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quarta-feira, 21 de junho de 2023

O que é o decrescimento (e, mais importante, o que não é)?

4º Dia Mundial da Localização anual- Envolva-se!

Por Nick Meynen

O "decrescimento" é uma adaptação do termo original francês "décroissance". A palavra designa um conjunto de teorias económicas desenvolvidas ao longo das últimas duas décadas, reunindo mais de 600 publicações com revisão por pares até à data. Mas, para além de ser um tema de investigação, o decrescimento também está relacionado com o movimento socioecológico em rápido desenvolvimento, em que cientistas, economistas, membros do público interessados e, mais recentemente, representantes de quase todos os grandes partidos (exceto os da extrema-direita) uniram forças para debater abordagens que permitam alcançar uma maior sustentabilidade.

O principal objetivo do decrescimento pode ser descrito como fazer a transição necessária para uma economia sustentável e amiga do ambiente de uma forma inteligente, social e democrática. Economia ecológica, economia política, geografia, biologia e ecologia política são apenas algumas disciplinas acadêmicas que contribuem para a expansão do corpo de conhecimento que molda a disciplina do decrescimento. Como Keynes e Friedman antes deles, os economistas do decrescimento não desejam  ficar numa torre de marfim, mas ter um impacto real na sociedade.

Os defensores da abordagem do decrescimento baseiam-se no crescente conjunto de provas científicas que sugerem que a dependência do crescimento económico contínuo conduz à destruição coletiva gradual e ao empobrecimento através do desvio do seu impacto ambiental.

O decrescimento opõe-se à ideia de "crescimento verde". Os apoiantes do crescimento verde promovem a consciência ambiental e a preocupação com a humanidade, mas agarram-se à crença de que o crescimento e os danos causados pelo crescimento podem ser dissociados de forma atempada e suficiente. No entanto, vários estudos publicados em revistas académicas de renome refutaram cabalmente este pressuposto central. O ónus da prova relativamente às perspetivas de dissociação cabe, sem dúvida, aos defensores do crescimento verde. Até à data, todas as refutações nos meios de comunicação flamengos se basearam em dados seletivos que também não demonstram como a dissociação é ou pode ser adequada e oportuna face à realidade.

Como se explica no relatório "Decoupling Debunked", a intensidade carbónica da economia deveria diminuir 100 vezes mais depressa do que atualmente - um número irrealista - para que o crescimento verde funcione. Por sua vez, o decrescimento como uma necessidade física é uma verdade inconveniente que frequentemente encontra resistência populista e desinformação. Enquanto apenas acrescentarmos energias renováveis e não eliminarmos gradualmente as energias fósseis, o nosso problema existencial continuará a aumentar.

A ciência natural reconhece, portanto, que o ritmo de "dissociação" na realidade não pode ser suficiente para travar o colapso ambiental. O pouco tempo que concedemos aos ecossistemas para se regenerarem já é insuficiente. O crescimento contínuo torna esta tarefa cada vez mais difícil. Investigações recentes mostram que sete das oito fronteiras planetárias (um conceito que estabelece limites para as atividades humanas em diferentes esferas, garantindo uma autorregulação consistente do ambiente do planeta) já foram ultrapassadas, e o custo disso só agora começou a revelar-se. No nosso sistema climático e na forma como o nosso organismo lida com a poluição química, em particular, há um desfasamento entre os danos infligidos e as consequências finais. Tanto em termos planetários como em termos de saúde pessoal, isto significa que tudo o que virmos hoje será pior do que aquilo a que já assistimos, porque os danos causados a ambos os sistemas são piores hoje do que há dez anos.

Os economistas do decrescimento baseiam-se em dados sobre o que torna possível a vida na Terra, enquanto os economistas clássicos se baseiam em dados sobre o dinheiro, como o Produto Nacional Bruto (PNB) e os fluxos de capital. No entanto, estes dois conjuntos de dados são fundamentalmente diferentes. O dinheiro pode ser visto como uma construção social - e algo que não se pode comer ou beber. Pelo contrário, a fertilidade do solo, a disponibilidade de oxigénio e a estabilidade climática são físicas, essenciais e insubstituíveis. Os economistas do decrescimento oferecem modelos para uma sociedade sustentável dentro dos limites do planeta, que os economistas clássicos ignoram.

As propostas políticas baseadas nos conceitos de decrescimento abrangem um vasto espetro de domínios. Exemplos disso são uma distribuição muito mais inteligente da quantidade de trabalho disponível, um sistema monetário diferente daquele em que a dívida e os juros criam um bloqueio eterno ao crescimento e uma redistribuição do orçamento de carbono remanescente com base na pegada ecológica. Algumas propostas com raízes no decrescimento são também implementadas a nível local, regional e mesmo nacional, mas para serem verdadeiramente eficazes e transformadoras, uma escala continental poderia ajudar. E nenhum continente está em melhor posição para beneficiar de uma transição do decrescimento para uma economia pós-crescimento do que a Europa.

Apresentamos abaixo seis dos mitos mais comuns partilhados nos media sobre o decrescimento e os factos reais.

Mito 1: O decrescimento é ideológico
O que significa: Deve pensar-se que quem diz esta frase não é guiado por ideologias.
A realidade: A ideologia dos economistas clássicos baseia-se na teoria da livre concorrência e do comércio livre gerido pelos mercados, enquanto os economistas do decrescimento têm como base a realidade terrena. Se a palavra "ideologia" é usada de forma pejorativa "não objetiva", aplica-se muito melhor aos economistas clássicos.

Mito 2: O decrescimento é uma recessão
O que é que isto significa: É preciso acreditar que os decrescimentistas são cegos à miséria que uma recessão cria.
A realidade: O decrescimento é uma transição bem organizada e social para uma economia com serviços básicos garantidos e melhores empregos, paga através da redistribuição da riqueza e da implementação de políticas que combatam a riqueza extrema. A recessão é um problema crescente causado por contradições inerentes aos atuais sistemas de exploração e extração, que tentam criar riqueza infinita a partir de recursos finitos. E sim, numa recessão, os pobres acabam normalmente por pagar aos ricos. Mas esse é, infelizmente, o preço do crescimento.

Mito 3: O decrescimento é comunismo
O que isto significa: Deve pensar-se que os apoiantes do decrescimento querem pobreza e ditadura.
A realidade: O decrescimento opõe-se aos objetivos de crescimento económico como uma bússola política, quer isso aconteça num quadro capitalista ou comunista. O decrescimento mostra que a riqueza extrema é uma fonte direta de pobreza e de níveis impossíveis de destruição ecológica. Os decrescimentistas também trabalham na democratização da economia, mais do que os economistas neoclássicos. De facto, são os países que seguem a via neoliberal que deslizam mais rapidamente para as ditaduras. Na realidade, é o crescimento dos países com rendimentos elevados que gera pobreza e ditadura.

Mito 4: O decrescimento é anti-inovação
O que é que isto significa: Deve-se pensar que no decrescimento, a tecnologia é tabu.
A realidade: Os apoiantes do decrescimento querem que a tecnologia e a inovação atinjam a transição necessária, mas são contra as políticas em que a tecnologia e a inovação apenas transferem o problema para outro sítio, em vez de o resolverem. Se as inovações nos automóveis e na habitação forem compensadas pelo aumento do tamanho do automóvel e da casa, o total líquido continua a ser mais emissões. Também argumentam que não há nenhuma boa razão para que o governo não imprima o dinheiro para a tecnologia e a inovação necessárias. O verdadeiro problema é o desvio destrutivo da criação de dinheiro para todos os fins errados, para que haja dinheiro para a inovação de que necessitamos, e não a tecnologia em si.

