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sexta-feira, 27 de março de 2026

Criado site gratuito que ajuda PME a cumprirem diretiva europeia contra “greenwashing”



O Pacto Climático Europeu lançou uma nova ferramenta digital gratuita destinada a apoiar as pequenas e médias empresas (PME) portuguesas no cumprimento das exigências da mais recente diretiva europeia contra o “greenwashing”. A iniciativa surge num momento crítico: a Diretiva 2024/825 deverá ser transposta para a legislação nacional até 27 de março, entrando plenamente em vigor a 27 de setembro, altura a partir da qual as empresas poderão ver as peças publicitárias suspensas e enfrentar coimas significativas por práticas consideradas desleais.

Diogo Abrantes da Silva, embaixador do Pacto Climático Europeu, e o projeto #Pub, para uma comunicação nas empresas mais transparente, criaram uma ferramenta digital gratuita para apoiar as pequenas e médias empresas (PME) em Portugal a cumprirem a nova diretiva da União Europeia que as obriga a ser transparentes quanto à sustentabilidade dos seus produtos e as impede de usar alegações ambientais não comprovadas.

O site “diretivas.eu” pretende funcionar como um guia prático para empresários e gestores. A plataforma permite verificar se as imagens ou páginas de produtos, a sua comunicação institucional ou os seus rótulos estão de acordo com as novas regras europeias. E clarifica também os pontos mais técnicos e intrincados do texto da diretiva.

“A Diretiva 2024/825 é muito positiva, porque reforça a proteção dos consumidores contra práticas comerciais desleais, especialmente o “greenwashing”, e melhora a informação sobre sustentabilidade, durabilidade e reparabilidade dos produtos”, afirma Diogo Abrantes da Silva, gestor de marketing para ONGs, ativista ambiental e embaixador do Pacto Climático Europeu. “A diretiva cria, no entanto, muitos riscos às empresas que desconhecem as suas exigências, expondo-as, a partir de setembro, à vigilância e às sanções da ASAE ou de outras organizações regulatórias”.

A nova diretiva europeia visa reforçar a proteção dos consumidores, proibindo alegações ambientais vagas ou não comprovadas. Termos como “eco-friendly”, “verde” ou “neutro em carbono” deixam de poder ser utilizados sem evidência verificável. A legislação impõe ainda restrições a comparações ambientais enganosas, certificações pouco credíveis e estratégias que reduzam artificialmente a durabilidade dos produtos.

De acordo com uma análise realizada pelo projeto, entre os 286 websites analisados, 119 contêm menções sobre a sustentabilidade dos seus produtos que poderão ser classificadas como genéricas. Neste trabalho foram extraídos dados de websites de empresas deste setor, utilizando diretórios online de referência, como o Peggada. A ferramenta extraiu o texto da página inicial de cada um dos sites presentes na base de dados para verificar a existência de palavras-chave genéricas.

No caso do volume total de menções genéricas por categoria, o comércio online surge no topo da tabela com 197 menções, seguindo-se marcas ligadas à moda, sustentabilidade e ética com 48 menções. O terceiro lugar é ocupado por empresas de cosmética e higiene pessoal com um total de 29 menções.

Entre as restrições incluem-se mencionar que um produto é “neutro em carbono” apenas com base na compensação de emissões fora da cadeia de valor: não basta dizer que a marca planta árvores, ela terá de demonstrar que usa processos que resultam na redução real das emissões do próprio produto. Elementos visuais como folhas verdes ou gotas de água também podem ser interpretados como alegações ambientais implícitas: se a apresentação induzir o consumidor em erro sobre os benefícios do produto, será considerada prática desleal.

“É natural que sejam as empresas que têm a sustentabilidade no centro dos seus negócios as mais expostas às exigências da Diretiva”, afirma Diogo Abrantes da Silva. “Estas empresas têm um bom intuito, não devem ser elas as mais prejudicadas pela nova lei de proteção aos consumidores: o site ‘diretivas.eu’ é sobretudo útil para ajudar as empresas que já estão a trabalhar na transição climática”.

A ferramenta disponibilizada no site inclui um “scanner” capaz de analisar até 500 páginas de um website, detetando linguagem potencialmente proibida. Adicionalmente, um sistema de inteligência artificial avalia imagens e anúncios, identificando elementos visuais que possam induzir em erro — como o uso de símbolos associados à natureza sem base factual.

Para Diogo Abrantes da Silva, o objetivo não é penalizar empresas que já procuram adotar práticas mais sustentáveis, mas sim ajudá-las a comunicar de forma transparente e alinhada com a nova legislação. “Há muitas organizações com boas intenções que podem ser prejudicadas por desconhecimento. Esta ferramenta serve para esclarecer e prevenir riscos”, afirma.

Além da componente de diagnóstico, o site também orienta as empresas no acesso a certificações reconhecidas, como o Rótulo Ecológico da União Europeia, que valida produtos com menor impacto ambiental.

Integrado no âmbito do Pacto Climático Europeu — uma das iniciativas do Pacto Ecológico Europeu — o projeto reforça o esforço comunitário para promover práticas empresariais mais responsáveis e uma transição efetiva para uma economia de baixo carbono.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Cultura agredida e análise da situação crítica em Portugal



A semana passada fui a uma aldeia perto do Fundão e perguntei à Sra de uma tasquinha junto ao rio se tinha pão caseiro, disse-me que não porque a proibiram de vender, "ainda na semana passada vieram cá os GNRs e me vasculharam os papéis todos". Numa aldeia que visito sempre perto de Alcobaça há autênticas rusgas da ASAE a exigir que o café pague a taxa de música, de TV, mesmo que seja o único de toda a aldeia e tenha 4 clientes. Esta semana um sindicato de guardas prisionais diz que quer processar o líder anti racista Mamadou Ba por delito de opinião, que consideram difamação por este ter questionado a violência e morte nas prisões. Pedem 4 milhões de euros. E o Partido Fascista Chega anunciou mesmo, no dia 11  que quer expulsar quem se opõe ao patriotismo e ao nacionalismo, quem viola, dizem, os símbolos nacionais - ou seja, querem perseguir as pessoas pela sua ideologia internacionalista e socialista ou de direitos humanos. Na noite do dia 10, na Barraca, teatro de gentes comunistas e de esquerda, em plena hora de jantar, um actor, que interpretava Camões, no centro da cidade de Lisboa, é atacado, entre outros actores, por 30 neonazis, conhecidos da zona, dizem as reportagens, 30 anos depois de ter sido morto à pancada um negro que ia a passear no Bairro Alto, Alcindo Monteiro. Era para celebrar o dia da pátria, 10 de Junho. Os agressores fazem parte do "Sangue e Honra", uma organização internacional de extrema-direira com representação em Portugal. A principal vítima deste grupo foi o ator Adérito Lopes. Foi agredido - com um soco no olho, provavelmente com uma soqueira ou com anéis. Ficou com rasgões na cara e teve de levar pontos. Os mesmos deixaram um papel na porta "Portugal aos portuguezes (com z))". Tudo se passou a menos de 1 km da Esquadra da PSP da Lapa, à hora em que os actores chegavam ao seu trabalho. E a menos de 500 metros do Parlamento. Às 8 da noite.
Ou saímos à rua em defesa dos direitos, liberdades e garantias, ou podemos dizer adeus à liberdade. Pela via eleitoral, Parlamentar, ou pelo ataque directo, a liberdade, o pensamento e até a vida de quem quer viver em democracia está tudo em risco.
Começaram nos imigrantes no Porto e em Lisboa, agora vão à cultura, seguir-se-ão os lideres sindicais e intelectuais. Ontem Trump mandou prender o Vice Presidente dos Sindicatos de Los Angeles, que representa um milhão de trabalhadores.
Só há um caminho, defender nas ruas a liberdade."

quinta-feira, 23 de março de 2023

É possível boicotar supermercados? Eles tentam todos os dias, mas não é fácil

Enquanto conversam sobre música e futebol, João Mendes faz as compras da semana ao Sr. José, do Pomar Coutinho. Começou a visitar com mais frequência o pequeno supermercado local, no centro da Trofa, há seis anos, quando decidiu evitar ao máximo entrar em grandes cadeias de supermercados.


