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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Correntes verticais em “montanha-russa” no Oceano Antártico são mais intensas do que se pensava (video)


Investigadores australianos e norte-americanos mapearam pela primeira vez, com elevado detalhe, os movimentos verticais de massas de água no Oceano Antártico, revelando correntes muito mais intensas e complexas do que as estimativas anteriores sugeriam.

O estudo, publicado na revista científica Communications Earth & Environment, combinou observações de satélite com dados recolhidos por planadores oceânicos autónomos, criando uma imagem tridimensional sem precedentes das correntes que atravessam os primeiros mil metros de profundidade do oceano.

Segundo Yann-Treden Tranchant, estas correntes verticais desempenham um papel fundamental no transporte de calor, carbono, nutrientes e oxigénio entre a superfície e as profundezas marinhas.

“Ao ligarem a atmosfera ao oceano profundo, estas correntes ajudam a regular o clima da Terra”, explica o investigador.

Um redemoinho gigante junto à Antártida
A investigação centrou-se numa região particularmente dinâmica da Antarctic Circumpolar Current, a corrente oceânica mais forte do planeta, que circula em torno da Antártida.

Na área estudada, a sul da Tasmania, os cientistas analisaram um enorme redemoinho oceânico ciclónico formado junto à chamada Frente Polar, a fronteira natural onde águas frias antárticas encontram águas mais quentes provenientes do norte.

Este redemoinho apresentava uma diferença de quase um metro na altura da superfície do mar entre o seu centro e as águas circundantes, tornando-se um laboratório natural ideal para estudar os movimentos verticais da água.

Satélites e robôs mergulhadores
Os dados foram recolhidos durante a missão FOCUS, realizada em 2023 a bordo do navio de investigação RV Investigator.

A equipa utilizou observações do satélite Surface Water Ocean Topography (SWOT), capaz de detetar pequenas variações da altura da superfície do mar a partir do espaço.

Em simultâneo, dois planadores oceânicos autónomos foram colocados no interior do redemoinho. Estes robôs subaquáticos mergulharam repetidamente até mil metros de profundidade, recolhendo milhares de medições de temperatura, salinidade e oxigénio dissolvido.

Além disso, foram libertadas 15 bóias à deriva para acompanhar a velocidade e a direção das correntes superficiais.

Movimentos de centenas de metros por dia
Ao combinar os dados obtidos pelo satélite com as observações recolhidas debaixo de água, os investigadores conseguiram reconstruir os movimentos verticais da água em três dimensões.

Os resultados mostram que as correntes ascendentes e descendentes frequentemente ultrapassam os 150 metros por dia e podem deslocar massas de água várias centenas de metros em apenas 24 horas.

Estas correntes estendem-se até, pelo menos, mil metros de profundidade e ocorrem em escalas relativamente pequenas, por vezes inferiores a 10 quilómetros de largura.

Segundo os autores, a intensidade destes movimentos é significativamente superior à prevista por muitos modelos de circulação oceânica de grande escala.

Implicações para o clima global
Os cientistas acreditam que esta nova capacidade de observar movimentos verticais poderá melhorar significativamente a compreensão do papel do Oceano Antártico no sistema climático terrestre.


Os autores defendem que futuras observações através do satélite SWOT poderão permitir estimar com maior precisão a transferência de carbono, nutrientes, oxigénio e calor ao longo do tempo, ajudando a aperfeiçoar os modelos climáticos e a compreender melhor a resposta dos oceanos às alterações climáticas.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Hilariante - A paródia e a amostra que Donald Trump é mesmo ignorante


Esta sexta-feira, a Casa Branca publicou uma nova montagem que mostra que ou Donald Trump não sabe que não existem pinguins na Gronelândia ou que, no limite, pensa levar estes animais para o território.

“Abracem o pinguim”, lê-se na descrição da fotografia publicada esta sexta-feira na conta oficial da Casa Branca na rede social X. Na imagem, vê-se Donald Trump a caminhar ao lado de um pinguim, que carrega na sua mão uma bandeira norte-americana. As pegadas de ambos — note-se, de iguais dimensões — caminham até às montanhas, onde se encontra uma bandeira da Gronelândia.

Os pinguins encontram-se apenas no Hemisfério Sul, com a sua maior população na Antártida. A Gronelândia fica no Hemisfério Norte.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

‘Profound impacts’: record ocean heat is intensifying climate disasters, data shows

Enquanto Trump insiste nos seus planos para extrair e queimar as colossais reservas de petróleo da Venezuela, o calor continua a aumentar.
Espere mais um ano de emissões crescentes — e de eventos climáticos extremos ainda mais devastadores e letais.

The world’s oceans absorbed colossal amounts of heat in 2025, setting yet another new record and fuelling more extreme weather, scientists have reported.

More than 90% of the heat trapped by humanity’s carbon pollution is taken up by the oceans. This makes ocean heat one of the starkest indicators of the relentless march of the climate crisis, which will only end when emissions fall to zero. Almost every year since the start of the millennium has set a new ocean heat record.

This extra heat makes the hurricanes and typhoons hitting coastal communities more intense, causes heavier downpours of rain and greater flooding, and results in longer marine heatwaves, which decimate life in the seas. The rising heat is also a major driver of sea level rise via the thermal expansion of seawater, threatening billions of people.

Reliable ocean temperature measurements stretch back to the mid-20th century, but it is likely the oceans are at their hottest for at least 1,000 years and heating faster than at any time in the past 2,000 years.

The atmosphere is a smaller store of heat and more affected by natural climate variations such as the El Niño-La Niña cycle. The average surface air temperature in 2025 is expected to approximately tie with 2023 as the second-hottest year since records began in 1850, with 2024 being the hottest. Last year the planet moved into the cooler La Niña phase of the Pacific Ocean cycle.

“Each year the planet is warming – setting a new record has become a broken record,” said Prof John Abraham at the University of St Thomas in Minnesota, US, and part of the team that produced the new data.

“Global warming is ocean warming,” he said. “If you want to know how much the Earth has warmed or how fast we will warm into the future, the answer is in the oceans.”

The analysis, published in the journal Advances in Atmospheric Sciences, used temperature data collected by a range of instruments across the oceans and collated by three independent teams. They used this data to determine the heat content of the top 2,000 metres of the oceans, where most of the heat is absorbed.

The amount of heat taken up by the ocean is colossal, equivalent to more than 200 times the total amount of electricity used by humans across the world. “Ocean warming continues to exert profound impacts on the Earth system,” the scientists concluded.

Ocean warming is not uniform, with some areas warming faster than others. In 2025, the hottest areas included the tropical and South Atlantic and North Pacific oceans, and the Southern Ocean. In the latter, which surrounds Antarctica, scientists are deeply concerned about a collapse in winter sea ice in recent years.

