quarta-feira, 31 de julho de 2019

Descoberto nos Açores um grande recife de corais de águas frias


Em 20 anos a documentar o mar dos Açores, a Fundação Rebikoff fez a maior descoberta de todas as expedições: fora do Vulcão dos Capelinhos encontrou um grande recife de corais de águas frias, com muita biodiversidade.

Ver reportagem aqui

terça-feira, 30 de julho de 2019

Estudo descobre que há plásticos biodegradáveis tóxicos para a vida na água

Fonte e notícia aqui

Cientistas descobriram que um dos plásticos biodegradáveis mais comuns hoje em dia, conhecido pela sigla PHB, liberta ‘nanoplásticos’ que afectam organismos em rios e lagoas.

Os chamados bioplásticos, que podem ser degradados por micro-organismos, têm sido cada vez mais utilizados na tentativa de resolver a acumulação de lixo no ambiente.

No entanto, segundo um artigo científico publicado na revista Environmental Science: Nano, por investigadores da Universidade Autónoma de Madrid (UAM) e da Universidade de Alcalá, o polihidroxibutirato (PHB) não é inofensivo para o ambiente.

Os cientistas concluíram que o PHB “liberta durante o seu processo de degradação ‘nanoplásticos’ que produzem efeitos tóxicos sobre organismos dos ecossistemas aquáticos”, indica uma nota publicada pela UAM.

Em concreto, são dois os organismos afectados: uma alga e uma cianobactéria, ambas consideradas produtores primários em águas continentais. Ou seja, as duas espécies estão na base das cadeias alimentares em corpos de água que se encontram em terra firme, como por exemplo rios ou lagoas.

“Os produtores primários têm um papel chave nos ecossistemas, pois são a base da cadeia trófica, pelo que se estes são afectados todo o ecossistema pode sofrer danos”, considera a equipa.

Os investigadores concluíram aliás que os ‘nanoplásticos’ derivados do PHB prejudicam também consumidores primários – organismos que dependem da base da cadeia alimentar – nomeadamente uma espécie de crustáceo.

“A equipa tentou ainda perceber quais são os mecanismos por trás da toxicidade dos nanoplásticos sobre os organismos aquáticos, encontrando mecanismos de acção semelhantes aos de nanopartículas de outros materiais”, adianta a UAM.

Os usos possíveis do PHB incluem a indústria médica, como por exemplo o fabrico de fios para suturas ou de cápsulas que libertam gradualmente os medicamentos na corrente sanguínea, e também a produção de embalagens para cosméticos, produtos de limpeza e produtos farmacêuticos, entre outros.

Qual o tamanho de um nanoplástico?

Em causa estão fragmentos 400 vezes mais finos do que a grossura de um cabelo humano.

“Em curtos períodos de tempo, em condições semelhantes às que aparecem na natureza, plásticos biodegradáveis como os que são baseados em polihidroxibutirato geram nanoplásticos com uns 200 nanómetros”, explica Miguel González-Pleiter, autor principal do artigo. Os nanómetros são unidades de medida que equivalem a um milionésimo de milímetro.

Esta terá sido a primeira vez que cientistas investigaram os efeitos de nanoplásticos secundários sobre organismos, ou seja, aqueles que são produzidos em condições semelhantes às da natureza e não em laboratório. “Trata-se de uma abordagem mais próxima ao que pode estar a acontecer em ecossistemas aquáticos hoje em dia”, conclui a equipa.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O futuro da alimentação – Francisco Avillez

Fonte: Agroportal

Uma análise das tendências, mudanças e reflexões deste setor

1.    Introdução

A Humanidade vai ser confrontada nas próximas décadas com um enorme desafio: como assegurar uma alimentação saudável, sustentável e acessível para todos os cerca de 10 mil milhões de habitantes que se prevê virem a ocupar o Planeta Terra em meados do século XXI.
Trata-se, portanto, de um desafio que tem que ser encarado segundo duas óticas de análise distintas, mas complementares.
  • Uma ótica quantitativa que tem como objetivo saber se o sistema alimentar mundial será capaz de vir a produzir, nas próximas décadas, a quantidade de alimentos necessários para satisfazer as necessidades alimentares de mais de cerca de 3 mil milhões de pessoas.
  • Uma ótica qualitativa que tem por objetivo analisar em que condições é que o equilíbrio alcançável entre a oferta e a procura de alimentos, a nível global, poderá vir a ser obtido assegurando dietas saudáveis e acessíveis a todos, baseadas em modelos de produção agrícola e alimentar ambientalmente sustentáveis, regionalmente equilibrados e economicamente viáveis.
A evolução futura do sistema alimentar mundial vai ser condicionada por um conjunto diversificado de fatores que vão do crescimento demográfico às alterações climáticas, passando pelo processo de urbanização, pela evolução do nível de rendimento da população e das respetivas desigualdades, pela escassez relativa dos recursos da terra e água, pela evolução tecnológica e pelas políticas públicas no âmbito da agricultura, da alimentação, da saúde e do ambiente.
A possibilidade de se vir a ultrapassar com sucesso o desafio em causa passa não só pela vontade e empenho político dos centros de decisão privados e públicos nacionais, mas também pela criação de uma governança coerente e eficaz à escala mundial, capaz de promover as condições técnico-científicas, socioeconómicas, políticas e financeiras capazes de contribuir para a concretização, por parte do maior número possível de Países, dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU e dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
É, neste contexto, que se integra esta minha intervenção cujo objetivo é o de analisar, de forma necessariamente resumida, os seguintes aspetos:
  • Primeiro, as tendências de evolução à escala mundial no comportamento da alimentação humana.
  • Segundo, as mudanças que se deseja poderem vir a ocorrer nas próximas décadas no âmbito das dietas e dos sistemas alimentares.
  • Terceiro, algumas breves reflexões sobre o futuro da alimentação em Portugal.

