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domingo, 18 de maio de 2025

Carolyn Steel - Desafios da Sitopia para alimentação nas grandes cidades hoje


E se o caminho para transformar o planeta e torná-lo sustentável dependesse de algo tão cotidiano e de primeira necessidade como a comida? Este é o argumento defendido pela arquiteta, professora e escritora britânica Carolyn Steel, em seu livro Sitopía (Capitán Swing, 2022).

Sitopia é um termo inventado por Steel a partir das palavras gregas sitos (alimento) e topos (lugar), e significa, literalmente, lugar de alimentos. Com isso, pretendia dar um nome à nossa sociedade, um mundo conformado pela comida.

Steel reflete sobre como a forma como nos alimentamos moldou nossas cidades. Conforme os mercados tradicionais vão desaparecendo e o valor que atribuímos à comida é cada vez menor, também vamos perdendo a coesão social, a saúde e até a nossa própria identidade cultural. Por dependermos de alimentos cada vez mais baratos e produzidos de modo intensivo, entramos em um modo de vida menos sustentável. Ainda temos tempo para mudar?

A entrevista é de Mariángeles García, publicada por Yorokobu, 22-03-2023. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.

A filosofia está muito presente em seu livro. O fato desta disciplina estar desaparecendo dos planos de estudo (ao menos na Espanha) nos torna, como cidadãos, mais vulneráveis a ideologias que nos desumanizam?
Sim! De fato, acredito que estamos perdendo a capacidade de pensar por nós mesmos e de nos fazer grandes perguntas, o que realmente me preocupa. Penso que a internet criou uma espécie de supermercado das ideias, no qual as pessoas vão às compras até encontrar conceitos pré-fabricados que as atraem. Então, elas os adotam por atacado, como se tivessem sido pensados por elas próprias.

Isto me preocupa muito, porque essas ideias, muitas vezes, tornam-se ideologias irremovíveis. Também nos expõe a acreditar em teorias da conspiração e a ser incapazes de examinar o que realmente pensamos desde a base e, portanto, de estabelecer um debate fundamentado. Como vimos com a recente invação ao Capitólio dos Estados Unidos e agora ao Congresso brasileiro, este fenômeno ameaça a própria democracia.

Qual é a relação entre filosofia e alimentação, e como isso afeta nossa cultura alimentar?
Bem, existem poucos atos tão significativos como o de comer: levanta questões muito profundas como o que é a vida, o que significa compartilhar com justiça, qual é a nossa relação com a natureza e como é uma boa vida.

Por exemplo, só pelo fato de comer, nós nos autorizamos a considerar nossa vida mais importante do que a de, por exemplo, um frango ou uma batata. Mais do que isso, penso que ver o mundo pelo prisma da comida pode nos ajudar a nos tornarmos filósofos, o que significa que pode nos habilitar a fazer grandes e importantes perguntas. E isso, conforme eu dizia antes, é extremamente importante. De fato, se eu tivesse que redesenhar o plano de estudos, colocaria a alimentação e a filosofia entre as disciplinas mais importantes.

Por isso, inventei a palavra sitopia, porque vivemos em um mundo moldado pela comida. Sendo assim, pensar a partir dela pode nos ajudar a olhar ao nosso redor, questionar nosso lugar no mundo e voltar a nos fazer essas grandes perguntas.

O urbanismo das cidades costumava gravitar em torno de seus mercados: eram os centros de reuniões sociais e quase políticas. Como o urbanismo mudou, desde que a nossa alimentação piorou?
O mercado era o centro da cidade pré-industrial, não só fisicamente, mas social, econômica, simbólica e politicamente. Antes que a industrialização destruísse a o vínculo geográfico entre os alimentos e as cidades, os mercados eram os únicos lugares onde as pessoas podiam comprar alimentos frescos, então, todos recorriam a eles, não só para comprar comida, mas para uma socialização, para saber das últimas notícias e tagarelar.

Basta ler as descrições da ágora ateniense, os relatos de Zola sobre Les Halles, em Paris, e os de Samuel Pepys sobre Covent Garden para perceber como esses espaços públicos eram vibrantes. De fato, os supermercados foram projetados especificamente para eliminar os encontros sociais que outrora caracterizavam os mercados, o que significa uma grande perda.

