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domingo, 28 de junho de 2026

'Fracking', a técnica que mudou o panorama energético mundial

Chega a casa e acende as luzes. Em seguida, toma um banho de água quente e, quando termina, prepara o jantar. Hoje é frango grelhado com ervilhas salteadas. Esta poderia ser a sua rotina, tal como a de milhões de pessoas em todo o mundo que têm acesso ao gás nas suas casas. E é que este abastecimento tornou-se um dos pilares invisíveis da vida quotidiana moderna. Pelo menos em Portugal, está por trás de quase tudo o que fazemos. Tanto é assim que é mais comum questionarmo-nos sobre o seu preço do que sobre a sua origem.

Esta última questão não condiciona nem perturba o nosso quotidiano, mas também nos deveria interessar: de onde vem esse gás que sustenta as tarefas básicas do nosso lar? No caso nacional, provém de outros países, seja através de gasodutos ou sob a forma de gás natural liquefeito transportado a bordo de grandes navios metaneiros. E é aí que surge um termo que continua a gerar controvérsias entre o sector energético e o meio ambiente: o fracking (fracturação hidroeléctrica).

Como é realizado o fracking?
Os dados mais recentes revelam que uma parte significativa do gás natural consumido em Portugal é importada de países onde a exploração de hidrocarbonetos não convencionais, incluindo o fracking, tem um peso relevante. Por outras palavras, embora Portugal não explore gás natural através de fracking no seu território, parte do gás que consome é proveniente de países onde essa técnica é amplamente utilizada, nomeadamente dos Estados Unidos. Em 2024, por exemplo, cerca de 40% do gás natural liquefeito (GNL) importado pelo nosso país teve origem no país actualmente governado por Donald Trump.

Integrado no mercado internacional, este método de extracção permite aumentar a disponibilidade energética e, consequentemente, reduzir os preços. Um benefício tão relevante quanto superficial, que ignora as graves consequências desta técnica industrial para o ambiente, a saúde pública e a biodiversidade dos territórios onde é aplicada.

Não é de admirar que os Estados Unidos sejam, de longe, o país que mais utiliza esta técnica: foi lá que foi concebida, pelas mãos do multimilionário texano George Mitchell e do engenheiro Nick Steinsberger. No final do século XX, ambos descobriram que era possível libertar grandes quantidades de gás e petróleo retidos em rochas muito compactas, combinando duas inovações fundamentais: a perfuração horizontal e a injecção de fluidos a pressão muito elevada.

A fracturação hidráulica consegue atingir camadas profundas de xisto, para depois injectar no solo uma mistura de água, areia e aditivos químicos que fracturam a rocha: daí o seu nome. A areia mantém abertas essas microfracturas, permitindo que o gás ou o petróleo fluam para a superfície para serem recolhidos.

Por que gera tanta controvérsia o fracking?
Não são poucas as organizações científicas e ambientais que estudaram exaustivamente os efeitos do fracking nos ecossistemas. E é que, devido ao seu sucesso retumbante em termos económicos e geopolíticos na América do Norte, outros países com grandes reservas de combustíveis fósseis despertaram interesse por esta técnica: no mesmo continente, destaca-se o caso de Vaca Muerta, em Neuquén (Argentina), um jazigo que se tornou um dos maiores centros de exploração de hidrocarbonetos não convencionais do mundo.

O mesmo não acontece na Colômbia, onde a técnica ainda não foi regulamentada, embora o último governo se tenha posicionado abertamente contra a sua aplicação. O fracking, de facto, tem sido protagonista nos debates da campanha presidencial colombiana de 2026, e não é de admirar: num dos países com maior biodiversidade do mundo, a fracturação hidráulica pode colocar em risco ecossistemas de altíssimo valor ambiental, fontes de água doce e territórios habitados por comunidades rurais e indígenas.

É o que demonstram as evidências científicas: de acordo com um relatório da Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos, o fracking pode fazer com que fluidos se infiltrem nas águas subterrâneas, causando poluição na água. Além disso, tal como explica a especialista Sandra Steingraber à National Geographic, em algumas zonas próximas de jazidas, a fracturação "é a principal fonte de smog". E não é só isso: pode até provocar terramotos em regiões onde antes quase não se registavam movimentos sísmicos.

Tudo isto, sem esquecer o impacto desta indústria na saúde das pessoas: os estudos realizados até à data sugerem que os bebés nascidos perto de poços de fracking podem apresentar uma maior incidência de baixo peso à nascença, parto prematuro ou anomalias congénitas. Além disso, os cidadãos idosos podem correr um risco maior de morte prematura.

Em relação a estas investigações, todas realizadas em zonas petrolíferas dos Estados Unidos, Steingraber salientou: "Isto é uma crise de saúde pública". Mas nada parece travar os países que impulsionaram a sua economia através desta estratégia. E enquanto o mercado internacional continua a crescer e a procura de gás se mantém em alta, os alertas científicos parecem ficar relegados para segundo plano.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Os maiores bancos do mundo comprometeram 906 mil milhões de dólares com empresas de combustíveis fósseis. num aumento "incompreensível" em 2025, revela relatório


O JPMorgan Chase lidera a lista de 65 bancos que estão a tomar decisões incompatíveis com a contenção do aumento das temperaturas globais, afirmam investigadores.

Os maiores bancos do mundo comprometeram 906 mil milhões de dólares ($906bn) em financiamento para a indústria dos combustíveis fósseis no ano passado — um aumento "incompreensível" no investimento que garante mais anos de produção de carvão, petróleo e gás, numa altura em que o planeta continua a sobreaquecer, concluiu um novo relatório.

O surto de novos empréstimos para combustíveis fósseis, que aumentou 64 mil milhões de dólares (quase 8%) em relação a 2024, demonstra que os 65 maiores bancos mundiais estão a tomar decisões incompatíveis com os acordos internacionais para conter o aumento das temperaturas globais, de acordo com a coligação de grupos ambientalistas responsável pela nova análise.

O JPMorgan Chase voltou a ser o principal financiador mundial de combustíveis fósseis, segundo o relatório anual Banking on Climate Chaos, após ter injetado 58 mil milhões de dólares no setor no ano passado — um aumento de 13% face a 2024.

O Bank of America comprometeu a segunda maior quantia com combustíveis fósseis no ano passado, seguido pelos bancos japoneses MUFG e Mizuho Financial. O Citigroup, outro banco norte-americano, fecha o "top 5", com o Barclays, na oitava posição, a ser o banco britânico mais bem classificado.

"O ano passado foi o primeiro em que esperávamos ver uma redução contínua nos números históricos, mas na verdade assistimos a esse aumento, que se prolongou este ano", afirmou Caleb Schwartz, analista de políticas da Rainforest Action Network, um dos grupos responsáveis pelo relatório. "Trata-se, portanto, de uma tendência preocupante."

Questionado sobre os seus empréstimos ao setor dos combustíveis fósseis, um porta-voz do JPMorgan Chase declarou: "Como um dos maiores financiadores de energia do mundo, apoiamos toda a gama de soluções e tecnologias energéticas, com foco na fiabilidade, acessibilidade, segurança e resiliência a longo prazo. Acreditamos que os nossos dados refletem as nossas atividades de forma mais abrangente e precisa do que as estimativas de terceiros."

No acordo climático de Paris, em 2015, os países concordaram em envidar esforços para evitar que o aquecimento global ultrapassasse os 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, limite a partir do qual o mundo sofrerá ondas de calor, cheias, secas e outros desastres alimentados pelas alterações climáticas ainda mais devastadores.

Evitar este limiar exigiria a quase eliminação das emissões que aquecem o planeta resultantes da produção de combustíveis fósseis. No entanto, desde o Acordo de Paris, os maiores bancos do mundo já canalizaram 8,7 biliões  de dólares para a indústria dos combustíveis fósseis para a extração e perfuração de mais carvão, petróleo e gás.