2. Fatores determinantes de evolução futura dos sistemas alimentares à escala mundial

Num recente relatório da FAO intitulado “The Future of Food and Agriculture: Trends and Challenges1  são identificadas e analisadas quinze “major drivers” responsáveis pelas principais mudanças esperadas no âmbito dos sistemas alimentares no século XXI.
No âmbito desta minha apresentação irei, apenas, debruçar-me sobre cinco desses fatores, a saber:
  • Crescimento, urbanização e envelhecimento da população mundial;
  • Concorrência no uso dos recursos naturais;
  • Alterações climáticas;
  • Produtividade e inovação agrícolas;
  • Perdas e desperdícios alimentares.
2.1 Crescimento, urbanização e envelhecimento da população mundial
Apesar das taxas médias de crescimento anual da população se terem vindo a reduzir ao longo das últimas cinco décadas, a população continuou a crescer anualmente em valores absolutos, tendo atingido um aumento médio anual de 80 milhões de pessoas.
As projeções da ONU apontam para uma gradual redução destes crescimentos absolutos anuais para 55 milhões até 2050 e para cerca de 15 milhões no final do século. Daqui resulta uma previsão de um aumento da população dos atuais cerca de 7 mil milhões para 9,7 mil milhões em 2050 e de 11,2 mil milhões no final do século.
Esta futura dinâmica populacional, que será caracterizada por evoluções muito diferentes entre as várias regiões do mundo e entre as economias mais e menos desenvolvidas, irá ser acompanhada não só por uma crescente urbanização e envelhecimento, como também por uma melhoria no nível médio dos respetivos rendimentos disponíveis.
Há cerca de 35 anos, mais de 60% da população mundial vivia em zonas rurais mas, desde então, a situação foi-se alterando de modo a que, hoje em dia, cerca de 54% vive em zonas urbanas. As projeções da ONU apontam para que em 2050 mais de 2/3 da população mundial viverá em zonas urbanas.
Tudo indica que o mundo venha a ser, não só mais populoso e urbanizado, como também venha a estar mais envelhecido. Não se trata de uma nova tendência de evolução uma vez que, entre 1950 e os nossos dias, a proporção na população mundial dos indivíduos com menos de 5 anos decresceu de 13,4 para 9,1% e a dos indivíduos com mais de 65 anos aumentou de 5,1 para 8,3%.
As projeções da ONU apontam para que estas proporções evoluam até 2050 para, respetivamente, uma redução para 5,8% e um aumento para 22,7%, evolução esta que corresponderá a significativas diferenças entre regiões e economias.
Esta dinâmica demográfica foi acompanhada por um aumento do rendimento per capita da população mundial que é, hoje em dia, em média, cerca de 1,4 vezes superior ao de 1990, o qual se caracterizou, no entanto, por importantes diferenças entre Países e dentro de cada País, apontando para uma crescente desigualdade futura dos níveis de rendimento dos diferentes grupos sociais.
População mais numerosa e mais urbanizada e com níveis médios de rendimento mais elevados vai ter necessariamente um impacto muito significativo nos padrões de consumo, os quais se tenderão a caracterizar por um aumento crescente nas respetivas dietas de produtos transformados, onde os produtos de origem animal, as frutas e os hortícolas passarão a ocupar um peso cada vez mais significativo, com as implicações daí decorrentes para o futuro do sistema alimentar mundial e a consequente utilização dos recursos naturais.
2.2. Concorrência no uso dos recursos naturais
Apesar de, à escala mundial, a produção agrícola se ter tornado nas últimas décadas tecnologicamente mais eficiente, a crescente procura de alimentos e a significativa alteração nos padrões de consumo alimentar conduziram a um acréscimo significativo na concorrência pelos recursos de terra e água, da qual resultou a degradação dos solos, a desflorestação e a escassez de água.
A FAO estima que, atualmente, cerca de 33% das terras aráveis se encontram degradadas, degradação esta que contribui de forma significativa para a crescente dificuldade de expansão de áreas produtivas. Nos últimos 20 anos tem-se assistido a uma estabilização em cerca de 4,9 milhares de milhões de hectares e as projeções apontam para uma possível expansão, até 2050, da área agrícola de apenas 100 milhões de hectares, caracterizada por significativas diferenças regionais.
Nas últimas décadas a área florestal sofreu uma redução na ordem dos 100 milhões de hectares, tendo a agricultura sido a responsável por cerca de 80% deste processo de desflorestação do qual têm resultado impactos muito negativos, quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista socioeconómico. O crescente ritmo de urbanização e as mudanças esperadas nos padrões de consumo alimentar vão fazer aumentar as pressões no sentido de uma crescente desflorestação de diferentes partes do globo, existindo, no entanto, sinais que apontam para a possibilidade de se poder vir a alcançar no futuro uma crescente conciliação entre os objetivos da segurança alimentar e os de uma gestão e conservação sustentável da floresta. A procura de fontes de base biológica alternativas aos combustíveis fósseis tem, no entanto, vindo a agravar esta concorrência no uso do solo, tendência esta que se prevê vir a piorar no futuro com a procura crescente de biomassa para fins energéticos.
A crescente concorrência pelo uso da água por parte da agricultura, da indústria e dos centros urbanos tem vindo a provocar um aumento da escassez de água disponível com consequências crescentemente negativas na produção agrícola, que é, à escala mundial, a principal utilizadora deste recurso. Em consequência desta concorrência pelo recurso de água, as previsões da FAO apontam para que a área irrigável atinja, em 2050, apenas mais 12 milhões de hectares do que ocupam atualmente, o que representa uma redução muito significativa no ritmo de expansão das áreas regadas verificado nas últimas décadas. Importa sublinhar que a promoção de sistemas de rega cada vez mais eficientes tem possibilitado uma redução das necessidades de água para usos agrícolas, os quais não são, no entanto, suficientes para compensar a procura crescente de água resultante da rápida urbanização de muitas áreas do globo, situação nesta que se tenderá a agravar nas próximas décadas em consequência do processo de alterações climáticas.
2.3.    As alterações climáticas
É, hoje em dia, consensual que o Planeta Terra está a sofrer um processo de alterações climáticas que se caracteriza, no essencial, por:
  • Um aumento da temperatura média da atmosfera;
  • Uma crescente irregularidade do regime pluviométrico;
  • Uma maior intensidade e frequência dos fenómenos meteorológicos extremos.
Apesar de não ser tão consensual à escala mundial, a grande maioria dos membros da comunidade científica internacional e dos centros de decisão política nacionais e mundiais, concordam que o processo de alterações climáticas em curso resulta da crescente concentração de gases de efeito de estufa (GEE), maioritariamente decorrentes da atividade humana.
De acordo com as estimativas da FAO, as emissões líquidas de GEE pelo conjunto das atividades relacionadas com a agricultura e a alimentação atingiu em 2010 cerca de 12,3 Gt CO2e/ano, ou seja, cerca de 26% do total das emissões à escala mundial, dos quais:
  • 8 Gt CO2e/ano são atribuídos ao conjunto formado pela agricultura, floresta e outros usos do solo (AFOLU);
  • 0,9 Gt CO2e/ano às emissões produzidas com a utilização de energias não renováveis pela produção agrícola (combustíveis e energia elétrica);
  • 3,4 Gt CO2e/ano às emissões resultantes da energia utilizada na cadeia alimentar a jusante da produção.
Se considerarmos apenas o sector agrícola, pode-se concluir que as emissões líquidas de GEE representam cerca de 10,6 Gt CO2e/ano, decorrentes, na sua grande maioria, das emissões de metano (CH4) produzidas pela fermentação entérica durante o processo digestivo dos ruminantes e do cultivo do arroz e das emissões de óxido nitroso (N2O) resultantes, principalmente, da aplicação de adubos azotados e da gestão dos efluentes animais.
Se é verdade que os sistemas alimentares em geral e a produção agrícola em particular têm sido  e continuarão a ser no futuro um dos sectores responsáveis pelo crescimento dos GEE na atmosfera, não é menos verdade que a produção agrícola irá ser um dos sectores da atividade económica mais afetados pelo processo das alterações climáticas em curso, em consequência, principalmente, do seu impacto muito negativo sobre a oferta e a procura da água a utilizar pelas plantas e, portanto, sobre a produtividade agrícola.
Ao contribuir para o aumento da temperatura média da atmosfera, ao modificar o regime pluviométrico e ao alterar a intensidade e frequência dos fenómenos climáticos extremos, as alterações climáticas vão provocar:
  • variações no volume e na distribuição das disponibilidades de águas superficiais e subterrâneas e, consequentemente, uma redução da oferta de água para uso dos sistemas de produção agrícolas e florestais;
  • alterações na qualidade da água disponível decorrentes do aumento das temperaturas;
  • variações nos volumes de água utilizados pelas plantas decorrentes da redução do teor de água nos solos e dos aumentos da evapotranspiração vegetal, o que irá conduzir a um aumento da procura de água por parte dos sistemas de produção agrícola e florestais.
Neste contexto, vão assumir particular relevância os investimentos e as tecnologias e práticas agrícolas que contribuam para o aumento da capacidade de armazenamento da água, o aumento da capacidade de retenção da água dos solos, a redução do escoamento da água das chuvas durante o Inverno e o aumento da eficiência do uso da água de rega, dos quais irá depender, em grande medida, a possibilidade de se vir a assegurar a segurança alimentar da população mundial com base em sistemas de produção sustentáveis.
2.4.    Produtividade agrícola e inovação tecnológica
De acordo com as projeções da FAO vai ser necessário, para responder ao aumento esperado na procura de alimentos até 2050, um acréscimo de cerca de 50% na produção de bens alimentares, o qual corresponderá a uma duplicação da oferta de produtos agrícolas na África Subsaariana e no Sul da Ásia e a um aumento de cerca de 1/3 nas restantes regiões do mundo.
Se o comportamento futuro da produção agrícola for idêntico ao verificado nas últimas décadas, vai ser possível responder positivamente aos acréscimos da procura projetados pela FAO até 2050, uma vez que, entre 1961 e 2011, o volume global da produção agrícola mundial mais do que triplicou.
No entanto, tudo indica que as alterações climáticas, a concorrência crescente na utilização dos recursos de terra e água e o modelo tecnológico de intensificação  produtiva dominante vão tornar muito mais difícil a que no futuro se venham a alcançar ganhos de produtividade idênticos aos do passado e sem que se tendam a agravar de forma significativa os seus efeitos negativos sobre a biodiversidade, os recursos naturais e as emissões de GEE.
De facto, o modelo tecnológico agrícola dominante nas últimas décadas, baseado em ganhos de produtividade obtidos por um uso crescente de agroquímicos e de energia fóssil, não só têm vindo a dar sinais evidentes de redução das taxas e aumento das respetivas produtividades, como também do seu impacto crescentemente negativo sobre a sustentabilidade ambiental de cada vez maiores regiões do globo.
É neste contexto que importa sublinhar a importância que no futuro se deverá vir a atribuir aos investimentos no âmbito da inovação tecnológica agrícola capazes de contribuir para uma rápida transição de uma produção agrícola baseada num modelo de intensificação tecnológico dominante, usualmente designado por modelo químico-mecânico, para sistemas de agricultura baseados em modelos de intensificação sustentável, baseados em tecnologias e práticas agrícolas usualmente designadas por biológicas, de produção integrada, de precisão e/ou de conservação (ou regenerativas).
Trata-se de um processo de transição necessariamente lento porque vai implicar uma difusão generalizada pelo tecido empresarial agrícola mundial de tecnologias cuja introdução implica um esforço muito significativo de I&D e de investimento produtivo, nem sempre ao alcance dos diferentes sistemas alimentares e Países.
Assume particular relevo, neste contexto, todos os esforços que têm sido feitos para adoção e difusão de tecnologias e práticas agrícolas capazes de contribuir simultaneamente para uma utilização mais eficiente dos fatores intermédios de produção, o aumento do teor de matéria orgânica dos solos e da sua capacidade de retenção da água, assim como do restauro da biodiversidade agrícola e florestal.
Pretende-se, desta forma, contribuir para o aumento da produção de alimentos com uma utilização menor de recursos disponíveis, recorrendo crescentemente a medidas descarbonizadoras e de adaptação às alterações climáticas.
2.5.    Perdas e desperdícios alimentares
De acordo com as estimativas do “High level Panel of Experts on Food Security and Nutrition”, as perdas e os desperdícios ao longo da cadeia alimentar representam, atualmente, mais de 1/3 da produção total de alimentos à escala mundial.
Dados da FAO indicam que, em cada ano, cerca de 670 milhões de toneladas de alimentos são perdidas ou desperdiçadas nos países mais desenvolvidos e cerca de 630 milhões no conjunto dos países menos desenvolvidos.
No caso dos países menos desenvolvidos, as perdas de alimentos ocorrem fundamentalmente no âmbito das colheitas e no manuseamento e transporte dos produtos agrícolas, em consequência de deficientes infraestruturas e transporte e de baixos níveis de conhecimento e tecnológico no processo de produção.
No que diz respeito aos países mais desenvolvidos, a maior parte dos desperdícios verificam-se no âmbito do retalho e do consumidor final.
Os impactos das perdas e desperdícios alimentares são muito negativos do ponto de vista quer da utilização dos recursos disponíveis, quer dos resultados económicos dos produtores agrícolas e, muito provavelmente, do ponto de vista da disponibilidade de alimentos nas quantidades e com a qualidade necessária para garantir a segurança alimentar de uma população crescente.
É opinião generalizada que sem uma melhoria significativa da eficiência dos sistemas alimentares não será fácil reduzir as respetivas perdas e desperdícios, as quais, em última análise, irão implicar uma mudança no comportamento dos agentes económicos, sem a qual não se conseguirá ultrapassar esta situação, por muito favoráveis que sejam as políticas públicas que venham a ser adotadas. Tais políticas deverão criar condições para que se atinja uma “otimização”, do ponto de vista da sociedade, do comportamento dos diferentes agentes económicos que integram a cadeia alimentar, dos produtores aos consumidores, com potencial relevo para a adoção de medidas que reforcem a posição dos produtores na cadeia alimentar e que conduzam a uma formação de preços que assegure que o consumidor paga a totalidade dos custos ambientais e sociais de produção dos alimentos que consome.

