Mostrar mensagens com a etiqueta Albert Schweitzer. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Albert Schweitzer. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de outubro de 2025

Amor Universal - Ensaio Filosófico e Ecológico


O conceito de amor universal pode ser compreendido como a manifestação suprema da consciência ética e ontológica do ser humano. Longe de se restringir à afetividade individual, trata-se de uma disposição metafísica que reconhece a unicidade do ser e a interdependência ontológica entre todas as formas de existência.

Em Platão, particularmente no Banquete, o amor (eros) é concebido como um movimento dialético da alma em direção à contemplação do Belo absoluto — o princípio inteligível que estrutura e unifica o real. O amor, neste contexto, constitui uma via epistemológica e ontológica: conhecer é amar, e amar é ascender à unidade do Ser.

Com Espinoza, o amor universal adquire uma formulação racionalista e imanentista. No Ethica, o amor Dei intellectualis designa a alegria derivada da compreensão intuitiva da substância única, Deus sive Natura. Assim, o amor universal espinosano é simultaneamente um ato cognitivo e ético: ao perceber-se como modo da substância infinita, o indivíduo participa de uma beatitude que transcende a particularidade.

A cosmopólis estóica, em autores como Sêneca e Marco Aurélio, inscreve o amor universal no âmbito da razão cósmica (logos). O ser humano, enquanto parte do todo racional, tem o dever moral de agir em conformidade com essa ordem, cultivando a oikeiosis — o reconhecimento progressivo da afinidade ontológica com todos os seres. O amor, neste horizonte, é a dimensão prática da razão universal.

Nas tradições orientais, o amor universal assume expressões fenomenologicamente convergentes. O budismo theravāda propõe a prática de metta (benevolência universal) e karuṇā (compaixão), compreendidas como atitudes que emergem da percepção da vacuidade (śūnyatā) e da interdependência (pratītyasamutpāda). O amor, aqui, é uma resposta lúcida à ausência de substancialidade do eu. 

Em Laozi, o Tao Te Ching concebe o amor como modalidade espontânea da virtus () que acompanha o fluxo do Tao — o princípio impessoal e gerador que sustenta o cosmos.

No Hinduísmo, Amor universal manifesta-se de diversas formas. No Vaishnavismo, reflete o afeto inclusivo do Senhor por todos os seres . Nos Puranas, demonstra-se na admiração por Ramacandra. Em Jyotisha, indica a capacidade de atrair afeto, ligada à posição de Vénus . É um amor abrangente que permeia diferentes aspectos da vida e da espiritualidade.

Na modernidade, Albert Schweitzer formula o princípio da “reverência pela vida” como imperativo ético universal, e Teilhard de Chardin interpreta o amor como energia cosmogénica, vetor de complexificação e convergência evolutiva rumo ao ponto Ômega. Ambos introduzem uma leitura bioética e teleológica do amor universal, articulando-o com a dinâmica evolutiva do cosmos.

Em síntese, o amor universal pode ser definido como categoria ontológico-ética, isto é, como o reconhecimento ativo da cooriginariedade de todos os entes no seio do ser. Constitui o fundamento de uma ética da interdependência e de uma ontologia relacional, na qual o cuidado, a compaixão e a solidariedade não são virtudes contingentes, mas expressões necessárias da estrutura do real.

Referências Bibliográficas 
  • Aurelius, M. (2002). Meditations (G. Hays, Trans.). Modern Library. (Obra original publicada ca. 180 d.C.)
  • Buda. (trad. 2010). The Dhammapada (E. Easwaran, Trans.). Nilgiri Press.
  • Chardin, T. de. (1955). Le phénomène humain. Éditions du Seuil.
  • Espinosa, B. de. (1985). Ethica ordine geometrico demonstrata. In Opera Posthuma. (Obra original publicada em 1677).
  • Laozi. (1997). Tao Te Ching (D. C. Lau, Trans.). Penguin Classics.
  • Platão. (1993). O Banquete (J. A. Segurado e Campos, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian.
  • Schweitzer, A. (1923). Kultur und Ethik. C. H. Beck.
  • Séneca. (2001). Cartas a Lucílio (A. C. Amaral, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