Mito 5: O decrescimento é um ataque ao seu estilo de vida
O que é que isto significa: Deves pensar que os decrescimentistas são hippies.
A realidade: Os adeptos do crescimento verde sublinham que todos temos a opção de viver de forma diferente, mas muito poucos decrescimentistas estão a tentar convencer as pessoas a mudar de estilo de vida. Os decrescimentistas defendem normalmente uma abordagem muito mais eficaz aos comportamentos excessivamente destrutivos. Por exemplo, um cartão de crédito de carbono que não peça, mas que garanta que 1% de todas as pessoas que andam de avião não continue a ser responsável por 50% de todas as emissões dos aviões. Continuaria a poder voar, mas não todos os dias. A publicação "Scientists warning on affluence" (Cientistas alertam para a riqueza) afirma que a transição necessária só pode ser eficaz se forem impostas mudanças profundas no estilo de vida de um segmento específico da população mundial - aquele que tem, de longe, o impacto mais desproporcionado. De acordo com os defensores do decrescimento , por exemplo, não há lugar para frivolidades como o turismo espacial. Embora muitos desenvolvimentistas chamem a estas ideias um ataque à classe média ou à liberdade, a realidade é diferente. São um apelo para acabar com a auto-proclamada liberdade dos ultra-ricos para tirar a liberdade de todos viverem.

Mito 6: O decrescimento ignora os "países em vias de desenvolvimento"
O que é que isto significa: Deve-se pensar que o decrescimento é branco e elitista.
A realidade: Os defensores do crescimento verde advogam que a sobre-exploração nos países "em vias de desenvolvimento" e o comércio desigual, que reduzem ativamente o desenvolvimento dos países mais pobres num sentido mais amplo do que o monetário. Os "decrescimentistas" querem reduzir esta pressão, muitas vezes violenta. Entre os países que resistiram a esta pressão durante algum tempo contam-se a Costa Rica, o Vietname, Cuba, o Butão e o Uruguai. Todos eles alcançaram um nível de vida mais elevado com uma pegada ecológica mais baixa, em comparação com os países em vias de desenvolvimento que seguem lealmente o crescimento económico como objetivo político prescrito pelo FMI e pelo Banco Mundial. Para os países "em vias de desenvolvimento" ricos em recursos, a lógica do crescimento é, na maior parte das vezes, uma maldição que causa estragos e alimenta guerras. Os decrescimentistas publicaram dados concretos sobre o que poderia ser, na prática, a justiça climática internacional, baseada na responsabilidade histórica.

No mundo real, que ainda está no paradigma do crescimento verde, as expropriações de terras, a poluição química, os esgotamentos e a instabilidade climática estão a acumular-se a um ritmo crescente, enquanto os nossos solos utilizáveis e a disponibilidade local de matérias-primas essenciais, como a água potável e a areia para a construção, estão efetivamente a diminuir. Este paradigma já está a provocar um colapso.

Os defensores do decrescimento também alertam para a visão de túnel do carbono. O clima, a utilização das terras, os solos e a biodiversidade estão indissociavelmente ligados. Uma parte do sistema globalmente interligado não pode ser colocada em "pausa", como sugeriu o Primeiro-Ministro De Croo. A recuperação da natureza não é uma questão opcional. Uma tal opção política faria aumentar o preço global para a humanidade, o que viola o dever de cuidado. A única pergunta a fazer a qualquer dirigente político que apele a uma pausa nas extinções, ondas de calor e furacões deveria ser: "a quem é que pedimos"?

Os "defensores do decrescimento" não pretendem reduzir o PIB, mas estão preparados para aceitar essa consequência como um efeito provável da redução necessária e muito mais rápida de setores que são demasiado prejudiciais, como as indústrias fóssil, química e da carne, bem como a aviação (privada). E, enquanto sociedade, temos de estar preparados para esta consequência e reduzir a nossa dependência dela para criar bem-estar.

A melhor síntese científica disponível aponta cada vez mais para o decrescimento como uma necessidade, desde o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) à Plataforma Intergovernamental Científica e Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES). Uma redução rápida da extração e produção mais nocivas é uma condição prévia cientificamente comprovada para alcançar a sustentabilidade global, a justiça social e o bem-estar.

O decrescimento, enquanto disciplina académica e movimento, regista uma ascensão imparável. A conferência "Para Além do Crescimento", o evento mais significativo do mandato de von der Leyen, é uma consequência lógica do facto de que as verdades acabarão por vir ao de cima. Uma base de dados sobre o decrescimento recentemente divulgada, que é apenas a ponta de um icebergue, já lista mais de 400 iniciativas políticas de decrescimento, mais de 600 artigos científicos, mais de 500 livros em 28 línguas, mais de 40 cursos e mais de 240 organizações.


Saber mais: 
O decrescimento pode funcionar - veja como a ciência pode ajudar

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Superar o Antropoceno e o Piroceno para criar o Ecoceno


O Homo sapiens surgiu e se espalhou pelo mundo no período geológico do Pleistoceno, mas foi no Holoceno que floresceu a civilização e a espécie humana se tornou uma força onipresente no território global. A população mundial era de cerca de 4 milhões de habitantes no início do período Holoceno, há cerca de 12 mil anos. A estabilidade climática do Holoceno propiciou o florescimento do desenvolvimento econômico e social e o ser humano expandiu as atividades agrícolas, a domesticação dos animais, construiu cidades e montou uma máquina de produção e consumo de bens e serviços jamais vista nos 4,5 mil milhões de anos da Terra.

O crescimento da população e da produção foi de tal ordem que prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, avaliando o grau do impacto destruidor das atividades humanas sobre a natureza afirmou que o mundo entrou em uma nova era geológica, a do ANTROPOCENO, que significa “época da dominação humana”. Representa um novo período da história do Planeta, em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalizadoras de uma provável catástrofe ecológica.

Mas o Antropoceno é também a era do Piroceno. A palavra foi cunhada em 2015 por Stephen Pyne, professor emérito da Escola de Ciências da Vida da Universidade Estadual do Arizona. Piroceno foi encarado, inicialmente, apenas com um conceito a mais. Os seres humanos sempre deixaram sua marca no Planeta com fogo, primeiro para adaptar grandes áreas para caçar e criar assentamentos, depois para alimentar as pessoas, abrigar em casas, garantir a mobilidade por meio de navios, trens e carros e para criar conforto e bem-estar para uma população crescente. Mas, no Antropoceno, as queimadas geram custos cada vez maiores e o Piroceno virou uma evidência irrefutável.

piroceno aumenta a intensidade e o custo das queimadas

O Antropoceno
O Antropoceno é uma Era sincrónica à modernidade urbano-industrial. A Revolução Industrial e Energética que teve início na Europa no último quartel do século XVIII deu início ao uso generalizado de combustíveis fósseis e à produção em massa de mercadorias e meios de subsistência, possibilitando uma expansão exponencial das atividades antrópicas.

Em 250 anos, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 15 vezes. Este crescimento demoeconômico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. Mas todo o crescimento e enriquecimento humano ocorreu às custas do encolhimento e empobrecimento do meio ambiente. O conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a Pegada Ecológica da humanidade extrapolou a Biocapacidade do Planeta. A dívida do ser humano com a natureza cresce a cada dia e a degradação ambiental pode, no limite, destruir a base ecológica que sustenta a economia e a sobrevivência humana.

