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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Princess Century - Metro

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O tema "Metro", assinado pelo projeto Princess Century, é uma criação da produtora, compositora e baterista canadiana Maya Postepski, figura emblemática da cena eletrónica de Toronto e ex-membro de bandas como Austra e TR/ST. Centrado num universo sonoro que flutua entre o synth-pop, o minimal techno e a darkwave, o projeto explora sintetizadores atmosféricos, batidas hipnóticas e uma cadência melancólica que serve de banda sonora perfeita para o isolamento urbano.

Realizado por D.W. Waterson, o videoclipe de "Metro" transforma um cenário banal do quotidiano - uma lavandaria self-service — num palco de surrealismo psicológico e desejo hipnótico. A narrativa segue a protagonista numa experiência de desrealização ao cruzar-se com uma figura enigmática que tem um balão cor-de-rosa em vez de cabeça. Este elemento, juntamente com o pirulito que surge no ecrã, funciona como um símbolo de inocência, fetiche e fragilidade sintética, representando uma tentativa de fuga à monotonia através da projeção de uma fantasia bizarra.

Visual e conceptualmente, a obra bebe em várias fontes de inspiração artística. No plano cinematográfico, sobressaem a estética neon-noir e o surrealismo psicológico característicos do cinema de David Lynch e Nicolas Winding Refn, com toques do fascínio pelo sintético e pelo fetiche corporal próprios de David Cronenberg. Na literatura, a intromissão do absurdo numa rotina melancólica evoca o realismo mágico de Haruki Murakami e as visões industriais de J.G. Ballard. Por fim, no plano filosófico, o vídeo aborda temas profundamente existencialistas e solipsistas, questionando as fronteiras entre a realidade e a ilusão na busca por conexão humana em espaços impessoais.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Dia de Mísia - "Ausência"


Letra
Namorei a tua ausência
Por tantas noites vazias
Que agora pede à prudência
Que eu te ausente dos meus dias

É que a ausência de ti
É uma noite tão escura
Que eu não sei sair dali
Sem ir à tua procura

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, choras?

No entanto és sempre tu
Sempre que canto o meu fado
É quase o teu corpo nu
Que quase que tenho ao lado

Tenho a noite por exílio
A tua ausência por lei
Vem em meu auxílio
Ou nunca mais cantarei

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, chegou a hora

Significado da canção
A letra explora o vazio psicológico e físico deixado pela perda do ser amado. O eu lírico descreve uma relação quase obsessiva com a própria solidão, chegando a dizer que "namorou a ausência" durante tantas noites que agora precisa de fazer um esforço consciente para afastar essa sombra dos seus dias. A falta da outra pessoa é comparada a uma noite escura e intransitável, um labirinto de onde não se consegue sair sem ceder à tentação de ir à procura de quem partiu.

Há uma forte presença do corpo e do espaço físico: a cama vazia onde o corpo já não se deita e o exílio da noite. No final, a ausência funde-se com a própria arte da fadista. Ela confessa que o seu fado será sempre sobre essa pessoa e lança um apelo desesperado: se o amor não vier em seu auxílio para quebrar este silêncio, a dor será tão grande que a impedirá de voltar a cantar.

Pequena homenagem
Filha de pai português e mãe catalã (bailarina de cabaré), Mísia trouxe para o fado muita inovação, maior projecção universal, uma sensualidade provocadora, uma ginga malandra e uma alegria solar.

A genuína essência de Mísia reside na audácia de ter sido a grande anarquista e esteta do fado, uma artista singular que habitou a fronteira exacta entre a tradição mais visceral e a vanguarda mais culta.

Longe de se fechar no purismo das tascas ou no fado-destino resignado, Mísia limpou o género do bafio do passado e elevou-o ao estatuto de alta literatura, desafiando os maiores escritores contemporâneos — como José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e António Lobo Antunes — a escreverem para a sua voz. Havia na sua presença uma solenidade aristocrática misturada com uma atitude punk e até gótica, mas reduzir a sua obra à dor é ignorar a sua vibrante veia artística.

Mísia apoiava muito o seu canto no registo de peito, o que conferia à sua música uma ressonância profunda, noturna e ligeiramente rouca - características muito valorizadas tanto no fado clássico como no ambiente de cabaré que ela tanto adorava.

