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domingo, 17 de julho de 2022

Como compreendemos e nos comunicamos com o conhecimento e com as relações humanas?


Vamos tentar descomplicar um livro que tem relação com esse título a partir de uma resenha. Mas, para começar, vamos falar um pouco sobre o autor e uma visão geral do livro.

O Humberto Maturana

Foto: Cortesia Instituto de Formação Matríztica / BBC News Brasil 

Para Humberto Maturana, a linguagem caracteriza o ser humano e é nela que toda relação social ocorre. O autor ainda complementa que a linguagem se funda especialmente nas emoções que estão dispostas entre os indivíduos. Mas quem é Maturana?

Ele nasceu em Santiago (Chile), no ano 1928, é um biólogo e neurocientista chileno. Também é criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer. Atualmente trabalha como professor e pesquisador na Escola Matríztica de Santiago, onde se dedica à temática da Matriz Biológico-cultural da Existência Humana.

Em Emoções e Linguagem na Educação e na Política (2002), Humberto Maturana contesta a visão comum de que ser mais racional é a melhor forma para entender e lidar com a realidade à nossa volta.  O livro sustenta a ideia de que não existe acesso ou leitura de uma realidade que seja só racional ou universal.

Para Maturana, toda realidade é dependente do observador, e este, por sua vez, tem a sua cultura e as suas emoções quando expõe seus argumentos sobre algum tema.

A disposição emocional que as pessoas estão em uma interação é o que define se elas vão se aceitar ou não, ou seja, se a interação será social ou anti-social. A obra em questão propõe que os seres humanos têm potencial para se reencontrarem consigo próprios e, assim, reencontrarem-se entre si. Tal utopia deve ser buscada especialmente em interações na educação e na política, conforme o autor defende  ao longo do livro.  

Emoções e Linguagem na Educação e na Política




Imagem: capa do livro pela editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

O começo . . .
O primeiro capítulo aborda a educação na perspectiva da biologia do conhecimento. Para isso, o autor ressalta que o projeto de vida que a geração dele teve ou tem é, provavelmente, diferente do projeto de vida que a geração jovem de hoje possui.

Embora a educação se mantenha com responsabilidades, como a de contribuir para o desenvolvimento do país e para o fim da desigualdade social, as formas como os estudantes são convocados a operarem na sociedade são atualmente diferentes. 

Como assim?
Segundo Maturana, preparar-se para devolver ao Chile o que se recebeu dele e trabalhar para acabar com a pobreza é diferente do que é esperado dos jovens hoje em dia, no caso, preparar-se para competir no mercado de trabalho, muitas vezes se negando a empatia social. Embora Maturana esteja fazendo referência ao seu país, pode-se estender essa preocupação do autor para o contexto educacional brasileiro.

Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ministério da Educação (MEC) de 2016 na área das Linguagens para o Ensino Fundamental, as próprias profissões da juventude atual poderão ser diferentes das profissões estabelecidas no mercado até então:

“uma parte considerável das crianças e jovens que estão na escola hoje vai exercer profissões que ainda nem existem e se deparar com problemas de diferentes ordens e que podem requerer diferentes habilidades, um repertório de experiências e práticas e o domínio de ferramentas que a vivência dessa diversificação pode favorecer”. 

Algumas formas de pensar a competição
A competição como forma de negação do outro se funda em uma ideologia do autor que é expressa quando ele já assume que não tem como existir um mercado da livre e sadia competição.

O neurobiólogo destaca que os encontros mercantis não são homogêneos, existindo situações que os atores são afinados e pertencem a um mundo em comum e situações que os atores são indiferentes entre si e não pertencem a uma lógica comum, de forma que o livre mercado contribui para aceitar alguns e negar outros.

Mas o que é ideologia?
De modo simples, ideologia é o conjunto de ideias e representações já constituídas pelas quais os cidadãos procuram explicar e compreender sua própria vida individual e social, define a filósofa Marilena Chaui (1997). 

Diferentemente da Filosofia, se considerarmos a Análise de Discurso, uma linha de pesquisa das ciências humanas, a ideologia é o mecanismo de produção de evidências subjetivas. 

Conforme Michel Pêcheux, linguista, filósofo e um dos fundadores da Análise de Discurso, não se pode falar no lugar do outro, pois cada discurso tem um sujeito e cada sujeito tem uma ideologia, sendo que o sujeito é resultado do processo de interpelação ideológica. 

Quando o sujeito Maturana discursa sobre competição, conforme vimos acima, opera a interpretação de que não é possível existir uma competição sadia na sociedade. Mas esse entendimento sobre competição  pode não ser compartilhado nem por outros autores também considerados progressistas e humanitários.

Por exemplo, Carl Sagan – astrofísico  e expoente divulgador científico do século XX – divide o sentido de competição na sociedade, considerando a existência de competição maléfica e de competição benéfica. Em um excerto do livro Bilhões e bilhões do Sagan consta: 

“Embora tenhamos de cooperar num grau sem precedentes, não ataco a competição sadia. […] Vamos competir na arte e na ciência, na música e na literatura, na inovação tecnológica. Vamos criar uma corrida de honestidade”. 

Para qual tipo de público Maturana escreveu?
É válido também ressaltar que o Maturana escreve para um público alvo que é a juventude chilena. Nesse sentido, o neurobiólogo imagina que esse tipo de leitor, em geral, compreende as premissas que ele apresenta.

Em outras palavras, o neurobiólogo pratica o mecanismo de antecipação que Eni Orlandi enuncia em seu capítulo Os efeitos de leitura na relação discurso e texto:

“[…] o sujeito-autor projeta-se imaginariamente no lugar em que o outro o espera com sua escuta e, assim, ‘guiado’ por esse imaginário, constitui, na textualidade, um leitor virtual que lhe corresponde, como seu duplo”.

Há pessoas que são só emoção e outras que são só razão?
Outro ponto central que Maturana desenvolve nesse primeiro capítulo é que

“vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções, e não vemos o entrelaçamento cotidiano entre razão e emoção, que constitui nosso viver humano, e não nos damos conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional”.

Para o autor, emoções não são apenas sentimentos, mas sim disposições que definem os domínios de ação.

Por exemplo, as diferentes ideologias políticas também se baseiam em premissas que as pessoas aceitam como válidas e tratam como pontos de partida em uma conversa sobre política. Isso, por sua vez, já implica uma emoção de aceitação pelas premissas e, consequentemente, uma tendência de manter as mesmas ideologias.

No entendimento de Maturana, nunca brigamos quando o desacordo é apenas lógico, isto é, quando o desacordo surge de um erro ao aplicar as coerências operacionais derivadas de premissas fundamentais aceitas por todas as pessoas desde o início. Por outro lado, discussões que sustentam diferentes ideologias facilmente geram conflitos, pois as premissas fundamentais das quais cada um parte são diferentes e estão sob domínios emocionais diferentes.  

Uma dica sobre relações interpessoais. Você abraça?