O que essas mudanças implicam?
Como arquiteta, tenho muito interesse na importância da esfera pública, ou seja, a presença de um espaço aberto, inclusivo e heterogêneo no qual se é livre para atuar e se encontrar face a face com seus concidadãos. De fato, isso está diretamente relacionado ao debate anterior, sobre como as pessoas estão perdendo a capacidade de debater e pensar por si mesmas, porque grande parte dessa atividade agora é realizada on-line. E isto está longe de ser um verdadeiro espaço público, já que, como sabemos, é muito manipulado.

As implicações são enormes, uma vez que limitam nossa experiência do outro e nossas oportunidades de sentir o que temos em comum (apesar de nossas diferenças). E, por sua vez, ameaça nosso compromisso político e, de fato, nossa capacidade de participar como cidadãos em uma democracia que funcione.

Qual é a primeira coisa que você faz quando viaja para uma nova cidade? 
No meu caso, e penso que no de muitos de nós, é procurar pela comida local e tradicional, seja em mercados, comércios locais, cafés e restaurantes. É de longe a maneira mais rápida (e prazerosa!) de entender o que faz um lugar funcionar, como as pessoas se relacionam, como são a paisagem e a cultura local.

Uma cidade como Barcelona, por exemplo, que protege e investe em seus mercados e promulga leis para protegê-los do desenvolvimento dos supermercados, seria uma dessas cidades. E, claro, muitas cidades do sul permanecem organizadas de forma espetacular em torno de suas culturas alimentares tradicionais, porque a marcha inexorável do McDonald's et al ainda não as alcançou.

Penso que a mensagem mais poderosa que podemos enviar a esses lugares é que, a todo custo, se apeguem a suas culturas alimentares locais: uma vez perdidas, é muito difícil recuperá-las (como qualquer pessoa no Reino Unido pode dizer!) e delas depende, em grande medida, a coesão social e política de um povo.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Sitopia: reconstruir as nossas vidas através da comida

Arquitecta e autora de importantes ensaios sobre a cidade e a comida, sobre o abastecimento das cidades, Carolyn Steel desenvolveu uma importante problemática em torno do conceito de «sitopia», isto é, do mundo como lugar moldado pela alimentação. No centro da sua análise, está o pressuposto contemporâneo da comida barata, proporcionada por uma indústria agroalimentar que põe em causa o futuro da vida na Terra.

Nerea Morán, arquiteta e docente na Escola Superior de Arquitetura de Madrid (ETSAM). É autora de livros como Raíces en en asfalto. Pasado, presente e futuro da agricultura urbana e Cidades em movimento. Avanços e contradições nas políticas autárquicas desde a óptica das transições ecossociais.

Sitopia é um termo cunhado por Carolyn Steel que combina as palavras gregas sitos (comida) e topos (lugar), significando "lugar de comida", e refere-se ao mundo moldado pela alimentação, propondo que repensar nossa relação com a comida pode salvar o planeta e melhorar a vida humana. É um conceito que explora como a comida, muitas vezes invisível na sua omnipresença, influencia paisagens, cidades, política, economia e o nosso corpo, oferecendo uma alternativa à utopia, ao focar num "lugar" real e fundamental para a existência e transformação

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O manifesto da Sitopia: a comida como matriz civilizacional e arquitetura do poder


Introdução: a ilusão de More e a concretude de Steel
Em 1516, Thomas More cunhou em Utopia o duplo sentido de um ideal: o "lugar bom" (eu-topos) que é, simultaneamente, o "lugar nenhum" (ou-topos). Ao longo de séculos, o pensamento político ocidental tendeu a projetar as suas reformas sociais nesta dimensão abstrata, desenhando cidades perfeitas desprovidas de fricção material. Contudo, quando a arquiteta e urbanista britânica Carolyn Steel publicou Hungry City (2008) e, posteriormente, consolidou as suas teses no início da década de 2010, propôs uma inversão radical desse eixo especulativo. Ao formular o conceito de Sitopia (sitos = comida; topos = lugar), Steel retirou a reforma societal do campo do "lugar nenhum" e aterrou-a na materialidade biológica do prato.

