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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Lorde - Team


Tanto a letra como o teledisco de "Team", da cantora Lorde, funcionam como um manifesto de resistência juvenil que rejeita os clichés do consumismo e celebra a resiliência das comunidades que vivem à margem do sistema. Na letra, a artista critica a ostentação e as falsas promessas de felicidade vendidas pela televisão, afirmando com orgulho que a maioria dos jovens vive em realidades invisíveis para a grande comunicação social através do icónico verso "vivemos em cidades que nunca verás no ecrã". Ao mesmo tempo, recusa a alienação das músicas festivas tradicionais ao cantar que já não tem paciência para que lhe digam para atirar as mãos para o ar, assumindo o peso do amadurecimento e a necessidade de procurar um propósito mais profundo. O refrão centraliza tudo na lealdade e na entreajuda, garantindo que, mesmo quando a realidade não é perfeita ou se vive nas ruínas de um palácio de sonhos, aquele grupo sabe exatamente como organizar-se, gerir a sua subsistência e comandar as coisas porque jogam todos na mesma equipa.

Fontes
The efeect of eco-anxiety on pro-environmental behaviors and mental well-being: a parallel mediation model
The effect of eco-anxiety on pro-environmental behaviors and mental well-being: a parallel mediation model

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Ecoansiedade pode mobilizar comportamentos pró-ambientais


Publicado no Journal of Risk Research, o artigo “Turning eco-anxiety into pro-environmental behaviour: risk perception as mediator” conta com a coautoria de Francisco Sampaio, docente da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Porto, juntamente com Sílvia Luís, Ana Loureiro, Jerônimo C. Soro, Catarina Possidónio e Rui Gaspar. A investigação analisou de que modo a ecoansiedade se relaciona com comportamentos pró-ambientais, considerando o papel da perceção de risco ambiental. A ecoansiedade refere-se à ansiedade perante problemas ambientais como as alterações climáticas, a poluição ou a degradação ecológica.

Com base em três estudos complementares, os autores recorreram a uma abordagem exploratória de métodos mistos, a um estudo transversal e a um estudo experimental. No primeiro estudo, refletir sobre emoções e pensamentos associados a problemas ambientais esteve associado a uma maior alocação de donativos a ONG ambientais. No segundo, os resultados apoiaram a hipótese de que a perceção de risco ambiental medeia a relação entre ecoansiedade e comportamentos pró-ambientais autorreportados.

No estudo experimental, a equipa induziu diferentes níveis de ecoansiedade de estado e avaliou a sua relação com a perceção de risco e com a distribuição de donativos por diferentes tipos de ONG. As análises de mediação sequencial sugeriram que níveis mais elevados de ecoansiedade de estado se associaram a maior perceção de risco ambiental e, por essa via, a maior disponibilidade para atribuir donativos a ONG ambientais.

Em termos práticos, o artigo sublinha que a ecoansiedade não deve ser simplesmente patologizada, nem amplificada como estratégia de comunicação. Os resultados apontam antes para a importância de apoiar as pessoas que já experienciam ecoansiedade, promovendo reflexão informada, compreensão clara dos riscos e formas concretas de participação pró-ambiental.

O trabalho conclui que a ecoansiedade pode contribuir para a mobilização pró-ambiental quando acompanhada por uma avaliação reflexiva dos riscos ambientais. Ainda assim, os autores salientam que são necessários estudos longitudinais e novas experiências que manipulem simultaneamente ecoansiedade e perceção de risco para clarificar melhor as relações causais entre estes processos.

Fontes:

sábado, 21 de outubro de 2023

Ansiedade climática: o síndrome das novas gerações

As alterações climáticas são cada vez mais uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem.


É comum dizer-se que os jovens estão a ficar preocupados com o futuro do planeta e que isso lhes está a prejudicar o equilíbrio emocional e mental, mas na verdade este sintoma é comum a várias idades, com a diferença que os jovens se sentem mais inseguros e com menos poder de decisão.

