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terça-feira, 31 de março de 2026

Miranda Sex Garden - Gush Forth My Tears


Letra
Gush forth my tears
And stay the burning
Of my poor heart
Or her eyes
Choose you whether
O' peevish fond desire
Alas my sighs
Sighs out
Still blow the fire

A letra de "Gush Forth My Tears" remonta ao final do século XVI, tendo sido publicada originalmente em 1597 na obra The First Set of English Madrigals, do compositor John Holborne. Naquele período, era uma prática recorrente entre os compositores a escolha de poemas curtos, frequentemente de autoria anónima, para servirem de base a madrigais — composições de música vocal polifónica que exploravam a expressividade do texto através da harmonia.

A razão pela qual este tema soa ao trabalho de um "poeta famoso" reside no facto de o seu estilo ser puramente elisabetano, partilhando o mesmo fôlego lírico de grandes nomes da época. O autor, ainda que desconhecido, domina os temas clássicos da melancolia renascentista, recorrendo a figuras de estilo como a personificação da dor, onde as lágrimas são descritas como um fluxo imparável e quase purificador.

Além disso, o texto explora o contraste dramático entre a vida e a morte, sugerindo que o sofrimento do eu lírico é de tal forma avassalador que o descanso final seria visto como um alívio desejado. Esta densidade emocional é reforçada por uma linguagem arcaica e por uma estrutura métrica rigorosa, visível no uso de termos como "fain" (que significa "de bom grado"), o que confere à peça uma nobreza e uma gravidade que o Miranda Sex Garden soube transpor perfeitamente para a estética gótica contemporânea.

Esta canção foi lançada no álbum no álbum Madra (1991)

Curiosamente, este álbum foi produzido por Barry Adamson, que trabalhou com os Nick Cave and the Bad Seeds.

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

quarta-feira, 18 de março de 2026

TR/ST - Iris


[Verse 1]
I'll be your iris
I'll be your light
I'll be your iris
Until the night

[Chorus] 2X
And you say you're falling
And you say you're falling down

[Verse 1]

[Chorus] 2X
And you say you're falling
And you say you're falling down

[Bridge] 2X
I'll be your iris
I'll be your iris

[Outro]
Falling down

As letras dos TR/ST, escritas por Robert Alfons, são conhecidas por serem propositadamente abstratas, sensoriais e repletas de metáforas, o que permite múltiplas interpretações. Na canção "Iris", o significado gravita em torno de temas como a vulnerabilidade, a procura de conexão e a dualidade entre o eu interior e o mundo exterior.

Para compreender a música, é essencial olhar para o simbolismo do título, que carrega um duplo sentido: por um lado, remete para a flor, frequentemente associada à esperança, mas também à transição e à fragilidade; por outro, refere-se à íris do olho, a parte que regula a luz e a visão. Na letra, isto sugere um desejo de ser "visto" ou de enxergar a verdade em alguém, superando as barreiras da perceção.

Inserida no álbum The Destroyer – Part 2, que é consideravelmente mais calmo e melancólico do que a primeira parte, "Iris" descreve um momento de recolhimento emocional. Robert Alfons canta sobre um estado de espera ou de um "desmoronamento" lento, tentando encontrar beleza no meio da tristeza ou da decadência. Existe um conflito evidente entre a proteção e a entrega; a letra sugere alguém que criou "couraças" para se proteger, mas que sente agora a necessidade de se abrir para outrem ou para si próprio. Surgem frases que evocam a ideia de sacrifício e cura, como se o eu lírico oferecesse a sua própria essência para nutrir algo, tal como na promessa "I’ll be your Iris..." — um compromisso de ser a luz ou a cor na vida de outra pessoa, mesmo que isso comprometa a sua própria estabilidade.

A própria sonoridade reforça este significado. Ao contrário das faixas mais pesadas e densas do projeto, "Iris" possui uma produção mais limpa e etérea, o que acentua a ideia de clareza e pureza emocional. Em suma, trata-se de uma balada darkwave sobre a entrega e a beleza melancólica de se mostrar vulnerável perante o outro, revelando o que resta quando as defesas finalmente caem.