The North Atlantic and the Mediterranean Sea are also getting warmer, as well as saltier, more acidic and less oxygenated owing to the climate crisis. This is causing “a deep-reaching ocean state change in, making the ocean ecosystems and the life they support more fragile”, the researchers said.

“As long as the Earth’s heat continues to increase, ocean heat content will continue to rise and records will continue to fall,” said Abraham. “The biggest climate uncertainty is what humans decide to do. Together, we can reduce emissions and help safeguard a future climate where humans can thrive.”

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Trophic convergence of marine vertebrate communities worldwide


Marine vertebrate communities globally exhibit trophic convergence, meaning communities in different locations with similar environmental conditions develop similar feeding structures and functional roles. This functional similarity, driven primarily by temperature, productivity, and depth, results in the emergence of six distinct types of trophic communities worldwide. This convergence challenges traditional biogeographic models based on geographic isolation and supports the idea that shared environmental pressures shape marine ecosystems, even with different species.[artigo aqui]

Key findings

Six global trophic community types: Studies have identified six consistent types of marine trophic communities (TC1-TC6) that appear across the globe.

Environmental drivers: The specific type of trophic community that emerges in a region is largely determined by environmental factors, especially:
  • Temperature: As temperatures get colder towards the poles, overall trophic complexity tends to decrease.
  • Productivity: The availability of energy at the base of the food web is a fundamental driver of community structure.
  • Depth: Shallower coastal areas tend to support more complex and specialized trophic communities.
Functional similarity over evolutionary history: The findings show that geographically distant communities with different evolutionary origins can converge into the same functional type when they share similar environmental conditions. This indicates a strong role for convergent evolution in shaping global marine biodiversity patterns.

Implications for conservation: The existence of these global trophic analogs provides a new benchmark for conservation and management efforts, helping scientists to better understand and predict the impacts of environmental change on marine biodiversity.

Cocteau Twins - How to Bring a Blush to the Snow


A canção “How to Bring a Blush to the Snow”, dos Cocteau Twins, faz parte do álbum Victorialand (1986), um dos trabalhos mais etéreos e contemplativos da banda. Gravado sem o baixista Simon Raymonde, o disco apresenta uma sonoridade leve, dominada por guitarras cristalinas e ambientes sonoros quase imateriais, que criam a sensação de um espaço gelado e luminoso, entre a melancolia e o sonho. A faixa em particular destaca-se pelo seu clima de fragilidade e pela forma como as guitarras parecem “tremeluzir”, acompanhando a voz de Elizabeth Fraser — uma voz que não narra, mas se transforma num instrumento emocional.

Como em quase todas as canções dos Cocteau Twins, as letras são enigmáticas, por vezes ininteligíveis, e o significado é mais sugerido do que dito. O título, “How to Bring a Blush to the Snow” (“Como fazer a neve corar”), evoca a ideia de dar cor, calor ou vida a algo frio e imaculado. Pode ser lido como uma metáfora para o despertar da emoção num ambiente de silêncio e distância, ou como a tentativa de introduzir humanidade e ternura num mundo de gelo — literal ou simbólico. Há quem veja na canção uma meditação sobre o renascimento e a delicadeza, uma paisagem sonora onde o frio se dissolve aos poucos pela presença de algo vivo.

Em Victorialand, as referências à neve, ao vento e às paisagens árticas são recorrentes, e esta faixa parece representar o momento em que a natureza começa a mudar, quando o gelo ganha um leve rubor — o presságio da primavera ou do afeto. Mais do que transmitir uma mensagem concreta, a canção convida o ouvinte a uma experiência sensorial: é sobre sentir a beleza efémera do calor que toca o frio, do silêncio que ganha voz. O seu significado, como o próprio mundo dos Cocteau Twins, reside menos nas palavras e mais na emoção que provoca.

No no no no no (I did everything) (I want a banana) But it’s driving me bonkers (I did everything) (I want a banana) Every beddie time he cries (I want a banana) (I want a banana) They mostly never soothe them (Oh wonderful food-ah) (Oh wonderful food-ah) I did everything I did everything No no no no no (I did everything) (I want a banana) But it’s driving me bonkers (I did everything) (I want a banana) Every beddie time he cries (I want a banana) (I want a banana) They mostly never soothe them (Oh wonderful food-ah) (Oh wonderful food-ah) I did everything (The fold-over, proper cheeks, I got …) I did everything (… Be firm, I said “It’s very fattening!”) (oh) Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Don’t know, hurry, hurry (Oh wonderful food-ah) Siss, I miss your commentary (Oh wonderful food-ah) Any time he cries (You ate a banana) (You ate a banana) They mostly never soothe them (You ate a banana) (You ate a banana) Oh wonderful food-ah Oh wonderful food-ah Someone hurry, hurry (Oh wonderful food-ah) Siss, I miss your commentary (Oh wonderful food-ah) Any time he cries (You ate a banana) (You ate a banana) They mostly never soothe them (You ate a banana) (You ate a banana) Oh wonderful food-ah (The fold-over, proper cheeks, I got …) Oh wonderful food-ah (… Be firm, I said “It’s very fattening!”) Tondo Bravo Rota, did ya see you move a mondo Tondo Bravo Rota, did ya see you move a mondo

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

‘Change course now’: humanity has missed 1.5ºC climate target, says UN head

Humanity has failed to limit global heating to 1.5º C and must change course immediately, the secretary general of the UN has warned.

In his only interview before next month’s Cop30 climate summit, António Guterres acknowledged it is now “inevitable” that humanity will overshoot the target in the Paris climate agreement, with “devastating consequences” for the world.

He urged the leaders who will gather in the Brazilian rainforest city of Belém to realise that the longer they delay cutting emissions, the greater the danger of passing catastrophic “tipping points” in the Amazon, the Arctic and the oceans.

“Let’s recognise our failure,” he told the Guardian and Amazon-based news organisation Sumaúma. “The truth is that we have failed to avoid an overshooting above 1.5ºC in the next few years. And that going above 1.5C has devastating consequences. Some of these devastating consequences are tipping points, be it in the Amazon, be it in Greenland, or western Antarctica or the coral reefs.

He said the priority at Cop30 was to shift direction: “It is absolutely indispensable to change course in order to make sure that the overshoot is as short as possible and as low in intensity as possible to avoid tipping points like the Amazon. We don’t want to see the Amazon as a savannah. But that is a real risk if we don’t change course and if we don’t make a dramatic decrease of emissions as soon as possible.”

The planet’s past 10 years have been the hottest in recorded history. Despite growing scientific alarm at the speed of global temperature increases caused by the burning of fossil fuels – oil, coal and gas – the secretary general said government commitments have come up short.