Mísia avant-garde introduziu instrumentos "proibidos" no fado tradicional - como o violino, o violoncelo, o piano e o acordeão - criando uma atmosfera de fado de câmara.

A sua melancolia não era de resignação (o típico "fado-destino"); era uma melancolia de combate, sensual, visceral e assumidamente trágica.

No fundo, Mísia libertou o fado das suas próprias amarras, provando que a tradição também se faz com pele, desejo, fragilidade humana, muita sensualidade, uma pitada de humor, festa e uma enorme liberdade criativa.

sábado, 16 de maio de 2026

Kalandra - Everything In Its Right Place


Alt eg ser (4X)

Flyt medstraums (4X)

Her i går, eg kava - sta imot ein storm
Her i går, eg kava - sta imot ein storm
Eg stod imot stride straumar utan form
Eg, eg kava sta imot ein storm

Alt eg er (3X)

Flyt motstraums (4X)

Alt eg ser er berre svart og kvitt (2X)
Men kva, kva freistar eg å nå?
Det, det er vonlaust å få sjå

Å få sjå (4X)

Kalandra é uma banda norueguesa-sueca que se define por um estilo folk-rock nórdico cinematográfico, misturando melodias etéreas com instrumentação grandiosa e expansiva. Na sua interpretação de "Everything In Its Right Place", o grupo transforma o clássico eletrónico dos Radiohead numa peça orgânica e mística, caracterizada pelas texturas atmosféricas e pelos poderosos vocais de Katrine Stenbekk, que evocam uma sensação de natureza selvagem e isolamento ancestral.
O significado da música, originalmente escrita por Thom Yorke, centra-se na dissociação mental e na tentativa desesperada de encontrar ordem dentro do caos. A letra minimalista e a famosa metáfora de "acordar a chupar um limão" sugerem um estado de amargura ou um colapso sensorial, onde repetir que tudo está no seu devido lugar funciona como um mantra para manter a sanidade mental. Enquanto a versão original parece claustrofóbica e tecnológica, Kalandra dá à faixa um tom de melancolia ancestral, transformando a sensação de alienação urbana numa aceitação profunda e sombria do destino.


Kalandra | Nerver Live session

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Steve Jansen and Thomas Feiner - Sow the Salt


Letra
Help me follow
In your lead
Help me follow
Help me sow the salt

For you
For you
For you I'll sow the salt

Through the gardens
I will dig for you
How the ocean
Come and soap them through

For you
For you
For you I'll salt the sea

Este tema é a 5ª canção do álbum Slope (2007). Embora não exista uma interpretação oficial linha a linha fornecida pelos artistas, o significado de "Sow the Salt" (Semear o Sal) pode ser compreendido através da sua atmosfera densa e da sua letra enigmática. O próprio título evoca a prática histórica de "salgar a terra" para torná-la estéril e infértil, o que sugere temas profundos de autodestruição, finalidade ou a interrupção deliberada de algo que antes crescia.

Esta carga simbólica é ampliada pela letra escrita por Thomas Feiner, que carrega a introspetividade típica do seu trabalho, abordando sentimentos de deslocamento, a passagem inexorável do tempo e uma certa resignação perante processos inevitáveis da vida. Tudo isto se interliga na abordagem experimental de Steve Jansen, que concebeu o álbum Slope como um esforço para evitar estruturas convencionais de acordes. Em "Sow the Salt", esta filosofia traduz-se numa base rítmica eletrónica e detalhada que contrasta perfeitamente com o arranjo orquestral dirigido por Ingo Frenzel e a voz orgânica e profunda de Feiner, criando uma unidade melancólica e isolada.