What is the destroyer in the Bible?
(2) In Job 33:22, "the destroyers" (literally, "they that cause to die") = the angels of death that are ready to take away a man's life during severe illness. Saber mais em International Standard Bible Encyclopedia Online

What are the powers of the destroyer Marvel?
Drax the Destroyer
Needing a champion to combat Thanos, the being known as Kronos took Arthur's spirit and placed it in a powerful new body, and Drax the Destroyer was born. Drax's powers included enhanced strength and resilience, flight, and the ability to project energy blasts from his hands.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Noire - He's My Baby


Letra
He's my baby, ain't it something
I'm a mess all for you
Walking home just to hear you say
Hey, baby, how's your day?

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good if you do

He's my baby, it's what I get romance is a nonsense bid
Pull me to the couch, put on ry cooder so we could sing the blues
I've been thinking there's a lot of lonely people in this town, yeah

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good you do

He's my baby, June is fadin', September's fadin' too
What's the price you pay, an hour wasted on you

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good if you do

He's my baby, ain't it something


A banda, formada em Sydney em 2014, criou este álbum após um período de isolamento rural, resultando num som "reverb-heavy" comparado a Mazzy Star e à estética de David Lynch.

'He's My Baby' é a segunda faixa do álbum de estreia de NOIRE, Some Kind of Blue, lançado em 29 de setembro de 2017.

O teledisco foi filmado no Avalon Restaurant, em Katoomba (nas Blue Mountains, Austrália), o que explica a vibe de "cidade pequena isolada" que a música transmite.

A estética visual é fortemente inspirada no cinema, especificamente no filme Coffee and Cigarettes de Jim Jarmusch.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Francis - Turning A Hand


The passing of time
I can't fade it out
My body on you
My body on you

[Refrão]
Who will learn when I won't
Who will fall when I won't
Who will learn when I won't
Who will fall when I won't

Remember the year
The wind in your hair
Turn into me
You
Like turning a hand for you

[Refrão]
So this is the end
The closer I get
Never to hold you
Never to feel you

[Refrão]

domingo, 18 de janeiro de 2026

A fermosura desta fresca serra


A fermosura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do Sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos of’rece,
Me está se não te vejo magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias, mor tristeza.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Slowdive - Crazy For You


O single "Crazy for You" (1990) é uma das suas faixas mais icónicas do shoegaze, caracterizada por guitarras etéreas, vocais suaves e camadas sonoras densas.

A letra, composta por uma única frase repetida várias vezes, 'Crazy for lovin' you', transmite uma sensação de obsessão e fixação emocional. A repetição incessante da frase sugere um estado mental onde o amor se torna uma força avassaladora, quase sufocante, que domina todos os pensamentos e sentimentos do eu lírico.

A simplicidade da letra contrasta com a complexidade da música, destacando a profundidade do sentimento de amor obsessivo.

A escolha de repetir a mesma frase inúmeras vezes pode ser vista como uma metáfora para a natureza cíclica e inescapável do amor obsessivo. O eu lírico está preso em um loop emocional, incapaz de pensar em qualquer outra coisa além do objeto de seu afeto. Essa abordagem minimalista e repetitiva é eficaz em transmitir a intensidade e a singularidade do sentimento, fazendo com que o ouvinte sinta a mesma fixação e intensidade emocional que o eu lírico experimenta.
Filmagens de A Swedish Love Story 1970, por Roy Anderson

Adoro passear com pessoas que me dizem "olha aquela nuvem"!

Ulrich Schnauss rework

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Idadismo? Nunca

Uma mulher idosa a caminhar livremente - Porto, Portugal

Bom primeiro dia de Ano Novo! Happy first day of the New Year!