Os cientistas preveem agora que o limite de 1,5°C será ultrapassado de forma iminente, antecipando que a recente sucessão de anos com temperaturas recorde seja superada ainda nesta década.

No rescaldo do ataque dos EUA e de Israel ao Irão, que fez disparar o custo global do petróleo e do gás, várias das maiores empresas de combustíveis fósseis do mundo registaram lucros recorde este ano.

"As empresas históricas de combustíveis fósseis não vão desaparecer sem dar luta", afirmou Niko Lusiani, especialista em clima e energia que editou o relatório deste ano. "Estão a duplicar a aposta para expandir um sistema energético cada vez mais frágil, pouco fiável e arriscado."

O financiamento a combustíveis fósseis está a concentrar-se cada vez mais num grupo restrito de grandes instituições, concluiu o novo relatório, com aquilo a que os grupos ecologistas chamaram a "dúzia suja" a ser responsável por 40% de todo o financiamento do setor. Quase todo o financiamento para combustíveis fósseis provém de seis jurisdições: os EUA, o Canadá, o Japão, a China, o Reino Unido e a União Europeia.

Um total de 26 dos 65 maiores bancos reduziu o seu financiamento a combustíveis fósseis no ano passado, com os bancos europeus BNP Paribas, UBS e La Caixa a liderarem as reduções.

Contudo, os grandes operadores de petróleo e gás não ficaram sem liquidez disponível. Os maiores bancos prometeram 508 mil milhões de dólares para a expansão de explorações de combustíveis fósseis já existentes no ano passado, um aumento de 27% em relação a 2024. Três operadoras norte-americanas de petróleo e gás — Venture Global, Enbridge e Energy Transfer — foram as principais beneficiárias dos fundos emprestados em 2025.

Vários grandes bancos tinham anunciado anteriormente metas para reduzir as suas emissões e restringir os empréstimos a formas de energia particularmente poluentes, como o carvão. Mas, face ao regresso político de Donald Trump — que já classificou a crise climática como uma "treta" ("bullshit") e exigiu a extração desenfreada de combustíveis fósseis —, os bancos voltaram as costas aos compromissos ambientais assumidos anteriormente.

No ano passado, a Net-Zero Banking Alliance, uma iniciativa apoiada pela ONU que pretendia alinhar os empréstimos dos bancos com um cenário de emissões líquidas nulas até 2050, foi dissolvida após a saída de vários membros de relevo.

"Vimos muitos bancos darem as costas, seja de forma silenciosa ou mais ruidosa, num contexto de pressão política, particularmente nos EUA", afirmou Lusiani.

O especialista acrescentou: "A era dos compromissos voluntários não funcionou à escala que necessitamos, o que aponta para um papel muito mais ativo dos reguladores financeiros, legisladores e decisores políticos, especialmente nesses seis grandes centros financeiros."

Em resposta a um pedido de comentário, um porta-voz do Bank of America afirmou que o banco apoia "uma vasta gama de clientes, tanto no setor das energias renováveis como no das energias tradicionais, fornecendo-lhes o capital e o aconselhamento necessários para atingirem os seus objetivos — incluindo o avanço das tecnologias de energia limpa e a garantia de acessibilidade e segurança energética num ambiente cada vez mais complexo e dinâmico".

Por sua vez, um porta-voz do Citi afirmou que a empresa "apoia os clientes na transição para uma economia de baixo carbono, ao mesmo tempo que reconhece a necessidade real de energia segura, acessível e fiável hoje em dia. Estamos empenhados em alcançar emissões financiadas líquidas zero até 2050 e em avançar com a nossa meta de financiamento sustentável de 1 bilião de de dólares, focando-nos em equilibrar a transição com a resiliência energética global".

quarta-feira, 25 de março de 2026

Melinda Janki: Como enfrentamos uma gigante petrolífera - e vencemos


As empresas petrolíferas podem parecer invencíveis, mas são mais vulneráveis ​​do que se imagina, afirma a advogada Melinda Janki, especialista em justiça climática e ambiental. Ela conta a história de como enfrentou a ExxonMobil no seu país natal, a Guiana, conquistando vitórias históricas contra a gigante petrolífera — e provando que podemos transformar as leis existentes em ferramentas poderosas para a mudança.

"Se intentar uma ação judicial por motivos ambientais e perder, não deverá suportar as custas da outra parte." - Melinda Janki

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Media Pushing Pro-LNG Report Didn’t Mention Author Worked for Oil and Gas Lobby Firm


Several Canadian media outlets gave prominent coverage in December to a new report arguing that exporting massive amounts of natural gas from British Columbia to Asia will be good for the global fight against climate change.

But stories in Canada’s national newspaper of record, The Globe & Mail, as well as an influential conservative outlet called The Hub, didn’t mention that one of the report’s authors worked for a lobby group that has represented some of the country’s largest oil and gas companies.

“A new report is giving fresh support to Canada’s ambition to be an energy superpower as the federal and B.C. governments push for increased exports of liquefied natural gas,” read the Globe story.

It noted that the report “stands in sharp contrast to studies from climate groups and environmental think tanks, which say the world needs to focus on renewable energy, not on fossil fuels such as LNG.”

The report was co-authored by Mark Cameron, who from 2022 to 2025 served as vice president, External Relations, with Pathways Alliance, a consortium of Canadian oil sands producers — a fact not mentioned by Globe reporter Brent Jang.

The Globe story also didn’t note that Cameron currently works as a senior associate with Bluesky Strategy Group, a lobbying firm that has counted major players in Canada’s fossil fuel sector — including Pathways, Cenovus, Pembina Pipeline and Cedar LNG — among its clients. Those clients are listed on the Bluesky site and in federal lobbying records.

The report, which was published by Public Policy Forum and the Canadian Chamber of Commerce, “reads more like an echo of industry narratives than a rigorous, independent assessment—while keeping its modelling and assumptions out of public view,” said Thomas Green of the David Suzuki Foundation, in a statement to DeSmog.

DeSmog reached out to the Globe and Mail and Cameron for comment but didn’t receive a response.

Bluesky Boasts of Connections to Media
The report rehashes an argument frequently made by oil and gas producers that exporting gas will reduce emissions worldwide because that gas will replace more polluting power sources such as coal.
Inez Jabalpurwala, president and CEO of the Public Policy Forum, said in a release that “the report’s conclusions counter the simplistic narrative that more oil and gas equals more emissions.

Though Cameron’s past affiliation with Pathways Alliance is mentioned in the report, his connection to Bluesky Strategy Group, where he is a senior associate, is not. Neither affiliation is mentioned in the statement accompanying the report that was published on the Canadian Chamber of Commerce’s website.

Bluesky describes itself as “a leading-edge, full-service public affairs firm based in Ottawa, Canada, with national and global reach.” The group says on its website that it has close “integrated” connections to Canadian media and boasts to clients that “Our team has the reach to get your story told where it will be seen and heard.”

A week after the LNG report was published, Cameron authored a commentary in The Hub, entitled “Here’s how Canadian oil and gas can fuel global emissions reductions.”

“While more Canadian exports are not automatically ‘good for the planet,’ under the right conditions, they can lower global emissions compared with the most likely alternatives,” he argued.

The Hub also didn’t note Cameron’s connection to Bluesky. But it appears to be a valuable outlet to land for the report, boasting that “Canadians engage two million times monthly with The Hub’s content, generating over 200,000 hours of user interaction.”

Bluesky says on its own site that “we connect clients to the right audiences, on the right platforms, whether in government, media, industry, or the public sphere.”

Dubious Climate Claims
Climate experts and advocates argue that the report significantly undercounts the climate impacts of natural gas exports.

