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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Imbecil , mentiroso e preconceituoso. "Há portugueses que não gostam de trabalhar" - Como disse, Miguel Sousa Tavares?


Se a sua mãe ouvisse estas generalizações simplistas sobre os que menos têm, daria voltas na tumba. Sophia passou a vida a escrever sobre a justiça, a liberdade e a dignidade dos esquecidos, apenas para ver o próprio filho assinar por baixo discursos que estigmatizam quem, infelizmente, tem que recorrer a apoios sociais para sobreviver.

A declaração de Miguel Sousa Tavares não encontra sustentação nos dados estatísticos e estudos oficiais em Portugal. A premissa de que os beneficiários de apoios sociais "não gostam de trabalhar" ou preferem "encostar-se aos subsídios" é contrariada pelas regras do próprio sistema e pelo perfil real de quem recebe estas prestações.

Em primeiro lugar, o Rendimento Social de Inserção (RSI), que costuma ser o principal alvo destas críticas, exige por lei a assinatura de um Contrato de Inserção. Isto significa que qualquer beneficiário apto para trabalhar é obrigado a estar inscrito no Centro de Emprego, a aceitar formação e a responder a ofertas de trabalho adequadas, sob pena de perder o subsídio imediatamente. Além disso, o valor médio mensal desta prestação ronda os 150 a 160 euros por pessoa, um montante de extrema pobreza que fica substancialmente abaixo do salário mínimo nacional, eliminando qualquer incentivo financeiro para a inatividade voluntária.

O perfil demográfico dos beneficiários também desmistifica esta ideia de dependência por preguiça, uma vez que uma fatia muito expressiva destas prestações se destina a crianças, jovens, idosos sem outras reformas ou pessoas com graves incapacidades e problemas de saúde crónicos. No que toca ao argumento de que os subsídios quebram os hábitos de vida em sociedade e criam dependências geracionais, estudos de longo prazo realizados pelo PLANAPP (Centro de Competências de Planeamento do Estado) revelam o oposto: cerca de 80% das crianças que cresceram em agregados familiares dependentes do RSI conseguem, ao atingir a idade adulta, integrar-se com sucesso no mercado de trabalho, deixando de necessitar do apoio estatal.

Por fim, no caso do subsídio de desemprego, importa recordar que se trata de um direito contributivo - ou seja, o trabalhador descontou previamente para a Segurança Social para ter acesso a ele - e que o apoio tem prazos estritos de validade e valores decrescentes no tempo, desenhados precisamente para empurrar o cidadão de volta ao ativo. Assim sendo, embora possam existir casos pontuais e residuais de abuso, as estatísticas demonstram que a esmagadora maioria dos portugueses recorre aos subsídios por motivos de desemprego involuntário, doença ou exclusão social severa, e não por falta de vontade de trabalhar.
Fontes:
1. Saiba tudo sobre o RSI - um apoio essencial para famílias a viver em extrema pobreza 

Outra falácia e paradoxo do Miguel Sousa Tavares no seu podcast.
A expressão "postos de trabalho que os portugueses não pretendem ocupar" descreve um fenómeno económico real, mas que é frequentemente mal interpretado como preguiça ou desinteresse por parte da população local. Na verdade, este desencontro deve-se a um desajuste estrutural entre as condições oferecidas por certas indústrias e a realidade do custo de vida em Portugal.

O principal fator é a barreira dos salários baixos. Setores como a agricultura intensiva, a construção civil, as limpezas e o turismo operam maioritariamente com base no salário mínimo ou em valores muito próximos dele. Com a crise imobiliária e a escalada da inflação, torna-se financeiramente impossível para um trabalhador nacional aceitar um emprego na hotelaria ou na restauração em grandes centros urbanos ou zonas turísticas, uma vez que o ordenado não cobre sequer o custo de um quarto ou de uma casa. Muitos imigrantes acabam por ocupar estas vagas porque, devido à vulnerabilidade à chegada, aceitam condições de extrema sobrelotação habitacional para dividir despesas, algo que os residentes locais não conseguem ou não aceitam replicar.

A par da questão financeira, a penosidade e a rigidez das condições de trabalho desempenham um papel crucial. Funções na agricultura sob estufas exigem um esforço físico extremo sob temperaturas severas, enquanto a restauração e o alojamento impõem horários repartidos, folgas rotativas e uma forte pressão psicológica que inviabiliza a conciliação com a vida familiar.

Por fim, o país vive uma dinâmica de vasos comunicantes no mercado laboral. Ao mesmo tempo que Portugal atrai mão de obra estrangeira para preencher estas funções operacionais e de baixo valor acrescentado, perde continuamente os seus jovens qualificados para o resto da Europa. Um jovem português prefere emigrar para a Europa Central ou do Norte, onde o mesmo nível de escolaridade garante um poder de compra e uma qualidade de vida substancialmente superiores. Portanto, a dependência de trabalhadores estrangeiros não resulta de uma recusa cultural ao trabalho, mas sim de um modelo económico assente em setores que só conseguem sobreviver recorrendo a uma força de trabalho externa disposta a aceitar salários e ritmos que os nacionais já não validam.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Obrigado, Bangladesh