No Antropoceno, a humanidade danificou o equilíbrio homeostático existente em todas as áreas naturais. Alterou a química da atmosfera, promoveu a acidificação dos solos e das águas, poluiu rios, lagos e os oceanos, reduziu a disponibilidade de água potável, ultrapassou a capacidade de carga da Terra e está promovendo uma grande extinção em massa das espécies. O egoísmo, a gula e a ganância humana provoca danos irreparáveis e um ecocídio generalizado, que pode se transformar em suicídio.

crescimento da economia da população e da renda per capita mundial



As emissões de gases de efeito estufa (GEE) romperam com o nível de concentração de CO2 na atmosfera, de no máximo 280 partes por milhão (ppm) prevalecente durante todo o Holoceno, e, em 2019, já está acima de 410 ppm e subindo cerca de 2,5 ppm ao ano, na atual década.

Com mais GEE na atmosfera, a temperatura média tem subido e a Terra está acima de um grau mais quente do que o período pré-industrial, podendo iniciar um período de descontrole climático. Esta possibilidade foi aventada em estudo de Steffen e colegas (2018) que indicou que a Terra pode entrar em uma situação com clima tão quente que pode elevar as temperaturas médias globais a até cinco graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais. Isto teria várias implicações, como acidificação dos solos e das águas e aumentos no nível dos oceanos entre 10 e 60 metros.

O estudo mostra que o aquecimento global causado pelas atividades antrópicas de 2º Celsius pode desencadear outros processos de retroalimentação, podendo desencadear a liberação incontrolável na atmosfera do carbono armazenado no permafrost, nas calotas polares, etc. Em função do efeito dominó, as “esponjas” que absorviam carbono podem se tornar fontes de emissão de CO2 e piorar significativamente os problemas do aquecimento global. Isto provocaria o fenômeno “Terra Estufa”, o que levaria à temperatura ao recorde dos últimos 1,2 milhão de anos. Os seja, caso este cenário se torne realidade, seria algo parecido com o apocalipse para a vida humana e não humana no Planeta.

O Piroceno
Segundo Stephen Pyne (08/10/2020), ao suprimir todos os incêndios florestais e incessantemente queimar combustíveis fósseis, os humanos perturbaram o papel que o fogo historicamente desempenhou em fornecer equilíbrio ecológico. Assim, é preciso repensar nossa visão sobre o fogo e aceitar sua presença, mudando a forma como administramos as terras e planejamos nossas comunidades.

Pyne constata que os incêndios estão aparentemente em toda parte, e em todos os lugares e cada vez mais ferozes. Eles estão queimando do Ártico à Amazônia, de Nova Gales do Sul à Costa Oeste dos EUA. São visíveis, e sua fumaça projeta sua presença na forma de imensas mortalhas bem afastadas das chamas. Mas igualmente significativos são os incêndios que não estão acontecendo. A Terra é um planeta de fogo, o único que conhecemos. Teve incêndios desde que as plantas nasceram na terra. Remover o fogo de paisagens que co-evoluíram ou coexistiram com ele pode ser tão desastroso quanto colocar fogo em paisagens que não têm história disso. Os incêndios que não vemos – os incêndios que deveriam estar lá e não estão – são um índice de perda ecológica, como a imposição de uma seca em uma paisagem normalmente exuberante.

Ele argumenta que temos muitos incêndios ruins – incêndios que matam pessoas, queimam cidades e destroem paisagens valiosas. Mas também temos alguns poucos bons – incêndios que aumentam a integridade ecológica e mantêm os incêndios dentro de suas faixas históricas. Ao mesmo tempo, com a queima incessante de combustíveis fósseis, temos muita combustão no planeta em geral. A questão é: como a presença do fogo na Terra se tornou tão perturbadora?

Ainda segundo Pyne, o contraste crítico reside em uma dialética mais profunda do que as paisagens queimadas e não queimadas. É uma dialética entre queimar biomassa viva e queimar biomassa fóssil. Estamos retirando coisas do passado geológico, queimando-as no presente com todos os tipos de consequências pouco compreendidas e passando o efluente para o futuro geológico. Habitamos paisagens vivas. Mas temos alimentado cada vez mais esse mundo queimando paisagens líticas, ou seja, biomassa que já existiu, agora fossilizada em formas como carvão e petróleo. Esse choque de reinos de combustão está ondulando não apenas através dos regimes de fogo da Terra, mas seu ar, sua água e sua vida vegetal e animal. Incêndios em paisagens vivas vêm com controles e equilíbrios ecológicos.

Os incêndios em paisagens líticas não têm limites, exceto aqueles que os humanos impõem a si próprios. Cada vez mais, o fogo está moldando o planeta como causa, consequência e catalisador. A escala é vasta, o ritmo acelerado. Artigo de Adam Vaughan (08/09/2021) mostra que pelo menos 33 mil mortes ocorreram no mundo em função da poluição e das queimadas do mundo.

No início de outubro de 2021 o interior de São Paulo (assim como estados vizinhos) foi atingido por fortes tempestades de poeira, devido à falta de chuvas e os terrenos desmatados e assoreados. Em uma fazenda em Santo Antônio do Aracanguá, o fogo atingiu pastagens, canaviais e áreas de preservação, sendo que 4 pessoas morreram. As tempestades de poeira estão virando fenômenos rotineiros no Sudeste e no Centro-Oeste. O roteiro é parecido em todos os casos: a chegada de ventos fortes associados com tempestades acaba levantando a terra ressecada do solo, criando nuvens densas de poeira (chamadas de haboob). No dia 15 de outubro, o aeroporto de Campo Grande, MS, as rajadas de vento atingiram mais de 94 km/h. O vento forte danificou construções e deixou diversos municípios do estado sem energia elétrica ao longo do final de semana. A passagem da nuvem de poeira transformou uma tarde ensolarada e quente em um cenário digno de blockbuster apocalíptico. Um barco-hotel naufragou no rio Paraguai próximo a Corumbá depois de virar na água por causa da ventania. Pelo menos sete pessoas morreram, sendo quatro da mesma família. Os danos económicos e em vidas humanas são cada vez maiores com o agravamento do aquecimento global.

Além de repensar o Antropoceno e o Piroceno, Stephen Pyne considera que precisamos de uma cultura do fogo que funcione. Seria como Prometeu que roubou o fogo dos Deuses para iluminar o progresso humano. Ele defende a ideia de que podemos renovar nossa antiga aliança e transformar o que se tornou um inimigo implacável em um amigo indispensável. A queima de combustíveis fósseis e a emissão de gases de efeito estufa é o relacionamento errado que a civilização está tendo com o fogo. Portanto, o Piroceno pode nos levar à “Terra estufa”. Por conseguinte, a transformação do Antropoceno em Piroceno pode tornar difícil a sobrevivência global dos seres humanos e das espécies não humanas, transformando a Terra em um Planeta inabitável.

O Ecoceno
Existem pessoas que acham que o momento atual não é bem representado nem pelo conceito de Antropoceno, nem Piroceno, apresentando como alternativa o conceito de Capitaloceno, que atribui toda a culpa da crise climática e ambiental ao capitalismo. Acontece que o regime capitalista não é só uma relação social entre “expropriados e expropriadores”, mas também um modo de produção industrial baseado nos combustíveis fósseis voltado para atender o consumo em massa da população. Como disse Marx e Engels, em 1848, “a burguesia desempenhou um papel revolucionário na história”. O capitalismo é o modo de produção que mais gerou riqueza na história (e também a maior concentração de renda e propriedade).