“A Coal-to-LNG transition is being championed by fossil fuel exporters who are racing to make the last buck on LNG before the market gets flooded with oversupply,” said Emilia Belliveau, energy transition program manager with Environmental Defence, in a statement to DeSmog. “Countries transitioning off of coal and looking for energy security are better served by moving from coal directly to the clean energy technologies supplying and shaping the future like wind, solar and batteries.”

Scientists, environmentalists and energy economists have been consistently warning that there’s little evidence Canadian oil or gas resources will displace fossil fuel use elsewhere and that continued production of fossil fuels will exacerbate climate change and delay transition to renewables. Some liquid natural gas (LNG) projects in Canada are expected to be so carbon intensive they’ve been called ‘carbon bombs’.

DeSmog reached out to Rewa Mourad, strategic communications specialist with the Canadian Chamber of Commerce, as well as Alison Uncles, vice president of media and communications with the Public Policy Forum, with questions about the report. Mourad did not reply, while a spokesperson for the Public Policy Forum told DeSmog the group is fully transparent about Cameron’s role and experience.

Steven Haig, a policy advisor for IISD’s Energy Program, whose work focuses on oil and gas policy in Canada, is also unconvinced by the report’s conclusions.

“We’re unlikely to see a widespread global transition from coal to Canadian LNG,” he wrote in a statement to DeSmog.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Duas Leis, Um Planeta e um Tribunal Silencioso


Será possível proteger o planeta com leis que não podem ser aplicadas?

Este episódio explora o frágil equilíbrio entre o Direito Vinculativo — como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) — e o Direito Não Vinculativo, as estruturas voluntárias que moldam a governação climática global.

Enquanto os oceanos são regidos por tratados vinculativos, a terra e a atmosfera permanecem sob discricionariedade nacional — e o planeta paga o preço.

Da desflorestação à perfuração em águas profundas, vemos repetir-se o mesmo paradoxo: leis vinculativas sem aplicação e acordos voluntários sem resultados.

Nesta perspetiva, o vídeo apresenta a ideia de uma Autoridade Global para o Clima (AGC) — uma ponte entre o que é vinculativo e o que é meramente prometido, capaz de transformar os compromissos globais em leis planetárias aplicáveis.

Porque a nossa crise não é a ausência de leis — é a ausência de autoridade.

Para aprofundar esta temática nada como ver os vídeos e webseminários do Center for Earth Jurisprudence

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Relatora da ONU pede criminalização da desinformação sobre combustíveis fósseis e proibição do lóbi


Uma das principais especialistas das Nações Unidas apela à aplicação de sanções penais contra aqueles que vendem desinformação sobre a crise climática e à proibição total da atividade de lóbi e publicidade da indústria dos combustíveis fósseis, como parte de uma mudança radical para salvaguardar os direitos humanos e travar a catástrofe planetária. Elisa Morgera, a relatora especial da ONU para os direitos humanos e as alterações climáticas, defende que os EUA, o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e outras nações ricas em combustíveis fósseis são legalmente obrigados, ao abrigo do direito internacional, a eliminar totalmente o petróleo, o gás e o carvão até 2030 - e a compensar as comunidades pelos danos causados. A fraturação hidráulica, as areias petrolíferas e o ‘flaring’ devem ser proibidos, tal como a exploração de combustíveis fósseis, os subsídios, os investimentos e as falsas soluções tecnológicas que prenderão as gerações futuras ao petróleo, ao gás e ao carvão poluentes e cada vez mais dispendiosos.
O seu relatório será apresentado na segunda-feira na Assembleia Geral em Genebra.

sábado, 17 de maio de 2025

Vandalism, with a plan

Figuring out what the thugs are up to so we can stand up to them



It would be tempting to dismiss Trump’s many functionaries as idiots, because many of them are. Here, for instance, is a transcript of leaked audio from a recent staff meeting led by acting FEMA director David Richardson, a man with no experience in disaster management (but who did write what the reliable Kate Aronoff described as a bad autobiographical novel with the inspired title War Story). Anyway, put yourself in the place of the FEMA staff hearing this highly relatable anecdote:

"The other day I was chatting with my girlfriend, she's from Texas. She's got like huge red hair. Like, she's from Texas. And I said something and she said, well, you know, oh, I know what it was. I said, how come it takes so long to drive 10 hours from Galveston to Amarillo? And she said, well, you know, Texas is bigger than Spain. I didn't know that. So I looked at the map. Texas is huge! I mean, if you put it in the middle of Europe, it takes up most of Europe up. However, they do disaster recovery very, very well, and so does Florida, okay. So, we should be able to take some lessons learned on how Florida and Texas do their disaster recovery, we’ve got to spread that around and get other folks do it some way. And there should be some budgeting things that they have, I bet. I bet Governor Abbott has a rainy day fund for fires and tornadoes and disasters such as hurricanes, and he doesn't spend it on something else"

But if there’s endless idiocy at work (some of it as cover—if I was taking flak for my $400 million flying bribe I’d start tweeting about Taylor Swift and Bruce Springsteen too), there’s also a kind of underlying feral cunning. All the stupid stuff heads in the same direction.

For example, the administration last week announced it would get rid of the Energy Star program, which rates various appliances by their efficiency so that consumers (and landlords and building owners) can make wise choices.


“The Energy Star program and all the other climate work, outside of what’s required by statute, is being de-prioritized and eliminated,” Paul Gunning, the director of the E.P.A. Office of Atmospheric Protection, told employees during the meeting, according to the recording obtained by The New York Times. Mr. Gunning’s office itself is also slated for elimination.

This is a program begun by Republicans—former EPA administrator William K. Reilly wrote a fond reminiscence yesterday for the Washington Post, who pointed out that if you were actually worried about, say, waste, then this would be the last program to cut

The program costs $32 million in annual federal outlays to administer but has saved consumers $200 billion in utility bills since 1992 — $14 billion in 2024 alone. The averted air pollution, which was the EPA’s initial objective, has been considerable, equivalent to the emissions of hundreds of thousands of cars removed from the road.

But what if you wanted to burn more fossil fuel? What if you wanted to stretch out the transition to cheap, clean renewable energy? Well then it would make a lot of sense.

Or take yesterday’s news, from EPA administrator Lee Zeldin, vowed that he would eliminate the “start-stop” technology in cars because “everyone hates it.” This feature keeps your car from idling at stoplights—when you tap the accelerator the car turns back on. It’s not mandatory for carmakers, and drivers can turn it off with a button. But, as Fox News points out,

The feature can improve fuel economy by between 4% and 5%, previous EPA estimates showed. It also eliminated nearly 10 million tons of greenhouse gas emissions per year as of 2023

Meanwhile, energy secretary Chris Wright, according to excellent reporting in Heatmap News today, is taking federal money designed to convert a steel plant to electricity and hydrogen and instead using it to convert the steel plant to…the fossil fuel it’s already using. The company, its CEO explained, is working with the Department of Energy to “explore changes in scope to better align with the administration’s energy priorities,” and those priorities, of course, are to use more energy.

Occam’s Razor, I think, would lead us to say that many things the Trump administration does are simply designed to waste energy, because that is good for the incumbent producers, i.e. Big Oil. That’s not a particularly sophisticated rule for understanding their actions, but remember: Trump was bankrolled by the fossil fuel industry, and that industry has always wanted us to waste energy. Remember all that endless Trump nonsense about low-flow shower heads? They cut the use of hot water by about forty percent. Ditto incandescent bulbs, which use 75-90 percent more energy, and which Trump is trying to bring back. It’s strange to be pro-waste, but there you are. This administration is garbage in every way.

That all of this costs consumers money is obvious—but we don’t really pretend to care about consumers any more. Remember: two dolls and five pencils apiece. No, the ultimate customer for the Trump administration is the oil industry. And really for the GOP as a whole: it became increasingly clear this week that the Republican Congressional majority is all too willing to gut the IRA, even though that will come at a big price to consumers, in its effort to help Big Oil.

