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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Ainda o Mundial de Futebol- Denúncia de Racismo

Aleksander Čeferin

As federações de futebol de Cabo Verde, Curaçau, Usbequistão, Congo, Haiti, Argélia, Tunísia, Marrocos, Egito, Gana, Senegal, Costa do Marfim e África do Sul expressam a sua profunda desilusão após as recentes declarações do presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, sobre a expansão do Mundial da FIFA e a sua classificação de muitos jogos como 'desinteressantes'.

Para os nossos países, não existe nenhum jogo insignificante no Mundial da FIFA.

Para os nossos países, o apuramento para o Mundial da FIFA representa uma conquista histórica e a realização de um sonho partilhado por gerações.

Sugerir que alguns dos nossos jogos seriam de alguma forma menos importantes é profundamente dececionante e equivale a ignorar os esforços, sacrifícios e aspirações de jogadores, treinadores, clubes, dirigentes do futebol e adeptos em todo o mundo.

Por trás de cada apuramento, existem anos de trabalho árduo e investimento. Por trás de cada seleção nacional, existem comunidades inteiras e milhões de pessoas que veem o futebol como uma fonte de orgulho, esperança e união.

O futebol não pertence a um pequeno grupo de líderes privilegiados. A sua força reside na sua universalidade.

O Mundial da FIFA é a maior competição de futebol do mundo justamente porque reúne diferentes culturas, diferentes histórias e diferentes trajetórias no futebol.

Para muitos países, a participação no Mundial da FIFA não é apenas uma conquista desportiva. É um momento que inspira uma geração, acelera o desenvolvimento do futebol e cria memórias para a vida toda.

Acreditamos que toda a nação que se apura merece respeito.

Cada equipa qualificou-se por mérito.

Cada jogo conta.
Assinado por:
Federação Cabo-Verdiana de Futebol
Federação Senegalesa de Futebol
Federação de Futebol de Curaçao
Federação de Futebol do Uzbequistão
Federação Congolesa de Futebol
Federação Haitiana de Futebol
Em solidariedade com:
Federação Argelina de Futebol
Federação Tunisiana de Futebol
Federação Real Marroquina de Futebol
Federação Egípcia de Futebol
Associação de Futebol do Gana
Federação Marfinense de Futebol
Associação Sul-Africana de Futebol

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Cesária Évora and Bonnie Raitt - Crepuscular Solidro


Vento de mar
Traze me um cretcheu
Nessa tardinha
De céu nublado
Um chuva de amor
Pode faze florir
Um coração
Que modi paixão
Na patamar
Dum vida singela
Vou me encontra
Dona felicidade
Nem um olhar
Me encontra
Num multidão
Tão solitária

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo

Vento de mar
Traze me um cretcheu
Nessa tardinha
De céu nublado
Um chuva de amor
Pode faze florir

Um coração
Que modi paixão
Na patamar
Dum vida singela
Vou me encontra
Dona felicidade
Nem um olhar
Me encontra
Num multidão
Tão solitária

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo
Dum crepúsculo
Dum crepúsculo

Written by: Teófilo Chantre

A letra de "Crepuscular Solidão" (por vezes escrita "Solidro"), um dueto emocionante entre Cesária Évora e Bonnie Raitt, fala sobre a solidão em meio à multidão e o desejo por amor, descrevendo o vento do mar trazendo um chamado e a esperança de um coração apaixonado florescer, tudo sob um céu nublado de fim de tarde, expressando sentimentos de uma vida simples e a busca por felicidade. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Desilusão com Dino d’Santiago


Nos últimos 13 meses, a associação Mundu Nôbu, presidida pelo músico Dino D’Santiago e gerida pela sua parceira Liliana Valpaços, conseguiu encontrar um verdadeiro mundo novo de financiamento público através de alegadas prestações de serviços a empresas municipais de Lisboa.

À margem dos habituais concursos e candidaturas públicas, a que estão sujeitas dezenas de organizações não-governamentais, a associação criada no final de 2023 pelo músico residente no Algarve, mas com forte projecção mediática na capital, já conseguiu firmar, desde Agosto do ano passado, quatro contratos directos com estruturas da Câmara Municipal de Lisboa, no montante global de 481 mil euros (equivalente a 385 mil euros acrescidos de IVA)

O expediente foi simples: em vez de subsídios ou apoios sujeitos a regras de concurso, a Mundu Nôbu passou a figurar como prestadora de serviços, assinando contratos de aquisição directa — ora para a execução de projectos sociais com a Gebalis, empresa municipal de habitação, ora para a organização de concertos a preços manifestamente inflacionados com a EGEAC, responsável pela gestão cultural da cidade. 