3.    Dietas saudáveis a partir de sistemas alimentares sustentáveis

Foi publicado no início deste ano um relatório da Comissão EAT – Lancet2 que reuniu um conjunto muito vasto e pluridisciplinar de cientistas de todo o mundo e que tem por objetivo promover, à escala mundial, através de uma base científica sólida, a difusão de dietas alimentares que, sendo saudáveis, sejam baseadas em sistemas alimentares ambientalmente sustentáveis.
Pode-se afirmar que o ponto de partida deste relatório coincide com a “mensagem” implícita no relatório que serviu de base às nossas considerações no ponto 2 deste artigo, a saber, que um cenário “business as usual” não é uma opção desejável para o futuro da alimentação à escala do nosso Planeta e que só uma transformação significativa no sistema alimentar mundial é que irá permitir um equilíbrio entre a oferta e a procura de alimentos que assegurem, simultaneamente, um futuro saudável quer para a crescente população mundial, quer para o nosso Planeta.
objetivo visado pelo relatório EAT – Lancet é o de identificar e caracterizar dietas alimentares que assegurem a alimentação de quase 10 mil milhões de pessoas nos meados deste século, em condições nutricionalmente saudáveis ambientalmente sustentáveis.
Para assegurar a concretização deste objetivo, os autores do relatório estabeleceram o que designam por “metas científicas” relacionadas com a definição e quantificação daquilo que se entende quer por dietas saudáveis, quer por sistemas de produção sustentáveis.
No que diz respeito às dietas alimentares saudáveis, a difundir à escala mundial, estabelece-se como objetivo um consumo médio de 2.500 Kcal/dia e intervalos a respeitar nas quantidades a consumir diariamente dos diferentes grupos de alimentos, que apontam, no essencial, para uma grande diversidade de alimentos à base de plantas, quantidades reduzidas de alimentos de origem animal, consumo de gorduras não-saturadas em vez de saturadas e quantidades limitadas de grãos não integrais, de alimentos altamente processados e de açúcares adicionados.
Tomando como referência as dietas atualmente dominantes e o aumento previsto, até 2050, para a população mundial, a difusão deste tipo de dietas mais saudáveis vai implicar mudanças muito substanciais nas quantidades dos alimentos a produzir no futuro, que, de acordo com as estimativas apresentadas no relatório, irão corresponder ao dobro do consumo de alimentos como frutas, vegetais, legumes e frutos secos e a uma redução de mais de 50% no consumo global de alimentos como os açúcares adicionados e as carnes vermelhas. Importa sublinhar que tais mudanças irão ter implicações muito diferentes de acordo com o consumo atual das diferentes regiões do mundo, sendo particularmente penalizadoras do consumo considerado excessivo por parte das populações dos países mais ricos.
Para os autores do relatório, assumem, neste contexto, particular relevo as ações que venham a ser desenvolvidas no futuro ao combate às perdas e desperdícios de bens alimentares, sem o qual irá ser ainda mais difícil conciliar à escala mundial dietas saudáveis com sistemas alimentares sustentáveis.
Na sua análise, os responsáveis pelo relatório em causa, concluem que as mudanças de dieta propostas poderão contribuir, se forem difundidas à escala mundial, para que se possam obter grandes benefícios para a saúde humana, uma vez que irão permitir uma redução na subnutrição, na carência de micronutrientes e na sobrenutrição e obesidade que, de uma forma ou de outra, afetam atualmente grande parte da população mundial.
No que diz respeito à identificação dos sistemas alimentares sustentáveis, o relatório identifica um conjunto diversificado de fatores que os seus autores consideram necessários para o seu reconhecimento como ambientalmente sustentáveis, assim como as respetivas variáveis de controlo e os seus limites à escala global.
São os seguintes os fatores considerados e as respetivas variáveis de controlo:
  • Alterações climáticas cuja variável de controlo são as emissões de GEE;
  • Mudanças no uso dos solos cuja variável de controlo são áreas ocupadas por culturas agrícolas;
  • Utilização de água doce cuja variável de controlo são os volumes de água utilizada;
  • Ciclo do azoto cuja variável de controlo são os volumes de N aplicado;
  • Ciclo do fósforo cuja variável de controlo são os volumes de P aplicado;
  • Perda de biodiversidade cuja variável de controlo é a respetiva taxa de extinção.
Uma vez identificadas e quantificadas as dietas saudáveis e os limites a respeitar pelos sistemas de produção sustentáveis em relação aos diferentes tipos de fatores em causa, os autores do relatório procederam à elaboração de diferentes cenários alternativos e à análise da sua contribuição para a difusão de dietas alimentares “win-win”, ou seja, dietas que assegurando um nível de alimentação adequado da futura população mundial, contribuem simultaneamente para a melhoria da saúde humana e para a sustentabilidade do nosso Planeta.
Tendo concluído que é possível estabelecer dietas saudáveis baseadas em sistemas alimentares sustentáveis capazes de assegurar, até 2050, uma alimentação adequada para cerca de 10 mil milhões de pessoas, os autores do relatório reconhecem que a transformação do modelo de consumo alimentar atual para uma alimentação futura mais saudável e sustentável vai exigir, à escala mundial, mudanças muito substanciais nos hábitos de consumo e nos processos produtivos atualmente dominantes.
No entanto, os autores do relatório EAT – Lancet, consideraram que os dados disponíveis são suficientes para que se possa admitir que a transformação em causa seja alcançável ao longo das próximas três décadas, desde que se venham a adotar as quatro seguintes estratégias:
  • Procurar alcançar um compromisso nacional e internacional para que se possa assegurar uma mudança generalizada para dietas mais saudáveis;
  • Reorientar as prioridades dos sistemas agrícolas de produção de grandes quantidades de alimentos para a produção de alimentos saudáveis e diversificados;
  • Apostar numa nova revolução agrícola baseada em modelos de intensificação tecnológica sustentáveis;
  • Reduzir para pelo menos metade as perdas e os desperdícios alimentares;
  • Alcançar uma plataforma de cooperação e governança mundial capaz de assegurar a conservação da biodiversidade terrestre e a melhoria da gestão dos oceanos.
Só assegurando a concretização destas estratégias é que, na opinião dos responsáveis pelo relatório EAT – Lancet, será possível atingir os Objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e cumprir com os compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