And Big Oil is in trouble. Power demand in New England hit an all time low in late April, because so many homes now have solar panels on top. In, um, Saudi Arabia solar arrays are springing up left and right. Bloomberg’s David Fickling chronicles the “relentless” switch towards spending on clean energuy, albeit too slowly to hit the most important climate targets. A new global poll of business executives found that 97 percent were eager to make the switch to renewable energy for their companies, on the grounds that

Electricity is the most efficient form of energy, and renewables-generated electricity a value-add to businesses and economies. In many countries, fossil fuels, with their exposure to imports and volatility to geopolitical shocks, are a liability. For business, this isn’t just inconvenient. It’s dangerous. Volatility drives up costs, turns strategic planning into guesswork and delays investment.

That’s how sensible people with sensible goals—like making their businesses work, think. But it’s exactly the opposite of how our government now imagines its role. The DOE put their strategy pretty plainly in a filing to the Federal Register yesterday: their goal, they said, was “bolstering American energy dominance by increasing exports and subsequently the reliance of foreign nations on American energy.” If you’re a foreign government, that about sums it up: either you can rely on the sun and wind which shine on your country, or you can rely on the incredibly unreliable U.S. China, meanwhile, is essentially exporting energy security, in the form of clean energy tech.

So the goal for the rest of us, as we resist Trump and resist climate change, is pretty clear: do everything we can to speed up this transition to clean energy, here and everywhere. Solar works, solar is cheap, and solar is liberating. Courtesy of Johann Saether in Norway, here’s the Sun of the Week, from the global gallery at Sunday.earth, where I hope you’re planning your event for September 21

In other energy and climate news:

+Well, we’re finding out what doesn’t work. The giant “direct air capture” plant in Iceland, designed to filter co2 out of the air, has always been hopelessly expensive. But it also is failing to capture enough carbon dioxide to cover its own emissions—that is, it’s making the problem worse. Reykjavik’s weekly newspaper Heimildin had the data and also the reactions from good people around the world who had signed up to reduce their carbon footprints

“I’m 65 years old and retired when I was 60. One of the things I wanted to do in my later years was reduce my carbon footprint,” says Michael de Podesta, who worked for the UK’s National Physical Laboratory for most of his life, where he studied cold fusion, including debunking it. Michael is one of 21,000 subscribers to Climeworks, but after paying his subscription dutifully for about two years, he began to have doubts. Finally, he wrote on his widely read blog and asked a simple question: Am I a gullible idiot?

“I paid £40 [around 7,000 ISK] a month for fifty kilograms of CO2. I was supposed to get around 600 kilograms a year. I paid them right up until October last year and by then I had paid them to dispose of almost 2.2 tonnes of CO2 and got the tonne for around £800 [135 thousand ISK],” says Michael. He says the project seemed promising at first. He saw coverage of the project in the scientific journal Nature, one of the most prestigious in the world. The science was certainly there: CO2 can be sucked out of the atmosphere and Climeworks’ plans were ambitious.

However, Michael quickly noticed that no matter how much he paid, no CO2 had been captured and disposed of in his name. The math didn’t add up when the energy requirements were examined more closely.

Meanwhile, the project’s Swiss sponsor, Climeworks, told Zurich media yesterday that they were laying off many of their employees, arguing that the problems in Iceland were due to “ice and snow causing certain mechanisms to freeze.”

domingo, 23 de junho de 2024

Milhares de pessoas marcham em Londres pela proteção da natureza e do clima


Londres, 22 jun 2024 (Lusa) - Milhares de pessoas participaram hoje numa manifestação em Londres, promovida por organizações como a Extinction Rebellion (XR) e o World Wide Fund for Nature (WWF), para apelar aos políticos para que atuem pela natureza e pelo clima.

Esta manifestação acontece a menos de duas semanas das eleições legislativas de 04 de julho no Reino Unido. Segundo as recentes sondagens, os trabalhistas estão amplamente em vantagem, prevendo-se, assim, uma pesada derrota para os conservadores, no poder há 14 anos.

A atriz britânica Emma Thompson e o naturalista e apresentador britânico Chris Packham ocuparam os lugares da frente na marcha realizada em Londres, pedindo para se “restaurar a natureza agora”.

Chris Packham explicou que esta é a primeira vez que organizações tão diferentes se unem para uma manifestação, dando como exemplo o National Trust (Fundo Nacional para Locais de Interesse Histórico ou Beleza Natural), que defende a herança britânica, e o grupo ativista ambiental Just Stop Oil, representado por ecologistas que são muito controversos pelas ações contundentes que realizam.

Fazendo-se notar de forma muito colorida, a manifestação decorreu num ambiente de boa disposição, num percurso desde Hyde Park até ao parlamento, em Westminster.

Entre a multidão de manifestantes, que vieram de várias zonas do Reino Unido, havia muitos fantasiados de animais, incluindo girafas e ursos.

“Não há vida sem vida selvagem” e “Não há botão para começar do zero” eram algumas das mensagens dos cartazes erguidos na manifestação.

Em declarações à agência de notícias France-Presse (APF), a atriz britânica Emma Thompson dirigiu-se aos políticos: “Parem de ser tão profundamente irresponsáveis”.
“Não acredito na falta de compromisso deles” com o clima durante a campanha eleitoral, criticou a atriz, que é ativista ambiental, alertando que o planeta está “no meio da tempestade”, manifestando “surpresa ao ver quanta negação ainda existe”.

Emma Thompson disse que apoia o grupo Just Stop Oil, do qual dois ativistas pulverizaram, na quarta-feira, tinta nos monólitos do famoso sítio pré-histórico inglês de Stonehenge.

O Just Stop Oil reclama o fim da exploração de combustíveis fósseis até 2030.

“Penso que apoio todos os que estão a liderar este combate extraordinário”, disse Emma Thompson, defendendo que não se pode mais extrair petróleo do solo.

O naturalista e apresentador britânico Chris Packham disse não estar muito impressionado com o conteúdo dos programas dos vários partidos políticos britânicos.

“Quando se trata de enfrentar os verdadeiros grandes problemas, não há substância, compromisso ou determinação para enfrentá-los, e isso é realmente dececionante”, criticou Chris Packham

terça-feira, 9 de abril de 2024

Petição Criação da Ordem dos Geólogos (2024)

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República

Os geólogos são profissionais com formação superior específica no vasto domínio da geologia, debruçando-se, nomeadamente, no estudo do solo, do subsolo, dos processos geológicos ativos e daqueles que ocorreram ao longo da história da Terra. Atuam, igualmente, no âmbito do ordenamento e planeamento do território, na exploração e gestão sustentável dos recursos naturais, e na prevenção e mitigação dos riscos geológicos. O desempenho da profissão de geólogo está dependente do conhecimento geológico do território, sendo este de importância estratégica para o desenvolvimento socioeconómico do país. Estes profissionais contribuem para a obtenção de soluções sustentáveis para muitos dos grandes problemas sociais, económicos e ambientais que a Sociedade enfrenta, tais como as mudanças climáticas, a transição energética, a escassez hídrica e o declínio dos ecossistemas.

A profissão de geólogo tornou-se, nas últimas décadas, complexa e muito diversificada devido à sua ligação com outras profissões numa grande variedade de domínios de atividade, nomeadamente, nos sectores das indústrias de construção, extrativa e energética, do ordenamento do território, da gestão ambiental, bem como da prestação de serviços especializados ao Estado e às empresas. Atua, ainda, nos setores da proteção ambiental e societal. Ou seja, o geólogo é um especialista com um olhar único na proteção e gestão sustentável do nexo solo-água-energia-alimentos-património, tão destacado, por exemplo, pela ONU – Organização das Nações Unidas, FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, e UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Tem, também, um papel determinante na dinamização da geologia espacial dos programas da AEP - Agência Espacial Portuguesa, ESA – Agência Espacial Europeia e NASA - Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Estados Unidos da América).

