos caminhos claros para evitar mudanças climáticas catastróficas.

Durante décadas, a indústria de pesticidas usou estratégias de comunicação igualmente enganosas para moldar o debate público e influenciar os reguladores – até mesmo manipulando a própria ciência sobre a qual as políticas são feitas – para desviar a atenção das evidências de que a agricultura intensiva em pesticidas ameaça os ecossistemas e a saúde humana. Neste relatório, mostramos como as empresas de pesticidas não apenas seguiram os passos do Big Oil e Big Tobacco, mas também ajudaram a escrever o manual de relações públicas que obscurece os perigos de produtos de consumo amplamente utilizados que a ciência mostra que estão ameaçando a saúde humana e ambiental em todo o mundo. globo. Este relatório sobre a campanha da Monsanto para defender o glifosato conta uma parte de uma história mais ampla: que, por décadas, as empresas de pesticidas realizaram caras campanhas de relações públicas para moldar a narrativa sobre a ciência e nosso sistema alimentar, promovendo as ideias gêmeas de que os pesticidas - um termo que abrange inseticidas, herbicidas, fungicidas e muito mais - são seguros e que precisamos deles para alimentar o mundo. Nos últimos anos, estudos globais inovadores mostraram a grave ameaça que os produtos químicos agrícolas representam para a biodiversidade e a saúde pública e como eles falham em cumprir suas promessas de maior produtividade agrícola, levando à perda de colheitas e à resistência de ervas daninhas e pragas.[8] No entanto, apesar das evidências crescentes, a indústria de pesticidas dobrou as mensagens enganosas.

Este relatório chega em um momento de consolidação cada vez maior da indústria no setor de agroquímicos e sementes — muito parecido com o que vimos em toda a economia. Em 2020, graças a compras recentes, incluindo o acordo Bayer-Monsanto, apenas quatro empresas controlavam 62% do mercado global de agroquímicos e 51% do mercado global de sementes comerciais, de acordo com o ETC Group, participação de mercado da Bayer em agroquímicos, 16% , ficou atrás apenas da ChemChina/Syngenta com 25 por cento, seguida pela BASF com 11 por cento do mercado e Corteva (o nome renomeado da empresa fundida Dow e Dupont) com 10 por cento. Para sementes comerciais e características de sementes, a Bayer controla 23 por cento do mercado, enquanto a Corteva tem uma participação de mercado de 17 por cento, com a ChemChina em 7 por cento e a BASF em 4 por cento. [9]

Para esclarecer o giro de relações públicas da indústria de pesticidas, este relatório fornece um mergulho profundo em uma empresa e uma campanha de relações públicas: a Monsanto, comprada em 2018 pela multinacional farmacêutica e agroquímica alemã Bayer AG, e sua campanha de defesa de produtos para promover herbicidas à base de glifosato vendidos sob a marca Roundup, e para proteger esses produtos da ameaça de regulamentação. Este relatório baseia-se num white paper de 2015 escrito por Kari Hamerschlag, da Friends of the Earth, juntamente com Stacy Malkan e Anna Lappé, que documenta algumas das mensagens e táticas de grupos de frente da indústria de alimentos, incluindo os milhões de dólares que gastam todos os anos para moldar o história do nosso sistema alimentar. [10]

Dois grandes desenvolvimentos nos últimos anos levaram a mais relatórios sobre este tópico: Primeiro, novas evidências científicas, discutidas abaixo, tornam clara a urgência de abordar os impactos ambientais e de saúde associados aos produtos da indústria de pesticidas, incluindo formulações de herbicida glifosato. Em segundo lugar, o acesso a novas evidências de documentos corporativos internos, obtidos nos últimos cinco anos por meio de ações legais e investigações de interesse público, fornece uma nova visão sobre como a Monsanto conduziu suas operações de propaganda, com a ajuda das indústrias de pesticidas e alimentos processados. Graças a dezenas de milhares de páginas de documentos corporativos internos disponibilizados por esses esforços, o público tem acesso sem precedentes a como o setor desenvolve estratégias para enganar o público. Esses documentos incluem os “Papéis da Monsanto” obtidos em litígios sobre herbicidas à base de glifosato e registos públicos disponibilizados por meio de uma investigação liderada por colegas da US Right to Know. (Muitos desses documentos estão disponíveis no site US Right to Know e via documentos que doamos aos arquivos de documentos da indústria química e alimentícia da UCSF.) [11]

