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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Rússia e China adotam “movimento dissimulado de apropriação territorial” no Ártico: “A Noruega tem soberania sobre Svalbard, ponto final”


Durante mais de duas décadas, um par de imponentes leões de granito ladeou a entrada de um edifício vermelho-ferrugem em pleno Círculo Polar Ártico. Já não é assim. No mês passado, desapareceram - e a sua ausência conta uma história sobre a geopolítica cada vez mais tensa no topo do mundo.

Os leões desaparecidos guardavam outrora uma estação de investigação operada pela China na colónia de Ny-Ålesund, em Svalbard, um arquipélago situado entre a Noruega continental e o Polo Norte. Em maio, foram removidos pela empresa estatal norueguesa que gere a colónia; em junho, a mesma empresa retirou uma placa do edifício onde se lia "Estação Rio Amarelo".

A iniciativa da Noruega é vista por alguns especialistas como parte de uma tentativa de reforçar a sua soberania sobre esta parcela do Ártico, face a mudanças geopolíticas e climáticas sísmicas.

A Gronelândia pode dominar as preocupações no Ártico - com o Presidente Donald Trump a tentar repetidamente reivindicá-la para os Estados Unidos, invocando a necessidade de contrariar a crescente influência de Pequim e Moscovo -, mas outra disputa potencialmente explosiva está a desenrolar-se em Svalbard, onde a China e a Rússia já têm presença. E há quem receie que o mundo não esteja a prestar atenção suficiente.

Um arquipélago único sob pressão
Svalbard é um grupo de ilhas singular. Tem apenas cerca de 3000 residentes, mas não tem população nativa e as mulheres não podem dar à luz ali. É o lar da cidade permanentemente habitada mais a norte do planeta, Longyearbyen, e é o local que mais rapidamente aquece na Terra, a um ritmo cerca de seis a sete vezes superior à média global.

Um tratado centenário confere à Noruega total soberania, mas também permite que cidadãos de quase 50 países signatários, incluindo a China e a Rússia, vivam e trabalhem em Svalbard sem necessidade de visto.

Nas últimas décadas, tornou-se o principal centro mundial de ciência ártica e um local raro de cooperação internacional.

"Pessoas de todo o mundo, com enormes diferenças culturais... juntam-se para colaborar", afirmou Hedda Andersen, uma glaciologista que trabalha na Estação de Investigação de Ny-Ålesund.

Contudo, esta harmonia está a desgastar-se à medida que a orgânica única de Svalbard colide com relações internacionais cada vez mais fraturadas e com a busca dos países por influência num Ártico em rápido aquecimento.

"Estamos a ver o contexto geopolítico mais amplo a transbordar para o território de uma forma que não se via nas décadas anteriores", explicou Otto Svendsen, investigador associado no Center for Strategic and International Studies (CSIS).

A atração estratégica de Svalbard
A geografia de Svalbard é grande parte do que a torna tão atraente:
Recursos: o seu oceano ostenta ricas zonas de pesca e minerais críticos no fundo do mar.
Tecnologia: está numa localização privilegiada para controlar e descarregar dados de satélites de órbita polar usados para ciência, previsão meteorológica e defesa.
Militar: situa-se perto da Península de Kola, na Rússia, uma das regiões militares mais estratégicas de Moscovo, onde se encontra grande parte do seu arsenal nuclear marítimo.

O arquipélago é de fácil acesso. Voos regulares a partir da Noruega continental permitem chegar ao alto Ártico em poucas horas. Dezenas de países têm presença em Svalbard, incluindo a Rússia, a China, o Reino Unido, a Itália, o Japão e a Polónia. As suas estações de investigação servem de porta de entrada para a influência no Ártico, funcionando "quase como uma moeda geopolítica", sublinhou Serafima Andreeva, investigadora do The Arctic Institute.

O fim do "Alto Norte, baixa tensão"
Durante décadas, o lema na região foi "Alto Norte; baixa tensão", recordou Eivind Vad Petersson, secretário de Estado no Ministério dos Negócios Estrangeiros norueguês, mas "essa já não é uma descrição precisa da realidade".

A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 desfez a ideia de que o Ártico estava imune aos ventos geopolíticos e colocou o foco na dissonância de a Rússia ter uma colónia em território da NATO. Barentsburg, um posto avançado de mineração e investigação em Svalbard, é habitado quase inteiramente por russos e é vigiado por um enorme busto de Vladimir Lénine.

As ações russas em Svalbard têm inflamado ainda mais as tensões:
Em 2023, a Rússia realizou um desfile de estilo militar em Barentsburg, com uma coluna de camiões e motas de neve com bandeiras russas e um helicóptero a voar a baixa altitude, o que valeu a Moscovo uma multa da autoridade de aviação norueguesa.
No ano passado, o deputado russo Sergey Mironov sugeriu que Svalbard deveria ser renomeada como "Ilhas Pomor", numa referência a um grupo de caçadores russos presentes no arquipélago há séculos.
Retórica: A Rússia tem invocado o mesmo tipo de linguagem que usa para justificar as suas ações na Ucrânia, argumentando que precisa de proteger os falantes de russo em Svalbard. Tem também acusado repetidamente a Noruega de tentar militarizar as ilhas.

Nikolay Korchunov, embaixador da Rússia na Noruega, afirmou que Oslo "bate no limite" da estipulação do Tratado de Svalbard de que as ilhas não devem ser usadas para "fins bélicos". Korchunov acrescentou que a Rússia nunca pôs em causa la soberania da Noruega, mas está, sim, a "tentar trazer clareza" sobre a forma como esta soberania é exercida.

O papel da NATO e as ambições da China
O secretário de Estado norueguês, Petersson, rejeitou as alegações de militarização, explicando à CNN que o Tratado de Svalbard impede a criação de uma base da NATO nas ilhas ou a sua utilização para fins bélicos, mas que isso é "muito mais restrito e algo muito diferente de ser uma zona desmilitarizada".

"Svalbard é parte da Noruega; Svalbard é parte da NATO; Svalbard faz parte dos planos de defesa noruegueses", declarou.

Poucos acreditam que a Rússia esteja a traçar um caminho para uma ação militar direta. Já tem quase tudo o que quer em Svalbard e está focada na Ucrânia, apontou Andreas Østhagen, investigador sénior no Instituto Fridtjof Nansen, em Oslo. Em vez disso, a Rússia parece querer usar Svalbard como um local "para mostrar que não será recuada pela Noruega, ou pela NATO em geral".

Mas não são apenas as ações da Rússia que preocupam. Há também a China.
Ao contrário da Rússia, a China não é uma potência ártica, mas tem ambições. No seu documento de estratégia para o Ártico de 2018, autodenominou-se um "Estado quase-Ártico" e referiu repetidamente Svalbard. Tem também planos para uma "Rota da Seda Polar", um corredor de infraestruturas e navegação no topo do mundo.

Em 2024, quando a China celebrou o 20.º aniversário da sua estação de investigação em Ny-Ålesund, uma empresa de viagens chinesa levou mais de 100 turistas a Svalbard. Alguns agitaram bandeiras; um deles vestia uma farda de camuflagem com o que parecia ser um emblema militar chinês. O evento gerou alarme na Noruega.

Um porta-voz da Embaixada da China na Noruega afirmou que o país participa nos assuntos do Ártico "de acordo com o direito internacional" e que as suas intenções na região visam "salvaguardar os interesses comuns de todos os países".

O catalisador das alterações climáticas
Existe outro fator crucial nesta teia de tensões: as alterações climáticas causadas pelo Homem. No verão de 2024, Svalbard quebrou recordes anteriores de degelo, perdendo mais de 60 gigatoneladas de gelo (cerca de 1% do seu total), com as temperaturas a subirem cerca de 4ºC (7ºF) acima da média. Quatro dos últimos cinco anos estabeleceram novos recordes de perda de gelo.

As alterações climáticas são "em grande parte o que está a impulsionar muito do interesse geral em direção ao Ártico", referiu Østhagen. Existe a narrativa de que o degelo abrirá oportunidades económicas e estratégicas.