Fewer than a third of the world’s nations (62 out of 197) have sent in their climate action plans, known as nationally determined contributions (NDCs) under the Paris agreement. The US under Donald Trump has abandoned the process. Europe has promised but so far failed to deliver. China, the world’s biggest emitter, has been accused of undercommitting.

António Guterres giving his speech at Cop29 in Baku, Azerbaijan, in November 2024. 

Guterres said the lack of NDC ambition means the Paris goal of 1.5ºC will be breached, at least temporarily: “From those [NDCs] received until now, there is an expectation of a reduction of emissions of 10%. We would need 60% [to stay within 1.5ºC]. So overshooting is now inevitable.”

He did not give up on the target though, and said it may still be possible to temporarily overshoot and then bring temperatures down in time to return to 1.5ºC by the end of the century, but this would require a change of direction at and beyond Cop30.

He called for governments to rebalance representation at Cops so that civil society groups, particularly from Indigenous communities, will have a greater presence and influence than people paid by corporations.

“We all know what the lobbyists want,” he said. “It’s to increase their profits, with the price being paid by humankind.”

He said a transition away from fossil fuels was a matter of economic self-interest, because it was clear that the era of fossil fuels was coming to an end: “We are seeing a renewables revolution and the transition will inevitably accelerate and there will be no way in which humankind will be able to use all the oil and gas already discovered,” he said.

Asked if he had raised this with the Brazilian president, Luiz Inácio Lula da Silva, whose government has just given the green light for oil exploration near the mouth of the Amazon, he said: “Not yet. I’ll take advantage of the Cop [to do this].

sábado, 25 de outubro de 2025

Anja Huwe / Xmal Deutschland - Polar Forest


Anja Huwe é a vocalista icónica dos lendários precursores do movimento pós-punk Xmal Deutschland. Após o sucesso da banda com quatro álbuns em editoras de culto como a 4AD, Huwe seguiu uma carreira nas artes visuais, sem nunca ter abandonado a sua paixão pela música através de várias plataformas criativas.

Convidada pela sua amiga de longa data Mona Mur, musicista, compositora e produtora, Huwe reconsiderou o seu hiato de décadas na música e decidiu juntar-se a Mur no seu estúdio em Berlim. Juntas, trabalharam durante um ano e meio, compondo, tocando e produzindo as faixas de raiz, que acabariam por se tornar no álbum “Codes”, lançado este ano pela Sacred Bones Records, de Nova Iorque.

O álbum apresenta sons electrónicos distintos, bem como o estilo único de guitarra Xmal de Manuela Rickers. O regresso de Anja Huwe aos palcos com a apresentação do seu requintado álbum a solo “Codes”, juntamente com uma sólida seleção de clássicos de Xmal Deutschland em interpretações modernas é inesperado, mas há muito esperado. “Codes” é a página que faltava nos livros de história do pós-punk, a tinta acabada de espalhar pela tela de décadas – é o produto da incansável vontade de sobreviver nos seus próprios termos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024

Extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024© Daniele Semeraro

O ritmo do aquecimento do oceano está a "acelerar" e a temperatura global à superfície bateu um recorde na primavera de 2024, atingindo 21 graus Celsius (ºC), segundo um relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

"Todo o oceano é afetado pela tripla crise planetária: alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição", é referido no nono relatório sobre o estado dos mares do Serviço de Monitorização Marinha do programa da União Europeia de observação da Terra publicado esta terça-feira.

O nível do oceano está a subir a um ritmo sem precedentes de 40,8 milímetros (mm) por década, e a extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório.

"Reduzir as emissões, embora essencial, já não é suficiente por si só para salvar o planeta", conclui o relatório, sublinhando que "os governos devem restaurar os ecossistemas e reforçar as políticas oceânicas para proteger uma economia azul global que vale milhares de milhões".

De acordo com os dados apresentados, analisados por mais de 70 cientistas, o aquecimento da superfície do oceano é "particularmente rápido" e três vezes superior à média no Mar Negro, praticamente o mesmo que no Báltico, e mais do dobro da média no Mediterrâneo, onde o aumento é de 0,41ºC por década e as ondas de calor marinhas ocorrem entre 16 e 23 dias a mais a cada 10 anos.

Tanto 2023 como 2024 registaram ondas de calor "excecionalmente intensas e persistentes", que levaram a temperaturas da superfície do oceano 0,25ºC superiores aos recordes anteriores, superando os recordes de 2015 e 2016.

Houve zonas do Atlântico que, em 2023, experimentaram mais de 300 dias em condições de ondas de calor marinhas.

No verão desse ano, a onda de calor mais longa alguma vez registada no Mediterrâneo fez com que as temperaturas à superfície subissem 4,3 graus acima do normal naquele mar, ou seja, 40,8 mm de subida do nível do mar por década.

A subida global do nível do mar está também a "acelerar a um ritmo sem precedentes": 31,4 mm por década entre 1999 e 2006, 39,3 mm por década entre 2007 e 2015 e 40,8 mm por década entre 2016 e 2024.

O aumento cumulativo entre 1901 e 2024 é de 228 mm, sendo o risco resultante de inundações e erosão em zonas costeiras que albergam cerca de 200 milhões de pessoas.

Todos os países europeus com densidades populacionais costeiras acima das 200 pessoas por quilómetro quadrado estão a registar uma subida do nível do mar acima da média.

Em relação à perda de gelo marinho, o Ártico registou quatro mínimos históricos entre dezembro de 2024 e março de 2025, mês em que se registaram menos 1,94 milhões de quilómetros quadrados do que a média de inverno de longo prazo, uma área quase seis vezes superior à Polónia.

Na Antártida, 2025 marca o terceiro ano consecutivo de baixa extensão de gelo marinho. Em fevereiro, havia menos 1,6 milhões de quilómetros quadrados do que a média de longo prazo, uma área quase três vezes superior à de França.

O aquecimento e a acidificação afetam 16% dos corais ameaçados e 30% dos severamente ameaçados.

Os resíduos plásticos poluem todas as bacias oceânicas e, entre os países que emitem mais de 10.000 toneladas por ano, 75% fazem fronteira com os recifes de coral.

O Serviço de Monitorização Marinha é um dos seis que compõem o programa de observação da Terra Copernicus, financiado pela União Europeia.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Prémio Gulbenkian atribuído à Antarctic and Southern Ocean Coalition



A vencedora do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2025, que distingue" contribuições notáveis para a ação climática e soluções que inspiram esperança e novas possibilidades", é a Antarctic and Southern Ocean Coalition (ASOC).