Páginas Oficiais
Steve Jansen
Thomas Feiner
Steve Jansen & Richard Barbieri

terça-feira, 7 de abril de 2026

Archive - City Walls


Melhor som aqui
[Verse 1]
Well, you broke the shell and found yourself
In another field, in another place, in another world
Where the buildings rise tall as anything
They're surrounded by all the places where you could die

[Chorus]
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And they can't hurt us within the city walls
'Cause if they do, if they do

[Post-Chorus]
They lose

[Verse 2]
Are you still aware of the spacе and time?
Do you think they know that they'rе only wasting their mind?
Although the world doesn't work for us
We can make our way 'til we finally turn to dust

[Chorus]
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And they can't hurt us within the city walls
'Cause if they do, if they do

[Post-Chorus]
They lose

[Instrumental Break]

[Verse 3]
We embrace the dirt, celebrate the hurt
'Til we find a way to a different everyday
And we will drown walls to the city falls
And we stay in place 'cause there's nowhere else we know

[Chorus]
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And they can't hurt us within the city walls
If they do, 'cause if they do
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And you can't hurt us within the city walls
'Cause if they do, if they do

[Outro]
They lose
They lose

A canção "City Walls" é uma peça atmosférica e melancólica da banda britânica de rock progressivo e eletrónico Archive. A faixa faz parte do álbum intitulado Glass Minds (2026), uma obra que explora sonoridades densas e paisagens sonoras cinematográficas. Através de uma letra que evoca o isolamento e a claustrofobia das metrópoles modernas, a música utiliza a metáfora das "muralhas da cidade" para descrever as barreiras emocionais e sociais que nos rodeiam. O clipe, carregado de imagens surreais geradas com recurso a inteligência artificial, complementa esta mensagem ao apresentar figuras anacrónicas, como o médico da peste e astronautas em ambientes decrépitos, reforçando a ideia de que a humanidade vive num ciclo perpétuo de decadência e estranheza. É uma obra que convida à reflexão sobre a alienação urbana e a fragilidade da nossa existência perante o tempo e o progresso.

terça-feira, 31 de março de 2026

Miranda Sex Garden - Gush Forth My Tears


Letra
Gush forth my tears
And stay the burning
Of my poor heart
Or her eyes
Choose you whether
O' peevish fond desire
Alas my sighs
Sighs out
Still blow the fire

A letra de "Gush Forth My Tears" remonta ao final do século XVI, tendo sido publicada originalmente em 1597 na obra The First Set of English Madrigals, do compositor John Holborne. Naquele período, era uma prática recorrente entre os compositores a escolha de poemas curtos, frequentemente de autoria anónima, para servirem de base a madrigais — composições de música vocal polifónica que exploravam a expressividade do texto através da harmonia.

A razão pela qual este tema soa ao trabalho de um "poeta famoso" reside no facto de o seu estilo ser puramente elisabetano, partilhando o mesmo fôlego lírico de grandes nomes da época. O autor, ainda que desconhecido, domina os temas clássicos da melancolia renascentista, recorrendo a figuras de estilo como a personificação da dor, onde as lágrimas são descritas como um fluxo imparável e quase purificador.

Além disso, o texto explora o contraste dramático entre a vida e a morte, sugerindo que o sofrimento do eu lírico é de tal forma avassalador que o descanso final seria visto como um alívio desejado. Esta densidade emocional é reforçada por uma linguagem arcaica e por uma estrutura métrica rigorosa, visível no uso de termos como "fain" (que significa "de bom grado"), o que confere à peça uma nobreza e uma gravidade que o Miranda Sex Garden soube transpor perfeitamente para a estética gótica contemporânea.

Esta canção foi lançada no álbum no álbum Madra (1991)

Curiosamente, este álbum foi produzido por Barry Adamson, que trabalhou com os Nick Cave and the Bad Seeds.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Laibach - Allgorhythm (feat. Wiyaala) - Allgorhythm


[Intro - Milan Fras]
(Voz cavernosa e ritmada)
There's a lot of talking
When Laibach drops a song
Because we do it raw
Ignoring every law
We're shattering the rules
We're tearing down the walls

[Pré-Refrão - Wiyaala & Milan Fras]
(Wiyaala): Hey! – (Let’s) go and do the dance
(Wiyaala): Hey! – (Let’s) fall into the bubble trance
(Wiyaala): Hey! – This is our last chance
(Ambos): Hey, hey – We all go rhythm!

[Refrão - Wiyaala & Coro]
All go rhythm! All go rhythm!
All go rhythm! All go rhythm!