Um estudo da revista Lancet, publicado em Dezembro 2021, revelou a primeira investigação com mais amplitude neste âmbito: foram entrevistadas 10 mil jovens (com idades entre 16 e 25 anos) em dez países (Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e EUA). Mil participantes por país. Os jovens portugueses estavam entre aqueles que demonstravam mais ansiedade.

Nas conclusões do estudo face às alterações climáticas, 59% dos inquiridos “estavam muito ou extremamente preocupados e 84% estavam pelo menos moderadamente preocupados. Mais de 50% relataram cada uma das seguintes emoções: tristeza, ansiedade, raiva, impotência e culpa.

Mais de 45% dos entrevistados disseram que os seus sentimentos sobre as alterações climáticas afetaram negativamente a sua vida quotidiana e funcionamento, e muitos relataram um elevado número de pensamentos negativos sobre as alterações climáticas (por exemplo, 75% disseram que pensam que o futuro é assustador e 83% disseram que eles acham que as pessoas falharam em cuidar do planeta)”.

Perante uma amostra bastante representativa do que pensam os jovens sobre o impacto das alterações climáticas, uma das conclusões do estudo é que “essa angústia estava associada a crenças sobre resposta governamental inadequada e sentimentos de traição”, e que para eles “o futuro é assustador, a humanidade está condenada”, pois “não terão acesso às mesmas oportunidades que os seus pais tiveram”. Além disso, “consideram que tudo o que valorizam será destruído, a segurança está ameaçada e estão hesitantes em ter filhos”.

A pesquisa mostrou como a ansiedade climática pode ser uma experiência coletiva, mesmo que vivida com maior ou menor intensidade. Estamos quase em Dezembro de 2023 – dois anos depois do estudo referido – e as notícias sobre a crescente ansiedade e sentimento de impotência dos jovens continuam a dar sinais de alerta, como é referido nesta notícia da CBS do Canadá, publicada em agosto, na altura em que os fogos devastaram parte do país.

No dia 10 de Outubro – o Dia Mundial da Saúde Mental – a publicação Euro News sugeriu algumas ideias para evitar estados de eco-ansiedade. Uma delas referia-se à inércia causada pela quantidade de informação científica: “Não demore a fazer mudanças na sua vida ou a tornar-se um ativista enquanto lê o relatório do IPCC. Afinal, tem 1.800 páginas. Pode demorar um pouco.”

As alterações climáticas são assim e cada vez mais, também uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem – porque se por um lado sentem que as decisões governamentais não são suficientes, por outro sentem uma grande pressão com a sua responsabilidade para com o futuro.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Ecoansiedade: 'Problemas ambientais aumentam o risco de ansiedade e depressão', alerta pesquisadora americana


Britt Wray talvez seja a especialista em saúde mental e meio ambiente mais popular de sua geração. Seus trabalhos sobre os impactos da crise ecológica no psicológico humano já lhe renderam diversos podcasts e programas de rádio e TV nos Estados Unidos, além de um TED Talk visto por mais de 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo. Seu último livro, “Generation Dread — Finding Purpose in an Age of Climate Crisis” (“Medo geracional — Encontrando Propósito em uma Era de Crise Climática”, em tradução literal), foi elogiado até por Adam McKay, diretor de “Não olhem para cima”, um filme viral da Netflix que mistura ficção científica e sátira política para denunciar a emergência climática atual. Lançado no Brasil pela Penguin, a obra discute como os indivíduos — e as comunidades, principalmente — podem construir resiliência e transformar a “eco-ansiedade” (ou ansiedade ecológica) em um combustível para impulsionar novos esforços de busca por um mundo melhor.