A Antarctic and Southern Ocean Coalition conquistou este reconhecimento, refere a Fundação Gulbenkian pelo ”trabalho na proteção de uma das regiões do mundo mais sensíveis às alterações climáticas".

“Numa fronteira crítica do sistema climático global, a ASOC é um exemplo da forma como a colaboração internacional duradoura, a advocacy alicerçada na ciência e uma gestão ambiental responsável são essenciais para garantir um futuro sustentável para todos”; lê-se no comunicado da fundação.

O júri, presidido pela antiga chanceler alemã, Angela Merkel, selecionou o vencedor de entre 212 nomeações de 115 países. O prémio tem um valor monetário de um milhão de euros.

Fundada em 1978, “a ASOC reuniu organizações ambientais de prestígio de mais de 10 países, formando uma coligação resiliente e articulada de membros, parceiros, ativistas e apoiantes. Visto que a Antártida se encontra fora da jurisdição de uma só nação, a cooperação multilateral tem sido essencial para a sua proteção", refere a Gulbenkian.

A diretora Executiva da ASOC, Claire Christian, salienta a “honra” que esta distinção confere à ASOC porque afirma e reconhece “o poder da ação coletiva e a importância vital de proteger o Antártico e o Oceano Austral. Estas regiões podem parecer distantes, mas são fundamentais para a saúde e o futuro do planeta”.

A região da Antártida, lembra Angela Merkel, “é um ecossistema único e frágil, particularmente vulnerável aos efeitos das alterações climáticas. Ao situar-se fora da jurisdição de um só país, a região precisa de um nível extraordinário de cooperação internacional para proteger e preservar este recurso precioso”.

Foi, por isso, que "o júri quis reconhecer as conquistas da Antarctic and Southern Ocean Coalition e a forma como tem demonstrado que a colaboração global é possível. A Antarctic and Southern Ocean Coalition transmite esperança às gerações vindouras e é uma justa vencedora deste prémio.”

“Para Miguel Bastos Araújo, biogeógrafo e vice-presidente do júri do Prémio Gulbenkian para a Humanidade, “a Antártida e o seu oceano são o ‘anel único’ do planeta, tal como o mítico anel de Tolkien em ‘O Senhor dos Anéis’, que concentra um poder que molda o destino de todos”. A imagem deve-se ao facto de “a Antártida e o Oceano Austral concentrarem funções essenciais para o equilíbrio do clima, da biodiversidade e do nível do mar”, refletindo radiação solar, atuando como sumidouro de carbono ou moderando os ventos e os sistemas atmosféricos globais. “Sem a integridade deste ‘anel’, o mundo entra em descompasso climática, ecológica e politicamente”, reforçou, frisando que “a ação incansável da ASOC merece, de forma inequívoca, o Prémio.”

Lembra ainda a Fundação Gulbenkian que este prémio é atribuído “numa altura em que as Nações Unidas declararam 2025 como o Ano Internacional da Preservação dos Glaciares” e que a “comunidade internacional está finalmente a reconhecer o papel essencial da criosfera — os mantos de gelo, os glaciares e as calotes polares da Terra — na regulação do clima”.

A importância da distante Antártida
"Ao longo dos últimos 50 anos, a ASOC tem demonstrado, de forma consistente, como uma voz única, assente num objetivo partilhado e num compromisso a longo prazo, pode influenciar a governação e a preservação de um dos ambientes mais intocados do planeta”.

Apesar da sua localização remota, a Antártida é um pilar da estabilidade global. O Tratado da Antártida, assinado em 1959, atribuiu-lhe a designação de continente de paz e cooperação, tornando-a reserva para fins pacíficos e de investigação científica.

Com cerca de 90% do gelo terrestre e cerca de 70% da água doce do planeta, a Antártida é fundamental para este esforço. O Oceano Antártico representa, por si só, cerca de 10% do oceano global e alberga quase 10.000 espécies únicas.

As suas poderosas correntes regulam as temperaturas do planeta, impulsionam os ciclos de nutrientes e sustentam a biodiversidade marinha que constitui a base da cadeia alimentar global.

Contudo, lembra a Gulbenkian, a região encontra-se atualmente num momento crítico, enfrentando impactos climáticos acelerados, nomeadamente anomalias extremas na temperatura, ondas de calor marinhas e diminuição do gelo marinho, com partes da Antártida a aquecerem mais do dobro da média global

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Extremos climáticos no abismo?


«Corremos o risco de atravessar pontos de inflexão planetários? Corremos o risco de empurrar o planeta para uma trajetória em que se possa afastar continuamente de um estado que possa sustentar a vida tal como a conhecemos? Este documentário explora estas questões, apresentando perspetivas de especialistas e investigação científica em curso sobre o sistema terrestre em rápida mudança e o risco crescente de desencadear feedbacks de "ciclo vicioso" rápidos, não lineares e até auto-reforçados em sistemas planetários críticos, como os mantos de gelo da Antártida e da Gronelândia , as correntes oceânicas (incluindo a circulação meridional de capotamento do Atlântico ou AMOC) e a Floresta Amazónica.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Oceanos absorveram 90% do aquecimento global e registam mudanças irreversíveis


Os oceanos absorveram mais de 90% do calor excessivo retido pelos gases com efeito de estufa desde 1971 e estão já a passar por “mudanças que serão irreversíveis nos próximos séculos”, alertou hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Esta é uma das conclusões do relatório da OMM sobre o estado do clima no sudoeste do Pacífico no ano de 2023, apresentado no Tonga pela secretária da organização, Celeste Saulo, e pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que se encontra de visita ao país durante a realização do 53.ª cimeira do Fórum de Líderes das Ilhas do Pacífico.

As ilhas paradisíacas do Pacífico estão em perigo devido ao “transbordamento” do oceano, disse Guterres, à medida que a subida média dos mares em todo o mundo ocorre a uma velocidade sem precedentes. Mas o problema “está a chegar a todos nós, juntamente com a devastação da pesca, do turismo e da economia azul”, disse o líder das Nações Unidas.

O secretário-geral da ONU alertou ainda para a ameaça real de um degelo da Gronelândia e da Antártida ocidental, que colocaria em perigo aglomerações como Los Angeles, Lagos e as megacidades asiáticas de Xangai, Mumbai e Dhaka.

Guterres referiu-se assim ao impacto da crise climática na subida do nível do mar durante um discurso no arquipélago oceânico de Tonga, no âmbito da cimeira de líderes das ilhas do Pacífico, que estão entre as mais ameaçadas pelas alterações climáticas.

Tendo feito da crise climática uma das bandeiras do seu mandato, o secretário-geral da ONU deu como certo que haverá um aumento de um metro no nível do mar, mas insistiu que depende da ação humana “a escala, o ritmo e impacto” desse aumento.