"À saída de uma vila alentejana dou com um dos muitos cartazes que o Chega e o seu chefe, André Ventura, espalharam por Portugal inteiro: “O Alentejo não é o Bangladesh.” Pois não, não é: o Bangladesh não precisa de importar alentejanos para conseguir sustentar a sua agricultura, para fazer as sementeiras e as colheitas, para apanhar a azeitona e a amêndoa. Tivesse o Bangladesh uma barragem como a do Alqueva  - “Construam-me, porra!” (a tal que ia dar trabalho a todos os alentejanos e tornar prósperos os seus agricultores) - e hoje não haveria ninguém a trabalhar no regadio do Alqueva nem a tornar próspera a sua agricultura. Mas, felizmente para os alentejanos, os “violadores, assaltantes e bandidos” com que, segundo Ventura, o “socialismo” e os “partidos de esquerda” encheram o país nos últimos anos, vindos de África, do Bangladesh ou do Brasil, não se importam de fazer o trabalho duro nos campos que a maioria dos alentejanos já não quer fazer. E, mesmo dormindo em barracões ou contentores, ou em casas onde cabem 30 no lugar de três e pagando aos senhorios alentejanos por 30 e não por três, essa gente estranha que o socialismo importou continua a trabalhar, recebendo o ordenado mínimo e vivendo em condições de indignidade. Ou mesmo fazendo trabalho forçado e semiescravo nos campos alentejanos, vigiados e ameaçados por guardas da GNR, em regime de supranumerário e ao serviço de “empresários” agrícolas apoiados por dinheiros europeus e que, tal como André Ventura, vão à missa todos os domingos e são contra o acordo com o Mercosul, porque, dizem, os do Mercosul podem vender mais barato porque não têm as preocupações sociais deles. Obrigado, Bangladesh!

Numa praça de uma aldeia algarvia entro num café cujo interior está submergido por uma intensa vozea­ria, digna de um souk árabe. Mas não - sossega, Ventura -, não são árabes, são algarvias, e esta é a sua ocupação diária: tagarelar e jogar à raspadinha. O dia inteiro, porque não há nada de necessário para fazer que os imigrantes não façam: eles trabalham e os algarvios votam no Chega - ao que parece porque temem que eles venham substituí-los e com isso fazer submergir esta nossa exaltante civilização judaico-cristã. Na mesa em frente da minha estão três mulheres em desabrida gritaria, às quais se vem juntar também uma empregada da casa. E ali estaciona à conversa, até que alguém lhe grita do balcão: “Ó Mena, anda trabalhar que há clientes à espera!” Aí, a provável votante do Chega vira-se, furibunda: “Eles que esperem, não vês que estou na conversa? Era o que faltava!” Por um momento imagino a mesma cena protagonizada por um empregado ou empregada que fizesse parte do rol dos assaltantes, violadores ou bandidos de que fala Ventura - devia ser bonito! Porque o Algarve - que vive quase exclusivamente da prestação de serviços aos turistas - dá-se ao luxo de votar no partido que quer expulsar os que prestam esses serviços e sem os quais todo o Algarve colapsaria em dois tempos. Porque os africanos, brasileiros, asiáticos, essa ralé de assaltantes e violadores, além de servirem nos hotéis, nos restaurantes e nos campos de golfe, também estão na construção civil, ajudando a construir os hotéis, vivendas e aldea­mentos onde os turistas dormem, servidos pelos imigrantes. Obrigado, Bangladesh!

Em Lisboa vou a um lar da terceira idade - por razões pessoais e não em campanha eleitoral. Ali, onde uma sociedade sem tempo para os pais nem espaço para a velhice entrega os seus velhos a guardar, não há um só, uma só trabalhadora portuguesa: uma só! São todas africanas e, sobretudo, brasileiras - que, com o seu feitio de ternura inata, substituem-se aos filhos ausentes, tratando os utentes por “minha querida”, “meu amor”. Suponho que sem estes imigrantes os nossos pais e avós estariam abandonados em casa ou ao frio nos jardins públicos, servindo de cenário para as reportagens televisivas sobre os reformados. Obrigado, Bangladesh!

Aliás, apesar de todas as lamentações, se muitos portugueses ainda recebem pensões de reforma, e actualizadas anualmente acima do valor da inflação, devem-no às contribuições dos imigrantes que cá trabalham para a Segurança Social, permitindo inverter o que parecia vir a ser um caminho sem retrocesso em direcção à insustentabilidade financeira. Em Espanha, o Governo socialista acaba de avançar para a legalização extraordinária de meio milhão destes imigrantes, desde que não tenham antecedentes criminais; em Portugal, André Ventura pretende expulsá-los todos ou, não o conseguindo, obrigá-los a pagar contribuições e impostos durante cinco anos antes de poderem ter acesso a quaisquer benefícios: um esbulho cristão. Perdoa-lhes, Bangladesh!

Ainda em Lisboa, como tantos de nós tantas vezes para não ter de sair para almoçar, chamo a Uber Eats, e lá aparece um indiano, paquistanês ou bengali escorrendo água da chuva e sem tempo a perder para tirar o capacete. Imagino-o à noite, no seu barracão atulhado de outros “assaltantes” como ele, longe do seu país, da sua aldeia, da sua mulher, dos seus filhos, dos seus pais — como outrora os nossos emigrantes na Alemanha ou em França, cujos descendentes hoje votam à distância no Chega. Imagino-o na sua solidão diária, contando os dias e os anos até que uma lei desumana lhe permita o reagrupamento familiar, e sem que nenhum de nós, a quem eles tanto servem, se detenha a pensar como viverão estes homens na flor da idade e privados de tudo — estes “violadores”, como assegura o Dr. Ventura -, mas de cujas violações, assaltos e bandidagem não temos notícia. Obrigado, Bangladesh!