Romper com a lógica concentradora de riqueza e com o modelo “Extrai-Produz-Descarta” do capitalismo é urgente e imprescindível. Mas, sair do regime da propriedade privada dos meios de produção para a propriedade estatal, pode até resolver os problemas da desigualdade e da alienação do trabalho, mas não muda necessariamente a relação com o meio ambiente se não for alterado a quantidade e a forma de produzir. Lembrando que na Revolução Socialista na Rússia, Lênin dizia que o socialismo é “eletricidade + sovietes”. Assim, sem surpresas, a URSS implementou um dos modos de produção mais poluidores de todos os tempos e o acidente nuclear de Chernobyl é apenas uma parte da degradação ambiental ocorrida durante o regime dos sovietes. A China que se autodefine como comunista é o país mais poluidor do Planeta.

O mundo precisa de mudanças no padrão de produção e consumo para conseguir evitar os efeitos catastróficos das mudanças climáticas e ambientais geradas no Antropoceno. Atualmente a produção mundial de bens e serviços exige recursos da natureza que estão acima da capacidade de regeneração do Planeta. Distribuir equitativamente a produção é uma questão de justiça social que deve ser implementada. Mas, do ponto de vista ecológico, não basta. É preciso decrescer a pegada ecológica não só dos mais ricos, mas do conjunto das atividades antrópicas (Dasgupta, 13/10/2021).

A Declaração de São Paulo sobre Saúde Planetária diz: “A humanidade, e de fato toda a vida na Terra, está em uma encruzilhada. Nas últimas décadas, a escala dos impactos humanos nos sistemas naturais da Terra aumentou exponencialmente a ponto de exceder a capacidade do nosso planeta de absorver nossos resíduos ou fornecer os recursos que estamos usando. O resultado é uma vasta e acelerada transformação e degradação da natureza. Isso inclui não apenas a mudança climática global, mas também a poluição em escala global do ar, da água e do solo; degradação das florestas, rios, sistemas costeiros e marinhos de nosso planeta; e a sexta extinção em massa da vida na Terra” (The Lancet, 05/10/2021).

O dia da Sobrecarga da Terra ocorre cada vez mais cedo. Na verdade, o que precisamos é superar as Eras do Antropoceno e do Piroceno e caminhar para a Era do Ecoceno, onde o respeito ao meio ambiente coloque a Ecologia no centro do mundo, possibilitando que o ser humano possa viver em paz e harmonia com a biodiversidade e os ecossistemas, repartindo irmãmente e fraternalmente a Nossa Casa Comum, numa verdadeira Ecosfera saudável e feliz.

O ser humano não é dono, mas sim parte da Comunidade Biótica Global, na qual todos os seres vivos estão inseridos. Nenhuma pessoa e nenhuma espécie pode ser feliz sozinha. O futuro da vida na Terra depende da prosperidade comum e compartilhada entre todas as espécies.

Doutor em Demografia

Referências:

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Documentário da Semana- Our Planet: Too Big To Fail


How can the finance sector help save the planet? The sector’s leading voices explore the crucial role of finance in turning the tide on climate change and nature loss.



Quando o Tesouro do Reino Unido abordou Sir Partha Dasgupta em 2019 para realizar uma revisão da economia da biodiversidade, a primeira vez que um ministério das finanças encomendou tal estudo, o eminente economista britânico da Universidade de Cambridge não pensou duas vezes antes de dizer “sim ”.

Nos 18 meses seguintes, Dasgupta e sua equipa combinaram evidências científicas, econômicas e históricas com modelagem matemática rigorosa para produzir A Economia da Biodiversidade: A Revisão Dasgupta.

Lançado em fevereiro de 2021, o relatório histórico mostra que o crescimento econômico teve um custo devastador para a natureza. Ele deixa claro que a humanidade está destruindo seu bem mais precioso, o mundo natural, ao viver além das possibilidades do planeta, e destaca estimativas recentes de que seriam necessários 1,6 Terras para manter os padrões de vida atuais.

“As previsões económicas consistem em investimento em fábricas, taxas de emprego, crescimento [do produto interno bruto]. Eles nunca mencionam o que está acontecendo com os ecossistemas”, disse Dasgupta, que é o Campeão da Terra para Ciência e Inovação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) deste ano. “É realmente urgente pensarmos nisso agora”, disse ele.

O relatório foi o culminar de quatro décadas de trabalho em que Dasgupta procurou ultrapassar os limites da economia tradicional e expor a conexão entre a saúde do planeta e a estabilidade das economias.

A Economia da Biodiversidade é a base de um campo crescente do que é conhecido como contabilidade do capital natural, no qual os pesquisadores tentam avaliar o valor da natureza. Esses números podem ajudar os governos a entender melhor os custos econômicos de longo prazo da extração de madeira, mineração e outras indústrias potencialmente destrutivas, fortalecendo a proteção do mundo natural.

“As contribuições inovadoras de Sir Partha Dasgupta para a economia ao longo das décadas despertaram o mundo para o valor da natureza e a necessidade de proteger os ecossistemas que enriquecem nossas economias, nosso bem-estar e nossas vidas”, disse Inger Andersen, Diretor Executivo do PNUMA.

domingo, 18 de julho de 2021

Underestimating the Challenges of Avoiding a Ghastly Future - Subestimando os Desafios de Evitar um Futuro Medonho


Summary of major environmental-change categories expressed as a percentage change relative to the baseline given in the text. Red indicates the percentage of the category that is damaged, lost, or otherwise affected, whereas blue indicates the percentage that is intact, remaining, or otherwise unaffected.

We report three major and confronting environmental issues that have received little attention and require urgent action. First, we review the evidence that future environmental conditions will be far more dangerous than currently believed. The scale of the threats to the biosphere and all its lifeforms—including humanity—is in fact so great that it is difficult to grasp for even well-informed experts. Second, we ask what political or economic system, or leadership, is prepared to handle the predicted disasters, or even capable of such action. Third, this dire situation places an extraordinary responsibility on scientists to speak out candidly and accurately when engaging with government, business, and the public. We especially draw attention to the lack of appreciation of the enormous challenges to creating a sustainable future. The added stresses to human health, wealth, and well-being will perversely diminish our political capacity to mitigate the erosion of ecosystem services on which society depends. The science underlying these issues is strong, but awareness is weak. Without fully appreciating and broadcasting the scale of the problems and the enormity of the solutions required, society will fail to achieve even modest sustainability goals.

Introduction
Humanity is causing a rapid loss of biodiversity and, with it, Earth's ability to support complex life. But the mainstream is having difficulty grasping the magnitude of this loss, despite the steady erosion of the fabric of human civilization (Ceballos et al., 2015; IPBES, 2019; Convention on Biological Diversity, 2020; WWF, 2020). While suggested solutions abound (Díaz et al., 2019), the current scale of their implementation does not match the relentless progression of biodiversity loss (Cumming et al., 2006) and other existential threats tied to the continuous expansion of the human enterprise (Rees, 2020). Time delays between ecological deterioration and socio-economic penalties, as with climate disruption for example (IPCC, 2014), impede recognition of the magnitude of the challenge and timely counteraction needed. In addition, disciplinary specialization and insularity encourage unfamiliarity with the complex adaptive systems (Levin, 1999) in which problems and their potential solutions are embedded (Selby, 2006; Brand and Karvonen, 2007). Widespread ignorance of human behavior (Van Bavel et al., 2020) and the incremental nature of socio-political processes that plan and implement solutions further delay effective action (Shanley and López, 2009; King, 2016).