O primeiro grande contrato surgiu em Agosto do ano passado, quando a EGEAC assinou com a recém-criada associação um acordo de 130 mil euros para a “concepção, coprodução e apresentação ao público do Festival Mundo Novo 2024”. O evento, integrado nas Festas na Rua, foi apresentado com o tema “A interculturalidade portuguesa no topo do Spotify”, mas, na prática, resumiu-se a uma conferência com Dino D’Santiago e convidados, seguida de um concerto nocturno na Praça do Município, com actuações de Dino D’Santiago, Irma, Soluna, Crioulo, Maro e Bateu Matou. Pelas imagens disponíveis, o público presente não terá ultrapassado o milhar de pessoas, embora o evento tenha contado com a presença do presidente da autarquia, Carlos Moedas.

O ritmo de contratos acelerou este ano. Em Junho, a Gebalis adjudicou à Mundu Nôbu um contrato de 20 mil euros, por ajuste directo, para um projecto de intervenção comunitária denominado “O Teu Lugar no Mundo”, destinado a jovens entre os 14 e os 22 anos. A descrição contratual era vaga: realização de reuniões semanais de duas horas com até 160 participantes, divididos por grupos. Não há registos fotográficos nem informação sobre o local de realização das sessões, mas a empresa municipal pagou integralmente a verba correspondente a oito encontros, uma vez que o contrato teve a duração de 60 dias. Curiosamente, o valor adjudicado coincidiu com o limite máximo legal que dispensa concurso público.

Mal terminou esse contrato, a Gebalis renovou a prestação de serviços por mais doze meses, agora no valor de 125 mil euros, sob a designação “fase de desenvolvimento”. Este novo acordo, celebrado em Agosto, foi classificado como uma “contratação excluída” — expressão que, na prática, significa um procedimento fora das regras habituais da contratação pública, situação de legalidade duvidosa no contexto deste serviço. Assim, um apoio temporário transformou-se num contrato anual que assegura mais de 10 mil euros mensais à associação de Dino D’Santiago, com cláusulas invulgares.

Mais do que um instrumento de intervenção social, o contrato revela-se um veículo de promoção da própria associação. De acordo com o documento, e sob o pretexto de “articulação” com a empresa municipal, prevê-se a realização de visitas mensais aos bairros para “apresentar o projecto e convidar jovens e famílias a conhecer a Mundu Nôbu”, bem como a produção de conteúdos digitais com menções expressas à entidade.

Em vez de actividades concretas e metas mensuráveis, o contrato estabelece uma rotina de reuniões, relatórios e intercâmbios vagos, que acabam por servir sobretudo para dar visibilidade e notoriedade à associação beneficiária, mais do que para gerar resultados tangíveis junto dos moradores dos bairros municipais.

O quarto e mais recente contrato foi assinado no passado dia 19 de Setembro, novamente com a EGEAC, para a coprodução e apresentação do “Mundo Nôbu Experience 2025”, por um valor total de 110 mil euros. O evento, previsto para 12 de Novembro no Capitólio, está descrito apenas como um “concerto” entre as 20h30 e as 23h00. O documento não especifica o conteúdo artístico, nem há qualquer referência a orçamentos detalhados. Curiosamente, nem o Capitólio, nem a EGEAC, nem a Agenda Cultural de Lisboa incluem o espectáculo nas respectivas programações, o que levanta dúvidas quanto à efectiva execução do contrato.

Mais surpreendente ainda é o contraste entre estes valores e os cachês de Dino D’Santiago. Nos últimos anos, os concertos do músico, de ascendência cabo-verdiana, têm oscilado geralmente abaixo dos 20 mil euros. A Câmara de Lisboa pagou-lhe 6.000 euros em 2018, no âmbito da Moda Lisboa; em 2019, recebeu 5.500 euros da Associação Vicentina, 17.000 euros da Câmara de Alcobaça e 15.000 euros da de Aveiro (num espectáculo conjunto com Branko). Em Viana do Castelo o valor foi de 10.500 euros, na Figueira da Foz de 5.000 euros, e apenas em Albufeira, sua região natal, atingiu o valor excepcional de 71.400 euros no ano passado. Em 2024, só se encontra um contrato público de espectáculo, com a Câmara de São João da Madeira, no montante de 9.000 euros.