Uma das formas de se evitar conflitos nas relações interpessoais com diferentes premissas e emoções pode ser o que o livro A mente organizada, do neurocientista e psicólogo cognitivo Daniel Levitin, traz:

“os atos de fala indireta constituem uma poderosa cola social que permite a nossa convivência. […] o ato de fala indireta pode ser considerado um ato lúdico, um convite de cooperação num jogo de pique-esconde verbal […] O filósofo John Searle diz que o mecanismo que permite a eficácia da fala indireta é que ela evoca, tanto no falante quanto no ouvinte, uma representação compartilhada do mundo”.

Tal fala indireta também pode ter equivalência na análise de discurso em casos que se identifica a necessidade e a presença do não dito dentro do que é dito. 

Aproximando ideias do Humberto Maturana com a Análise de Discurso
Maturana ainda complementa que o racional está presente nos argumentos (válidos ou falaciosos) que construímos na linguagem, mas que até esses argumentos racionais que defendemos ou justificamos possuem uma emoção fundante por trás.

Com relação a isso, Eni Orlandi vai mais longe em seu artigo Discurso e Argumentação: um observatório do político, no qual ela analisa que a própria argumentação se produz sob o efeito da sua ilusão subjetiva afetada pela vontade da verdade conduzida pelas intenções do sujeito que estão sob influência da subjetividade e da tentação da verdade.  

Uma maneira redutora de conceber a linguagem humana?

Uma das teorias centrais do neurobiólogo é que a linguagem não é apenas uma forma de comunicação humana, mas a linguagem só ocorre quando há duas ou mais pessoas coordenando ações consensualmente em uma dada interação. Ou seja,

“linguagem está relacionada com coordenações de ação, mas não com qualquer coordenação de ação, apenas com coordenação de ações consensuais”.

E para haver uma coordenação de ações consensuais, é preciso que as pessoas em interação aceitem o outro como legítimo outro na convivência. Partindo dessa ideia, é razoável sintetizar que para Maturana nem toda convivência é social.

Provavelmente é por isso que o neurobiólogo não poupa palavras para defender no livro a importância da educação formal para além das funções conteudistas, uma  educação que se configure como um ambiente que estimule os jovens a experimentarem a aceitação do outro e de si próprios na convivência.

Contudo, a maneira de Maturana conceber a linguagem e, subsequentemente, a relação social pode ser considerada muito específica ou, em alguma medida, redutora.

Por exemplo, para Análise de Discurso, o consenso na linguagem pode ser apenas aparente ou forjado e, também, o âmbito social é feito de divisões. Por outro lado, tanto Maturana quanto a linguista Eni Orlandi da Análise de Discurso reconhecem que a linguagem não é apenas um instrumento de comunicação humanas, sim, um fenômeno social.

Para Orlandi, linguagem é uma mediação simbólica que se funda em dadas ideologias, histórias e interpretações.

Está achando interessante?

Então não perca a segunda parte da resenha do livro no blog Mindflow. Nesta segunda parte vou tratar sobre os próximos capítulos e farei um fechamento não unidirecional.

Relações como linguagem, emoções e ética voltarão a aparecer. Também vou introduzir o entendimento do autor (e não só do autor) sobre a interação da ciência com objetividade e subjetividade, e finalizarei pincelando ideias sobre relações sociais e cidadania. Até a próxima!     

Para Saber Mais

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Base nacional comum curricular. Brasília, DF, 2016. 

CHAUI, Marilena. O que é ideologia. 42ª ed. Ed. Brasiliensis, 1997. 

LEVITIN, D. A Mente Organizada: como pensar com clareza na era da sobrecarga de informação. Ed. Objetiva, 2015. 

ORLANDI, E.P. Discurso e Argumentação: um observatório do político. Ed. Fórum Linguístico, 1998. 

ORLANDI, E.P. Interpretação. Ed. Pontes, 2004.

ORLANDI, E.P. Os efeitos de leitura na relação discurso e texto. In: Discurso e Texto: formulação e circulação dos sentidos. Ed. Pontes, 2ª edição, 2005.  

SAGAN, C. Bilhões e bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio. Ed. Companhia de Bolso, 2008. 

Fonte: Mind Flow

sexta-feira, 15 de julho de 2022

The idea that humans aren't separate from nature redefines life, language and knowing.


The theory of autopoiesis 50 years on.

The popular slogan ‘we are Nature defending itself’, seen at environmental protests across the world, says something about how the idea that humans are not separate from nature is becoming far more mainstream.
From this perspective, as readers of Resurgence & Ecologist will know, the climate and biodiversity crises are intrinsically linked with the fate of humanity and the living planet.
A key reason for this understanding is the work of Chilean biologists Humberto Maturana and Francisco Varela, who published their theory of autopoiesis, which defined life as a system of interactions, in 1972.

Division
Fifty years later, as we face the sixth mass extinction, the legacy of this theory is now more relevant than ever.
Maturana died just one year ago. His systems approach led him to study the organisation of life, rather than its components separately, seeing life as an uninterrupted circular process of self-creation.
This is the fundamental basis of Maturana and Varela’s Santiago theory of cognition, which identified the process of knowing as the activity that allowed the self-generation of living systems – cognition is the process of life. In the case of humans, this includes language and conceptual thought.
Although autopoiesis does not answer the old question of what life is, it tells us what life does. Many scientists consider it one of the best scientific definitions of life.
In the view of the physicist Fritjof Capra, the Santiago theory of cognition is “the first scientific theory that really overcomes the Cartesian division of mind and matter” and “for the first time, we have a scientific theory that unifies mind, matter, and life.”

Absolute
Lynn Margulis became interested in autopoiesis in her search for the microbiological foundations of Gaia theory. Both the Gaia hypothesis and autopoiesis state that organism and environment co-evolve coupled; there is not one without the other.
Self-regulation on a planetary scale would also be a form of autopoiesis: life creating the suitable environment for the creation and subsistence of life itself.
Why has this theory spread to so many fields of knowledge? Because it redefines life, language and knowing. This just changes everything, including what we understand by reality and consciousness.
Maturana states that reality is different for every living being because it is perceived according to the sensory processes of each organism.
Therefore no living being has access to a reality independent of its own organism, and therefore no one can claim to have access to an absolute truth.

Organisms
We always knew in science that an absolute truth is not reachable: the Santiago theory provides a theoretical basis for it, undermining one of the most important assumptions of modern science: objectivity.
The ‘truth’ arises in conversations, as a consensus with others, and therefore constantly changes according to each historical moment.
Moreover, as beings living in language, each new truth (accepted idea) has the potential to change us too: paradoxically, language creates reality as well.
But, contrary to our current understanding, for Maturana emotions are more important than language and reason: “We humans are emotional beings that use reason to justify or deny according to our own preferences.”
Why are these ideas relevant for the future? They free us from a worldview separated between body and mind, subject and object, organisms and environment, hard and soft sciences, individual and society.