Neste quadro complexo, mas desafiante, os geólogos defendem a necessidade da criação de uma associação pública profissional, assentando esta aspiração em quatro pontos fundamentais:

1) A necessidade de uma cabal regulação da profissão, visando definir os requisitos e as qualificações profissionais, o âmbito da profissão e a exigência dos respetivos atos profissionais, levando à atribuição de uma certificação através de uma cédula profissional, elevando assim os mais exigentes padrões na prática do geólogo profissional englobando todos os princípios éticos e de probidade técnica que acarretam;

2) A necessidade de dispor de um código de princípios deontológicos e de dispositivos jurídico-disciplinares adequados à defesa da independência do julgamento profissional;

3) A necessidade de criar condições que permitam o reconhecimento das qualificações e requisitos profissionais em condições de reciprocidade com instituições homólogas nacionais e estrangeiras, visando garantir o exercício da atividade profissional dos geólogos portugueses dentro e fora do espaço europeu;

4) A verificação do cumprimento de requisitos profissionais deve ser confiada aos próprios geólogos constituídos em associação pública profissional, dado que, face à atual complexidade desta atividade profissional, estão mais bem apetrechados para a realizar, compatibilizando a liberdade de acesso e de exercício da profissão, e a ponderação do interesse público.

A estreita relação entre a natureza da profissão e o interesse público emerge com clareza do simples enunciado de algumas das áreas mais paradigmáticas da intervenção profissional dos geólogos:

a) Planeamento territorial e georrecursos: estudos de cartografia geológica sistemática do país, realizada a várias escalas, implementação e gestão de bases de dados digitais da cartografia geológica, dos recursos geológicos, hidrogeológicos e geotérmicos, entre outros. Apoio à execução de cartografia temática e com fins diversos que incluem uma perspetiva agronómica, agrícola, geotécnica, hidrológica, territorial e de risco natural/geológico. De facto, o território é um agente de transformação a ser conhecido e gerido de uma forma ambientalmente sustentável e de interligação com todos os agentes envolvidos, incluindo as comunidades e os ecossistemas;

b) Riscos naturais, segurança e proteção civil: previsão e prevenção de riscos naturais visando a minimização dos desastres, a proteção da vida humana e a limitação de danos (identificação das falhas sísmicas e zonamento do perigo sísmico das regiões e dos sítios, contribuição na engenharia sísmica geotécnica, monitorização da atividade vulcânica, controlo da erosão, da estabilidade de taludes, das encostas e das arribas de praia ou adjacentes a outros espaços públicos, entre outros);

c) Análise de riscos na construção e economia das grandes obras: estudo e avaliação das condições geológico-geotécnicas para o projeto e construção das grandes obras de engenharia e identificação dos riscos financeiros, bem como de problemas de desempenho induzidos por causas geológicas (a derrapagem do custo final das grandes obras está frequentemente relacionada com a falta ou com a insuficiência de estudos de geologia de engenharia);

d) Ambiente, água, território e adaptação às mudanças climáticas: prospeção, pesquisa, captação e proteção de águas subterrâneas; contributo para a avaliação, proteção e gestão sustentável dos recursos hídricos e recursos hidrominerais, a várias escalas; avaliação da radioatividade natural; estudos sobre o uso sustentável do solo; prevenção e mitigação de riscos naturais ou tecnológicos; remediação de solos e águas contaminadas, monitorização da erosão costeira, restauro da natureza, gestão da geodiversidade, entre outros;

e) Gestão sustentável e proteção dos recursos naturais: prospeção, avaliação e extração dos recursos minerais numa base eco-eficiente (metálicos estratégicos e não-metálicos); estudo, caracterização e gestão de geomateriais; colaboração na exploração e gestão dos recursos energéticos (como a geotermia); conservação do património geológico e valorização do geoturismo;

f) Saúde pública e geologia: prevenção dos riscos de contaminação dos solos e das águas subterrâneas, com base no estudo dos sistemas aquíferos, da sua vulnerabilidade e dos processos de propagação dos contaminantes; estudo da contaminação dos solos e dos métodos de descontaminação; avaliação do risco de exposição da radioatividade natural; estudos e o papel da geologia médica nos solos-alimentos-água; o papel terapêutico e de bem-estar dos recursos hidrominerais; contributos dos recursos hidrominerais em produtos farmacêuticos e dermocosméticos, entre outros temas;

g) Geologia marinha e reconhecimento dos fundos oceânicos da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal: o nosso país detém a maior ZEE da Europa, revestindo-se esta de grande valor estratégico e potencial base de um novo paradigma do desenvolvimento económico do país ligado à Economia do Mar e Oceanografia Geológica. Os geólogos têm um papel preponderante no estudo da geologia dos fundos marinhos, e no estudo, exploração e gestão dos valiosos recursos naturais localizados na ZEE. A geologia costeira é, igualmente, importante na gestão, valorização da zona costeira continental e insular, bem como para a valorização deste fantástico e frágil território de interface com o oceano;

h) Investigação, ensino e cultura: os geólogos têm um papel extremamente relevante quer nas atividades de investigação, desenvolvimento e inovação em equipas inter, multi e transdisciplinares, quer no ensino básico, secundário e superior, bem como na formação de cidadãos cultos e informados. É, igualmente, relevante a sua participação em programas de astrogeologia para a difusão da geologia planetária, promovidos pela AEP e ESA. Os geólogos têm, também, um papel pertinente na difusão e disseminação de uma literacia e cultura geocientífica esclarecida direcionada aos cidadãos, através de programas e iniciativas de divulgação científica.

Assim, tendo em conta a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos, a salvaguarda do interesse público e a correlativa necessidade de autorregulação da profissão de Geólogo, assinamos esta petição solicitando à Assembleia da República a criação da Ordem dos Geólogos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Petrolíferas europeias e americanas lucram 260 mil milhões de euros desde invasão da Ucrânia

Desde que a Rússia invadiu a vizinha Ucrânia em fevereiro de 2022, as maiores petrolíferas norte americanas e europeias já lucraram perto de 260 mil milhões de euros, revela a mais recente análise da ‘Global Witness’.

O trabalho refere-se às cinco maiores empresas de combustíveis fósseis dos Estados Unidos da América e da Europa: Shell, BP, Chevron, ExxonMobil e TotalEnergies. A organização não-governamental aponta, em comunicado, que essas entidades “pagaram 200 mil milhões de dólares [cerca de 185 mil milhões de euros] aos seus acionistas desde a invasão da Ucrânia, canalizando dinheiro para os investidores enquanto mais de 10 mil civis ucranianos eram mortos e milhões de famílias por toda a Europa tinham dificuldades em manter as luzes acesas”.

Quadro mostra os lucros trimestrais e totais das cinco maiores empresas de combustíveis fósseis nos EUA e na Europa desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022.Fonte: Global Witness

A ‘Global Witness’ recorda que as empresas de combustíveis fósseis logo em 2022 tinham conseguido “lucros record às custas do aumento dos preços da energia”, tendo entregado aos seus acionistas “uns sem precedentes 111 mil milhões de dólares [cerca de 103 mil milhões de euros] em 2023”.

“No ano mais quente de que há registo, este valor é quase 158 vezes mais do que o que foi prometido às nações vulneráveis na cimeira climática COP28 no ano passado”, diz a organização.