More than 50 global NGOs call on COP26 to formally acknowledge animal agriculture as major climate change contributor at this year’s conference

August 25, 2021 LONDON—More than 50 animal protection, environmental and food justice organisations from around the globe have written to Rt. Hon. Alok Sharma MP, president of the COP26 climate change conference organised by the United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC), calling on the UNFCCC to publicly recognise the catastrophic impact animal agriculture has on the planet at this year’s conference.

In the animal agriculture industry, more than 88 billion animals are raised and slaughtered for food every year. This industry is responsible for an estimated 14.5%—16.5% of human induced greenhouse gas emissions globally, on par with emissions levels of the entire transport sector. Despite animal agriculture being one of the largest contributors to climate change, it is largely neglected by countries around the world in climate change mitigation strategies and commitments.

The letter, signed by Humane Society International, World Animal Protection, Brighter Green Compassion in World Farming, 50by40, Animal Equality, FOUR PAWS International, ProVeg International, RSPCA, The Humane League and others calls on the COP26 conference, taking place in Glasgow in November, to formally acknowledge animal agriculture’s climate impact. The groups hope that formal recognition at COP26 will encourage world leaders to commit to meat and dairy consumption reduction strategies to meet the Paris Agreement’s below 2°C target.

The letter reads: “Addressing these urgent areas in the UNFCCC COP26 meeting would help propel governments around the world to take action and would provide world leaders with another high impact option to add to their toolbox for tackling climate change. Working with farmers to support and catalyse a shift towards more plant-centric food production and consumption is a proactive step that must be taken to future-proof global food and agricultural industries… We call on the UNFCCC to formally and publicly recognise the role of animal agriculture as one of the largest contributors of climate change and to open a greater space for dialogue.”

In addition to significant greenhouse gas emissions, the farm animal production sector is also the single largest anthropogenic user of land, with meat, egg, dairy and aquaculture production systems using approximately 83% of the world’s farmland while providing just 37% of the world’s protein and 18% of calories. Animal agriculture is also a major driver of deforestation, species extinction, land degradation, exhaustion of water resources and pollution.

Reducing meat and dairy production and consumption is one of the most effective actions we can take to avoid catastrophic climate change. Scientists agree—including the 107 experts who prepared a report for the UN’s Intergovernmental Panel on Climate Change, and the more than 11,000 signatories from 153 countries to a recent paper in the journal BioScience —that global shifts towards more plant-based diets will be key in tackling climate change.

The UN’s latest Intergovernmental Panel on Climate Change (IPPC) report revealed that the climate crisis is poised to get worse if greenhouse gas emissions continue to surge, and that the future of the planet depends on the choices that humanity makes today. The report is a stark warning that if we want to win the ‘Race to Zero’, it’s imperative that we tackle every major driver of climate change, including intensive animal agriculture, collaboratively across all countries.

Julie Janovsky, Humane Society International’s vice president for farm animal welfare, says: “When it comes to the impacts of animal agriculture on climate change, we cannot continue to kick the can down the road. While many governments and constituencies have recognized and taken action to address the impacts of the energy and transport sector, governments have yet to adopt policies to reduce the impact of large-scale, intensive animal agriculture on the environment. If we are serious about avoiding climate catastrophe, world leaders must acknowledge the science and implement strategies to change our global food system to one that significantly reduces industrial animal agriculture. Reducing the number of animals raised and slaughtered is a legitimate and essential component of tackling climate change, restoring biodiversity and ending the cruelty caused by factory farms. Ignoring the immense climate impact of industrial animal farming is no longer an option, and the COP26 climate change conference offers a vital opportunity for world leaders to take action.”

