Mostrar mensagens com a etiqueta Marc Augé. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marc Augé. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Felsmann + Tiley - Open Fields (feat. The Kite String Tangle)


Letra
[Verse]
I feel you close, I could hold you
But the walls are cold, I could fall through
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus]
Mmh oh, oh, oh, oh

[Verse]
I feel you close, I could touch you
But the air is cold all around you
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus] 2X

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be worlds apart, but I’ll see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just light intertwined (mmh oh, oh, oh, oh)

Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be lighting up when I see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just you and I (mmh oh, oh, oh, oh)

[Post-Chorus]

Open Fields de Felsmann + Tiley: estilo, significado e influências filosóficas
A canção "Open Fields", lançada em 2025 pelo duo alemão Felsmann + Tiley em colaboração com o artista australiano The Kite String Tangle (Danny Harley), aborda temas como a distância, a desconexão física e a presença emocional. A letra estabelece um contraste marcante entre o frio da separação física e o calor de uma ligação afetiva persistente, sugerindo que os chamados "campos abertos" representam um espaço metafórico ou pós-físico no qual a intimidade prevalece sobre a distância espacial.

No que respeita ao estilo musical, o tema enquadra-se na música eletrónica neoclássica e no ambient pop de cariz cinematográfico. Fiel à identidade estética de Felsmann + Tiley, a composição prescinde de percussão e bateria tradicionais, construindo a sua tensão dinâmica e carga emocional através da modulação de sintetizadores, de camadas harmónicas e do desempenho vocal intimista.

Do ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a narrativa da canção evoca o conceito de espaço liminar e a noção de "não-lugar", proposta pelo antropólogo Marc Augé, apresentando os campos abertos como zonas de transição onde as barreiras físicas se diluem em prol da memória. Adicionalmente, a obra reflete o dualismo corpo-mente de matriz cartesiana e fenomenológica - ao explorar como a perceção e o afeto transcendem os limites do corpo -, mantendo igualmente pontos de contacto com a tradição romântica, na qual a paisagem natural serve de espelho e extensão dos estados emocionais humanos.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

London Grammar - Nightcall


A melancolia noturna de "Nightcall": entre o synthwave e o existencialismo dos London Grammar


A letra de "Nightcall" aborda um reencontro noturno e tenso após um afastamento ou um evento traumático, focando-se no contraste entre a atração e o perigo. No original de Kavinsky, a faixa faz parte de uma narrativa concetual sobre um jovem que morre num acidente de carro nos anos 80 e regressa como "zombie" para rever a namorada. Na versão dos London Grammar, essa vertente de ficção científica desaparece, dando lugar a uma metáfora sobre a vulnerabilidade, o isolamento e a complexidade das relações humanas.

Esta narrativa liga-se a várias referências culturais e filosóficas. A figura misteriosa do condutor evoca o Herói Byroniano da literatura romântica - um indivíduo solitário, sombrio e carregado de culpa -, refletindo também o existencialismo urbano através da alienação e da viagem sem rumo na noite. A ideia de que "há algo em ti difícil de explicar" remete para o conceito de Doppelgänger e para a Sombra de Carl Jung, representando o lado oculto da personalidade que emerge no escuro. Além disso, a estética da autoestrada noturna remete para o Cinema Noir e para o conceito de "não-lugar" do antropólogo Marc Augé, onde o espaço urbano serve de palco para a suspensão do tempo e da moral.

O videoclipe oficial dos London Grammar reflete essa mesma atmosfera através de um ritmo lento e parado. Gravado num campo aberto e enevoado durante a noite, o vídeo mostra a banda a tocar sob luzes focadas, rodeada por elementos dispersos e aparentemente sem ligação direta: um carro vermelho com os faróis acesos, uma caravana iluminada, jovens reunidos à volta de uma fogueira e cavalos a correr no meio da névoa.

O significado deste videoclipe não passa por contar uma história linear, mas sim por traduzir visualmente o estado de espírito da canção. A lentidão das imagens e a penumbra reforçam a sensação de isolamento e melancolia. Os vários elementos funcionam como memórias desconexas ou símbolos de transição - o carro representa a viagem, a fogueira o desejo de calor e pertença, e os cavalos em liberdade simbolizam a natureza indomável dos sentimentos. Em vez de recorrer à ação ou à velocidade, o vídeo opta por uma estética contemplativa que deixa a música e a voz de Hannah Reid guiarem toda a carga dramática.

Filme Drive e filme completo aqui

Página oficial

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Adiaforização na modernidade líquida

A clássica obra de Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco radicado em Inglaterra, aponta e analisa as mudanças vivenciadas pela sociedade atual que atravessa desde o individualismo nas relações de trabalho, de família e comunidade e, indica que o tempo e o espaço deixam de ser absolutos e concretos para serem sempre líquidos e relativos.

Zygmunt Bauman tinha formação marxista e era detentor de uma extensa produção académica dotada de intensas reflexões sobre a sociedade e o mundo contemporâneo. Nasceu numa família judia e, ainda criança, teve de fugir com a família devido ao nazismo, exilando-se na URSS. O filósofo polaco chegou mesmo a combater no Exército Soviético durante a Segunda Guerra Mundial, o que viria mais tarde a ser um dos seus principais campos de estudo.

A posteriori veio a ser expulso do Partido Comunista, num episódio notabilizado pelo antissemitismo. Inicialmente mudou-se para Tel Aviv e, mais tarde, para Inglaterra, onde em 1971 adquiriu a nacionalidade britânica e veio a lecionar na Universidade de Leeds, onde permaneceria durante a maior parte da sua carreira.