Reportagem Público
O copywriter freelancer de 38 anos virou as costas quando se apercebeu que “os legumes e a fruta que comprava nas grandes superfícies duravam pouquíssimo tempo” em comparação com os produtos que chegavam de familiares e amigos que tinham hortas. Pouco depois, reparou que no minimercado da sua rua os preços estavam muito abaixo do que via no hipermercado onde costumava comprar. Produto a produto, foi fazendo comparações e reparou que lhe compensava mais comprar no pequeno comércio.

João não é único a trocar as grandes superfícies, empurrado pelo que classifica de “preços e lucros excessivos”. Outros apontam como razões a preocupação com a sustentabilidade ambiental ou com a sobrevivência dos negócios locais. E há quem questione se um boicote generalizado, mesmo sabendo o quão difícil é mudar rotinas e encontrar alternativas equiparáveis, ajudaria a baixar os preços galopantes e a passar uma mensagem de descontentamento perante irregularidades detectadas pela ASAE e denunciadas por consumidores.

“Existe sempre um produto que me obriga a voltar”

Hoje, 90% das compras de João são feitas entre o Pomar de José Coutinho, o mercado semanal da Trofa e um talho que fica a dois minutos de casa. No entanto, por vezes, ainda se vê obrigado a ir comprar aos grandes: “Existe sempre um produto mais complexo que me obriga a ir a uma grande superfície como um creme, umas bolachas que o meu filho quer muito, uma garrafa de vinho e pouco mais.”

Quando começou a comprar mais regularmente no minimercado da sua rua, João Mendes decidiu comparar o preço de vários produtos com os praticados numa grande cadeia de hipermercados de um grupo nacional.

A primeira diferença que encontrou foi no café. A mesma caixa de quarenta cápsulas era 2,39 euros mais barata no minimercado. Mas rápido percebeu que gastava menos em muitos outros produtos. Em alguns casos, como o do gel de banho, o preço caiu para metade (menos 119%, calculou).

Ana Machado, 35 anos, gerente de um estúdio de fotografia no Porto, já há algumas semanas que evita por princípio fazer compras em grandes superfícies. Costumava visitar o supermercado três vezes por semana, agora vai duas a três por mês: “Neste momento, incomoda-me gastar dinheiro num supermercado. Do ponto de vista ideológico também já não se aceita. Não se justifica.”

A preocupação em ser mais sustentável também levou Stefanie Silva a reduzir as idas aos supermercados. Sendo vegetariana, a enfermeira de Viseu diz que não compra quase nenhuma da comida que consome em grandes superfícies. Porém, não vive sozinha. Normalmente, recorre a hipermercados para comprar comida para os animais, “alimentos processados” e outros que a granel sejam mais difíceis de encontrar.

A viver longe do centro da cidade, reconhece que nem sempre é fácil fazer as compras em locais mais sustentáveis. ​“Procurando ser sustentável a todos os níveis, tenho de me organizar quando me desloco ao centro da cidade para fazer tudo aquilo que preciso. Organizar muito bem, não só as compras mas também a deslocação”, diz.

Há mais de 30 anos que os alimentos não eram tão caros

Rosa Silva, trabalhadora independente de 55 anos, costumava fazer as compras sempre no mesmo hipermercado. No final de 2022, quando a subida dos preços se tornou “um abuso”, procurou alternativas. Agora, opta por mercados locais (onde, diz, a especulação também existe) e mercearias.

“Eu sou muito básica nas compras, não me estico muito. São sempre as mesmas coisas há anos e sou fiel às mesmas marcas. Portanto, há aqui um referencial muito claro quando as coisas aumentam de uma forma absurda”, conta. A título de exemplo, refere o caso da manteiga dos Açores, que costumava usar: “Passou de 1,69 euros para 2,30.”

Nos mercados, os preços nem sempre são mais baixos. Rosa Silva, costuma dirigir-se ao mercado de São João da Madeira e já percebeu que os preços flutuam ao longo do dia. Com o contacto certo, porém, pode-se poupar: “Sei que os preços são mais caros durante o dia. Mas já encontrei, ao ir às sete da manhã, a pessoa certa que tem produtos muito mais baratos, bons e frescos.”

Desde que começou a comprar mais fora de supermercados, Ana Machado já reparou que gasta menos: “Este mês nem gastei o plafond todo do cartão de alimentação.”

Supermercados - roubo organizado


O governo anunciou ontem um plano para conseguir regular os preços dos alimentos, que apesar de a taxa de inflação em fevereiro ter recuado para 8,2% continuam a aumentar. Uma das ações passa por intensificar a fiscalização por parte da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), de forma a perceber "o que está na génese da diferença de preços", explicou ontem o ministro da Economia e do Mar, em conferência de imprensa. António Costa Silva referiu que podem estar em causa "práticas abusivas" e que, a existirem, "têm de ser sancionadas".

"O setor da distribuição e retalho está sempre do lado da solução e não engana os consumidores", garantiu, em reação, a associação que representa o setor, lamentando não ter sido escutada nem sequer ter sido informada da existência do relatório da ASAE. E assegura que o problema está no preço com que os produtos chegam a esta fase da comercialização, rejeitando a ideia de especulação na distribuição.

A acompanhar o ministro da Economia esteve o inspetor-geral da ASAE, Pedro Portugal Gaspar, que apresentou um relatório em que se revela que, desde 2022 e até fevereiro deste ano, o cabaz de bens essenciais subiu cerca de 29%, passando dos 74,9 euros em janeiro de 2022, para 96,44 euros no mês passado.

A ASAE começou a fiscalizar os preços de bens alimentares em súper e hipermercados em setembro do ano passado, levando a cabo operações que envolvem 38 brigadas e 80 inspetores. Desde o início das ações e até ontem, 9 de março, foram instaurados 68 processos-crime de especulação e 105 processos de contraordenação a 960 operadores económicos.

A tomada de posição do Executivo merece o aplauso da DECO Proteste, embora a associação não deixe de lamentar o facto de acontecer quando os preços da alimentação já pesam em demasia nos bolsos dos portugueses. "A monitorização que a DECO Proteste faz tem vindo a mostrar a situação que hoje é vista pelo senhor ministro", acusa Rita Rodrigues. A diretora de Comunicação e Relações Institucionais da associação diz que a iniciativa governamental é importante, mas "fiscalizar, monitorizar preços, reforçar a ASAE e conversar com o setor dos operadores é tudo aquilo que já deveria estar a ser feito há meses".

Rita Rodrigues apela ainda a uma intervenção da Autoridade da Concorrência, já que considera existir "um problema de transparência nos preços". "Este é um setor em que, em toda a cadeia, não há transparência", reforça, assumindo que apesar de a associação não ter uma solução que possa ajudar a baixar os preços rapidamente, "deveria ter existido um ritmo de fiscalização que permitisse não ter chegado a este ponto". E remete para a última análise da DECO Proteste a um cabaz com 63 produtos alimentares essenciais, que ontem valia 230,76 euros. A mesma cesta, a 9 de março de 2022, levava uma subida de 25,66%, ou seja, mais 47,12 euros. É o preço mais elevado desde que se começou a monitorizar este cabaz, a 5 de janeiro de 2022.

Durante a apresentação da estratégia do Executivo para combater a especulação nos preços, assente em seis pontos, António Costa Silva indicou ainda que o governo vai reunir com os operadores de forma a ouvir as suas explicações e verificar se existem discrepâncias que possam configurar práticas abusivas que, a confirmarem-se, terão uma resposta "inflexível" por parte do governo, sublinhou o ministro.

Ao mesmo tempo, o governo diz que vai analisar toda a cadeia de alterações de preços dos alimentos, começando na produção e passando pela distribuição, até quando finalmente os produtos são colocados na prateleira. A PARCA - Plataforma de Acompanhamento nas Relações na Cadeia Agroalimentar vai também ser convocada.