[Verso 1 - Milan Fras]
We must keep moving on
The past is dead and gone
No matter what you do
No one cares about your point of view
What matters is the algorithm works for you

[Pré-Refrão - Wiyaala & Milan Fras]
(Wiyaala): Hey! – (We all) go and do the dance
(Wiyaala): Hey! – (Let’s) fall into the bubble trance
(Wiyaala): Hey! – This is our last chance
(Ambos): Hey, hey – We all go rhythm!

[Refrão - Wiyaala & Coro]
All go rhythm! All go rhythm!
All go rhythm! All go rhythm!

[Ponte de Chamada - Wiyaala]
All the girls, and all the boys – All go rhythm!
Let's get loud and make some noise – All go rhythm!
Here's a beat you can't escape – All go rhythm!
Step right in and match the shape! – Let's all go rhythm!

[Interlúdio - Milan Fras]
Algorithm... Let's do it!
Algorithm... Slaves to algorithm!

[Refrão Expansivo - Wiyaala & Coro]
All go rhythm! Algorithm!
All go rhythm!
All go rhythm! Rhythm! Rhythm!
All go rhythm!

[Verso "Massas" - Wiyaala & Milan Fras]
(Wiyaala): All the tired and the poor – All go rhythm!
(Wiyaala): Huddled masses at the doors – All go rhythm!
(Wiyaala): The homeless and the rich – All go rhythm!
(Milan): From all the teeming shores...
(Ambos): Let's all go rhythm!

[Clímax Final - Wiyaala]
Some people go kung fu fighting
Some people go bit-coin mining
Oh yeah!
Some nations go dynamiting
We like to do some crazy rhyming
Yeah!
Wow, wow, wow, yeah...

[Outro - Todos]
All go rhythm!
Let's all go rhythm!
All go rhythm!
All go rhythm!
All go rhythm!
ALL!

Este é o single de impacto que prepara o terreno para o novo álbum de estúdio do Laibach, intitulado "MUSICK", com lançamento marcado para 1 de maio de 2026 pela Mute Records.

A faixa "Allgorhythm", gravada pelos Laibach em colaboração com a cantora ganesa Wiyaala, define-se musicalmente como uma fusão audaz entre o Industrial Marcial e o Afropop, operando dentro de uma estética de vanguarda que o grupo esloveno domina há décadas. O título é um trocadilho semântico direto entre as palavras Algorithm (algoritmo) e Rhythm (ritmo), servindo como o pilar central para uma crítica ácida à contemporaneidade digital. Através de batidas mecânicas e repetitivas que contrastam com a voz orgânica e potente de Wiyaala, a canção explora a transição da humanidade de antigos regimes totalitários para o que o grupo sugere ser a nova "ditadura dos algoritmos". Neste cenário, os cálculos matemáticos e os códigos invisíveis passam a ditar o ritmo da vida, decidindo o que consumimos, como pensamos e de que maneira nos movimentamos socialmente.

O significado da obra aprofunda-se no conflito entre o orgânico e o sintético, onde a presença de Wiyaala simboliza o espírito humano, a terra e o pulso vital em resistência contra uma instrumentação fria e robótica que representa a máquina. Esta dinâmica sugere uma luta pela sobrevivência da essência humana dentro de um sistema técnico que tenta quantificar e automatizar todas as formas de expressão. Fiel à sua veia satírica e provocadora, os Laibach utilizam a estética do controlo para denunciar a uniformização global promovida pela tecnologia. A música transforma o acto de dançar num comando autoritário, sugerindo que a massa moderna, embora se sinta livre, está apenas a seguir ordens programadas por inteligências artificiais num regime de opressão invisível e omnipresente.

domingo, 31 de agosto de 2025

Anna von Hausswolff - The Whole Woman (ft. Iggy Pop)

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Letra
Listen to me
I'm stronger than I seem
'Cause I've been through this huge emotion
Now I'm not afraid to go down
To the harbor
And to see you once again
I'll tell you the whole truth
And you will see me as the woman I am

I cannot escape
The mistakes that you've made
But I know it in my heart
And I knew it from the start

When I see you, I lose my faith
I lose my time, I lose my days
The reality is far away
When you say my name

I want you to be here
I want to see you, I want you near
I wanna touch you, smell your hair
Feel your lips everywhere

Somewhere in the dawn
I have hopes to see your face
But you're stuck inside a lie
I hope you'll carry my name

Oh, the ocean in our hearts
Will it bring us more apart?
If I tell you who I am
Will you love me as the woman I am?