A premissa sitópica, refinada por Steel ao longo de mais de uma década, postula que o alimento é a força geométrica e política primária que desenha o mundo visível. Não habitamos espaços neutros; habitamos uma complexa infraestrutura metabólica. A literatura, a filosofia e a história urbana demonstram que a alienação contemporânea em relação à origem do que comemos não é um acidente histórico, mas sim o resultado de uma fratura profunda na nossa narrativa civilizacional.

1. A cidade e o ventre: a perspetiva histórico-literária
A indissociabilidade entre a sobrevivência urbana e o abastecimento de comida encontra eco na grande literatura do século XIX, período em que as metrópoles começaram a perder o contacto direto com o seu hinterland rural. No seu romance monumental Le Ventre de Paris (1873), Émile Zola descreve os novos mercados centrais de Les Halles como um organismo biológico gigante, um ventre mecânico que dita o pulso, as neuroses e as divisões de classe da capital francesa. Zola já antecipava o que Steel sistematizou no século XXI: a cidade é uma máquina de devorar paisagens.

Antes da Revolução Industrial, a morfologia urbana era um reflexo direto dessa dependência. Como nota o historiador Fernand Braudel em Civilização Material, Economia e Capitalismo (1979), os limites de expansão de uma comunidade pré-industrial eram ditados pela velocidade a que o pão fresco ou o gado podiam caminhar até ao centro urbano. O mercado era o coração político (a ágora) e económico da cidade.

A rutura desse cordão umbilical biológico, operada pelos caminhos-de-ferro e pela refrigeração, criou a maior ilusão da modernidade: a da "comida barata". O filósofo e sociólogo Walter Benjamin, nas suas análises sobre as passagens de Paris, identificou como o capitalismo transformou a mercadoria num fetiche desligado da sua produção. No supermercado contemporâneo, este fenómeno atinge o seu apogeu. O alimento é purgado da sua história; a carne embalada em vácuo e os ultraprocessados operam como objetos estéticos abstratos, ocultando o trabalho camponês, a degradação dos solos e o confinamento animal.

2. O mapeamento concêntrico e a tradição filosófica
A matriz conceptual que Carolyn Steel desenhou a partir de 2011 organiza o impacto da comida em sete escalas concêntricas (Alimento, Corpo, Casa, Sociedade, Cidade, Campo e Natureza). Esta perspetiva holística resgata a filosofia clássica, nomeadamente o pensamento de Epicuro. Longe do hedonismo desenfreado que o senso comum lhe atribui, o epicurismo, como recorda o filósofo e economista Amartya Sen nas suas reflexões sobre desenvolvimento e bem-estar, foca-se na satisfação consciente das necessidades naturais e necessárias. Para Epicuro, compreender os limites do corpo e a origem dos nossos prazeres básicos é a única fundação possível para a liberdade política.

Quando a sitopia falha - transformando-se numa distopia alimentar -, o colapso propaga-se verticalmente por estas escalas. O impacto no Campo e na Natureza encontra um paralelo literário devastador em As Vinhas da Ira (1939), de John Steinbeck. Ao narrar a tragédia do Dust Bowl americano, Steinbeck descreve a mecanização impiedosa da terra e a expulsão dos agricultores por bancos e tratores:
"O trator faz duas coisas diferentes: vira a terra e expulsa-nos dela. Há pouca diferença entre o trator e um tanque de guerra; ambos expulsam os homens, intimidam-nos, destroem a sua ligação com a vida."
A crítica de Steinbeck antecipa o diagnóstico de Steel sobre o agronegócio industrial: ao tratarmos a terra (o Campo) como uma fábrica química e não como um organismo vivo (a Natureza), destruímos a própria base da comensalidade (a Sociedade) e da saúde (o Corpo).

