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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Refúgios climáticos: a solução que pode tornar as cidades mais resilientes às ondas de calor


As ondas de calor têm-se tornado mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, afetando sobretudo quem vive nas cidades. Ruas asfaltadas, edifícios de betão, falta de árvores e escassez de zonas de sombra criam o chamado efeito de ilha de calor urbana, fazendo com que a temperatura nas cidades seja significativamente superior à das áreas envolventes.

Nos últimos anos têm surgido várias iniciativas para responder a este desafio. Em Portugal, por exemplo, foi recentemente apresentado o Pro Nat.Urbe, um programa que pretende investir na criação de mais espaços verdes, corredores ecológicos e redes de conforto climático para tornar as cidades mais resilientes.

Agora surge uma nova medida complementar. O Turismo de Portugal lançou a Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool, integrada na Agenda para a Ação Climática no Turismo 2030, que pretende criar uma rede nacional de espaços preparados para proteger residentes e visitantes durante períodos de calor extremo.

Mas afinal, o que são refúgios climáticos? E porque poderão tornar-se tão importantes como os parques urbanos ou as bibliotecas?
O que são refúgios climáticos?

Os refúgios climáticos são espaços gratuitos onde qualquer pessoa pode encontrar conforto térmico durante uma vaga de calor.

Podem ser espaços interiores, como bibliotecas, museus, centros comerciais, equipamentos culturais, igrejas ou edifícios públicos climatizados, mas também espaços exteriores desde que ofereçam sombra, vegetação e condições adequadas de descanso.

Para integrarem a rede devem disponibilizar, sempre que possível:
  • sombra natural ou artificial;
  • vegetação;
  • água potável;
  • zonas de descanso;
  • instalações sanitárias;
  • boa ventilação ou climatização;
  • acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;
  • informação sobre proteção durante ondas de calor.

O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa possa encontrar rapidamente um local seguro para recuperar do calor intenso.

Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e famílias que vivem em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico.

Em Portugal, muitas casas permanecem demasiado quentes durante o verão devido à pobreza energética, tornando os refúgios climáticos uma extensão do próprio espaço habitacional durante os dias mais extremos.

Barcelona tornou-se uma referência mundial
Uma das cidades que mais tem investido nesta estratégia é Barcelona.

A cidade iniciou a sua rede em 2020 com cerca de 70 espaços e atualmente disponibiliza centenas de refúgios climáticos distribuídos por praticamente todos os bairros. O objetivo é que todos os residentes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um refúgio climático não é apenas um edifício com ar condicionado.

Barcelona definiu critérios rigorosos para estes espaços, incluindo temperatura adequada, acesso gratuito, água potável, casas de banho e zonas para descansar. Nos espaços exteriores, exige igualmente sombra e áreas verdes.

A cidade utiliza bibliotecas, escolas, museus, centros cívicos, mercados e parques urbanos, todos identificados através de sinalização própria e integrados num mapa digital acessível aos cidadãos.

Lisboa também começa a dar passos

Em Portugal, Lisboa tem vindo igualmente a desenvolver soluções.

Além de vários jardins, bibliotecas, museus e equipamentos culturais que funcionam como locais de abrigo durante episódios de calor extremo, foram criados mapas que identificam estes espaços, permitindo aos cidadãos encontrar rapidamente um local para descansar e refrescar-se.

Investigadores portugueses têm também desenvolvido ferramentas que ajudam a identificar as zonas da cidade mais vulneráveis ao calor, cruzando informação como:
  • intensidade da ilha de calor urbana;
  • densidade populacional;
  • distância a parques e jardins;
  • existência de árvores;
  • proximidade de bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Esta análise permite priorizar os locais onde novos refúgios climáticos poderão ter maior impacto.

Adaptar a cidade, não apenas criar edifícios frescos
Os especialistas defendem que os refúgios climáticos são apenas uma parte da solução.
O verdadeiro desafio passa por transformar as cidades para que estas sejam naturalmente mais frescas.

Algumas das medidas mais eficazes incluem:
  • plantar mais árvores nas ruas;
  • criar corredores verdes;
  • instalar estruturas de sombra temporárias ou permanentes;
  • substituir superfícies impermeáveis por materiais mais permeáveis;
  • aumentar as zonas com água, como fontes e espelhos de água;
  • reduzir áreas asfaltadas;
  • criar microflorestas urbanas;
  • instalar bebedouros públicos;
  • preservar corredores naturais de ventilação;
  • diminuir o tráfego automóvel, reduzindo o chamado calor antropogénico.
Mesmo pequenas intervenções podem fazer diferença. Em Lisboa, por exemplo, projetos experimentais recorreram a estruturas têxteis para criar sombra em espaços onde a plantação de árvores não era possível, demonstrando que soluções simples podem melhorar significativamente o conforto térmico.

Os mapas podem salvar vidas
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, os mapas digitais assumem um papel cada vez mais importante.

Saber onde existe um refúgio climático próximo pode ser tão importante como localizar um hospital ou uma farmácia.

Aplicações móveis, sistemas de informação geográfica e plataformas de turismo podem integrar estes locais, permitindo aos utilizadores encontrar rapidamente um espaço fresco, verificar horários de funcionamento e receber indicações através da geolocalização.

A informação torna-se assim uma ferramenta de proteção da saúde pública.

Um investimento na adaptação ao calor extremo
Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou o automóvel, o betão e a impermeabilização do solo. Hoje, as prioridades começam a mudar.

Criar cidades mais resilientes passa por aumentar a sombra, reforçar os espaços verdes, recuperar zonas de água e garantir que todos têm acesso a locais seguros durante as ondas de calor.

Os refúgios climáticos representam uma resposta concreta, relativamente simples e de rápida implementação, que pode proteger milhares de pessoas enquanto as cidades se adaptam aos períodos de calor extremo.

Ler mais:

sexta-feira, 12 de junho de 2026

November Ultra - Silencio (feat. Patrick Watson)


Letra
Silencio
Yo te di el silencio
Pa' que tú entiendas
¿Cómo
Va la vida?
¿Cómo
Va la vida?