O relatório da OMM indica que o degelo na Gronelândia e nos pólos, somado à alta absorção do aquecimento global pelos oceanos, está a acrescentar água às grandes massas do planeta, que por sua vez aumentam a sua temperatura e se expandem, levando ao aumento dos seus níveis.

“Prevê-se que os 2.000 metros superiores do oceano continuem a aquecer devido ao calor excessivo acumulado no sistema terrestre pelo aquecimento global, uma mudança que é irreversível em escalas temporais de séculos e milénios”, avança o relatório.

As ilhas do Pacífico estão na “linha da frente” da crise climática devido à sua elevada exposição aos efeitos das emissões de gases – para os quais praticamente não contribuem -, incluindo ciclones tropicais e inundações, e fenómenos como uma erupção vulcânica que gerou um tsunami e uma forte produção de vapor em 2022.

 “As atividades humanas enfraqueceram a capacidade do oceano de nos sustentar e proteger e – através da elevação do nível do mar – estão a transformar um amigo de longa data numa ameaça crescente”, lamentou a OMM.

“Já estamos a ver mais inundações costeiras, recuo da linha costeira, contaminação de reservas de água doce por água salgada e deslocação de comunidades”, acrescentou.

Entre 1993 e 2023, a mediana do aumento global do nível do mar foi de 9,4 centímetros (cm), mas no Pacífico tropical foi superior a 15 centímetros em alguns pontos. Num cenário de aquecimento de três graus Celsius (em linha com a atual trajetória), o nível do mar na região poderá subir mais 15 cm entre 2020 e 2050.

Entre as consequências do aquecimento global, que as organizações instaram a travar imediatamente, não está apenas o aumento do nível do mar: também a maior intensidade e frequência das ondas de calor marinhas, mais calor na superfície e no conteúdo do oceano, e mais acidificação. Cada fenómeno com as suas próprias ramificações.

“Há preocupações crescentes de que algumas ilhas-nação possam tornar-se inabitáveis”, alerta o documento, “com implicações para a sua realocação, soberania e estatuto de Estado”.

“São necessários AGORA cortes profundos, rápidos e sustentados nas emissões globais de gases com efeito de estufa para permanecermos numa trajetória de aquecimento a longo prazo de 1,5 graus”, insta o relatório, que considera necessário melhorar a adaptação costeira e investir na resiliência em todo o mundo, especialmente nas pequenas ilhas.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Alterações climáticas colocam em risco a dieta das baleias


Um novo estudo conduzido pela Universidade Griffith prevê que as alterações climáticas futuras poderão perturbar a dieta rica em krill que as baleias jubarte do hemisfério sul consomem.

Jasmin Groß, que conduziu o estudo como candidata a doutoramento no Centro de Saúde Planetária e Segurança Alimentar da Griffith, analisou ácidos gordos e isótopos estáveis de amostras de gordura e pele de cinco populações diferentes de baleias jubarte do hemisfério sul.

Estes níveis foram depois comparados com os da sua presa principal, o krill do Antártico.

A equipa descobriu que, embora existissem diferenças distintas nos perfis bioquímicos, a dieta de todas as populações de baleias jubarte testadas era o krill do Antártico, que proporciona uma dieta com elevado teor de gordura, ideal para o estilo de vida migratório destas populações, afirmou Groß.

“O estilo de vida migratório das baleias jubarte requer uma produtividade previsível do ecossistema e, por isso, podemos esperar que as populações que se alimentam em áreas sujeitas aos impactos mais fortes das alterações climáticas tenham mais probabilidades de mostrar os primeiros sinais de um afastamento da sua dieta de krill de alta qualidade”, afirmou.

“Atualmente, não há provas de um afastamento de uma dieta de krill de alta qualidade, mas o sinal isotópico caraterístico que descobrimos nas baleias que se alimentam em áreas produtivas de ressurgência ou na zona marginal de gelo marinho implica que futuras reduções na extensão e duração do gelo marinho e o aumento da temperatura do oceano podem afetar sua ecologia alimentar”, acrescentou.

Biópsias de pele e gordura de baleia jubarte foram coletadas em agosto e setembro de 2019 em ou perto das respetivas áreas de reprodução no Brasil, Austrália Ocidental e Oriental, Nova Caledônia e Colômbia.

As amostras de krill foram recolhidas em zonas de alimentação a bordo de três navios diferentes entre janeiro e março de 2019.

Groß afirmou que a importância deste estudo, ao confirmar que cada população seguiu uma dieta de krill antártico de elevada fiabilidade, pode ser utilizada como conhecimento de base para avaliar a extensão dos impactos das alterações climáticas nas zonas de alimentação em estudos futuros.

O estudo “No distinct local cuisines among humpback whales: A population diet comparison in the Southern Hemisphere” foi publicado na revista Science of the Total Environment.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Deveríamos ver os pontos críticos da Terra como bens comuns globais


Deveríamos olhar para os elementos do sistema Terra como bens comuns globais, argumentam os pesquisadores em um novo artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Os bens comuns globais não podem — como fazem atualmente — incluir apenas as partes do planeta fora das fronteiras nacionais, como o alto mar ou a Antártida. Devem também incluir todos os sistemas ambientais que regulam o funcionamento e o estado do planeta, nomeadamente todos os sistemas na Terra dos quais todos dependemos, independentemente de onde vivemos no mundo, de acordo com os investigadores por trás do artigo, incluindo os investigadores do Centro de Resiliência de Estocolmo Johan Rockström , Jonathan Donges e Carl Folke.

Isto exige um novo nível de cooperação transnacional. Para limitar os riscos para as sociedades humanas e garantir funções críticas do sistema terrestre, propõem um novo quadro de bens comuns planetários para orientar a governação do planeta.

“A estabilidade e a riqueza das nações e da nossa civilização dependem da estabilidade das funções críticas do sistema terrestre que operam além das fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo, as atividades humanas pressionam cada vez mais as fronteiras planetárias destes sistemas fundamentais. Da floresta amazónica às massas de gelo da Gronelândia, existem riscos crescentes de desencadear mudanças irreversíveis e incontroláveis ​​no funcionamento do sistema terrestre. Como estas mudanças afectam pessoas em todo o mundo, argumentamos que os elementos de ruptura devem ser considerados como bens comuns planetários aos quais o mundo está confiado e, consequentemente, necessitados de governação colectiva”, explica Johan Rockström, director do Instituto Potsdam para Investigação do Impacto Climático (PIK). ) e professor de ciências da sustentabilidade no Centro.