Cities and countries are beginning to acknowledge and make an effort to reduce meat consumption as a climate change mitigation strategy. Earlier this year, France announced that its climate and resilience bill encourages a more plant-based diet to reach net zero greenhouse gas emissions. The bill includes that by 2023, all school cafeterias will have to feature one compulsory vegetarian menu once a week, and that at least one daily vegetarian option should be offered in all state-run canteens. Shortly after, the City Council of Berkeley in the United States also passed a resolution to divert half of the city’s spending money from animal-based foods to plant-based foods by 2024. Further, the Council will also look to adopt a long-term goal of replacing 100% of animal products with plant-based products to combat climate change.

terça-feira, 2 de março de 2021

As minhas mãos


As minhas mãos 

As minhas mãos
Já abraçaram imensas árvores
Texturas e cascas
Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal
Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves

Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes
Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano
Sarajevo, Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA
E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres
Acendo ainda velas pela Palestina, pelo Tibete e pelos Refugiados
pedindo Paz

Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja
Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão

Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas
Semeei favas e ervilhas
Lia e leio atentamente o Seringador

Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras
Colhi muitas vezes frutos
laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas
Faço as refeições com as mãos

Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica
O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe
Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão
Terminando com o pesadelo e o horror

Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei
Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos

A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar
Os desenhos naturalistas de revistas de bordados
Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e
A minha mãe fazia camisolas

Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena

Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem
Os Lilás Postes Mórbidos
Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party
Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto
E bares em Gaia
Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite
O mocho-real, a coruja-das-torres
E sei dançar valsa e tango

Já fiz rádio
Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário
Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro

Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho
Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs

Das verrugas do sapo comum
Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas
Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar

Ensinei-o a abraçar árvores
Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas

Hoje uso ainda muito as minhas mãos
Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos

Quantas vezes escrevi no quadro escolar
Mapas de conceitos, diagramas, tabelas

Para os meus Alunos
Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores
Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,
Células animais e vegetais em plasticina

Depois vieram os computadores
E faço belos powerpoints com animações
E escrevo no computador e projecto no ecrã

As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher
Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias

Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta
Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha
Nadei em Veneza

A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos
Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares
Poemas e mensagens de Natal

Agora tenho vontade de escrever poemas
As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés
As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos

Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia
Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua
Uma estava na roda de um pneu de carro
Outra perdida da sua mãe

Participei em manifestações contra os OGM
Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores
Redigi algumas petições pela preservação do ambiente Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais


João Soares, 15/01/2021

Análise feita pelo meu amigo António Manuel Pires Cabral
O seu texto respira uma mundividência muito específica: uma síntese entre a observação minuciosa do mundo natural (a biologia e a ecologia), o existencialismo ético e humano (a ação direta, a justiça social e a dor doméstica) e uma estética pós-punk / gótica temperada pela tradição popular portuguesa.

Identificam-se as principais correntes, autores e filósofos com quem a sua escrita e trajetória dialogam de forma direta:

1. Tradição Literária Portuguesa e Ruralidade
  1. Raul Brandão (Os Pescadores, Húmus): a atenção ao Portugal profundo, às mãos calejadas, aos frutos, à terra e à dor dos simples. A empatia humana misturada com a observação da paisagem.
  2. Aquilino Ribeiro: a linguagem telúrica, o conhecimento íntimo da flora e da fauna (Seringador), a ligação visceral às serras do Norte (Marão, Freita, Valongo).
  3. Mário de Sá-Carneiro e Ângelo de Lima (com o toque gótico): na faceta dos Lilás Postes Mórbidos e na dança gótica das aves da noite, há uma ponte direta com a melancolia, o simbolismo e a decadência poética do início do século XX, desaguando na sensibilidade dos anos 80.
  4. Sophia de Mello Breyner Andresen: o rigor na nomeação das coisas da natureza (as árvores, a praia, a pele dos animais, o Atlântico de lés a lés) e a exigência de uma justiça poética e ética frente à tirania e à dor.
2. Filosofia da Natureza, Ecologia e Ética Biocêntrica
  1. Henry David Thoreau (Walden): a ideia da ação direta no mundo - plantar, colher, subir às árvores, conhecer os rios - aliada a uma consciência ecológica, civil e pacifista (acender velas pela Palestina, Tibete, protestar contra OGM).
  2. Spinoza (Imanência e Pantenaísmo): a perceção de que o sagrado não está num plano distante, mas na própria matéria: na casca do teixo, no sapo-comum, na plasticina das células, na vida animal resgatada.
  3. Albert Schweitzer (A Ética do Respeito pela Vida): a ideia central de que toda a vida que quer viver deve ser respeitada e cuidada - quer seja a criança, a prisioneira em Custóias, o doente, ou o gato resgatado da roda do carro.