I lost my voice 'cause I talked too loud
Like an old friend that ain't hanging around
In this quiet while I do my best
But I can't stop making this shit up in my head
But that's alright, I think I see the light
Half of the time, and we're just talking to ourselves

And you want to explode
And let the world know
It's the middle of the night, you're all by yourself
Begging, praying, chasing, looking for a reason, won't you let it go?
'Cause you don't know
Then you take a bow, watch the quiet smile and say "Anyhow"

I've been too many lives
I've been too many tries
Too many times, losing my mind
Thinking about what I said last night
I think you like me better since I lost my voice
Something about this quiet

¿Cómo va la vida?
No sé si bien o mal, la vida sigue igual
Doy sentido a las palabras de la gente
And, ¿Cómo va la vida?
Si queries la verdad, me cuesta respirar
A veces ya no quiero levantarme
¿Cómo va la vida?
Oir sin escuchar, no sé qué preguntar
Hubiera deseado que me escuches

It was late last night, you know
I was laying in my bed
I just wanted to know
Well, how are you doing?

Woah, just let the quiet smile
All of the "I don't know why" s, you've already tried
You're breaking your mind, so you wave and walk by
Oh, just gotta let it go
Well, the funny thing is
They think you're smarter when you shut your mouth
Take a break from yourself while you wander around
You close your eyes with a quiet smile
Hmm-mm-mm

Escúchame
Escúchame

Significado da canção
A canção "Silencio", de Patrick Watson em colaboração com a artista francesa November Ultra, carrega um significado profundamente íntimo e transformador, tendo nascido de um momento de grande vulnerabilidade física e emocional. O tema central da obra gira em torno do poder da escuta, da humildade e da redescoberta de si mesmo através do silêncio forçado, servindo quase como uma reflexão espiritual sobre a comunicação humana.

A grande inspiração por detrás desta composição foi um problema de saúde real de Patrick Watson, que o deixou completamente sem voz durante cerca de três meses. Para um cantor e compositor que vive da sua expressão vocal, este episódio poderia ter sido catastrófico, mas acabou por se transformar numa lição de humildade. Watson partilhou que o silêncio lhe trouxe a constatação, com um toque de humor, de que falava demasiado no dia a dia. Ao ser obrigado a calar-se, percebeu que muitas das coisas que dizia não eram assim tão cruciais e que, frequentemente, passava mais tempo a falar sozinho do que a dialogar verdadeiramente com os outros.

Esta experiência mudou a sua forma de interagir com o mundo, revelando-lhe a arte de saber ouvir e a importância de dar espaço ao outro. Watson notou que, quando deixava de tentar preencher o vazio com palavras, as pessoas ao seu redor começavam a ocupar esse espaço com as suas próprias confidências e verdades. O silêncio forçado ensinou-o a ser um ouvinte muito mais atento e empático, levando-o à conclusão de que nos tornamos muito mais vulneráveis quando somos nós a falar do que quando nos limitamos a escutar.

A participação de November Ultra enriquece esta narrativa, uma vez que a artista trazia a sua própria bagagem de exaustão física e colapso vocal após uma longa digressão, precisando também ela de reaprender a respirar e a respeitar o silêncio do seu corpo. Cantada numa mistura de espanhol e inglês, a música abre com os versos "Yo te di el silencio / Pa' que tú entiendas", sintetizando a ideia de que o silêncio não é uma ausência de comunicação, mas sim o melhor presente que podemos dar a alguém — ou a nós mesmos — para que surja uma compreensão real e honesta. Em resumo, "Silencio" é um hino poético sobre encontrar beleza e clareza no vazio, aprendendo a calar o ruído do mundo para valorizar a presença genuína através da escuta.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Viver de créditos de biodiversidade ou aprender a viver com o capital natural?


Fala-se cada vez mais de créditos de biodiversidade.

E ainda bem que se fala de biodiversidade, de financiamento da natureza e de novos instrumentos para valorizar aquilo que durante décadas foi tratado como gratuito, invisível ou inesgotável.

Mas há uma palavra que me inquieta: 𝗰𝗿𝗲́𝗱𝗶𝘁𝗼

Na economia, viver a crédito significa muitas vezes usar hoje valor que ainda não temos, empurrando para amanhã uma responsabilidade que não desaparece.

Na biodiversidade, o risco é parecido: convencermo-nos de que podemos degradar aqui, compensar ali, comprar mais tarde, certificar depois. Mas a natureza não é uma folha de cálculo tão obediente.

Um carvalhal maduro, uma linha de água funcional, um solo vivo, uma comunidade de polinizadores, um sapal, uma sebe antiga ou uma árvore urbana adulta não se recriam por transferência bancária. Não são apenas “unidades” substituíveis. 𝗦𝗮̃𝗼 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗮𝗰𝘂𝗺𝘂𝗹𝗮𝗱𝗼, 𝗿𝗲𝗹𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗲𝗰𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮𝘀, 𝗺𝗲𝗺𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼, 𝗰𝗮𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹 𝘃𝗶𝘃𝗼.

Talvez por isso eu goste mais de outra metáfora financeira: não o crédito, mas a conta-poupança.

Gerir biodiversidade devia começar por aquilo que já temos. Conhecer o nosso património natural, medir o seu estado, evitar perdas, restaurar funções ecológicas, aumentar resiliência, reinvestir nos sistemas vivos que sustentam água, solo, alimento, conforto térmico, paisagem e bem-estar.

Ou seja: antes de perguntar “quantos créditos posso comprar?”, talvez devêssemos perguntar, que capital natural tenho, como o estou a gerir, que juros ecológicos me está a devolver e que dívida estou a deixar ao território?

Os créditos de biodiversidade podem vir a ter um papel, se forem rigorosos, transparentes, adicionais, auditáveis e não servirem para legitimar destruição. A própria Comissão Europeia tem vindo a enquadrá-los como instrumentos para mobilizar investimento privado em acções positivas para a natureza, e não como licença para degradar. 

Mas talvez a grande mudança cultural não esteja em criar mais um mercado.
Talvez esteja em perceber que a biodiversidade não é uma despesa ambiental: é património produtivo, infraestrutura natural e capital territorial.

E que, antes de viver a crédito, é melhor aprender a viver com o que temos.
Porque na natureza, ao contrário da banca, quando o capital se perde… nem sempre há refinanciamento possível.