4.    Breves reflexões sobre o futuro da alimentação em Portugal

Todos estes temas sobre o estado atual e o futuro da alimentação humana têm vindo a ser, nos últimos anos, debatidos entre nós, com diagnósticos e análises prospetivas que não diferem muito, no essencial, do anteriormente apresentado.
Gostaria, neste contexto, de relembrar o ciclo de conferências intitulado O Futuro da Alimentação, Ambiente, Saúde e Economia que decorreu, entre 9 de março e 13 de dezembro de 2012, na Fundação Calouste Gulbenkian e que deu origem a uma publicação com o mesmo nome3.
Trata-se de um conjunto de dezanove conferências da responsabilidade de especialistas nacionais e estrangeiros que abordaram, segundo diferentes óticas, as problemáticas em causa e cuja leitura aconselho a todos aqueles que queiram aprofundar os seus conhecimentos sobre esta problemática em Portugal.
No contexto desta minha apresentação, limitar-me-ei a chamar a atenção para algumas das “ideias-chave” que os organizadores do ciclo de conferências consideraram “constituir uma plataforma em que as diversas visões podem falar entre si, ao mesmo tempo que afirmam a sua diversidade”. Importa sublinhar que estas ideias-chave constam da introdução da publicação em causa sugestivamente intitulada “Uma alimentação com futuro, saudável, sustentável e acessível a todos”.
Uma primeira ideia é que as soluções para o futuro da alimentação devem passar por uma abordagem integradora dos diversos saberes disciplinares relacionados com as problemáticas da alimentação e avaliadas com base em conhecimentos científicos sólidos. Em diversos países, esta abordagem tem-se baseado em comissões interdisciplinares para a alimentação, com a participação dos consumidores, produtores agrícolas, indústrias agroalimentares e ONG e de especialistas em diversas áreas disciplinares.
Uma segunda ideia é a de que a alimentação do futuro não vai ser um regresso ao passado, que para além de não ser possível também não é desejável. A cultura, a tradição e os modos de produção e de alimentação do passado e do presente, por muito estimáveis que sejam, vão ter que ser reinventados no futuro contexto global, regional e local, com realismo e com o apoio à moderna ciência e tecnologia. Só através de um diálogo entre o conhecimento científico e tecnológico e os saberes locais é que será possível reinventar futuras soluções capazes de contribuir para a difusão de dietas saudáveis e sustentáveis, acessíveis para todos.
terceira ideia consiste na necessidade de se reconhecer que os desafios do futuro na área da alimentação vão ter uma tal dimensão que se deverá explorar ao máximo as complementaridades existentes entre diferentes vias de atuação, em vez de se cair em dicotomias estéreis como as que atualmente opõem os defensores do uso das novas biotecnologias aos apologistas dos modos de produção biológico ou agroecológico. A necessidade de se vir a alimentar nas próximas décadas mais de cerca de 3 mil milhões de pessoas, num Planeta sujeito a alterações climáticas e com recursos naturais cada vez mais insuficientes, irá implicar seguramente uma utilização inteligente e complementar de todas as opções produtivas e tecnológicas disponíveis, avaliadas de forma transparente e aberta, com base na evidência científica existente e no princípio da precaução.
quarta ideia é a de que o futuro da alimentação vai implicar uma substituição do modelo de intensificação tecnológica agrícola atualmente dominante (o modelo “químico-mecânico”) por um novo modelo de “intensificação sustentável”, baseado numa combinação equilibrada entre:
  • tecnologias orientadas para o aumento da eficiência no uso dos inputs agrícolas (agroquímicos, água e energia), através de uma sua aplicação mais precisa e dirigida (máquinas e técnicas agrícolas de precisão, novos métodos de rega, produção integrada…), com base numa difusão mais generalizada das novas tecnologias de informação e da biotecnologia;
  • práticas agronómicas que visam a substituição parcial dos inputs agrícolas, através do controlo da erosão, da melhoria da estrutura e da fertilidade dos solos, do aumento da capacidade de retenção da água pelos solos (mobilização mínima, enrelvamento, rotações culturais com culturas melhoradas e fixadoras de azoto no solo, modo de produção biológico…) e que exigirão um conhecimento mais aprofundado do funcionamento dos ecossistemas agrícolas.
Trata-se, portanto, e ao contrário daquilo que possa parecer, de um processo tecnológico muito exigente cuja difusão irá implicar políticas públicas adequadas no âmbito da fileira do conhecimento, da inovação, da organização dos produtores e dos incentivos à produção de bens públicos de natureza agroambiental e agroclimática.
quinta ideia está relacionada com o papel decisivo das escolhas dos consumidores para uma futura alimentação saudável e ambientalmente sustentável. De facto, as escolhas alimentares dos consumidores vão ser um dos fatores mais decisivos, quer para a saúde e o bem-estar das populações, quer para o combate às alterações climáticas e o uso sustentável dos recursos naturais. Neste contexto, a modificação do comportamento e das decisões de consumo é uma questão-chave para o futuro da Humanidade, a qual irá implicar uma abordagem integrada com múltiplas ações ao nível da escola, da educação, da publicidade, da rotulagem, das compras públicas, da regulação da oferta pública em meio escolar e da limitação de certos produtos no conteúdo dos alimentos, assim como do papel determinantes dos profissionais de saúde.
Uma sexta ideia diz respeito à necessidade de se levar em consideração as desigualdades económicas e sociais na abordagem das questões da alimentação em geral e, em particular, das insuficiências nutricionais específicas de largos estratos da população.
A este conjunto de ideias-chave identificadas pelos organizadores das conferências da Fundação Calouste Gulbenkian sobre o futuro da alimentação, gostaria de acrescentar outras três que decorrem do tema por mim nela abordado e que intitulei de Autossuficiência alimentar: mitos e realidades.
primeira é de que a autossuficiência alimentar não é um objetivo nem desejável nem realizável, para o futuro sector agroalimentar nacional, o mesmo se aplicando à constituição de uma reserva estratégica alimentar nacional. Em minha opinião, nem Portugal nem a UE têm atualmente (nem irão ter num horizonte temporal previsível) falta de segurança no abastecimento nos mercados de bens alimentares, não existindo, portanto, motivos para privilegiar a produção de bens agroalimentares em detrimento dos produtos florestais ou dos bens públicos ambientais. Assim sendo, é minha opinião que a PAC deve privilegiar, no futuro, sistemas de ocupação dos solos e práticas preferencialmente orientadas para uma produção agroalimentar baseada num modelo de intensificação tecnológico sustentável e orientado para o fornecimento, quer de bens capazes de competir em mercados cada vez mais alargados e concorrenciais, quer de bens públicos de natureza agroalimentar e agroclimática.
segunda está intimamente associada com a anterior e diz respeito à opinião de que o comércio internacional de produtos agroalimentares deve ser “condicionado” pelos efeitos negativos que pode acarretar para a segurança alimentar nacional. Em minha opinião, o comércio internacional de produtos agrícolas desempenha um papel vital neste contexto, uma vez que é ele que permite o equilíbrio entre os déficits alimentares dos Países importadores líquidos e os excedentes alimentares dos Países exportadores líquidos, assegurando, assim, níveis mais favoráveis dos preços, no produtor e no consumidor, desses bens nos dois tipos de Países.
No entanto, uma crescente abertura dos mercados agrícolas tem gerado preocupações inteiramente legítimas quanto a um seu potencial efeito negativo para a segurança alimentar, de que resultam consequências negativas sobre os rendimentos dos produtores/consumidores, flutuações exageradas nos preços dos bens alimentares, maiores dificuldades de acesso aos alimentos pelos mais desfavorecidos, e maior dependência da importação de alimentos tornando os países mais sensíveis às subidas de preços mundiais e a eventuais restrições às exportações por parte dos países excedentários.
A resposta a estas preocupações não deve, no entanto, ser procurada, como muito frequentemente se faz, em instrumentos de política de preços e mercados (direitos sobre as importações, restrições às exportações, reservas estratégias alimentares nacionais…) que dificultem o funcionamento normal dos mercados, mas antes em políticas públicas baseadas em medidas de estabilização de preços e rendimentos agrícolas, em medidas de gestão de riscos de mercado, em redes de segurança social, e numa cada vez maior cooperação internacional na gestão dos stocks de bens alimentares.
terceira está relacionada com a forma negativa como muitas vezes é encarado o papel desempenhado pela indústria e a grande distribuição no contexto do sistema alimentar mundial.
O aumento populacional e a sua crescente urbanização tornaram indispensável a produção de alimentos que possam ser facilmente armazenados e transportados, o que faz com que transformação e distribuição dos bens alimentares passassem a constituir componentes chave dos sistemas alimentares. Daqui resultaram cadeias de valor cada vez mais caracterizadas pela coordenação vertical, pela integração vertical, pelo aumento da escala das atividades de produção, transformação e distribuição e pela intensidade do respetivo capital.
É verdade que tal evolução, tendo contribuído para a criação de novas oportunidades de emprego, constituiu, em muitos casos, um obstáculo ao acesso dos pequenos produtores, industriais e comerciantes aos mercados local, nacional e global, com as consequências negativas daí resultantes. Tal facto, não invalida, no entanto, o papel positivo que estas cadeias alimentares têm tido na melhoria do abastecimento das populações urbanas e na qualidade e segurança sanitária dos alimentos, facilitando, simultaneamente, o acesso a dietas mais diversificadas, mas também, muitas vezes menos saudáveis e com impactos potencialmente mais negativos do ponto de vista ambiental.
Neste contexto, sou de opinião, que o que interessa é criar condições para ultrapassar os aspetos negativos identificados, reforçando a posição dos produtores nas respetivas cadeias alimentares e atribuindo à indústria e à distribuição um papel cada vez mais importante na difusão de dietas alimentares que, sendo acessíveis a todos, sejam cada vez mais saudáveis e ambientalmente sustentáveis.
Nota: este texto serviu de base à intervenção do Professor Francisco Avillez, enquanto Keynote Speaker do 7º Congresso da FIPA, realizado a 25 de junho de 2019.

domingo, 28 de julho de 2019

Bruxelas notifica Portugal por falta de proteção de habitats

A Comissão Europeia iniciou hoje um processo da infração a Portugal por falta de proteção de 'habitats' e espécies indígenas, tendo Lisboa um prazo de dois meses para responder às questões de Bruxelas.
Fontes: aqui e aqui

Segundo a carta de notificação - a primeira etapa de um processo de infração - Portugal (bem como a Polónia e a Roménia) não assegurou "a adequada proteção de habitats e espécies indígenas com a designação de zonas de proteção da natureza", conforme previsto na legislação comunitária.
Em causa estão as diretivas 92/43/CEE relativa aos 'habitats' e a 2009/147/CE relativa às aves, relativa à rede natura 2000, e ao abrigo das quais os Estados-membros deveriam ter proposto todos os sítios adequados de importância comunitária.