Transformation
They show us that in evolution, cooperation is stronger than competition. Instead of being in a race for getting to the ultimate truth through reasoning, we are free to decide how we want to be.
To achieve that depends on our ability to reach consensus together through language as the cooperative behaviour that made us humans.
Democracy is not simply a system of government, but rather a way of living in mutual acceptance. What we believe really matters because we are co-creating our reality as we think it.

In conclusion, the ideas of Humberto Maturana involve a radical shift in the understanding of life, opening the door to possibility and whole systems transformation towards a more just existence among us humans and with the rest of the living world.

This article first appeared in the Resurgence & Ecologist magazine, out now.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Sem escuta, respeito mútuo e colaboração, “iremos direto à nossa extinção”, adverte Humberto Maturana



Diante do enfrentamento de uma crise sanitária, humana e ecológica, o biólogo Humberto Maturana adverte que se não nos encontrarmos no mútuo respeito e colaboração, não iremos gerar mudança alguma orientada para o bem-estar da humanidade. “Sem a pandemia ou com ela, iremos direto à nossa extinção”, adverte.

A reportagem é de Paulina Sepúlveda, publicada por La Tercera, 30-04-2020. A tradução é do Cepat.

Hoje, a vida pode ser definida como uma antes e uma depois da Covid-19. A primeira, a conhecemos, é o mundo sem pandemia. Um mundo sem o medo do contágio de um vírus incompreensível. Um mundo sem quarentena e sem urgentes expectativas do anúncio de uma vacina. Uma vida de certa calma, quando se olha sob a ótica atual.

E o futuro? Ainda não há clareza, mas em muitos aspectos não será o mesmo, explica a partir da compreensão biológica-cultural, Humberto Maturana, destacado biólogo e Prêmio Natural de Ciências Naturais de 1994, que junto com sua colega Ximena Dávila, no ano 2000, fundaram Matríztica.

Isso foi há 20 anos. E há mais de 20 anos, ressalta Maturana, refletem sobre o vivo e o humano.

O vivo e o humano que hoje enfrentam uma prova. Uma crise sanitária-humana e ecológica, em que o caminho para recuperar a convivência democrática é o que “nos parece fundamental para sair dela”, explica Dávila.

Todos e em todo o mundo enfrentam uma ameaça externa compartilhada. A Covid-19 pode ter a singularidade de que socialmente seja imprescindível nos reagrupar, ajudar e cooperar. O Sars-Cov-2 – vírus que produz a Covid-19 – é um chamado à consciência. Um lembrete de que nós, seres humanos, só somos em relação a outros seres humanos, “e este é um momento histórico e uma grande oportunidade para nos tornar autoconscientes”, comenta Dávila.

Somos uma unidade biológica-cultural como humanidade, destaca Maturana, e só poderemos sair da crise que vivemos “deixando de competir para colaborar, corrigindo nossos erros no respeito mútuo, atuando em um projeto comum”.
Ciência e vulnerabilidade

A pandemia de coronavírus está evidenciando fragilidades da sociedade de mercado e o hiperindividualismo. E a ciência, nesse sentido, é vista com outros olhos. “Na medida em que se entende que a ciência é um aspecto da compreensão do que ocorre em nosso viver cotidiano”, afirma Maturana.

Mas, não é que a ciência tenha se tornado mais relevante. Ambos concordam em que as atenções das pessoas e dos países estão voltadas à pesquisa científica, porque é a que pode encontrar um caminho que acabe com esta pandemia por meio de uma vacina que nos proteja do vírus.

Ambos ressaltam que o que está sendo feito para evitar a propagação do vírus, e em primeiro termo conter seu avanço, é o adequado. Se não se tem remédio ou anticorpos, a forma de deter o curso de uma epidemia é deter os contágios, “que, sim, precisamos saber como se propaga e é isso que está sendo feito nesse momento”, aponta Maturana.

Mas o mundo era muito mais vulnerável do que se acreditava. Bastou um ínfimo vírus. Um que avançou com tal letalidade que fez com que os relatos, que em algum momento líamos sobre a peste negra de séculos atrás, nos parecessem cotidianos. A crise que vivemos nos faz repensar a partir da dor que bateu em nossa porta, disse Dávila, “nos torna conscientes sobre nossa relação conosco e com o mundo”.

Depois que foram iniciadas as medidas para restringir o avanço do vírus e evitar um colapso do sistema sanitário, falou-se do isolamento social. Mas o isolamento da quarentena, o uso de máscaras ou a manutenção de uma certa distância nos encontros, disse Maturana, não são medidas de isolamento social, muito pelo contrário, “são atos sociais que se escolhem nesse momento, porque são as únicas medidas que podemos adotar para deter o contágio, quando não temos uma vacina ou um medicamento para isso”.

Hoje, o sentido de cooperação e colaboração social é precisamente nos manter em isolamento e só sair se necessário. Paradoxalmente, a cooperação e colaboração social não passam por estar em grupos. Hoje, vive-se a colaboração social “respeitando as medidas de isolamento que sabemos que são os únicos meios de que dispomos para deter os contágios”, aponta Maturana.

Por isso, o impacto social desta pandemia dependerá em grande medida de se estamos dispostos ou não a colaborar. Se agora não estamos dispostos a colaborar na detenção dos contágios, o efeito será desastroso. “Conforme ouvimos do mundo da medicina, todos e todas em algum momento seremos infectados pelo vírus da Covid-19, caso não pratiquemos os procedimentos de isolamento necessários para evitá-lo totalmente ou para o tornar mais lento, de modo que tenhamos tempo para produzir uma vacina que nos proteja. O isolamento social para o qual somos convidados é físico, não da alma, é um ato de autocuidado e de amor”, acrescenta Dávila.

E embora seja um aspecto biológico, um vírus, o que confina o mundo não é um chamado da natureza para a humanidade reagir, mas, ao contrário, o entendimento, disse Dávila, de que não importa para o mundo natural, em sua atuação espontânea, o que nós, seres humanos, fazemos.

O mesmo acontece com a mudança climática, a escassez de água e a ameaça dos vírus. “O mundo natural não se importa com nada do que pode nos acontecer sem a água ou com o vírus, também em nada se importa se este encontrou ou não com um hóspede oportuno para a sua reprodução. É a nós, seres humanos, que refletimos, conversamos, tomamos decisões, que deve importar qual mundo geramos em nosso conviver”, acrescenta.

Maturana é enfático em apontar que se não nos escutarmos e não nos encontrarmos no mútuo respeito, na honestidade e na colaboração, que é a convivência democrática, “não geraremos mudança alguma orientada para o bem-estar da humanidade, sem pandemia viral ou com ela, iremos direto à nossa extinção”.

Se não estivermos dispostos a reconhecer que temos os conhecimentos necessários para atuar de maneira adequada frente a essas distorções ecológicas, geradas pelo modo de viver humano, isto nos levará a um desastre social. “Se não escolhermos atuar de acordo com os conhecimentos que temos, quer dizer que somos tontos ou malévolos”, aponta Maturana.