APED garante que setor está a "absorver custos"
Em comunicado, a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) lamentou "que a ASAE tenha produzido um relatório do qual o setor não tem conhecimento nem foi convidado a dar contributo", embora tenha colaborado sempre com a agência. E diz que, perante as informações prestadas pelo ministro da Economia, "é preciso falar verdade aos portugueses e explicar com clareza todos os fatores que levam ao aumento de preços dos alimentos". A associação revela que esteve reunida com o governo na quarta-feira, tendo explicado o motivo da subida e o que se passa em toda a cadeia de valor.

Na conferência de imprensa de ontem, Pedro Portugal Gaspar disse que é necessário saber se existem indícios de prática de especulação porque, de acordo com os dados revelados pela ASAE, a margem média de lucro bruto da cebola, por exemplo, subiu mais de 50% e a dos ovos, laranjas, cenouras e febras de porco aumentou entre 40% e 50%.

A APED garante que a distribuição está a comprar os produtos cada vez mais caros aos fornecedores (indústria e produção) e que estes aumentos, no início da cadeia, "refletem a subida dos custos dos fatores de produção decorrentes dos aumentos do preço dos fertilizantes, rações e outros custos relevantes". A título de exemplo: o leite "está 75% mais caro nas lojas, precisamente o aumento que os fornecedores passaram para a distribuição" - sendo este um produto com margens mínimas. O ministro da Economia havia revelado que os custos com fertilizantes, combustíveis e eletricidade baixaram, não se podendo imputar a subida dos alimentos a estes fatores.

A APED reitera: "O setor da distribuição e retalho está sempre do lado da solução e não engana os consumidores", e que o negócio da distribuição alimentar se centra no volume e não na margem. A margem média do setor do retalho alimentar é, em todo o mundo, na ordem dos 2 a 3%, que compara com margens da indústria na ordem dos 15 a 20%, adianta. A associação assegura que o retalho alimentar não aumentou as margens de comercialização, tendo, ao invés, conseguido reinventar-se para "absorver o acréscimo generalizado dos custos operacionais, evitando que o ónus da inflação em geral para o consumidor fosse muito superior".

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Para reduzir as superbactérias, o mundo deve reduzir a poluição

  • Até 10 milhões de mortes podem ocorrer anualmente até 2050 devido à resistência antimicrobiana (AMR), a par da taxa de 2020 de mortes globais por câncer
  • A poluição em setores-chave da economia contribui para o desenvolvimento, transmissão e disseminação da RAM
  • O custo econômico da AMR pode resultar em uma queda do PIB de pelo menos US$ 3,4 triliões anualmente até 2030, empurrando mais 24 milhões de pessoas para a pobreza extrema
Nairóbi, 7 de fevereiro de 2023 – Reduzir a poluição criada pelos setores farmacêutico, agrícola e de saúde é essencial para reduzir o surgimento, a transmissão e a disseminação de superbactérias – cepas de bactérias que se tornaram resistentes a todos os antibióticos conhecidos – e outras instâncias de resistência antimicrobiana, conhecidas como AMR. Esta é a principal mensagem de um relatório divulgado hoje pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre as dimensões ambientais da AMR, que já está causando sérios danos à saúde de humanos, animais e plantas, bem como à economia.

O relatório Preparando-se para superbactérias: fortalecendo a ação ambiental na resposta de saúde única à resistência antimicrobiana foi lançado na Sexta Reunião do Grupo de Líderes Globais sobre RAM , realizada em Barbados. Ele exige uma resposta multissetorial de Saúde Única . Isso está de acordo com o trabalho da Aliança Quadripartite, incluindo o PNUMA, a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH).

“A crise ambiental de nosso tempo é também uma crise de direitos humanos e geopolítica – o relatório de resistência antimicrobiana publicado hoje pelo PNUMA é mais um exemplo de desigualdade, já que a crise da RAM está afetando desproporcionalmente os países do Sul Global”, disse o primeiro-ministro Mia Amor Mottley, presidente do One Health Global Leaders Group on Antimicrobial Resistance.

O desenvolvimento e a disseminação da RAM significam que os antimicrobianos usados ​​para prevenir e tratar infecções em humanos, animais e plantas podem se tornar ineficazes, com a medicina moderna não sendo mais capaz de tratar até mesmo infecções leves.

Listada pela OMS entre as 10 principais ameaças globais à saúde, estima-se que em 2019, 1,27 milhão de mortes foram diretamente atribuídas a infecções resistentes a medicamentos em todo o mundo e 4,95 milhões de mortes em todo o mundo foram associadas à RAM bacteriana (incluindo aquelas diretamente atribuíveis à RAM ).

Espera-se que a RAM cause 10 milhões de mortes diretas adicionais anualmente até 2050. Isso equivale ao número de mortes causadas globalmente por câncer em 2020.

Espera-se que o custo económico da AMR resulte em uma queda do PIB de pelo menos US$ 3,4 triliões anualmente até 2030, empurrando mais 24 milhões de pessoas para a pobreza extrema.

A tripla crise planetária acarreta temperaturas mais altas e padrões climáticos extremos, mudanças no uso da terra que alteram sua diversidade microbiana, bem como poluição biológica e química. Tudo isso contribui para o desenvolvimento e disseminação da RAM.

“A poluição do ar, do solo e dos cursos de água prejudica o direito humano a um ambiente limpo e saudável. Os mesmos fatores que causam a degradação do meio ambiente estão piorando o problema da resistência antimicrobiana. Os impactos da resistência antimicrobiana podem destruir nossos sistemas de saúde e alimentação”, disse Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUMA. “Reduzir a poluição é um pré-requisito para mais um século de progresso em direção à fome zero e boa saúde.”

O relatório destaca um conjunto abrangente de medidas para abordar tanto o declínio do meio ambiente quanto o aumento da AMR, abordando especialmente as principais fontes de poluição de saneamento precário, esgoto, resíduos comunitários e municipais.

Para prevenir e reduzir estes poluentes é fundamental:
  • criar estruturas robustas e coerentes de governança, planejamento, regulamentação e legal em nível nacional e estabelecer mecanismos de coordenação e colaboração
  • aumentar os esforços globais para melhorar a gestão integrada da água e promover a água, o saneamento e a higiene para limitar o desenvolvimento e a disseminação da RAM no meio ambiente, bem como reduzir as infecções e a necessidade de antimicrobianos
  • aumentar a integração de considerações ambientais nos Planos de Ação Nacionais de AMR e AMR em planos relacionados ao meio ambiente, como programas nacionais de poluição química e gerenciamento de resíduos, biodiversidade nacional e planejamento de mudanças climáticas
  • estabelecer padrões internacionais para o que constitui um bom indicador microbiológico de RAM a partir de amostras ambientais, que podem ser usados ​​para orientar decisões de redução de risco e criar incentivos eficazes para seguir tal orientação
  • explorar opções para redirecionar investimentos, estabelecer incentivos e esquemas financeiros novos e inovadores e justificar o investimento para garantir financiamento sustentável, incluindo a alocação de recursos domésticos suficientes para combater a RAM.
  • Monitoramento e vigilância ambiental e maior priorização de pesquisas para fornecer mais dados e evidências e melhor direcionar as intervenções.
A AMR requer uma resposta One Health que reconheça que a saúde das pessoas, animais, plantas e meio ambiente estão intimamente ligadas e interdependentes. A prevenção está no centro da ação necessária para deter o surgimento da RAM e o meio ambiente é uma parte fundamental da solução. O fortalecimento abrangente e coordenado da ação ambiental na resposta One Health à RAM reduzirá o risco e a carga da RAM para os seres humanos e a natureza, além de ajudar a enfrentar a tripla crise planetária.

sábado, 26 de novembro de 2022

Relatório da OMS - Resistência aos antibióticos, não há tempo a perder


"Não há tempo a perder". O relatório OMS 29.4.19 sobre resistência a antibióticos apresenta um cenário catastrófico, para a saúde e para a economia global. Até 10 milhões de mortes por ano nas próximas três décadas, com custos sociais e picos de desigualdade comparáveis ​​aos da crise financeira de 2008. (1)

Resistência aos antibióticos, o problema e as suas causas

Resistência a antibióticos é um fenómeno que ocorre quando as bactérias 'aprendem a resistir' aos antibióticos, uma vez que são capazes de derrotá-los. E quando microorganismos antes considerados quase inofensivos começam a resistir a diferentes classes de antibióticos (resistência multi-antibióticos), o problema se torna grave. Aumento da mortalidade, internações prolongadas, indisponibilidade de tratamentos eficazes.