3. Biopolítica e o futuro alimentar
A gestão do sistema alimentar contemporâneo pode ser analisada através do conceito de Biopolítica de Michel Foucault. Para Foucault, o poder moderno exerce-se controlando os corpos, a natalidade, a saúde e os fluxos vitais das populações. Quem controla a comida na sitopia globalizada não controla apenas um mercado; controla a própria biologia da humanidade.

Steel confronta dois caminhos alternativos para o futuro nesta disputa biopolítica:
  1. A distopia tecno-alimentar: Onde a comida é totalmente desmaterializada e gerida por monopólios de Silicon Valley (carne sintética de laboratório, patentes de sementes modificadas, substitutos nutricionais líquidos). É a realização da ficção científica especulativa, de que é exemplo a obra Soylent Green (Harry Harrison, 1966), onde a rutura total com a natureza transforma o ato de comer num gesto puramente funcional e controlado pelo Estado corporativo.
  2. A sitopia regenerativa / agroecológica: uma abordagem que se alinha com o conceito de Buen Vivir (Sumak Kawsay) das tradições indígenas andinas, amplamente estudado por sociólogos contemporâneos como Boaventura de Sousa Santos. Esta visão defende que a harmonia social é impossível sem a harmonia ecológica. Propõe a descentralização dos mercados, a soberania alimentar e o reconhecimento do camponês como o arquiteto essencial da paisagem.
Conclusão: o retorno à mesa como acto político
A Sitopia, tal como Carolyn Steel a defende desde os seus primeiros esboços teóricos, lembra-nos de que a economia não deveria ser a ciência da acumulação abstrata de capital, mas sim a ciência da gestão da nossa casa comum (oikos = casa; nomos = lei).

Ao introduzir a comida no centro do debate sobre o urbanismo e a filosofia política, Steel oferece uma resposta prática ao pessimismo ecológico. Se o atual colapso climático e civilizacional é o subproduto de uma sitopia negligenciada e predatória, a reconstrução do futuro está, literalmente, nas nossas mãos. Cada decisão de consumo, cada redesenho de um mercado municipal e cada refeição partilhada de forma consciente são atos de reconfiguração do espaço público. O garfo, mais do que o voto legislativo, tornou-se o instrumento político mais quotidiano, democrático e transformador da nossa era.

Referências Bibliográficas 
  • BENJAMIN, Walter. O Trabalho das Passagens. Paris: Éditions du Cerf, 1989.
  • BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo (Séculos XV-XVIII). Lisboa: Teorema, 1979.
  • FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • STEEL, Carolyn. Hungry City: How Food Shapes Our Lives. Londres: Chatto & Windus, 2008.
  • STEEL, Carolyn. Sitopia: How Food Can Save the World. Londres: Vintage, 2020.
  • STEINBECK, John. As Vinhas da Ira. Lisboa: Livros do Brasil, 1939.
  • ZOLA, Émile. Le Ventre de Paris. Paris: Georges Charpentier, 1873.
Página Oficial

terça-feira, 5 de maio de 2015

Conferência: Raíces en el asfalto. Pasado, presente y futuro de la agricultura urbana


Ao longo da história, a agricultura e as cidades sempre mantiveram profundas interdependências que tornam impossível compreendê-las isoladamente. Essa ligação foi interrompida pelo desenvolvimento da Revolução Industrial, embora nunca tenha sido completamente rompida. "Raízes no Asfalto" reconstrói esse fio invisível, traçando a evolução das teorias urbanas em relação à agricultura e recuperando episódios-chave em que movimentos sociais e comunidades locais retomaram o cultivo de plantações nas cidades.

sábado, 23 de abril de 2011

Carolyn Steel: Sitopia - how we can think through food


Os hábitos alimentares humanos podem moldar o mundo mais do que se imagina: afectam a paisagem, a política e a cultura, mesmo nas nossas sociedades modernas. Mas hoje as cidades chegaram a um ponto em que o seu sistema de produção alimentar já não é sustentável. Carolyn Steel mostra-nos uma nova forma de pensar os valores alimentares como valores de vida e de utilizar o nosso conhecimento sobre a alimentação para criar uma nova utopia baseada na complexidade da necessidade mais comum da humanidade.