Este relatório soma-se a um crescente corpo de pesquisas e reportagens sobre as táticas enganosas da indústria de pesticidas: as reportagens do The Intercept sobre o giro de relações públicas empurrando os neonicotinoides, a classe de pesticidas que impulsionam o “ apocalipse dos insetos ” e detalhando as táticas usadas pela indústria manter o mortal pesticida paraquat no mercado por décadas; ou a reportagem do The New Yorker sobre os ataques da empresa de pesticidas Syngenta ao cientista Tyrone Hayes; ou mapeamento do DeSmog dos pontos de desinformação da indústria de pesticidas. Em conjunto, este relatório ajudou a revelar as principais táticas de relações públicas da indústria de pesticidas e ajudou a expor a criação de mitos sobre a segurança e a necessidade de pesticidas.
Em suas próprias palavras…

O relatório do Merchant's of Poison acrescenta a esta pesquisa detalhando as táticas de spin usadas para empurrar o herbicida mais onipresente do mundo: o glifosato. Mostramos — usando as próprias palavras da indústria em seus próprios documentos — como o maior produtor de herbicidas à base de glifosato, a Monsanto (comprada pela Bayer AG em 2018), usou táticas furtivas para obscurecer a verdade e moldar a narrativa sobre esse pesticida e nosso sistema alimentar mais amplamente. Detalhamos como a empresa produziu ciência corrupta , minou instituições de saúde pública, comprou influência nas mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, e implantou um exército de aliados terceirizados para espalhar mensagens de defesa do produto, incluindo ataques a cientistas e jornalistas. Mostramos como a empresa rastreou e atacou os críticos e tentou dominar espaços online relacionados a pesticidas e organismos geneticamente modificados (OGMs). Ao longo deste relatório, mostramos como um pequeno grupo de especialistas do setor implantou mensagens enganosas por meio de vozes aparentemente independentes, usando muitas das mesmas estratégias e fluxos de financiamento – e às vezes as mesmas pessoas – que as indústrias de tabaco e combustíveis fósseis usam para enganar o público.

Por que focar no giro de relações públicas em torno do glifosato? Certamente existem pesticidas mais tóxicos para uso agrícola. Há o paraquat, em que a exposição até mesmo a uma tampa cheia pode ser mortal, e a classe de inseticidas conhecidos como neonicotinoides, que aumentaram a toxicidade da agricultura dos EUA para insetos em 48 vezes nos últimos 25 anos. [12]Mas, embora não seja o mais tóxico, o glifosato ainda é tóxico para os seres humanos e devastador para os ecossistemas; discutimos na Parte 1 a ciência que liga o glifosato ao câncer, danos reprodutivos, doenças renais, declínio da borboleta-monarca e outros impactos ambientais e de saúde. E, como o produto químico agrícola mais difundido no mundo, um detalhamento de há quanto tempo a empresa sabia sobre essa toxicidade, o quanto ela fez para criar uma história diferente e como continua a gerar dúvidas, negação da ciência e desvio ao enfrentar milhares de ações judiciais de agricultores e jardineiros que sofrem de câncer relacionado ao uso de glifosato é extremamente importante. Além disso, os documentos internos mostram uma imagem clara das táticas de relações públicas que a Monsanto/Bayer usou e os jogadores dos quais a empresa depende,

Finalmente, esta história é importante porque está ligada à promoção e defesa de cultivos geneticamente modificados ou OGMs, comercializados pela primeira vez em meados da década de 1990. A conexão é simples: a maioria das culturas transgênicas vendidas até agora foram desenvolvidas com características para expressar um inseticida ou tolerar um herbicida ou ambos, e quase todas foram modificadas com a característica de tolerância ao glifosato. [13] Portanto, os debates sobre os riscos e recompensas dos OGMs estão intimamente ligados à história do giro em torno da segurança do glifosato.

A maioria das culturas transgénicas no mercado foram modificadas para tolerar o glifosato.