A realidade é mais complexa. Há décadas que se antecipa um fluxo de navios pelo Oceano Ártico e uma corrida ao petróleo, gás e minerais sob as suas águas gélidas - mas isso ainda não aconteceu. A região continua a ser dura e inóspita.

Ainda assim, se o degelo vai ou não abrir a região "não importa", considerou Torbjørn Pedersen, professor na Universidade Nord. O "medo de ficar de fora" está a empurrar os países a marcarem presença no Ártico e a exercerem influência política.

A Noruega aperta o controlo
Face a isto, a Noruega parece estar a apertar o controlo sobre Svalbard:
  1. Alteração de leis: em 2022, o governo mudou as regras eleitorais para impedir que cidadãos não noruegueses votassem nas eleições de Longyearbyen, a menos que tivessem vivido na Noruega continental durante três anos.
  2. Mineração: a Noruega assumiu a ambição de explorar minerais críticos numa vasta extensão do fundo do mar do Ártico em redor de Svalbard. O plano foi contestado pela Rússia.
  3. Símbolos nacionais: seguiu-se a remoção dos leões da China e de símbolos nacionais noutros edifícios de Ny-Ålesund.
"Não existe uma estação de investigação chinesa em Svalbard", clarificou Petersson. "Existe uma estação de investigação norueguesa com inquilinos chineses. Essa é uma distinção que faz a diferença."

Para já, a Noruega mostra-se confiante na capacidade de "manter um certo nível de estabilidade nesta região". Mas o mundo está a mudar rapidamente. Com Trump a reiterar que os EUA deveriam deter a Gronelândia, a aliança da NATO sob pressão crescente e os países a posicionarem-se como potências árticas, o futuro parece cada vez menos certo.

Os países podem começar a pensar que "o que importa agora é o poder e a capacidade de afirmar esse poder", concluiu Østhagen, "e não necessariamente as normas e leis que estabelecemos ao longo do último século."
Fonte [PT] [EN]

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quarta-feira, 25 de março de 2026

O Tratado Global sobre Plásticos: O Momento Decisivo

O planeta enfrenta uma crise que já não se mede apenas em ilhas de lixo flutuantes ou em praias desfiguradas. A invasão do plástico tornou-se biológica e sistémica. Todos os anos, milhões de toneladas de polímeros e as letais redes fantasma – armadilhas de nylon que perduram por séculos – invadem os nossos oceanos, dizimando baleias, tartarugas e aves marinhas, enquanto asfixiam ecossistemas vitais para a regulação do clima. Contudo, o perigo mais insidioso é aquele que não conseguimos ver a olho nu.

As milhões de toneladas de plástico que acabam no oceano chegam à nossa mesa e ao nosso corpo através do peixe, da água e até do sal. A ciência já confirmou: trata-se de um perigo para a saúde pública.

A ciência moderna confirmou o que há muito se temia: o plástico já faz parte da biologia humana. Microplásticos e nanoplásticos foram detetados no sangue, em órgãos vitais e até em placentas, o que significa que as novas gerações já nascem num ambiente de contaminação interna. De acordo com o estudo sobre Microplásticos na placenta humana, estas partículas não são inertes; elas transportam um cocktail de mais de 4.200 substâncias perigosas utilizadas na sua produção. 

Em Portugal, a preocupação com os microplásticos já saltou das páginas das revistas científicas para os alertas das autoridades de saúde. Substâncias como os bisfenóis, os ftalatos e os PFAS (químicos eternos) são classificados pela Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) e pelo National Institute of Environmental Health Sciences como disruptores endócrinos. Estes compostos têm a capacidade de interferir com o nosso equilíbrio hormonal, estando cientificamente ligados à infertilidade, ao aumento de doenças metabólicas como a obesidade e a formas agressivas de cancro. Não se trata de uma ameaça distante: o projeto europeu de biomonitorização (HBM4EU), no qual Portugal participou, confirmou que estes químicos estão presentes no organismo da vasta maioria dos cidadãos europeus, provenientes da nossa alimentação e da degradação desenfreada do plástico no meio ambiente.

Apesar da gravidade da situação exposta em relatórios sobre o impacto nos ecossistemas marinhos, a resposta global tem sido, até agora, insuficiente. Falar apenas em "limpar o lixo" ou em melhorar a reciclagem — que processa menos de 10% do plástico mundial — é ignorar a raiz do problema. Estamos a tentar secar um chão inundado sem fechar a torneira. É por isso que o Tratado Global sobre Plásticos, agora na sua fase decisiva de negociação nas Nações Unidas, não pode ser um acordo de intenções vagas.

Exigimos um tratado ambicioso que não se foque apenas na gestão do resíduo final, mas que imponha limites vinculativos à produção de plástico virgem. É imperativo banir os químicos tóxicos que impedem uma economia circular segura e responsabilizar financeiramente as empresas pelo ciclo de vida completo dos seus produtos. O tempo das soluções cosméticas terminou. O que está em causa não é apenas a preservação da natureza, mas a integridade da saúde humana e a viabilidade da vida nos oceanos. Precisamos de um compromisso que trave a produção na origem, antes que o plástico substitua permanentemente a vida no nosso planeta azul.

Assina e divulga esta petição

domingo, 29 de junho de 2025

Lucros que não se decompõem: a tragédia persistente do plástico


No meio da crise ambiental que se agrava a cada ano, cresce uma ameaça silenciosa e persistente, alimentada por interesses económicos que não se decompõem: a poluição plástica. Por trás do brilho da conveniência, escondem-se os lobbies dos combustíveis fósseis, que seguem ditando os rumos da produção global. Grandes potências petrolíferas e corporações multinacionais têm agido como forças contrárias à vida, bloqueando tratados, sabotando regulações e retardando o que já deveria ser urgente: o enfrentamento coordenado de um desastre ecológico anunciado. Nesta paisagem distorcida, a sustentabilidade do planeta é moeda de troca, sacrificada sem hesitação em nome de lucros que se acumulam — e permanecem, como o plástico, por tempo indefinido.

1- Crescimento global da produção e consumo de plásticos
Desde 1950, a humanidade produziu mais de oito mil milhões de toneladas de plástico, grande parte dos quais permanece até hoje nos ecossistemas, já que os plásticos podem levar centenas de anos para se decompor (Capomaccio, 2025). O crescimento exponencial da produção global de plásticos nas últimas décadas resultou numa crise ambiental sem precedentes. Atualmente, cerca de 460 milhões de toneladas de plástico são produzidas anualmente, e projeções alarmantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) indicam que esse volume poderá triplicar até 2060 caso não sejam implementadas políticas globais rigorosas (Cardial, 2024; Capomaccio, 2025).

Um estudo de 2024 revelou que menos de 60 multinacionais são responsáveis por mais da metade da poluição plástica global, com apenas seis empresas gerando um quarto desse total. A Coca-Cola sozinha respondeu por 11% dos resíduos plásticos rastreados, seguida pela PepsiCo, com 5%, enquanto a Danone e a Nestlé foram responsáveis por 3% cada. As empresas de tabaco Altria e Philip Morris International contribuíram com 2% dos resíduos plásticos identificados. Para realizar o estudo, voluntários recolheram mais de 1,87 milhão de resíduos plásticos em 84 países ao longo de cinco anos, constatando que a maioria era proveniente de embalagens descartáveis de alimentos, bebidas e tabaco. Apenas metade desses resíduos possuía identificação de marca, e 56 multinacionais foram responsáveis por essa parcela. Embora algumas empresas tenham adotado medidas voluntárias para reduzir sua pegada ambiental, a produção global de plástico dobrou desde 2000, enquanto a taxa de reciclagem permanece em apenas 9%. O estudo confirma uma correlação direta entre o aumento da produção de plástico e a intensificação da poluição ambiental (Cowger et al, 2024).