O exorbitante custar das especulações insanas das gigantes das drogas, como sempre, é terceirizada para a comunidade global. Que durante meio século revirou os cofres de Grande Farmácia, comprar antibióticos como balas para tosse. Sem que ninguém, até alguns anos atrás, levantasse dúvidas sobre os custos individuais e sociais de seu abuso. A não ser adicionar uma caixa de fermentos lácteos - às receitas ou sugestões de venda livre - para 'restaurar a flora intestinal', numa visão de conto de fadas de interação de armas químicas com o microbioma.

Criação animal por sua vez contribuiu e ainda contribui para causar e agravar a resistência aos antibióticos, uma vez que os medicamentos veterinários nas explorações de 'gado' têm sido utilizados de forma sistemática e não local, como uma 'maneira mais simples' de prevenir o aparecimento de focos de infecção. Se não também para compensar a falta de higiene e melhorar o desempenho da produção. O legislador europeu interveio, portanto, com uma reforma drástica (registo UE 2019/6), com o objetivo expresso de limitar ao mínimo o uso de antimicrobianos e antibióticos nas fazendas.

'Não há tempo a perder'. Relatório da OMS 29.4.19

'Sem Tempo para Esperar. Protegendo o Futuro das Infecções Resistentes a Drogas.' O relatório publicado em 29.4.19 pela OMS deriva das atividades do Grupo de Coordenação de Agências da ONU dedicados à resistência antimicrobiana (IACG, 'Grupo de Coordenação Interagências da ONU sobre Resistência Antimicrobiana'. (2) A gestão de uma crise sanitária e socioeconómica com impacto global pressupõe, de facto, uma abordagem partilhada, de acordo com a visão 'Uma Saúde'. Onde os 'Objetivos de Desenvolvimento Sustentável'(ODS), na agenda da ONU 2030, representam tanto objetivos quanto ferramentas para sobrevivência e solução de problemas. Em particular no que diz respeito aos direitos dos acesso a comida e água condições de segurança, saúde e higiene.

O estado atual, pelo menos 700 mortes a cada ano são atribuídas a doenças resistentes a medicamentos, 230 apenas a formas de tuberculose que não respondem ao tratamento. Doenças comuns tornam-se incuráveis ​​e protocolos que salvam vidas perdem sua eficácia. As cadeias de abastecimento de alimentos, por sua vez, aumentam a fragilidade, devido ao impacto de patógenos multirresistentes em 'segurança alimentar' (segurança alimentar) e assim por diante 'segurança alimentar«(segurança do abastecimento alimentar, ou seja, disponibilidade de alimentos para as populações). O IACG prevê que a resistência antimicrobiana levará 24 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030.

'Resistência antimicrobiana é uma das ameaças mais sérias que enfrentamos como comunidade global ' (Amina Mohammed, vice-secretária-geral da ONU e copresidente do IACG)

O cenário de previsão tem uma escala diferente, anuncia uma epidemia sem precedentes. Antibióticos, antivirais, antifúngicos estão se tornando ineficazes. A IACG relata 10 milhões de mortes a cada ano, globalmente, até 2050. Com prevalência nos países LMIC ('Países de renda média pequena'), mas sem excluir as economias mais maduras. O fenômeno é, de fato, registrado em níveis alarmantes em todos os países, independentemente do nível de renda nacional. Continuamos humanos e continuaremos a ser, todos nós, independentemente de apólices de seguro e contas correntes. Sem nunca perder, em todo caso, a esperança de alcançar aquela cobertura universal de saúde até então proclamada em vão pela própria ONU e pelos políticos que dela participam. Palavras vazias.

'Uma saúde', a sinergia indispensável

'Uma saude,. A saúde humana, o bem-estar animal, a segurança alimentar e a protecção do ambiente nas suas várias vertentes - incluindo a gestão dos resíduos e das águas residuais - são questões estreitamente relacionadas e devem ser geridas em sinergia. O relatório do IACG enfatiza a necessidade de uma abordagem coordenada e sistêmica, multissetorial. A Europa já embarcou neste caminho, começando com o Livro Branco sobre segurança alimentar (12.2.2000). E, no entanto, é essencial desenvolvê-lo, também no contexto internacional, em várias frentes.


'Abuso e uso excessivo antimicrobianos existentes em humanos, animais e plantas estão acelerando o desenvolvimento e a disseminação da resistência antimicrobiana', destaca o relatório do IACG. É necessário estabelecer sistemas regulatórios mais rígidos, conscientização sobre o uso correto de antibióticos, financiamento de pesquisas e desenvolvimento de novas tecnologias para combater a resistência aos seus princípios ativos, abolição do uso de antimicrobianos de importância crítica e outros medicamentos veterinários como promotores de crescimento na pecuária.

'As recomendações do relatório reconhecer que os antimicrobianos desempenham um papel fundamental na proteção da produção, saneamento e comércio de alimentos, bem como na saúde humana e animal, e promover seu uso responsável em todos os setores. Os países devem incentivar sistemas alimentares sustentáveis ​​e práticas agrícolas que reduzam o risco de resistência antimicrobiana, trabalhando juntos para promover alternativas viáveis ​​ao uso de antimicrobianos, conforme estabelecido nas recomendações do relatório'(José Graziano da Silva, FAO, Diretor-Geral)
Salmonela e campylobacter, aumenta a resistência

Relatórios recentes da EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) mostram como os antimicrobianos utilizados no tratamento de doenças transmissíveis entre animais e humanos (por exemplo, campilobacteriose e salmonelose) estão a perder eficácia e a resistência aos antibióticos não mostra sinais de diminuição.

Em alguns países da UE resistência a fluoroquinolonas (como ciprofloxacina) em tais bactérias Campylobacter é tão alto que esses antimicrobianos não funcionam mais para o tratamento de casos graves de campilobacteriose. Salmonella em humanos também é cada vez mais resistente às fluoroquinolonas, bem como sua resistência a diferentes classes de antibióticos (MDR, Resistência a Múltiplos Medicamentos).

Antibióticos, consumo em Portugal

O consumo de antibióticos em ambulatório aumentou ligeiramente entre 2013 e 2019 em Portugal, mas registou uma redução acentuada a partir de 2020 devido à pandemia de covid-19, avança um relatório da Direção-Geral da Saúde (DGS) hoje divulgado.

“Em ambulatório, a redução de incidência de infeções respiratórias bacterianas pela restrição à circulação e aglomeração de pessoas e pelo uso generalizado de máscara e, por outro lado, a redução de acesso a consulta médica determinaram uma franca redução de consumo de antibióticos”, adianta o relatório anual do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA) da DGS.

Publicado hoje, no Dia Mundial da Higiene das Mãos, o documento refere que o consumo de antibióticos em ambulatório teve uma “tendência ligeiramente crescente” entre 2013 e 2019, mas mantendo-se sempre abaixo da média europeia.

“Em 2020, pelo contexto pandémico, verificou-se uma marcada redução de consumo, que parece sustentada em 2021. Esta redução foi mais marcada do que a da média europeia”, adiantam ainda os dados do PPCIRA.

No entanto, o rácio de antibióticos de largo espetro sobre os de espetro estreito aumentou entre 2018 e 2021 e de forma mais acentuada do que na média europeia, o que faz com que Portugal tenha o “quinto pior resultado à escala europeia neste indicador”, alerta o relatório divulgado pela DGS.

Já relativamente ao consumo hospitalar de antibióticos, o documenta refere que se tem mantido estável desde 2013 e abaixo da média europeia.