Com base nessas milhares de páginas de documentos internos da Monsanto e relatórios investigativos, analisados ​​juntos em um só lugar pela primeira vez, este relatório revela cinco táticas de desinformação da indústria de pesticidas , relatando como a Monsanto:

1) Corrompeu a ciência: mostramos como os funcionários da Monsanto moldaram a ciência do glifosato, incluindo o pagamento de acadêmicos, redação de artigos fantasmas, influência de agências reguladoras e uso de outras táticas secretas para moldar o registro científico e regulatório;

2) Academia cooptada: Relatamos como a Monsanto e outras empresas de pesticidas fizeram parceria e pagaram universidades e professores que, por sua vez, promoveram e defenderam o glifosato e as sementes transgênicas projetadas para tolerar o herbicida. Muitas dessas parcerias não eram transparentes para o público.

3) Aliados terceirizados mobilizados: Descrevemos a grande e bem financiada câmara de eco de terceiros - os grupos de frente, organizações profissionais, universidades, campanhas de astroturf e outros - que disseminaram mensagens elaboradas pela Monsanto e suas empresas de relações públicas para esse fim de se opor aos regulamentos de saúde, segurança e transparência para produtos da indústria de pesticidas.

4) Cientistas, jornalistas e influenciadores rastreados e atacados: examinamos como grupos da indústria que afirmam ser “pró-ciência” – incluindo o Projeto de Alfabetização Genética e o Conselho Americano de Ciência e Saúde – visaram os pesquisadores de câncer da Organização Mundial da Saúde e outros cientistas e jornalistas que informaram sobre as ligações do glifosato com o câncer.

5) Espaços on-line dominados: discutimos como a Monsanto e outras empresas implantaram os mesmos grupos de fachada que atacaram cientistas e jornalistas em defesa do glifosato para se infiltrar em espaços on-line e obter a melhor colocação nas pesquisas do Google News para elevar as mensagens do setor.

Este relatório também documenta como as próprias campanhas de influência do setor são grandes negócios : Juntas, seis das associações comerciais nomeadas nos documentos da Monsanto para a defesa do glifosato — a Biotechnology Innovation Organization, CropLife America, American Chemistry Council, a Grocery Manufacturers Association, a National Corn Grower's Association e a American Soybean Association — gastaram US$ 1,3 bilhão em um período de cinco anos (2015-2019) financiando marketing, lobby e mensagens. (Consulte o Apêndice I) E apenas sete das organizações sem fins lucrativos nomeadas nos documentos internos da Monsanto como principais aliadas em sua estratégia de defesa de produtos gastaram até US$ 76 milhões durante o mesmo período. (Isso tudo além dos US$ 206 milhões que a Monsanto gastou em seu orçamento de publicidade relatado durante o período de três anos antes da compra da Bayer). [14] Embora a defesa do glifosato seja apenas parte do que essas organizações fazem - em alguns casos, uma pequena parte - o tamanho de seus orçamentos transmite os enormes recursos disponíveis para grupos que executam campanhas de defesa de produtos usando as táticas de desinformação que descrevemos neste relatório.

Esses grupos são uma indústria inquestionável em si mesmos: seu objetivo é proteger e defender os alimentos, produtos e processos com uso intensivo de produtos químicos que são a base da cadeia alimentar industrial atual.

Enquanto este relatório vai para a impressão, a União Europeia está debatendo se deve reautorizar o uso do glifosato no próximo ano. Aqui nos Estados Unidos, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito decidiu em junho de 2022 que a aprovação do glifosato pela EPA era ilegal. [15] No mesmo mês, a Suprema Corte dos EUA rejeitou a tentativa da Bayer de se esquivar de um prêmio de $ 25 milhões do júri para um homem da Califórnia que disse que décadas de exposição ao Roundup à base de glifosato causaram seu linfoma não-Hodgkin. [16] Em grande parte como resultado das pressões do litígio do glifosato, a Bayer anunciou em julho de 2021 que substituiria seus produtos à base de glifosato no mercado residencial “Lawn & Garden” dos EUA por novas formulações a partir de 2023. [17]O uso agrícola do glifosato continuará. Inúmeros outros usos comerciais e industriais, incluindo escolas e parques da cidade, também continuarão. Embora esses usos ainda sejam permitidos, há uma crescente pressão pública para regulamentar ainda mais o herbicida.