A associação Mundu Nôbu parece, assim, ter descoberto um modelo engenhoso: usar uma figura pública de grande visibilidade para obter financiamentos públicos regulares, com um modelo de gestão pouco transparente, sem depender de candidaturas competitivas ou de voluntariado associativo. Apresentando-se como uma organização sem fins lucrativos, actua de facto como uma estrutura profissional, concentrada e opaca. Apesar de se afirmar aberta a novos sócios, apenas duas figuras estão visivelmente associadas ao projecto: Dino D’Santiago, presidente, e Liliana Valpaços, responsável pela execução dos contratos e, desde o ano passado, alegadamente remunerada após uma alteração estatutária.

O PÁGINA UM contactou por duas vezes a associação Mundu Nôbu, solicitando esclarecimentos sobre as contas do exercício de 2024, o plano de actividades dos seus dois anos de existência, os órgãos sociais e o número de sócios efectivos. Não houve qualquer resposta — talvez por se entender que não é necessário prestar contas à imprensa quando se gerem dinheiros públicos.

No site da associação surge a equipa da Mundu Nôbu constituída por uma psicóloga, uma responsável pela comunicação e marketing, um responsável administrativo e financeiro e três monitores. Nada consta de relatórios, nem os nomes dos órgãos sociais (direcção, assembleia geral, conselho consultivo e fiscal único), nem planos de actividades. Apenas se exibem fotografias genéricas e frases inspiracionais sobre “interculturalidade” e “empoderamento”.

Não há sequer referências a eventos realizados nem a iniciativas futuras, e mesmo o anunciado concerto de 12 de Novembro no Capitólio permanece envolto em silêncio. Já a lista de parceiros institucionais e privados é extensa e bem exposta — mais de uma dezena —, uma espécie de convite da Mundu Nôbu para se apoiar uma história de sucesso: só com sorrisos, palmadinhas das costas, dinheiro público… e sem questionamentos.

Novidades:

terça-feira, 10 de junho de 2025

Alcindo Bernardo Monteiro - a noite em Portugal matou um dos seus

Há datas que um país carrega como cicatrizes. O 10 de junho é, em Portugal, o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas — celebração da língua, da cultura, da herança que os portugueses espalharam pelo mundo durante séculos de navegação e de encontro com outros povos. É também, desde 1995, a data em que um grupo de skinheads decidiu sair às ruas de Lisboa para matar negros. E matou.
Alcindo Bernardo Monteiro nasceu a 1 de outubro de 1967, na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A família emigrou para o Barreiro em 1978, quando Alcindo tinha onze anos, numa altura em que Cabo Verde já era independente. Alcindo voltaria a ter bilhete de identidade português em 1991. Era um homem simples, de vida ordenada. Trabalhava numa oficina de mecânica automóvel e nos tempos livres gostava de cuidar dos seus periquitos, cozinhar e dançar. Era um cidadão português. Na noite de 10 de junho de 1995, tinha 27 anos e queria apenas divertir-se.
Não chegou a fazê-lo.
Dias antes do crime, corria nos meios frequentados por skinheads a informação de que estava a ser organizado um jantar de comemoração do feriado de 10 de junho. Em particular no bar Ramis, em Almada, um viveiro de cabeças rapadas. Miguel Temporão, líder do núcleo de skinheads de Lisboa, ficou encarregado de fazer os convites. Chamavam-lhe o "dia da Raça", para assim afirmarem a sua ligação umbilical ao fascismo salazarista.
O que se seguiu pertence àquele território estreito e insuportável onde a barbárie humana não cabe em palavras, mas tem de ser dita à mesma. Um grupo de dezenas de skinheads desceu as ruas do Bairro Alto com um único propósito: espancar pessoas negras. Alcindo foi encurralado, derrubado, espancado com botas de biqueira de aço e soqueiras. Em coma profundo, foi encontrado na Rua Garrett, perto do local onde hoje ficam os Armazéns do Chiado. O óbito seria declarado às 10h30 da manhã de 12 de junho. O relatório médico registava: hemorragias sub-pleurais, edema pulmonar, graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas, fractura da calote craniana.
Um homem morreu porque tinha a pele escura. Morreu no Dia de Portugal.
Doze vítimas foram socorridas no Hospital de S. José. Alcindo, dado o estado de extrema gravidade, foi internado. A notícia chegou às primeiras páginas dos jornais ainda antes da morte ser confirmada. O país ficou em choque — ou fez de conta que ficou. Porque o choque, em Portugal, tende a durar o tempo de um ciclo de notícias, e depois a vida volta ao ritmo costumeiro do mito de um povo naturalmente tolerante e acolhedor.
Esse mito tem nome. Chama-se lusotropicalismo. Na primeira metade do século XX, o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre desenvolveu uma teoria sobre a relação de Portugal com os trópicos, defendendo que o processo colonial português se distinguia pela empatia e proximidade com os povos colonizados. Durante os anos cinquenta e sessenta, essa doutrina foi politicamente apropriada pelo Estado Novo para justificar a presença colonial portuguesa em África perante a comunidade internacional.
Ficou como herança mental.
A ideia de que os portugueses não são racistas porque "sempre se misturaram", porque "navegaram o mundo", porque têm essa capacidade inata e generosa de acolher o outro.
Em Portugal, uma grande parte da população — incluindo parte da classe política — continua a ver o racismo como algo de alheio, de estrangeiro, de outro. Alcindo Monteiro foi morto dentro dessa ilusão confortável.
No julgamento que se seguiu, os acórdãos registaram a completa ausência de arrependimento dos envolvidos. Em 2002, Hugo Silva foi condenado a 18 anos de prisão. Os restantes receberam penas variadas. Todos acabariam por sair em liberdade.
A mãe, Francisca Monteiro, e as irmãs de Alcindo continuam a ir ao cemitério de Vila Chã, no Barreiro, falar com ele. Quando o realizador Miguel Dores contactou a irmã Luísa, ela ouviu o silêncio do outro lado do telefone e disse apenas: "já sei do que vens falar. Nunca acaba."
Nunca acaba.
Em 2021, o antropólogo e realizador Miguel Dores, então a concluir um mestrado em Antropologia Visual na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, apresentou o documentário "Alcindo" no DocLisboa. A sessão esgotou o Cinema São Jorge. A família estava presente. O público aplaudiu de pé. O documentário é inteligente na sua abordagem, metódico — explorando as implicações que o Estado Novo e a sua herança têm nos valores coletivos que orientam o povo português. O filme ganhou o "Prémio do Público". No ano seguinte, na semana do 10 de junho, foi exibido em São Vicente, Cabo Verde — no Centro Cultural do Mindelo, na Universidade de Cabo Verde e ao ar livre, no bairro da família Monteiro.
O Estado português nunca assumiu uma memória oficial sobre este caso. Em 2019, as comemorações do Dia de Portugal realizaram-se em Cabo Verde e o nome de Alcindo Monteiro nem sequer foi referido. Em 2020, vinte e cinco anos depois, a Câmara de Lisboa inaugurou uma placa na Rua Garrett, onde o jovem foi assassinado. Tarde. Como quase sempre.
Dois dos condenados pelo assassínio de Alcindo voltariam a ser julgados décadas mais tarde. O processo Hells Angels — uma investigação de grande envergadura da Polícia Judiciária que desmantelou uma rede de violência organizada com ligações à extrema-direita portuguesa, aos neonazis e ao gangue de motards — revelou que o ódio que matou Alcindo nunca tinha deixado de existir: apenas mudara de farda. Tiago Palma e Nuno Monteiro, dois dos condenados pelo homicídio de 1995, foram condenados a 13 anos e meio de prisão por novas agressões brutais e tentativas de homicídio. O ódio não prescreve. Nem se reabilita.
O 10 de junho celebra Camões, os Lusíadas, a língua que atravessou oceanos. Celebra a ideia de um Portugal que se estendeu pelo mundo. Mas o mundo também veio ter com Portugal — em barcos de emigrantes, em famílias que fugiram da miséria ou da violência, em homens e mulheres que ajudaram a construir este país com o trabalho das suas mãos. Alcindo Monteiro era um deles. Era português. E foi assassinado no dia em que Portugal celebra ser Portugal.
Essa contradição não é acidental. É o retrato mais honesto de quem somos — e do que ainda precisamos de deixar de ser.

domingo, 16 de junho de 2024

Banco Mundial prepara Relatório sobre Clima e Desenvolvimento em Cabo Verde


O Banco Mundial vai apresentar este ano um Relatório sobre Clima e Desenvolvimento (CCDR, sigla inglesa) dedicado a Cabo Verde, devido aos riscos que o arquipélago enfrenta, anunciou a instituição.