Referências bibliográficas:
  1. Não é só biomassa: preservar a biodiversidade das florestas é urgente e essencial para sua manutenção e também para a resiliência climática
  2. O potencial dos créditos de biodiversidade
  3. Contributos para o estudo do Direito da protecção da biodiversidade
  4. Designing a biodiversity credit accounting framework for environmental investment and financing
  5. Relatório OCDE (2025) - Scaling Up Biodiversity‑ Positive Incentives
  6. Biodiversity credits: Concepts, principles, transactions and challenges
Livros
  1. Cristina Chaves et al (2023)- Economia do Ambiente - conceitos e desenvolvimentos
  2. Field, Barry C.; Field, Martha K (2002)- Environmental Economics – An Introduction , McGraw-Hill(3rd ed.)
  3. Georgescu-Roegen, N. (1971) - The Entropy Law e the Economic Process, Harvard Universidade Press.
  4. Georgescu-Roegen, N. (1977) - Matter matters too‘, in: Wilson, K. D. (ed.), Prospect for Growth: changing expectações for the future, Praeger, New York.
  5. Joan Martínez Alier (1999) - Introduccio A L'Economia Ecologica
  6. Karl Polanyi (1944) A Grande Transformação 
  7. Pearce, David W.; Turner, R. Kerry (1990)- Economics of Natural Resources and the Environment, Harvester Wheatsheaf

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

Mais info:

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Hegseth Says Climate Change Is ‘Crap.’ The Military Is Still Bracing for It


When Hurricane Michael, a Category 5 storm, tore through Florida’s Tyndall Air Force Base in 2018, it battered F-22 stealth fighter jets, destroyed hundreds of buildings and churned up 700,000 cubic yards of debris. The total cost of the damage approached $5 billion.

Now, Tyndall is being rebuilt as a super-resilient “installation of the future.” New buildings sit more than a foot above the ground, to remain dry through 75 years of sea-level rise. Their roofs are designed to withstand winds of up to 165 miles per hour. Manmade oyster reefs will protect coasts by breaking up waves.

The massive project will be 70% complete next year, said the officer leading it, Col. Robert Bartlow, chief of the US Air Force Civil Engineer Center Natural Disaster Recovery Division. “This is a first for the Air Force,” he said, with large-scale, cutting-edge construction taking place “on top of an existing base, while there was a continued flying mission.”

Storms like Michael are becoming more powerful and damaging as the world warms, and many military installations are exposed to them and other climate hazards. Still, Secretary of Defense Pete Hegseth vowed last year that the Pentagon wouldn’t do any “climate change crap” on his watch. Biden-era climate action plans were scrapped, and the 2025 National Security Strategy invoked climate change only to label it a “disastrous” ideology. Hegseth canceled nearly 100 research studies related to global warming and security, which experts say will compound the loss of climate knowledge across the federal government under President Donald Trump.

“Because ‘climate’ is a dirty word, we’re not investing in that predictive capability,” said Sherri Goodman, secretary general of the non-governmental International Military Council on Climate and Security and, from 1993 to 2001, the US deputy undersecretary of defense for environmental security.

But as Tyndall shows, the Defense Department is still engaged on one front of the climate fight: steeling its bases against the effects of a warming atmosphere, such as higher seas, fiercer storms and deadlier fires. A new flood wall is rising at the US Naval Academy in Maryland; a low-lying Air Force runway is being elevated in Virginia; and projects are underway to reduce wildfire risk around various military sites in Hawaii.

Work that was previously described as confronting the climate threat is now touted for ensuring “resilience” and “readiness.” The semantics are a nod to necessity: At stake are hundreds of billions of dollars of assets and the ability to launch missions quickly and smoothly.

“Ultimately, the military is a very pragmatic institution,” said John Conger, a past director of the nonprofit Center for Climate and Security and a senior Defense Department official during the Obama administration. “It wants to maintain mission capability. Whether we’re going to call it ‘climate,’ not ‘climate,’ whatever — if I can’t get to the base because the road is flooded, that’s a problem.”

Representatives of the Defense Department declined to comment.
Global warming impinges on American security and military operations in numerous ways. More climate-driven disasters means more deployments to respond to them. Extreme heat makes it harder for jets to lift off and sickens soldiers during training exercises. Climate change also acts as a “threat multiplier” – a term that Goodman coined – around the world. It can exacerbate drought conditions, which may limit water or food in regions already primed for conflict.

Much of the military’s resilience work began years ago; construction timelines are long. The $900 billion 2026 National Defense Authorization Act, which Trump signed into law in December, includes measures that could be said to come under the umbrella of climate adaptation. The law bolsters the military’s ability to respond to wildfires; raises the cost limit for replacing structures destroyed by disasters; and requires military leaders to identify the biggest risks to water security on bases.

Congress has given the military “decades-long, bipartisan direction” to prepare for climate change, even at times when the term itself was out of political favor, noted Will Rogers, a principal of Converge Strategies and the senior climate advisor to the secretary of the Army from 2022 to January 2025.

If climate preparedness is another term for environmental assessment, “the Army’s been doing this regularly now since World War II,” said Frank Galgano, a geographer at Villanova University who retired from the Army as a lieutenant colonel in 2007.

The approach may not have shifted, but the atmosphere has. Extreme weather and disasters have caused $15 billion of damage to defense facilities over the past decade. In 2023 alone, Typhoon Marwar ravaged two bases on Guam, heavy rains swamped the campus of West Point in New York and a landslide blocked the main road at Camp Pendleton in California.

Close to $400 billion of federal government assets, most of them belonging to the Defense Department, are at high risk of being hit by a major coastal flood or storm in coming years, according to a Bloomberg Law analysis.

The Pentagon explicitly recognized the warming climate as a danger for many years. The 2008 National Defense Strategy flagged climate change as an emerging risk, and two years later it was named a national security threat in the Pentagon’s Quadrennial Defense Review. After that, the Defense Department and the individual armed forces put out a stream of climate and sustainability plans. (Some have now been removed from government websites.)

James Mattis, who served as defense secretary during President Donald Trump’s first term, described climate change as a destabilizing force in 2017. His Biden-era successor Lloyd Austin said in 2021, “We face all kinds of threats in our line of work, but few of them truly deserve to be called existential. The climate crisis does.”

Trump and Hegseth have made a sharp pivot. In a March 2025 memo to military leaders, Hegseth called climate change a “distraction” from fighting wars, ordered that references to it be removed from mission statements and barred any environmental initiatives from being included in the Future Years Defense Program, a strategic plan.

Hegseth also included a caveat big enough to steer an aircraft carrier through. “Nothing in this memorandum,” he wrote, “shall be construed to prevent the department from assessing weather-related impacts on operations, mitigating weather-related risks, conducting environmental assessments, as appropriate, and improving the resilience of military installations.”