O Dr. André Ventura, licenciado em Direito e candidato à Presidência da República, também está em guerra contra o comportamento deste “jornalismo”, que, tal como “os partidos de esquerda” e o “socialismo que mata”, desvaloriza “tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal”. O Papa Francisco, um homem que os cristãos e os não cristãos respeitavam, disse em tempos que o que matava era “este capitalismo”, e não o socialismo. Mas é sabido que Ventura não gostava do Papa Francisco, achava-o nada menos do que “um anti-Cristo”. Bem vistas as coisas, Ventura não é cristão, é católico português, coisa bem diferente. “Este jornalismo”, de que Ventura não gosta, é aquele que revela os números e as verdades que contrariam as suas teses sobre os imigrantes: que são eles que respondem pelos lucros da Segurança Social e, graças a isso, a contenção do défice público; que são eles que asseguram uma taxa de natalidade positiva; que são eles que garantem a viabilidade económica da agricultura, da construção civil, do turismo, das pescas; que são eles que limpam as ruas das nossas cidades, que nos trazem comida ou remédios a casa, que tomam conta por nós dos nossos pais e avós, que constroem as pontes, as estradas, as vias férreas e as Expo com que o país se quer mostrar modernizado - e, ao contrário do que queria Ventura, a taxa de criminalidade entre os imigrantes é irrelevante. O que Ventura não suporta é que o jornalismo recorde isso aos portugueses, que vá ouvir os empresários que reclamam mais imigrantes e não menos, que desfaça a tese insultuosa de Ventura de que os imigrantes vivem de subsídios. O que não suporta é que o jornalismo demonstre que é ele que vive de mentiras, chegando ao ponto de inventar, em directo na RTP, uma “notícia do dia” sobre um cigano que teria entrado aos tiros numa escola, “disparando para o ar sobre as crianças” (?) - e que era absolutamente falsa, como tantas outras que ele e o seu partido divulgam sem sombra de pudor. E não gosta que o jornalismo conte que há elementos do Chega entre os grupúsculos neo­nazis de camisas pretas que querem derrubar a democracia - a que Ventura prefere chamar o “sistema”.

“Deus, pátria, família e trabalho”, eis o credo de André Ventura, “o candidato do povo” contra o sistema. Soa familiar e é familiar. Pobre povo se algum dia voltar a querer viver em ditadura, às mãos de quem quer pôr isto na ordem! Logo verá o chefe dizer-lhe que se ocupe da família e do trabalho, que de Deus e da pátria ocupa-se ele. E assim viveremos mais 50 anos felizes, como as nações sem história.

Minha análise
Janala (janela), chabi (chave), balti (balde), almari (armário), baranda (varanda) ou saban (sabão) são apenas alguns dos vocábulos semelhantes entre o português e o bengali. Foi no século XVI, em plena época dos Descobrimentos, que os portugueses chegaram ao território de Bengala, atracando no porto de Chittagong. Por ali permaneceram e deixaram vestígios, não só na língua, mas também na arquitetura e na culinária. Aliás, o primeiro homem a escrever uma gramática bengali foi frade agostinho Manoel de Assumpção, já no século XVII. A obra, intitulada ‘Vocabulario em idioma Bengalla e Portuguez”, foi publicada em 1743.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A peste negra


Vai-me custar muito não voltar a ver Nova Iorque, o Inverno em Nova Iorque, o Thanks Giving, a árvore de Natal do Rockefeller Center, o Calatrava no Ground Zero, as iluminações e as montras de Natal na 5ª Avenida, os almoços na varanda interior da Central Station, os jantares no Village, ou a Frick Collection, um museu à dimensão de que eu gosto. Mas é assim a vida, estou velho para visitar ditaduras ou ver apodrecer por dentro a civilização em que fui baptizado, não me apetece ser recebido numa fronteira de aeroporto por um polícia de fuzil de guerra apontado, como se turista fosse igual a terrorista, e menos ainda acabar deportado para El Salvador ou Guantánamo, onde podem acabar todos os estrangeiros ilegais ou desalinhados com a loucura MAGA. Trump acaba de declarar os antifascistas terroristas e tornou claro, no funeral de Charlie Kirk, que, “ao contrário dele, eu odeio os meus adversários”. J. D. Vance, esse crânio da intelectualidade de direita, convidou os empregadores, os colegas e os vizinhos a denuncia­rem esses antipatriotas, para que o FBI e o desemprego se ocupem deles. O Supremo Tribunal Federal cauciona o despedimento de funcionários públicos por estritas razões políticas e inventou a teoria de que a Justiça não pode, invocando o desrespeito pela Constituição, contrariar o programa político de um Presidente eleito — o que significa o fim da separação de poderes, a morte da Justiça e a inutilidade da Constituição. Tudo substituído por uma ditadura unipessoal de um ser, talvez humano, mas doentiamente perturbado, que fez das suas características conhecidas — soberba, ganância material e crueldade — todo um programa político para consumo interno e exportação planetária. A História já viu semelhante e não foi assim há tanto tempo.

Em tempos normais, num mundo regulado pelos valores em que fomos educados, era impensável o que está a acontecer à América. E também era impensável ver a Europa ser humilhada sistematicamente, com o discurso ofensivo de J. D. Vance em Munique, a Dinamarca a ser ameaçada com uma invasão da Gronelândia, Von der Leyen a ser destratada nos domínios escoceses de Trump e depois a assinar a capitulação total da Europa na guerra comercial desencadeada por ele (o descaramento com que o homem nos manda comprar armas e petróleo aos seus amigos americanos em troca de nada) — e, no fim de tudo isto, ver os nossos líderes a rastejar aos pés do “aliado” americano. Zelensky, humilhado em directo por Trump e o seu acólito presidencial, engoliu tudo e respondeu com elogios, súplicas e agradecimentos; Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, encaixou a suprema vergonha de ver Trump revelar o conteúdo de uma missiva privada onde o elogiava ao melhor estilo dos subordinados de Estaline; ou o “grupo das boas vontades”, ou lá como se chama, ostensivamente ignorado por Trump nos seus diálogos com Putin, ir em excursão a Washington pedir para serem escutados sobre a guerra na Europa.