“O consumo de um grupo de antibióticos de uso hospitalar mais associado ao tratamento de infeções causadas por bactérias multirresistentes tem-se mantido estável desde 2014, resolvendo a tendência crescente que se verificou entre 2011 e 2014”, nota ainda o relatório.

“Parece-nos que o contexto pandémico teve influência significativa nos indicadores de consumo de antibióticos”, admitem os autores do relatório do PPCIRA, programa prioritário de saúde criado em 2013.

O documento conclui também que a adesão ao cumprimento da higiene das mãos aumentou progressivamente a partir de 2016, sendo “particularmente significativo o aumento ocorrido entre 2019 e 2020 no contexto pandémico”.

Nas unidades de saúde, “entre esses dois anos, a taxa de cumprimento global e a taxa de cumprimento do primeiro momento de higiene das mãos aumentaram de 75,7 para 82,7% e de 68,0 para 76,2%, respetivamente”, refere o documento.

De acordo com os dados do programa, entre 2015 e 2020, verificou-se uma redução da incidência da taxa global de infeção em locais cirúrgicos, de infeção da corrente sanguínea adquirida em hospital, de pneumonia associada a tubo endotraqueal em unidades de cuidados intensivos de adultos e neonatais e de infeção por `Clostridioides difficile´.

“O período pandémico levou a significativo decréscimo da amostra de vigilância epidemiológica de infeções hospitalares, decorrente sobretudo da dedicação dos grupos locais do PPCIRA à batalha contra a covid-19”, reconhece o relatório.




segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Nem tudo o que é verde é assim tão bom. As falhas do Nutri-Score

O sistema simplificado de rotulagem nutricional por cores e letras já foi adotado por alguns países da Europa e a DECO quer que seja implementado de forma uniformizada em Portugal. Os especialistas são unânimes ao afirmar que o Nutri-Score é vantajoso em comparação com o modelo atual ou com a inexistência de um modelo, mas não deixam de apontar falhas que poderão sair caras a médio e longo prazo. E uma delas é a falta de discussão sobre o assunto. A VISÃO pesou os prós e contras deste sistema.

Com uma oferta cada vez mais vasta de alimentos embalados e prontos a comer e os estilos de vida cada vez mais acelerados, os processados enchem as prateleiras dos supermercados e das despensas das casas portuguesas, ganhando um espaço de destaque no regime alimentar diário. O preço destes produtos alimentares continua a ser um dos fatores que mais pesa no momento da compra, mas quando o objetivo é escolher o que é mais saudável é na leitura do rótulo que está a solução. Porém, no caso português, é aqui que pode estar o problema.

Uma vez que 40% dos portugueses têm dificuldade em interpretar a informação presente num rótulo alimentar, a adoção de um sistema de rotulagem simplificado tem sido a aposta de algumas marcas no mercado português e é vista pelos especialistas como caminho a seguir na hora de facilitar a perceção sobre o quão bom ou mau pode ser um alimento embalado. Embora a análise exclusiva do esquema colorido seja superficial, o Nutri-Score é o sistema simplificado de rotulagem que mais tem captado as atenções de algumas empresas alimentares e a DECO quer que seja implementado de forma uniformizada em Portugal, estando já a reunir com os partidos com assento parlamentar para dar seguimento ao assunto, seguindo os passos de alguns países europeus, que já implementaram este sistema.

Quanto a esta iniciativa da DECO, Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional de Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da Direção-Geral da Saúde (DGS) diz à VISÃO “que quanto mais alargada for a discussão na sociedade civil sobre este tema tanto melhor”. Até porque, continua numa resposta enviada por escrito, “neste momento, mais importante do que a adoção do Nutri-Score em Portugal, é a adoção de um modelo único a nível europeu, consensualizado por todos os países europeus. Sabemos que a União Europeia tomará uma decisão sobre este assunto em breve. E Portugal, através dos Ministérios da Agricultura, Negócios Estrangeiros, Economia e Saúde tem naturalmente participado nesta discussão”.

O Nutri-Score é, para já, o único modelo simplificado a ser mencionado por cá, mas há prós e contras no Nutri-Score que têm de ser pesados e o certo é que a discussão sobre este e outros modelos de rotulagem simplificados parece estar a passar despercebida, mesmo após ter sido enviada uma carta aberta ao Parlamento por parte da organização de defesa do consumidor. “Haver diálogo e procura ativa pela melhoria do sistema de rotulagem é um debate que não está a ser tido e essa inércia é capaz de ser algo que irá causar algum arrependimento no futuro, certamente”, lamenta Helena Trigueiro, nutricionista e doutoranda.

O que é o Nutri-Score?

O Nutri-Score é um sistema simplificado de rotulagem nutricional que, com o recurso a um algoritmo, classifica os alimentos por cores (do verde ao vermelho) e letras (do A ao E) numa escala que ajuda o consumidor a avaliar um alimento – os mais saudáveis são rotulados a verde com a letra A e os menos saudáveis a vermelho com a letra E. Este modelo foi desenvolvido pela Santé Publique France, a agência nacional de saúde pública francesa, e encontra-se já em vigor em sete países europeus: Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Luxemburgo, Países Baixos e Suíça.

Segundo a DECO, que se juntou à Auchan, à Danone e à Nestlé na criação da página de Facebook Mais Nutri-Score, o algoritmo do Nutri-Score tem por base um sistema que atribui pontos com base na composição nutricional do produto (por 100g ou 100ml), sendo que se subtraem os pontos positivos aos negativos, cálculo esse que, no final, irá resultar na cor e na letra a apresentar em destaque. Nos pontos positivos incluem-se fatores como “proporção de fruta, legumes, leguminosas, frutos secos, azeite e óleo de colza e noz, tal como o teor em fibras e proteínas” na composição do alimento, lê-se no site da DECO, que dá conta também dos elementos considerados como pontos negativos, como é o caso da “energia (calorias), teor em gordura saturada, açúcares e sal”.

Por cá, marcas como a Pescanova e a Iglo também já usam voluntariamente o Nutri-Score, modelo também adotado nos produtos de marca própria por supermercados como Aldi, E.Leclerc e Pingo Doce, por exemplo. O Continente, por seu turno, usa o modelo de semáforo ao estilo britânico nos alimentos embalados de marca própria, um modelo que foi implementado há 13 anos e que avalia quatro nutrientes: “lípidos (gorduras), ácidos gordos saturados (gorduras saturadas), açúcares e sal”, sendo que cada um deles é classificado com uma cor (verde, amarelo ou vermelho) de acordo com a quantidade presente no alimento, explica por escrito Mayumi Delgado, responsável da equipa de nutrição do Continente. “Existe ainda a cor cinza, atribuída ao valor energético (calorias), que não tem qualquer significado nutricional”, explica. Além das cores, que acabam por destacar os nutrientes de forma direta os nutrientes com impacto negativo na saúde, o semáforo apresenta ainda “a percentagem de dose de referência, tendo em conta a dose de alimento consumida (porção)”, informação visual que acaba por ser de perceção mais direta – uma pessoa hipertensa, por exemplo, percebe logo que determinado alimento com um vermelho no sal é de evitar.

Os prós do Nutri-Score (que podem trazer água no bico)

A complexidade do atual sistema de rotulagem é um dos fatores para a incompreensão quase generalizada a nível alimentar por parte dos portugueses, uma vez que este modelo é bastante descritivos no que diz respeito à quantidades de nutrientes e “essa informação obriga a alguns cálculos” e as pessoas têm de adaptar “as percentagens ao que é recomendado ao longo do dia”, explica Pedro Graça, diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, salientando que “este duplo cálculo nesta rotulagem, que é obrigatória em todos os alimentos embalados, torna-a difícil de compreender e é difícil de transformar em ações no dia-a-dia no momento da compra” e, por isso, “termos um sistema mais simplificado é melhor do que o atual sistema”, até porque, de acordo com Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, a não compreensão nutricional “aumenta para 60% quando estamos a falar de uma população com um nível de escolaridade inferior”. No entanto, Maria João Gregório não deixa de notar que todos os modelos simplificados “apresentam limitações, inerentes a qualquer processo de ‘simplificação’”.