Este cenário alarmante é impulsionado principalmente pela indústria petroquímica, que vê na produção de polímeros uma alternativa económica diante da redução do consumo de combustíveis fósseis, resultado do avanço das energias renováveis e veículos elétricos (Planelles, 2024). Países como Rússia, Arábia Saudita e Estados Unidos têm apostado agressivamente na produção petroquímica, contrariando esforços internacionais por um tratado global que limite a fabricação de polímeros (Mena, 2024; Rodrigues, 2024).

A indústria petrolífera, diante da redução da procura por combustíveis fósseis, passou a direcionar os seus investimentos à produção de plásticos, garantindo lucros significativos e sustentando sua relevância económica global. Países como Arábia Saudita e Rússia lideram a oposição a tratados internacionais que buscam limitar a produção global de polímeros, insistindo que a reciclagem e a gestão de resíduos seriam estratégias suficientes para resolver a crise plástica (Planelles, 2024; Mena, 2024; Rodrigues, 2024). Essa perspetiva, contudo, ignora as evidências que mostram os limites práticos e económicos da reciclagem em larga escala.

Uma importante iniciativa no combate à poluição dos plásticos está no estabelecimento de um Tratado Global sobre Plásticos. Esse tratado começou a surgir a partir de uma resolução aprovada em 2022 por 175 membros da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, com o objetivo de eliminar a poluição plástica até 2040 por meio de um instrumento internacional juridicamente vinculativo.

Para a sua formulação, foi estabelecido o Comité de Negociação Intergovernamental (INC), que iniciou os seus trabalhos no segundo semestre de 2022, visando concluir as negociações até o final de 2024. Entretanto, devido à falta de consenso, o prazo foi estendido. A primeira parte da quinta sessão do INC (INC-5.1) ocorreu em novembro e dezembro de 2024, em Busan, Coreia do Sul, e a segunda parte (INC-5.2) está programada para agosto de 2025, em Genebra, Suíça. Nessa fase, serão debatidos temas como design e gerenciamento de resíduos, produtos químicos preocupantes, fornecimento e produção de plástico, além de mecanismos financeiros (UNEP, 2025).

A ratificação do tratado representará um marco na luta contra a poluição plástica, incentivando mudanças nos padrões de consumo, inovação tecnológica e maior engajamento de setores público e privado na busca por sustentabilidade.

As dificuldades na criação de um Tratado Global sobre Poluição Plástica revelam não apenas a resistência dos países produtores de petróleo, mas também o papel de grandes corporações. A Coca-Cola, por exemplo, que foi apontada como a maior poluidora plástica do mundo por seis anos consecutivos pela organização Break Free from Plastic, tem revisto silenciosamente os seus compromissos ambientais. Durante as negociações de 2024 na Coreia do Sul, a empresa removeu do seu site a meta de garantir que 25% de suas bebidas fossem vendidas em embalagens reutilizáveis até 2030. Auditorias realizadas em 40 países confirmam que as garrafas plásticas da empresa estão entre os resíduos mais encontrados em praias e parques, demonstrando o seu impacto na crise da poluição plástica. Além disso, no seu comunicado oficial de dezembro de 2024, a Coca-Cola reduziu as suas metas de conteúdo reciclado nas embalagens, passando de 50% até 2030 para 35-40% até 2035, e adiou as suas metas de recolha de embalagens para depois de 2035. A ausência de um compromisso renovado com embalagens reutilizáveis foi interpretada por ambientalistas como um retrocesso significativo, considerando que a Coca-Cola é uma das maiores poluidoras por plásticos globalmente, o que amplifica a gravidade da questão e a urgência por regulamentações mais rigorosas e comprometimento corporativo genuíno. (Gama, 2024).

2- Impactos da poluição plástica no meio ambiente
O impacto ambiental dos plásticos é visível em todo o planeta, com oceanos a transformarem-se em grandes depósitos desse resíduo. Cerca de 20 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos todos os anos, afetando profundamente a biodiversidade marinha (Cardial, 2024). Ecossistemas protegidos como o Parque Marinho de Abrolhos, no Brasil, já apresentam altos níveis de contaminação por microplásticos, evidenciando que mesmo áreas supostamente protegidas não estão imunes (Teixeira, 2025).

Um estudo recente revelou que a ingestão de plásticos está a causar danos cerebrais em filhotes de cagarra-negra (Puffinus griséus), semelhantes às doenças de Alzheimer e Parkinson em humanos. Os investigadores da Universidade da Tasmânia analisaram dezenas de filhotes dessa ave migratória e identificaram neurodegeneração, deterioração do estômago e ruptura celular causadas pelos resíduos plásticos ingeridos. Os filhotes, alimentados involuntariamente com plástico pelos pais, acumularam grandes quantidades desse material no estômago, comprometendo órgãos vitais como fígado, rins e cérebro. Exames de sangue indicaram padrões de proteínas similares aos encontrados em pacientes com Alzheimer. Estudos anteriores mostram que um único filhote pode carregar até 400 pedaços de plástico, representando 10% do seu peso corporal. Embora algumas aves vomitem parte do plástico antes de migrar, a ingestão excessiva compromete a sua sobrevivência, tornando a sua jornada quase impossível. O estudo reforça o impacto devastador da poluição plástica na vida selvagem marinha (de Jersey et al, 2025).

Os achados desse estudo são alarmantes e evidenciam o impacto profundo e irreversível da poluição plástica na vida selvagem marinha. A neurodegeneração observada em filhotes de Puffinus griséus reforça a gravidade da contaminação por plásticos, que compromete funções vitais e inviabiliza sua sobrevivência. A presença de biomarcadores similares aos de doenças neurodegenerativas humanas indica que os efeitos do plástico vão além do dano físico, alcançando processos biológicos fundamentais.

Além dos oceanos, micro e nanoplásticos, resultantes da fragmentação dos plásticos maiores, tornaram-se uma ameaça omnipresente, infiltrando-se em alimentos, água potável, ar e até mesmo no corpo humano. Estudos recentes revelam a presença dessas partículas em órgãos como cérebro, fígado e pulmões, indicando uma ameaça potencialmente grave à saúde humana, cujas consequências ainda estão sendo compreendidas. Revelaram ainda maior risco de doenças cardiovasculares, inflamações e danos celulares devido à presença dessas partículas em tecidos humanos.

A poluição por microplásticos também ameaça a segurança alimentar global ao reduzir a fotossíntese de plantas terrestres em cerca de 12% e algas marinhas em 7%. Essa contaminação pode causar perdas de 4% a 14% na produção de trigo, arroz e milho e reduzir a pesca em até 24 milhões de toneladas anuais. Como resultado, até 400 milhões de pessoas podem enfrentar insegurança alimentar nas próximas décadas. O estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, analisou mais de 3.000 observações e revelou que os microplásticos prejudicam a absorção de luz pelas plantas, danificam solos e carregam toxinas. Além da crise alimentar, a redução da fotossíntese impacta a captura de carbono, dificultando a mitigação das mudanças climáticas. Os pesquisadores alertam que as perdas agrícolas causadas pelos microplásticos são comparáveis às da crise climática e destacam a urgência de reduzir essa poluição para proteger o suprimento global de alimentos (Zhu et al, 2025).

A presença de micro e nanoplásticos também está a ser detetada na água potável, inclusive na engarrafada. Investigadores da Universidade de Columbia analisaram três marcas populares de água engarrafada nos Estados Unidos e descobriram que um litro de água pode conter, em média, 240.000 fragmentos de plástico detectáveis, sendo 90% deles nanoplásticos (Garcia, 2025).

Um outro estudo, Garcia (2025) revela a gravidade adicional da contaminação por micro e nanoplásticos na água engarrafada. Um estudo da Universidade de Barcelona mostrou que a Espanha é o terceiro país europeu em consumo desse tipo de água, com até 107 litros anuais por habitante. Analisando amostras por microscopia Raman estimulada, foi descoberto que a água engarrafada contém entre 110.000 e 370.000 fragmentos plásticos por litro, número que excede até cem vezes estimativas anteriores. Cerca de 90% dessas partículas são nanoplásticos, majoritariamente PET, provenientes da quebra das próprias garrafas, especialmente sob calor ou compressão. Outros polímeros detectados incluem poliamidas, poliestireno, cloreto de polivinila e polimetilmetacrilato.