Mas a maior humilhação auto-infligida por alguma nação europeia aos pés do ditador americano foi, para mim, a recepção que a Corte e o Governo inglês reservaram ao rei Donald. Duvido que em vida de Isabel II tivesse sido possível assistir aos dois dias em que a velha Inglaterra, pátria da democracia e dos direitos do Homem, se ajoelhou, com pompa nunca antes vista, perante o homem que está a matar a democracia americana e a exportar para o mundo inteiro uma peste negra que aqui costuma ter o nome de fascismo. A Inglaterra que, após sucessivos desastres na escolha de um PM capaz — incluindo o actual Keir Starmer, uma espécie de amiga política —, se prepara para ver chegar ao poder Nigel Farage, o amigo e admirador de Trump, a quem os ingleses devem a saída da União Europeia. E mesmo este ‘aristo-fascista’ é desafiado ainda mais à direita por um ‘hooligan-fascista’, Tommy Robinson, capaz de levar 100 mil pessoas a manifestarem-se contra os imigrantes na cidade de Londres, que Trump descreveu como “irreconhecível” (apesar de cautelosamente a ter evitado na sua visita real). Desgraçadamente, os líderes europeus, que parecem entusiasmados com a eventualidade de uma guerra com a Rússia e que se dão ao luxo de desprezar a China, ainda não perceberam que o maior inimigo da Europa actualmente são os Estados Unidos da América de Donald Trump e J. D. Vance. E o perigo não é apenas a chantagem a que Trump submete a Europa a vários níveis: é o contágio, cada vez mais amplo, que aqui encontra a sua pregação, assente na prevalência dos interesses dos brancos, ricos e poderosos. Quanto mais tempo a Europa demorar a preparar-se para enfrentar o verdadeiro perigo — no comércio, na energia, na ciência, no clima, nos oceanos, na cultura e na ideologia — mais irreversível será a caminhada para o desaparecimento do mundo e do modo de vida em que fomos criados e educados.

A receita de Trump para a liquidação das democracias e do Estado de Direito é hoje uma espécie de manual de conduta de toda a extrema-direita mundial: dos nostálgicos do fascismo ou do nazismo, dos que gostam de ser mandados por “homens fortes”, ou dos que simplesmente não têm nada mais em que acreditar nem descortinam outro canto mais adequado onde se abrigarem. Todos acreditam na expulsão dos imigrantes das suas terras como solução única para a economia e a sociedade, todos consideram a esquerda como um inimigo a exterminar, todos já decidiram que os políticos das democracias são corruptos sem remissão, todos assimilam as “verdades” prontas-a-vestir que lhes servem e que os dispensam de uma alternativa que lhes daria muito mais trabalho: cultivar-se, informar-se, ouvir os outros (não é por acaso que só 12% dos votantes do Chega têm estudos superiores e 56% não concluíram o ensino secundário). E, consequentemente, todos dispensam o trabalho de procurar a verdade, assim como pouco lhes importam as mentiras constantes dos seus profetas, por mais obtusas que sejam (como as mais de 1500 viagens presidenciais de Marcelo, contabilizadas por André Ventura).

Alguns espíritos mais compreensivos ou modernos sustentam que a responsabilidade por esta onda galopante do populismo de extrema-direita é da esquerda e dos erros da esquerda. Sem dúvida que a esquerda cometeu e continua a cometer erros imperdoáveis, como a suprema imbecilidade do movimento woke, a defesa da autoflagelação histórica das nações com História ou as propostas económicas congeladas na análise marxista de há 150 anos. Mas nada disso seria suficiente para derrubar as democracias. O que derruba as democracias é a sua fragilidade natural — e a esquerda não é responsável por isso. A democracia é o mais frágil dos sistemas políticos, porque exige informação, formação, cultura, debate e capacidade de ouvir e dar razão ao outro, alternância de poder. E, sobretudo isto, um grande consenso social acerca da crença nestes valores e o amor à liberdade como valor primeiro. Mas assim como não é certo que o homem seja por natureza um animal bom, também não é certo que ele aspire por natureza a ser livre. A peste negra explora em proveito próprio o pior do ser humano, individual e socialmente considerado. A missão daqueles que querem continuar a ser livres é fazer-lhe frente. Nada mais.

"A peste negra" - Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 25/09/2025

domingo, 10 de agosto de 2025

Vergonha


Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 07/08/2025

Numa jogada de mau gosto, o Hamas decidiu publicar fotografias de dois reféns israelitas em seu poder, famélicos e abatidos, acompanhadas da legenda “eles comem o mesmo que nós”, numa referência à estratégia de fome adoptada pelo Governo de Israel em Gaza. Netanyahu, como era de esperar, saltou logo sobre a oportunidade, acusando o Hamas de barbárie e anunciando a total ocupação de Gaza: esperava, talvez, que a fome que ele inflige a três milhões de pessoas (proibindo-as inclusivamente de pescar no seu mar!) não afectasse a alimentação dos reféns israelitas. E, em Bruxelas, Kaja Kallas, a responsável pela política externa da UE e que jamais teve uma palavra a condenar o genocídio em Gaza, acompanhou Netanyahu na sua indignação e exigiu a imediata libertação dos reféns, sem pedir nada em troca da parte de Israel. Num momento em que finalmente se levantam vozes dentro de Israel a condenar a ofensiva em Gaza — vozes de antigos chefes militares e de segurança, de organizações humanitárias ou do escritor David Grossman, falando também em genocídio —, a UE, enquanto organização, continua a fingir que não estamos a assistir em Gaza à mais sinistra limpeza étnica levada a cabo por um Governo dito democrático. Mas, como disse Yuli Novak, da organização israelita B’Tselem, “isto não poderia acontecer sem o apoio do mundo ocidental”.