"Sente-te livre por seres idosa,
ramo de sorrisos e rugas.
O que importa não envelhece na pele,
nem repousa nos lábios.
Não tomes isso como castigo divino.

Não rebentes em lágrimas.
O melhor do mundo humano és tu:
acende a lembrança no peito
e fixa o teu rosto na claridade do tempo.

Os sábios sabem:
não há motivo para luto.
A beleza não é um recipiente,
é o fogo que tremula dentro dele.

A tua alma luminosa
deixa-a inteira à vista,
assim eu te amo ainda mais.
Não te entristeças! Não dês ouvidos
às sentenças dos espelhos!

Tu és a mais bela!

João Soares, 01.01.2026

domingo, 28 de dezembro de 2025

Luigi Rossi: "Dal cielo cader vid'io due stelle" - L’Arpeggiata, Christina Pluhar, Jakub Józef Orliński


[Refrão]
I saw two bright stars fall from the sky; Love picked them up and placed them on my beloved’s face. A lover may burn happily in the light of two fair eyes, and in his constancy offer that light the gift of his own heart. But let no other lover hope to seduce with the beauty of two other sparkling eyes the eyes that have caused me to fall in love. [Refrão] Beneath the arch of a fair brow two sapphires will shine as they gaze around, making every danger alluring. And Love counsels in vain that fair eyes so serene must never burn full of fire like the look that I desire. [Refrão]

domingo, 7 de dezembro de 2025

Chuva que somos

Chuva que somos
"A chuva cai
como quem devolve ao mundo
a memória do que é simples.
Não molha a terra —
acorda-a.
E cada gota, ao tocar o solo,
faz o planeta respirar mais fundo,
como se dissesse:
“Estou vivo contigo.”
Há um silêncio verde
que cresce entre as raízes,
um pensamento que não é meu
nem de ninguém,
porque a Natureza pensa sem palavras.
Vejo a chuva cair nos campos,
e percebo que não há fronteiras
entre o que sou
e aquilo que se renova.
Sou apenas mais um corpo húmido,
uma pele que o mundo toca
para me lembrar
que pertenço.
E então sinto —
sem querer sentir —
que tudo é suficiente:
a terra que bebe,
o ar que se perfuma,
o chão que se entrega
sem nunca pedir.
A chuva é a mestra mais antiga:
ensina caindo,
e ensina sempre
a mesma lição.
Que viver é deixar-se molhar
pelo que vem do céu
e regressa ao chão
para começar de novo."

domingo, 9 de novembro de 2025

L.A.Witch - Get Lost


A canção “Get Lost” da banda L.A. WITCH tem um tom misterioso e melancólico, típico do estilo do grupo — um garage rock psicadélico com influências de surf, punk e dark rock.

🌙 Significado geral

“Get Lost” pode ser interpretada como uma canção sobre fuga e desconexão emocional. A expressão get lost significa literalmente “perde-te” ou “vai-te embora”, mas também pode evocar a ideia de perder-se de propósito — numa viagem, num sentimento, ou em si mesmo.

🖤 Temas principais

  1. Liberdade e evasão:
    A letra sugere uma vontade de escapar das amarras da rotina, das relações ou das expectativas.

    “You better get lost, before I find you”
    soa como uma mistura de ameaça e libertação — alguém a dizer que é melhor desaparecer do que enfrentar a dor de um confronto.

  2. Desapego e poder feminino:
    Como muitas músicas da L.A. WITCH, há um tom de independência e uma rejeição da vulnerabilidade romântica. É uma mulher a tomar o controlo da narrativa, a dizer “não preciso de ti”.

  3. Ambiguidade emocional:
    O ambiente sonoro — reverb, guitarras sombrias, voz etérea — reforça um estado entre o sonho e a realidade, entre o querer e o afastar-se.