The story in the sand (of who I am)
Protected by your hand (of who I am)
The dream wash over thee
And unleash your seeds on me

Iconoclastia, resiliência e diálogo geracional em "The Whole Woman"
A colaboração entre Anna von Hausswolff e Iggy Pop em "The Whole Woman" combina duas gerações e estéticas marcantes do rock underground e da música experimental numa obra profunda sobre transformação, dor e libertação. Em termos de nacionalidades, Anna von Hausswolff é uma compositora, cantora e organista sueca, nascida em Gotemburgo e aclamada na cena vanguardista europeia, enquanto Iggy Pop é um lendário cantor e performer norte-americano, originário de Michigan e amplamente reconhecido como o "Padrinho do Punk".

Musicalmente, a canção transita entre o darkwave neoclássico, o rock experimental e o gothic pop. A instrumentação é construída a partir de arranjos dramáticos de cordas, como violoncelo, viola da gamba e violino, que se entrelaçam a sintetizadores, percussão solene e o uso característico do órgão de tubos. O grande destaque do estilo está na tensão vocal entre os dois artistas: o alcance soprano etéreo, dramático e expressivo de Anna von Hausswolff contrasta diretamente com o timbre barítono grave, cru e narrativo de Iggy Pop, criando uma atmosfera que evoca um diálogo teatral entre a inocência e a vivência, a elevação e a ancestralidade.

O significado da obra gira em torno da ideia de resiliência, cura e superação de traumas. Liricamente, a faixa não aborda o amor romântico convencional, mas sim um amor compassivo que pode existir entre amigos, familiares ou no próprio ato de reconexão consigo mesma após a quebra de uma armadura emocional. O conceito visual e narrativo evoca a imagem do mar e dos portos como símbolos de limpeza, purificação e travessia. O caminho para se tornar uma "mulher inteira" (The Whole Woman) exige encarar as sombras do passado, desapegar-se de expectativas externas e aceitar a fragilidade como uma forma de força renovada.

Por fim, as inspirações literárias e filosóficas do projeto estão enraizadas na própria ideia de iconoclastia - a destruição de ídolos, dogmas e ilusões. Há ressonâncias diretas do existencialismo, no qual o indivíduo precisa destruir velhas estruturas conceituais para assumir a responsabilidade sobre sua própria existência. A narrativa da canção também carrega marcas do drama do escritor russo Maxim Gorky, cuja obra As Profundezas explora a dignidade e a miséria humana em cenários de dor. Além disso, a música dialoga com mitologias femininas e a reinterpretação de narrativas bíblicas e patriarcais, propondo uma visão de totalidade em que o sagrado e o profano, a luz e a sombra, coexistem no processo de redefinição da identidade feminina.

Página oficial
Anna von Hausswoff

domingo, 26 de maio de 2024

Música do BioTerra: Sweeping Promises - Good Living Is Coming for You


[Verse 1]
It comes and goes
And comes again
The thrill of changing
Rearranging
But it gets hard
By the year
Estranging
It's strange and

[Pre-Chorus]
Don’t learn
You live, don't learn
Was that a pain
Won't learn
You live, don’t learn
Concentrating
Misread cravings
Fill in the blanks with some new decor

[Chorus]
Wave after wave
Gonna come break the surface
This interior's designed to make you nervous
Gotta brace for it
Can't learn
Gotta brace for it
Gotta brace for it

[Verse 2]
Got a taste for
Creature comforts with
A clean aesthеtic
Nothing synthetic
This feeling
Domesticity
It's tingling
It's tingling, oh

[Refrain]
Can't learn
You livе, don't learn
This feeling
It's feeling like
Won’t learn
You live, won’t learn
Concentrating

[Bridge]
'Cause you model your life after what you see
In your hotel rooms and your magazines
And your magazines and your magazines, and your, oh

[Chorus]
Wave after wave
Threatening to break the surface
This interior’s designed to make you nervous, oh
Gotta brace for it
You can't learn
Gotta brace for it
Gotta brace for it

[Interlude]

[Bridge]
And here it comes
Ah, oh
Gotta brace for it
Oh, here it comes
Ah, oh
Gotta brace for
Another massive wave

[Chorus]
Wave after wave
Threatening to break the surface
This interior's designed to make you nervous, oh

[Outro]
Good living
Good living
Good living

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Antony & The Johnsons - Hope There's Someone


Hope there's someone
Who'll take care of me
When I die, will I go?