Dentro da UE e escudado na sua inércia, Portugal tem sido um caso notável de hipocrisia e cobardia. Eu chego a ter vontade de rir ao assistir aos contorcionismos explicativos do ministro Paulo Rangel para tentar não ter posição sobre o assunto, fingindo que a tem, numa patética estratégia de “agarrem-nos senão reconhecemos o Estado da Palestina”. Primeiro, confiante na inércia de toda a União, Rangel afirmava que o reconhecimento, a existir, deveria ser uma decisão conjunta dos 27. Os reconhecimentos unilaterais feitos por Espanha e Irlanda não o abalaram, mas ficou claramente sem chão quando Macron anunciou que a França ia reconhecer o Estado palestiniano e a Inglaterra fez o mesmo. Aí, Rangel fez uma inolvidável intervenção na ONU, em que garantiu à assembleia mundial que Portugal tinha detectado uma alteração histórica na posição palestiniana, a qual abria caminho a um possível reconhecimento. Em suma, enquanto o PM inglês colocava exigências a Israel sob a ameaça de reconhecer a Palestina independente, o nosso ministro partia do princípio oposto para sustentar, sem se desmanchar, que a Autoridade Palestiniana aceitara as exigências de Luís Montenegro para poder ser reconhecida por Portugal como Estado. Note-se: a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia e não o Hamas em Gaza. Entre essas exigências de Montenegro, Rangel destacou a reforma das instituições palestinianas e a realização de eleições: patéticas demandas para quem acabava de regressar de uma cimeira da inútil CPLP realizada na Guiné-Bissau — um país cujo Presidente amordaçou a democracia no seu país e governa sem ir a eleições — e antes de a chefia da mesma CPLP ser transmitida à Guiné Equatorial — onde jamais houve eleições e persiste há décadas uma ditadura familiar, brutal e corrupta como nenhuma outra. Sim, Portugal é hoje um exemplo eloquente da podridão moral em que vegeta a União Europeia, governada por políticos sem respeito pelo passado e pelos valores europeus.

Esta União Europeia envergonha hoje qualquer europeu que antes se orgulhava de pertencer a um espaço político onde a ética e a coerência de princípios contavam. Na cimeira da NATO, a União, com a honrosa excepção da Espanha, ajoelhou-se aos pés de Trump, aceitando gastar 5% do PIB em armas — e americanas, de preferência. Fica como símbolo dessa capitulação o português Luís Montenegro tentando dar “uma palavrinha” particular a Trump, dizendo-lhe que éramos velhos amigos dos Estados Unidos e sugerindo alguma misericórdia para connosco na rajada das tarifas, e o português António Costa, presidente do Conselho Europeu, acalmando as indignações surdas com a previsão de que o que a União cedera nas armas pouparia nas tarifas.

Viu-se. Na Escócia, Ursula von der Leyen começou por ser ainda mais humilhada por Trump do que o fora por Erdogan. Na Turquia, não tinha cadeira para se sentar, no clube de golfe privado de Donald Trump, na Escócia, para onde foi convocada, teve uma cadeira para se sentar enquanto esperava longamente que o Presidente americano acabasse um jogo de golfe com o filho e tivesse disponibilidade para a receber. Assim tratada como serventuária — ela e a Europa que representa —, não admira que depois tivesse sido sujeita a uma capitulação total e humilhante pelo abusador profissional americano. Von der Leyen aceitou um aumento das tarifas sobre as exportações europeias para os Estados Unidos de 15%, quase mil vezes o que vigorava e em troca de tarifas de 0% para as exportações americanas dirigidas à Europa. Desistiu de taxar as tecnológicas americanas ou de minimamente controlar os seus abusos. Aceitou comprar 750 mil milhões de dólares de energia aos Estados Unidos, assim interrompendo a estratégia de descarbonização em que a UE estava a ser pioneira e substituindo-a por uma total dependência energética de um só país — muito para lá daquilo que se criticava aos países europeus que compravam energia à Rússia. Agora, os EUA passam a determinar a política energética da Europa, aumentam livremente os preços, e Trump e os seus amigos do petróleo, negacionistas das alterações climáticas, encontram um mercado garantido à medida das suas ambições. Mas a senhora foi ainda mais longe, comprometendo-se a investir 600 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e a gastar em armas americanas o grosso do investimento a ser levado a cabo para atingir os tais 5% do PIB em armamento. Se tudo isto fosse exequível e executado, acabava a Europa que conhecemos: livre, próspera, orgulhosa do seu sistema social. Mas, mesmo sem o podermos ainda dizer, Von der Leyen, que já enxovalhara a União e os valores europeus com o seu silêncio cúmplice perante o genocídio em Gaza, rematou agora a sua prestação prostrando-se aos pé de um fora-da-lei internacional e dando-lhe tudo o que ele queria, na esperança de o conseguir apaziguar. Mas até nisso esta funesta alemã que nos calhou em sorte está errada: quando se cede uma vez perante a intimidação e a chantagem, está escrito que se terá de ceder mais vezes. Trump é um vampiro que precisa de se alimentar todos os dias do sangue dos fracos, dos indefesos, dos que se ajoelham e dos que ele inveja.

Os tempos vão maus e mesmo incompreensíveis para quem gostaria de se orgulhar de ser português e europeu. Resta-nos ter vergonha: pode ser que eles reparem.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Impeachment ao Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa! Demita-se!


Bom, ele a mim nunca me enganou. Os meus sentimentos aos burlados. Está a mais no cargo!

Marcelo não me representa mais: não é cata-vento. Está ao nível do Chega. É racista, salazarento, incita o ódio. Está um arrivista! Escolheu a dedo o energúmeno, extremista de direita e esquizóide João Miguel Tavares para discurso do dia 10 de Junho. Não me esqueci!!

Marcelo está a passos largos de ser o pior Presidente da República que já tivemos. Ultrapassou Cavaco Silva!

Somos 9 milhões de democratas! Estamos na véspera do 25 de Abril. Está na altura de nos impormos e mobilizarmo-nos para o impeachment a Marcelo Rebelo de Sousa.