Além disso, estudo realizado pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) e Instituto de Saúde Global de Barcelona analisou 280 amostras de água de diferentes marcas e constatou presença similar de microplásticos e aditivos químicos, como estabilizantes e plastificantes. Esses aditivos, principalmente plastificantes, representam riscos significativos à saúde humana, comparáveis às taxas detectadas na água da torneira, porém com predominância distinta dos tipos de polímeros encontrados. Os investigadores estimam que, ao beber dois litros de água por dia, uma pessoa ingere 262 microgramas de partículas plásticas por ano. Esses contaminantes representam um risco significativo para a saúde humana, uma vez que estudos indicam que microplásticos estão associados a inflamações, doenças cardiovasculares e danos celulares (Garcia, 2025).

3- Limitações e desafios da reciclagem
Embora a reciclagem seja frequentemente apresentada como solução, a realidade global revela um cenário menos otimista. Apenas cerca de 9% do plástico produzido no mundo é efetivamente reciclado. Países como o Brasil possuem índices ainda mais baixos, reciclando pouco mais de 1% (Capomaccio, 2025). Dificuldades técnicas e económicas limitam significativamente a reciclagem, especialmente no caso de plásticos complexos, como embalagens coloridas, produtos compostos por múltiplos polímeros e embalagens de cosméticos, que acabam frequentemente em aterros sanitários ou na natureza (Gama, 2024).

Além disso, iniciativas corporativas destinadas a resolver o problema da reciclagem têm demonstrado ser mais marketing do que soluções efetivas. A Aliança para Acabar com o Lixo Plástico (AEPW), formada por gigantes petroquímicas, prometeu retirar milhões de toneladas de plástico do meio ambiente, mas acabou colhendo menos de 0,1% da quantidade produzida, caracterizando um evidente caso de “greenwashing” (Leri, 2024).

É essencial olhar criticamente para essas iniciativas corporativas, já que muitas vezes elas representam uma estratégia para melhorar a imagem pública sem mudar substancialmente práticas produtivas nocivas. A sociedade deve exigir maior transparência e responsabilidade real das empresas envolvidas.

4- Entraves internacionais e interesses económicos
As negociações para um tratado global juridicamente vinculante têm enfrentado forte resistência da indústria petroquímica e de países dependentes da produção de petróleo. Em Busan, Coreia do Sul, representantes de mais de 170 países fracassaram em alcançar consenso devido à resistência de países produtores de petróleo, que argumentaram contra restrições obrigatórias na produção de polímeros. Esses países insistem que as medidas deveriam ser voluntárias e focar apenas na gestão de resíduos e reciclagem, não na redução da produção de plásticos (Cardial, 2024; Mena, 2024; Rodrigues, 2024).

Questões relacionadas ao financiamento também são fontes de conflito, pois países em desenvolvimento reivindicam apoio financeiro justo dos países desenvolvidos para a implementação de medidas sustentáveis. O Brasil, por exemplo, questiona o papel do Global Environment Fund (GEF) na gestão dos recursos devido à falta de influência dos países mais pobres na governança dessas instituições (Cardial, 2024).

A indústria petroquímica tem desempenhado papel decisivo ao bloquear avanços regulatórios e promover estratégias de manipulação da opinião pública. Um exemplo emblemático é a campanha coordenada pela Associação Nacional de Recursos de Contêineres de PET (NAPCOR), que contratou influenciadores digitais para promover mensagens favoráveis ao plástico, omitindo informações sobre as baixas taxas reais de reciclagem (Tabuchi, 2024).

Essas ações expõe uma questão ética e política fundamental, evidenciando como interesses económicos específicos podem dificultar a implementação de políticas ambientais globais. Essa situação reflete o conflito entre desenvolvimento económico e a urgência de medidas sustentáveis. O caso específico dos Estados Unidos, sob a administração Trump, também ilustra como políticas ambientais podem retroceder rapidamente. Trump revogou restrições anteriores ao uso de plásticos descartáveis e incentivou o uso de produtos altamente poluentes como canudos plásticos, ignorando evidências científicas e preocupações globais sobre poluição (Holland & Hunnicutt, 2025; Debusmann, 2025).

Esses retrocessos políticos reforçam a ideia de que, sem uma abordagem global coordenada e coerente, avanços nacionais isolados podem facilmente ser revertidos. A cooperação internacional é indispensável, e políticas isolacionistas representam um risco à sustentabilidade global.

5- Conclusão
Diante da catástrofe ambiental e social representada pela poluição plástica, é imperativo rejeitar a falsa narrativa sustentada pelos interesses económicos da indústria petroquímica, que insiste em soluções paliativas enquanto amplia continuamente sua produção. A resistência de países dependentes dos combustíveis fósseis às regulamentações internacionais expõe claramente o conflito entre lucro e preservação ambiental, exigindo uma resposta vigorosa e urgente da comunidade global. Para evitar o agravamento dessa crise, é fundamental a implementação imediata de acordos internacionais juridicamente vinculantes, capazes de obrigar os produtores a assumir plena responsabilidade sobre o ciclo de vida dos plásticos. Além disso, é necessário intensificar investimentos na economia circular, promover a substituição do plástico por alternativas sustentáveis e garantir uma educação ambiental maciça que conscencialize a sociedade sobre a gravidade do problema.

Referências

Capomaccio, S. (2025, fev 26) Poluição plástica é a segunda maior ameaça ambiental ao planeta. Jornal da USP. 


Cowger, W., Willis, K. A., Bullock, S., Conlon, K., Emmanuel, J., Erdle, L. M., … & Wang, M. (2024). Global producer responsibility for plastic pollution. Science Advances, 10(17), eadj8275. 

Debusmann Jr, B. (2025, feb 10) Trump signs order shifting US back toward plastic straws. BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c2k574ydyyqo

de Jersey, A. M., Lavers, J. L., Bond, A. L., Wilson, R., Zosky, G. R., & Rivers-Auty, J. (2025, mar 12). Seabirds in crisis: Plastic ingestion induces proteomic signatures of multiorgan failure and neurodegeneration. Science Advances, 11(11), eads0834. 


Garcia, J. (2025, Feb 20) Unos investigadores analizaron 280 muestras de agua embotellada. Solo una de las marcas estaba libre de microplásticos. España Xataka. Disponível em: https://www.xataka.com/ecologia-y-naturaleza/unos-investigadores-analizaron-280-muestras-de-agua-embotellada-solo-una-de-las-marcas-estaba-libre-de-microplasticos

Holland , S. & Hunnicutt, T (2025, feb 11) Trump signs executive order on plastic drinking straws. Reuters. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/trump-signs-executive-order-plastic-drinking-straws-2025-02-10/

Leri, M. (2024, nov 21) Empresas produzem 1.000 vezes mais plástico do que conseguem limpar, revela Greenpeace. Um só planeta. Disponível em: https://umsoplaneta.globo.com/financas/negocios/noticia/2024/11/21/empresas-produzem-1000-vezes-mais-plastico-do-que-conseguem-limpar-revela-greenpeace.ghtml

Mena, F. (2024 Dez 3) Sem acordo, tratado global contra a poluição plástica é adiado para 2025. Folha de São Paulo, p A40.