3. Existencialismo e Ética da Ação
  1. Albert Camus (O Homem Revoltado / A Peste): a recusa da violência injusta (a coragem física da infância ao retirar a bengala ao pai) e a solidariedade como resposta ao absurdo da dor. Não há passividade: há protesto, apoio a refugiados, abaixo-assinados e ensino em prisões.
  2. Emmanuel Levinas (A Ética do Rosto e do Toque): Levinas defende que a responsabilidade ética nasce no encontro "frente a frente" com a vulnerabilidade do outro. As suas mãos encarnam isso: o abraço, o afagar, o cuidar de bebés, doentes e idosos.
4. Estética Pós-Punk e Existencialismo Urbano
A Linha Bauhauseana / Joy Division / The Cure / Birthday Party: a influência dos anos 80 traz o diálogo entre a luz da biologia solar e a sombra da alma. A imitação do mocho-real e da coruja-das-torres liga a taxonomia científica à estética sombria e noturna, onde a dança é um ritual de libertação.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

George Ohsawa, Afonso Cautela e os ensinamentos da Filosofia e Medicina do Extremo Oriente, a Macrobiótica

 

Em 1977 o tão pioneiro poeta, jornalista, ecologista e ensaísta Afonso Cautela publicava nos seus cadernos policopiados da Frente Ecológica, jornal de vanguarda, descolonização cultural, macrobiótica zen, bioagricultura, tecnologias leves, luta anti-nuclear, parto sem dor, revolução artesanal, agro-comunas/sociedade paralela, energias infinitas e não poluentes, reconversão de consumos, alternativas à medicina, um número de 36 páginas intitulado A Cura pela Energia, 55 Indicações de base, que representava a sua compreensão dos processos de vida saudável e de cura, baseando-se nos ensinamentos da Filosofia e Medicina tradicional do Extremo Oriente, conforme George Ohsawa ensinara e divulgara no Ocidente e que tinham sido bem acolhidos em alguns países.