Days after Hegseth issued his memo, the Pentagon’s guidance on master planning for bases was updated. (By law, every major military installation must have a master plan.) In the older version from 2022, the word “climate” was used 54 times. It doesn’t appear once in the new version, which still directs planners to identify and mitigate risks from extreme weather.

Bartlow, at Tyndall, sees no contradiction between that project and Hegseth’s guidance.

The overarching goal at Tyndall, he said, is “preserving lethality in a high-end combat capability. When we talk about resilience, it’s focused on preserving that combat capability.” If another Category 5 hurricane hits, “there’ll be some interruptions, but the idea is you’ll be able to recover this installation quickly,” Bartlow said. “You can make that direct link back to readiness.”

Hardening efforts continue elsewhere but are falling short. A February Government Accountability Office report found that the military has failed to track all the costs from disaster damage and hasn’t fully incorporated climate-change projections into facility designs, and that many of its master plans still haven’t been updated to promote greater resilience.

One constraint is funding. “Our installations are funded at about 80% of what they need on a day-to-day basis,” said Rogers, the former Army climate adviser.

The Iran war could apply more pressure. Defense officials “could use their reprogramming authority to pay for contingency operations in Iran” with money meant for fortifying bases, said Rogers. “I would be worried about that, depending on how long this goes.”

Although the Pentagon has maintained a focus on resilience, under Hegseth it has backed off efforts to lower its emissions — the US military is the single biggest climate polluter in the country — and develop green ships and tanks. The armed forces have in recent years explored using hybrid and electric tanks for tactical, not just environmental reasons: They reduce reliance on diesel supply lines, are quieter and are less detectable to heat radar. While the Army is moving ahead with its hybrid M1E3 tank, funding for such initiatives has declined, said Rogers.

Of the studies that Hegseth canceled, some focused on the Indo-Pacific, where China has ambitions, noted Goodman. She said the lost knowledge and reduced funding for climate and weather research – not just in the military but in agencies like the National Oceanic and Atmospheric Administration – could set back defense planning.

She offered a hypothetical example: With AI pushing the envelope in forecasting, an adversary could anticipate and take advantage of a weather event to launch a cyberattack on the US. “And if we’re not understanding that,” she said, “then we have become more vulnerable.”

sábado, 28 de março de 2026

François Fressinier

A obra "The Blue Anemone" (2005), de François Fressinier, é um exemplo fascinante de como o artista equilibra a herança do Renascimento com uma sensibilidade moderna e vibrante. Através de um grande plano focado no olhar penetrante da figura feminina, Fressinier convida o espectador a entrar num mundo de introspeção e força silenciosa. A paleta de cores, marcada pelo contraste dramático entre o vermelho intenso dos lábios, o azul elétrico da maquilhagem e a suavidade da flor branca, cria uma composição que é simultaneamente etérea e assertiva. As linhas verticais e as gotas de tinta que escorrem pela tela conferem à pintura uma textura contemporânea, quase urbana, que quebra a perfeição clássica do rosto, sugerindo que a beleza e a resiliência feminina são forjadas através do tempo e da experiência. É nesta fusão de delicadeza floral e olhar inabalável que reside a sua abordagem única ao empoderamento, transformando o retrato numa celebração da consciência e da autonomia da mulher.

François Fressinier (pintor Francês, nascido em 1968)
A sua obra é marcada por uma mistura de influências dos Mestres Antigos com elementos modernos, focando quase sempre na figura feminina e em atmosferas serenas e simbólicas. Ele estudou na prestigiada École Brassart, em Tours, e as suas obras são amplamente exibidas e colecionadas, especialmente nos Estados Unidos.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Cat Power - Cherokee


"Cherokee" é uma das músicas mais conhecidas de Cat Power, lançada como single do álbum Sun (2012). Embora seja norte-americana, ela possui ascendência Cherokee (por parte do seu avô materno), o que explica o título da canção e sua forte conexão com a cultura e a história dos povos nativos dos EUA.

Cherokee
Cat Power

It's my way
It's my way down...

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies (...thing dies)
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down (x2)

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down(x3)

It's my way down...

Em "Cherokee", Cat Power explora temas de transcendência e libertação face à mortalidade. O verso repetido “Bury me, marry me to the sky” (“Enterre-me, case-me com o céu”) expressa o desejo de ir além da morte física, procurando uma ligação espiritual com o universo. Elementos naturais como “the wind, the moon, the earth, the sky” (“o vento, a lua, a terra, o céu”) reforçam esta procura por algo maior, sugerindo que as emoções vividas são tão intensas como as forças da natureza.

O videoclipe, que mostra Cat Power como uma caçadora de zombies num cenário pós-apocalíptico, intensifica o sentimento de luta pela sobrevivência e o confronto com a morte. Isto transforma a música numa reflexão sobre a resiliência e a possibilidade de renascimento mesmo no meio da destruição. A frase “Cherokee kissing me when I’m on my way down” (“Cherokee beijando-me quando estou a cair”) pode ser vista como uma referência à cultura indígena norte-americana, evocando rituais de passagem e respeito pela terra, ou como um gesto de conforto em momentos de queda emocional. O pedido para ser enterrada de cabeça para baixo sugere uma inversão das tradições sobre a morte, talvez como protesto ou procura de uma nova perspectiva. A sonoridade eletrónica e atmosférica da faixa, marcada por uma mudança de estilo da artista, reforça o tom introspetivo e amplia o impacto emocional da canção.

Recepção e críticas do álbum Sun (2012)

quarta-feira, 18 de março de 2026

Manlio De Domenico - Resilience, not hype: what we are getting wrong about AI

O texto de Manlio De Domenico em "Complexity Thoughts" propõe uma reflexão crítica e fundamentada sobre o estado atual da Inteligência Artificial, afastando-se do ruído mediático habitual. O autor, um especialista em sistemas complexos, argumenta que o debate público está excessivamente polarizado entre o otimismo tecnológico cego e o medo existencial catastrófico, o que nos impede de ver os riscos reais e imediatos.

O ponto central da análise é a distinção entre a eficiência técnica e a resiliência sistémica. Enquanto a indústria foca em criar modelos de IA cada vez mais potentes e rápidos, De Domenico alerta para a "fragilidade" que estes sistemas podem introduzir na sociedade. De uma perspetiva científica, ele defende que não deveríamos estar apenas preocupados com o que a IA pode fazer, mas sim com a forma como ela interage com as infraestruturas humanas, podendo gerar pontos críticos de rutura se não for integrada com foco na robustez.