“Nós, os seres humanos, somos os únicos seres vivos que podemos atuar de maneira consciente para evitar o desastre sobre a biosfera que essas distorções ecológicas trarão no futuro de nosso conviver social biológico-cultural. O primeiro e último remédio é nos encontrar no amor, em nos deixar aparecer, no conviver democrático que nos permite conversar e refletir, escolhendo entre todos os seres humanos, ou seja, entre todas as pessoas, as tarefas que conservam a harmonia e o bem-estar entre nós e com a biosfera”, aponta Maturana.

Fonte: aqui

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Maturana: sem cooperação e alteridade, não há futuro

Biólogo chileno, falecido a 6/5/21, influenciou as ciências sociais com seus estudos sobre os seres vivos. Crítico das lógicas neoliberais, constatou, pela teoria da autopoiese: humanidade pode reconstruir o mundo, mas evolução só vem a partir do Cuidado.


A Ciência, além dos frequentes ataques que vem sofrendo nas últimas décadas, em decorrência de fenômenos como revisionismo histórico, negacionismo e outras distorções cognitivas que alimentam as regressões do sombrio tempo atual, perdeu, em 6/5/2021, um dos seus maiores expoentes, o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, que tinha 92 anos. Resgato aqui algumas ideias que escrevi em setembro de 2020, num texto intitulado A biopolítica do desacoplamento, acerca da genialidade e do espírito humanístico desse notável pensador.

Para quem conhece o extraordinário legado de Maturana, não é necessário, portanto, muito esforço cognitivo para percebermos que o atual modo de vida hegemônico da civilização é totalmente insustentável, em qualquer perspectiva que o observemos. Essa incongruência civilizatória tem a ver com as diversas visões de mundo que foram sendo elaboradas e vivenciadas ao longo da história, até chegarmos à visão econômica de mundo, que impera quase absoluta na época atual. Isso porque todas as cosmovisões já experimentadas, desde o teocentrismo da idade média, passando pelo antropocentrismo da cultura renascentista e moderna, que foi mesclado com o mecanicismo determinista iniciado no século XVII e desembocou no economicismo atual (e até mesmo a aposta no transumanismo proporcionado pelos algoritmos, que alguns projetam para o futuro próximo), foram permeadas pela cultura patriarcal, a qual está amparada na apropriação da verdade de que o mundo é uma grande arena regida pela ideia de luta, hierarquia, poder, controle e extração de recursos naturais. E esta cultura patriarcal, em muitos momentos da história da humanidade, desencadeou processos de profunda regressão, porém nunca tão intensa e impactante quanto a que aparenta estar em curso na contemporaneidade.

Em sua intensa e abrangente prática científica, Maturana deixou para a humanidade, como veremos adiante, contribuições relevantes para a compreensão do que seja a vida, em especial, sobre os fundamentos biológicos que sustentam (ou deveriam sustentar) não só o comportamento humano mas também o social. Diferentemente dos muitos pensadores que, ao longo da história, fizeram e continuam fazendo, a partir das ciências sociais, a crítica ao nosso sistema-mundo que está amparado na lógica de mercado, Maturana desenvolveu ao longo da sua trajetória investigativa as concepções biológicas que demonstram que estamos vivendo, há milênios, sob um paradigma civilizacional totalmente incongruente com os processos de sustentação da vida, que tem afetado as mais diversas dimensões da experiência humana: científica, econômica, cultural, política, social, religiosa, dentre outras.

Humberto Maturana, de Santiago do Chile, doutorou-se em Biologia por Harvard (1958), trabalhou em neurofisiologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e também transitou pela filosofia, antropologia e algumas áreas específicas da medicina como anatomia, genética e cardiologia, com um interesse permeado pela compreensão dos seres vivos e, especialmente, do humano e da relação entre humanos. Maturana é reconhecido em vários países e em vastas áreas do saber pelos seus estudos, tendo sido agraciado por diversos prêmios e distinções como Doutor Honoris Causa pela Universidade Livre de Bruxelas e o Prêmio McCulloch pela Sociedade Americana de Cibernética. Dos muitos livros que escreveu, destacaria Autopoiesis and Cognition (Reidel, 1980) e El Arbor del Conocimiento (Editorial Universitária, Chile, 1984), os dois escritos junto com o biólogo e filósofo chileno Francisco Varela, falecido em 2001, com quem ele concebeu na década de 1970 a noção de autopoiese (autoprodução, a criação de si), conceito que extrapolou o domínio da biologia e foi incorporado noutras áreas da ciência e da filosofia, tendo sido utilizado por nomes reconhecidos como Felix Guattari, Gilles Deleuze, Niklas Luhmann, Antonio Negri e outros.

Embora sua atuação estivesse voltada para a biologia, o trabalho de Maturana extrapolou para o campo da política. Por meio das suas ideias foi possível refletir sobre a fenomenologia da política a partir da fenomenologia da biologia e, assim, podermos perceber como o biológico e o cultural se imbricam, por uma condição inerente à natureza dos seres vivos, e como essa relação dissociou-se ao longo da história da humanidade, contrariando os princípios que regem os metabolismos constituintes da vida. Depois de Charles Darwin, cujas descobertas no campo das ciências naturais (Teoria da Evolução das Espécies – 1859) pôs por terra a aura de divindade em torno do homem até então, tornando-o mortal e colocando-o na mesma categoria dos seus parentes animais, Maturana talvez tenha sido quem melhor conseguiu ampliar a compreensão acerca da dinâmica da vida, inclusive alcançando, por meio da biologia, uma melhor compreensão também acerca do comportamento humano e da vida em sociedade.

Talvez a principal contribuição de Maturana para a ciência tenha sido a ampliação do entendimento do que seja conhecimento e realidade e qual a relação entre eles. Maturana concebe que a vida, em suas mais variadas formas, trata-se de um processo de conhecimento entrelaçado com a realidade. Nas palavras dele, “todo ato de conhecer faz surgir um mundo”. Assim, a realidade na qual cada indivíduo vive é o que ele constrói a partir da sua percepção, ou seja, da sua visão de mundo ou modelo mental, ao mesmo tempo em que esta mesma realidade também retroage sobre o indivíduo, construindo-o. Convencionou-se chamar esse campo de estudo de biologia da cognição. Aliás, o que Maturana revelou pela fenomenologia biológica, nomes como Nietzsche já intuíam pela via da filosofia, quando enunciou: “Contra o positivismo, que para perante os fenômenos e diz: ‘Há apenas fatos’, eu digo: ‘Ao contrário, fatos é o que não há; há apenas interpretações’. Não podemos constatar nenhum fato ‘em si’: talvez seja um disparate querer algo assim. Tudo é subjetivo.” Lembrando que Nietzsche, como grande parte dos notáveis de sua época, era um pensador mais próximo da visão patriarcal, mas com bons insights não patriarcais. Afinal de contas, por mais brilhante que seja uma mente em sua capacidade de compreensão da complexidade do mundo real, não há como escapar totalmente dos condicionamentos patriarcais estando imerso em um modo de vida que assim se sustenta.