“O Banco Mundial está a levar a sério estes desafios e está a preparar um Relatório sobre Clima e Desenvolvimento dedicado a Cabo Verde, em estreita colaboração com o Governo”, lê-se no mais recente boletim de atualização económica da instituição.

Fonte do Banco Mundial (BM) contactada pela Lusa referiu que a publicação deverá ser feita ainda este ano.

A instituição classifica Cabo Verde como “o país com o maior risco de desastres climáticos na África Subsariana e um dos níveis de risco mais elevados a nível global”.

Os episódios de secas cíclicas prolongadas, desertificação e eventos extremos de precipitação que causam cheias repentinas, especialmente nas áreas urbanas, são exemplos das ameaças.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e a perda de biodiversidade e ecossistemas são problemas que afetam particularmente as praias e zonas costeiras, “pondo em risco a sustentabilidade do setor do turismo”, o motor da economia.

“As mudanças na temperatura da superfície do mar, salinidade, acidez e níveis de oxigénio terão provavelmente efeitos catastróficos nas pescas”, acrescenta o último boletim do BM em relação a outra área de atividade, a pesca, responsável pela maioria da exportação de bens e pela segurança alimentar.

No caso de Cabo Verde, um dos objetivos do relatório será ajudar a compreender os impactos das alterações climáticas sobre a quantidade de captura de peixe e a sua composição ao longo do tempo, algo “vital para construir resiliência e adaptação no setor”.

O BM destaca a parceria do Governo de Cabo Verde com a Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) para realizar um estudo abrangente sobre os impactos das alterações climáticas nas pescas, com ênfase na importância socioeconómica para o país.

Os relatórios CCDR foram produzidos inicialmente para 25 países e estão a ser implementados em todos os países do Grupo Banco Mundial.

O objetivo é envolver Governos, setor privado, meio académico, grupos de reflexão e a sociedade civil na discussão sobre as mudanças climáticas.

Enquanto documentos públicos, pretendem ajudar a enquadrar ações na agenda do desenvolvimento e clima, assim como sinalizar ações de alto impacto que podem atrair financiamento.

“Este diagnóstico central integra as mudanças climáticas com o desenvolvimento para ajudar a priorizar as ações mais eficazes na mitigação das emissões de gases com efeito de estufa”, acrescenta o BM.

Cabo Verde tem apresentado como um bom exemplo a nível internacional a iniciativa celebrada com Portugal de troca de dívida por financiamento orientado para o clima.

Portugal assumiu em 2023 o compromisso de ser o primeiro participante no fundo climático de Cabo Verde, com 12 milhões de euros, para projetos relacionados com o reforço de energias renováveis.

Ainda no que respeita às alterações climáticas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) está a apoiar o arquipélago com um financiamento de 31,7 milhões de dólares (29,3 milhões de euros) ao abrigo do Mecanismo de Resiliência e Sustentabilidade (RSF).

O apoio destina-se aos esforços do Governo em áreas relacionadas com a captação de investimento externo e reformas governamentais para mitigação das alterações climáticas e transição energética.

O primeiro-ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, tem defendido a criação de novos mecanismos de financiamento para os pequenos Estados insulares poderem enfrentar alterações climáticas sem recorrer às verbas orçamentadas para o desenvolvimento.

Da mesma forma, defende o recurso a índices ajustados às características dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS, sigla inglesa), saudando a criação de um Índice de Vulnerabilidade Multidimensional pelas Nações Unidas, com a capacidade de ajustar a elegibilidade para financiamentos à realidade dos países.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Ainda a Homenagem a Sara Tavares - afinal o racismo negro contra os brancos existe em Portugal