Em Portugal, a destituição teria início por proposta de um quinto dos deputados da Assembleia da República, sendo necessária uma maioria qualificada de dois terços – a mesma que permite a revisão constitucional – para o processo ser julgado no STJ. Só após a condenação do Chefe de Estado por crime de responsabilidade, cometido no exercício das funções, ter transitado em julgado, caberia ao juiz-presidente do STJ enviar a certidão da decisão condenatória para o Tribunal Constitucional. Este reuniria em sessão plenária no dia seguinte e, verificada a autenticidade da certidão, declararia o Presidente da República destituído.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Pacheco Pereira - Tanta verdade junta mereceu publicação


Não resisti a não publicar o vídeo do programa de Miguel Sousa Tavares, a 5ª Coluna, exibido em 07/03/2024. Nem sempre concordo com o MST mas, desta vez, todos os assuntos tratados são de uma atualidade candente e foram abordados contra a corrente das ladaínhas dos jornaleiros serventes das narrativas do poder dominante.

O primeiro assunto é do âmbito da política nacional e tem a ver a queda do governo de António Costa. Em véspera das eleições de dia 10, ainda o Ministério Público não informou os portugueses sobre o que de errado fez o ex-primeiro ministro, de que é acusado, que indícios existem contra ele, etc. Aliás, a revista Visão publicou, também nessa data, um artigo em que revela que o próprio Ministério Público não tem indicios de crime, nos dois casos que levaram às buscas que deram origem ao comunicado que fez cair o Governo:

“Ao fim de quatro anos de investigação e milhares de escutas telefónicas, o Ministério Público (MP) admitiu não ter a certeza de que foram praticados crimes nos casos do lítio e do hidrogénio, assim como noutras situações que envolvem antigos ministros, como João Galamba e João Matos Fernandes. Quando separaram as investigações por processos autónomos, os procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) assumiram estar ainda por “comprovar a existência de indícios da própria ocorrência de crime” naquelas duas situações, o que carecerá de análise necessariamente mais demorada”, acrescentaram”. (Visão, 07/03/2024).

MST pergunta, e eu também pergunto: como pode a justiça fazer cair um governo sem ter nada de sólido e concreto para acusar o chefe e outros membros do governo?! Um golpe de estado para levar o Chega e companhia ao poder? Quem sabe.

O segundo assunto é o horror dos crimes que Israel está a cometer na faixa de Gaza, nomeadamente contra crianças. MST compara, sem pejo, os crimes de Israel aos crimes dos nazis contra os judeus nos campos de concentração e no gueto de Varsóvia.

O terceiro assunto é sobre a guerra na Ucrânia e sobre as loucas decisões belicistas dos líderes europeus, com Macron à frente, que querem aumentar as despesas com armamento à custa do definhamento do estado social, e que ainda sonham com a possibilidade de derrotar a Rússia e sacarem-lhe os seus vastos recursos. Ora, qualquer mentecapto sabe que atacar a Rússia equivale a desencadear a III Guerra Mundial, mas é para esse cenário de morte e destruição do planeta que os líderes europeus nos estão a conduzir.

Por tudo isto, vejam o vídeo. MST das poucas vozes que ainda vai tendo espaço, na comunicação social de larga audiência, para expressar, de quando em quando, algum ruído nas narrativas dominantes que nos servem diariamente, em catadupa, por vezes quase até ao vómito.

Podem ver o vídeo aqui.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Miguel Sousa Tavares - A vontade do povo: 100 anos de regressão



"(...) O resultado mais notável deste suicídio, o expoente maior deste miserável mundo novo, está à vista de todos: chama-se Donald J. Trump e, para desgraça de todos nós, está à frente da nação mais poderosa do mundo e está sentado em cima de um arsenal de armas capazes de destruir várias vezes o planeta e cuja guarda deveria estar estritamente confiada não só a alguém mentalmente são mas também moralmente decente. Mas Donald Trump não só não preenche nenhum desses dois requisitos como ultrapassa tudo o que os pesadelos mais sombrios se atreviam a imaginar: é provável que seja o ser mais destituído de qualidades humanas que a Humanidade já viu. É a verdadeira encarnação do mal absoluto, do mal sem contenção, nem escrúpulos, nem vergonha. É verdade que a Humanidade já experienciou outros — Hitler, Estaline, Pol Pot —, mas Trump só se distingue deles porque, apesar de tudo e por enquanto, tem a Constituição americana entre ele e os seus desejos mais profundos e porque chegou onde chegou porque foi votado por uma imensa legião, ainda que minoritária, de admiradores do seu estilo e da sua pessoa. E é justamente isso que é aterrorizador. Donald Trump é o resultado perfeito de uma experiência de alquimia social e política que juntou a manipulação e desinformação assumida das redes sociais à sem-vergonha de basear o sucesso de audiências televisivas no espectáculo degradante da canalhice humana. Sirvam-nos o espectáculo de um canalha em todo o seu esplendor, em part-time televisivo, e o povo vai adorar. E, em breve, não passará sem isso, e o canalha transforma-se num herói, o mal transforma-se em inveja e admiração por quem assume, sem dores de alma, que veio ao mundo para triunfar a qualquer preço, sem regras, sem limites éticos, sem dó nem piedade por quem tiver de espezinhar ao longo do caminho. Depois, apresente-se o canalha nas redes sociais como um verdadeiro líder, alguém de quem o país precisa para ser igualmente vencedor. E, no fim, para garantir a vitória, garanta-se o apoio do amigo Putin, que faz dos meios utilizados por Trump o seu objectivo final: desacreditar a superioridade moral das democracias e do Estado de direito.

Quatro anos passados, a mesma imprensa que começou por contemporizar e até aliar-se às redes sociais desgasta-se hoje em inúteis missões de fact-checking sobre elas, gritando para uma plateia surda que o homem já mentiu 3224 vezes desde que está na Casa Branca, que comprou com o dinheiro do pai a entrada em Harvard, ou que adquiriu um atestado médico para não ir para o Vietname, ou que, nos anos em que paga alguma coisa, paga 750 dólares de IRS, ou que tem dívidas a vencerem-se de 421 milhões de dólares de negócios no estrangeiro que o tornam, e à sua política externa, cativo dos credores.