O estudo Nutri-Score: Uma Ferramenta de Saúde Pública para Melhorar os Hábitos Alimentares da População Portuguesa mostrou que se trata de uma ferramenta que é facilmente reconhecida e interpretada “independentemente do estrato socioeconómico e demográfico, especialmente em comparação com o sistema de semáforo”, o que poderá ajudar a combater a falta de literacia alimentar que é apontada pelos especialistas como uma das causas para as más escolhas alimentares (não só em qualidade, como também em quantidade), que, por seu turno, podem desencadear o aparecimento de determinadas patologias, como a obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão. Ainda no que diz respeito ao potencial efeito protetor contra doenças relacionadas com hábitos alimentares, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou, no início de setembro, o mais recente relatório da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC), que sugere que a adoção do Nutri-Score na Europa pode ajudar os consumidores a reduzir o risco de doenças não transmissíveis, como o cancro.

A uniformização deste modelo por vários países europeus poderá ser uma forma de compreender a classificação de um produto embalado mesmo quando não se entende a língua local, o que poderá promover melhores hábitos além fronteiras, sendo este um outro aspeto positivo apontado pelos especialistas. “O Nutri-Score distingue-se dos demais sistemas disponíveis no mercado por avaliar facilmente os alimentos de uma forma global, permitindo uma fácil compreensão da sua qualidade nutricional”, explica Joana Sousa, nutricionista e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Entre as vantagens do Nutri-Score está ainda a facilidade de comparação entre dois produtos da mesma categoria, porém, não deve ser visto como “um substituto da informação nutricional, que deve manter-se”, destaca Joana Sousa. O facto de o alimento rotulado com o Nutri-Score não deixar de ser um alimento processado e embora a demonização deste tipo de produtos não seja benéfica, o certo é que o seu consumo regular e até exagerado pode trazer consequências para a saúde, sobretudo se for feito em detrimento de outros alimentos mais saudáveis ou de um regime alimentar variado. Um estudo levado a cabo por investigadores da Eslovénia aponta as interpretações erradas como um dos principais desafios do Nutri-Score, que apesar de ser eficaz na rotulagem generalizada, carece de discussão para que seja feita uma correta campanha de informação junto da população – preocupação que ganha outra escala quando tudo aponta para que seja um modelo adotado de forma generalizada pelos estados-membros da União Europeia, com níveis de literacia e hábitos de consumo distintos.

“Estes sistemas de rotulagem nutricional como o Nutri-Score, podem-nos ajudar a escolher a melhor opção dentro dos alimentos processados, já que a rotulagem nutricional se aplica aos alimentos pré-embalados. No entanto, a regra geral para a alimentação saudável, seguindo os princípios da Dieta Mediterrânica, continua a ser escolher preferencialmente produtos fresco, da época, minimamente processados e dar preferências aos produtos de origem vegetal”, afirma Maria João Gregório.

A comparação entre dois alimentos semelhantes que o esquema do Nutri-Score proporciona de forma direta pode também ser um gatilho para a indústria alimentar alterar as receitas dos seus produtos de modo a fornecer alimentos com melhores classificações. À VISÃO, os especialistas entrevistados dizem este é um dos principais pontos positivos do Nutri-Score e aquele que, a longo prazo, poderá aumentar o leque de alimentos ‘bons’ à disposição. “Há um duplo benefício: se por um lado estamos a auxiliar o consumidor no momento da compra, por outro lado não temos dúvidas nenhumas que vai encorajar a indústria alimentar a melhorar a qualidade nutricional dos seus produtos”, esclarece a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, que destaca a importância da adoção em Portugal de “um sistema de rotulagem que seja simples e único” e de fácil compreensão por parte dos consumidores, podendo ser o Nutri-Score, outro existente ou até um criado de raíz. Contudo, esta otimização das receitas dos alimentos embalados poderá não ser tão inocente quanto isso, como alerta Pedro Graça mais à frente neste texto – há o risco de hiperprocessamento e a facilidade de contornar ingredientes que nada acrescentam à alimentação saudável.

De acordo com Dulce Ricardo, coordenadora da área alimentar da DECO, o Nutri-Score destaca-se dos demais pela “robustez científica” e por não ser um modelo fixo, o que permite uma adaptação das classificações dadas. “Está previsto para o final do ano, início do próximo uma hipotética reformulação da fórmula, em que está de facto a estudar o comité científico independente a hipótese de começar também a contemplar aditivos, nomeadamente os edulcorantes. A própria fórmula poderá vir a ser alterada com base em critérios científicos, não é uma coisa estanque”, revela. Esta eventual mudança poderá, por exemplo, fazer com que alimentos e bebidas ‘light’ ou rotuladas como ‘sem açúcar’ que são bem classificadas por terem um baixo teor de açúcar passem a ser menos bem classificadas por conterem edulcorantes na sua formulação, o que é um ponto positivo. Um exemplo concreto de reformulação e de como o Nutri-Score não deve ser a única forma de avaliação por parte do consumidor é o azeite virgem-extra, primeiramente classificado como um D e depois como um C.

“No futuro, acredito que estes algoritmos que permitem classificar globalmente um produto alimentar poderão vir a ter em conta o grau de processamento dos alimentos. A evidência científica sobre o consumo de alimentos processados e piores outcomes de saúde é cada vez mais consistente”, diz Maria João Gregório.

Os contras do Nutri-Score

O Nutri-Score é o modelo simplificado que gera mais consenso quando comparado a outros front-of-pack nutrition labels – FOP-NL (rótulos nutricionais na frente da embalagem – FOP-NL), como o caso do semáforo nutricional (usado no Reino Unido) ou o sistema de alerta (usado no Chile), embora sejam ainda poucos os estudos concretos sobre o efeito do Nutri-Score nas escolhas e, por consequência, na saúde, uma vez que se trata de um modelo ainda recente. “Tenho a certeza que o Nutri-Score é melhor do que nada, agora, se me perguntar se é o modelo ideal, não é o modelo ideal. Ainda está longe de ser o modelo ideal e de ser o modelo perfeito à interpretação do valor nutricional”, afirma à VISÃO a nutricionista Helena Trigueiro.

Uma das primeiras falhas apontadas a este sistema simplificado de rotulagem nutricional é o facto de o algoritmo do Nutri-Score não englobar tudo o que pode estar na ‘receita’ do alimento industrializado. “O risco, a meu ver, é que se está a classificar um alimento com dezenas de nutrientes apenas baseado em três ou quatro, que são os mais importantes para a saúde da pessoa”, mas não os únicos a compor o alimento, alerta Pedro Graça.

Atualmente, o algoritmo do Nutri-Score não contabiliza aditivos, grau de processamento, pesticidas, antibióticos, alergénios, aromas, tamanho da porção e o método de preparação/confeção. E o que é que isso quer dizer? As bebidas light, por exemplo, podem ser melhor classificadas do que aquilo que seria esperado. Tal como a própria DECO escreve no seu site, “o Nutri-Score considera apenas a quantidade de açúcares e não a presença de edulcorantes”, usados comummente para fazer as vezes do açúcar em alimentos e bebidas, e, por isso, “essas bebidas podem, portanto, obter um B ou um C”, algo que poderá gerar alguma confusão por parte dos consumidores, sobretudo quando a evidência científica alerta para os riscos do consumo regular e exagerado de açúcar e quando estão em vigor medidas que limitam a sua quantidade, como é o caso do imposto sobre as bebidas açucaradas (o chamado ‘imposto Coca-Cola’), que entrou em vigor em 2017, e da redução da gramagem do açúcar presente nos pacotes de uso único, que, desde 2020, não pode ser superior a quatro gramas por unidade. Algumas bolachas, cereais de pequeno-almoço e barras de cereais estão classificados como com um B, mesmo contendo edulcorantes na sua formulação.