Dizer que cada indivíduo produz o mundo e por ele é produzido, num processo recursivo e circular, vai de encontro com a ideia ainda hoje predominante chamada representacionismo, na qual há uma realidade objetiva independente do observador, que constitui a base da cultura patriarcal. Nela, o mundo já é algo pré-dado em relação à experiência humana, que nos faz adotar uma atitude passiva diante da realidade. É assim que opera, por exemplo, a visão econômica de mundo, hoje, hegemônica, que nos impõe como verdade a ideia de que o mundo é um grande mercado regido pela competição, meritocracia, consumo e acumulação, por meio da qual se procura justificar que não há outra forma de sociabilidade que não seja a que nós vivemos atualmente, que tem como centralidade o capital.

Para uma melhor compreensão dessa biologia do conhecer, segue uma tentativa de síntese dos principais conceitos e estudos desenvolvidos por Maturana e Varela que melhor explicam os fundamentos biológicos que sustentam a dinâmica da vida e do fenômeno social, os quais servem de argumentos para entender que o comportamento humano foi moldado por uma cultura patriarcal em desacordo com tais fundamentos, e que também nos permite entender como, a partir dos séculos XVII e XVIII, o capitalismo foi gradualmente engendrando uma biopolítica de desacoplamento crescente dos processos que sustentam a vida no nosso planeta, que inclui as sociedades humanas.

Autopoiese e acoplamento estrutural: a dinâmica da vida
O termo “autopoiese”, que vem do grego poiesis, referente à produção, significa autoprodução. Foi utilizado pela primeira vez no mundo acadêmico em 1974, em um artigo escrito por Maturana, Varela e Ricardo Uribe (PhD em cibernética pela Universidade Brunel, Londres) para explicar como os seres vivos produzem continuamente a si mesmos. Como diz Maturana, a autopoiese é o “centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos”. Os organismos vivos, desde o nível dos componentes celulares às comunidades de seres vivos, são, desse modo, sistemas autônomos que se autoproduzem e se autorregulam. Entretanto, paradoxalmente, eles também são dependentes, pois precisam recorrer aos recursos disponíveis no meio ambiente para manter sua autopoiese. Daí a necessidade do pensamento complexo (que abraça as contradições) para compreendermos conceitos que melhor explicam a complexidade inerente ao mundo real.

Por outro lado, os organismos vivos também estão determinados por sua estrutura, o que Maturana e Varela chamaram de “determinismo estrutural”. Cada ser vivo tem uma organização que o define, o modo como ele se configura, a qual é sustentada por uma estrutura resultante da forma como seus componentes se interconectam e interagem sem que a sua organização se altere. Ou seja, a estrutura muda o tempo todo para manter sua organização, adaptando-se às modificações do seu ambiente, que também são contínuas. O determinismo aqui, portanto, não se confunde com previsibilidade, pois a estrutura está em constante mudança para manter sua congruência com o meio, também em permanente mudança. Mais um paradoxo da dinâmica dos sistemas vivos: estão em contínua desordem interna, no âmbito da estrutura, para manter a ordem externa, no âmbito da organização. Dizendo de outro modo, os seres vivos estão permanentemente em estado de entropia (degradação) e neguentropia (regeneração). Esse fluxo, que é necessário e imprescindível para que o ser vivo mantenha uma espécie de harmonia com o meio no qual está inserido, só cessa com a perda da organização, ou seja, com a morte.

Daí vem a noção de “acoplamento estrutural”, também desenvolvida por Maturana e Varela. O ser vivo, para manter sua organização, precisa estar em um permanente estado de congruência com o ambiente em seu entorno. O mundo vivo constitui-se, assim, de uma grande comunidade com variadas formas de vida, todas em um contínuo estado de interação, em diversas ordens de organização, cujos comportamentos afetam-se mutuamente (ser vivo e meio) e, assim, vão estabelecendo consensos contextuais que garantem a coexistência e a evolução de todos os integrantes dessa imensa rede que é a comunidade de biodiversidade na qual estamos inseridos. Como diz Maturana, “o que define uma espécie é o seu modo de vida, uma configuração de relações variáveis entre organismo e meio”.

Quando apreciamos a harmonia e a exuberância de uma grande floresta amazônica, por exemplo, na verdade estamos observando uma imensa rede de biodiversidade em acoplamentos estruturais, entre um número incalculável de seres vivos, em processos adaptativos complexos de coexistência. Só no corpo humano, segundo os microbiologistas, coexiste uma comunidade da ordem de 3 biliões de milhão  de bactérias e micro-organismos. Conforme Maturana e Varela, “a contínua mudança estrutural dos seres vivos com conservação de sua autopoiese acontece a cada instante, incessantemente e de muitas maneiras simultâneas. É o palpitar da vida”.

Aceitação do outro: a origem do social
A partir desses conceitos como autopoiese e acoplamento estrutural, a visão da chamada biologia moderna (século VII), que entendia a evolução a partir das configurações genéticas que se conservam na história reprodutiva dos seres vivos, dá um enorme salto de compreensão acerca da dinâmica da vida. Nessa nova perspectiva, a explicação do fenômeno da evolução, segundo Maturana, “está na mudança do modo de vida, e em sua conservação na construção de uma linhagem de organismos congruentes com sua circunstância, e não em desacordo com ela”. No caso dos seres humanos, Maturana sustenta, com base em estudo de registros fósseis de 3,5 milhões de anos, que a origem do humano está no surgimento da linguagem e no seu entrelaçamento com a emoção, a qual constitui a base das ações humanas, ao contrário do que pensa o senso comum que dá centralidade à razão e à objetividade nas nossas ações, entendimento que constituiu a base do desenvolvimento da ciência moderna, surgida nos séculos XVI e XVII na Europa. Como ele mesmo diz, “todo sistema racional tem um fundamento emocional”. No entanto, “pertencemos a uma cultura que dá ao racional uma validade transcendente, e ao que provém de nossas emoções, um caráter arbitrário.”

Maturana também sustenta que, do ponto de vista biológico, a aceitação do outro é o que dá origem ao social como acontece em qualquer comunidade de seres vivos. Entretanto, não é isso que ocorre entre os humanos. As sociedades humanas funcionam a partir de uma dinâmica de comportamentos forçados, que é o padrão da cultura patriarcal, na qual se sustenta a visão econômica de mundo. Esse padrão de comportamento foi reforçado ainda mais pelo chamado darwinismo social, que traz a noção de que o mundo é uma grande arena, ideia concebida pelo filósofo, biólogo e antropólogo inglês, Herbert Spencer, por alguns considerado o profeta do capitalismo laissez-faire, que cunhou a expressão “sobrevivência do mais apto”. Essa é uma versão da teoria evolutiva da seleção natural, não aceita totalmente pelo próprio Darwin, que ultrapassou o domínio da biologia, e estendeu-se até o âmbito cultural.