OCEANA-WWF (2024) Oportunidades na transição para um Brasil sem plásticos descartáveis. Resumo Executivo. https://wwfbrnew.awsassets.panda.org/downloads/res-exec_estudo_socioeconomico_final_1.pdf

Planelles, M.(2024, dic 05) De la gasolina al plástico: la estrategia de negocio de las petroleras que bloquea tratados medioambientales. El País. Disponível em: https://elpais.com/clima-y-medio-ambiente/2024-12-05/de-la-gasolina-al-plastico-la-estrategia-de-negocio-de-las-petroleras-que-bloquea-tratados-medioambientales.html?utm_source=chatgpt.com

Rodrigues, M. (2024 dez 3) Catadores cobram mais proteção em meio a negociações frustradas. Folha de São Paulo, p. A40


Tabuchi, H. (2024, nov 27)Inside the Plastic Industry’s Battle to Win Over Hearts and Minds. The New York Times. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/11/27/climate/plastic-industry-internal-documents.html

Teixeira, A.(2025, jan 19) Expedição baiana encontra microplásticos em áreas de preservação ambiental no Parque Marinho de Abrolhos. G1Globo. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2025/01/19/expedicao-baiana-encontra-microplasticos-em-areas-de-preservacao-ambiental-no-parque-marinho-de-abrolhos.ghtml

UNEP (2025) Intergovernmental Negotiating Committee on Plastic Pollution. https://www.unep.org/inc-plastic-pollution

Vasques, L. (2025, mar 10) Estudo sobre contaminação do camarão do litoral de SP tem resultado assustador. Fórum. Disponível em: https://revistaforum.com.br/sp/santos-regiao/2025/3/10/estudo-sobre-contaminao-do-camaro-do-litoral-de-sp-tem-resultado-assustador-175429.html

Zhu, R., Zhang, Z., Zhang, N., Zhong, H., Zhou, F., Zhang, X., … & Xing, B. (2025). A global estimate of multiecosystem photosynthesis losses under microplastic pollution. Proceedings of the National Academy of Sciences, 122(11), e2423957122. https://doi.org/10.1073/pnas.2423957122

Zorzetto, R. (2025, fev 13) Equipe da USP encontra microplásticos no cérebro humano. Revista Pesquisa Fapesp. edição 347. https://revistapesquisa.fapesp.br/equipe-da-usp-identifica-microplasticos-no-cerebro-humano

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A União Europeia perdeu a alma e o rumo


Na segunda década deste século tentei compreender se a UE poderia sobreviver às consequências da consistente oposição, liderada pela Alemanha da chanceler Merkel, à indispensável reforma da união monetária do euro.

A minha aposta consistia em defender a relação entre a criação de um verdadeiro orçamento federal e a edificação de uma união política, capaz de gerar um governo europeu, com pelo menos o mesmo grau de legitimidade democrática e constitucional que existe nos governos dos Estados-membros. Infelizmente, a realidade, que deve ser sempre a pedra de toque do conhecimento objetivo, mostrou-me que a eventual bondade das minhas propostas – apoiadas na coerência da doutrina e nas lições históricas de sucesso – não colhiam junto dos decisores e atores europeus, individuais e coletivos.

Em 2014 e 2019 publiquei dois livros sobre o declínio do projeto da unificação europeia (1). A UE estaria condenada a perder relevância e coesão interna. A recusa do federalismo iria conduzir a um precário “sistema internacional europeu”, uma “nova balança da Europa”, na qual a zona euro, em vez de cola para uma união política posterior, se tornaria, progressivamente, num fator de conflito e desagregação cada vez mais ameaçador.

Se antes do começo da guerra na Ucrânia, a UE já tinha perdido a alma, isto é, um sentido de propósito com um valor maior do que a simples rotina do business as usual, hoje, mais de três anos de sangrento conflito revelam-nos que a desorientação reinante nas três capitais europeias principais (Bruxelas, Berlim, Paris, acicatadas por Londres, que com o cheiro a pólvora parece regressado ao período anterior ao Brexit), está a degenerar num tóxico delírio de impotência e belicismo que nos ameaça arrastar para a autodestruição física.

A UE oscilou ao longo dos trinta anos que precederam a guerra da Ucrânia, entre ser um mero figurante, ou um cúmplice de segunda linha da continuada determinação dos EUA para usar a Ucrânia como bastião da sua hegemonia militar na Europa. Os documentos dizem-no sem equívocos, desde o livro de Zbigniew Brzezinski (The Grand Chessboard, 1997) até ao relatório RAND, contendo uma estratégia de aceleração da provocação a Moscovo em torno da Ucrânia (Extending Russia, 2019): com a anuência dos Estados europeus membros da NATO, os EUA prosseguiram com a expansão da Aliança Atlântica, e com a tentativa permanente de nela integrar Kiev, com vista a uma política de mudança de regime e fragmentação da Rússia, como etapa preliminar à contenção e enfrentamento da China.

Quando a Rússia passou da diplomacia ao uso da força militar para defender o seu interesse nacional, a UE não só seguiu incondicionalmente a resposta dos EUA, como foi num crescendo de agressividade, sem se preocupar com os danos económicos e sociais imediatos e as consequências estratégicas negativas de longo prazo de transformar a Rússia num inimigo. Seguiram-se três anos de escalada, com a subida de degraus que nos aproximaram de um conflito direto da NATO com a Rússia.

A vitória de Trump mudou as regras do jogo. Washington parece querer parar a guerra na Europa o mais depressa possível. Percebeu que continuar a escalada, seria um convite à III Guerra Mundial. Trump, por outro lado, mostrou sem máscaras as cartas do jogo geopolítico e militar americano: o que moveu os EUA não foram valores altruístas, mas interesses materiais grosseiros (acesso a matérias-primas estratégicas, encomendas para a indústria de armamento, ocupação do vazio deixado pelas sanções à Rússia na venda de combustíveis fósseis norte-americanos à Europa).

Contudo, aquilo que irritou os dirigentes europeus não foi isso, nem sequer as ameaças de Trump à integridade territorial da Dinamarca, ou do Canadá, mas sim o desejo norte-americano de acabar com uma guerra na Ucrânia, que, a continuar, transbordará para a totalidade do território europeu.

A guerra submete sempre as lideranças políticas a uma prova de fogo. O conflito que devasta a Ucrânia e partes da Rússia, mostrou a perigosa combinação de ignorância e arrogância – nas questões de estratégia militar e relações internacionais – de figuras como Ursula von der Leyen, Macron, Starmer, para não falar de Mark Rutte, Kaja Kallas ou António Costa. Num artigo recente no Público (14.03. 2025), Ana Cristina Leonardo recorda a total impreparação de von der Leyen: em abril de 2022 afirmava que “a falência do Estado russo é apenas uma questão de tempo”; em setembro desse ano declarava, com um sorriso de troça: “os militares russos estão a tirar fichas dos seus frigoríficos para os seus equipamentos militares, porque ficaram sem semicondutores”; em fevereiro de 2024 chegou ao ridículo de afirmar que a guerra com a Rússia tinha sido boa para a ecologia europeia, auxiliando a transição energética!

O panorama nas capitais nacionais, com escassas exceções não é melhor. Alguém consegue imaginar Luís Montenegro a dizer qualquer coisa, com a densidade de um pensamento, sobre o que significa para o futuro de Portugal a continuação desta guerra?

O belicismo irracional da UE é um sinal do seu colapso moral e intelectual. Significa também que na Europa o voluntarismo e o decisionismo arbitrários substituíram o respeito pelas leis, mesmo das leis constitucionais. Vejamos dois exemplos.

Apesar de o Parlamento Europeu (PE) ter sido afastado pela Comissão Europeia da discussão do plano de rearmamento de 800 mil milhões de euros, através do truque de usar o artigo 122º do Tratado de Funcionamento da União Europeia (equiparando, com esse ardil, a corrida aos armamentos à resposta a um “desastre natural”), o PE não deixou de aprovar uma resolução que constituiria uma autêntica declaração de guerra à Rússia, caso Moscovo ainda considerasse a UE como uma entidade credível (2).

De salientar que desde o começo da guerra, a CE atua em matéria de segurança e defesa em constante transgressão das suas competências (artigo 24º do TFUE).

