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sábado, 4 de julho de 2026

Contra a pós-verdade do eucalipto e dos "matos": cumprir escrupulosamente a Lei


Mitigar a tragédia dos incêndios florestais exige atacar o problema em duas frentes: travar as ignições e mudar radicalmente a estrutura da floresta. O eucalipto não pode continuar a ser o "combustível perfeito" do nosso território.

A prioridade absoluta? Quebrar a continuidade do combustível através do ordenamento. A nossa floresta deixou de ser um ecossistema para passar a ser um mar contínuo de eucaliptos. É urgente criar mosaicos na paisagem, intercalando os eucaliptais com faixas de espécies autóctones - como o carvalho, o castanheiro ou o sobreiro. Estas árvores têm copas mais húmidas e folhas muito menos inflamáveis, funcionando como verdadeiras barreiras naturais contra o fogo.

Mas o ordenamento não chega; a gestão ativa e a limpeza são vitais. Os dados mostram que as áreas de eucaliptal geridas profissionalmente, pela indústria papeleira, ardem pouco (as taxas andam pelos 2%). O drama está nos milhares de hectares privados deixados ao abandono. Para mudar isto, é preciso limpar o mato do subcoberto, respeitar o espaçamento entre árvores e, acima de tudo, controlar a regeneração natural - aquela que nasce sozinha e sem regras logo a seguir a um incêndio.

No terreno, porém, a realidade bate de frente com a ineficácia do Estado e a falta de fiscalização. Há regras, sim, mas os pequenos proprietários continuam a avançar com plantações clandestinas e sem qualquer licenciamento. O eucalipto tornou-se o refúgio financeiro da terra abandonada: exige pouco investimento e dá algum lucro a curto prazo, mesmo sem cuidados. Para desarmar este barril de pólvora, o caminho passa por criar incentivos financeiros sérios que convençam os proprietários a trocar o risco do eucalipto pela segurança das florestas de conservação ou dos sistemas agroflorestais. Algo que, na prática, continua a falhar.

Do lado do combate, o sucesso depende de vigilância, tecnologia e mão dura contra o crime. Apostar em videovigilância e patrulhas nas horas críticas permite apagar o fogo nos primeiros minutos, antes que o eucaliptal comece a projetar faúlhas a quilómetros de distância. Só que o sistema falha onde devia ser mais forte.

Primeiro, nas comunicações: em cenários de grande catástrofe, o SIRESP continua a falhar por saturação ou perda de sinal. Quando a rede vai abaixo, a coordenação no terreno colapsa. Segundo, o subaproveitamento da tecnologia: os drones com sensores térmicos seriam ideais para vigiar a floresta à noite, mas a sua utilização esbarra sempre numa burocracia absurda, na falta de pilotos certificados, nas forças de segurança e na ausência de uma frota pública que esteja mesmo operacional.

Enquanto não resolvermos o caos das plantações clandestinas, os apagões do rádio e a paralisia tecnológica na vigilância, o eucaliptal vai continuar a arder sem controlo. E, de nove em nove anos, estaremos exatamente no mesmo sítio: a lamentar os "piroverões", a ver casas arder e a chorar tragédias que eram perfeitamente evitáveis

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Contributos para a História do Ecologismo em Portugal - Francisco Caldeira Cabral

2008 CENTENÁRIO
FRANCISCO CALDEIRA CABRAL
26 de Outubro 1908 - 10 de Novembro 1992


A criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês não foi um acto isolado. Constituiu, antes, o coroar dos esforços tenazes, muitas vezes mal compreendidos, de um grupo de cidadãos preocupados de há longa data com a problemática da Conservação da Natureza. Logo em 1939, o Eng.º Francisco Flores sistematizou, pela primeira vez em Portugal, as directrizes de uma política de Conservação da Natureza. Cerca de 10 anos depois, um pequeno conjunto de cidadãos e técnicos, em que avultam os nomes de Baeta Neves, Carlos Tavares, Carlos Teixeira, Pinto da Silva, Germano Sacarrão, Mário Myre e Miguel Neves, criaram a Liga para a Protecção da Natureza, inspirados pelos gritos de alarme do Poeta Sebastião da Gama a propósito das ameaças à integridade da serra da Arrábida. Esta organização encabeçou durante vários decénios, quase sozinha, a defesa dos princípios da Protecção da Natureza e do Ambiente e pugnou pela institucionalização de uma política de Conservação da Natureza.

A este núcleo inicial foram-se juntando outros cidadãos e cientistas que na sua actividade cívica e didáctica, desde cedo se esforçaram, não só pela divulgação do ideário da Conservação da Natureza como, particularmente, pelo desenvolvimento científico e tecnológico necessário à sua concretização.

Especial destaque assumiram as escolas de Silvicultura e de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia onde se salientam, entre outros, os nomes dos Profs. Azevedo Gomes e Caldeira Cabral, para só citar aqueles que infelizmente já nos deixaram. É igualmente de realçar o papel do Eng.º Silvicultor José Lagrifa Mendes no caso particular da criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Tendo assumido pessoalmente a tarefa dessa criação conseguiu, passados trinta anos sobre as primeiras propostas nesse sentido, concretizar esse objectivo primeiro de todos os que pugnaram pela preservação do nosso património natural. [Fonte: Arquivos da Presidência de Jorge Sampaio ]