A publicação é o resultado de um processo de pesquisa de quase dois anos envolvendo 22 importantes pesquisadores internacionais. Os cientistas jurídicos, políticos e do sistema terrestre defendem a sua posição com base na bem conhecida ideia dos bens comuns globais. Em seguida, expandem-no significativamente para conceber respostas jurídicas mais eficazes para governar melhor os sistemas biofísicos que regulam a resiliência planetária para além das fronteiras nacionais, tais como os sumidouros naturais de carbono e os principais sistemas florestais.

“Acreditamos que os bens comuns planetários têm o potencial de articular e criar obrigações de administração eficazes para os Estados-nação em todo o mundo através da governação do sistema terrestre que visa restaurar e fortalecer a resiliência planetária e promover a justiça. No entanto, uma vez que estes bens comuns estão frequentemente localizados em territórios soberanos, tais obrigações de administração também devem cumprir alguns critérios de justiça claros”, destaca a professora Joyeeta Gupta, da Universidade de Amesterdão.

Uma mudança planetária
Outros bens comuns globais ou bens públicos globais incluem o alto mar e os fundos marinhos profundos, o espaço sideral, a Antártida e a atmosfera. Estes são partilhados por todos os Estados e estão fora das fronteiras jurisdicionais e, portanto, dos direitos soberanos. Todos os estados e pessoas têm um interesse colectivo, especialmente quando se trata de extracção de recursos, que sejam protegidos e governados de forma eficaz para o bem colectivo. Os bens comuns planetários expandem a ideia dos bens comuns globais, acrescentando não só regiões geográficas globalmente partilhadas ao quadro dos bens comuns globais, mas também sistemas biofísicos críticos que regulam a resiliência e o estado, e portanto a habitabilidade, na Terra.

As consequências de uma tal “mudança planetária” na governação dos bens comuns globais são potencialmente profundas, argumentam os autores. A salvaguarda destas funções reguladoras críticas do sistema terrestre é um desafio numa escala planetária única de governação, caracterizada pela necessidade de soluções colectivas à escala global que transcendam as fronteiras nacionais.

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sábado, 27 de janeiro de 2024

Portugueses vão investigar alterações climáticas na Antártica a bordo de veleiro


Uma expedição científica portuguesa vai levar, em fevereiro, 11 investigadores de três universidades portuguesas, uma espanhola e outra chilena, até à Península Antártica para estudar os efeitos das alterações climáticas nas zonas costeiras da região.

Pela primeira vez, na fronteira entre o mar e a terra, durante 15 dias, uma expedição científica portuguesa vai estar a bordo de um veleiro de 24 metros, capaz de fazer chegar os investigadores até às baías da Península Antártica de mais difícil acesso.

Durante duas semanas, o El Doblón, veleiro turístico alugado para a missão, será o novo laboratório de uma equipa de investigadores das universidades de Lisboa, Algarve e Coimbra e das universidades Autónoma de Madrid, responsáveis por dez projetos que vão desde as ciências naturais até às ciências sociais. Pretende desvendar como as alterações climáticas estão a influenciar as temperaturas e os solos das zonas costeiras daquela península no hemisfério Sul.

O “COASTANTAR 2024” é a primeira expedição portuguesa de veleiro pelas baías escondias na “pontinha da vírgula” da Antártica, zonas onde os cientistas encontrarão áreas livres de gelo e rochosas. “Assistimos agora a um novo retorno do aquecimento nesta região. A temperatura tinha subido muito desde que há registo, entre 1950 e até ao ano 2000. Depois estabilizou, desceu um pouco, e começámos a ter verões com mais neve porque houve uma mudança da posição das cinturas de vento. Mas, a partir de 2015, voltámos à tendência rápida de aquecimento, pelo que será interessante observar os seus impactos”, sublinhou, em declarações ao JN, Gonçalo Vieira, coordenador da expedição e investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa, à margem da apresentação da missão, esta sexta-feira, em Lisboa.

A primeira expedição do geógrafo físico foi em 2000, mas esta será a primeira vez que irá trabalhar a bordo de um veleiro. “Neste momento, estou curioso para ver de que maneira é que a fusão do solo gelado e, essencialmente, os episódios extremos de temperatura e precipitação, que estão a ser mais frequentes, estão a ter impactos ao nível da erosão. Mas também vamos trabalhar nos fluxos de contaminantes e olhar para as encostas, tentar começar a monitorizar essas áreas, ligando com imagens satélite para ver que impactos é que está a ter na paisagem”, explicou Gonçalo Vieira.

Os investigadores, cada um responsável por um projeto diferente, irá desenvolver as suas observações e recolher amostras de contaminantes na água, neve, gelo e solo, de microrganismos na atmosfera e em espécies marinhas, fitoplâncton e microplásticos pelas zonas costeiras. A missão decorrerá durante um mês, mas o sucesso de cada dia de trabalho no terreno irá depender das condições meteorológicas e do mar. Nesta altura do ano, a equipa de cientistas irá apanhar o verão na Antártica, com tempo frio a 1ºC e a água do mar com temperaturas a rondar os zero graus, apontou o coordenador durante a apresentação.

sábado, 9 de dezembro de 2023

“Numa trajetória desastrosa”: Cientistas alertam para risco de cinco pontos de inflexão da Terra


O aquecimento médio do planeta continua a progredir, impulsionado pelas emissões de gases com efeito de estufa geradas pelas atividades humanas e pela degradação e destruição da Natureza. Em 2015, em Paris, os governos do mundo acordaram que era preciso agir para impedir que a Terra aqueça mais do que 1,5 graus até ao final do século.

De ano para ano, surgem alertas de novos recordes de temperaturas máximas, de secas intensas, de incêndios devastadores e de tempestades sem precedentes, e, com isso, multiplicam-se o alertas de que é preciso fazer mais, melhor e mais rapidamente.

Apesar de ainda se considerar que nem tudo está para já perdido e que há tempo, mesmo que pouco, e conhecimento suficiente para alcançar esse objetivo, a janela de oportunidade está a fechar-se rapidamente e as ações climáticas tardam em chegar.

De acordo com os mais de 200 investigadores do projeto internacional Global Tipping Points, se nada for feito para contrariar essa tendência, a Terra poderá ultrapassar, pelo menos, cinco limiares naturais, pontos de inflexão em que pequenas alterações podem resultar em transformações rápidas e profundas, e além dos quais consequências negativas para a humanidade e para a Natureza podem ser irreversíveis. E três deles podem ser cruzados já na próxima década.

Num comunicado divulgado pela Universidade de Exeter, que coordenou o trabalho, os cientistas dizem que esta é “a avaliação dos pontos de inflexão mais abrangente alguma vez feita” e explicam que “a humanidade está atualmente numa trajetória desastrosa”.