Outro exemplo do desrespeito pelo quadro legal ocorreu na Alemanha. A 18 de março, o Parlamento alemão efetuou uma revisão rápida da Constituição federal, para permitir que os artigos limitando as dívidas do governo federal e dos governos estaduais (introduzidos em maio de 2009), fossem suspensos para permitir a criação de um fundo especial, num horizonte de 12 anos, ascendendo a 500 mil milhões de euros, a obter nos mercados da dívida, destinados essencialmente a revitalizar a indústria de armamento, as forças armadas e infraestruturas. Para além de juntar a uma economia em declínio um aumento exponencial da dívida pública germânica, a urgência na aprovação desta revisão, antes da entrada em funcionamento do novo Bundestag eleito em fevereiro, ficou a dever-se a mais um motivo de baixa política: com o novo parlamento, esta proposta não teria sido aprovada, pois a nova composição do Bundestag impediria a revisão de obter os dois terços dos votos necessários para uma alteração constitucional...

Os focos de tensão mundial são imensos. Israel quebrou o cessar-fogo com o Hamas e prossegue o massacre de civis desarmados. Há fumos de uma agressão dos EUA e de Israel contra o Irão. A matança de combatentes prossegue na Ucrânia. E a União Europeia, em vez de contrariar estas tendências disruptivas, junta-se a elas trocando a sua alma original de força promotora da paz e dos direitos humanos à escala global, pela pulsão de morte, enraizada numa russofobia fanática que nos ameaça devorar a todos.

Por Viriato Soromenho Marques

(Publicado no Jornal de Letras, edição de 2 de abril de 2025)

Referências:

  1. Os meus livros, publicados na editora Temas & Debates/Círculo de Leitores, foram os seguintes: Portugal na Queda da Europa (2014) e Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação (2019).
  2. European Parliament resolution of 12 March 2025 on the white paper on the future of European defence (2025/2565(RSP).

segunda-feira, 24 de abril de 2023

The U.N. is Negotiating a Treaty that Could Solve the Plastic Problem. Here's What You Need to Know. Sign and share the Petition


Atualmente, 175 países estão a negociar um tratado internacional juridicamente vinculativo sobre poluição plástica que pode mudar o mundo. É um grande acontecimento.

Mas, ao mesmo tempo, permanece a questão de saber se esse tratado será forte o suficiente ou se certos países ou empresas impedirão o progresso que poderia ser alcançado.

Alguns países e empresas dizem que querem um tratado ambicioso, mas quando você realmente olha para os detalhes, eles não estão pressionando por soluções significativas.

Por exemplo, os EUA querem que a parte “juridicamente vinculativa” do tratado seja que cada nação tenha um plano de ação. Mas isso é como permitir que os alunos escolham a sua própria lição de casa e a avaliem também.

Enquanto isso, as empresas químicas e de plásticos estão fazendo lobby ativamente por termos de tratados mais fracos. No início, eles se opuseram aos regulamentos de plástico. Mas isso prejudicou a sua reputação e os seus resultados. Então agora eles mostram-se pouco empenhadas, fazendo reivindicações de sustentabilidade e tentando enfraquecer as soluções por dentro. Elas continuam pressionando por termos de tratados mais fracos e flexíveis que se concentrem na gestão de resíduos em vez de reduzir o plástico na fonte.

Não podemos esperar que as empresas que criaram o problema ajudem a resolvê-lo. E não podemos deixar que este tratado deixe espaço para lavagem verde da indústria e falta de progresso real.

Sabemos que o problema dos plásticos é grande. Enfrentamos algo maior do que qualquer indivíduo, organização, legislador ou líder empresarial pode enfrentar sozinho.

Por isso, estamos nos unindo a aliados e organizações em todo o mundo para exigir um tratado forte que combata ambiciosamente a poluição plástica. Estaremos entregando esta petição aos líderes e delegados mundiais antes da próxima ronda de negociações no INC-2 (Comitê Intergovernamental de Negociação) no final de maio e início de junho.

Precisamos que os governos de todo o mundo aproveitem esta oportunidade histórica ouvindo as pessoas. Isso vai ser um levantamento pesado. O Big Oil e o Big Plastic não deverão manter-se tranquilos. Mas estamos prontos para nos reunirmos, ao lado de amigos de todo o mundo. Você está pronto?

Não importa como você está lidando com o problema dos plásticos, precisamos de você.

Assina e partilha a petição
Para: Líderes mundiais, delegados e representantes no INC-2

De: 

Como cidadãos globais de todo o mundo, pedimos a vocês que aprovem um forte tratado internacional sobre poluição plástica.

Precisamos de um tratado que:
  1. É juridicamente vinculativo e tem prazos para limitar e reduzir a produção de plástico, acelerando a transição dos plásticos descartáveis para a reutilização e recarga.
  2. Prioriza a saúde, os meios de subsistência e a experiência dos trabalhadores e comunidades da linha de frente em todo o ciclo de vida dos plásticos.
  3. Rejeita soluções falsas, como incineração de resíduos, “reciclagem” química, conversão de resíduos em energia, dumping internacional e outros esforços de lavagem verde apoiados pela indústria para continuar a produção de plástico como de costume.
  4. Inclua disposições que responsabilizem as corporações poluidoras e os países produtores de plástico.
  5. Por favor, proteja a saúde do nosso povo e do nosso planeta. Os cidadãos da terra exigem isso.

sábado, 11 de março de 2023

Tratado histórico para a proteção global dos oceanos é acordado na ONU



O Tratado Mundial dos Oceanos foi finalmente acordado pela Organização das Nações (ONU) na última sexta (4 de março de 2023), após quase duas décadas de negociações. O instrumento global é uma grande vitória para a biodiversidade dos mares e mantém viva a meta de protegermos 30% dos oceanos até 2030.

A criação do Tratado, cujo texto passará por edição técnica e tradução para então ser adotado oficialmente, foi apoiada por mais de 5,5 milhões de pessoas que participaram de abaixo-assinados do Greenpeace ao redor do mundo, com o objetivo de pressionar os líderes mundiais.

Segundo Laura Meller, da campanha de Oceanos do Greenpeace Nórdico, a aprovação do Tratado sinaliza a importância da conservação do meio ambiente superar questões geopolíticas.

“Elogiamos os países por se comprometerem, deixando de lado as diferenças e entregando um Tratado que nos permitirá proteger os oceanos, construir resiliência às mudanças climáticas e proteger a vida e a subsistência de biliões de pessoas”, afirma Meller, ressaltando que os países devem adotar ratificar o Tratado o mais rápido possível.

“O relógio ainda está correndo para entregarmos a meta 30×30. Nos resta meia década e não podemos ser complacentes”

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Tripulação de ativistas do Greenpeace, em 2020, agradecem a adesão de milhões de pessoas ao abaixo-assinado em defesa do Tratado Mundial dos Oceanos (Foto: Andrew McConnell / Greenpeace)

A High Ambition Coalition, que inclui a União Europeia, os Estados Unidos e o Reino Unido, e a China foram atores-chave na intermediação do acordo, assim como os pequenos Estados Insulares e o G77, coalizão de nações em desenvolvimento, que também tiveram atuação importante para o resultado final.

Apesar do Tratado abrir caminhos para a criação das áreas protegidas, ainda há falhas no texto. Os governos já haviam se comprometido com a criação do Tratado na COP 15 (Conferência da Biodiversidade da ONU), em dezembro do ano passado, e agora continuaremos pressionando para que eles assegurem que o Tratado seja colocado em prática de forma eficaz e ambiciosa.

Saber mais:

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

E se aproveitássemos a produção de plástico para tirar carbono da atmosfera?


Das profundezas do oceano ao sangue humano, o plástico tornou-se um problema de poluição ubíquo, que além de tudo acelera as alterações climáticas. Em 2015, este sector gerou 4,5% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa, um valor superior ao da aviação. Se nada for feito, as emissões poderão mais do que triplicar até ao fim do século. No entanto, uma equipa de cientistas da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, avançou com um cenário completamente diferente.