Como as pessoas estão sendo mentalmente impactadas pelas mudanças climáticas?
Experiências de desastres, como incêndios florestais, inundações e furacões, podem aumentar os níveis clínicos de ansiedade e depressão, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de substâncias e violência doméstica. Além disso, as ondas de calor, que vêm piorando devido à crise climática, estão fortemente ligadas ao crescimento da violência. As internações hospitalares por automutilação e tentativas de suicídio também se intensificam nessas condições, assim como os conflitos intergrupais.

O que exatamente é a “eco-ansiedade”?
A ansiedade ecológica é definida pela Associação Americana de Psicologia como o medo crônico da destruição ambiental. Podemos dizer que é um termo guarda-chuva que inclui a ansiedade, mas também tristeza, pesar, raiva, às vezes culpa, desamparo e impotência. Em tese, isso não é necessariamente ruim. Muitos profissionais de saúde mental argumentam que é saudável sentir pelo menos um pouco de eco-ansiedade, porque é uma resposta racional e normal a uma ameaça real que nossa civilização enfrenta. No entanto, esse sentimento pode chegar ao ponto de paralisar a pessoa e prejudicar sua capacidade de zelar pelo próprio bem-estar.

Existem dados sobre a porcentagem de pessoas que experimentaram ou estão experimentando eco-ansiedade hoje?
Meus colegas [da Universidade de Stanford] e eu pesquisamos 10 mil jovens de 16 a 25 anos em 10 países para tentar entender o alcance e o peso da ansiedade climática em suas vidas. Fomos a lugares como Brasil, Índia, Nigéria, Filipinas, França, EUA, Finlândia e Reino Unido em busca de cenários realmente diversos em termos de renda e de exposição aos riscos climáticos. O que descobrimos foi que, segundo 45% desses jovens, a crise climática afeta negativamente diversos aspectos de suas vidas: alimentação, sono, concentração, aprendizado escolar, trabalho, lazer ou relacionamentos. E isso, claro, também tem impacto na saúde mental.

Os jovens são o grupo mais afetado?
Sabemos que os jovens estão sentindo isso de forma mais aguda em comparação com as demais gerações vivas hoje. Mas qualquer um pode sentir eco-ansiedade, independentemente de sua idade, se entender que, no limite, sua saúde está ligada à saúde do meio ambiente. Vemos em nosso estudo e também em outros conjuntos de dados que essa forma de angústia é mais forte em comunidades que estão na linha de frente das mudanças climáticas. Enquanto a média global do nosso estudo é de 45%, esse número sobe para 67% em lugares como Índia, Nigéria e Filipinas, por exemplo.

No livro, você afirma que “ansiedade ecológica” se tornou a palavra da vez. Mas essa não parece ser uma discussão que tenha eco fora dos EUA e da Europa…
Não podemos nos limitar à terminologia e pressupor que se não houver um termo para “eco-ansiedade” em uma língua, isso significa que a crise ecológica não está impactando a saúde mental das pessoas. As nossas pesquisas mostram justamente o contrário. Basta formular as questões de maneira diferente: pergunte como as pessoas se sentem sobre eventos climáticos extremos, como a ameaça de escassez de alimentos e água ou sobre os efeitos da migração devido ao aquecimento global, que arruína os meios de subsistência, em vez de questionar se elas têm ansiedade ecológica. É um erro pensar que só o privilegiado ou a classe média branca e instruída sente isso. É tudo questão de adequação dos termos. Quando fazemos a pergunta de forma diferente, vemos que muitas pessoas sentem essa angústia, e identificá-la é muito importante para suas vidas.

O que devemos fazer para que as eco-emoções não se tornem debilitantes?
Seria maravilhoso se tivéssemos uma fórmula, mas não temos. As respostas psicológicas variam de pessoa para pessoa e é muito natural que os humanos, de forma geral, se afastem de sentimentos desconfortáveis. Temos defesas psicológicas que nos protegem da ansiedade e da dor para nos permitir sobreviver no mundo quando a realidade é difícil de suportar. E desenvolvemos essas defesas inconscientes realmente poderosas mesmo quando isso pode significar que estamos colocando em risco nosso futuro a longo prazo por não nos concentrarmos nesses perigos no presente. Vemos isso na crise climática, mas também estamos lidando com um ambiente de mídia em que as pessoas são bombardeadas com manchetes aterrorizantes o tempo todo, o que pode ser debilitante e narrativamente impeditivo do senso de futuro.