Para além da exclusão de alguns fatores do algoritmo, a própria fórmula usada para obter a classificação pode ‘mascarar’ alguns aspetos, algo que o consumidor apenas poderá decifrar se fizer a leitura do rótulo tradicional. E Pedro Graça dá um exemplo: “um alimento que tem um verde [na classificação] é geralmente um melhor alimento do que o que tem um vermelho, no entanto, como este score é um cálculo de várias coisas, pode haver um alimento que até tem um bocadinho de sal a mais, mas como tem todos os outros fatores todos a favor o que vai acontecer é que essa quantidade de sal é diluída em todos os outros fatores positivos e o alimento até pode ter uma classificação razoável, mas se a pessoa for hipertensa, não percebe que aquele B ou C tem a sal a mais”.

“Uma das principais falhas [do Nutri-Score], a meu ver, é a dificuldade de integrar a própria ideia de moderação. Se, por um lado, o Nutri-Score acaba por disfarçar e mascarar de alimentos saudáveis alimentos que não têm assim tanto interesse, e podemos falar dos refrigerantes, mas também podemos falar de outros alimentos que, por terem um valor calórico mais baixo acabam por passar com um A ou com um B e que não são, de todo, a opção mais interessante, por outro lado, os alimentos mais tradicionais e da própria dieta mediterrânica acabam por ser mais postos de lado e menos considerados pelo próprio Nutri-Score e isso parece-me um bocadinho incongruente”, atira Helena Trigueiro.

Pedro Graça, também membro do Conselho Científico da ASAE, reconhece o impacto positivo que o Nutri-Score pode ter na confeção de alimentos processados com melhores classificações por parte da indústria alimentar, mas alerta para o facto de este aprimoramento de classificação poder ser “um incentivo ao hiperprocessamento” dos alimentos, pois, “um produto altamente processado pode ser um A ou B e ter lá uma série de aditivos que à partida não são necessários para a nossa saúde”. Na prática, explica, “se o produtor quiser que o produto passe de vermelho para verde, tem de ir à composição desse alimento, retirar açúcar, sal e gordura para ter um B. Se for um alimento hiperprocessado, com mistura de muitas coisas consegue-se, tirando uma coisa e metendo outra, fazer algum jogo de ingredientes e passar de um D para C, por exemplo. Se meter um pouco mais de fibra e de proteína, se calhar, consegue manter a mesma quantidade de açúcar e de sal, mas o alimento em vez de ser um D é um C porque foram melhoradas algumas propriedades”.

O impacto do Nutri-Score (ou de qualquer outro sistema de cores) no consumo prevê-se positivo com as pessoas a serem capazes de fazer escolhas mais acertadas e saudáveis, como mostra este estudo realizado em março deste ano, publicado na International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, e que revela uma tendência de ‘fuga’ por parte dos consumidores perante alimentos classificados com D ou E. Porém, isso pode não ser fácil quando alimentos até agora desaconselhados passam a ser bem classificados, como é o caso de alguns cereais de pequeno-almoço. Durante décadas, os nutricionistas desaconselharam o consumo regular deste tipo de alimentos, sobretudo por parte dos mais novos, mas agora é possível encontrar no mercado cereais de pequeno-almoço classificados com um B. Para Pedro Graça, “antigamente, era mais fácil desincentivar os pais a comprar e [o rótulo] coincidia com o discurso dos nutricionistas. Mas nos cereais de pequeno almoço é possível mexer na receita. Do ponto de vista nutricional, o produto melhorou, o que é ótimo, mas compromete a comunicação” e também a compreensão, podendo levar a um consumo mais regular do que o desejado. Apesar de frisar que não é “um anti Nutri-Score, de todo”, Pedro Graça alerta para a importância das pessoas manterem o espírito crítico e procurarem sempre ler o rótulo do alimento: “se [o Nutri-Score] for mal utilizado e se for pouco controlado, pode vender gato por lebre e os consumidores têm de estar sempre atentos”. Neste artigo, é já levantado um pouco do véu dos temas que merecem ser discutidos antes de uma implementação generalizada do Nutri-Score, ou de outro modelo de rotulagem simplificado.

Maria João Gregório defende que “quando estes sistemas de rotulagem atribuem uma classificação global aos alimentos, o risco é maior porque de facto podem passar a mensagem ao consumidor de que o produto é ‘saudável’, independentemente da quantidade consumida. Nós ‘especialistas’ sabemos que assim não é, mas a população em geral terá dificuldade em fazer outra interpretação que não esta”.

A propósito da aplicação do Nutri-Score nas embalagens de cereais de pequeno-almoço, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge levou a cabo um estudo em que concluiu que apesar de o Nutri-Score ter classificado como saudáveis apenas 18% dos 50 cereais de pequeno-almoço avaliados, defende que “os sistemas de rotulagem nutricional simplificada não substituem a declaração nutricional obrigatória, introduzida pelo Regulamento (EU) nº 1169/2011 de 25 de outubro do Parlamento Europeu e do Conselho”, reforçando a ideia de que o Nutri-Score é uma ferramenta de análise direta, mas não deve ser a única.

A diretora do PNAPS reforça a ideia de que o Nutri-Score é “complexo” e que “não é um assunto linear”, porém, e embora reconheça que o algoritmo do Nutri-Score “foi desenvolvido de modo a ser um sistema suficiente permissivo para promover e incentivar a reformulação dos produtos alimentares (por exemplo redução do teor de sal e de açúcar)”, o que, defende, “trará ganhos para a saúde”, esclarece que “esta permissividade do Nutri-Score para algumas categorias permite que alguns produtos alimentares fiquem excessivamente bem classificados”. E dá um exemplo: “Não me parece adequado que cereais de pequeno-almoço com cerca de 25g de açúcar por 100g possam ser classificados com uma cor verde, independentemente da quantidade de fibra que possam conter”, algo que “pode ser mesmo uma mensagem conflitante com as recomendações para uma alimentação saudável. Isto pode ser ainda mais preocupante, na medida em que a evidência científica nos mostra que uma classificação ‘verde’ num alimento tem uma maior capacidade de incentivar o seu consumo, comparativamente ao poder que um ‘vermelho’ tem em desincentivar o seu consumo. São precisamente estes riscos e benefícios que necessitam de ser ponderados para uma tomada de decisão”.

Mais do que um modelo, apostar no conhecimento

Os especialistas consultados pela VISÃO não hesitaram em afirmar que a rotulagem nutricional simplificada é mais vantajosa do que os rótulos atuais, mas frisaram que o sucesso deste tipo de sistema, incluindo o Nutri-Score que a DECO quer ver implementado em Portugal, depende sempre da literacia alimentar de cada pessoa, algo que se consegue com campanhas, sobretudo junto dos mais novos.

Para a docente Joana Sousa, não há modelos perfeitos e o Nutri-Score deve ser visto, acima de tudo, “como uma ferramenta de educação alimentar importante, mas não podemos considerar que resolveremos o problema em Portugal com a sua implementação”, ou seja, mais do que a solução para melhores escolhas alimentares, “o modelo serve de complemento e facilitador da literacia alimentar”. Diz a especialista que “antes de tudo, o consumidor terá de estar consciente e informado dos princípios de alimentação saudável e equilibrada”, uma vez que “este ou qualquer outro modelo não são ‘a’ ferramenta, por si só, capaz de garantir uma alimentação saudável e equilibrada”, devendo haver uma aposta séria não só no aumento de conhecimento por parte dos consumidores, mas também no acompanhamento deste tipo de medidas e na discussão das mesmas, algo que Pedro Graça defende que deve ser feito de forma independente, por mediadores “sem interesses” e “sem influência dos lobby da alimentação”.