Bruxelas considera que Portugal não propôs todos os sítios e os que foram propostos "não abrangem de forma adequada os vários tipos de 'habitats' e espécies que necessitam de proteção".


O alerta foi feito esta semana pela associação Zero e também pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), que criticam o facto de não estar a ser cumprida a legislação comunitária relativa à designação de áreas protegidas no âmbito da Rede Natura 2000, com a proposta de sítios adequados de importância comunitária.

Portugal tem agora dois meses para responder a esta carta de notificação formal enviada pela Comissão Europeia, por incumprimento de directivas na área da conservação da natureza. Caso não o faça de forma satisfatória, Bruxelas poderá continuar com o processo de queixa em curso, enviando um parecer fundamentado.

Em Portugal, segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, existem hoje 106 áreas designadas no âmbito da Directiva Habitats, das quais 96 foram até agora reconhecidas como sítios de importância comunitária, destinados à protecção de diferentes habitats e espécies.

No âmbito da Directiva Aves, encontram-se classificadas 62 zonas de protecção especial, dirigidas à conservação de espécies de aves. Em conjunto, estas áreas formam a designada Rede Natura 2000, mas Bruxelas avisa que são insuficientes.

Já em 2016, a Comissão Europeia tinha avançado com um procedimento idêntico, lembram os ambientalistas.

“A ZERO considera que sucessivos governos desde o início do século têm evitado classificação no quadro das Diretivas anteriormente mencionadas porque, em diversos casos, isso inviabilizaria vários investimentos”, alerta esta associação, numa nota entretanto divulgada.

Dragagens no Sado

Estão em causa, exemplificam, as dragagens previstas para o Estuário do Sado, “uma obra que seria inviável dado que está ainda por classificar o Sítio Costa de Setúbal, bem como a expansão para os valores da Região Biogeográfica do Mar Atlântico do Sítio de Interesse Comunitário Estuário do Sado”.

No que respeita à extensão das disposições da Directiva Habitats ao meio marinho em Portugal Continental, adianta a Zero, verificou-se que “os sítios de importância comunitária já designados não eram suficientes para a conservação do roaz (Tursiops truncatus), do boto (Phocoena phocoena), do sável (Alosa alosa), da savelha (Alosa fallax) e da lampreia (Petromyzon marinus), bem como dos habitats 1110 (bancos de areia permanentemente cobertos por água do mar pouco profunda) e 1170 (recifes).

No que respeita ao roaz, que apresenta um “estado de conservação favorável”, a população residente no Estuário do Sado tem “um grau de conservação médio ou reduzido”. Já no caso dos botos, ameaçados de extinção, Portugal e Espanha têm “responsabilidades acrescidas”, uma vez que albergam “os principais núcleos de uma população que futuramente poderá ser designada como uma nova subespécie (Phocoena phocoena meridionalis).”


Faltam medidas de gestão adequadas no terreno

“Portugal tem áreas únicas que merecem não ter apenas o nome de áreas protegidas, mas ser realmente geridas e preservadas de forma a salvaguardar os seus valores naturais”, afirmou por sua vez Joaquim Teodósio, um dos coordenadores de conservação da SPEA, num comunicado desta associação.

Além dos Sítios de Importância Comunitária marinhos do Estuário do Sado e da Costa de Setúbal, a SPEA salienta que Portugal tem de avançar com a classificação de outras zonas já identificadas como “cruciais para a biodiversidade”: as Zonas de Protecção Especial marinhas dos Açores e da Ria Formosa ou a Zona de Protecção Especial da Lagoa dos Salgados.

No entanto, embora a designação destas zonas como parte da Rede Natura 2000 seja “um passo fundamental”, tanto a SPEA como a Zero avisam que é preciso ir mais longe.

Mesmo muitas das áreas já classificadas como parte da Rede Natural 2000 sofrem de falta de gestão, o que leva a uma “degradação profunda”, com “graves impactos para as espécies que estas áreas deviam proteger.” Um exemplo? O declínio de espécies como o sisão no Alentejo, que “em menos de 15 anos sofreu uma redução de cerca de 50%”, devido à falta de medidas de gestão adequadas nas zonas de protecção especial de aves estepárias, lembra a SPEA.


Quase todos os planos de gestão por fazer

Por sua vez, a associação Zero lembra que tanto os sítios de importância comunitária como as zonas de protecção especial já existentes “não dispõem ainda de um cadastro de valores naturais em presença, suportado na existência de uma cartografia de habitats e de populações espécies protegidas validada cientificamente”. Esses trabalhos estão agora em execução “com atrasos incompreensíveis.”

Entretanto, só a Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo tem um plano de gestão já aprovado, estando os planos para as restantes áreas ainda à espera de adjudicação ou ainda em elaboração, critica.

“Também neste caso, a ausência de caracterização e delimitação adequada dos habitats na área do litoral alentejano incluídas no Sítio de Interesse Comunitário Costa-Galé relativamente ao qual não há plano de gestão, tem permitido viabilizar diversos empreendimentos turísticos em áreas como a Comporta, Pinheirinhos e Costa Terra”, conclui a Zero.

sábado, 27 de julho de 2019

Agostinho da Silva



"- Já reparou naquilo a que chamo a agonia do trabalho? Toda a nossa vida gira em função do trabalho. Quando se pergunta a alguém o que é, nunca temos a resposta: sou homem ou sou mulher. Diz-se: sou engenheiro, electricista, médico. Só se é gente em referência ao trabalho. Um desempregado sente-se um pária e, todavia, ele é gente, a coisa mais extraordinária que se pode ser. Espero que as máquinas venham restituir às pessoas, aliviando-as do trabalho, a capacidade criativa, aquilo que nelas se oculta. Mas a transição parece-me estar a ser difícil porque as pessoas demoram muito tempo a render-se ao novo. Exigem provas seguras, entram com cautela no desconhecido."

- Agostinho da Silva, AGOSTINHO, ENSINE-NOS (Entrevista a Lurdes Féria), 1986, in DISPERSOS, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1988, p. 113.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Don Walsh: com a subida das águas do mar, “teremos nações inteiras a ter de ir embora”

Foto e notícia aqui

Foi há quase 60 anos que o tenente norte-americano Don Walsh e o engenheiro suíço Jacques Piccard decidiram ir onde nunca ninguém tinha ido: o ponto mais fundo do mar, na Fossa das Marianas, a quase 11 mil metros de profundidade — e conseguiram-no. Agora, volvidas seis décadas, o oceanógrafo Don Walsh tem notado nas suas expedições o efeito destruidor das alterações climáticas e deixa o alerta de que ainda “temos tempo” para mudar as cidades costeiras para terrenos mais elevados; caso contrário, haverá cada vez mais refugiados climáticos. “Pela primeira vez na história da humanidade, teremos nações inteiras a ter de ir embora das suas terras por causa das alterações climáticas. Para onde vão?”, questiona.

É o caso das ilhas Seicheles, de Tuvalu ou das Maldivas, onde a maior parte do terreno está nem a um metro acima do nível da água do mar, diz ao PÚBLICO Don Walsh, numa entrevista à margem da Conferência Global de Exploração (Glex), que se realizou pela primeira vez em Lisboa para assinalar os 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães. “É um assunto muito sério e o mais provável é que muitas das pessoas perderão as suas casas e as suas terras por não darem ouvidos aos conselhos dos especialistas”, explica.

De olhos postos no rio Tejo, Don Walsh refere que a natureza se mexe devagar, mas que é ela que está ao comando. “Nesta zona ribeirinha de Lisboa não se está muito acima do nível da água. Até ao final deste século, poderemos não ter edifícios submersos, mas as estradas e infra-estruturas começarão a ficar inundadas”, aponta o explorador.

No “rés-do-chão” do oceano

Dos 87 anos de vida de Don Walsh, a maior parte deles foi passada enquanto uma das únicas duas pessoas no mundo a ter ido ao ponto mais fundo do oceano (em 2012 o realizador James Cameron juntou-se à lista, assim como Victor Vescovo em Maio deste ano; Jacques Piccard morreu em 2008). Foi quando tinha 28 anos, a 23 de Janeiro de 1960, que se aventurou com Jacques Piccard a bordo do batíscafo Trieste – desenhado pelo pai de Piccard, Auguste – até ao Challenger Deep, uma ranhura nas profundezas da Fossa das Marianas que é o ponto mais fundo do mar (o nome é uma homenagem ao navio britânico Challenger II, que descobriu o ponto em 1951). Chegaram aos 10.911 metros.