Segue a sua análise muito pertinente.

[Fonte, com infográficos e links para artigos científicos] 
If you have followed the recent clash between Anthropic and the Pentagon, you can recognize that it has been framed as a “morality play”: the dispute centered on whether Anthropic would relax safeguards that restrict uses of its models for mass domestic surveillance and fully autonomous weapons. One company resisted, another (openAI) accepted at some point, and the public argument quickly turned into a referendum on corporate ethics.

That matters, but I think it is not the deepest issue: the problem is not only whether one company “bends” and another does not. The deeper problem is that institutions are increasingly willing to delegate strategically consequential functions to systems that are statistical, opaque, fallible and controlled by very few private actors. This is a systems-design problem.

To be clear, I am not arguing that current AI systems are useless, since they are often very useful for uncountable tasks. I am arguing something narrower and more important: public discourse keeps treating performance as if it were understanding, prediction as if it were judgment and scale as if it were intelligence.

Even the scientific language here is far less settled than the marketing of your favorite AI-gurus suggests: I am not the first one to report this, and it is disheartening to being continuously exposed, nearly everywhere, to such a sloppy narrative.

A recent Nature Machine Intelligence editorial noted that terms such as intelligence, embodiment and consciousness are widely used but “notoriously difficult to define”. Melanie Mitchell, another authoritative and scientific voice on this matter, made a related point in Science: debates about AGI are often debates about incompatible concepts of intelligence itself, not merely about engineering timelines.

This is why I remain mostly unconvinced by the familiar apocalyptic narrative according to which AI, by itself, will soon become the agent of our destruction. In previous post I have discussed about this in detail:

Therefore, instead of technological singularity, I would bet on reaching an evolutionary stage in which our society becomes increasingly dependent on a technology that is ultimately unsustainable. This fact will force us to to either simplify our systems or face the potential collapse of our society.

The more plausible risk is more mundane and, for that reason, more dangerous: we are embedding these systems into tightly coupled social, administrative, military and informational infrastructures without first asking what happens when they fail, drift, are gamed or become too central to replace. Three mechanisms matter here.

1. We are confusing prediction with judgment
What is commonly called “AI” today is, in most high-visibility deployments, a family of large language models trained to predict likely continuations of sequences. The transformer architecture that made this leap possible was explicitly designed as a sequence model built around attention mechanisms1. That does not make the systems trivial: on the contrary, it explains why they can be astonishingly capable. But it does mean that we should be precise about what they are doing2 before we let institutions present them as substitutes for strategic reasoning. Let’s not conflate a statistical analysis with a cognitive function.

This distinction matters most in high-stakes settings: a system can be extremely effective at generating plausible outputs and still be unreliable in the way that matters for command, surveillance, intelligence triage or decision support in conflict. Anthropic itself justified its refusal in part by arguing that current systems are not reliable enough for fully autonomous weapons. Whatever one thinks of the company, that specific point is hard to dismiss as ideological grandstanding: it is an (honest) engineering claim about failure under uncertainty.
In other words, the relevant question is not whether these systems can impress us, but it is whether they deserve delegation: those are very different thresholds.

2. Centralization turns technical dependence into political dependence
Once a technology becomes infrastructural, governance follows architecture.
If a handful of firms supply the models, the cloud, the interfaces and the update pipeline through which critical institutions operate, then technical concentration becomes a form of political power. Whoever controls access, model behavior, service continuity, pricing and quality of service gains leverage over organizations that can no longer function without that stack.

This is not a speculative concern. In 2025 U.S. negotiators raised the possibility of restricting Ukraine’s Starlink access during broader geopolitical bargaining, and Elon Musk had previously ordered shutdowns of Starlink service in parts of Ukraine’s battlefield. Whatever the specific legal and diplomatic details, the systemic lesson is straightforward: when a critical communications layer is effectively governed by one private actor, questions of sovereignty become entangled with platform discretion.

The same logic applies to AI, and perhaps even more strongly: if strategic analysis, public administration, defense workflows or parts of scientific knowledge production begin to depend on a few model providers, then those providers do not merely sell tools, since they become gatekeepers of cognition at scale. That should trouble democracies regardless of one’s view of any single company.

This is the same systems argument I made in a previous post about conflict propagation:

The real question is often not who is right or wrong in a given episode, but how structure and process determine whether shocks remain local or spread across tightly coupled systems. AI centralization should be read in exactly those terms.

Once a strategic function becomes too dependent on a narrow technological layer, errors, pressures or discretionary choices no longer stay local: they propagate.

3. Hyper-centralization violates the basic logic of resilient systems
From biology to infrastructure, resilience rarely comes from one perfect component: it comes from diversity, redundancy, modularity and hierarchy.

Living systems do not survive because they are optimized around a single response to a single threat. They survive because they preserve multiple partially overlapping ways of functioning. In biology this is often described through modular organization and degeneracy: different components can support similar functions, which makes adaptation possible under shock.

Tightly coupled socio-technical systems become vulnerable when efficiency is purchased at the expense of diversity and replaceability.

This is not just a metaphor imported from biology for rhetorical effect: it is a general principle of complex systems. The classic work on interdependent networks showed how failures can cascade across coupled layers: robustness and resilience depend on architecture, not on optimism.

We have seen this repeatedly. For instance, the CrowdStrike incident showed how a fault in one widely deployed digital layer could propagate rapidly across transportation, finance, communications and resource-management systems. That event is a consequence of digital monoculture and interdependence, not as an isolated software bug.

A different but related example comes from crypto. Even systems built under the banner of decentralization can undergo emergent centralization under stress. The figures below make this visible:

Hype, transaction overload and panic coupled financial activity, online attention and social behavior in ways that produced fragility rather than resilience. Centralization, in practice, can emerge from dynamics even when it was not the design ideal. That is exactly why concentration risk should be treated as a systems property, not only as a market-structure statistic.

I think that this is the point that much of the current AI debate misses: the danger is not only bad outputs, it is in correlated dependence.