Assim, contas feitas, desde o segundo trimestre de 2022, quando já se sentiam os efeitos do primeiro conflito armado na Europa desde a Segunda Grande Guerra, e até ao quarto trimestre de 2023, a Shell terá registado um lucro total de 59 mil milhões de dólares (cerca de 55 mil milhões de euros), a BP de 35 mil milhões (cerca de 32 mil milhões de euros), a ExxonMobil de 86 mil milhões (cerca de 80 mil milhões de euros), a Chevron de 51 mil milhões (cerca de 47 mil milhões de euros), e a TotalEnergies de 50 mil milhões (cerca de 46 mil milhões de euros).

“Esta análise mostra que, independentemente do que acontece nas linhas da frente, as grandes empresas de combustíveis fósseis são os principais vencedores da guerra na Ucrânia”, afirma Patrick Galey, investigador da Global Witness.

“Acumularam uma riqueza incalculável à custa da morte, da destruição e da subida vertiginosa dos preços da energia”, critica o especialista, acrescentando que os ganhos estão a ser usados para enriquecer os seus investidores e para alimentar novos projetos de exploração de combustíveis fósseis, “que a Europa não precisa e que o clima não consegue suportar”.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

COP será presidida novamente por homem com carreira no petróleo

Mukhtar Babayev
Um homem com carreira no setor do petróleo vai voltar a presidir à conferência do clima da ONU, já que o Azerbaijão nomeou o seu ministro da Ecologia e dos Recursos Naturais como presidente da COP29 de novembro.

“Sua Excelência Mukhtar Babayev foi nomeado presidente designado da 29.ª sessão da conferência das partes” da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, segundo informação do ministério enviada hoje à agência France Presse sobre a nomeação do ex-funcionário da petrolífera Socar.

Os Emirados Árabes Unidos tinham escolhido para presidente o sultão Al Jaber, dirigente da empresa nacional Adnoc, para presidir a conferência da ONU do clima, que terminou em dezembro em Dubai com um apelo histórico inédito para uma “transição” afastada dos combustíveis fósseis.

A presidência da COP28 já felicitou Babayev, que representou o Azerbaijão nas negociações do Dubai, através de uma mensagem na rede social X: “Vamos trabalhar com as presidências da COP29 e COP30 (no Brasil), bem como com a ONU para o Clima, para concretizar o sucesso histórico e transformador da COP28 e manter a meta de 1,5°C ”.

O novo presidente da COP tem no seu currículo, entre 1994 a 2003, funções no departamento de relações económicas externas da Socar, a empresa nacional de petróleo e gás, antes de passar para a área de marketing e operações económicas.

Entre 2007 e 2010, foi vice-presidente responsável pela ecologia da empresa de petróleo e gás e é ministro da Ecologia e Recursos Naturais desde 2019.

Historicamente, os presidentes da COP foram ministros ou diplomatas, com exceção do ano passado com Sultan Al Jaber, que é presidente da Adnoc, um dos maiores produtores de gás e petróleo do Golfo, e representou o seu país em várias COP’s e afirmou-se como líder da empresa de energia renovável Masdar.

O governo azeri nomeou o vice-ministro dos Negócios Exteriores, Yalchin Rafiyev, como negociador-chefe da COP29.

O anfitrião anual da COP é escolhido por consenso pelos países da região designada. Em 2023, os países asiáticos designaram os Emirados Árabes Unidos, e este ano, após meses de bloqueios, foi definido o Azerbaijão pelos países da Europa de Leste, que incluem a Rússia.

Este ano será Baku a receber a COP e poderá fazer recordar a edição anterior, já que foi uma das capitais mundiais do petróleo no início do século XX, como apontou à AFP Francis Perrin, especialista em energia do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, “com os interesses russos, da Shell e dos irmãos Nobel da época”.

O país desenvolveu grandes depósitos de petróleo e gás no Mar Cáspio desde a década de 1990, acrescentou.

Atualmente, o gás tornou-se mais importante do que o petróleo para este membro da OPEP+, exportado principalmente para a Europa.

“O país continua hoje muito dependente dos hidrocarbonetos, que representam pouco menos de 50% do seu PIB, pouco mais de 50% das suas receitas orçamentais e pouco mais de 90% das suas receitas de exportação”, analisou Perrin.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Ativistas da Climate Defiance lograram boicotar um evento de homenagem ao CEO da Exxon, Darren Woods


Ativistas da ClimateDefiance lograram boicotar um evento de homenagem ao CEO da Exxon, Darren Woods. A sala inteira levantou-se e saiu. Woods ganha US$ 20 milhões/ano enquanto aumenta a produção de petróleo e gás globalmente. A sua presença venenosa acabou de contaminar a COP28, onde ele declarou estupidamente que quer reduzir as emissões das operações da Exxon - como se não fosse o seu produto em si que nos estivesse a matar.

Always remember: "Nature is the foundation of the world’s economy. Over half of global GDP is dependent on materials and services that are delivered by ecosystems. " [fonte: Nature restoration]

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Cartoon - As alterações climáticas são causadas por duas coisas: atividade humana...e inação humana


Não votem na Iniciativa Liberal, nem no Partido Chega. São cépticos climáticos e vendidos ao lóbi das petrolíferas.
Dr Friederike Otto, of Imperial College London said: “The science of climate change has been clear for decades: we need to stop burning fossil fuels. A failure to phase out fossil fuels at Cop28 will put several millions more vulnerable people in the firing line of climate change. This would be a terrible legacy for Cop28.”

The Global Carbon Project, an international collaboration of scientists, estimates that worldwide carbon dioxide emissions from burning fossil fuels will rise 1.1% this year over 2022, to 36.8 billion metric tons. That’s a new peak and 1.4% higher than the level in 2019, prior to the Covid-19 pandemic. [Bloomberg

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Meet Oblivia Coalmine, the latex clad oil exec paid for by our pensions

Conheça Olivia Colman, a executiva do petróleo vestida de látex paga pelas nossas pensões. Este novo filme dos Make My Money Matter, protagonizado pela vencedora de um Óscar, Olivia Colman, revela que 88 mil milhões de libras do dinheiro dos aforradores de pensões do Reino Unido estão investidos em combustíveis fósseis.

Sign our petition to stop UK pension schemes financing fossil fuel expansion


Make My Money Matter - works to transform the financial system, so it puts people and planet on a par with profit. There are trillions of pounds in UK pensions and banks – we believe that money should be moved from the destructive, harmful investments of the past, into those which help build a future we can be proud of.

sábado, 11 de novembro de 2023

Produção de combustíveis fósseis será em 2030 mais do dobro do compatível com as metas ambientais


Foi esta quarta-feira lançado o Production Gap Report 2023, um estudo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente que se debruça sobre as discrepâncias entre as promessas de corte das emissões de gases com efeito de estufa e a realidade. Nele se evidencia que os governos a nível mundial planeiam “produzir mais 110% de combustíveis fósseis do que o considerado compatível com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC; e mais 69% do relativo à meta de 2ºC” de aumento relativamente à época pré-industrial.

O relatório foi produzido pelo Stockholm Environment Institute, em colaboração com a Climate Analytics, a E3G, o International Institute for Sustainable Development (IISD) e o próprio PNUMA e envolveu mais 80 cientistas de cerca de trinta nacionalidades.

O documento mostra também que apenas 20 países são responsáveis por 80% das emissões globais e três quartos do consumo global de combustíveis fósseis. São eles: Austrália, Brasil, Canadá, China, Colômbia, Alemanha, Índia, Indonésia, Cazaquistão, Kuwait, México, Nigéria, Noruega, Qatar, Federação Russa, Arábia Saudita, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos da América.

António Guterres, secretário-geral da ONU, vincou que “não podemos lidar com a catástrofe climática sem resolver a sua causa: a dependência dos combustíveis fósseis.” E instou a COP28 a “enviar um sinal claro de que o combustível fóssil está a perder gás – que o seu fim é inevitável”. Assim, “precisamos de compromissos credíveis para incrementar as energias renováveis, eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e aumentar a eficiência energética, assegurando ao mesmo tempo uma transição justa e equitativa”.