Feliz centenário James Lovelock! James Lovelock celebra seu centenário e 50 anos da Teoria de Gaia

Neste ano de 2019, celebra-se o centenário do nascimento de James Lovelock e sua Hipótese ou Teoria de Gaia cumpre meio século, pois foi descrita pela primeira vez em 1969 e publicada 10 anos depois, em 1979.

Foto: Nick Ansell

James Ephraim Lovelock nasceu há cem anos, no dia 26 de Julho de 1919, em Letchworth Garden City, no Reino Unido.

A Hipótese Gaia

James Lovelock ficou famoso por ser o primeiro em formular uma teoria científica na qual se aborda uma intuição profunda no pensamento humano: que o Planeta está vivo e que é um organismo complexo em si mesmo. Lovelock formulou esta hipótese, que na atualidade é uma teoria, enquanto trabalhava como consultor da Agência Espacial dos Estados Unidos, a NASA, na década de 60.

Nessa mesma época, a petroleira Shell Oil o convidou como consultor para um programa cuja finalidade era imaginar como seria o mundo no ano 2000; enquanto a maioria dos expertos falava de veículos alimentados por energia obtida através da fusão e outras tecnologias futuristas, Lovelock previu que para o ano 2000 o grande problema seria ambiental e “estaria afetando o seu negócio”.

Ao esboçar sua hipótese, Lovelock definiu Gaia como “uma entidade complexa que inclui a biosfera, atmosfera, oceanos e terra, constituindo na sua totalidade um sistema retroalimentado que busca um entorno físico e químico propício para a vida no Planeta”.

Naquele momento, a Hipótese de Gaia gerou intensos debates na comunidade científica e filosófica pelas suas implicações sociais e inclusive metafísicas. Era uma nova “fronteira”. O nome de Gaia foi sugerido pelo seu amigo, o escritor e Prêmio Nobel de Literatura de 1983, William Golding, autor de “O senhor das moscas”. O que ficou de Gaia meio século depois?

Num artigo publicado por The Guardian, Lovelock, diz que “43 anos depois, isso foi o que aconteceu”, destacando a sua autoria por se antecipar ao que está acontecendo no nosso Planeta. Segundo Decca Altkenhean, jornalista do The Guardian, suas predições, emitidas desde um “laboratório de um só homem”, lhe garantiram um lugar como um dos cientistas britânicos independentes mais respeitados.

Trabalhando sozinho desde que tinha 40 anos, Lovelock inventou o detector de captura de elétrons, que permitiu detectar componentes tóxicos em regiões tão remotas como a Antártida e o crescente buraco na Camada de Ozônio (o trabalho do químico mexicano Mario Molina, que o levou a conquistar o Prêmio Nobel de Química em 1995, está inspirado em Lovelock).

Foto: Ondrej Prosicky

No seu último livro, “The Revenge of Gaia” (A Vingança de Gaia), James Lovelock previu que o clima extremo seria a norma causando grande devastação. Também afirmou que no ano 2040 Europa se pareceria com o Saara e boa parte de Londres estaria sob a água. Estes cálculos são mais radicais do que os do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas não completamente distantes das suas estimativas.

Na opinião de Lovelock, houve sete desastres similares ao que está por acontecer desde que os humanos evoluíram. “Acredito que estes eventos continuam, separando o joio do trigo e, eventualmente, sim teremos um ser humano no Planeta que entenderá isso e viverá de forma apropriada. Essa é a fonte do meu otimismo”, disse.

Segundo ele, a evolução do nosso Planeta, não se comporta de uma maneira linear, mas sofre descontinuidades e grandes saltos no seu trajeto. A história da Terra e a dos modelos climáticos simples baseados na noção de um Planeta vivo e responsivo sugere que a mudança repentina e supressiva é mais possível do que a suave curva ascendente da temperatura que predizem a maioria dos modelos para os próximos 90 anos.

Na Teoria de Gaia, estabelece que a Terra é um superorganismo, composto por uma rede vivente que, através de sua interação configura o delicado equilíbrio da biosfera. O Planeta é um ser vivo possivelmente inteligente (sua inteligência é a evolução mesma); uma unidade da qual todas as formas de vida são parte, que se reproduz autorreferencialmente através da autopoiesis e se autorregula para se manter homeostática.

berbak ridwanpambudi – Indonésia

Ainda que a sua teoria fosse usada para firmar as crenças do New Age e as do “movimento verde”, Lovelock não acredita nas ações estilo “salvar o planeta deixando de usar sacolas de plástico”, ou coisas pelo estilo. Lovelock acredita que este tipo de coisas são uma fantasia e uma ilusão que nos fizeram acreditar para nos sentirmos melhor, mas não fazem diferença.

“É tarde demais. Talvez se tivéssemos tomado uma rota diferente em 1967, teria ajudado. Mas, não temos tempo. Estas coisas verdes, como o desenvolvimento sustentável, eu acredito que são apenas palavras que não significam nada. Muitas pessoas vêm até mim e me dizem que não posso dizer isso, porque faz que não tenham nada a fazer. Eu digo que, pelo contrário, nos dá uma imensa quantidade de coisas a fazer. Só que não do tipo de coisas que querem fazer”, disse respondendo a perguntas numa entrevista do The Guardian.

Há que dizer que James Lovelock é sumamente controvertido e que suas predições foram apoiadas pelo IPCC. Parece amar a polêmica. Não acredita que a energia renovável permita alimentar uma sociedade como a nossa. Em troca, prefere a energia nuclear.

Ele considera que, ao ter ultrapassado um ponto crítico, o aquecimento global fará com que boa parte do mundo seja inabitável e que desaparecerão até 80% dos seres humanos. O que fazer perante isso tudo? Lovelock diz sorridente: “Desfrutar da vida enquanto se pode. Porque se se tem sorte ainda ficam 20 anos antes que tudo se desmorone”.

A Teoria de Gaia se baseia na ideia de que a biosfera autorregula as condições do Planeta para fazer seu entorno físico (especialmente temperatura e química atmosférica) mais hospitaleiro para as espécies que conformam a “vida”. A Teoria de Gaia define esta “hospitalidade” como uma completa homeostase. Um modelo simples que se usa para ilustrar a Hipótese de Gaia é a simulação do mundo das margaridas.

De acordo com a Segunda Lei da Termodinâmica, um sistema fechado tende à máxima entropia. No caso do Planeta Terra, sua atmosfera deveria estar em equilíbrio químico, composta majoritariamente de CO2 (estimou-se que a atmosfera deveria se compor de, aproximadamente, 99% de CO2) apenas com vestígios de oxigênio e nitrogênio. Segundo a Teoria de Gaia, o fato de que hoje em dia a atmosfera se configure com 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e apenas 0,3% de dióxido de carbono se deve a que a vida, com sua atividade e sua reprodução, mantém estas condições que a fazem habitável para muitas formas de vida.

Antes da formulação da Hipótese Gaia se supunha que a Terra possuía as condições apropriadas para que a vida acontecesse nela; e que esta vida tinha se limitado a se adaptar às condições existentes, assim como as mudanças que se produziam nessas condições.

A Hipótese de Gaia propõe que dadas as condições iniciais que fizeram possível o início da vida no Planeta, teria sido a própria vida que foi se modificando e, portanto, as condições resultantes são consequência e responsabilidade da vida que a habita. Para explicar como a vida pode manter as condições químicas de Gaia, a bióloga Lynn Margulis co-criadora da Teoria de Gaia desde 1971 e autora de “The Symbiotic Planet”, destacou a grande capacidade dos microrganismos para transformar gases que contêm nitrogênio, enxofre e carbono.

A cosmovisão da Terra viva

Ainda que o conceito de uma Terra viva seja antigo, devemos a Newton a comparação do Planeta com um animal ou um vegetal. James Hutton, (1726-1797), considerado um dos precursores da Hipótesie de Gaia, Aldous  Huxley, Vladimir Vernadsky e Pierre Teilhard de Chardin expressaram pontos de vista similares, mas, ao carecer de dados quantitativos, essas ideias pioneiras ficaram na anedota ou em meras declarações.

Lovelock iria depurando a sua proposta. Em 1981 criou um modelo de plantas de cores escuras e claras que competiam num planeta com crescente irradiação de luz solar. Tratava de mostrar que a Hipótese de Gaia era coerente com a seleção natural.

Em 1986, o climatologista Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren descobriram o nexo existente entre o gás biogênico dimetilsulfureto (produzido por algas oceânicas), sua oxidação na atmosfera para formar núcleos de condensação nebulosa e o efeito subsequente de criação das nuvens. Margulis, aportou ao modelo a função desempenhada pelos microrganismos que constituem a infraestrutura biológica da Terra. Se durante boa parte da história do Planeta ocuparam todos os espaços da biosfera, em nosso tempo resultam também vitais para uma regulação eficaz da mesma.

Com efeito, os microrganismos do solo são os responsáveis pela produção de gases que encontramos na atmosfera; o vapor de água, o dióxido de carbono e o amônio reduzem a perda de radiação da Terra ao espaço, graças a sua absorção infravermelha.