“Comparado com outros modelos de rotulagem, nomeadamente o que é usado no México [rotulagem de advertência, semelhante à do Chile e também adotada no Uruguai e Peru], não sei se [o Nutri-Score] será melhor e penso que havendo a sua adoção deve haver um debate muito sério sobre como é que se poderia a nível europeu adotar este sistema de rotulagem”, diz Helena Trigueiro, que volta a lamentar a falta de discussão sobre o assunto. “Deve haver algum debate face a isso e arranjar estratégias para colmatar estas falhas e estas zonas cinzentas do Nutri-Score”. Para a também investigadora no NNEdPro Global Centre for Nutrition and Health, o Nutri-Score não deve ser uma “discussão fechada”, todos os seus aspetos devem ser avaliados, uma vez que, defende, “não podemos uma visão unicamente focada no consumidor, temos de ter a voz da academia, da ciência, das organizações que defendem o padrão alimentar mediterrânico, os representantes dos profissionais da nutrição e a visão dos produtos, dos vários intervenientes. Isso sim é urgente”.

quarta-feira, 9 de abril de 2014


Um número crescente de doenças tem sido afetado pela resistência, um fenômeno que se dá quando as bactérias não podem ser mortas, mesmo quando distintos medicamentos são ministrados a alguns pacientes, que sucumbem. Isso gera a perspectiva sombria de um futuro em que os antibióticos já não funcionam e muitos de nós, ou de nossos filhos, não vão mais resistir a doenças como tuberculose, cólera, formas mortais de desinteria e germes contraídos durante cirurgias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) vai discutir o tema em maio, em sua assembleia anual de ministros da saúde. A agende inclui o debate de um plano global de ação contra a resistência microbiana. Em momentos anteriores, houve diversas resoluções a respeito, mas pouca ação. Este ano, pode ser diferente, porque países como o Reino Unido estão convencidos de que anos de inatividade tornaram o problema cada vez mais grave.

A Chatham House, uma organização internacional sediada no Reino Unido, foi local de duas reuniões recentes a respeito: uma em outubro e outra no mês passado (co-organizada pelo Geneva Graduate Institute). Ambas foram presididas pela Diretora Geral da Saúde da Inglaterra, a professora Dame Sally Davies, que transformou a resistência a antibióticos em uma campanha emergente. Vum livro recente, The Drugs Don’t Work (“Os remédios não funcionam”), ela revelou que seu relatório anual sobre saúde focou-se, em 2012, em doenças infecciosas.

“Nossas descobertas são simples: estamos perdendo a batalha contra doenças infecciosas. As bactérias estão reagindo e tornando-se resistentes à medicina moderna. Para resumir: os remédios não funcionam.” Davies lembrou que os antibióticos adicionaram em média vinte anos à expectativa de vida dos seres humanos e que, por mais de setenta anos, eles nos permitiram sobreviver a infecções e cirurgias que ameaçavam nossa vida. Contudo, “a verdade é que temos abusado deles como pacientes, médicos, viajantes e em nossa comida”, diz ela em seu livro.

Davies prossegue: “Nenhuma classe de antibióticos foi descoberta nos últimos 26 anos e os micróbios estão contra-atacando. Em poucas décadas, poderemos começar a morrer por cirurgias mais comuns e por doenças que hoje podem ser tratadas facilmente.”

Nas duas reuniões da Chatham House, às quais compareci, diferentes aspectos da crise e das possíveis ações foram discutidas. Em uma das sessões, fiz um sumário das ações necessárias, incluindo:

> Mais pesquisa científica sobre como a resistência é causada e se espalha, incluindo a emergência de genes resistentes a antibióticos como no caso do NDM-1 [cuja ação é explicada mais adiante].

> Pesquisas em todos os países para determinar os níveis da resistência a atibióticos e bactérias que causam várias doenças.

> Diretrizes e regulações de saúde em todos os países para orientar os médicos sobre quando (e quando não) prescrever antibióticos.

> Regulamentações para indústrias de drogas sobre marketing ético de seus remédios, para evitar que promoções de venda dirigidas a médicos ou ao público levem a um uso elevado e desnecessário.

> Educar o público a usar antibióticos apropriadamente, incluindo informações sobre quando eles não devem ser usados.

> Banir o uso de antibióticos na alimentação animal (com o propósito de obter crescimento acelerado). Restringir o uso em animais apenas para doenças de risco.

> Promover o desenvolvimento de novos antibióticos e criar mecanismos (inclusive financeiras) que não tornem as novas drogas propriedade exclusiva das indústrias farmacêuticas.

> Assegurar que pessoas pobres também tenham acesso aos novos remédios.

Quanto ao primeiro ponto, um fato novo e alarmante foi a descoberta de um gene, conhecido como NDM-1, que tem a habilidade de alterar a bactéria e fazê-la altamente resistente a qualquer droga conhecida.

Em 2010, só se localizou a presença do gene NDM-1 (detectado em 2006) em dois tipos de bactérias — E. coli e pneumonia Klebsiella. Mas descobriu-se que este gene pode facilmente saltar de uma espécie de bactéria para o outro. Em maio de 2011, cientistas da Universidade de Cardiff (Reino Unido), que fizeram os primeiros relatos sobre a existência da NDM-1, descobriram que este gene se espalhou para vinte espécies de bactérias.

Também em maio de 2011, houve um surto de uma doença mortal, causada por uma nova cepa da bactéria E. coli, que matou mais de vinte pessoas e afetou outras duas mil na Alemanha. Apesar de a E. coli “normal” produzir doenças suaves de estômago, este novo tipo causa diarreia com sangue e dores de estômago severas. Em casos mais sérios, atinge as células sanguíneas e os rins.

A tubercolose é outra doença que esta retornando de forma agravada. Em 2011, a Organização Mundial de Saúde (OMS) descobriu que meio milhão de novos casos no mundo eram do tipo resistente a múltiplas drogas (MDR-TB), significando que não poderiam ser tratados pela maior parte dos remédios. Além disso, em torno de 9% das tuberculoses resistentes a drogas múltiplas também têm resistência a duas outras classes de remédios. São conhecidas como tuberculoses extensivamente resistente a drogas (XDR-TB). Pacientes com XDR-TB não podem ser tratados com sucesso.

Pesquisadores também descobriram que, no sudeste da Ásia, cepas de malária estão se tornando resistentes a tratamentos. Em 2012, a diretora-geral da OMS, Margaret Chan alertou que todos os antibióticos já produzidos até hoje estão correndo risco de tornarem-se inúteis.

A Assembleia Mundial de Saúde, convocada para o próximo mês é uma oportunidade que não pode ser perdida para finalmente lançar um plano de ação global para resolver esta crise.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

ASAE - cidadão comum vs elite ; comércio local vs mercado global; produtos biológicos vs OGM; saúde ambiental vs tabaco

Imagem retirada do blogue Edições Pirata.

Para que o cidadão comum respeite as leis sobre actividade económica, surgiu a ASAE.
De acordo que algo tem que regular a pirataria, proteger os direitos de autor e a forma e higiene de apresentação dos produtos existentes na restauração e regular os mercados e feiras pelo nosso País fora, ...Contudo se for tudo embalado a plástico, corrremos o risco de desaparecer os produtos regionais e locais e a ASAE directa ou indirectamente transformar as nossas feiras a vender produtos embalados de França, Equador,vender também marcas brancas tipo é...como se fossem os Continentes, Pingo-Doces ao ar livre!!! Além disso todos sabemos as implicações ecológicas dos plásticos....Haja bom senso!!
Em relação ao tabaco, mete-me tristeza ver como a sociedade está tão obediente e cumpridora, quando se vê mais uma vez que há excepções gritantes, como o episódio do próprio Presidente da ASAE que foi fotografado a fumar um charuto no interior de um casino...
Há muito a fazer em relação à protecção da Saúde Ambiental de todos nós e não apenas o combate ao tabaco e tabagismo...
Não devia a ASAE também estar preocupada com a rotulagem dos produtos OGM? Não devia a ASAE regular os stands de automóveis e as lojas de venda de electrodomésticos, por forma a proteger o consumidor e cidadão na verificação da rotulagem ecológica, nomeadamente em eficiência energética e emissões de CO2?
Por fim, onde estão as verdadeiras medidas de Saúde Ambiental, a protecção do comércio local (mitigando os efeitos das alterações climáticas e protegendo bens alimentares regionais), o combate à Publicidade, a Redução de Resíduos e parar com politicas de excepção???