The practical implication
It is not “ban AI” nor the equally lazy alternative of “accelerate and adapt”: the relevant priority is to prevent monoculture in critical functions.
That means at least three things:
  1. keep humans meaningfully responsible for strategic decisions;
  2. avoid single-vendor dependence in essential public and military workflows;
  3. design institutions around diversity of tools, auditability, fallback pathways and graceful degradation rather than maximum short-term efficiency.
Of course, the goal is not to stop innovation: it is to stop confusing centralization with progress. Resilient societies are not built by finding one system to trust with everything; they are built by ensuring that no single system, and no single company, becomes too central to fail. “Too big to fail” is not a sign of strength in a healthy society; instead it is evidence that fragility has already been designed into the system.

1 The word sounds cognitive, almost psychological, and that is precisely why it should be handled carefully. In humans, attention is tied to perception, goals, context and conscious or unconscious selection. In transformers, “attention” is simply a mathematical mechanism for weighting relations among elements of an input sequence so that some tokens contribute more than others to the computation of the next token. The name is useful inside machine learning, but misleading in public discourse. It does not mean the system is focusing, understanding or attending in any human-like sense: it means that a function is assigning weights in a high-dimensional space to improve a statistical prediction.

2 The simplest way to explain a language model is to start from a Markov chain. In a Markov chain, the next state depends on the current state according to transition probabilities. For text, a toy version would say: after “good”, the word “morning” may be more likely than “screwdriver”. This is a bit crude, of course, because natural language depends on much longer context.
A large language model generalizes that idea: instead of using only the immediately previous token, it converts many tokens into numerical representations in a high-dimensional space, then uses attention mechanisms to estimate which parts of the context matter most for predicting the next token. The training objective remains predictive: given context, assign probability to the next token. In practice, repeating this at scale yields systems that can summarize, translate, code and maintain long-range coherence surprisingly well.
That is the source of their “power”: it is not, by itself, proof of understanding, judgment or intelligence in any settled scientific sense. This fact is so clear to the vast majority of computer scientists that my comment about this matter deserves no more than a footnote.
The gap between “very good at prediction” and “deserves strategic delegation” is precisely the gap that public discourse keeps trying to erase.

domingo, 15 de março de 2026

ROME – Hate Us And See If We Mind


[Verse 1]
We could never have won this;
We were fighting blind
Now we've all but conquered fate
So hate us, and see if we mind
Washing off the dust
Like the first rains of the raining season
And encircling rage and reason, we postponed our grieving
But the rains, they never seem to come

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]
All over
All over

[Verse 2]
To this house of stone we flock
Hiding like the snails between the reeds and rocks
And they'll be searching the valleys in vain
As we'll be waiting for the rain
A nation reborn; a lame shepherd
One must wait and go for the throat when hunting leopard
Now, we're blinking back each tear
There's no changing the balance of fear
You might also like
One Fire
Rome
The River Eternal
Rome
A Country Denied
Rome
[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know It's all over

[Outro]
All over
All over
All over

"Hate Us And See If We Mind" (Odeie-nos e veja se nos importamos) é uma música de desafio e resiliência.
Estoicismo e isolamento: a letra fala sobre manter a própria posição e identidade, independentemente do julgamento externo ou do ódio alheio. É um hino àqueles que vivem à margem ou que escolheram um caminho difícil e impopular.
Identidade europeia: como é comum no ROME, há uma camada de melancolia sobre o destino do continente. A canção sugere um orgulho silencioso e uma resistência contra a homogeneização do pensamento moderno.
Referência histórica: o título ecoa o lema romano Oderint dum metuant ("Que odeiem, desde que temam"), mas Jerome Reuter o transforma em algo mais introspectivo: não se trata de causar medo, mas de uma indiferença soberana perante a hostilidade do mundo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O aquecimento dos oceanos causa uma redução anual de 20% no número de peixes

O aquecimento crónico e prolongado dos oceanos é o responsável pelo declínio anual de quase 20% na biomassa de peixes (o peso total dos peixes capturados vivos em redes de arrasto), segundo pesquisadores do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia.

A pesquisa, desenvolvida nas águas do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e do Pacífico Nordeste, baseia-se na análise de 702.037 estimativas de mudanças na biomassa de 33.990 populações de peixes registadas entre 1993 e 2021 no Hemisfério Norte.

Os dados coletados, segundo os pesquisadores, devem ser cruciais para aprimorar a gestão da pesca e a conservação dos ecossistemas marinhos, dos quais depende grande parte da segurança alimentar mundial; hoje, 25 de fevereiro, eles publicam os resultados do seu trabalho na revista Nature Ecology and Evolution.

Shahar Chaikin, pesquisador do Museu Nacional de Ciências Naturais, explicou à EFE que calcularam essa perda de 'biomassa' analisando o peso total dos peixes vivos capturados em redes de arrasto de fundo durante o período abrangido pelos estudos científicos, que inclui espécies comerciais e não comerciais.

As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes, não afetam todos os peixes da mesma forma, pois há populações que "perdem" e outras que "ganham", e o estudo mostra que tudo depende da zona de conforto térmico, a faixa de temperatura ideal na qual cada espécie cresce e se desenvolve melhor.

No final das contas, ninguém ganha.
Shahar Chaikin afirmou que, tanto globalmente quanto em nível populacional (em locais específicos), a tendência geral é de diminuição dessa biomassa à medida que os oceanos aquecem, e declarou que o resultado final do trabalho é que "ninguém ganha a longo prazo".

Quando uma onda de calor leva os peixes em águas já quentes além de sua zona de conforto térmico, a sua biomassa pode cair até 43,4%, mas as populações em áreas mais frias muitas vezes prosperam temporariamente com o aumento das temperaturas, aumentando a sua biomassa em até 176%.

“Embora esse aumento repentino na biomassa em águas frias possa parecer uma boa notícia para a pesca, trata-se de um aumento temporário. Se os gestores aumentarem as quotas de pesca com base no aumento da biomassa causado por uma onda de calor, correm o risco de provocar o colapso dos stocks quando as temperaturas voltarem ao normal ou quando o efeito do aquecimento global a longo prazo se consolidar, porque esses aumentos são pontuais”, alertou Chaikin.

“Ao contrário das flutuações climáticas de curto prazo, que podem variar drasticamente, o aquecimento crónico exerce uma pressão negativa constante sobre as populações de peixes no Mar Mediterrâneo, no Oceano Atlântico Norte e no nordeste do Oceano Pacífico”, disse Juan David González Trujillo, pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, num comunicado à imprensa divulgado na quarta-feira pelo MNCN.

