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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Desinformação climática evolui: da inteligência artificial ao 'greenlash'


Especialistas dizem que a desinformação sobre o clima está a evoluir, concentrando-se cada vez mais em desmontar políticas verdes. Em paralelo, cresce o conteúdo gerado por inteligência artificial.
De rebater afirmações de que os invernos frios não provam que o aquecimento global é falso às alegações de que o clima muda naturalmente e, por isso, a humanidade não tem culpa, os cientistas passaram décadas a demonstrar a existência de uma crise climática.

Mas especialistas afirmam que estes discursos de desinformação estão a evoluir e que passam cada vez mais por desacreditar as políticas ambientais e a ação climática, em vez de negarem frontalmente o aquecimento global.

“A era do negacionismo climático está praticamente encerrada”, diz Ned Mendez, responsável pela investigação e análise na agência de campanhas digitais 411, à equipa de verificação da Euronews, O Cubo. “A indústria da desinformação desceu um degrau. Já não discute se a luta contra o aquecimento global é real, mas se a resposta é exequível, se é justa e se compensa o custo.”

“Quando pensamos em desinformação, tendemos a associá-la à negação da existência das alterações climáticas ou da sua origem humana. O que vemos hoje, porém, é que esta já não é necessariamente a forma mais comum que o fenómeno assume”, diz Eva Morel, secretária da entidade francesa de vigilância da desinformação climática, Quota Climat.

Este fenómeno insere‑se no contexto político mais vasto do “greenlash” - junção de “green” e “backlash” - que descreve a crescente resistência política à ação climática.

Apesar disso, a desinformação climática continua fortemente condicionada pela atualidade, explica Morel, moldada pelo debate político, pela publicação de documentos de política climática, por grandes encontros internacionais como as COP ou cimeiras europeias, bem como por fenómenos extremos como ondas de calor, cheias e incêndios florestais.

Estas narrativas não se limitam às redes sociais. Embora exista um consenso entre os dirigentes europeus de que as alterações climáticas são reais e exigem resposta, a negação continua presente no espaço político.

Na Alemanha, por exemplo, o partido de extrema‑direita Alternativa para a Alemanha (AfD) pôs em causa o consenso científico de que as alterações climáticas têm origem humana. Há também quem repita declarações do presidente norte‑americano, Donald Trump, que descreveu reiteradamente as alterações climáticas como uma “fraude” e atacou os governos europeus pelas políticas de ação climática, que apelidou de “green new scam”.

Ondas de calor alimentam desinformação
Mesmo assim, falsas alegações sobre a natureza das alterações climáticas continuam a surgir, a par da desinformação sobre as políticas climáticas.

Em junho, a onda de calor recorde na Europa desencadeou uma vaga de desinformação, incluindo publicações virais nas redes sociais que alegavam que as temperaturas elevadas não eram invulgares. Sustentavam que se alinhavam com picos de temperatura anteriores, citando ondas de calor ocorridas em Londres na década de 1970.

Climatologistas afirmam que estas alegações, além de enganadoras, aumentaram a hostilidade e o assédio de que estes cientistas são alvo, com muitos utilizadores online a culpá‑los pelo fracasso da ação climática.

“As pessoas argumentam que, no fundo, os [cientistas do clima] foram demasiado alarmistas, pouco pedagógicos, apontaram para soluções erradas e tomaram decisões erradas e que, por isso, a culpa é deles”, afirma Morel. “A responsabilidade é colocada sobre os especialistas.”

Estas narrativas falsas sobre a mais recente onda de calor europeia não são casos isolados. Quando, em outubro de 2024, o leste de Espanha recebeu em poucos dias a quantidade de chuva equivalente a um ano inteiro, a desinformação sobre um dos desastres naturais mais mortíferos da história do país, que tirou a vida a mais de 230 pessoas, ganhou grande força.

As alegações falsas incluíam acusações de que barragens tinham sido deliberadamente desmanteladas para agravar as cheias, bem como de que a estratégia de biodiversidade da União Europeia e a política de renaturalização dos rios estavam na origem do desastre.

Responsáveis políticos do partido espanhol de extrema‑direita Vox, que contesta a realidade das alterações climáticas, estiveram entre os principais difusores destas alegações.

Uma profunda desconfiança em relação às instituições alimentou estas narrativas, segundo Mendez. “Se alguém está predisposto a desconfiar de uma instituição, mesmo que ela forneça conselhos climáticos úteis, por exemplo, avisar que o nível da água será elevado às 16 horas, pode pensar: estão a inventar isto para provar uma tese.”

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