Entre os limiares que poderão ser ultrapassados nos próximos anos, os cientistas destacam o colapso de grandes mantos de gelo na Gronelândia e na Antártida ocidental, o derretimento do pergelissolo (ou permafrost), a mortalidade generalizada de recifes de corais de água quente e o colapso da circulação atmosférica no Atlântico Norte.

Para Tim Lenton, um dos investigadores, “os pontos de inflexão no sistema da Terra representam ameaças de uma magnitude nunca antes enfrentada pela humanidade” e “podem provocar efeitos em dominó devastadores, incluindo a perda de ecossistemas inteiros e a capacidade para fazer uma agricultura estável, com impactos sociais que incluem deslocações em massa, instabilidade política e colapso financeiro”.

A investigação analisou 26 “pontos de inflexão negativos do sistema da Terra” e concluiu que “a atual governança global não é adequada à escala do desafio”, e que a manutenção do estado de coisas “já não é possível”, visto que “rápidas alterações na natureza e nas sociedades estão já a acontecer, e mais estão para vir”.

“Sem ação urgente para travar as crises climática e ecológica, as sociedades serão assoberbadas, enquanto o mundo natural se degrada”, avisam.

Apesar do tom alarmista do relatório, os cientistas acreditam que é possível promover “pontos de inflexão positivos”, que permitam contrair os negativos e manter o planeta numa rota de sustentabilidade.

“Uma cascata de pontos de inflexão positivos salvaria milhões de vidas”, pouparia biliões de dólares em prejuízos provocados por eventos climáticos extremos e permitira “começar a restaurar o mundo natural do qual todos nós dependemos”.

Lenton afirma que ações positivas estão já a ser realizadas, como o fortalecimento da aposta nas energias renováveis, a expansão da mobilidade elétrica e a transição para dietas menos intensas em produtos de origem animal.

Manjana Milkoreit, da Universidade de Oslo e que esteve também envolvida no projeto, considera que ações concretas para evitar os piores cenários “deverá ser o principal objetivo da COP28”.

E os investigadores deixam algumas sugestões para os líderes mundiais: acabar com as emissões dos combustíveis fósseis até 2050, reforçar a adaptação e os mecanismos de financiamento de perdas e danos, coordenar esforços globais para promover pontos de inflexão positivos, criar “uma cimeira global urgente sobre pontos de inflexão” e aprofundar o conhecimento sobre esses fenómenos.

“Resolver as crises climática e da natureza exigirá grandes transições em muitos setores – de mudanças nas dietas ao restauro de florestas”, passando pelo “abandono progressivo do motor de combustão interna”, avisa Kelly Levin, do Bezos Earth Fund, instituição parceira do projeto.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Mensagem Secretário-geral sobre os Glaciares da Região do Monte Evereste


Alerta climático!
No Nepal, o secretário-geral das Nações Unidas envia uma mensagem para o mundo:
“Os telhados do mundo estão a desabar."

O Nepal perdeu cerca de um terço do seu gelo em pouco mais de 30 anos e os glaciares estão a derreter a um ritmo recorde.
O facto de os glaciares do Nepal terem derretido 65 % mais depressa na última década do que na anterior "significa que podemos estar perante uma tragédia: o desaparecimento total dos glaciares.”

Por isso, António Guterres apela ainda: "Os glaciares estão a recuar, mas nós não podemos. Temos de acabar com a era dos combustíveis fósseis. Temos de agir agora para proteger as pessoas que estão na linha da frente. E para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC, para evitar o pior do caos climático. O mundo não pode esperar.”

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Hoje comemora-se o Dia Internacional contra as Alterações Climáticas: porque devemos estar alerta?



Esta terça-feira, 24 de outubro, assinala-se o Dia Internacional contra as Alterações Climáticas. Este dia tem como objetivo informar, consciencializar, educar e sensibilizar o setor privado, instituições públicas e sociedade civil sobre os efeitos devastadores desta realidade.

Esta data, que tem origem na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), surge como resposta unificada e global ao desafio das alterações climáticas e coloca em cima da mesa o desafio do combate às suas consequências, mas também as muitas soluções que estão ao nosso alcance para as mitigar e nos adaptarmos.


O Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), no seu último relatório científico, destacou a urgência de agir por parte de todos os setores e áreas da sociedade. Pois bem, o planeta continua a aquecer a um ritmo acelerado e os efeitos são evidentes, o que serve de alerta para a ameaça real das alterações climáticas, que requerem uma ação global concertada e urgente.

Este aquecimento reflete-se num aumento das temperaturas médias globais. De acordo com o Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus (C3S), o verão de 2023 foi o mais quente a nível mundial alguma vez registado.

Segundo a ONU, está mais do que comprovado que a ação humana é a única responsável pelo aquecimento global dos últimos 200 anos, causando efeitos devastadores que aumentam a cada ano. Esta organização estima que aproximadamente entre 3,3 a 3,6 mil milhões de pessoas vivam em contextos que as tornam altamente vulneráveis aos impactos da crise climática em curso.

O impacto das alterações climáticas na economia e na sociedade tem origem numa série de atividades humanas que libertam na atmosfera gases com efeito de estufa, principalmente dióxido de carbono e metano, resultantes da queima de combustíveis fósseis.

Estas emissões de gases poluentes, que têm vindo a aumentar ao longo dos anos desde a era da industrialização, são o fator chave para o aumento da temperatura global e os seus consequentes efeitos que devastam alguns dos países mais vulneráveis às alterações climáticas. Compreender as principais causas deste fenómeno é essencial para enfrentá-lo de forma eficaz.

Desde eventos climáticos extremos à perda de biodiversidade e à escassez de recursos, as consequências são visíveis em diferentes partes do planeta. Agirmos de forma coletiva e comprometida é uma obrigação comum, para que possamos reverter a situação climática e construir um futuro mais sustentável para as gerações futuras.

Algumas consequências (quase) irreversíveis
Este período de desregulação climática conduzirá (e é já visível) a um aumento das temperaturas, a mudanças nos padrões de precipitação, ao aumento da variabilidade climática e a uma maior frequência e magnitude de eventos extremos, o que se repercutirá num aumento dos riscos e da vulnerabilidade dos nossos sistemas e ecossistemas globais.
"A era do aquecimento global terminou, a era da ebulição global chegou. Os líderes devem liderar. Não há mais hesitação. Não há mais desculpas. Chega de esperar que os outros ajam primeiro. Simplesmente não há mais tempo para isso. Ainda é possível limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC e evitar o pior das alterações climáticas. Mas apenas com uma acção climática dramática e imediata". - António Guterres, Secretário-Geral da ONU.

É cada vez mais provável que este ano se torne o primeiro em que seja ultrapassado 1,5 ºC de aquecimento em relação à média pré-industrial. É, por isso, imperativo que as emissões sejam reduzidas imediatamente e em grande escala, para limitar que este aumento se perdure no tempo e, assim, se evitem as piores consequências.