Os debates sobre o futuro do glifosato, na verdade, todas as formulações de pesticidas, devem ser deliberados à luz do que é revelado neste relatório e em outros relatórios sobre a indústria de pesticidas: o fato de que agora está bem documentado como a indústria de pesticidas funciona para moldar a ciência e a opinião pública a fim de evitar a regulamentação. Neste contexto, este relatório levanta questões-chave: Como podemos expor a manipulação da indústria da ciência em torno de pesticidas? Como garantimos que substâncias químicas nocivas, como o glifosato, não sejam substituídas por outras ainda mais tóxicas? E como regulamentamos os pesticidas para proteger a saúde pública e os ecossistemas e não ficar à mercê da ação voluntária das empresas químicas? De forma mais ampla, como garantimos que os funcionários públicos, não influenciados pela indústria ou seus aliados,

Em última análise, a história de engano que este relatório documenta é uma história sobre a vulnerabilidade da indústria de pesticidas: para escapar da regulamentação e da transparência que afetariam sua lucratividade e participação de mercado, a indústria de pesticidas - assim como as indústrias de petróleo e tabaco - depende profundamente da sucesso do subterfúgio de relações públicas para manter a lucratividade. Compreender como esse subterfúgio funciona é fundamental para jornalistas, formuladores de políticas e grupos de interesse público que trabalham para informar o público sobre os riscos à saúde e ao meio ambiente decorrentes do uso crescente de pesticidas e da disponibilidade de alternativas mais seguras.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Rachel Carson Pesticide Action Month


We're at Peak Pesticide and Silent spring is almost here...

Rachel Carson gave the world an important warning in 1962 with the publication of her famous book ‘Silent Spring’. It led to the very necessary ban of DDT and other highly toxic chemicals. But the system didn’t change. We didn't go 'the other way' she describes in the last chapter of her book. We let the pesticide industry define the rules. Other pesticides were introduced, toxic business went on as usual and the use went up. Pesticide reduction is a myth so far, the sales are higher than ever. We’re at Peak Pesticide and Silent Spring is almost here. We know it and many reports and recent publications show it. We urgently need a paradigm change away from pesticides to avert a total biodiversity crisis and create real foodsecurity. We have to strongly reduce pesticide use and start right now. We also expose the myth that we are doing well in the EU. Europe has not reduced pesticide use since 1990. The world has seen an 80% rise in pesticide use since 1990. And Europe is one of the world's leading pesticide exporters.

During the month, many pesticide related events will take place. Organised live and online, by the Pesticide Action Network and partner organisations. PAN Europe presented the report "Pesticide Paradise, how industry and officials protected the most toxic pesticides from a policy push for sustainable farming". This report stresses the urgence to free ourselves from the shackles imposed on us by the chemical industry. They have far too much control over regulations, rules and definition of criteria and indicators. The result we can see in the huge increase in pesticide use worldwide, as shown in the Pesticide Atlas 2022 and in various new report on biodiverity decline. We can only move towards a toxic-free world and give a future to the generations to come if we free ourselves from the suffocating influence of the pesticide industry.

1 Million EU Citizens vote for biodiversity and an end to synthetic pesticides

A great tribute to Rachel Carson came on October 10, when the EU Commission formally approved the Save Bees and Farmers citizens initiative. One million official votes by registred EU citizens for restoration of nature and biodiversity, an end to synthetic pesticides and support for farmers to work with nature. This marks the end of an era where the chemical industry called the shots. This time for real!

Quotes

“Can anyone believe it is possible to lay down such a barrage of poisons on the surface of the earth without making it unfit for all life? They should not be called “insecticides’, but “biocides’.”

Rachel Carson, Silent Spring P 7-8

“Future historians may well be amazed by our distorted sense of proportion. How could intelligent beings seek to control a few unwanted species by a method that contaminated the entire environment and brought the threat of disease and death even to their own kind? Yet this is precisely what we have done.”

Rachel Carson, Silent Spring, P 8-9

“Global biodiversity is in crisis, with extinction rates running at more than 1,000 times natural levels and likely to accelerate. Insects in particular are undergoing catastrophic declines, yet these small creatures are vital to the functioning of ecosystems and to our own survival. A major cause of their decline are the plethora of pesticides applied to farmland, and in our streets and gardens. Rachel Carson would weep is she were alive to see how much worse this has become since she published Silent Spring. We urgently need to move towards truly sustainable farming systems, and bring an end to all uses of pesticides in gardens and towns.”