Os combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão, são a principal matéria-prima na produção do plástico. Mas, se em vez deste material de origem fóssil for usada biomassa vegetal, seria possível chegar a 2100 com emissões negativas de CO2, adiantam os investigadores. Ou seja, o sector do plástico, com ajuda de outras medidas como o aumento de preço do carbono e a economia circular, passaria a ajudar a retirar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, podendo ter um papel positivo na mitigação das alterações climáticas. O estudo foi publicado esta quarta-feira na revista Nature.

“As plantas retiram CO2 [da atmosfera] enquanto crescem. Se usamos estas plantas para produzir plástico, o CO2 acumulado nos produtos de plástico causa emissões negativas, desde que sejam mantidos a uso e não sejam incinerados”, diz Paul Stegmann ao PÚBLICO, primeiro autor do artigo Futuros do Plástico e as Suas Emissões de CO2.

Montanhas de plástico
Desde que se inventou o plástico, a sua evolução foi imparável. De dois milhões de toneladas, produzidas em 1950, passaram-se para 390 milhões de toneladas em 2021. Isto faz com que este seja o material sólido “com o maior crescimento de produção a nível mundial”, lê-se no artigo.

Todos os anos, uma boa parte do plástico produzido é deitada para o lixo – principalmente o que é usado para embalagens e em produtos de pouca duração, como as garrafas. Mas cerca de 17% é plástico de longa duração, usado em material de construção e em edifícios. Por isso, de ano para ano, a quantidade de plástico na Terra vai aumentando. A equipa estimou que em 2050, o stock total de plástico será de 7,7 mil milhões de toneladas, uma subida de 4,5 mil milhões de toneladas face a 2020. E de 2020 até 2100 serão produzidas ao todo 100 mil milhões de toneladas de plástico.

Apesar de “​o plástico poder oferecer benefícios ambientais, como reduzir o consumo de combustível ao tornar os veículos mais leves, o aumento do seu consumo está a ter impacto no ambiente”, resume o artigo.

Estas montanhas de plástico produzidas e descartadas traduzem-se em emissões de CO2. Se a evolução da produção de plástico não for travada, o sector poderá emitir cerca de 56 mil milhões de toneladas de CO2 até 2050. Este valor equivale a entre dez e 13% da quantidade de CO2 que o mundo pode ainda emitir se quiser que o aquecimento global fique abaixo dos 1,5 graus Celsius.

A maioria daquelas emissões surge “por causa da energia usada nos processos químicos ou nas perdas de conversão quando se transformam combustíveis fósseis, como o petróleo e o gás, em químicos e plásticos”, explica Paul Stegmann ao PÚBLICO. “A incineração do plástico que vai para o lixo é outra fonte importante de emissões de carbono”, acrescenta.

Quatro cenários

Perante este panorama, a equipa da Universidade de Utrecht foi observar o que aconteceria à produção de plástico e às emissões de CO2 até 2100 em quatro cenários diferentes. Os cenários serviram-se de um modelo que a equipa já tinha desenvolvido para o sector do plástico e que tem em conta não só o ciclo de plástico, com a extracção da matéria-prima, a produção, a reciclagem e o descarte do plástico, mas também as ligações deste sector com outros – como o da energia e o da agricultura –, e com o ambiente.

Por isso, o modelo “reage a mudanças do nosso sistema energético ou à disponibilidade e custos da biomassa para a produção de plástico”, afirma o investigador.

A solução mais eficaz é reduzir a necessidade de plástico e reduzir as emissões e a poluição. No entanto, isto só resulta se todo o serviço providenciado pelo plástico for reduzido.
Paul Stegmann
No primeiro cenário, a produção de plástico continua a ser maioritariamente baseada em combustíveis fósseis, atingindo um pico de emissões em 2090, com 5,7 mil milhões de toneladas de CO2 emitidas nesse ano. Nos restantes cenários, a equipa aplicou estratégias de mitigação. Todos os três cenários incluem um aumento do preço das emissões de carbono para evitar o aumento da temperatura média global além dos dois graus Celsius. Além disso, o primeiro dos três não tem mais nenhuma estratégia específica, o segundo aposta principalmente na economia circular e o terceiro aposta principalmente na bioeconomia circular.

“O cenário da economia circular apenas aumenta a reciclagem dos plásticos, mas não altera os recursos usados para a produção de plástico virgem, que se mantém e que é baseada em grande parte em combustíveis fósseis como o petróleo e o gás”, explica o investigador. “Um cenário de bioeconomia circular combina a reciclagem com um maior uso de biomassa.”

O aumento do preço das emissões de carbono tem um efeito importante. “Todos os três cenários de mitigação atingem o pico das emissões por volta de 2030 entre os 2,8 e três mil milhões de toneladas de CO2”, lê-se no artigo. Depois, as emissões decaem. “O aumento do preço de CO2 leva à descarbonização da produção eléctrica. […] Além disso, favorece uma mudança em direcção à biomassa e ao gás natural, provocando assim uma eliminação progressiva do uso de carvão e uma diminuição do uso de petróleo”, explica o artigo, revelando como modelo reage aos cenários propostos pelos investigadores.

Vantagens e desafios

Mas a partir dali há divergências. No primeiro dos três cenários de mitigação, o pico das emissões acontece um pouco depois de 2030. No final do século, embora as emissões de CO2 sejam negativas – já que o cenário também contempla o uso da biomassa vegetal – isto acontece porque deixa de haver incineração do plástico devido ao aumento do preço pago pelas emissões de CO2.

Como consequência, há “uma acumulação drástica de plástico nos aterros”, lê-se no artigo, subindo de 6,4 mil milhões de toneladas em 2020 para uns estimados 66 mil milhões de toneladas em 2100. Nos aterros, o “plástico e o seu carbono ficam sequestrados durante séculos”, adiantam os autores.

No cenário da economia circular a grande aposta é na reciclagem do plástico descartável. Apesar de haver uma grande diminuição do plástico a ir para o aterro, as emissões de CO2 em 2100 acabam ainda por ser positivas, já que os combustíveis fósseis continuam a ser uma parte importante da matéria-prima na produção de plástico.

O melhor dos cenários é, por isso, o da bioeconomia circular. “Ao combinar medidas da economia circular e aumentando o uso de biomassa [vegetal], a estratégia da bioeconomia circular alcança a maior redução de emissões cumulativas de todos os cenários analisados, ao mesmo tempo que elimina progressivamente os aterros e reduz a necessidade final de energia do sector do plástico”, conclui o artigo.

Mas há desafios: não só esta tecnologia tem de ser desenvolvida para que se torne mais rentável do que o uso de petróleo, como a necessidade de área agrícola para se produzir a biomassa pode ter consequências ambientais e de sustentabilidade alimentar. “Pode reduzir a biodiversidade e causar emissões de gases com efeito de estufa se florestas naturais como a Amazónia são destruídas para se obter a biomassa”, exemplifica Paul Stegmann. “É por isso que é importante ter padrões altos de sustentabilidade e um bom sistema de monitorização da produção de biomassa.”

Carbono na tecnosfera

O estudo, mais do que tudo, “sublinha a magnitude do desafio que está pela frente”, lê-se num comentário ao artigo científico, dos peritos Sangwon Suh, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e André Bardow, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça.

Os autores falam, no comentário, sobre a tecnosfera, o universo de objectos produzidos pelos humanos a partir do seu conhecimento tecnológico: “O quinto compartimento onde o carbono pode ser armazenado”, depois da atmosfera, da biosfera, da hidrosfera e da geosfera. O plástico fará parte dessa quinta esfera. E apontam que o novo trabalho tem o “valor real” de colocar o foco nas condições socioeconómicas e tecnológicas que poderão permitir que isso aconteça.

“Parece plausível que o plástico se possa tornar num sumidouro de carbono no futuro”, reflectem os autores. “Mas será que se tornará nisso? Na nossa opinião, a resposta depende maioritariamente da capacidade da sociedade de criar uma paisagem socioeconómica e política que facilite essa transição, e não tanto no desenvolvimento das tecnologias necessárias.”