A noção de autopoiese, da mesma forma que explica a dinâmica de qualquer comunidade de seres vivos, também deveria se estender aos agrupamentos humanos. No entanto, a cultura patriarcal subverteu essa dinâmica da vida e, assim, vivemos uma sociabilidade patológica nesse sentido, uma vez que ela privilegia uma ínfima minoria da espécie humana em detrimento de um enorme contingente de indivíduos. Nas palavras do escritor e médico psicoterapeuta Humberto Mariotti, “uma sociedade só poderia ser vista como autopoiética se satisfizesse a autopoiese de todos os seus indivíduos. Logo, uma sociedade que descarta indivíduos vivos enquanto eles ainda estão vivos, e portanto atual ou potencialmente produtivos (por meio de expedientes como produção de subjetividade, exclusão social, guerras, genocídios e outras formas de violência), é automutiladora e portanto patológica.” Dizendo de outro modo, somos culturalmente condicionados a viver em competição, e não raro de forma predatória, que nega a presença do outro, enquanto biologicamente só podemos manter nossa autopoiese e nossa congruência com o meio se aceitarmos o outro como legítimo outro na convivência.

Nesse sentido, o que há na natureza é uma grande coexistência de variadas formas de vida que interagem entre si e a melhor forma para compreender essa dinâmica é por meio da noção de cooperação. No entanto, quando à natureza se junta à cultura, esta pode se sobrepor àquela, o que parece ter ocorrido com os seres humanos quando a cultura patriarcal se instalou desde o neolítico. Mariotti descreve bem como tentamos inutilmente nos projetar na natureza: “quando o homem chama determinados animais de predadores está antropomorfizando-os, ou seja, projetando neles uma condição que lhe é peculiar. Como não competem entre si, os sistemas vivos não-humanos não ‘ditam’ uns aos outros normas de conduta. Mantidas as condições naturais, entre eles não há comandos autoritários nem obediência irrestrita. Os seres vivos são sistemas autônomos, que determinam o seu comportamento a partir de seus próprios referenciais, isto é, a partir de como interpretam as influências que recebem do meio. Se tal não acontecesse, seriam sistemas sujeitados, obedientes a determinações vindas de fora.”

Portanto, a competição é um fenómeno que pertence ao âmbito cultural. O que dá origem ao social é a aceitação da legitimidade da existência do outro, sem a qual não poderia haver convivência humana. Maturana, além de afirmar que “a origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação”, ainda vai mais longe quando diz que “o amor é a emoção central na história evolutiva humana desde o início”. A palavra amor aqui está mais associada à noção de cuidado mútuo do que a qualquer conotação cristã ou romantizada que ela enseja no senso comum, ou seja, diz respeito à “emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência”. Por isso é que Maturana afirma, com base na biologia, que 99% das enfermidades humanas estão relacionadas à negação do amor, na medida em que a aceitação do outro é o fundamento biológico do fenómeno social. “Como também reforça o filósofo político britânico John Gray, “a saúde pode ser a condição natural das outras espécies, mas no caso dos homens o normal é a doença. Estar cronicamente doente é parte do que significa ser humano”.

Negação da política: a origem da barbárie
Hoje, como já é quase um continuum na História, a humanidade vive mais um processo de deterioração da política e, por consequência, observamos o crescente esgarçamento do tecido social, que, via de regra, descamba para os autoritarismos e nacionalismos acompanhados de extrema violência contra a dignidade humana. Os horrores do século XX confirmam isso. Aliás, segundo o historiador inglês Eric Hobsbawm, “a história é o registo dos crimes e loucuras da humanidade”. E não poderíamos esperar algo diferente se a cultura que permeou toda a trajetória humana nos últimos seis ou sete mil anos foi a patriarcal.

No fundo, a humanidade é refém de uma espécie de autobloqueio cultural, que a aprisiona em sua própria cultura e assim não consegue ver outra forma de sociabilidade. Isso tem a ver com aquela afirmação atribuída a Einstein de que “nós não podemos resolver um problema, com o mesmo estado mental que o criou”. Em outras palavras, encaramos de um modo muito natural e, portanto, sem qualquer questionamento, a cultura em que nascemos e nos desenvolvemos, sem perceber que estamos incongruentes com a própria condição humana, a qual nos permitiu, ao longo do processo evolutivo do Homo sapiens, que durou em torno de 350 mil anos, chegar até aqui. A normalização da negação do outro e, no extremo, a banalização da violência que essa normalização gera é o padrão de sociabilidade da cultura patriarcal. Maturana vincula esse condicionamento cultural à atual crise civilizatória nos seguintes termos: “para os membros da comunidade que a vivem, uma cultura é um âmbito de verdades evidentes. Elas não requerem justificação e seu fundamento não se vê nem se investiga, a menos que no futuro dessa comunidade surja um conflito cultural que leve a tal reflexão. Esta última é a nossa situação atual.”

O fato é que a negação da política está atualmente em acelerada expansão, em várias partes do mundo, como reflexo do exacerbamento do capitalismo por meio da doutrina neoliberal em curso nos últimos cinquenta anos. O movimento do capitalismo a partir desse ideário neoliberal, impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico, consiste, de um lado, em desarticular e suprimir as forças do Estado e, de outro, impor o padrão empresa de sociabilidade ou, como prefere Maturana, estamos vivenciando a “abertura para a tirania empresarial”. Por isso é que o neoliberalismo deve ser compreendido como uma nova forma de totalitarismo, que agora se dá invertido, ou seja, sob uma ditadura de mercado, como sustenta a filósofa Marilena Chauí. E como tal, revela-se uma doutrina econômica fadada ao fracasso, mas não sem antes produzir uma profunda regressão civilizatória, tendente a ser muito mais avassaladora do que outras registradas na história, uma vez que há dois componentes novos que potencializam e amplificam assustadoramente seus efeitos: as mudanças climáticas e o desmoronamento dos Estados-nação, os dois fenômenos de abrangência global. Na verdade, a humanidade coloca-se de frente com a sua primeira crise de alcance planetário, o que leva muitos pensadores mais atentos às múltiplas dimensões da atual crise civilizatória compararem o antropoceno como mais um dos processos de extinção em massa que a Terra teve no passado, em face da acentuada e acelerada perda de biodiversidade que vem sendo constatada pela ciência nas últimas décadas.

Gray afirma que “novas espécies de despotismos surgem em muitas partes do mundo. Governos recorrem às mais recentes tecnologias para desenvolver técnicas hipermodernas de controle muito mais invasivas que das tiranias tradicionais.” A nova biopolítica que opera no tempo atual ajuda a compreender essas mudanças em curso no sistema do capital. Com o neoliberalismo iniciado nos anos 1970, associado à revolução dos algoritmos, que fez emergir o fenômeno da globalização, financeirização e transnacionalização do capital, esse metabolismo desencadeou um processo quase imperceptível de reformulação da democracia de mercado dos últimos quatrocentos anos, ampliando ainda mais a incongruência do sistema capitalista. Estamos vivenciando, de um lado, o declínio das democracias liberais e, de outro, o provável advento de um capitalismo de hipervigilância como desdobramento da simbiose entre mercado e tecnologia.