Ploy Achakulwisut, investigadora do SEI Asia, explicou durante a apresentação o relatório que “só os dez países ricos são responsáveis por se ultrapassar a meta de 1,5ºC” de aumento da temperatura relativamente à era pré-industrial, denunciando que “muitos governos estão a promover o gás fóssil como um combustível essencial para a ‘transição’, mas sem quaisquer planos aparentes para o abandonar mais tarde”.

Em comunicado, Inger Andersen, diretora executiva do PNUmA, pronuncia-se sobre este quadro sublinhando que “as nações têm que acordar na COP28 a eliminação progressiva do carvão, do petróleo e do gás para acalmar a turbulência” que temos “pela frente e beneficiar todas as pessoas do planeta”. Também ela critica os planos para aumentar a produção de combustíveis fósseis que “mina a transição energética necessária para se alcançar o objetivo de ‘emissões líquidas-zero’” e “põe em causa o futuro da humanidade”.

Neil Grant, da Climate Analytics, reforça a mensagem dizendo que “em meados do século, o carvão apenas devia constar dos livros de história e a produção de gás e petróleo estar reduzida em três quartos a caminho da sua eliminação total”. O cientista fustiga igualmente os governos que “planeiem investir ainda mais dinheiro numa indústria suja e moribunda, enquanto as oportunidades abundam num sector de energia limpa florescente”.

O texto defende que “os países devem ter como objetivo uma eliminação quase total da produção e utilização de carvão até 2040, uma redução do consumo de energia elétrica até 2030 e uma redução combinada da produção e utilização de petróleo e gás em três quartos até 2050, em relação aos níveis de 2020”.

Saber mais:

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Estudo comprova que produção de combustíveis fósseis está 110% acima dos limites recomendados até 2030

Para o estudo, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente comparou a produção de carvão, petróleo e gás planeada dos governos assinantes, com os níveis estabelecidos no Acordo de Paris.


Os governos de todo o mundo planeiam produzir mais do dobro da quantidade máxima de combustíveis fósseis até 2030, limite que permitia manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus, alertou esta segunda-feira a ONU.

“Os planos dos governos para expandir a produção de combustíveis fósseis estão a prejudicar a transição energética necessária para alcançar zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa, colocando em dúvida o futuro da humanidade”, salientou a diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Inger Andersen, em comunicado.

O PNUMA, com sede em Nairobi, apresentou estes dados na nova edição do Relatório sobre as Lacunas de Produção, produzido em conjunto com o Instituto do Ambiente de Estocolmo (SEI), a organização não governamental Climate Analytics e o grupo de reflexão europeu E3G.

O estudo comparou a produção de carvão, petróleo e gás planeada pelos governos com os níveis estabelecidos no Acordo de Paris (assinado em 2015 e que, por si só, tem como objetivo combater o aquecimento global) para cumprir os limites de aumento da temperatura para evitar efeitos ainda mais devastadores da crise climática.

Os planos de 20 governos analisados no relatório envolvem a produção de cerca de 110% mais combustíveis fósseis até 2030 do que o necessário para evitar um aquecimento de 1,5 graus e 69% mais do que um aumento de 2 graus.

Os países analisados incluem alguns dos maiores produtores mundiais de combustíveis fósseis, incluindo Austrália, Brasil, Estados Unidos, Rússia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, China, Nigéria, África do Sul, Colômbia e México.

“A maior parte destes governos continua a dar um apoio financeiro e legislativo significativo à produção de combustíveis fósseis”, destacou o PNUMA.

Embora 17 governos se tenham comprometido a atingir emissões líquidas nulas e muitos tenham lançado iniciativas para as reduzir, nenhum deles se comprometeu a reduzir a produção de carvão, petróleo e gás para cumprir os objetivos climáticos.

Assim, os planos destes governos significam um aumento da produção mundial de carvão até, pelo menos, 2030 e da produção mundial de petróleo e gás até, pelo menos, 2050.

“Vemos que muitos governos estão a promover o gás fóssil como um combustível essencial de ‘transição’, mas sem planos aparentes para o abandonar mais tarde”, afirmou um dos principais autores do relatório e cientista do SEI Ploy Achakulwisut.

O documento sublinhou ainda que uma “transição energética equitativa” deve “reconhecer as diferentes responsabilidades e capacidades dos países”.

“Os governos com maior capacidade para se afastarem da produção de combustíveis fósseis têm a maior responsabilidade de o fazer, ao mesmo tempo que fornecem financiamento e apoio para ajudar outros países a fazer o mesmo”, afirmou Michael Lazarus, outro autor do estudo e diretor da sede do SEI nos EUA.

Andersen apelou aos países para que se unam em torno de uma “eliminação controlada e equitativa do carvão, do petróleo e do gás” na próxima Cimeira da ONU sobre as Alterações Climáticas (COP28), que começa a 30 de novembro no Dubai e é o principal fórum político sobre o clima.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

'Shell sabia': filme de 1991 da gigante do petróleo alertou sobre o perigo das alterações climáticas


Filme de informação pública não visto há anos mostra que a Shell tinha uma compreensão clara do aquecimento global há 26 anos, mas não agiu de acordo desde então, dizem os críticos

Alterações climáticas “a um ritmo mais rápido do que em qualquer momento desde o fim da era glacial – mudanças demasiado rápidas, talvez para que a vida se adapte, sem perturbações graves”. Esse foi o alerta surpreendente emitido pela gigante petrolífera Shell há mais de um quarto de século.

O filme visionário da empresa de 1991, intitulado Climate of Concern, expôs com clareza cristalina como o mundo estava a aquecer e como poderiam resultar consequências graves.

“Ilhas tropicais que ainda hoje mal flutuam, primeiro tornadas habitáveis ​​e depois destruídas pelas ondas… planícies costeiras por todo o lado sofrem poluição de preciosas águas subterrâneas, das quais dependem tanta agricultura e tantas cidades”, diz o narrador do filme, sobre imagens perturbadoras de pessoas. afetados por desastres naturais e pela fome. “Num mundo populoso e sujeito a mudanças climáticas tão adversas, quem cuidaria desses refugiados do efeito estufa?”

O filme reconheceu as incertezas nas previsões do modelo computacional da época, mas observou que os vários cenários “havia gerado o mesmo aviso sério, um aviso endossado por um consenso excepcionalmente amplo de cientistas no seu relatório às Nações Unidas no final de 1990”. ”.

“O que eles prevêem não é um aquecimento global constante e uniforme, mas alterações nos padrões climáticos familiares e a frequência crescente de condições meteorológicas anormais”, advertiu. “Pensa-se que mares mais quentes podem tornar as tempestades destrutivas mais frequentes e ainda mais ferozes.”

“Quer a ameaça do aquecimento global se revele ou não tão grave como os cientistas prevêem, será demasiado esperar que possa funcionar como estímulo – o catalisador – para uma nova era de cooperação técnica e económica?” o filme termina. “Nossos números são muitos e infinitamente diversos. Mas os problemas e dilemas das alterações climáticas dizem respeito a todos nós.”

O filme foi feito para exibição pública, principalmente em escolas e universidades, mas acredita-se que não seja visto há muitos anos. Foi extraordinariamente presciente, segundo o professor Tom Wigley, que era chefe da Unidade de Investigação Climática da Universidade de East Anglia quando ajudou a Shell no filme de 1991.

“É incrível que isso tenha acontecido há 25 anos. Incrível”, disse ele. “Foi bastante abrangente sobre o que pode acontecer, quais são as consequências e o que podemos fazer a respeito. Quero dizer, não há muito mais.” Ele disse que as previsões para o aumento da temperatura e do nível do mar no filme de 1991 eram “muito boas em comparação com o entendimento atual”.