Porque é que Cristina Roldão não escreve em cabo-verdiano "bunita"?? Bela homenagem logo no título!! Diz a cronista que corriam os anos de 1993 e 1994 e que "naqueles breves minutos - quando a Sara Tavares cantou e venceu o Chuva de Estrelas e o Festival da Canção- , deixámos de ser mandadas para a “nossa terra”, porque subitamente éramos daqui; deixámos de ser as “pretas da Guiné que lavavam a cara com chulé”, as “barrote queimado”, as “macacas” que cheiravam a “catinga”. Só se for em Lisboa.
Quantos "brancos" portugueses que conheço e adoptaram menino(a)s moçambicanos, cabo-verdianos, tomeenses já antes dessa altura.... Os próprios retornados de África foram os pioneiros na adopção de crianças africanas. Não trouxeram ódio. Muitos dos seus filhos mantiveram a dupla-nacionalidade (Angola-Portugal, Moçambique-Portugal, Guiné-Bissau-Portugal, por aí fora).  Cristina Roldão mal!! Não convoquemos racismo negro. Sara Tavares não era racista!! Contudo e por falar  nos anos 80 (e 90) na faculdade onde estudei havia muitos estudantes universitários CPLP. Portugal nunca falhou o pagamento da bolsa. Já os seus países de origem demoravam a pagar. Tinham que trabalhar para concluir os estudos. Os macaenses também igual sorte. 
Outra homenagem racista leio em Joacine Katar Moreira, apelando ao orgulho preto, dizendo que morreu "uma luz para todas nós, meninas negras". Sara foi adoptada por avós brancos no Pragal. Morreu uma MULHER. Ponto. Grande voz, amor eterno à música. Lembremos a Sara Tavares, sem etnia nem côr. 
P.S. Uns tios meus "brancos" ( já falecidos ) adoptaram uma menina manca moçambicana. Isto há 40 anos atrás. Agora é uma mulher realizada, está casada com um homem "branco" e têm dois filhos mestiços. Já conversei com ela muitas vezes sobre se alguma vez sentiu em Portugal alguma discriminação por  ser "preta" e ela diz-me que não e que está-se a marimbar para o Black Lives Matters. "Isso é um fenómeno dos States", diz ela. E tem razão.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Música do BioTerra: Christophe Maé & Ceuzany - Pays des merveilles

Bonito teledisco. Saudades de São Vicente. Cabo Verde. Um sonho. Muita pobreza, mas muita alegria. Quem passa por lá, nunca mais esquece. Marca. Na pele, nos sentidos, as gentes. O céu quente. Praia da Laginha. Monte Verde.


[Refrão]
Bu kriam na un mundu paraízu
Xeiu di amizadi i karinhu
Bu nxinam sinplisidadi
Vive n'es mundu sen maldadi

J'ai trouvé le pays des merveilles, chérie
Allons prendre l'air
Allons, allons sous le soleil, chérie
Allons prendre un verre
Ouais la vie c'est comme un cocktail, chérie
Sucré et amer
Buvons la vie à la bouteille, chérie
Allons prendre l'air

Du côté du Cap-Ver, du côté du Cap Horn
À écouter la mer, à écouter la morna
Y a des voix là-bas qui voyagent, chérie
Mets de l'amour dans tes bagages

[Refrão] 2X

On est au pays des merveilles, chérie
À la vie, à la vie
À cesária sous le soileil, chérie
Oh petits pays

Aux couleurs de Brazza, Brasero Brasil
Les fados, les playas, un peu Brazzaville
Y a des voix ici qui voyagent, chérie
Et de l'amour dans leurs langages

[Refrão] 3x

Petit pays, je t'aime beaucoup

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

23 de Novembro – Um dia dedicado à Floresta Autóctone


A 23 de novembro celebra-se o Dia da Floresta Autóctone, uma data estabelecida para promover a importância de preservar e plantar espécies que fazem parte do património natural.

Este dia foi escolhido como alternativa ao Dia Mundial da Floresta (21 de março), criado originalmente para países do norte da Europa, que têm nessa altura melhores condições para a plantação de árvores. Na Península Ibérica, as condições climatéricas do mês de novembro, com temperaturas mais baixas e alguma precipitação, são mais favoráveis para a plantação de árvores.


De acordo com a Quercus, a plantação de árvores em Portugal, durante a primavera, apresentam frequentemente um baixo sucesso associado ao aumento das temperaturas e redução das chuvas que se faz sentir com a proximidade do verão.

O que é a Floresta Autóctone?
A Floresta Autóctone consiste numa floresta de árvores originárias do próprio território.

A floresta autóctone portuguesa é toda a floresta formada por árvores originárias do nosso país, como é o caso dos carvalhos, dos medronheiros, dos castanheiros, dos loureiros, das azinheiras, dos azereiros, dos sobreiros.