Numa recente entrevista ao jornal chileno La Tercera, em 30/4/2020, Maturana mostrou-se bastante preocupado com a atual crise sanitária e ecológica e foi muito contundente em afirmar que se não nos escutarmos e não nos encontrarmos na mútua aceitação e na colaboração, por meio da convivência democrática, “não geraremos mudança alguma orientada para o bem-estar da humanidade, sem pandemia viral ou com ela, iremos direto à nossa extinção”. O sistema capitalista não só é incompatível com a dinâmica da natureza como está deteriorando de forma muito acelerada essa dinâmica. Na visão de Mariotti, “uma sociedade verdadeiramente autopoiética não pode coexistir com o capitalismo de competição predatória e de índole excludente que hoje predomina no mundo. O mesmo vale, é claro, para o capitalismo de Estado, pelo menos o que se tem posto em prática até agora, em regimes que não primam pelo respeito à diversidade de ideias. Se somos determinados a partir de dentro, qualquer forma de autoritarismo é e sempre será uma agressão.” Daí o impasse entre a biopolítica de sustentação do capital e a dinâmica da imensa comunidade de vida, da qual nós humanos fazemos parte, que se sustenta numa delicada teia de acoplamentos estruturais, os quais vêm sendo rompidos desde quando inauguramos o antropoceno.

Infelizmente, a ciência e a história não avançam de forma harmoniosa. Não é porque Maturana e outros, antes e depois dele, descobriram melhores fundamentos para explicar a condição humana e a realidade na qual ela se insere que o nosso modo de viver será ressignificado para melhor. Os avanços e retrocessos que a humanidade experimentou não foram impulsionados pela ciência e sim pela visão de mundo hegemônica em cada época histórica, a qual sempre se apropriou da ciência da forma que melhor lhe convém para se impor, como foi o caso do darwinismo social citado anteriormente. Como afirma Gray, “a ciência é um método de investigação, e não uma visão de mundo”. O motor da história, desde quando o capital tornou-se o eixo estruturador da civilização, tem sido a liberdade da política e do mercado, este sempre submetendo aquela e, por vezes, chegando a anulá-la. E não há sinais de que haverá uma inversão dessa dinâmica em um horizonte próximo.

Segundo a socióloga austríaca Riane Eisler, a partir de algum momento do neolítico, quando houve a grande bifurcação cultural do Ocidente, os povos guerreiros indo-europeus fizeram uso das armas para promover a passagem da “sociedade de parceria”, até então predominante, para a “sociedade de dominação” (O Cálice e a Espada: nossa história, nosso futuro, Palas Athena, 2008). Por isso, talvez seja mais razoável e proveitoso compreendermos e aceitarmos que a história da humanidade coincide com a história das regressões impostas pelo patriarcado e, provavelmente, terá seu ápice e esgotamento na contemporaneidade. Não há como o antropoceno ter vida longa diante dos desacoplamentos que estão em curso.

Se os achados científicos de Maturana e de muitos outros, nessa linha investigativa em torno da fenomenologia social, não estão sendo incorporados pela política e pelo mercado, e tudo indica que não o serão, pelo menos servirão para nos fornecer os fundamentos biológicos para compreendermos a barbárie e o colapso climático para os quais a civilização está deslizando. Com a crescente anulação da política, já há fortes indícios de que estamos inaugurando uma fase muito sombria da história em que o ego humano, em suas mais destrutivas expressões, ameaça reinar absoluto, sem contrapesos para contê-lo ou pelo menos mitigá-lo. Por isso vale sempre lembrar a advertência do neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, que sentiu na pele os horrores do nazismo: “Portanto, fiquemos alerta — alerta em duplo sentido: Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.”.

Segundo o poeta Thomas Eliot, “a humanidade não suporta muita realidade”. Vista de uma certa perspectiva, tal afirmativa não deixa de ser um grande alento. Isso porque talvez a nova biopolítica que está sendo gestada pelas forças do capital, lastreada nos algoritmos, que alguns acham mais adequado chamar de tanatopolítica ou necropolítica, como o faz o filósofo camaronês Achille Mbembe, nos conduzirá a uma realidade tão distópica e, por isso, tão insuportável que, no fim das contas, esse esvaziamento do humano, do vital, da política, da reflexão, da contemplação, talvez represente uma preparação para a travessia da difícil metamorfose que poderá nos permitir resgatar a nossa humanidade perdida. Quem sabe, uma última chance de redenção, um fragmento de esperança de que a cultura patriarcal e os conflitos internos que ela infligiu aos humanos seja, finalmente, dissipada e regresse ao seu estado contingencial, e que a comunidade de vida e o amor que lhe dá sustentação retornem, depois de um longo tempo, ao seu curso natural, como nos ensinou Humberto Maturana!

Referências

EISLER, Riane. O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro. Tradução de Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athena, 2007.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução: Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 2ª ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1991.

GRAY, John. A alma da marionete: um breve ensaio sobre a liberdade humana. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2018.

GRAY, John. O silêncio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2019.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução: Marcos Santarrita. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MARIOTTI, Humberto. Autopoiese, cultura e sociedade. 1999. Disponível em: 

MATURANA, Humberto R. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001.

MATURANA, Humberto R. Conversações matrísticas e patriarcais. In: ______; VERDEN-ZÖLLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. Tradução de Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004.

MATURANA, Humberto R. Emoções e linguagem na educação e na política. Tradução: José Fernando Camos Fortes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

MATURANA, Humberto R. Reportagem de Paulina Sepúlveda, publicada por La Tercera, 30 de abril de 2020. A tradução é do Cepat. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/598691-sem-escuta-respeito-mutuo-e-colaboracao-iremos-direto-a-nossa-extincao-adverte-humberto-maturana>

MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2010.

NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos: 1885 – 1887: volume VI. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.
Fonte: aqui

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Cuidar da Mãe Terra e amar todos os seres, por Leonardo Boff


O amor é a força maior existente no universo, nos seres vivos e nos humanos. Porque o amor é uma força de atração, de união e de transformação. Já o antigo mito grego o formulava com elegância: “Eros, o deus do amor, ergueu-se para criar a Terra. Antes, tudo era silêncio, desprovido e imóvel. Agora tudo é vida, alegria, movimento”. O amor é a expressão mais alta da vida que sempre irradia e pede cuidado, porque sem cuidado ela definha, adoece e morre.
Humberto Maturana, chileno, um dos expoentes maiores da biologia contemporânea, mostrou em seus estudos sobre a autopoiesis, vale dizer, sobre a auto-organização da matéria da qual resulta a vida, como o amor surge de dentro do processo evolucionário. Na natureza, afirma Maturana, se verificam dois tipos de conexões (ele chama de acoplamentos) dos seres com o meio e entre si: uma necessária, ligado à própria subsistência e outro espontânea, vinculado a relações gratuitas, por afinidades eletivas e por puro prazer, no fluir do próprio viver.
Quando esta última ocorre, mesmo em estágios primitivos da evolução há biliões de anos, ai surge a primeira manifestação do amor como fenômeno cósmico e biológico. Na medida em que o universo se inflaciona e se complexifica, essa conexão espontânea e amorosa tende a incrementar-se. No nível humano, ganha força e se torna o móvel principal das ações humanas.
O amor se orienta sempre pelo outro. Significa uma aventura abraâmica, a de deixar a sua própria realidade e ir ao encontro do diferente e estabelecer uma relação de aliança, de amizade e de amor com ele.
O limite mais desastroso do paradigma ocidental tem a ver com o outro, pois o vê antes como obstáculo do que oportunidade de encontro. A estratégia foi e é esta: ou incorporá-lo, ou submete-lo ou eliminá-lo como fez com as culturas da África e da América Latina. Isso se aplica também para com a natureza. A relação não é de mútua pertença e de inclusão mas de exploração e de submetimento. Negando o outro, perde-se a chance da aliança, do diálogo e do mútuo aprendizado. Na cultura ocidental triunfou o paradigma da identidade com exclusão da diferença. Isso gerou arrogância e muita violência.
O outro goza de um privilégio: permite surgir o ethos que ama. Foi vivido pelo Jesus histórico e pelo paleocristianismo antes de se constituir em instituição com doutrinas e ritos. A ética cristã foi mais influenciada pelos mestres gregos do que pelo sermão da montanha e prática de Jesus. O paleocristianismo, ao contrário, dá absoluta centralidade ao amor ao outro que para Jesus, é idêntico ao amor a Deus. O amor é tão central que quem tem o amor tem tudo. Ele testemunha esta sagrada convicção de que Deus é amor(1 Jo 4,8), o amor vem de Deus (1 Jo 4,7) e o amor não morrerá jamais (1Cor 13,8). E esse amor incondicional e universal inclui também o inimigo (Lc 6,35). O ethos que ama se expressa na lei áurea, presente em todas as tradições da humanidade: “ame o próximo como a ti mesmo”; “não faça ao outro o que não queres que te façam a ti”. O Papa Francisco resgatou o Jesus histórico: para ele é mais importante o amor e a misericórdia do que a doutrina e a disciplina.
Para o cristianismo, Deus mesmo se fez outro pela encarnação. Sem passar pelo outro, sem o outro mais outro que é o faminto, o pobre, o peregrino e o nu, não se pode encontrar Deus nem alcançar a plenitude da vida (Mt 25,31-46). Essa saída de si para o outro a fim de amá-lo nele mesmo, amá-lo sem retorno, de forma incondicional, funda o ethos o mais inclusivo possível, o mais humanizador que se possa imaginar. Esse amor é um movimento só, vai ao outro, a todas as coisas e a Deus.
No Ocidente foi Francisco de Assis quem melhor expressou essa ética amorosa e cordial. Ele unia as duas ecologias, a interior, integrando suas emoções e os desejos, e a exterior, se irmanando com todos os seres. Comenta Eloi Leclerc, um dos melhores pensadores franciscanos de nosso tempo, sobrevivente dos campos de extermínio nazista de Buchenwald:
”Em vez de enrijercer-se e fechar-se num soberbo isolamento, Francisco deixou-se despojar de tudo, fez-se pequenino, colocou-se, com grande humildade, no meio das criaturas. Próximo e irmão das mais humildes dentre elas. Confraternizou-se com a própria Terra, como seu húmus original, com suas raízes obscuras. E eis que a “nossa irmã e Mãe-Terra” abriu diante de seus olhos maravilhados um caminho de uma irmandade sem limites, sem fronteiras. Uma irmandade que abrangia toda a criação. O humilde Francisco tornou-se o irmão do Sol, das estrelas, do vento, das nuvens, da água, do fogo e de tudo o que vive e até da morte”.
Esse é o resultado de um amor essencial que abraça todos os seres, vivos e inertes, com carinho, enternecimento e amor. O ethos que ama funda um novo sentido de viver. Amar o outro, seja o ser humano, seja cada representante da comunidade de vida, é dar-lhe razão de existir. Não há razão para existir. O existir é pura gratuidade. Amar o outro é querer que ele exista porque o amor torna o outro importante. "Amar uma pessoa é dizer-lhe: tu não poderás morrer jamais” (G.Marcel); “tu deves existir, tu não podes ir embora”.
Quando alguém ou alguma coisa se fazem importantes para o outro, nasce um valor que mobiliza todas as energias vitais. É por isso que quando alguém ama, rejuvenesce e tem a sensação de começar a vida de novo. O amor é fonte de suprema alegria.
Somente esse ethos que ama está à altura dos desafios face à Mãe Terra devastada e ameaçada em seu futuro. Esse amor nos poderá salvar a todos, porque abraça-os e faz dos distantes, próximos e dos próximos, irmãos e irmãs.
30/03/2014

Por Leonardo Boff é autor de O cuidado necessáro, Vozes 2013.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Natal - A palavra é o espelho da acção

"No mundo há riqueza suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de cada um."~Gandhi

O Natal cuja celebração original Celta/Pagã celebrava no solstício do inverno o fim da obscuridade e o retorno da luz e da esperança. Numa tentativa de apagar estes rituais a igreja veio à semelhança de outras festas (S.João por exemplo) colar-lhe a celebração do nascimento de Jesus que significando esperança e a luz máxima para os seus seguidores terá nascido (Biblia) para o verão. Com a ideia dos presentes desta tradição cristã veio apagar-se a importância do recomeçar, do procurar a luz e celebrar a energia da Mãe terra cujos ciclos demonstram que tudo é renovação mas implicando dedicação e atenção ao que nos rodeia. Procuramos agora corresponder às expectativas que foram criadas para que tudo seja perfeito (prendas, comida, disposição/ânimo) quando esta época seria de reflexão e introspecção, de alegria porque da noite se faz luz de dia para dia até à primavera, normalmente com pouco (é inverno) tal como na vida em que nos treinam para projectar apenas o lado positivo esquecendo que o negativo faz parte e só com este último valorizamos o primeiro. Esta época de maiores dificuldades será talvez a única forma de voltarmos ao purismo da época, ainda que com a nostalgia da prenda desejada,da abertura dos embrulhos e do brilho nos olhos perante a árvore, obrigando-nos a preencher de novo o vazio com acções e gestos porque já não haverá os bens de outrora e talvez venhamos a descobrir que afinal não nos faziam tanta falta.( via Patrícia Santos).

"As formigas não brigam por recursos, nem agem com espírito de competição. Elas simplesmente cooperam."~ Humberto Maturana (citação adaptada por mim)