Coordenação internacional para gerir recursos que não conhecem fronteiras.
A abordagem tradicional à gestão da pesca já não acompanha o ritmo das alterações climáticas e, para garantir o futuro dos recursos pesqueiros globais, os autores propõem uma estrutura de três níveis que combina resposta rápida, planeamento a longo prazo e cooperação internacional. Observaram que as espécies, na tentativa de se manterem dentro da sua zona de conforto térmico, inevitavelmente atravessam fronteiras internacionais, pelo que a conservação requer coordenação internacional e acordos conjuntos de gestão de recursos.

O pesquisador do MNCN-CSIC, Miguel Bastos Araújo, enfatizou a importância de equilibrar cuidadosamente os aumentos localizados com os declínios a longo prazo para evitar a sobre-exploração e afirmou que a única estratégia viável diante do aquecimento dos oceanos é priorizar a resiliência a longo prazo. "As medidas de gestão devem levar em conta o declínio esperado da biomassa num oceano cada vez mais quente."

A conclusão é que os recursos pesqueiros não podem ser regulamentados apenas considerando o aumento ou a diminuição ocasional da biomassa devido a uma onda de calor marinha, disse Chaikin à EFE, citando o exemplo do robalo do Mediterrâneo: quando confrontado com uma onda de calor marinha, é essencial reduzir a pressão da pesca, porque enfrenta perdas muito maiores do que as populações em costas mais frias da Galiza ou da Inglaterra.

Mas, embora as populações nessas "bordas frias" possam experimentar um aumento significativo durante uma onda de calor, esses ganhos são "transitórios" e desaparecem com o aquecimento oceânico a longo prazo , portanto, não representam uma oportunidade para a "captura sustentável".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Portugal tem de adaptar-se aos fenómenos extremos


As alterações climáticas vão trazer cada vez mais fenómenos extremos a Portugal, diz o físico da atmosfera Pedro Matos Soares, que avisa que Portugal tem de mudar radicalmente, começando nas infraestruturas e acabando nos alertas.

Portugal Continental foi atingido, entre 22 e 28 de janeiro, por três tempestades consecutivas, Ingrid, Joseph e Kristin, a última das quais deixou pelo menos dez mortos e um rasto de destruição sobretudo nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém.

Em entrevista à Lusa sobre este “comboio de depressões”, o especialista explicou o fenómeno, mas não o relacionou com as alterações climáticas, salientando que estas estão e vão provocar no país cada vez mais fenómenos climáticos extremos, seja por exemplo episódios de chuva intensa seja de secas.

Devem os portugueses ter medo? Pedro Matos Soares diz que não. Mas acrescenta que devem lembrar-se de que a mudança no clima tem impactos diretos sobre as pessoas, as atividades económicas e os ecossistemas.

São as ondas de calor, os incêndios, as tempestades mais severas, recorda, afirmando: Em vez de paralisarmos com medo, temos é de fazer uma coisa mais inteligente, perceber que temos de dimensionar a nossa sociedade, no ordenamento do território, para salvaguardar as pessoas e a economia.

Pedro Matos Soares, professor e investigador principal do Instituto Dom Luiz, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, responsável da PHAIR-EARTH, uma “start-up” que faz projeções climáticas de alta resolução, identifica perigos e faz avaliações de risco, alerta que perante “mais extremos” climáticos é preciso “preparar a sociedade de uma forma diferente”.

Por exemplo nas estruturas, que têm de ser repensadas, que quer sejam novas ou reabilitadas terão de estar preparadas para um novo clima, de hoje ou dos próximos 20 anos e não do século XX.

“Quer dizer que nós temos que aumentar a resiliência das nossas estruturas”, com novos códigos de construção mais resistentes a precipitação extrema, telhados que resistam a vento extremo.

Nas palavras do especialista, isso aplica-se especialmente a “estruturas críticas”, da rede elétrica às escolas, a estradas ou pontes, bibliotecas ou mesmo igrejas e outros locais de encontro, que se forem bem reabilitadas, se forem resilientes podem ser “refúgios climáticos”.

Pedro Matos Soares defende planos locais de resposta acelerada para eventos extremos, que hoje não existem, porque a solução não é as pessoas receberem um SMS e “que se desenrasquem”.

As pessoas, quando recebem o SMS da Proteção Civil, deviam receber “imediatamente quais as recomendações para se protegerem, para protegerem os seus bens e, em última instância, onde é que se devem dirigir para estarem protegidas”.

“Para isso precisamos ter estruturas públicas, ou privadas, que tenham uma grande resistência a fenómenos extremos e que possam servir de refúgios”, diz.

Defendeu também mais educação e literacia, porque há pessoas a viver em leito de cheias sem o saberem. “Hoje temos tanta tecnologia e a informação não flui para as pessoas”, lamenta.

Aponta ainda que em Portugal não se percebeu o risco climático, não está mapeado o que é o risco climático destes diferentes extremos para os próximos 10 anos, 20 anos, 30 anos, apesar de toda a gente saber esse risco está a aumentar.

E isso impede o país de perceber como priorizar investimentos ou aumentar a resiliência de estruturas.

Diz ainda que também não há no país um “plano de recuperação pós-catástrofe”.

“Ficamos todos à nora, o Governo fica paralisado”, considera, enfatizando a necessidade de um sistema de alerta precoce, que avise por exemplo para uma onda de calor e explique o que as pessoas devem fazer e para onde ir.

É preciso uma sociedade mais preparada, ancorada no conhecimento e não apenas um SMS que não explica o que fazer em resultado dele.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Papel ecológico das traças ou borboletas nocturnas


As traças são estudadas através de uma combinação de trabalho de campo, análise laboratorial e monitorização a longo prazo, uma vez que a sua diversidade e sensibilidade às alterações ambientais fazem delas sujeitos ideais para a investigação ecológica. 

Um dos métodos mais utilizados é a captura por luz, em que as luzes ultravioleta ou de vapor de mercúrio atraem as traças noturnas para que os investigadores possam registar a presença, a abundância e os padrões sazonais das espécies. Técnicas complementares, como armadilhas com isco, levantamentos diurnos de traças diurnas e amostragem de larvas em plantas hospedeiras, ajudam a capturar espécies que não são atraídas pela luz e fornecem informações sobre as relações planta-inseto. 

A identificação é tradicionalmente baseada na morfologia, incluindo padrões de asas e estruturas genitais, mas é cada vez mais apoiada pelo código de barras de ADN, que permite a identificação precisa e a deteção de espécies crípticas. As coleções de museus e os registos históricos são essenciais para comparar os dados atuais com as distribuições e abundâncias passadas, permitindo aos investigadores detectar tendências a longo prazo.