Hope there's someone
Who'll set my spirit free
Tell me why I'm coming home

Oh, I'm scared of the middle place
Between light and nowhere
I don't want to be the one
Left in there, left in there

There's a ghost on the horizon
When I go to bed
How will I fall asleep tonight?
How will I rest my head?

Oh, I'm scared of the middle place
Between light and nowhere
I don't want to be the one
Left in there, left in there

Hope there's someone
Who'll take care of me
When I die, will I go?

Hope there's someone
Who'll set my spirit free
Tell me why I'm coming home


"Hope There's Someone" é uma meditação sombria e vulnerável sobre a mortalidade e o isolamento existencial. O tema central é o pavor do desconhecido que surge após a morte; não é apenas uma questão de onde se vai, mas de quem estará lá.

A canção destaca o conceito do limbo — o tal "lugar do meio" — que representa o medo de não alcançar a paz nem o descanso final. Para Anohni, a música funciona como uma prece laica, um pedido desesperado por companhia no momento mais solitário da experiência humana: a transição da vida para a morte. A progressão sonora da faixa, que começa com um piano fúnebre e termina com vocalizações quase agónicas, mimetiza a ansiedade e o pânico que o tema da finitude muitas vezes desperta. Além disso, no contexto da vivência da artista, a obra toca na fragilidade de quem procura aceitação e segurança num mundo que, por vezes, exclui identidades marginalizadas.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Música do BioTerra: The Velvet Underground and Nico "I'll Be Your Mirror" (Warhol film footage); Courtney Barnett (version) e Lou Reed (Spoken Word version)

I'll be your mirror
Reflect what you are, in case you don't know
I'll be the wind, the rain and the sunset
The light on your door to show that you're home

When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you  [1]

I find it hard to believe you don't know
The beauty you are
But if you don't, let me be your eyes
A hand to your darkness so you won't be afraid

[1]

I'll be your mirror (reflect what you are)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Música do BioTerra: Coil- The Dreamer Is Still Asleep


O vídeo utiliza filmagens do filme "Nostalghia" (1983), dirigido pelo cineasta russo Andrei Tarkovsky

Letra
Hush; may I ask you all for silence?
The dreamer is still asleep
May the goddess keep us from single vision
And Newton's sleep

The dreamer is still asleep
The dreamer is still asleep
He's inventing landscapes in their magnetic field
Working out a means of escape
We'll cut across the crop circles

The seer says "no
Not much time left for these escape attempts
Look at it this way
In ten years' time
Who'll care? Who'll even remember?"
One dies like that, deep within it
Almost inside it
It's there for a reason

I'll give you my old address
And take that little book
To tear and cut the paper

The beginning is also the end
Time defines it, time defines it
It will end
Like close friendship
Nothing could be further
We forget
The space between people and things
Is empty
We forget
And don't notice the loss

Crossing into venerable degeneration
Such radiant pollution
The god with the silver hands surveys this vast contamination
The dreamer is still dreaming
The dreamer is still dreaming

In the heart of your heart
Your "I" remains
Is that hurt you? Is that blister you call loveless?
Your whole life is a cold slow shock
Your whole life is a cold slow shock

Take all your time
Track the shabby shadow down
Through hissy mists of history

The dreamer is still dreaming
The dreamer is still dreaming

Hush; may I ask you all for silence?
Will he wake in time to catch the sunset?
Hush; may I ask you all for silent?
May I ask you all for silent?