Tudo em vão: a genialidade de Donald Trump, a razão do seu sucesso, não é o facto de tentar passar por um homem sério e um tipo decente e preo­cupado com os outros: é justamente o contrário, o facto de não ter vergonha alguma de ser aquilo que parece, de poder gabar-se de não pagar impostos porque é mais esperto do que os outros. Concedo que é um combate diferente e desigual: trata-se de enfrentar um adversário desprovido de vergonha própria. E um tipo desprovido de vergonha é difícil de enfrentar por gente decente. É coisa nunca vista, uma criatura amoral engendrada nas redes sociais e alimentada pelo pior da natureza humana, que elas cultivam e promovem. Para se consolar ou não ter de se arrepender, muitos justificam o triunfo deste canalha dizendo que metade da América é mesmo assim. E é verdade que é, metade é podre, metade é exuberante: é o único país do mundo capaz de votar tanto num Obama como num Trump. O problema é que o método sem-vergonha de Trump vem conquistando adeptos, devotos e admiradores em todo o mundo, desde o Brasil até Portugal. No “Observador”, suposto fórum da direita inteligente de Portugal, 90% dos comentários dos leitores à notícia das poucas-vergonhas fiscais de Trump eram de apoio a elas. Ou porque a notícia vinha de um jornal “esquerdista” como o “New York Times”, ou porque tínhamos cá igual ou pior do que ele (o que, automaticamente, o absolvia), ou porque não interessava se ele pagava ou não impostos, porque era um grande Presidente, o único capaz de enfrentar a “escumalha socialista”. Bem-vindos ao admirável mundo novo, numa rede social perto de si! Este é um novo tipo de adversários das democracias, este é o chão onde eles nascem e se alimentam, através de um cavalo de Tróia vindo para as destruir, ao alcance de um clique do seu computador.

Dos muitos comentários que li e ouvi sobre o debate em que um carroceiro enfrentou um cavalheiro (gasto e triste, é certo), um foi de uma jornalista da CNN: Trump não estava ali apenas para degradar o debate e torná-lo impossível — estava ali para degradar a própria ideia de democracia. Por isso é que se recusa antecipadamente a aceitar os resultados de 3 de Novembro, se não for ele o vencedor. E di-lo tranquilamente, sem pudor nem escrúpulos de pegar fogo à América, se tal for necessário. A América é ele, tudo o resto é um embaraço constitucional, em vias de ser resolvido. Incapaz de vencer e convencer, Nero pegou fogo a Roma e ficou a assistir da varanda do seu palácio. Trump fará o mesmo: pegará fogo aos Estados Unidos, se não conseguir ganhar a eleição. Mas se, como eu temo, conseguir um segundo mandato, então, sem necessidade de se conter um mínimo a pensar na reeleição, a América e o mundo terão de se preparar para enfrentar mais quatro anos de terror, com um louco narcísico e vingativo à solta, sem pudor em trair os aliados e aliar-se aos ditadores e com um Partido Republicano de alma vendida ao diabo e uma sólida maioria de apoiantes seus, e por ele nomeados, no Supremo Tribunal Federal e em todas as outras esferas de contrapoder. Será uma América irreconhecível e um mundo de respiração suspensa.

Porém, seja qual for o desfecho, o seu veneno já está espalhado pelo mundo. E não será o politicamente correcto a travá-lo nem os extremismos e populismos de sinal oposto, mas sim o regresso ao essencial: o amor à liberdade. Com tudo o que isso significa."

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Queremos mesmo sobreviver à pandemia?

Se há um tempo para pensarmos em sobreviver é este. Os europeus – porque sou europeu – devem reunir-se e agir e não é a senhora Lagarde, do BCE, nem os ministros das Finanças do Eurogrupo que podem ser os nossos timoneiros – devemos reunirmo-nos para impedir que sejam os nossos coveiros. A questão não são os bonds, nem empréstimos, nem dívida pública: são como regular a utilização de recursos e a sua distribuição.

Fonte: aqui

O vírus classificado como Covid-19 tem provocado milhares de mortes. Devastou o modelo de desenvolvimento neoliberal – daí a justificação para o comportamento de Trump de mosca dentro da garrafa. Quanto à Europa: Os dois dos maiores países da outra margem do Atlântico são dirigidos por criminosos sem escrúpulos nem qualquer sentido não só de humanidade, mas de animalidade, isto é, de instinto de sobrevivência, Trump e Bolsonaro. A Leste, a Rússia gere os seus recursos internos para preservar forças (possui uma relação favorável de população, território e recursos essenciais) e a China a repegar o modelo de produção onde o deixara, assente na sobrexploração de recursos (desde logo o do trabalho) e de inundação dos mercados com produtos a preços esmagados que implicam a abolição de direitos humanos fundamentais. Desde logo a liberdade.

E a Europa?

Leio o artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso:

Eu fui um dos que tive uma esperança, ainda que ténue, de que tivéssemos aprendido alguma coisa com esta lição (a da pandemia). Mas ainda nem vemos o fim do pesadelo nem alcançámos todas as suas consequências e já se percebeu que quem manda nisto — no mundo, no planeta, neste “capitalismo que mata”, como disse o Papa Francisco — pretende fazer tudo igual, mas ainda mais depressa e pior, se possível. As Bolsas animam-se com a retoma económica na China, puxada a todo o gás pelas centrais a carvão; a Amazónia, escondida temporariamente dos satélites pelas nuvens e pela pandemia à solta em terras do Brasil, aumentou em 171% a área desflorestada em Abril, em comparação com igual mês de 2019  e na Europa, sob pressão das companhias aéreas, Bruxelas abandonou qualquer veleidade de limitar a lotação dos aviões, um dos mais intensos poluidores atmosféricos e um dos mais eficazes focos de propagação do vírus.