Quem fora George Ohsawa de quem celebramos hoje 18 de Outubro de 2023, os 133 anos de nascimento?
Nascera como Nyoiti Sakurazawa, em 1893, em Kyoto, de uma família de samurais empobrecida, já que o Ohsawa veio do francês, Oh ça va..., com que tinha de responder à pergunta, Como está? Aderira ao movimento Shokuiku, Educação alimentar, fundado pelo genial médico Ishizuka Sagen, (1850-1909) e que atingira grande sucesso (no pico, 100 consultas por dia) pelos seus tratamentos pelo equilíbrio alimentar do Yin e Yang, consignados na obra Uma teoria química da nutrição na Saúde e Longevidade.
Nyoiti Sakurazawa aprende com um seu discípulo, Manabu Nishibata e, vindo para o Ocidente, transmitirá esta filosofia do equilíbrio do Yin-Yang, negativo e positivo, feminino e masculino, noite e dia, e sobretudo do conteúdo do potássio (yin) e sódio (yang) no alimentos, iniciando no Ocidente o método macrobiótico (grande vida) de alimentação, como disciplina harmonizadora do corpo e alma, recomendando o uso de cereais, verduras, leguminosas e algas, e a cautela com as proteínas animais, o açúcar e o excesso de Yin, ou seja de alimentos com mais teor de potássio. Os alimentos mais recomendados e utilizados salutarmente, além dos cereais, eram miso, daikon e umesboshi, ainda hoje fazendo parte da dieta nipónica. Regressado ao Japão em 1931, vai aprofundando os seus estudos e análises das pessoas, doenças, sociedades, como filósofo e educador pacifista e quando anos mais tarde prevê a derrota do Japão, é preso, condenado à morte e foi por pouco que escapou e só após depois da rendição nipónica é que foi libertado, consagrando-se de novo aos seus estudos, publicações e ensinamentos da aplicação do Princípio Único do Yin e do Yang da filosofia Taoísta. A sua visão do mundo e dos seus fenómenos, bastante simplificadora e revolucionária face aos conhecimentos e poderes instituídos, embora em certos aspectos datada ou limitada, em muitos outros continua a ser muito rica de um discernimento directo e profundo da vida e da mente humana. Publicou, além de quatro revistas, mais de duzentas obras em japonês, inclusive de história, biografias e traduções (Alexis Carrel, e Northrop's, The meeting of East and West), e vinte delas em francês, já que esteve nos anos 20-30 em Paris, editadas pela reputada Vrin, em 1929 a primeira Le Principe Unique de la Philosophie et de la Science d'Extreme Orient, mas também dadas à luz noutras editoras francesas e belgas, país este onde teve muitos amigos e centros de tal modo que a fábrica de alimentos macrobióticos, que teve o nome da sua mulher Lima, ali nascerá em Gand, e ainda hoje é uma referência da qualidade biológica dos produtos, tendo-a eu visitado em 1982 e nela bem dialogado. A partir de 1957, George Oshawa viaja por todo mundo, ensinando, dialogando e está mesmo na floresta africana cerca de um ano com Albert Schweitzer (1875-1965), o filósofo e místico em acção abnegada pelos leprosos. Em 1961 saiu a sua obra mais popular, a mais prática e condensada, O Zen e a Macrobiótica, que foi traduzida para numerosas línguas. Mas nela, após as muitas páginas de explicação da filosofia do Extremo Oriente e de salutares receitas de bons cozinhados e de ideias práticas quanto ao uso e conservação dos alimentos, termina com um corajoso capítulo intitulado Certificado pro-forma do óbito do império mundial da dinastia americana do ouro, algo que estamos a observar hoje um começo, com o crescimento do BRICS e a diminuição do papel e valor do dólar infinito (impresso ilimitadamente, e logo injusta e corruptamente) no mundo. Será em 1966, de um ataque de coração, que se evolará da Terra.

Ora em Portugal desde os meados dos anos 60 havia alguns núcleos, alimentados por publicações vindas de França e do Brasil e assim em 1969 saía a primeiro número de uma revista do Centro Ignoramus de Macrobiótica Zen, sediada na R. da Emenda, 110, 2º, Lisboa, e que era orientado por Fernando Mesquita e José Galambas. Nela funcionava também o restaurante, a Colmeia, que a breve trecho passou a ser dirigido por Abel Trancoso e depois apoiado pelo calmo e sábio João Ribeiro. Provavelmente foi pela Colmeia que Afonso Cautela teve conhecimento da Macrobiótica, tal como eu e muitas outras pessoas, ainda que no Norte houvesse também um núcleo que teve como dinamizadores Augusto Coutinho e outros donde surgiriam os centros e restaurantes Pirâmide e mais tarde o Suribachi, este ainda hoje vivo, no Porto. A partir de 1975, um discípulo de Ohsawa, Michio Kushi, sediado nos USA, passará a vir a Portugal para seminários e consultas, divulgando o seu aprofundamento da Macrobiótica através da edições da Cooperativa Unimave e da Trigrama, onde ainda trabalhei, fundada por Gomes Ribeiro, um do co-fundadores do Suribachi, com Maria Arminda e Amândio.