As consequências do aquecimento do planeta são praticamente irreversíveis. Assim, lembramos aqui apenas algumas delas, que mais recentemente se revelaram objeto de notícia.

A Antártida continua a perder gelo, 43% das plataformas de gelo marinho reduziram o seu volume nas últimas duas décadas como consequência do aquecimento global antropogénico. No total, 7,5 mil milhões de toneladas de água doce derretida foram despejadas nos oceanos, que terá, naturalmente, consequências no nível médio das águas dos mares e oceanos e na vivência de muitas populações humanas e animais.

Noutro espectro, no verão de 2023, a temperatura do Mediterrâneo voltou a atingir valores históricos, ultrapassando os 31,2 ºC. Quanto mais elevada for a temperatura da superfície do mar, maior será a evaporação e, portanto, maior será a energia que alimenta, por exemplo, os ciclones tropicais.

Os modelos climáticos preveem que furacões de maior intensidade e os fenómenos a estes associados, como as chuvas torrenciais, aumentarão no futuro. A Sociedade Meteorológica Americana observou recentemente no seu boletim a formação de um medicane (junção de "mediterrâneo" e "furacão", na terminologia inglesa), que descreveram como “o mais intenso já registado no Mediterrâneo”, que devastou em primeira instância a Grécia e em seguida a Líbia.

É por isso imperioso que se limite a queima de combustíveis fósseis, se estanque o desmatamento, que se optem por práticas agrícolas não intensivas, que se alterem os processos da indústria química, que se reinventem os modos e modelos de transporte e se remodele o setor energético, para que consigamos mitigar as consequências dos erros já cometidos e nos adaptemos a esta nova realidade de vivência na nossa casa comum, o planeta Terra.

Take action now: The Letter film

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Asteracea


A família Asteraceae consiste em mais de 32.000 espécies conhecidas de plantas com flor em mais de 1.900 géneros dentro da ordem Asterales. Comumente referida como a família aster, margarida, composta ou girassóis, Compositae foram descritos pela primeira vez no ano de 1740. O número de espécies em Asteraceae é rivalizado apenas com as Orchidaceae, e qual é a família maior não é claro, uma vez que a quantidade de espécies existentes em cada família é desconhecida.
Os fósseis mais antigos conhecidos são grãos de pólen do Cretáceo Superior (Campaniano a Maastrichtiano) da Antártida, datados de c. 76-66 milhões de anos atrás. Estima-se que o grupo coroa das Asteraceae evoluiu pelo menos 85,9 milhões de anos atrás (Cretáceo Superior, Santoniano) com uma idade de nó-tronco de 88-89 milhões de anos atrás (Cretáceo Superior, Coniaciano).

The family Asteraceae consists of over 32.000 known species of flowering plants in over 1.900 genera within the order Asterales. Commonly referred to as the aster, daisy, composite, or sunflower family, Compositae were first described in the year 1740. The number of species in Asteraceae is rivaled only by the Orchidaceae, and which is the larger family is unclear as the quantity of extant species in each family is unknown.
The oldest known fossils are pollen grains from the Late Cretaceous (Campanian to Maastrichtian) of Antarctica, dated to c. 76–66 million years ago (mya). It is estimated that the crown group of Asteraceae evolved at least 85.9 mya (Late Cretaceous, Santonian) with a stem node age of 88–89 mya (Late Cretaceous, Coniacian).

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Um calor insuportável


O ano de 2022 foi marcado por uma sequência de fenómenos meteorológicos extremos de grande impacto, originando uma evidente mudança na perceção das pessoas face às alterações climáticas. O ano de 2023 consolida essa perceção. Na Califórnia, o termómetro subiu aos 56 °C, na China atingiu 52 °C, na Sardenha 48 °C. De acordo com os climatologistas, julho terá tido o registo mais quente de sempre. No verão de 2022, foram cerca de 62.000 as mortes na Europa devido ao calor. Compreende-se a afirmação do secretário-geral da ONU, António Guterres: “O mundo já não está na era do aquecimento, mas na era da ebulição.”
Estes dias assistimos a uma imensa tragédia no Hawaii. Os incêndios florestais que assolam Maui mataram dezenas de pessoas, arrasaram a cidade histórica de Lahaina e causaram enormes prejuízos. O governador do arquipélago concluía a sua conferência de imprensa relacionando os incêndios com o aquecimento global: "As alterações climáticas estão cá e estão a afetar as ilhas".
Os oceanos atingiram a temperatura mais quente alguma vez registada, com implicações terríveis para a saúde do planeta. A temperatura atingiu 20,96 o C, muito acima da média para esta época do ano. Os oceanos são um regulador climático vital: absorvem calor, produzem metade do oxigénio da Terra e ativam os padrões climáticos. As águas mais quentes têm menos capacidade para absorver dióxido de carbono, o que significa que permanecerá na atmosfera maior quantidade deste gás que aquece o planeta. Por outro lado, também pode acelerar o degelo polar, levando ao aumento do nível médio das águas do mar. Os oceanos mais quentes e as ondas de calor perturbam as espécies marinhas, como os peixes e as baleias, que se movem em busca de águas mais frias, pressionando a cadeia alimentar.


Em 2015, o acordo de Paris definia o objetivo de limitar o aumento da temperatura abaixo de 2 °C e, se possível, a 1,5 °C até ao final do século. Oito anos mais tarde, aumenta a distância entre a consciência das consequências da crise climática na produção de alimentos, no abastecimento de água, na saúde humana, nas economias nacionais, na sobrevivência de grande parte do mundo natural, e nas respostas à crise: os compromissos dos Estados colocam o planeta perante uma trajetória de aquecimento de 2,5 °C até ao final do século, ou mesmo 2,8°C se as políticas atuais continuarem.
A transição ecológica apela a uma inexorável mudança de modelo económico. Nos últimos anos, foram dados pequenos passos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa - a principal causa do aquecimento global, mas são visivelmente insuficientes. Lamentavelmente, são muitas as contradições! A agência internacional de energia anunciou em julho que o consumo global de carvão, a maior fonte de emissões, deve atingir um nível recorde este ano. A procura mundial de petróleo deverá atingir um novo pico em 2023. Os subsídios estatais aos combustíveis fósseis nunca foram tão elevados, sendo que as grandes empresas de petróleo e gás estão a obter lucros extraordinários desde a guerra na Ucrânia. Invoco mais uma expressão de António Guterres: "O ar é irrespirável, o calor é insuportável. Os níveis de lucro dos combustíveis fósseis e a inação climática são inaceitáveis.”
Helena Freitas, Diário de Coimbra 15.8.2023