We summarize the state of the natural world in stark form here to help clarify the gravity of the human predicament. We also outline likely future trends in biodiversity decline (Díaz et al., 2019), climate disruption (Ripple et al., 2020), and human consumption and population growth to demonstrate the near certainty that these problems will worsen over the coming decades, with negative impacts for centuries to come. Finally, we discuss the ineffectiveness of current and planned actions that are attempting to address the ominous erosion of Earth's life-support system. Ours is not a call to surrender—we aim to provide leaders with a realistic “cold shower” of the state of the planet that is essential for planning to avoid a ghastly future.

Biodiversity Loss
Major changes in the biosphere are directly linked to the growth of human systems (summarized in Figure 1). While the rapid loss of species and populations differs regionally in intensity (Ceballos et al., 2015, 2017, 2020; Díaz et al., 2019), and most species have not been adequately assessed for extinction risk (Webb and Mindel, 2015), certain global trends are obvious. Since the start of agriculture around 11,000 years ago, the biomass of terrestrial vegetation has been halved (Erb et al., 2018), with a corresponding loss of >20% of its original biodiversity (Díaz et al., 2019), together denoting that >70% of the Earth's land surface has been altered by Homo sapiens (IPBES, 2019). There have been >700 documented vertebrate (Díaz et al., 2019) and ~600 plant (Humphreys et al., 2019) species extinctions over the past 500 years, with many more species clearly having gone extinct unrecorded (Tedesco et al., 2014). Population sizes of vertebrate species that have been monitored across years have declined by an average of 68% over the last five decades (WWF, 2020), with certain population clusters in extreme decline (Leung et al., 2020), thus presaging the imminent extinction of their species (Ceballos et al., 2020). Overall, perhaps 1 million species are threatened with extinction in the near future out of an estimated 7–10 million eukaryotic species on the planet (Mora et al., 2011), with around 40% of plants alone considered endangered (Antonelli et al., 2020). Today, the global biomass of wild mammals is <25% of that estimated for the Late Pleistocene (Bar-On et al., 2018), while insects are also disappearing rapidly in many regions (Wagner, 2020; reviews in van Klink et al., 2020).

Freshwater and marine environments have also been severely damaged. Today there is <15% of the original wetland area globally than was present 300 years ago (Davidson, 2014), and >75% of rivers >1,000 km long no longer flow freely along their entire course (Grill et al., 2019). More than two-thirds of the oceans have been compromised to some extent by human activities (Halpern et al., 2015), live coral cover on reefs has halved in <200 years (Frieler et al., 2013), seagrass extent has been decreasing by 10% per decade over the last century (Waycott et al., 2009; Díaz et al., 2019), kelp forests have declined by ~40% (Krumhansl et al., 2016), and the biomass of large predatory fishes is now <33% of what it was last century (Christensen et al., 2014).

With such a rapid, catastrophic loss of biodiversity, the ecosystem services it provides have also declined. These include inter alia reduced carbon sequestration (Heath et al., 2005; Lal, 2008), reduced pollination (Potts et al., 2016), soil degradation (Lal, 2015), poorer water and air quality (Smith et al., 2013), more frequent and intense flooding (Bradshaw et al., 2007; Hinkel et al., 2014) and fires (Boer et al., 2020; Bowman et al., 2020), and compromised human health (Díaz et al., 2006; Bradshaw et al., 2019). As telling indicators of how much biomass humanity has transferred from natural ecosystems to our own use, of the estimated 0.17 Gt of living biomass of terrestrial vertebrates on Earth today, most is represented by livestock (59%) and human beings (36%)—only ~5% of this total biomass is made up by wild mammals, birds, reptiles, and amphibians (Bar-On et al., 2018). As of 2020, the overall material output of human endeavor exceeds the sum of all living biomass on Earth (Elhacham et al., 2020).

Sixth Mass Extinction
A mass extinction is defined as a loss of ~75% of all species on the planet over a geologically short interval—generally anything <3 million years (Jablonski et al., 1994; Barnosky et al., 2011). At least five major extinction events have occurred since the Cambrian (Sodhi et al., 2009), the most recent of them 66 million years ago at the close of the Cretaceous period. The background rate of extinction since then has been 0.1 extinctions million species−1 year−1 (Ceballos et al., 2015), while estimates of today's extinction rate are orders of magnitude greater (Lamkin and Miller, 2016). Recorded vertebrate extinctions since the 16th century—the mere tip of the true extinction iceberg—give a rate of extinction of 1.3 species year−1, which is conservatively >15 times the background rate (Ceballos et al., 2015). The IUCN estimates that some 20% of all species are in danger of extinction over the next few decades, which greatly exceeds the background rate. That we are already on the path of a sixth major extinction is now scientifically undeniable (Barnosky et al., 2011; Ceballos et al., 2015, 2017).

Ecological Overshoot: Population Size and Overconsumption
The global human population has approximately doubled since 1970, reaching nearly 7.8 billion people today (prb.org). While some countries have stopped growing and even declined in size, world average fertility continues to be above replacement (2.3 children woman−1), with an average of 4.8 children woman−1 in Sub-Saharan Africa and fertilities >4 children woman−1 in many other countries (e.g., Afghanistan, Yemen, Timor-Leste). The 1.1 billion people today in Sub-Saharan Africa—a region expected to experience particularly harsh repercussions from climate change (Serdeczny et al., 2017)—is projected to double over the next 30 years. By 2050, the world population will likely grow to ~9.9 billion (prb.org), with growth projected by many to continue until well into the next century (Bradshaw and Brook, 2014; Gerland et al., 2014), although more recent estimates predict a peak toward the end of this century (Vollset et al., 2020).

Large population size and continued growth are implicated in many societal problems. The impact of population growth, combined with an imperfect distribution of resources, leads to massive food insecurity. By some estimates, 700–800 million people are starving and 1–2 billion are micronutrient-malnourished and unable to function fully, with prospects of many more food problems in the near future (Ehrlich and Harte, 2015a,b). Large populations and their continued growth are also drivers of soil degradation and biodiversity loss (Pimm et al., 2014). More people means that more synthetic compounds and dangerous throw-away plastics (Vethaak and Leslie, 2016) are manufactured, many of which add to the growing toxification of the Earth (Cribb, 2014). It also increases chances of pandemics (Daily and Ehrlich, 1996b) that fuel ever-more desperate hunts for scarce resources (Klare, 2012). Population growth is also a factor in many social ills, from crowding and joblessness, to deteriorating infrastructure and bad governance (Harte, 2007). There is mounting evidence that when populations are large and growing fast, they can be the sparks for both internal and international conflicts that lead to war (Klare, 2001; Toon et al., 2007). The multiple, interacting causes of civil war in particular are varied, including poverty, inequality, weak institutions, political grievance, ethnic divisions, and environmental stressors such as drought, deforestation, and land degradation (Homer-Dixon, 1991, 1999; Collier and Hoeer, 1998; Hauge and llingsen, 1998; Fearon and Laitin, 2003; Brückner, 2010; Acemoglu et al., 2017). Population growth itself can even increase the probability of military involvement in conflicts (Tir and Diehl, 1998). Countries with higher population growth rates experienced more social conflict since the Second World War (Acemoglu et al., 2017). In that study, an approximate doubling of a country's population caused about four additional years of full-blown civil war or low-intensity conflict in the 1980s relative to the 1940–1950s, even after controlling for a country's income-level, independence, and age structure.