Contracapa de uma publicação da Trigrama sobre a Macrobiótica

Essa obra de Afonso Cautela A Cura pela Energia. 55 Indicações de Base, vamos então transcrever algumas partes em homenagem aos 133 anos de George Ohsawa e a Afonso Cautela:


As 55 indicações de base são antecedidas de duas páginas nas quais Afonso Cautela expõe a sua compreensão da cura pelo equilíbrio da polaridade yin e yang da força energia cósmica aplicado a cada ser ou doente que «é um ponto da espiral, o micro do macrocosmos», «um elo da grande corrente corrente universal, ininterrupta e infinita». A ideia base é que «todas as doenças são curáveis: e a maior ou menor rapidez na cura depende do método ou regime alimentar seguido», e assim após as 55 indicações de base podemos ver os três regimes sugeridos (as famosas dietas nº5 (50% de cereais, 30% legumes frescos, 10% leguminosas, 10% algas e saladas), nº6 (75% cereais) e nº7 de Ohsawa), conforme a proporção de cereais, legumes, leguminosas e algas.


55 Indicações

«1 - Cada pessoa deve ter uma terapêutica especial. "Não há doenças, há doentes". (Hipócrates). Mas o que aqui se indica são generalidades, que podem servir a todo e qualquer caso, todo e qualquer doente, como medida imediata de prevenção, defesa, controle e terapêutica.
2 - Do ponto de vista racional (terapêutica causal), o que importa é deixar o organismo reagir por si, porque o o organismo" – Hipócrates – "é que se cura a si mesmo". Se assim foi e assim será, a única atitude inteligente quando a doença ataca, não é atacar ainda mais o organismo com medicamentos, deixa-lo exausto com alimentos complicados e pesados, mas libertá-lo de todos esses encargos suplementares para o deixar com forças de reagir por si.
6 – Para começar,o melhor de tudo é um pequeno jejum. Ao contrário do que afirmam os preconceitos de costumes retrógrados, o doente não deve ser super-alimentado. É exactamente o contrário. Se der descanso digestivo ao seu corpo, este ficará disponível para colocar todas as energias e reservas no "combate à doença".
25 - A MASTIGAÇÃO é um segredo base a que a frivolidade ocidental não liga importância mas que se encontra na raiz das grandes alterações possíveis através da Macrobiótica Zen.
Enquanto o doente não se convencer da importância da MASTIGAÇÃO na sua cura, a eficácia do regime encontra-se grandemente comprometida.
Ao insistir na MASTIGAÇÃO (30 a 50 vezes cada garfada) a macrobiótica deveria ao mesmo tempo frisar a ENSALIVAÇÃO. De facto, a importância desta primordial operação alimentar, é dupla: primeiro, é com uma boa mastigação que se assegura uma boa digestão, uma assimilação completa do cereal e o seu máximo aproveitamento quer nutritivo quer terapêutico; segundo, uma salivação abundante (a produção de saliva, assim como o PALADAR, também se educa!) irá fornecer ao processo digestivo a dose de ptialina necessária para se efectuar o desdobramento das proteínas contidas no cereal e nos restantes alimentos.
26 - Cereais mais citados no livro de Ohsawa: arroz, trigo sarraceno,, aveia, centeio, milho [míudo, ou millet].
39 - Tal como preconiza Oshawa, o Jejum é sempre útil, em qualquer doença e mesmo que não haja doença: é um repouso, uma pausa do organismo que o habilita a recobrar forças e resistência às agressões do meio ambiente, à contaminação do habitat.
Mas fazer jejum, não é, para Ohsawa, passar fome.
O jejum é para ele uma forma de fazer recuar a doença e ajuda a curar outras.
Durante o jejum convém não despender esforços intelectuais nem físicos. Todas as energias do corpo, normalmente utilizadas no trabalho da digestão, se concentram para fazer frente à doença. Além disso, o jejum é um princípio de desintoxicação.
Mas a grandes descoberta de Ohsawa é que o doente poderá fazer o jejum continuando em actividade, se a sua vida lhe não permitir que seja de outra maneira. Ideal seria que descansasse, física e intelectualmente. Mas senão conseguir esse ideal, nem por isso o jejum deixará de operar no processo de retroagir a doença.»