🎸 Em suma:

“Get Lost” fala sobre perder-se para se encontrar, sobre o poder de dizer adeus antes que alguém ou algo te destrua. É tanto um aviso como um manifesto de autonomia.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

I Am The Shadow - The Wide Starlight



Significado da canção “The Wide Starlight”

Título simbólico
“Wide Starlight” (“Luz Estelar ampla / vasta”) sugere algo expansivo, cósmico, algo além do alcance imediato.

A “starlight” funciona como metáfora para esperanças, mistério, talvez orientação no escuro.

Temas de silêncio, perda e busca
Na letra, há frases como: “Just draw a line / Between the silence and the starlight”. Isso pode representar a linha ténue entre aquilo que não é dito (silêncio) e aquilo que inspira (a luz das estrelas).

Também surge a ideia de “questões antigas” (“lost in the same old questions”), o que pode indicar reflexão sobre o passado, dúvidas persistentes.

A expressão “Will you drown in the wide starlight” (“te afogarás na vasta luz estelar”) sugere ambivalência: a luz (esperança, sonhos) pode ser algo tão grande que se torna avassaladora, quase sufocante.

Dualidade entre luz e escuridão
A “wide starlight” não é só algo bonito, mas um espaço onde o “silêncio” tem peso. A canção parece explorar a tensão entre a tranquilidade da luz estelar e a solidão / vazio do silêncio.

Essa dualidade pode simbolizar momentos de introspeção profunda, onde a pessoa está entre a escuridão interior (silêncio, dúvidas) e a “luz” das suas esperanças / sonhos.

Uma viragem para a esperança
Segundo uma análise no site Sounds and Shadows, este álbum “marca uma viragem para a esperança”.

Mesmo que a canção tenha elementos melancólicos, há uma promessa de ascensão ou transformação: não é apenas sobre perda, mas também sobre encontrar algo além — talvez na “ampla luz estelar”.

Poética emocional
A música tem uma escrita muito poética (“soul baring poetry”), com uma produção que mistura sintetizadores e guitarras para criar uma atmosfera etérea.

Essa sonoridade reforça a mensagem lírica de contemplação, de algo vasto e intangível, como se estivéssemos olhando para o céu noturno e refletindo sobre a própria existência.

Baseado num romance
The Wide Starlight é um livro que mistura realismo mágico com temas de perda, memória, identidade e luto. A protagonista, Eli, vive atormentada pela lembrança (ou ausência) da mãe, que desapareceu misteriosamente no norte da Noruega. O enredo combina elementos míticos (auroras, magia, folclore nórdico) com uma jornada interna de autodescoberta.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Dulce Pontes - Na Língua Das Canções



Não te posso amar
Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento
O meu pensamento
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

Ao olhar pra ti
Sei que te escolhi
Porque foste rio
Dei as mãos aos abraços e a boca aos beijos que eu ousei sonhar
Sou irmã de tudo, amor
O meu canto é mudo, amor
Se eu não conseguir
Chorar e sorrir
Sempre que cantar

Mas eis que o coração
Se torna transparente
Eis que o coração
Abriga os temporais que nascem no mar
E tudo é ser capaz de traduzir na língua das canções
Na minha voz
Na tua voz
O som da água a passar

Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento, amor
O meu pensamento, amor
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

A música 'Na Língua das Canções' de Dulce Pontes é uma ode à conexão profunda entre o ser humano e a natureza, bem como à capacidade de expressar emoções através da música. A letra começa com a cantora questionando se a pessoa amada já foi um rio, simbolizando a fluidez e a transformação. Ela se identifica como irmã do vento, sugerindo uma ligação íntima com os elementos naturais e a liberdade que eles representam. A ideia de que o pensamento só se torna canção ao sentir-se irmão do que quer cantar reforça a necessidade de uma conexão genuína e profunda para a verdadeira expressão artística.

Ao longo da música, Dulce Pontes explora a escolha do amor e a reciprocidade emocional. Ela menciona que escolheu a pessoa amada porque esta já foi um rio, o que pode ser interpretado como uma escolha baseada na capacidade de transformação e adaptação. A cantora também fala sobre a importância de sentir e expressar emoções, afirmando que seu canto se torna mudo se ela não conseguir chorar e sorrir ao cantar. Isso destaca a autenticidade emocional como um componente essencial da arte e da vida.