Simultaneous with population growth, humanity's consumption as a fraction of Earth's regenerative capacity has grown from ~ 73% in 1960 to 170% in 2016 (Lin et al., 2018), with substantially greater per-person consumption in countries with highest income. With COVID-19, this overshoot dropped to 56% above Earth's regenerative capacity, which means that between January and August 2020, humanity consumed as much as Earth can renew in the entire year (overshootday.org). While inequality among people and countries remains staggering, the global middle class has grown rapidly and exceeded half the human population by 2018 (Kharas and Hamel, 2018). Over 70% of all people currently live in countries that run a biocapacity deficit while also having less than world-average income, excluding them from compensating their biocapacity deficit through purchases (Wackernagel et al., 2019) and eroding future resilience via reduced food security (Ehrlich and Harte, 2015b). The consumption rates of high-income countries continue to be substantially higher than low-income countries, with many of the latter even experiencing declines in per-capita footprint (Dasgupta and Ehrlich, 2013; Wackernagel et al., 2019).

This massive ecological overshoot is largely enabled by the increasing use of fossil fuels. These convenient fuels have allowed us to decouple human demand from biological regeneration: 85% of commercial energy, 65% of fibers, and most plastics are now produced from fossil fuels. Also, food production depends on fossil-fuel input, with every unit of food energy produced requiring a multiple in fossil-fuel energy (e.g., 3 × for high-consuming countries like Canada, Australia, USA, and China; overshootday.org). This, coupled with increasing consumption of carbon-intensive meat (Ripple et al., 2014) congruent with the rising middle class, has exploded the global carbon footprint of agriculture. While climate change demands a full exit from fossil-fuel use well before 2050, pressures on the biosphere are likely to mount prior to decarbonization as humanity brings energy alternatives online. Consumption and biodiversity challenges will also be amplified by the enormous physical inertia of all large “stocks” that shape current trends: built infrastructure, energy systems, and human populations.

It is therefore also inevitable that aggregate consumption will increase at least into the near future, especially as affluence and population continue to grow in tandem (Wiedmann et al., 2020). Even if major catastrophes occur during this interval, they would unlikely affect the population trajectory until well into the 22nd Century (Bradshaw and Brook, 2014). Although population-connected climate change (Wynes and Nicholas, 2017) will worsen human mortality (Mora et al., 2017; Parks et al., 2020), morbidity (Patz et al., 2005; Díaz et al., 2006; Peng et al., 2011), development (Barreca and Schaller, 2020), cognition (Jacobson et al., 2019), agricultural yields (Verdin et al., 2005; Schmidhuber and Tubiello, 2007; Brown and Funk, 2008; Gaupp et al., 2020), and conflicts (Boas, 2015), there is no way—ethically or otherwise (barring extreme and unprecedented increases in human mortality)—to avoid rising human numbers and the accompanying overconsumption. That said, instituting human-rights policies to lower fertility and reining in consumption patterns could diminish the impacts of these phenomena (Rees, 2020).

Failed International Goals and Prospects for the Future
Stopping biodiversity loss is nowhere close to the top of any country's priorities, trailing far behind other concerns such as employment, healthcare, economic growth, or currency stability. It is therefore no surprise that none of the Aichi Biodiversity Targets for 2020 set at the Convention on Biological Diversity's (CBD.int) 2010 conference was met (Secretariat of the Convention on Biological Diversity, 2020). Even had they been met, they would have still fallen short of realizing any substantive reductions in extinction rate. More broadly, most of the nature-related United Nations Sustainable Development Goals (SDGs) (e.g., SDGs 6, 13–15) are also on track for failure (Wackernagel et al., 2017; Díaz et al., 2019; Messerli et al., 2019), largely because most SDGs have not adequately incorporated their interdependencies with other socio-economic factors (Bradshaw and Di Minin, 2019; Bradshaw et al., 2019; Messerli et al., 2019). Therefore, the apparent paradox of high and rising average standard of living despite a mounting environmental toll has come at a great cost to the stability of humanity's medium- and long-term life-support system. In other words, humanity is running an ecological Ponzi scheme in which society robs nature and future generations to pay for boosting incomes in the short term (Ehrlich et al., 2012). Even the World Economic Forum, which is captive of dangerous greenwashing propaganda (Bakan, 2020), now recognizes biodiversity loss as one of the top threats to the global economy (World Economic Forum, 2020).

The emergence of a long-predicted pandemic (Daily and Ehrlich, 1996a), likely related to biodiversity loss, poignantly exemplifies how that imbalance is degrading both human health and wealth (Austin, 2020; Dobson et al., 2020; Roe et al., 2020). With three-quarters of new infectious diseases resulting from human-animal interactions, environmental degradation via climate change, deforestation, intensive farming, bushmeat hunting, and an exploding wildlife trade mean that the opportunities for pathogen-transferring interactions are high (Austin, 2020; Daszak et al., 2020). That much of this degradation is occurring in Biodiversity Hotspots where pathogen diversity is also highest (Keesing et al., 2010), but where institutional capacity is weakest, further increases the risk of pathogen release and spread (Austin, 2020; Schmeller et al., 2020).

Climate Disruption
The dangerous effects of climate change are much more evident to people than those of biodiversity loss (Legagneux et al., 2018), but society is still finding it difficult to deal with them effectively. Civilization has already exceeded a global warming of ~ 1.0°C above pre-industrial conditions, and is on track to cause at least a 1.5°C warming between 2030 and 2052 (IPCC, 2018). In fact, today's greenhouse-gas concentration is >500 ppm CO2-e (Butler and Montzka, 2020), while according to the IPCC, 450 ppm CO2-e would give Earth a mere 66% chance of not exceeding a 2°C warming (IPCC, 2014). Greenhouse-gas concentration will continue to increase (via positive feedbacks such as melting permafrost and the release of stored methane) (Burke et al., 2018), resulting in further delay of temperature-reducing responses even if humanity stops using fossil fuels entirely well before 2030 (Steffen et al., 2018).

Human alteration of the climate has become globally detectable in any single day's weather (Sippel et al., 2020). In fact, the world's climate has matched or exceeded previous predictions (Brysse et al., 2013), possibly because of the IPCC's reliance on averages from several models (Herger et al., 2018) and the language of political conservativeness inherent in policy recommendations seeking multinational consensus (Herrando-Pérez et al., 2019). However, the latest climate models (CMIP6) show greater future warming than previously predicted (Forster et al., 2020), even if society tracks the needed lower-emissions pathway over the coming decades. Nations have in general not met the goals of the 5 year-old Paris Agreement (United Nations, 2016), and while global awareness and concern have risen, and scientists have proposed major transformative change (in energy production, pollution reduction, custodianship of nature, food production, economics, population policies, etc.), an effective international response has yet to emerge (Ripple et al., 2020). Even assuming that all signatories do, in fact, manage to ratify their commitments (a doubtful prospect), expected warming would still reach 2.6–3.1°C by 2100 (Rogelj et al., 2016) unless large, additional commitments are made and fulfilled. Without such commitments, the projected rise of Earth's temperature will be catastrophic for biodiversity (Urban, 2015; Steffen et al., 2018; Strona and Bradshaw, 2018) and humanity (Smith et al., 2016).

Regarding international climate-change accords, the Paris Agreement (United Nations, 2016) set the 1.5–2°C target unanimously. But since then, progress to propose, let alone follow, (voluntary) “intended national determined contributions” for post-2020 climate action have been utterly inadequate.
Political Impotence

If most of the world's population truly understood and appreciated the magnitude of the crises we summarize here, and the inevitability of worsening conditions, one could logically expect positive changes in politics and policies to match the gravity of the existential threats. But the opposite is unfolding. The rise of right-wing populist leaders is associated with anti-environment agendas as seen recently for example in Brazil (Nature, 2018), the USA (Hejny, 2018), and Australia (Burck et al., 2019). Large differences in income, wealth, and consumption among people and even among countries render it difficult to make any policy global in its execution or effect.