Você poderia explicar isso melhor?
Muitas vezes, a forma como nossa mídia é produzida e compartilhada se atém apenas à ameaça. Não se abre espaço para ações construtivas que as pessoas possam realizar nem para destacar o lado positivo de ações que já estão sendo tomadas e quais ganhos estão sendo obtidos na luta contra a crise climática. Não são divulgadas informações que ajudem as pessoas a sentir que há esperança, que há tração e que elas têm agência.

Você está dizendo que a mídia tem uma parcela de culpa?
Estamos lidando com uma catástrofe incrível da narrativa sobre a crise climática, que está prendendo as pessoas em poços de desespero e desamparo aprendido, como se não houvesse nada que pudesse ser feito e fosse tarde demais. Portanto, como essa situação avassaladora não pode ser resolvida, o melhor é nos resignarmos a esses tipos de crenças que nos impedem de agir. Precisamos de uma mudança de narrativa. Precisamos levar as pessoas a imaginar um futuro melhor para o qual estão trabalhando.

Sua pesquisa prevê uma onda crescente de preocupação com a saúde mental à medida que crise climática piora. Como a sociedade pode se preparar?
Estamos falando de traumas em nível populacional decorrentes de uma crise climática cada vez pior e de sistemas de saúde que, em muitas nações, não estão configurados para cuidar das milhares de pessoas que já precisam de serviços de atendimento mental hoje. Portanto, temos que pensar em como construir e expandir a capacidade dos sistemas de saúde, especialmente em locais de poucos recursos. Uma ideia sobre a qual escrevo no livro, e que já se provou extremamente eficaz, é o uso de agentes capacitadores. Em vez de investirmos apenas no modelo biomédico restrito — com psiquiatras, terapeutas e clínicos, o que costuma gerar um custo alto — esses profissionais de saúde mental podem treinar leigos para auxiliar no cuidado de pessoas com ansiedade e depressão em escolas, igrejas e centros comunitários, por exemplo. Foram feitos ensaios clínicos, e em muitos casos, esse tipo de ação se mostrou mais eficaz até que a atenção primária. É uma ferramenta muito poderosa.

O que explica isso?
Há muitas evidências de que alta conexão, alta confiança e alto capital social em relação ao lugar em que vivemos realmente protegem nossa saúde mental em face de desastres. Sendo o capital social entendido como a capacidade de os moradores de uma comunidade se unirem e alcançarem objetivos compartilhados. Quando definimos tarefas e aprendemos a seguir e liderar uns aos outros, e depois realizamos essas tarefas juntos, fortalecemos nossos relacionamentos e nossa capacidade de pedir ajuda dentro da comunidade. Assim, podemos nos reerguer mais rápido quando coisas ruins acontecem e também sabemos que não estamos sozinhos ou desamparados, mas que há resiliência construída dentro da comunidade por ter essa alta confiança e capital social.
Fonte: O Globo

Site pessoal:
Britt Wray

Recursos
David Wallace-Wells | Random House, 2019 | Book

Timothy Morton | Columbia University Press, 2018 | Book

Renee Lertzman | Routledge, 2016 | Book

Joanna Macy and Molly Brown | New Society Publishers, 1998 | Book

Ashlee Cunsolo and Neville R. Ellis | Nature Climate Change, 2018 | Article

Jem Bendell | IFLAS, 2018 | Article

American Psychological Association, 2017 | Article

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sábado, 3 de dezembro de 2022

Eco-ansiedade: Preocupar-se com as alterações climáticas pode ser stressante


Quão preocupados estão com as questões ambientais? Se pensarmos nas alterações climáticas e na perda de biodiversidade nos stressa, não estamos sozinhos. Os psicólogos estão a tentar compreender este sentimento, que se chama eco-ansiedade, e estão a descobrir que esta preocupação pode ser essencial para a nossa luta para salvar o planeta, avança a “Science Focus”.