Entre nós, muito se escreveu e falou sobre um regresso ao campo e à pequena agricultura familiar e biológica, cujos benefícios e atractividade o confinamento forçado tinha permitido redescobrir, e também se escutaram juras de revisão do modelo de turismo assente nas multidões e na destruição de habitats naturais. Pois, aí está: a agricultura que é apoiada, financiada por dinheiros europeus e aquela por onde vagueiam exércitos de trabalhadores asiáticos semiescravos é a agricultura superintensiva, predadora da terra e esbanjadora de água.

Como é que nada poderá não ser como dantes?”

Miguel Sousa Tavares



Para os cidadãos europeus, cercados a Leste e a Oeste, a questão é sobreviver. Não como sobreviver ao vírus, mas como impedir que o vírus tenha aqui os seus ninhos e impeça a sobrevivência da nossa espécie, que nos ganhe, que nos derrote enquanto seres humanos e europeus. Trata-se de sobrevivência de uma espécie ameaçada não por um vírus, mas por uma podridão generalizada, por uma metástase disseminada. O Covid 19 é o nosso vírus!

O Covid 19 é uma consequência, não é uma causa. Os cidadãos europeus têm o dever de se levantar para exigirem respostas para as causas desta epidemia.

A frase é apresentada como tendo vários autores, de Einstein a Benjamin Frankelin “Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”. Não sei se a resposta à epidemia é insanidade, mas estupidez é com certeza.

Os cidadãos europeus têm o direito e o dever de exigirem dos seus eleitos uma resposta que não seja a repetição da que causou a calamidade. Reúna-se um Eurogrupo, uma Cimeira, um Forum, uma feira, um conclave para os europeus discutirem e decidirem em que mundo querem viver.

Primeira pergunta: Queremos viver? E, de seguida, queremos viver como baratas chinesas? Como grunhos americanos? Como evangelistas bolsonaristas?

Com tantos estudos e tanto dinheiro para estudos contra o vírus Covid 19, que geram lucros imensos, despesas em boa parte inúteis, ou sobre objetivos secundários, porque não um estudo sério sobre o tempo que nos resta para viajar nos navios de cruzeiro, nos charters de aviões para um pacote de uma semana de solysombrero? Sobre quanto tempo nos resta para passear no último camelo à volta das pirâmides do Egito, ou para matar animais nos safaris do Kruger Park, ou do Quénia, ou para ir ver a última árvore da Amazónia, para subir na derradeira viagem no elevador do Empire State para ver arranha-céus e torres Trump, ou da Torre Eiffel, ou para uma viagem numa gondola (insuflável) em Veneza?

Quanto tempo teremos para comprar uns ténis da Nike fabricados por escravos no Bangladesh, ou umas T-shirts da Zara? O que vamos fazer aos tuk-tuk que enxameiam as ruas de Lisboa a Phnom Penh? E aos carros elétricos, a diesel ou gasolina das várias autoeuropas espalhadas pelo mundo? E ao arsenal nuclear, o que vamos fazer às ogivas, atiramo-las aos Covid ou uns aos outros? E aos satélites, desinfetamo-los cá de baixo, ou mandamos lá alguém? Quem cuidará das ruínas do Coliseu de Roma quando só restarem ratos e baratas? Ou do Castelo Templário de Tomar? E até quando haverá judeus para dar cabeçadas no Muro das Lamentações, depois de terem morto o último palestiniano, mesmo sem lhe terem feito o teste do coronavírus e sem ter lavado as mãos com gel, depois? Não, esses últimos visitantes, não morrerão do coronavírus. Morrerão da nossa estupidez. Uma morte lenta, presume-se e teme-se, de fome, doença, desespero, de lutas pelo último hambúrguer, pela última coca-cola… Entretanto aqui discute-se se devemos peregrinar a Fátima ou ao Seixal, ao Avante! E se existe incoerência entre um estádio vazio e um avião cheio – ora a questão não é de incoerência, é de cegueira: os estádios jamais se encherão e os aviões também não.

Já agora os coletes amarelos (lutadores sociais, não era?) desapareceram de França, agora que tão necessários eram! E os neofascistas do Salvini em Itália parece estarem de muito bem com a possibilidade de retomar ao antigamente, com turistas na fonte de Trevi, assim como os seguidores de Trump, e os evangelistas e as dondocas brasileiras de Bolsonaro, e os espanhóis franquistas de Madrid, a malta da bola e por cá há lideres como Jerónimo de Sousa que não admite a austeridade. Acredita na lâmpada de Aladino ou tem alquimistas que criam ouro no Comité Central. É preciso voltar ao antigamente, depressa e em força! O problema é que não há antigamente atualmente.

Dirão os que acreditam que vai ficar tudo bem, este é um texto de ficção científica. Tomara eu! Catastrofismo. Cenário apocalítico! Dirão os evangélicos, os do Alá e os do Acá: Deus é grande. A última crença desta espécie de gente no Brasil, ao que li, é a da conspiração comunista: os caixões dos mortos do Covid estão cheios de pedras (presume-se que fabricadas na China) e as favelas do Brasil estarão assim pejadas de mortos vivos!

Se há um tempo para pensarmos em sobreviver é este. Os europeus – porque sou europeu – devem reunir-se e agir e não é a senhora Lagarde, do BCE, nem os ministros das Finanças do Eurogrupo que podem ser os nossos timoneiros – devemos reunirmo-nos para impedir que sejam os nossos coveiros. A questão não são os bonds, nem empréstimos, nem dívida pública: são como regular a utilização de recursos e a sua distribuição.