Como último ensinamento-testamento, nesta homenagem e comunhão com George Oshawa e Afonso Cautela, leiamos as suas 52 e 53 indicações de base, e sigamos ou aplicamos as que nos dizem mais:
52 - Conservar a Energia: Princípio único de toda a cura.
«Na cura pelo Princípio Único [da Ordem do Universo e que é o do equilibrar o Yin e o Yang, negativo e positivo] têm a máxima importância os mínimos pormenores. Seja qual for o caso, recomenda-se aos doentes:
- Que use pente de madeira. - Que use talheres de madeira. - Que não coma alimentos frigorificados (o frigorífico desmagnetiza). - Que não cozinhe alimentos em vasilhas de alumínio ou barro vidrado (barro não vidrado não tem inconvenientes). - Que só coma alimentos biológicos (com carga energética). - Que ensalive longamente e mastigue o maior número possível de vezes cada alimento que leve à boca. - Que não utilize farinhas (mesmo integrais) pois nas farinhas o grão já perdeu toda a concentração energética tendo-se pulverizado até ao infinito. - Que não perca a esperança na cura, porque se é da Energia Eterna e do Infinito que tudo provém e para onde tudo vai, se é do Princípio Único ou lei que tudo depende, a fé nesse princípio e nessa energia pode curar, pode mesmo mudar o destino de uma pessoa.»
53 - Leitura Ecológica da doença e seus sintomas
Saúde e doença não são fenómenos isolados, esporádicos, de superfície: radicam na mais profunda realidade do homem e do meio ou habitat que o cerca: urbano, físico, climático, histórico, cultural, etc.
Se todas as doenças são de ambiente, o conceito de intoxicação estará na primeira fila dos que importa estudar.
Entre os tóxicos alimentares, basta citar: mariscos, carne, peixe, molhos, frituras, bebidas alcoólicas, levedura prensada, alimentos fermentados, corantes, enlatados, conservas, etc.
Entre os tóxicos não alimentares, basta citar: tabaco, fármacos, estupefacientes, água e ar poluídos, adubos, pesticidas, etc.
Perante o número de tóxicos que cercam o consumidor e de que ele fez regular o consumo, não é difícil concluir a importância que o estudo ensaístico de Medicina Ecológica deverá atribuir aos métodos e técnicas de desintoxicação: monodieta, jejum, banhos de sudação, saunas, massagem, marcha, yoga, etc.
Se a maior parte das doenças são doenças do Ambiente, como aqui se sustenta, compreende-se a importância de estudar ensaisticamente a desnutrição por insuficiência alimentar tanto como desnutrição por alimentos desvitalizados: açúcar refinado, cereais refinados, óleos refinados, sal refinado, arroz descorticado, etc.; e de que forma a fome, as avitaminoses e todas as doenças de carência tanto com as indústrias alimentares estão ao serviço da exploração do homem pelo homem.
Uma vez que a esta concepção causal e ecológica da Doença e ao papel defensivo do sintoma no equilíbrio orgânico, se opõem os erros e crimes da medicina sintomática (transferência de sintomas e transferência de doença aguda para doença crónica), parece ao autor importante prosseguir o estudo ensaístico das duas correntes do pensamento médico; a sintomática, causal ou prospectiva [holistica]: e a medicina sintomática, curativa e medicamentosa (plástica e reconstrutiva), na medicina física e de reabilitação, na medicina de reanimação, na medicina das vacinas (dita preventiva), etc.»

Bons discernimentos .....