Reconhece-se que Bauman foi a voz dos pobres, num mundo revoltado e aviltado pela globalização. No seu último livro intitulado "Viver com o tempo emprestado", publicado em 2009, analisou a situação e os desafios que o mundo globalizado enfrenta, em que tudo, da natureza ao ser humano, se converte em mercadoria.

Analisou a crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, tema que dominou o último ensaio de Bauman publicado no final de 2016, intitulado "Estranhos batendo à porta", no qual aborda o impacto das atuais ondas migratórias.

Ganhou o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais em 1992, o prémio Theodor W. Adorno em 1998 e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.

Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 e falecido a 09.01.2017 aos noventa e um anos, tendo-se mantido lúcido e atuante. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais a "Modernidade Líquida".

Modernidade Líquida foi publicada no ano 2000, na famosa viragem do século, sendo efetivamente lançada em 2001. Nesta ocasião, o mundo estava em pânico, pois havia diversas previsões de falhas tecnológicas em programas de computador espalhados pelo mundo; esperava-se o tão propalado bug do milénio, ou seja, as máquinas e aplicações informáticas estavam apenas preparadas para executar até 1999, o que exigiria muitas adaptações para que não se instaurasse o caos tecnológico nos diversos setores da vida humana.

O bug do milénio foi um medo coletivo de que os computadores da época não compreendessem a mudança de milénio e passassem a apresentar uma paralisia geral dos sistemas e serviços em todo o mundo.

Desde 1960, os computadores usavam calendários internos com apenas dois dígitos. Depois do ano 99, viria o 00 que as máquinas entenderiam como 1900 ou como 19100, e não como 2000.

Porém, o medo tinha pouco fundamento, visto que muitos computadores já registavam datas em quatro dígitos. Mesmo assim, não se impediu que o pânico se espalhasse pelo mundo fora e que fossem gastos muitos milhares de milhões de dólares em todo o mundo em medidas preventivas.

Na contextualização, constata-se que, durante a década de 1990, existiram crises económicas creditadas à globalização crescente, além de guerras como a do Golfo e nos Balcãs. A internet disseminava um conceito de universo social, criando tribos virtuais que iam desde o consumismo desenfreado até à militância por causas ambientalistas.

O próprio título da obra já classificou a modernidade da sociedade que avança em diversos sentidos, embora seja questionável nas suas atitudes e no seu contexto enquanto sociedade. A liquidez proposta por Bauman advém do facto de os líquidos não terem uma forma, ou seja, são fluidos que se moldam conforme o recipiente no qual estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e sofrem uma tensão de forças para se moldarem às novas formas.

Os fluidos movem-se e adaptam-se facilmente, escorrem entre os dedos, transbordam, vertem e preenchem vazios com leveza e fluidez. Muitas vezes, não são facilmente contidos, como ocorre, por exemplo, numa hídrica e num túnel de metro, lugar onde se podem observar goteiras, fissuras ou uma pequena gota numa fenda mínima. Os líquidos atingem e penetram os lugares, as pessoas, contornam o todo, vão e vêm ao sabor das ondas da conveniência do momento.

A obra traz a análise da liquidez existente em cinco tópicos básicos, a saber: a emancipação, a individualidade, o tempo e o espaço, o trabalho e a comunidade.

O filósofo apontou a questão sobre o conceito de liberdade, questionando se seria uma bênção ou uma maldição. Seria bênção, no sentido de que o indivíduo pode agir conforme os seus pensamentos e desejos, mas, em sentido contrário, cogita-se ser uma maldição, já que recai sobre o indivíduo toda a responsabilidade dos seus atos, ações e opções.

Na modernidade líquida, a hospitalidade dá lugar à crítica, onde se passa do estado de agente passivo para o de agente ativo que questiona e reflete sobre as ações e as razões das coisas e a ação do indivíduo sobre a sociedade e vice-versa.

A sociedade sólida, ou seja, a da modernidade clássica, sendo concreta, estava impregnada de um certo totalitarismo, visto ser rígida, sem resiliência, e não se adaptar às novas formas.

Bauman abordou que o principal objetivo da teoria crítica era a defesa da autonomia, da liberdade de escolha e da autoafirmação humana, do direito de ser e permanecer diferente. Noutros termos, essa hospitalidade à crítica é onde o indivíduo transita em liberdade e está aberto aos questionamentos e reflexões; o indivíduo flui então pela sociedade, pelo tempo e espaço, pode reclamar ao sentir-se prejudicado, reivindicar os direitos e exercer deveres, mas é também responsabilizado pelas ações e reações decorrentes dos seus atos.

A respeito da reflexão sobre a emancipação, Bauman traz a lume o pensamento de Max Weber, que discursava sobre a impossibilidade de se atingir a satisfação plena, porque o momento da autocongratulação e realização completa movia-se demasiado rápido, para mais e mais além, fazendo com que o indivíduo fosse impulsionado para a frente, perseguindo outros objetivos e anseios.

Para Bauman, há duas características que tornam a forma de modernidade nova e diferente: uma que relata o declínio da crença no fim do caminho em que andamos, ou seja, para ele a modernidade é um caminho infindável de oportunidades, desejos e realizações a serem perseguidos continuamente.

A segunda crença cogita sobre a mudança da desregulamentação e a privatização de tarefas e deveres modernizantes, ou seja, a tarefa apropriada ao coletivo, simbolizado na figura da sociedade, que sofreu uma fragmentação para o indivíduo.

Continuar a leitura em: Modernidade líquida, incertezas sólidas