Estamos falando do Efeito Estufa, graças ao qual a atmosfera mantém o Planeta bastante mais quente do que estaria por si mesmo. Tudo indica que nos primeiros estágios da Terra o Efeito Estufa desempenhou uma missão principalíssima, que foi diminuindo conforme o Sol ia enviando mais calor. Mas, não percamos de vista que os gases decisivos do Efeito Estufa são produzidos pelos organismos.

Geofisiologia

Como o próprio Lovelock declarou em 1969 a Terra é um sistema auto-regulável capaz de manter o clima e a composição química confortável para os organismos. Essa hipótese – a Hipótese de Gaia, agora Teoria de Gaia – ainda deve ser provada. Uma crítica a essa teoria é a que se relaciona com a Teologia. “Esta acusação é injusta, pois nunca me propus atribuir-lhe um propósito ou uma visão do futuro. Seja correta ou não, é uma teoria comprovável e capaz de realizar predições “arriscadas”. Uma delas foi que deveria haver uma emissão de sulfato de dimetilo suficientemente grande desde os oceanos para equilibrar o pressuposto de sulfuro natural”.

“Uma confirmação preliminar veio de minhas próprias medições em 1972, e foi completamente confirmada por M. O. Andreae de forma independente. Mais tarde, considerando a predição por parte de Gaia da regulação do clima, Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren postularam que a densidade das nuvens estava modulada pela abundância de sulfato de dimetilo na atmosfera, e que isso por sua vez mudava o albedo da Terra e a temperatura média da superfície”.  “Esta proposta foi publicada como artigo na revista científica Nature em 1987 e ainda está a ser provada. A Teoria de Gaia também ofereceu uma interpretação da regulação em longo prazo do dióxido de carbono e o clima através da erosão biótica das rocas. Esta proposta foi confirmada por Schwartzman e Volk em 1989”.

A obra científica de James Lovelock

Lovelock é autor de quase 200 artigos científicos, distribuídos equitativamente entre temas de medicina, biologia, ciência instrumental e geofisiologia. Possui mais de 50 patentes, na sua maioria de detectores para uso em análises químicas. Um deles, o detector de captura de elétrons, foi importante para o desenvolvimento da consciência ambiental. Revelou pela primeira vez a distribuição ubíqua dos resíduos dos pesticidas e outros compostos químicos que contêm halogêneos.

Esta informação permitiu a Rachel Carson escrever seu livro “Primavera silenciosa” (considerado o iniciador da tomada de consciência ambiental. Mais tarde permitiu a descoberta da presença de PCB (Bifenilos policlorados no meio ambiente. Mais recentemente, o detector de captura de elétrons permitiu descobrir a distribuição global de óxido nitroso e de clorofluorcarbonos, ambos importantes na química do ozônio estratosférico. Algumas dessas descobertas foram adotadas pela NASA nos seus programas de exploração interplanetária. A NASA lhe outorgou 3 certificados de reconhecimento .

James Lovelock fora de ser o criador da Hipótese de Gaia (agora chamada Teoria de Gaia) e escreveu outros quatro livros sobre esse tema: “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: Um Novo Olhar sobre a Vida na Terra” (1979); o segundo é “Ages of Gaia – As Eras de Gaia” (1988).

O terceiro é “Gaia: The Practical Science of Planetary Medicine – Gaia: una ciência para curar o planeta” (1991) e o quarto, “Homage to Gaia: The Life of an Independent Scientist – Homenagem a Gaia. A vida de um cientista independente” (2000). O principal interesse de Lovelock se focaliza nas Ciências da Vida. No início. através da pesquisa médica e, depois, em relação com a Geofisiologia, a ciência dos sistemas da Terra. Seu segundo âmbito de interesse, o do projeto e desenvolvimento de instrumentos, interagiu com o primeiro gerando benefício mútuo.

As conferências sobre a Hipótese de Gaia

Berbak Sembilang Biosphere Reserve – Indonesia

As comunidades científicas de Ciências da Terra, Ciências da Vida e de Filosofia da Biologia debateram nestes 50 anos os diversos aspectos da Hipótese de Gaia. São muitos os aspectos problemáticos de uma cosmovisão tão interdisciplinar como esta. No ano 1985 celebrou-se na Universidade de Massachusetts a Primeira Conferência sobre a Hipótese de Gaia, sob o título: “A Terra é um organismo vivo?” Três anos mais tarde, em 1988 o climatólogo estadunidense Stephen Schneider organizou a Segunda Conferência de Gaia, onde James Kirchner criticou a Hipótese de Gaia pela sua imprecisão e afirmou que Lovelock e Margulis não tinham apresentado uma Hipótese de Gaia, mas quatro:

– Gaia Co-evolucionária: a hipótese afirma que a vida e o ambiente evoluíram de forma vinculada. Kirchner afirmou que esta ideia já era aceita cientificamente e não era novidade.

– Gaia Homeostática: afirma que a vida mantém a estabilidade do entorno natural, o que permite que a vida possa continuar existindo. Esta hipótese pode-se dividir em Gaia Débil e Gaia Forte, como se indica a seguir.

– Gaia Geofísica: a Hipótese de Gaia gerou interesse pelos ciclos geofísicos, dando lugar a uma nova pesquisa interessante na dinâmica geofísica terrestre.

– Gaia Optimizada: Gaia deu forma ao Planeta de uma forma que fez um ambiente propício para a vida no seu conjunto. Kirchner afirmou que isto não era comprovável e, portanto, não era científico.

Segundo Kirchner, pode-se dividir a Hipótese original (Gaia Homeostática) numa série de hipóteses, desde a inegável Gaia Débil, até a radical e, em sua opinião, não comprovável, Gaia Forte.

Desta forma, numa Gaia Débil, a própria biosfera atuaria como um sistema auto-organizado que mantém um meta-equilíbrio permitindo a vida. Porém uma Gaia Forte incluiria a biosfera, a atmosfera, os oceanos e a terra, dentro de um sistema retroalimentado para conseguir um entorno físico e químico adequado à vida em seu conjunto no Planeta onde os organismos se reproduzem, controlam e adaptam baseando-se nas mudanças ecológicas que o sistema vai sofrendo de acordo com sua evolução.

Outras Conferências

A Terceira Conferência de Gaia (que é a Segunda Conferência Chapman sobre a Hipótese de Gaia) teve lugar em Valência, Espanha, em Junho de 2000, e foi organizada pela Universidade de Valência e a American Geophysical Union. Nessa ocasião a atenção se centralizou nos mecanismos específicos pelos quais a homeostase básica de curto prazo da Terra pode-se manter no âmbito das mudanças estruturais.

Em Outubro de 2006 celebrou-se no campus da Universidade George Mason em Arlington, Virgínia (EUA), una Quarta Conferência Internacional sobre a Hipótese de Gaia. Nessa conferência se abordou a Hipótese de Gaia como ciência e como metáfora, buscando um elemento para entender de que forma poderíamos começar a solucionar os problemas do Século 21, tais como o aquecimento global e a destruição do meio ambiente.

Num artigo na Investigación y Ciencia (versão espanhola da revista Scientific American), [“Gaia, Asentamiento de una teoría controvertida”, 2015], seu autor, Luis Alonso, comentou um ensaio de Michael Ruse [The Gaia hipothesis: Science on a pagan planet – The University of Chicago Press, Chicago, 2013]. Meses depois da publicação do livro de Michael Ruse, James Lovelock publicava o que se considera como o último capítulo de uma série de trabalhos em torno à mesma: A rough ride to the future: The next evolution of Gaia.

Mount Kumgang Biosphere Reserve – Coreia do Norte

Os fundamentos científicos e epistemológicos da ideia de Gaia, lançada em 1969, se mantêm. Estabelecem que a Terra é um sistema autorregulado: organismos e entorno físico evolucionam de forma conjunta e mutuamente retroalimentados. Os organismos regulam a atmosfera no seu próprio interesse. Há um acordo de que se trata de uma metáfora, pois a Terra não é nenhum sistema vivo, mas se comporta como se fosse, no sentido de que mantém constantes a temperatura e a composição química face às perturbações, esclarece Lovelock.

As críticas à Hipótese de Gaia

James Lovelock nunca disse que Gaia, a Terra, era um ser pensante, nem que tinha consciência, mas, apesar disso, suas ideias foram perseguidas e ridiculizadas ferozmente pelos cientistas durante muito tempo, até que, a partir dos anos noventa, começaram a ser aceitas de forma mais ampla.

As críticas mais duras procedem do campo do darwinismo radical. Assim, Richard Dawkins [Dawkins, Richard (1982). “The Extended Phenotype: the Long Reach of the Gene”. Oxford University Press], Stephen Jay Gould [Gould S. J. June 1997. “Kropotkin was no crackpot”. Natural History. 106: 12–21].e Ford Doolittle [Doolittle, W. F. (1981). “Is Nature Really Motherly”. The Coevolution Quarterly. Spring: 58–63] nos anos oitenta e noventa, criticaram duramente a hipótese de Lovelock.