Segundo a mesma fonte, para nos ajudar a medir a eco-ansiedade, em finais de 2021, o psicólogo australiano aplicado Teaghan Hogg e colegas propuseram uma nova escala: a Escala de Eco-ansiedade Hogg. Dividida em 13 itens, capta os nossos sentimentos complexos sobre o planeta.

A escala é medida por emoções negativas como o nervosismo, a beira do abismo, ou o medo sobre questões ambientais incluindo o aquecimento global, a degradação ecológica, o esgotamento de recursos, a extinção de espécies, o buraco na camada de ozono, a poluição dos oceanos, e a desflorestação. A escala também mede se somos incapazes de deixar de pensar nas alterações climáticas ou nas perdas para o ambiente.

Além disso, tenta perceber como estes sentimentos e pensamentos mudam o nosso comportamento, como se lida com as dificuldades para dormir, trabalhar, ou desfrutar de situações sociais. E, como nos sentimos responsáveis, como nos sentimos ansiosos pelo impacto dos nossos comportamentos pessoais na Terra, ou se os nossos comportamentos individuais pouco farão para resolver o problema.

Se pensassem apenas: “uau, isso sou eu a maioria dos dias”, então provavelmente têm uma elevada eco-ansiedade. Isto é comum em todo o mundo, em todas as idades, mas, parece ser o mais pronunciado entre os jovens.

Em 2021, investigadores e conjunto com a UNICEF publicaram o primeiro inquérito internacional em larga escala sobre a ansiedade climática em crianças e jovens. Inquiriram 10.000 pessoas entre os 16 e os 25 anos de idade, em 10 países (Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido, e EUA). Verificaram que 59 por cento das pessoas estavam muito ou extremamente preocupadas com as alterações climáticas, e 84 por cento estavam pelo menos moderadamente preocupadas.

Explorando diretamente as facetas da eco-ansiedade, os investigadores da UNICEF descobriram também que metade das crianças e jovens relataram sentir-se tristes, ansiosos, zangados, impotentes, indefesos e culpados por questões ambientais. Mais de 45% disseram o que sentiam sobre as alterações climáticas afetando negativamente a sua vida diária, com receios sobre o futuro dominando os seus pensamentos e sentimentos profundos de traição por parte dos governos.

“Este é um problema potencial para a saúde mental. Sentir-se constantemente ansioso e preocupado com o clima pode levar a stress crónico na infância, o que pode ter consequências duradouras”, sublinha a “Science Focus”.

Será que os jovens vão ficar mentalmente doentes devido ao constante stress que estas questões têm na sua mente? Numa análise da investigação sobre as consequências para a saúde da eco-ansiedade publicada em 2022, uma equipa de investigadores espanhóis e brasileiros descobriu que esta está associada à depressão, ansiedade, stress, insónias, menor autorreferência à saúde mental, diminuição da memória e da atenção, e uma relutância em ter filhos.

Isto não significa que os jovens de hoje sejam todos afetados pela eco-ansiedade. Mas quer dizer que “temos de estar atentos aos efeitos psicológicos que as alterações climáticas estão a ter”.

O lado positivo da eco-ansiedade

“Há também um lado positivo da eco-ansiedade. Tem estado ligada à ação pró-ambiental e ao ativismo climático. É por causa disto que alguns investigadores têm argumentado que, em geral, a eco-ansiedade é uma coisa boa porque é uma ansiedade prática”, sublinha o site.