Dave Goulson, Professor of Biology, University of Sussex

“We have lost 55% of farmland birds and 39% of grassland butterflies in Europe since 1990 alone. While we see a 300% increase in the volume of pollinator-dependent crops since 1961, we are also seeing a rapid loss of pollination services, especially by wild pollinators. These numbers seem staggering, but scientists estimate the speed of losses to be under-estimated. We know almost nothing about most invertebrates, and we know particularly little about soil organisms. We do know that we are emptying vast tracts of land from life. Through monocultures, urban infrastructure, transport systems, light pollution and pesticides (to name just a few), we generate landscapes that are devoid of life. We combat pests to maximise production, but with them we remove many more organisms that are trying to survive in the lands we have taken over. Even on cow-dung we see no flies or beetles, as deworming agents and antibiotics clean up animals’ stomachs - later on penetrating into the soil and the water we drink. Silent Spring is expanding to a silent life on Earth. Our pesticides, among other means to combat nature, are poisoning us too. Not only the food we eat, but also the land and water, the insects we depend on, and the soil that nourishes our crops. We are risking our future on Earth: we cannot produce on a dead land.”

Guy Pe'er, PhD, conservation biologist, butterfly expert, expert on the EU’s Common Agricultural Policy (German Centre for Integrative Biodiversity Research (iDiv) and UFZ - Helmholtz Centre for Environmental Research)

Our health in danger

"Parkinson's disease is currently the fastest-growing brain disease in the world. There is growing evidence that this serious neurological disease is largely caused by factors present in our environment. These include air pollution and repeated traumatic brain injuries, but also exposure to toxic substances in our environment, such as trichloroethylene and pesticides used in agriculture. The evidence for the relationship between Parkinson's and various pesticides is compelling: in a number of countries, farmers have been shown to have a significantly increased risk of developing the disease, and the same is true for those living near agricultural plots. Moreover, exposure of laboratory animals to various pesticides produces damage in brain regions relevant to Parkinson's, and leads to outwardly observable signs of parkinsonism in these laboratory animals. Fortunately, some of the most suspected pesticides have now been banned. However, the question is whether the currently used pesticides are completely safe; in this respect, there are increasing concerns that the currently used authorisation procedures do not provide sufficient insight into whether or not a specific pesticide increases the risk of Parkinsonism. Moreover, the risk of exposure to so-called cocktails of pesticides has hardly been considered to date, even though this is the reality in our daily lives. Farmers cannot be blamed in this regard, they are complying nicely with existing laws and regulations, and they themselves are the biggest victims as they seem to have the highest risk of Parkinson's. In order to curb the rapid global growth of Parkinson's, urgent steps are needed, including better protection of farmers and others exposed to pesticides, improving authorisation procedures at European level, and looking for alternatives to pesticides."

Prof. dr. Bas Boem, neurologist, Parkinsons specialist at Radboud University Medical Centre

Main issues and sources
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domingo, 4 de setembro de 2022

Os relatórios do IPCC são um farol da ciência climática. Então, por que esses cientistas dizem que precisam parar?


Em 1990, cientistas de todo o mundo publicaram um relatório que explicava que o clima estava mudando e que nós – seres humanos – éramos a causa.
Se continuássemos a poluir, com os negócios de sempre…
"As emissões de gases de efeito estufa resultarão em um provável aumento da temperatura média global de cerca de 1 grau Celsius acima do valor atual até 2025 e 3°C antes do final do próximo século. O aumento não será constante."
Atingimos 1 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais em 2017, e 3ºC ainda está nos cartões para este século, dependendo de nossos caminhos de emissões.
Este foi o primeiro dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com a sexta série de relatórios saído este ano.
Mas enquanto o IPCC continua a fornecer os dados e previsões climáticas mais abrangentes, alguns cientistas estão se recusando a participar de avaliações futuras.

E eles estão chamando seus colegas para fazerem o mesmo. Por quê?