A metáfora do coração que se torna transparente e abriga os temporais que nascem no mar sugere uma vulnerabilidade e uma abertura para as emoções intensas. A música conclui com a ideia de traduzir essas emoções na língua das canções, utilizando a voz como um meio de comunicação universal. A repetição de elementos naturais como o rio, o vento e o mar ao longo da letra reforça a ideia de que a natureza e as emoções humanas estão intrinsecamente ligadas, e que a música é uma forma poderosa de expressar essa conexão.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Saigyō - Sankashū (séc. XII)


“O som do vento nos pinheiros não mudou desde o passado, mas as formas dos homens de hoje são tristes de se ver.”

Saigyō e sua obra Sankashū

Saigyō (1118–1190) foi um dos mais célebres poetas japoneses do período Heian tardio e início do período Kamakura. O seu nome completo era Saigyō Hōshi, sendo "Hōshi" um título budista que indica sua condição de monge. Ele nasceu como Satō Norikiyo, numa família de samurais ligada à corte imperial, mas renunciou à vida mundana aos cerca de 23 anos para se tornar monge budista, adoptando uma vida de reclusão e contemplação da natureza.

Vida e Influências
Saigyō viveu durante uma época de grande transformação social e política no Japão, com a ascensão da classe guerreira (samurais) e o declínio da aristocracia cortesã. Essa tensão entre o mundo secular e o espiritual está presente nos seus poemas. Embora fosse monge, a sua poesia revela um forte apego ao mundo natural, com emoção humana intensa e sensível.

Ele é muitas vezes visto como um precursor do ideal estético japonês chamado yūgen (幽玄), que valoriza o mistério e a profundidade subtil, e do sentimento de sabi (寂), ligado à solidão, simplicidade e beleza melancólica.

Sankashū (山家集) – "Coleção da Montanha e da Cabana"
O Sankashū, literalmente "Coleção da Montanha e da Cabana", é a principal antologia poética de Saigyō, reunindo cerca de 1.550 poemas do tipo waka (poemas curtos de 31 sílabas na métrica 5-7-5-7-7).

Temas principais:
  1. Natureza e estações do ano – Flores de cerejeira, neve, luar, pinheiros, montanhas e rios são frequentes. A natureza é vista como espelho das emoções humanas.
  2. Solidão e retiro – A vida isolada nas montanhas como forma de busca espiritual e de contemplação estética.
  3. Impermanência (mujō) – A transitoriedade da vida, inspirada pelo budismo, especialmente pela escola da Terra Pura (Jōdo-shū), muito influente na sua época.
  4. Conflito entre o mundo e o caminho espiritual – Apesar de ser monge, Saigyō frequentemente lamenta os seus apegos emocionais e estéticos ao mundo.
Legado
Saigyō influenciou profundamente a poesia japonesa posterior, incluindo poetas como Bashō, o mestre do haicai no século XVII, que via em Saigyō um modelo ideal de poeta viajante e contemplativo. Sua obra continua sendo estudada e admirada pela sua beleza lírica, sua profundidade espiritual e sua capacidade de unir estética e religiosidade.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

A janela encantada


A vida sempre foi boa comigo.
Quando soube que o meu coração
estava carregado de sombras
e que ele só se alimenta de luz,
abriu uma janela no meu peito
para que por ela possam entrar
o resplendor do orvalho
o fulgor das estrelas
e o invisível arco-íris do amor.

Thiago de Mello
In De uma vez por todas, 1996

Amadeu Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, Amazonas, em 30 de março de 1926. Além de tradutor e ensaísta, é um dos poetas mais influentes e respeitados do país, sendo reconhecido como um ícone da literatura regional. A luta política, o lirismo, as relações de família e os amores são facetas marcantes em sua obra.