A ansiedade é a forma do nosso corpo nos dizer que podemos estar em perigo. Isto leva-nos a tentar descobrir qual é essa ameaça, levando-nos a encontrar mais informação e a descobrir uma solução que nos torne seguros. A crise climática é um perigo muito real. É bom que os nossos cérebros estejam a tentar fazer-nos prestar atenção e fazer algo a respeito, porque é assim que derrotamos esta ameaça.

Os investigadores que examinaram a ligação entre a eco-ansiedade e a saúde descobriram que a ação pró-ambiental poderia proteger especificamente contra esta ansiedade que evolui para a depressão.

“Por outras palavras, particularmente se tiver ansiedade ecológica, apanhar o comboio em vez de voar, reciclar, fazer petições ao funcionário do governo local, ou aderir a uma marcha, não é apenas bom para o planeta, pode também fazer maravilhas para a sua saúde mental”, conclui a mesma fonte.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Educação para a Cidadania

A disciplina "Educação para a Cidadania" prepara os alunos para a realidade do séc XXI. Interessa-se pelo esclarecimento juntos dos jovens alunos, o que é a democracia, como funciona, a literacia financeira (muito importante) e a educação ambiental. Num mundo em crise ecológica, é fundamental ver com alguma sensatez, não criar a eco-ansiedade nos nossos jovens Alunos. 
A Educação Sexual é muito relevante para não haver ou continuar a acontecer nascimentos em adolescentes, aumento da incidência de Infecções Sexuais Transmissíveis em Portugal e mais respeito pela identidade de género. Para não acentuarmos as desigualdades num mundo empresarial ainda baseado no patriarcado, quando temos poucas mulheres como CEOs nas nossas empresas. E sim, acabar com o estigma homofóbico e transfóbico. Já basta as consultas de psicólogos e a dor pessoal de adolescentes que querem assumir a sua identidade sexual, com alegria e em liberdade.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

COP 26: Esta eco-ansiedade não é (só) para novos

A meados de setembro o meu telefone tocou, com uma chamada da Ti Maria. Queria falar urgentemente comigo sobre Alterações Climáticas porque, para além de saber que eu estudava o assunto, eramos praticamente vizinhas. Separavam-nos umas décadas de idade, mas eramos ambas nascidas e criadas na ria de Aveiro, com o oceano Atlântico aos pés.



Pegou no título do Expresso, e leu-me: “Alterações climáticas em Portugal: em breve teremos de começar a retirar pessoas da orla costeira do Norte”. Depois mudou de tom, e disse: “só quero que me digas se tens a certeza. Diz aqui que Aveiro é uma mancha vermelha assustadora e que, segundo o estudo, nos vão tirar das nossas casas. Se for verdade, pegamos nas trouxas, e vendemos tudo.”

A Ti Maria esperou resposta do outro lado, mas a minha boca não se abriu. De marés e truques do tempo não havia quem batesse aquela senhora pescadora. Mas fogos na Califórnia, degelo no Ártico e inundações na China não lhe diziam nada.

“Dizem isto da nossa terra, e depois constroem casas de ricos ao lado"

Agora estava com medo, à espera que eu falasse. Acrescentou: “Dizem isto da nossa terra, e depois constroem casas de ricos ao lado. Tenho de comprar um carro elétrico, e depois querem aeroportos! Parece que vivemos como criminosos o tempo todo, no nosso próprio sítio... Sinto-me burra. Olha eu, refugiada na minha terra. Dá lá vontade de votar”. E acabou: “Tens a certeza, ou não?”

Eu tinha duas hipóteses. A minha hesitação já soava a incompetência e desrespeito à Ti Maria, que achava que se eu estudo é para saber estas coisas. E aos meus colegas da emergência climática (palavra do ano de 2019) também, cuja resposta seria um sim garrafal justificado - sem espaço para dúvidas.