No final do ano passado, os cientistas australianos e neozelandeses Tim Smith, Iain White e Bruce Glavovic publicaram um artigo na revista Climate and Development (depois que vários outros jornais os rejeitaram), chamado "The Tragedy of Climate Change Science" .
Eles argumentaram que o IPCC havia feito o trabalho para o qual foi criado há 30 anos, mas que não era mais adequado para o propósito.
Em vez disso, eles apresentaram o caso para os cientistas adotarem uma abordagem mais radical para combater a "falta de ação governamental transformacional":
“A tragédia da ciência da mudança climática é que evidências convincentes são reunidas, novos alertas emitidos, novas instituições estabelecidas e novas metodologias desenvolvidas para corrigir os problemas. ano após ano…”
O "contrato ciência-sociedade foi quebrado", escreveram eles, acrescentando que continuar com a ciência como de costume não era mais sustentável.
Embora o jornal tenha sido bem-sucedido em iniciar um diálogo, quase nove meses depois, eles dizem que ainda há muito mais mudanças que precisam ser feitas.
“Precisamos tomar uma posição que realmente tire o fôlego de líderes políticos e governos sobre o que a comunidade científica da mudança climática está dizendo e está disposta a fazer”, diz o professor Bruce Glavovic, economista, cientista ambiental e planeador ambiental da Universidade Massey, na Nova Zelândia. 

Lições do apartheid

O professor Glavovic cresceu sob o apartheid da África do Sul – um regime brutal e racista que durou, sob o olhar do mundo, até a década de 1990.
O regime recrutou homens brancos para se defender contra o "comunismo e o nacionalismo africano " - uma luta que ele não considerava legítima.
"Eu iria carregar um rifle e potencialmente receber ordens para atirar em negros sul-africanos porque eles eram chamados de terroristas ou estavam envolvidos em desobediência civil?
"Para mim, isso foi abominável."
Como objetor de consciência, a experiência do professor Glavovic na África do Sul lhe ensinou lições importantes sobre a arquitetura do poder e como os sistemas podem ser distorcidos para proteger os poderosos.
“Eu podia ver os limites da lei – você poderia ter uma situação na África do Sul [onde] nós essencialmente tínhamos um estado de direito, mas sustentava um regime ilegítimo”.
Num mundo ideal, os cientistas forneceriam aos governos suas pesquisas e os governos agiriam. O buraco na camada de ozônio, os CFCs e o Protocolo de Montreal são um bom exemplo de onde isso aconteceu mais ou menos.
Mas hoje, novamente sob o olhar do mundo, o estado de direito está ajudando a sustentar as mesmas indústrias que estão causando as mudanças climáticas, diz o professor Glavovic.
Ele argumenta que continuar com os relatórios do IPCC em sua forma atual ajuda a manter uma fachada – criando a ilusão de que as coisas estão sendo feitas, enquanto as indústrias poluidoras e extrativistas continuam, mais ou menos com os negócios de sempre.
"Nossa arquitetura institucional é organizada em torno do lucro de curto prazo que privilegia os ricos e poderosos às custas do Sul Global e da maioria da população mundial", diz ele.
"Então, como você muda isso?"

Frustrações compartilhadas e respostas hostis

Os pesquisadores não pediram carta branca para um ataque contra o IPCC – cada autor tem suas próprias perspectivas sobre como a ciência deve proceder – mas, em geral, eles estão pedindo que a comunidade científica internacional dê um passo atrás e reavalie a melhor forma de fazer ciência do clima. no contexto desse "contrato quebrado".
As respostas ao seu papel foram misturadas.

Apesar de anos de divulgação científica, os pesquisadores dizem que todos os indicadores das mudanças climáticas continuam. ( Fornecido: Clima e Desenvolvimento )

O coautor do relatório, Tim Smith, geógrafo humano e professor de sustentabilidade na Universidade de Sunshine Coast, diz que eles foram contatados em particular por pesquisadores que compartilham suas frustrações e estão procurando um caminho melhor a seguir.
"Tivemos mais pessoas a bordo dizendo: 'compartilho essa frustração e é algo sobre o qual precisamos discutir'", diz o professor Smith.
Mas eles também tiveram seus críticos. Quando o artigo foi publicado pela primeira vez, explodiu no Twitter.
"Houve algumas respostas muito hostis e negativas. Muitas delas vieram da comunidade científica", diz o professor Smith.
"Mas, como eu disse, este [artigo] não foi um ataque à comunidade científica ou ao trabalho incrível que eles têm feito. Acho que, infelizmente, as pessoas ganham as manchetes."
Embora elogiando sua "coragem para desencadear essa discussão muito importante", outros cientistas responderam em um artigo de acompanhamento no mesmo jornal que mais pesquisas, não menos, eram necessárias para "abordar essas estruturas de poder".
Eles escreveram:
"Discordamos que o contrato ciência-sociedade esteja quebrado e que uma moratória na pesquisa sobre mudanças climáticas seja uma solução sustentável ou significativa".