Além disso, este avanço teórico não responde a toda a poluição que o plástico tem vindo a produzir quando se transforma em lixo e vai parar aos ecossistemas. “A chave é evitar quaisquer perdas de plástico para o ambiente. Por via de uma gestão de lixo drasticamente melhorada e mudanças no design dos produtos, uma grande parte do lixo poderia ser evitado”, refere Paul Stegmann, que não deixa de defender um outro passo que hoje parece ser o mais radical.

“A solução mais eficaz é reduzir a necessidade de plástico e reduzir as emissões e a poluição. No entanto, isto só resulta se todo o serviço providenciado pelo plástico for reduzido. Se, por exemplo, apenas saltarmos do plástico para o vidro, as emissões de gases com efeito de estufa poderão ser ainda maiores.”

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domingo, 30 de outubro de 2022

A charada do acordo de Minsk


Tratado de Minsk
O acordo foi assinado pelo embaixador russo, mas não há qualquer referência à Rússia como uma parte do acordo, o que tem levado Moscovo a declarar que é um mediador e que não tem responsabilidade pela sua execução. Outro dado essencial, o acordo não refere uma única vez a soberania da Ucrânia. Saiba mais sobre os Acordos de Minsk aqui

Transparência

Following the invasion of Ukraine, there has been global outrage at Russia’s blatant disregard for international law, human rights, and the principle of state sovereignty.

In an attempt to deter Putin from escalating military action in Ukraine, the EU and its allies have come together to decide on sanctions that directly target Russian oligarchs, freezing their assets – often the fruit of corruption and money laundering – and impeding them from conducting financial transactions in the European Union, the UK, and the United States.

Ukraine meanwhile has, in the past few years, made significant progress in the fight against corruption, being the second country in the world to open its beneficial ownership register, also establishing an open company register, and an open contracting system ProZorro that has become a model globally.

The people of Ukraine are now fighting to ensure that this democratic progress is not reversed. In the words of EU Commission President Ursula von der Leyen, this is a clash between democracies and autocracies.

Liberdade de Expressão

Human Rights Watch (HRW) Monday published a catalog of citizen actions that have triggered criminal charges and administrative penalties in Russia since the start of the war in Ukraine.

Russia has repeatedly cracked down on free speech rights; in the first few weeks following the start of the war in Ukraine, Russian authorities arrested over 5,000 anti-war protesters. The arrests were piled on top of newly passed censorship laws, which criminalize public dissemination of “deliberately misleading information” and “discrediting the use of Russian Federation Armed Forces.”

Free speech activists, in conjunction with HRW, have tracked the progression of Russia’s efforts to suppress speech in response to the war in Ukraine. As a result of Russia’s new censorship laws, authorities have launched at least 70 criminal cases. The censorship laws have also prompted hundreds of administrative cases.

In the midst of this crackdown, HRW compiled a list of examples of “legitimate, peaceful speech or actions” that have resulted in charges or penalties. The examples detail charges brought against Russian individuals including the date, location, name of the individual, penalty, and circumstances surrounding the charges.

Among the examples are wearing a blue and yellow, replacing price tags in supermarkets with anti-war leaflets, commenting on the war on social media, criticizing the war in private, displaying the word “self-censorship” in public, displaying the phrases “no war” or “for peace” in public, displaying a blank poster in public, public speeches regarding the war, and taking down “Z” pro-war banners.

Meio ambiente da Ucrânia é outra vítima da guerra; danos poderão ser sentidos por décadas

As florestas de pinheiros ao redor de Irpin, na Ucrânia, são o lugar feliz de Oleh Bondarenko. Ele as descobriu quando ainda era criança, quando sua mãe o mandou um acampamento de verão na área, e ele tem voltado para visitar o local desde então.

“É um lugar cheio de memórias. Vorzel, Irpin, Bucha, as florestas, o ar fresco. Para mim, este é um lugar de descanso”, contou à CNN o cientista ambiental de 64 anos durante uma viagem recente a Irpin.

O caminho de uma hora de distância de Kiev – uma viagem que ele fez muitas vezes ao longo das décadas – foi cheio de angústia para Bondarenko, que se preocupava com o que encontraria em Irpin. “Esta é a primeira vez que volto desde que nossos irmãos ‘visitaram’ Irpin”, disse ele, referindo-se às tropas russas.

Esta área esteve sob controle russo por várias semanas em março; tornou-se posteriormente conhecida em todo o mundo como o local de algumas das piores atrocidades cometidas pela Rússia nesta guerra. Pelo menos 1.200 corpos de civis foram descobertos na região desde que as tropas russas se retiraram de lá, segundo a polícia da região de Kiev. Pelo menos 290 deles foram encontrados em Irpin, segundo o prefeito da cidade.

sábado, 22 de outubro de 2022

Putin - o comunista ditador


Birds of a feather. Photographer: Sergei Supinsky/AFP/Getty Images

Vladimir Putin está determinado a moldar o futuro para se parecer com sua versão do passado. O presidente da Rússia invadiu a Ucrânia não porque se sentiu ameaçado pela expansão da NATO ou por “provocações” ocidentais. Ele ordenou sua “operação militar especial” porque acredita que é direito divino da Rússia governar a Ucrânia, eliminar a identidade nacional do país e integrar seu povo à Grande Rússia.

Ele expôs essa missão num tratado de 5.000 palavras, publicado em julho de 2021, intitulado “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos”.


Site:

Documentários:

Entrevista 
NBC News worldwide exclusive, senior international correspondent Keir Simmons sits down with Russian President Vladimir Putin in Moscow for a one-on-one interview, just days ahead of a critical summit with President Biden.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares

Tratado de Não Proliferação Nuclear: uma garantia cada vez mais frágil e ameaçada



Tratado de não Proliferação das Armas Nucleares by João Soares on Scribd


Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares

Bibliografia: 
- Daniel H. Joyner, Interpreting the Nuclear Non-Proliferation Treaty, Oxford Universtity Press, 2011, 200 pp.

- Ian Bellany, Outflanking missile defences: the Nuclear Non-proliferation Treaty, nuclear weapons and terrorism, in Defense & Security Analysis, Vol. 28, n.º 1, 2012, p. 81-96
- Arsalan M. Suleman, Bargaining in the Shadow of Violence: The NPT, IAEA, and Nuclear Non-Proliferation Negotiations, in Berkeley Journal of International Law, Vol. 26, n.º1, Fall 2007, p. 206-253
- Orde F. Kittrie, Averting Catastrophe: Why the Nuclear Nonproliferation Treaty is Losing its Deterrence Capacity, in Michigan Journal of International Law, Vol. 28, n.º2, Winter 2007, p. 337-430
- Jonathan Granoff, The Nuclear Nonproliferation Treaty and Its 2005 Review Conference: A Legal and Political Analysis, in New York University Journal of International Law & Politics, Vol. 39, n.º4, 2007, p. 995-1006
- Christopher A. Ford, The Nonproliferation Bestiary: A Typology and Analysis of Nonproliferation Regimes,in New York University Journal of International Law & Politics, Vol. 39, n.º4, 2007, p. 937-993
- Gary J. Meise, Securing the strength of the renewed NPT: China, the linchpin " middle kingdom", in Vanderbilt Journal of Transnational Law, 1997, V.30, n.3, p.539-578
- Paul Szasz, IAEA safeguards for NPT, in Review of European Community & International Environmental Law, 1996 V.5, n.3, p.239-245
- Tuiloma Neroni Slade, 1995 review and extension of the treaty on the non-proliferation of nuclear weapons, in Review of European Community & International Environmental Law, 1996, V.5, n.3, p.246-252
- Jozef Goldblat, The nuclear non-proliferation régime: assessment and prospects, in Recueil des Cours, T.256 (1995), p.9-191
- Mohamed I. Shaker, La conférence des parties au traité sur la non-prolifération des armes nucléaires (TNP) : New York, Avril-Mai 1995, in Annuaire Français de Droit International, v.41 (1995), p.169-183

Estados Partes: NPT