Respirei, e soltei a deixa, à espera da retaliação: “Não, não tenho a certeza” – respondi à Ti Maria. E antes que ela conseguisse acabar o suspiro de alívio, acabei a frase - “porque ninguém tem a certeza de nada”.

A Ti Maria chamou-me um nome feio (menos mau do que aquele que eu merecia). Disse que não percebia que raio andava eu a fazer na universidade, se nem um simples sim ou não conseguia dar (também a compreendo). Que ia era deixar de ver notícias (eu falo sobre isto depois). E desligou o telefone... (um dia ainda a apanho no talho e falamos, se ela voltar a olhar para mim).

No artigo do Expresso sublinhava-se a importância de “termos de ser capazes de explicar às pessoas, e fazer com que as pessoas acreditem, que é inevitável que as incursões [do mar] vão ser cada vez mais violentas e mais frequentes".

Assim, cada vez mais autores apoiam o uso persuasivo de histórias na comunicação da ciência climática para solucionar as “falhas de ação”, entre aquilo que as evidências científicas “mostram que deve ser feito” e “aquilo que é feito”, para mitigar os impactos das alterações climáticas. A comunicação da ciência do clima é assim feita através de diferentes narrativas em função do público-alvo para criar uma “adesão democrática para stakeholders e unificar abordagens, filosofias e atitudes”.

Os níveis de medo e angústia advindos da “eco-ansiedade” são brutais

São exemplos os atores e narrativas que colocaram, em 2018 e 2019, o tema das alterações climáticas na ordem do dia (“interrompidos” pela pandemia). Os Extinction Rebellion utilizam narrativas catastróficas como “o colapso é iminente” ou “12 anos para salvar o mundo”, que também é referido no Relatório Especial do 1.5ºC do IPCC. Greta Thumberg e as greves estudantis utilizam narrativas de justiça e igualdade que clamam que “estão a destruir o nosso futuro”. E a principal narrativa, na qual se baseia a atual Cimeira do Clima em Glasgow - a económica – que defende que a solução é “reconciliar a economia com o nosso planeta”, através da descarbonização da economia e eletrificação global da rede.

Contudo, os níveis de medo e angústia advindos da “eco-ansiedade” são brutais, bem como os seus efeitos negativos no dia-a-dia. Um estudo na Nature dá conta do fenómeno entre os jovens (16-25 anos), cuja maior preocupação é que os governos não estejam a fazer nada para evitar uma catástrofe ambiental. E a Ti Maria mostra que a eco-ansiedade não é só para novos, e importa-lhe a morada fiscal (que levou a vida para pagar ao banco), o serviço de porcelana da Vista Alegre (herdado da avó) e, o mais importante, evitar o desespero de que um dia um filho lhe venha a cobrar o facto de ter tomado a decisão errada.

A Ti Maria deixou de se sentir em casa, e os caminhos mais prováveis, quando isso acontece a alguém, são o da radicalização – que nos leva a embarcar em projetos prejudiciais a nós próprios ou aos outros - ou da alienação – em que procuramos mais entretenimento e perdemos a vontade de lutar seja pelo que for. Bertrand Russell descreveu-o, em Insustentabilidade da Sociedade Científica (1949), logo depois do fim da Segunda Guerra.

Assim sendo, e porque a personagem da Ti Maria é baseada em factos reais, gostava de lhe ter explicado que a natureza da ciência implica níveis de probabilidade e incerteza (Fortner, 2000).

Que, em termos práticos, e deixando a epistemologia para depois (ciência que estuda o conhecimento), as “projeções avançadas pela Climate Central para 2030”, citadas na notícia, não são uma profecia. São sim o resultado de “cenários” (valores estimados para o futuro forçamento radiativo no planeta) submetidos a “modelos” (simulações da forma como o sistema climático funciona), cujas conclusões são debatidas, e utilizadas como informação de apoio a tomadas de decisão. E que a ciência como dogma é tão eficaz quanto perigosa. Não querendo ser spoiler, já dizia Frank Herber, em DUNE: “Eu não devo temer. O medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que traz a obliteração total.”