Preso durante a ditadura militar (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Da amizade veio a decisão de traduzirem os poemas um do outro.

Mello morou na Argentina, no Chile, em Portugal, na França e na Alemanha. Voltou à sua cidade natal, onde viveu até à sua morte.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Música do BioTerra: Moby feat. Sinead O'Connor - Harbour


The street bears no release
When everybody's fighting
The street bears no release
With life so hard and biting

I run the stairs away
And walk into the night-time
The sadness flows like water
And washes down the heartache
And washes down the heartache

[Refrão]
My heart is full
My heart is wide
The saddest songs are played
On the strings of my heart

The heat is on its own
The roof seems so inviting
A vantage point is gained
To watch the children fighting

So lead me to the harbor
And float me on the waves
Sink me in the ocean
To sleep in a sailor's grace
To sleep in a sailor's grace

[Refrão]

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Poema - Botões em flor


"Na primavera, o mundo desperta,
Cores dançam ao vento, a natureza oferta,
Um poema sem rédeas, livre e aberto,
Cada verso é um brotar, um alento.

Os campos enfeitam-se de flores em festa,
E o sol, generoso, aquece a floresta,
Em cada brisa, segredos sussurrados,
Ecos de vida, em todos os lados.

As aves tecem canções no ar,
Em harmonia com o pulsar do mar,
Neste poema livre, sem amarras,
A primavera revela as suas caras.

Entre risos de crianças e suspiros de amor,
A estação das flores espalha o seu fulgor,
E neste poema, a liberdade se faz lei,
Primavera, eterna musa, és tu, em cada rei."
João Soares. 23.04.2024

terça-feira, 23 de abril de 2024

Poema - Árvore naufraga

Mindelo

"Árvore naufraga quer ir ter com o mar,
Raízes cansadas de terra e chão,
Anseia pelo sal, pelo vasto, o sem par,
Navegar em ondas de pura emoção.

Os seus galhos, outrora altivos, agora clamam,
Por dançar com as brisas do oceano,
Sussurrar segredos que as marés inflamam,
E encontrar-se no horizonte, sem engano.

Despe-se das folhas, da rigidez terrestre,
Abraça a fluidez do azul infinito,
No balanço das águas, encontra o seu mestre,
Numa dança eterna, num ritmo bendito."

João Soares, 20.04.2024

terça-feira, 16 de abril de 2024

Luís Sepúlveda

Quarto-crescente - 14.04.2024
"E o meu irmão
sabe
muitas coisas.
Sabe, por exemplo,
que um grama de pólen
é como um grama de si mesmo,
docemente predestinado ao lodo germinal,
ao mistério daquilo que se erguerá vivo de ramos,
de frutos e de filhos, com a bela certeza das transformações,
do começo inevitável e do necessário final, porque o que é imutável
encerra o perigo do eterno, e só os deuses têm tempo para a eternidade."

Luís Sepúlveda

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Poema - Saga

Saga
"No vasto palco do céu,
Uma saga de nuvens se desenrola,
Como actores dançantes num teatro celestial.
Cada nuvem, um poema em movimento,
Sussurrando segredos aos ventos,
Carregando consigo o aroma da terra molhada.
O terreno abaixo, um tapete a esperar,
A limpeza purificadora do ar,
Onde cada partícula de pó é abraçada pela chuva.
Gotas de cristal, como mensageiras do céu,
Caindo num ritmo suave e constante,
Desenhando linhas de vida nos campos sedentos.
E o céu, muitas vezes de chumbo,
Um aviso solene da tempestade iminente,
Mas também um convite para a contemplação serena.
Nas margens dos rios e mares,
Onde a água se mistura com o horizonte,
A poesia encontra sua morada eterna.
Assim é a dança cósmica da natureza,
Uma sinfonia de elementos entrelaçados,
Que inspira os poetas a tecerem as suas palavras."
Poema e foto de João Soares - 09.04.2024