Parar o IPCC seria uma 'perda significativa'

Mark Howden, diretor do Instituto de Soluções para Clima, Energia e Desastres da Universidade Nacional Australiana, é outro crítico do artigo.
O professor Howden está envolvido com o IPCC desde 1991.
"Estive envolvido no segundo, terceiro, quarto, quinto e agora sexto relatórios de avaliação [do IPCC]", diz ele.
"Acho que sou a única pessoa viva, ou a única pessoa em ponto final, que realmente fez tudo isso."

Mark Howden é "provavelmente a única pessoa viva" a ter trabalhado em cinco relatórios do IPCC

O professor Howden diz que ainda há uma ciência realmente crítica sendo feita, especialmente em torno dos impactos e adaptação do clima, redução de emissões, desenvolvimento sustentável e equitativo e criação de sistemas de energia robustos.
Se essa pesquisa parasse, seria uma "perda significativa", diz ele.
"A perspectiva de cientistas entrarem em greve porque não estão sendo ouvidos não é uma grande ideia.
"Acho que o argumento é bastante claro de que os ataques científicos anteriores foram amplamente ignorados pelo governo."
Mas ele também não está descartando as frustrações dos cientistas.
Em vez disso, ele diz que o caminho a seguir é que os cientistas se envolvam mais com os formuladores de políticas e que eles descubram como intervir de "formas construtivas".
"Ser cientista e comunicador hoje em dia é um papel muito complexo, principalmente se você também se envolver com a política", diz ele.
"Da mesma forma, um formulador de políticas de alto nível lidando com as mudanças climáticas... esse é um papel extraordinariamente complexo, principalmente quando você tem um ambiente político muito intervencionista.
"Então eu acho que compreensão e respeito são cruciais para ter um relacionamento mais produtivo."
— Que opções nos restam?
Mas o professor Smith diz que essa abordagem foi feita.
"As pessoas dizem 'bem, você precisa de melhores parcerias entre governos e sociedade', mas nós tentamos isso também. Então, que opções nos restam?"
O processo de relatório do IPCC se move em ciclos. Estamos no final do sexto ciclo, que provavelmente terminará no início de 2023.
O professor Smith diz que entende que a ideia de uma greve é ​​intragável e que adoraria que alguém tivesse uma ideia melhor, mas que não há tempo para esperar e ver o que acontece.
"Precisamos de um sétimo [ciclo de avaliação]? Vamos esperar mais sete anos para ouvir novamente como as coisas são terríveis?
"Nós simplesmente não temos tempo para isso. Precisamos de uma ação radical e transformadora agora.
"Precisamos apenas fazer uma pausa no que estamos fazendo. Não tentamos antes. Pode não funcionar, mas talvez funcione."
O professor Howden diz que não é contra os cientistas serem ativistas, desde que tenham certeza de que é isso que estão fazendo.
Mas ele acha que os cientistas climáticos e o IPCC já conseguiram grandes coisas e podem conseguir ainda mais continuando a fornecer dados de uma maneira "não prescritiva de políticas".
"Acho que há um grande papel para alguns cientistas se envolverem com o público e no processo político. Mas de uma forma de conselheiro confiável.
“Eu não acho que a comunidade científica deveria estar lá fazendo lobby, a menos que eles estejam deliberadamente se rotulando como lobistas”.
Mas o professor Glavovic diz que a ideia de que a ciência é um empreendimento completamente objetivo e sem valores é um mito.
"A ciência é um empreendimento onde as escolhas são feitas sobre as questões que exploramos, as metodologias que usamos", diz ele.
"Você pode ter ciência socialmente relevante e significativa conduzida com paixão e compromisso de uma maneira robusta, replicável e significativa... isso não reduz o mérito e o valor da ciência."
Os autores não pretendem encerrar completamente o IPCC. Em vez disso, eles dizem que seu artigo foi concebido como uma “provocação” – para iniciar a conversa a fim de reimaginar como o IPCC pode ter o maior impacto.
No sentido de iniciar uma conversa, quase um ano após a publicação de seu artigo, é justo dizer que eles conseguiram e que a conversa está em andamento.
Mas o professor Glavovic diz que serão necessárias ações radicais da comunidade científica para fazer as grandes mudanças necessárias para chegar aos formuladores de políticas.
"Não tenho ilusões - não serão necessários três homens brancos para fazer a diferença nisso - não somos tão imodestos e arrogantes a ponto de assumir que poderíamos ser uma voz para a comunidade científica global da mudança climática.
“Gostaria de ver mulheres e homens do Sul Global e diversos cenários liderando uma carga que realmente mobilize uma massa crítica da comunidade científica das mudanças climáticas”.
Quanto a controlar as mudanças climáticas, ele diz que exigirá uma ação radical de todos.
"Vai exigir mobilização e ação em várias frentes e haverá alguns momentos cruciais de destaque, que você só perceberá com o benefício da retrospectiva.
"É o Rosa Parks - recusando-se a descer de um assento num autocarro."