É problemático exigir respostas de “sim e não” à ciência

Os últimos dois anos de pandemia ofereceram, e continuam a oferecer, bastantes exemplos de como é problemático exigir respostas de “sim e não” à ciência para legitimar decisões em estados democráticos.

Podemos correr o risco de alimentar uma crise de verdade, onde as fake-news e os movimentos negacionistas utilizam a narrativa da incerteza como factor de descredibilização do conhecimento científico. Quando, em verdade, o ceticismo (que é o ato de questionar, e não o ato de negar) é a base da ciência. Os discursos negacionistas de Donald Trump e Jahir Bolsonaro são um exemplo do uso desta narrativa nas Alterações Climáticas.

Também gostava de dizer à Ti Maria que, apesar da minha resposta, todos precisamos de certezas para conseguir viver nesta sociedade. Que a construção social da realidade de cada um é construída através de rotinas de espaço e tempo definidos (aqui e agora), onde o indivíduo não formula problemas a si próprio sobre o que é a “realidade” ou sobre o que "sabe".

Cada pessoa é especializada num papel, e espera a mesma contribuição dos outros na sociedade, pelo que reconhece a realidade como um fenómeno que lhe é independente. Quando a rotina é interrompida por um problema, procura integrá-lo dentro do que ainda não é problemático, ou seja, está institucionalizado.

O problema que afeta a Ti Maria, e a sociedade atual em geral, é que a “modernidade” já não existe. Os indivíduos aceitavam determinados graus de autoritarismo, fossem através do estado, do emprego, da própria família ou de outras instituições da sociedade, em troca da segurança e estabilidade de vida prometida pelas organizações.

Só que como os riscos sociais políticos, ecológicos e individuais escapam cada vez mais ao controlo das instituições típicas da sociedade industrial a crise aparece (Beck,1992).

A mudança é a única coisa permanente e a incerteza é a única certeza

Na pós-modernidade, o cidadão leigo é confrontado diariamente com conceitos que alertam para a propensão ou predisposição para ser adversamente afetado por algo que não conseguem sensorialmente concluir (IPCC, 2013), e não por problemas momentâneos e visíveis, com um grau de consenso da comunidade científica e um conhecimento comprovado por causas rígidas.

Os órgãos de governo e agentes económicos, para legitimar as sua decisões, exigem, por vezes, à comunidade científica que forneça informações precisas e previsões proféticas, mas os sistemas complexos apresentam limites difusos, enquadramentos de diferentes grupos e indivíduos, soluções pouco claras e incerteza científica substancial, difícil de quantificar.

A mudança é a única coisa permanente e a incerteza é a única certeza. A sociedade líquida (que abandona a industrial e começa com a revolução digital) traz liberdade individual, mas destrói também a segurança projetada em torno de uma vida estável.

“Pior que uma mentira é uma convicção”

Afinal, quanto mais sabemos sobre determinado assunto, mais fatores descobrimos que antes não contabilizávamos ou mesmo reconhecíamos. E quanto “mais conhecimento, menos certeza” (Trenberth, 2010). Como o meu filósofo preferido, Nietzsche, diz: “todos os cientistas são céticos” e, “pior que uma mentira é uma convicção”.

Porque também eu, como a Ti Maria, questionei, com 14 anos, quando é que ia ficar sem casa, perante as imagens de Verdade Inconveninente, e aquelas capitais mundiais a serem inundadas. E agora escrevo este artigo, em 2021, na mesma casa que (ainda) não foi ao fundo. Enquanto se decide como “salvar o planeta” na “last call”, em Glasgow, e se constroem prédios como nunca se construíram, na ria e nas praias da minha terra.

(A Ti Maria viu-me na rua no outro dia, e cumprimentou-me de fugida. Eu sei que assim não faço muitos amigos.)

Fonte: aqui