Qual a importância das florestas autóctones?
  1. Estão mais adaptadas às condições do solo e do clima do território, por isso são mais resistentes a pragas, doenças, longos períodos de seca ou de chuva intensa, em comparação com espécies introduzidas;
  2. Ajudam a manter a fertilidade do espaço rural, o equilíbrio biológico das paisagens e a diversidade dos recursos genéticos;
  3. Fazem parte do nosso ecossistema. São importantes lugares de refúgio e reprodução para um grande número de espécies animais autóctones, muitas delas também em vias de extinção;
  4. Exercem um importante papel na redução do efeito estufa;
  5. Regulam o ciclo hidrológico e a qualidade da água;
  6. Embora de crescimento mais lento, são normalmente mais resistentes e resilientes aos incêndios florestais.

72% da floresta portuguesa é composta por espécies florestais autóctones
Em Portugal, as árvores autóctones representam cerca de 72% da floresta, uma percentagem que é composta principalmente por espécies como o pinheiro-bravo (Pinus pinaster), o sobreiro (Quercus suber), a azinheira (Quercus rotundofila) e o pinheiro-manso (Pinus pinea). Juntas, estas quatro espécies representam 61% da área florestal total em Portugal continental (ICNF, 2017).

Mas estas árvores estão longe de ser casos únicos. Segundo os dados do GlobalTree Portal, Portugal tem 103 espécies de árvores autóctones. Esta lista inclui espécies menos conhecidas, como o pau-branco (Picconia azorica), endemismo açoriano  ou o marmulano (Sideroxylon mirmulans), um endemismo madeirense, das Canárias e Cabo Verde e outras mais conhecidas, como a aveleira (Corylus avellana), a alfarrobeira (Ceratonia siliqua), o freixo (Fraxinus angustifolia), o choupo-branco (Populus alba) ou o salgueiro-branco (Salix alba).

Ainda de acordo com o GlobalTree Portal, das 103 espécies nativas, 9 estão em risco global de extinção e uma está classificada como “possivelmente ameaçada”.

Como cuidar e manter as espécies autóctones?
Cuidar e manter espécies autóctones, sobretudo as que estão em maior risco, implica:
  1. Gerir os habitats existentes;
  2. Recuperar paisagens degradadas e reforçar a presença destas espécies através de ações de plantação;
  3. São também fundamentais as ações ex-situ, ou seja, fora dos habitats naturais, criando capacidade de conservação de biodiversidade e evitando a extinção das espécies mais vulneráveis.
A participação e colaboração de todos é fundamental para que a nossa floresta autóctone esteja cada vez mais protegida. Todos podemos contribuir para a preservação e expansão das nossas espécies indígenas!

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Deu-me agora uma saudade de Cabo-Verde

Deu-me agora uma saudade de Cabo-Verde. Canárias, Marrocos e Guiné-Bissau. Quem vai a África fica DEFINITIVAMENTE marcado: é o colorido, o calor, o Sol que é diferente, o mar, as gentes. Apaixonamo-nos para a vida. Depois à noite, além de quente, é um estrelário faíscante. E muitos afectos.

Não sei bem o que fazer
Nem sei como te dizer
Cada vez que me chegas me sinto mais longe de ti
Teu pudor foi transmitido
E será neutralizado
Teu pudor foi transmitido

Não importa o quanto faça
Pouco importa a cor do ouro
Na corrida ao teu afeto
A medalha sempre é bronze
Sou órfã da tua ternura

Muito me salta à vista
Quando chegas reta e firme
Que pouco posso fazer para te fazer mudar?
Teu pudor foi transmitido
E será neutralizado
Teu pudor foi transmitido

Se soubesses abraçar
De vez em quando beijar
E aos recantos imperfeitos
Com menos rigor apontar
Quem seria eu?
Sou órfã da tua ternura

Quando estamos tu e eu
E ao meu lado adormeces
Um oceano nos separa
Mas tu não sabes de nada
A canção que se repete
A tristeza que me cala

O amor foi recebido
Apesar do que tu calas
O amor foi recebido
Apesar do que tu calas

terça-feira, 21 de agosto de 2007

A conservação de tartarugas marinhas baseada na comunidade



O Homem é um dos principais predadores das tartarugas marinhas adultas em Cabo Verde. A pressão é maior na população nidificante de C. caretta, mas também se registam capturas de juvenis de C. midas e de E. imbricata por parte dos pescadores, sendo igualmente frequente a captura de machos de C. caretta no mar [artigo científico]