A central concept in ecology is density feedback (Herrando-Pérez et al., 2012)—as a population approaches its environmental carrying capacity, average individual fitness declines (Brook and Bradshaw, 2006). This tends to push populations toward an instantaneous expression of carrying capacity that slows or reverses population growth. But for most of history, human ingenuity has inflated the natural environment's carrying capacity for us by developing new ways to increase food production (Hopfenberg, 2003), expand wildlife exploitation, and enhance the availability of other resources. This inflation has involved modifying temperature via shelter, clothing, and microclimate control, transporting goods from remote locations, and generally reducing the probability of death or injury through community infrastructure and services (Cohen, 1995). But with the availability of fossil fuels, our species has pushed its consumption of nature's goods and services much farther beyond long-term carrying capacity (or more precisely, the planet's biocapacity), making the readjustment from overshoot that is inevitable far more catastrophic if not managed carefully (Nyström et al., 2019). A growing human population will only exacerbate this, leading to greater competition for an ever-dwindling resource pool. The corollaries are many: continued reduction of environmental intactness (Bradshaw et al., 2010; Bradshaw and Di Minin, 2019), reduced child health (especially in low-income nations) (Bradshaw et al., 2019), increased food demand exacerbating environmental degradation via agro-intensification (Crist et al., 2017), vaster and possibly catastrophic effects of global toxification (Cribb, 2014; Swan and Colino, 2021), greater expression of social pathologies (Levy and Herzog, 1974) including violence exacerbated by climate change and environmental degradation itself (Agnew, 2013; White, 2017, 2019), more terrorism (Coccia, 2018), and an economic system even more prone to sequester the remaining wealth among fewer individuals (Kus, 2016; Piketty, 2020) much like how cropland expansion since the early 1990s has disproportionately concentrated wealth among the super-rich (Ceddia, 2020). The predominant paradigm is still one of pegging “environment” against “economy”; yet in reality, the choice is between exiting overshoot by design or disaster—because exiting overshoot is inevitable one way or another.

Given these misconceptions and entrenched interests, the continued rise of extreme ideologies is likely, which in turn limits the capacity of making prudent, long-term decisions, thus potentially accelerating a vicious cycle of global ecological deterioration and its penalties. Even the USA's much-touted New Green Deal (U. S. House of Representatives, 2019) has in fact exacerbated the country's political polarization (Gustafson et al., 2019), mainly because of the weaponization of ‘environmentalism' as a political ideology rather than being viewed as a universal mode of self-preservation and planetary protection that ought to transcend political tribalism. Indeed, environmental protest groups are being labeled as “terrorists” in many countries (Hudson, 2020). Further, the severity of the commitments required for any country to achieve meaningful reductions in consumption and emissions will inevitably lead to public backlash and further ideological entrenchments, mainly because the threat of potential short-term sacrifices is seen as politically inopportune. Even though climate change alone will incur a vast economic burden (Burke et al., 2015; Carleton and Hsiang, 2016; Auffhammer, 2018) possibly leading to war (nuclear, or otherwise) at a global scale (Klare, 2020), most of the world's economies are predicated on the political idea that meaningful counteraction now is too costly to be politically palatable. Combined with financed disinformation campaigns in a bid to protect short-term profits (Oreskes and Conway, 2010; Mayer, 2016; Bakan, 2020), it is doubtful that any needed shift in economic investments of sufficient scale will be made in time.

While uncertain and prone to fluctuate according to unpredictable social and policy trends (Boas et al., 2019; McLeman, 2019; Nature Climate Change, 2019), climate change and other environmental pressures will trigger more mass migration over the coming decades (McLeman, 2019), with an estimated 25 million to 1 billion environmental migrants expected by 2050 (Brown, 2008). Because international law does not yet legally recognize such “environmental migrants” as refugees (United Nations University, 2015) (although this is likely to change) (Lyons, 2020), we fear that a rising tide of refugees will reduce, not increase, international cooperation in ways that will further weaken our capacity to mitigate the crisis.

Changing the Rules of the Game
While it is neither our intention nor capacity in this short Perspective to delve into the complexities and details of possible solutions to the human predicament, there is no shortage of evidence-based literature proposing ways to change human behavior for the benefit of all extant life. The remaining questions are less about what to do, and more about how, stimulating the genesis of many organizations devoted to these pursuits (e.g., ipbes.org, goodanthropocenes.net, overshootday.org, mahb.stanford.edu, populationmatters.org, clubofrome.org, steadystate.org, to name a few). The gravity of the situation requires fundamental changes to global capitalism, education, and equality, which include inter alia the abolition of perpetual economic growth, properly pricing externalities, a rapid exit from fossil-fuel use, strict regulation of markets and property acquisition, reigning in corporate lobbying, and the empowerment of women. These choices will necessarily entail difficult conversations about population growth and the necessity of dwindling but more equitable standards of living.

Conclusions
We have summarized predictions of a ghastly future of mass extinction, declining health, and climate-disruption upheavals (including looming massive migrations) and resource conflicts this century. Yet, our goal is not to present a fatalist perspective, because there are many examples of successful interventions to prevent extinctions, restore ecosystems, and encourage more sustainable economic activity at both local and regional scales. Instead, we contend that only a realistic appreciation of the colossal challenges facing the international community might allow it to chart a less-ravaged future. While there have been more recent calls for the scientific community in particular to be more vocal about their warnings to humanity (Ripple et al., 2017; Cavicchioli et al., 2019; Gardner and Wordley, 2019), these have been insufficiently foreboding to match the scale of the crisis. Given the existence of a human “optimism bias” that triggers some to underestimate the severity of a crisis and ignore expert warnings, a good communication strategy must ideally undercut this bias without inducing disproportionate feelings of fear and despair (Pyke, 2017; Van Bavel et al., 2020). It is therefore incumbent on experts in any discipline that deals with the future of the biosphere and human well-being to eschew reticence, avoid sugar-coating the overwhelming challenges ahead and “tell it like it is.” Anything else is misleading at best, or negligent and potentially lethal for the human enterprise at worst.

Fonte: aqui

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Land could be worth more left to nature than when farmed, study finds


The economic benefits of protecting nature-rich sites such as wetlands and woodlands outweigh the profit that could be made from using the land for resource extraction, according to the largest study yet to look at the value of protecting nature at specific locations.

Scientists analysed 24 sites in six continents and found the asset returns of “ecosystem services” such as carbon storage and flood prevention created by conservation work was, pound for pound, greater than manmade capital created by using the land for activities such as forestry or farming cereals, sugar, tea or cocoa.

The study, which was led by academics at Cambridge University with the Royal Society for the Protection of Birds (RSPB), suggests further modifying nature for human use could be costing society more than it benefits it, but these “natural capital” costs are often not taken into account by decision-makers.

It echoes the findings of a landmark review released last month by Prof Sir Partha Dasgupta, the Cambridge economist, which warned that the failure of economics to take into account the depletion of the natural world was putting the planet at “extreme risk”.

For the latest study, scientists worked out the annual net value of the chosen sites if they stayed “nature-focused” compared with an “alternative” non-nature focused state over 50 years. They valued each tonne of carbon as worth $31 (£22) to global society, a calculation generally considered to be quite conservative.

More than 70% of these nature-rich sites were found to be worth more in net economic benefits to people if they were left as natural habitats, and all forested sites were worth more with the trees left standing, according to the paper, published in Nature Sustainability. This suggests that even if people were only interested in money – and not nature – conserving these habitats still makes financial sense.