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Encontros Improváveis: John Cage e João Soares



"SONHAR é...um momento forte de esperança e de imagens que tecem contos com cheiros e cores; um silêncio interior e privado sem fronteiras de racionalidade; um raio lacrimal de sofrimento longo porque algo ainda estará por falar, pintar, musicar, cozinhar...agir; é uma miscigenação; é borboletear e romancear e conjecturar, cuidar, julgar, pensar, presumir, prever e supor; é o mais biológico mecanismo de ansiar, de cuidar, de almejar"~ Joao Soares, 31.03.15

domingo, 29 de março de 2015

Soap&Skin - Extinguish Me


I search in snow, in vain
For your footsteps trail
I have to kiss them
With my scalding tears
Until I see the ground

Bury me under ice
Smother me under the eyes
And snow

Please, extinguish me

Melhor som aqui

Página Oficial
Anja Franziska Plaschg

domingo, 16 de novembro de 2014

Patti Smith- Dancing Barefoot


Patti Smith a rainha deste tema. Um dos temas mais apaixonantes, mais encantadores de toda a era rock. Não admira que tenha inspirado outras bandas. Leva-nos "acima da gravidade". Não é isso a paixão?

She is benedictionShe is addicted to theeShe is the root connectionShe is connecting with he
Here I go and I don't know whyI fell so ceaselesslyCould it be he's taking over me
I'm dancing barefootHeading for a spinSome strange music draws me inMakes me come on like some heroine
She is sublimationShe is the essence of theeShe is concentrating on heChosen by she
Here I go and I don't know whyI spin so ceaselesslyCould it be he's taking over me
I'm dancing barefootHeading for a spinSome strange music draws me inMakes me come on like some heroine
She is re-creationShe, intoxicated by TheeShe has the slow sensation thatHe is levitating with she
Here I go and I don't know whyI spin so ceaselesslyTill I lose my sense of gravity
Oh God, I fell for You
The plot of our life sweats in the dark like a faceThe mystery of childbirth, of childhood itselfGrave visitationsWhat is it that calls to us?
Why must we pray screaming?Why must not death be redefined?We shut our eyes, we stretch out our armsAnd whirl on a pane of glass
An afixiation, a fix on anythingThe line of life, the limb of a treeThe hands of he and the promise that sheIs blessed among women
Oh God, I fell for You

sábado, 31 de maio de 2014

Encontros Improváveis- Miguel Torga e Julianna Barwick




Aos Poetas

Somos nós
As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras,
Asas que em certas horas
Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!

Miguel Torga, Odes

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Memória Curta- por Gustave Le Bon

Já observaram que (só) temos governos-empresas? Cada vez mais vejo que temos que ferir o sistema pelo lado que os afecta mais: o dinheiro. As manifestações, estou de acordo, mas também mais acção directa e alternativas à publicidade e massa de distracção maciça. Isto é, se a RTP1 publicita o banco BIC, os cidadãos devem contra-publicitar bancos do tempo, bancos com boas práticas ambientais, por exemplo.Ou se a SIC publicitar uma pasta de dente qualquer, os consumidores contra-publicitarem produtos naturais, etc. Chamamos a isso Consumismo crítico e (eco) consciente!! Novos urbanos e novos rurais!

Memória Curta
A vida dos povos prova a necessidade de repetições que impressionem. Acumulações de ruínas e torrentes de sangue são, por vezes, necessárias para que a alma de uma raça assimile certas verdades experimentais. Muitas vezes ela não se aproveita disso durante muito tempo porquanto, em virtude da diminuta duração da memória afectiva, as aquisições experimentais de uma geração servem pouco para outra. Todas as nações verificam, desde as origens do mundo, que a anarquia termina pela ditadura. Mas dessa eterna lição elas não tiram qualquer proveito. Repetidos factos mostram que as precauções são o melhor meio de favorecer a extensão de uma crença religiosa, mas isso não impede que, sem tréguas, essas perseguições continuem. A experiência ensina ainda que ceder perpetuamente a ameaças populares é condenar-se a tornar impossível qualquer governo. Vemos, no entanto, que os políticos diariamente olvidam essa evidência.  [Gustave Le Bon, in 'As Opiniões e as Crenças']

domingo, 15 de janeiro de 2012

Harold Budd - Bismillahi 'Rrahman 'Rrahman



O título é uma transliteração da frase árabe "Bismillahi 'r-Rahmani 'r-Rahim", que significa "Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso".

A música é frequentemente descrita como "devocional" ou "espiritual", mesmo que Budd não a tenha composto com um propósito estritamente religioso, mas sim para evocar uma sensação de beleza profunda e transcendência.