Para além de simples inventários, as traças são estudadas para compreender a sua ecologia, incluindo a especialização nas plantas hospedeiras, os ciclos de vida, as capacidades de dispersão e as respostas a factores como as alterações climáticas, a intensificação do uso da terra, os pesticidas e a luz artificial durante a noite. 

A ciência cidadã tornou-se particularmente importante na investigação sobre traças, com os voluntários a contribuírem com grandes quantidades de dados de jardins e levantamentos locais, expandindo consideravelmente a escala espacial e temporal dos esforços de monitorização.

O estudo das traças é altamente relevante para a conservação da natureza, pois são excelentes bioindicadoras da saúde do ecossistema. Muitas espécies têm requisitos de habitat específicos e respondem rapidamente a perturbações ambientais, o que significa que as alterações nas comunidades de traças sinalizam frequentemente uma degradação ecológica mais ampla. 

Diminuições na abundância e diversidade de traças foram documentadas em muitas regiões e estão intimamente ligadas à perda de habitat, à intensificação agrícola, à poluição e às alterações climáticas. As traças desempenham também papéis funcionais importantes nos ecossistemas: são importantes polinizadoras noturnas de plantas silvestres e culturas agrícolas, e as suas lagartas constituem um recurso alimentar crucial para as aves, morcegos e outros animais. Como resultado, o declínio das traças pode propagar-se através das teias alimentares e perturbar o funcionamento do ecossistema.

Do ponto de vista da conservação, os dados sobre traças são utilizados para identificar habitats prioritários, avaliar a conectividade da paisagem, avaliar práticas de gestão e orientar a restauração de habitats. Uma vez que as traças respondem de forma mensurável às alterações na estrutura da vegetação, na diversidade de plantas e nos regimes de luz, são particularmente úteis para avaliar a eficácia das ações de conservação. Desta forma, o estudo das traças não só ajuda a proteger um grupo diversificado e muitas vezes negligenciado de insectos, como também apoia a conservação da biodiversidade em geral e a resiliência a longo prazo dos ecossistemas.

Referências Bibliográficas

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Uma curiosa investigação histórica dos povos originários dos EUA


Durante 150 anos, ela permaneceu nesta fotografia — sem nome, invisível, apagada. Até que um historiador se recusou a deixar morrer a sua história.

Em 1868, o fotógrafo da Guerra Civil, Alexander Gardner, viajou para Fort Laramie para documentar as negociações de paz entre o governo dos EUA e o povo Lakota. Captou uma imagem impressionante: seis oficiais brancos do Exército em formação formal e, ao lado deles, uma jovem nativa enrolada numa manta, com o olhar calmo e firme.

Os oficiais foram meticulosamente identificados — os generais Terry, Harney, Sherman, Sanborn, Tappan e Augur. Os seus nomes, patentes e legados foram cuidadosamente preservados. Mas e a menina? Ela foi simplesmente rotulada como "Arapaho" numa impressão, "Dakota" noutra. Nunca um nome. Nunca uma pessoa. Apenas um símbolo de uma cultura que a América branca queria acreditar que estava a desaparecer.

Durante mais de um século, ela permaneceu uma figura sem nome numa fotografia sobre poder e deslocamento. Fotografada, mas não vista. Presente, mas não contabilizada.

Então, a historiadora Martha A. Sandweiss deparou-se com a imagem — e algo na força silenciosa daquela criança não a deixava em paz.

Sandweiss, uma estudiosa da fotografia americana do século XIX na Universidade de Princeton, iniciou o que viriam a ser anos de meticuloso trabalho de investigação. Ela vasculhou registos de comissões de paz, documentos pessoais, documentos governamentais — nada. Todas as vias pareciam não levar a lado nenhum.

Até que, finalmente, nos arquivos do Fort Laramie National Historic Site, ela encontrou um pequeno cartão deixado por um visitante chamado Eddie Ryan em 1978. Ele tinha visto uma cópia da fotografia exposta. A menina, escreveu, era sua avó.


O seu nome era Sophie Mousseau.

Com apenas este nome, Sandweiss pôde finalmente traçar a sua história. Sophie nasceu por volta de 1860, filha de dois mundos: a sua mãe era Yellow Woman, uma Oglala Lakota; seu pai era M.A. Mousseau, um comerciante de peles franco-canadiano. Na primavera de 1868, quando Sophie tinha apenas oito ou nove anos, a sua família fugiu para o Forte Laramie em busca de segurança depois de os invasores Lakota terem atacado o seu rancho.

Aí, Sophie viu-se sob a lente de Gardner — uma criança presa entre culturas, línguas e histórias em colisão.

Sophie não era uma estranha neste mundo. Ela estava entrelaçada no seu tecido. Serviu como tradutora durante as negociações do tratado — uma criança que fazia a ponte entre as línguas e os mundos. Mais tarde, entrou numa união estável com o colono John Ryan e teve cinco filhos antes de este a abandonar. Sofreu violência doméstica, testemunhou violência militar e sobreviveu à violência legal que negava direitos a pessoas como ela ao longo da sua vida. Morreu em 1936 na Reserva Indígena de Pine Ridge, o seu nome há muito esquecido pela história.

A descoberta de Sandweiss faz mais do que recuperar um nome. Ela recorda-nos que as mulheres indígenas não foram espectadoras passivas ou símbolos convenientes na história do Oeste americano. Eram tradutoras, negociadoras, pontes culturais — vivendo na perigosa intersecção de mundos. Eram mães, filhas, sobreviventes.

A história de Sophie complica tudo o que pensamos saber sobre aquele tempo e lugar. A sua presença naquela fotografia transforma-a de um simples documento de negociações de tratados em algo muito mais complexo: uma janela para um mundo fronteiriço «estranhamente íntimo», onde todos — soldados, comerciantes, indígenas, mestiços ou brancos — estavam ligados entre si pela violência, sobrevivência e resiliência.

Após 150 anos de silêncio, Sophie Mousseau tem finalmente o seu lugar na história. Não como um símbolo. Não como "Arapaho" ou "Dakota". Mas como Sophie — uma pessoa real cuja vida importava naquela época e cuja história importa agora.

Os nomes são o que liga as pessoas ao registo histórico. E cada nome recuperado é um ato de justiça.