Researchers found a salt marsh called Hesketh Out Marsh on the Ribble estuary in Lancashire, was worth $2,000 (£1,450) a hectare ($800 an acre) in mitigating carbon emissions alone, which was greater than any money that could be made from growing crops or grazing animals on it. Many ecosystem services are still not easily evaluated economically and the results are likely to be conservative estimates, researchers say.

The study’s lead author, Dr Richard Bradbury, head of environmental research at the RSPB and an honorary fellow at Cambridge University, said: “As a conservation scientist at RSPB, you have to be acutely aware of your potential prejudices and be as neutral as possible in the analysis. Yet I was still surprised at how strongly the results favoured conservation and restoration.”

This analysis assumes that carbon is properly accounted for, but even without taking into account the value of carbon, natural sites are still more valuable 42% of the time when left as they are. Dr Kelvin Peh, of Southampton University, a co-author of the study, said: “People mainly exploit nature to derive financial benefits. Yet in almost half of the cases we studied, human-induced exploitation subtracted rather than increased economic value.”

Converting land for farming is sometimes driven by government subsidies, which encourages the production of goods that do not pay for themselves on the market. This is partly why the UK’s post-Brexit farming policy is moving towards a new environmental land management (ELM) system, which will pay farmers for environmental services their land provides. “The spirit of ELMs in England is spot on,” said Bradbury.

The authors insist that their study should not be used to argue for widespread abandonment of human-dominated landscapes, but said it shows there are lessons to learn about the way we treat natural capital. “We dismiss the flow of services that aren’t easily captured on markets at our peril,” said Bradbury. “As much as I’d like the world to work in a different way, people make economic decisions on the basis of information like this.”

Researchers used a system called TESSA (Toolkit for Ecosystem Service Site-based Assessment) to calculate the monetary value of land depending on which ecosystem services it provided. Some sites were as small as 10 hectares in size, others were thousands of hectares. Most of them were forests and wetlands, but also included were habitats such as grasslands and sand dunes.

Dr Alexander Lees, a tropical ecologist at Manchester Metropolitan University, who was not involved in the study, said the paper’s “robust global analysis” was a reminder of the value of the planet’s remaining wild spaces.

“The policy implications are clear: land ownership is a privilege which comes with great responsibility,” he said. “We should incentivise and reward nature-focused land management with subsidies or payment for ecosystem services whilst penalising those who manage land unsustainably via taxes and regulation.”

Prof Ben Groom, a biodiversity economist at Exeter University who was not involved in the study, said the TESSA sites were quite selective and the results may not be representative of the financial benefits of protecting natural sites more generally. “This is a call for more analysis of such interventions, not a criticism of this study, which does the best possible in a difficult area where there is not much data to speak of,” he said.

Groom added: “The general nature of land-use decisions by large organisations in agriculture and forestry, and the difficulties faced by local communities to realise ecosystem services, are not discussed a great deal. The paper highlights that addressing these missing parts of the puzzle is going to be worth it in terms of local and global ecosystem services.”

quarta-feira, 7 de abril de 2021

A economia e a biodiversidade: relatório Dasgupta



A exploração da natureza e a domesticação do mundo natural já passou dos limites. A humanidade está promovendo um ecocídio em larga escala que pode se transformar em suicídio.

A economia tradicional tende a ver a natureza apenas como um bem econômico a serviço do bem-estar da humanidade e como uma mercadoria que faz circular a economia pagando salários, lucros e juros. A tão decantada racionalidade do Homo economicus virou um problema de insensibilidade natural e uma prática especistas, com sérios danos à biodiversidade.

Todavia, diante da 6ª extinção em massa das espécies, é cada vez mais exigido que a lógica do modelo econômico hegemônico seja colocada em questão e seja imediatamente revertida. É praticamente isto que diz Sir Partha Dasgupta, um dos mais prestigiados economistas contemporâneos. Ele publicou um importante relatório sobre a economia da biodiversidade, atendendo a uma demanda do Her Majesty’s Treasure, órgão que, na Grã-Bretanha, responde pelas finanças públicas e pela política econômica. Dasgupta diz que os interesses da humanidade, a ideologia da engenhosidade humana e a apologia à tecnologia consideram que se pode fazer o uso que se quiser da natureza. Mas este ideal de progresso, além de ser eticamente inaceitável, é economicamente desastroso. O gráfico abaixo resume a situação, pois enquanto a produtividade do econômica aumenta, cresce o capital humano, mas diminui o capital natural.


Ou seja, enquanto a economia cresce, a humanidade enriquece e a natureza empobrece. O relatório diz: “Em seu núcleo, os problemas que enfrentamos hoje não são diferentes daqueles nossos ancestrais enfrentados: como encontrar um equilíbrio entre o que tomamos da biosfera e o que deixamos para trás para nossos descendentes. Mas enquanto nossos ancestrais distantes eram incapazes de afetar o sistema da terra como um todo, não somos apenas capazes de fazer isso, estamos fazendo isso. A humanidade agora enfrenta uma escolha: podemos continuar por um caminho onde nossas demandas na natureza excederem de longe a capacidade da natureza de fornecê-las sobre uma base sustentável; Ou podemos dar um caminho diferente, quando nossos compromissos com a natureza não são apenas sustentáveis, mas também aumentam nosso bem-estar coletivo e o bem-estar dos nossos descendentes. Para prosseguir um futuro sustentável exigirá uma mudança transformadora em nosso modo de pensar e agir” (p. 485).

Ou seja, o mundo tem uma pegada ecológica superior à biocapacidade do Planeta e o déficit ambiental cresce a cada ano e a biodiversidade paga um alto preço. Este caminho é insustentável. A extensão em que se degradou coletivamente a biosfera criou extremos riscos e incertezas, ameaçando nossas economias e meios de subsistência, e deu origem a riscos existenciais para a humanidade.

O relatório Dasgupta possui mais de 600 páginas e é muito rico na discussão do diagnóstico e no receituário da crise ambiental atual. Mas não se pode deixar de registrar que o texto abordar uma questão que tem sido tabu em outras publicações, que é a questão demográfica. Fica claro que a expansão do número de humanos teve implicações significativas em nossa pegada global e que a sustentabilidade depende da continuidade da transição da fecundidade.

O relatório considera que é preciso melhorar o acesso das mulheres ao financiamento, à informação e educação, possibilitando maior acesso aos programas de planejamento familiar e saúde reprodutiva modernos baseados na comunidade, garantindo autonomia e controle sobre suas vidas. Assim o relatório diz:

“Se os benefícios dos programas modernos de planejamento familiar e saúde reprodutiva são altos, os custos são baixos. Segundo uma estimativa do Instituto Guttmacher (2020), expandir e melhorar os serviços para atender às necessidades das mulheres de contracepção moderna em países em desenvolvimento custaria menos de US$ 2 por ano por pessoa. Já foi sugerido que um dólar gasto em planejamento familiar e saúde reprodutiva é mais benéfico do que um dólar gasto em pesquisa agrícola, vacinação contra rotavírus, educação pré-escolar, facilitação do comércio ou mesmo redes mosqueteiras. Mas tem havido um subinvestimento significativo em planejamento familiar até o momento. As estimativas da OCDE sugerem que menos de 1% da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (ODA) da UE para a África é direcionada ao planejamento familiar. Como um caminho para acelerar a transição demográfica, o investimento em planejamento familiar comunitário e programas de saúde reprodutiva devem agora ser considerados essenciais”.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes

Referências:


ALVES, JED. Mais árvores e menos gente, Ecodebate, 02/10/2019

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Dasgupta, P. The Economics of Biodiversity: The Dasgupta Review. London: HM Treasury, 2021