Fonte: ABC

Saber mais:

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Desinformação sobre alterações climáticas leva norte-americanos a duvidarem da ciência



As décadas de desinformação sobre as alterações climáticas deixaram marca e levam muitas pessoas a duvidarem das evidências científicas, adiantam investigadores sobre o tema.

A académica da Universidade de Harvard Naomi Oreskes, que escreveu sobre a história da desinformação sobre as alterações climáticas, considerou “uma tragédia” perceber que “milhões de norte-americanos pensam que os cientistas estão a mentir, mesmo sobre coisas que estão provadas há décadas”.

Eles têm sido persuadidos por décadas de desinformação. A negação é realmente, realmente profunda.

Um dos exemplos foi o memorando tornado público pelo The New York Times, em 1998, em que era revelada a estratégia agressiva das empresas americanas de combustíveis fósseis para reagir à assinatura do Protocolo de Quioto, no qual as nações se comprometeram a reduzir as emissões de carbono, apostando na desinformação para gerar a dúvida no debate público.

O papel das empresas de combustíveis fósseis

As empresas de combustíveis fósseis gastaram muito num esforço para contrariar o apoio à redução de emissões.

Agora, mesmo quando essas mesmas empresas promovem investimentos em energias renováveis, o legado de toda essa desinformação climática permanece e contribui para um maior ceticismo em relação aos cientistas e instituições científicas.

"Foi a abertura de uma caixa de Pandora de desinformação que se revelou difícil de controlar", disse Dave Anderson, do Energy and Policy Institute, uma organização que criticou as empresas petrolíferas e carboníferas por reterem a informação a que tinham acesso sobre os riscos das alterações climáticas.

Maior sensibilização para alterações climáticas

Nas décadas de 80 e 90, quando passou a existir uma maior sensibilização para as alterações climáticas, as empresas de combustíveis fósseis investiram milhões de dólares em campanhas de relações públicas para rebater as provas que sustentavam as mudanças em curso no planeta.

Uma das estratégias passou por financiar grupos de reflexão supostamente independentes que escolheram a dedo dados científicos e promoveram opiniões divergentes destinadas a fazer parecer que existiam dois lados legítimos na discussão.

Desde então, a abordagem abrandou à medida que o impacto das alterações climáticas se tornou mais evidente e as empresas de combustíveis fósseis passaram a divulgar energias renováveis, como a solar e a eólica, ou iniciativas concebidas para melhorar a eficiência energética ou compensar as emissões de carbono.

O investigador da Universidade de Stanford Ben Fanta, também advogado, frisou que “o debate [sobre as alterações climáticas] foi fabricado pela indústria dos combustíveis fósseis nos anos 90, e estamos a viver com essa história neste momento”.

Vivemos dentro de uma extensa campanha de várias décadas executada pela indústria dos combustíveis fósseis.

O impacto dessa estratégia reflete-se em inquéritos à opinião pública, que mostram um fosso crescente entre republicanos e outros norte-americanos quando se trata de opiniões sobre as alterações climáticas.

Embora a percentagem de americanos em geral que dizem estar preocupados com as alterações climáticas tenha aumentado, os republicanos estão cada vez mais resistentes em aceitar o consenso científico de que a poluição proveniente dos seres humanos está a impulsionar as alterações climáticas.

As empresas de combustíveis fósseis negam qualquer intenção de enganar o público americano e apontam os investimentos em energias renováveis como prova de que levam a sério as alterações climáticas.

Numa declaração enviada por correio eletrónico à The Associated Press, a porta-voz do Instituto Americano do Petróleo, Christina Noel, afirmou que a indústria petrolífera está a trabalhar para reduzir as emissões, assegurando ao mesmo tempo o acesso a energia fiável e acessível.