Num tom mais moderado se manifestou a bióloga Lynn Margulis considerada como a mãe de Gaia. Sua principal contribuição científica radica na chamada Teoria da Endossimbiose Sequencial a qual explica, entre outros dados, a presença de mitocôndrias ou cloroplastos nas células eucariotas (de animais e plantas) como resultado da fusão de duas bactérias que teriam obtido um benefício mútuo; a existência de organelas ou organoides, que compõem as células eucariontes tenha surgido como consequência duma associação simbiótica estável entre organismos em determinadas formas celulares; ou a presença de motilidade (movimentos intracelulares) em células evolucionadas. Isto é, que os caracteres dos organismos pluricelulares são produto da incorporação simbiótica e em muitas ocasiões de bactérias que antes tinham uma vida livre.

Margulis também colaborou com James Lovelock no desenvolvimento da Teoria de Gaia. Diferentemente de Lovelock, Lynn Margulis não acreditava que a Terra fosse um único e gigantesco “superorganismo”.

Segundo ela, Lovelock dizia isso “porque acreditava que se as pessoas pensassem no Planeta como se fosse um ser vivo, o cuidariam mais. Eu não acredito nisso. Pode-se dizer que Gaia é um ecossistema muito complexo, mas não um organismo”.

Lovelock é polêmico por suas controvertidas declarações em favor da energia nuclear, mesmo sendo considerado um dos pais da ecologia moderna, e suas críticas em relação à maioria dos ecologistas, considerando que eles “não só desconhecem a ciência, mas que, além disso, a odeiam”. Seu apoio à energia nuclear o converteu no alvo das críticas de muitos dos seus colegas. Numa entrevista virtual realizada pelo jornal espanhol El País foi preguntado ao cientista se levava em consideração as emissões de dióxido de carbono (CO2 ))produzidas pela mineração e processamento do urânio, e na construção/demolição das centrais nucleares e seus cemitérios.

Foto: Weidong Li

Lovelock respondeu radicalmente: “A energia produzida por um quilo de material nuclear equivale à energia produzida por um milhão de quilos de carvão. Portanto, as emissões de CO2 produzidas na extração do urânio é um milhão de vezes menor do que aquela necessária para extrair carvão”.

James Lovelock defende que a energia nuclear é uma das formas com as quais pode se ajudar a frear o aquecimento global, posto que possa aliviar o enorme consumo de energia da atualidade sem prejudicar a atmosfera e, além disso, é muito rentável.

Implicações filosóficas e teológicas da Hipótese de Gaia

Do ponto de vista filosófico e teológico, a Hipótese Gaia foi etiquetada como uma religião neo-pagã. Qualquer um que tenha estudado o movimento verde global, sem nenhuma dúvida ouviu falar de Gaia. Os crentes de Gaia, ou “gaianos“, como se referem frequentemente a si mesmos, afirmam que a Terra é um ser vivente, um antigo espírito da deusa, merecedor de adoração e reverência.

Na opinião destes autores, James Lovelock, no seu libro “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: um novo olhar sobre a vida na Terra”, afirma que “todas as formas de vida neste Planeta são parte de Gaia – parte de uma deusa do espírito que sustenta a vida na Terra. A partir desta transformação num sistema vivo, as intervenções de Gaia trouxeram com ela a diversidade na evolução das criaturas viventes no Planeta Terra”. Os gaianos ensinam que a “Deusa da Terra”, ou a Mãe Terra, deve ser protegida da atividade humana destrutiva. É essa crença que alimenta o movimento ambientalista, o desenvolvimento sustentável e um impulso global pela mudança nas nações industrializadas por uma forma de vida mais primitiva.

Os gaianos afirmam que “somos parte da natureza e a natureza é parte de nós, portanto, Deus é parte de nós e está em todas as partes, tudo é Deus”. Na realidade Gaia é um renascimento da “deusa da Terra” que se encontra em muitas religiões pagãs antigas. O atual culto a Gaia é uma astuta mistura de ciência, paganismo, misticismo oriental e wicca.

A Teoria de Gaia encontrou sua maior ressonância no movimento New Age que ficou fascinado pelo lado místico de Gaia. Eles acharam fácil conceber que os seres humanos podem ter uma relação espiritual com Gaia. Uma conexão com a natureza e a crença de que os seres humanos são uma parte dessa consciência coletiva chamada Gaia apela fortemente à sua cosmovisão.

Uma simples busca no Google sobre a Gaia pagã revelará milhares de organizações orgulhosamente se proclamando a si mesmas, literalmente, sacerdotes pagãos e discípulos da grande Deusa Gaia. Há dezenas de grupos de Gaia na maioria das cidades importantes. A Wicca, que se diz que é a religião de mais rápido crescimento nos Estados Unidos, está intimamente relacionada com a adoração a Gaia. Com efeito, muitos gaianos se chamam de bruxas e bruxos.

O movimento feminista também acolheu calorosamente o conceito de uma Deusa Gaia. Para muitos desses defensores, uma parte integral da adoração da Deusa é seu tema predominante em declarações anti-masculinas. Nessa visão filosófica do mundo, posto que o culto à Deusa é bom então, por necessidade, qualquer uso da terminologia masculina em referência a Deus ou qualquer prominência dos homens na cultura ou na sociedade é geralmente desalentado.

De um ponto de vista filosófico, aquele de que a Terra era um planeta vivo, uma ideia de muito longa história no pensamento ocidental, na realidade desde a origem da reflexão científica na Jônia mediterrânea se relaciona com a teleologia ou finalidade do cosmos e seu conteúdo. Platão percebeu uma forma de desenho num mundo que distava muito de um caos que se movimentasse sem nenhuma razão, cego.

A complexidade manifesta não podia ser fruto do acaso, senão que devia subjazer em todo um sentido e uma finalidade. As coisas têm uma explicação finalista, imposta desde o exterior, pelo demiurgo que a planejou. A finalidade convergia com o bem do objeto ou do processo, expõe Platão no “Timeu” onde especula sobre a natureza do mundo físico e os seres humanos. Já Aristóteles, seu discípulo, da um passo adiante e implanta a finalidade no próprio objeto ou organismo. Os animais, por exemplo, carentes de razão, atuam por um fim, que é o que lhes foi conferido pela sua própria natureza.

Lovelock diferenciou entre causas próximas (o escultor que cinzela a figura e vai eliminando partes do mármore) e o propósito ou finalidade que guia o escultor na talha: a criação da figura. Por um imperativo da natureza e com um propósito, a andorinha constrói o ninho e a aranha tece sua rede, as plantas dão frutos e afundam suas raízes no solo em busca de nutrientes. Com a revolução científica, começou-se a separar com nitidez o trabalho do cientista focado no mecanismo, e não na tarefa do filósofo ocupado no por quê.

Sobre James Lovelock

Lovelock graduou-se como químico na Universidade de Manchester em 1941 e em 1948 obteve o doutorado em Medicina na Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Em 1959 recebeu o título de Doctor of Science em Biofísica na Universidade de Londres. Depois trabalhou no Conselho de Pesquisa Médica do Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres por cinco anos, de 1946 a 1951, na Unidade de Pesquisa do Resfriado Comum do Hospital Harvard de Salisbury (Wiltshire, Reino Unido).

No ano 1974, James Lovelock foi eleito membro da Royal Society, a Academia das Ciências do Reino Unido e em 1975 recebeu a medalha Tswett de Cromatografia. Anteriormente recebeu um prêmio da Fundação CIBA por sua pesquisa sobre o envelhecimento. Em 1980 recebeu o Prêmio em Cromatografia da Sociedade Americana de Química e em 1986 obteve a Medalha de Prata e o Prêmio do Laboratório Marinho de Plymouth.

Em 1988 foi um dos destinatários do Prêmio Norbert Gerbierde da Organização Meteorológica Mundial e em 1990 foi lhe concedido o primeiro Prêmio Amsterdam pelo Meio Ambiente da Real Academia de Artes e Ciências dos Países Baixos. A relevante contribuição à ciência dada através da sua hipótese lhe valeu a prestigiada Medalha Wollaston da Sociedade Geológica de Londres.

Em 1996 recebeu tanto o Prêmio Nonino quanto o Prêmio Volvo Environment. Em 1997 recebeu o Prêmio Blue Planet do Japão. Foi nomeado Doutor Honoris Causa pelas Universidades East Anglia (1982), Exeter (1988), Politécnica de Plymouth – atualmente Universidade de Plymouth – (1988), a Universidade de Estocolmo (1991), Edimburgo (1993), Kent, East London (1996) e a Universidade de Colorado (1997). A Rainha Elizabeth II o sagrou Comandante da Excelentíssima Ordem do Império Britânico em 1990.

Em 1954 James Lovelock recebeu uma bolsa para medicina da Fundação Rockefeller, na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, em Boston. Em 1958 foi professor visitante na Universidade de Yale durante um período similar. Em 1961 renunciou ao seu cargo no Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres para trabalhar em tempo integral como professor de química na Faculdade de Medicina da Universidade de Baylor em Houston (Texas) onde permaneceu até 1964.

Durante sua permanência nos EUA colaborou junto com outros colegas no Jet Propulsion Laboratory da NASA em Pasadena, Califórnia, em pesquisa lunar e planetária. Desde 1964 é cientista independente, mas manteve associações acadêmicas honorárias como professor visitante, primeiro na Universidade de Houston e depois na Universidade de Reading. Desde 1982 colaborou na Associação de Biologia Marinha de Plymouth, primeiro como membro do Conselho, e entre 1986 e 1990, como presidente.