“O que é realmente surpreendente é que nada aconteceu [desde então] que nos faça duvidar da ciência tal como foi declarada então”, disse Tom Burke, do grupo de reflexão verde E3G e antigo membro do comité de revisão externa da Shell.

Mas as acções da Shell relativamente ao aquecimento global desde 1991, tais como grandes investimentos em areias betuminosas altamente poluentes e o lobby contra a acção climática, têm sido fortemente criticadas. Em 2015, foi acusado de se comportar como um “psicopata” pelo antigo enviado do Reino Unido para as alterações climáticas e de estar envolvido numa tentativa cínica de bloquear ações contra o aquecimento global. Até mesmo o antigo diretor-gerente do seu próprio grupo, Sir Mark Moody-Stuart, disse em 2015 que era “angustiante” que “muito pouco progresso” tivesse sido feito em matéria de alterações climáticas pela Shell e outras empresas petrolíferas.

“O filme mostra que a Shell entendeu que a ameaça era terrível, potencialmente existencial para a civilização, há mais de um quarto de século”, disse Jeremy Leggett, empresário de energia solar e ex-geólogo que já havia pesquisado depósitos de xisto com financiamento da Shell e da BP. .

“Até hoje vejo como eles defendem obstinadamente o aumento do uso de gás, daqui a décadas, apesar da evidência clara de que os combustíveis fósseis têm de ser completamente eliminados”, disse ele. “Sinceramente, sinto que esta empresa é culpada de uma forma moderna de crime contra a humanidade. Eles salientarão que não se comportaram de forma diferente dos seus pares, BP, Exxon e Chevron. Para pessoas como eu, que são muitas, isso não é defesa.”

Paul Spedding, ex-chefe global de petróleo e gás do HSBC e agora no thinktank Carbon Tracker, disse que cerca de metade da base de reservas da Shell é gás natural, o combustível fóssil com menor intensidade de carbono. “No entanto, o seu portfólio de petróleo pode ser uma bomba-relógio de areias betuminosas. As areias betuminosas, que representam quase 30% das reservas de petróleo do grupo, são significativamente mais intensivas em carbono do que o petróleo convencional. Do jeito que as coisas estão, a produção de petróleo da Shell está destinada a se tornar mais pesada, com custos mais elevados e com maior teor de carbono, o que dificilmente se enquadra na perspectiva descrita no vídeo da Shell.”

Na verdade, a Shell tinha conhecimento dos riscos das alterações climáticas ainda mais cedo. Um relatório “confidencial” da empresa escrito em 1986, também visto pelo Guardian, notou as incertezas significativas na ciência climática da época, mas alertou para a possibilidade de mudanças “rápidas e dramáticas” que “teriam impacto no ambiente humano, nos padrões de vida futuros e abastecimento alimentar, e poderá ter importantes consequências sociais, económicas e políticas”.

Em 1989, a Shell já tinha tido em conta os efeitos das alterações climáticas na construção de uma plataforma petrolífera . Mas no mesmo ano, a chamada Coligação Global para o Clima (GCC) foi formada pelas principais empresas petrolíferas, incluindo a operação norte-americana da Shell, Shell Oil. Fez forte lobby para lançar dúvidas sobre a ciência climática e opor-se à acção governamental e, em 1998, a Shell retirou-se, alegando diferenças “irreconciliáveis” .

No entanto, a Shell permaneceu membro de outro grupo de lobby empresarial que fez campanha contra a ação climática, o American Legislative Exchange Council, até 2015 e continua a ser membro da Business Roundtable e do American Petroleum Institute, que lutaram contra o Plano de Energia Limpa de Barack Obama.

A empresa afirmou que continua a ser membro de grupos que têm opiniões diferentes sobre a acção climática para os “influenciar” . Mas Thomas O'Neill, do grupo Influence Map, que acompanha o lobby, disse: “As associações comerciais e os grupos industriais estão lá para dizer coisas que a empresa não pode ou não quer dizer. É deliberadamente assim.”

A Shell também fez lobby directamente para minar os objectivos europeus em matéria de energias renováveis , um sector em que investiu, embora a um nível muito inferior ao do petróleo e do gás. Em 2016, a Shell lançou a sua divisão de Novas Energias , com gastos anuais inferiores a 1% do total de 30 mil milhões de dólares que a Shell investe em petróleo e gás.

Apesar do apoio público da empresa desde a década de 1990 aos impostos sobre o carbono para impulsionar cortes nas emissões, em 2015 fez lobby por isenções para a eletricidade que produz e utiliza , especialmente para as suas plataformas offshore de petróleo e gás.

Alguns dos investimentos da Shell hoje também são criticados por serem incompatíveis com a meta de aquecimento de 2°C acordada pelas nações do mundo. Um relatório do Carbon Tracker de 2015 concluiu que a empresa planeava investir mais de 75 mil milhões de dólares em tais projectos durante a década seguinte, parte de uma “bolha de carbono” na qual estão a ser desenvolvidas reservas que não podem ser queimadas se se quiser travar as alterações climáticas – uma preocupação partilhada pelo Banco de Inglaterra e pelo Banco Mundial .

Outro relatório do Carbon Tracker de 2016 citou um documento da Shell de 1998 que mostrava que a empresa estava ciente deste risco. “A Shell sabia dos riscos de uma bolha de carbono, mas não agiu de acordo”, afirmou o relatório. “Olhando para trás nos últimos 20 anos, parece que a Shell retrocedeu em termos de transparência e ainda está reciclando as mesmas velhas iniciativas verdes e tentando desviar a responsabilidade face a uma ameaça existencial ao seu negócio.”

A Shell foi uma das primeiras grandes empresas petrolíferas a reconhecer a necessidade de agir sobre as alterações climáticas e há muito que defende que fornecer energia a preços acessíveis era vital para o mundo e para o seu desenvolvimento. O filme de 1991 antecipou o problema: “Como poderiam os países [em desenvolvimento] continuar a avançar, mas ultrapassar a face do desenvolvimento com utilização intensiva de energia, através da qual outras nações prosperaram antes que as suas consequências adversas viessem à luz?”

Mas em 2015, o seu próprio comité de avaliação externo concluiu que o relatório de sustentabilidade da Shell não “transmitiu adequadamente a urgência desta transição [energética de baixo carbono]”. No início de Fevereiro, o CEO da Shell, Ben van Beurden, disse: “Acreditamos que as alterações climáticas são reais e acreditamos que serão necessárias medidas”.

Moody-Stuart, que também foi presidente da Shell entre 1998 e 2002, disse ao Guardian que as críticas generalizadas à empresa eram injustas. “Não creio que tenha sido feito o suficiente, mas não destacaria a indústria petrolífera. Os governos e outros têm alguma responsabilidade e a Shell e outros têm apelado a um preço para o carbono desde a década de 1990.”

“Não foi muito longe, mas isso não é culpa da Shell”, disse ele. “É bastante singular que uma indústria esteja realmente pedindo algo que aumentará o preço de seu produto, mas está pedindo isso porque é isso que é necessário para conduzir a indústria na direção certa.”

Burke, ex-chefe da Friends of the Earth, concordou que há um problema mais amplo. “É muito fácil culpar a Shell por ter feito tudo errado”, disse ele, já que houve “um fracasso social mais amplo”.

O relatório da Shell de 1986 afirmava que o problema das alterações climáticas era um problema que “em última análise, apenas os governos podem resolver”. Mas também observou, há mais de três décadas, que a indústria energética “tem interesses muito fortes em jogo e muita experiência para contribuir. Também tem a sua própria reputação a considerar, havendo muito potencial para ansiedade pública e atividades de grupos de pressão.”