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domingo, 13 de setembro de 2026

Já há um ano, Jason Hickel advertia sobre os efeitos desastrosos da aceleração da IA e o fetiche do crescimento: uma síntese da entrevista à Novara Media

Na sua intervenção no programa downstream da Novara Media (conduzido por Aaron Bastani), o antropólogo e economista político Jason Hickel apresentou um diagnóstico profundo e estruturado sobre o colapso ecológico, a falácia do crescimento económico infinito e as dinâmicas de aceleração tecnológica sob a lógica capitalista. o debate vai muito além do simples apelo à redução do consumo, desenhando um plano de planeamento económico democrático e ecossocialista.

1. A tirania do PIB e a ilusão do "crescimento verde"
O PIB mede a troca mercantil e não o bem-estar real. Aumentar o PIB exige transformar constantemente ecossistemas em mercadorias vendáveis. tentar manter a economia global a crescer 2% ou 3% ao ano anula a eficácia das energias renováveis.

2. A aceleração tecnológica e a IA sob o capitalismo
Sob a lógica da acumulação, a automação e a inteligência artificial não reduzem o esforço humano nem poupam recursos. Em vez disso, impulsionam uma procura energética gigante (necessária para alimentar data centers e minerar recursos) e são usadas para reduzir custos laborais e precarizar empregos. numa sociedade pós-capitalista, os ganhos da IA serviriam para reduzir a jornada de trabalho e redistribuir o tempo.

3. A reorganização da produção: o que deve crescer e encolher
sectores a reduzir / desmantelarsectores a expandir
indústria de armamento e militarismotransportes públicos universais
aviação comercial de alta frequênciasistemas de saúde e educação públicos
fast fashion e obsolescência programadaenergias renováveis e eficiência de edifícios
pecuária industrial e publicidade comercialagricultura ecológica e soberania alimentar
4. Ecossocialismo democrático e transição justa
Para garantir que a redução do uso de recursos não gera desemprego ou austeridade, Hickel defende uma garantia pública de emprego (assegurando trabalho remunerado na transição ecológica para quem dele necessite) e a desmercantilização dos serviços básicos (habitação, saúde, energia e transportes universais).

5. Dados concretos e evidência empírica
Hickel sustenta as suas teses com dados quantitativos consolidados em estudos de contabilidade de fluxos materiais e pegada de carbono:
  • extrapolação dos limites planetários: fundamentado no trabalho do stockholm resilience centre, que monitoriza os limites biofísicos da terra (como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e uso de água doce).
  • desigualdade na pegada ecológica: citando dados do global footprint network e da base de dados global de fluxos materiais da onu ambiente (unep), Hickel sublinha que o norte global é responsável por mais de 70% do uso excessivo de recursos materiais do planeta em relação aos níveis sustentáveis, e por cerca de 92% das emissões históricas de carbono acima da quota segura de 350 ppm.
  • drenagem neta do sul global: apoiado nas suas próprias investigações publicadas em revistas como a The Lancet Planetary Health, o autor demonstra que os países ricos extraem anualmente do sul global biliões de toneladas de recursos e milhões de anos de trabalho equivalente a preços desvalorizados para manter o seu nível de consumo.
  • inviabilidade do desacoplamento total: recorrendo às conclusões do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas (ipcc), Hickel aponta que não existem provas empíricas de que seja possível desacoplar o crescimento do PIB do consumo de recursos materiais à velocidade necessária para cumprir as metas do Acordo de Paris.