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quinta-feira, 13 de julho de 2023

Manual de luta contra a desinformação


Maria Angelita Ressa é uma jornalista filipino-americana, nascida em Manila, em 1963, e que foi viver, a partir dos 10 anos, com a família para os Estados Unidos, depois de declarada a lei marcial nas Filipinas.

Frequentou a Universidade de Princeton, onde se licenciou em inglês com um certificado em teatro e dança. Depois de se formar, em 1986, regressou às Filipinas com uma bolsa Fulbright para estudar em Manila, onde iniciou a sua carreira de jornalista.

Em 2012, Maria Ressa fundou e lançou o sítio web Rappler, que rapidamente cresceu, tornando-se uma das maiores fontes de notícias das Filipinas. Esta empresa de comunicação social digital de jornalismo de investigação ficou internacionalmente conhecida por descrever, minuciosamente, o modo como as redes sociais se tornaram numa arma usada pelo poder dominante, bem como por expor o modus operandi corrupto do Governo abraçado por Duterte e seu sucessor , igualmente corrupto, Ferdinand Marcos Jr., filho do ex-presidente com o mesmo nome – conhecido por ter fugido de helicóptero, depois de ter feito o maior desfalque, alguma vez conhecido, a um Estado-Nação.

Os seus “esforços para salvaguardar a liberdade de expressão, uma pré-condição para a democracia e a paz duradoura”, foram reconhecidos ao mais alto nível, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Nobel da Paz, em 2021, em conjunto com o jornalista russo, Dmitry Muratov.

A obra agora publicada pela Ideias de Ler, intitulada Como fazer frente a um ditador: A luta pelo nosso futuro , é um relato dos anos de luta pela liberdade de imprensa, num país onde o uso da violência física, digital e até judicial está ao serviço de Governos ditatoriais e cada vez mais autoritários. 

Com prefácio da reconhecida Amal Clooney, advogada dos direitos humanos e co-fundadora da Fundação Clooney, o livro está dividido em três partes. Num discurso na primeira pessoa, Maria Ressa narra o seu percurso de vida, desde a escola primária, expondo os seus princípios e códigos de conduta e de honra, iniciando com a sua regra de ouro. Aquele que lhe permitiu, desde sempre, discernir o que seria correto ou errado em qualquer situação na sua vida. 

A missão do jornalismo está, igualmente, explicada, sendo, aliás, o motor para a criação de um site de notícias distinto de muitos outros, o Rappler, no sentido em que são os jornalistas (de investigação) que decidem o que noticiar e não os patrocinadores ou os governantes.

A segunda parte é sobre o modo como o poder político usa as redes sociais para a desinformação, por intermédio de contas falsas e sobre a criação, divulgação e ocultação de notícias falsas e, consequentemente, para a destruição das democracias – a “infodemia”. como designa um jornalista.

O poder político é o de Duterte que, logo após assumir a carga, controlou e gerou desequilíbrios nos três ramos da governação. O colapso aconteceu por meio de “um sistema de clientelismo, lealdade cega” e aquilo a que a autora denomina de “três C's: corromper, coagir e cooptar. Se alguém recusasse o que o governo desejava ou oferecia (...) era atacado” (p. 184). Paralelamente, Maria Ressa desenvolve uma explicação detalhada sobre o funcionamento dos algoritmos e de como o Facebook tem contribuído para a manifestação do fascismo e desmoronamento das democracias.  

Na terceira parte, a jornalista narra todo o processo de difamação contra si e contra o Rappler e os esforços de toda a equipa para se manter firme e sobreviver “à morte por mil cortes”, num contexto de novos e mutantes ecossistemas de informação. 
Ao mesmo tempo, relata-se o crescente empobrecimento de um país alimentado pela desinformação. 

Uma das pessoas com quem Maria Ressa trabalhou é a investigadora Shoshana Zuboff, cuja obra sobre o capitalismo de vigilância é um recurso teórico que ajuda a compreender o caso prático das Filipinas. 

Ainda que não seja sobre a “A era do capitalismo da vigilância” que aqui se trata, esta obra, além de referenciada e usada por Maria Ressa, é indispensável para compreender todo o processo de transmissão de dados a que todos os que usam a Internet estão sujeitos, embora se saiba que o Facebook e o Google estão na primeira linha de transmissão e controle de dados, bem como na disseminação da desinformação.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Cambridge Analytica. Mark Zuckerberg processado por fraude e violação de leis de defesa do consumidor


Mark Zuckerberg, cofundador do Facebook, foi processado nesta segunda-feira pelo procurador de Washington, Karl Racine, por fraude e violação de leis de defesa do consumidor, no âmbito do caso Cambridge Analytica, empresa que usou indevidamente dados recolhidos pela plataforma.

Esta é uma segunda tentativa de incluir o cofundador da rede social nos processos relacionados com a Cambridge Analytica, que terá usado informação recolhida pelo Facebook para desenvolver “software” usado para orientar o voto dos eleitores norte-americanos a favor de Donald Trump durante a campanha para as eleições presidenciais de 2016.

Em março, um juiz do Tribunal Superior do distrito de Columbia, jurisdição da capital norte-americana, Washington, recusou-se a permitir que a acusação chamasse Mark Zuckerberg como testemunha no processo iniciado em 2018 e que visa o Facebook.

A Cambridge Analytica é acusada de ter acedido e explorado, sem o consentimento destes, os dados pessoais de 87 milhões de utilizadores do Facebook, aos quais a plataforma lhe deu acesso.

Mark Zuckerbeg, argumentou o procurador, Karl Racine, no documento de intimação, “estava ciente do compromisso”, que envolvia lidar com os dados pessoais dos utilizadores do Facebook, para aumentar os lucros da empresa.

Foi “diretamente responsável pelo laxismo do Facebook na aplicação dos seus regulamentos”, disse Racine.

Como presidente executivo, Mark Zuckerberg “tinha autoridade para controlar as práticas enganosas e a deturpação” do seu funcionamento aos consumidores em Washington, de acordo com a acusação.

Em julho de 2019, as autoridades federais multaram o Facebook em cinco mil milhões de dólares por “enganarem” os seus utilizadores e impuseram controlo independente sobre o tratamento de dados pessoais.

Desde que o escândalo da Cambridge Analytica irrompeu, a plataforma removeu o acesso aos seus dados de milhares de aplicações suspeitas de abuso, restringiu a quantidade de informação disponível e facilitou aos utilizadores a escolha das restrições na partilha de dados pessoais.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Não vamos tolerar mais o ataque das Big Tech às nossas vidas e à nossa liberdade


Assinámos esta semana a People’s Declaration, juntando-nos a mais de 100 organizações da sociedade civil, que representam 71.872.881 de cidadãos da União Europeia para dizer às grandes empresas tecnológicas que não vamos tolerar mais o ataque corporativo às nossas vidas e à nossa liberdade de que somos alvo.

Os sistemas e algoritmos da Big Tech – como o Facebook ou a Google – amplificam o discurso de ódio e a desinformação online e as revelações feitas por Frances Haugen, a denunciante do Facebook, vieram não só confirmá-lo, como acrescentar um dado ainda mais preocupante: os algoritmos foram desenhados para funcionar desta maneira. Isto é, são parte integrante de um modelo de negócio inconsciente e pouco ético.

Através deste incentivo velado ao discurso de ódio, os utilizadores passam mais tempo nas plataformas. Com este modelo de negócio, potencia-se ao máximo o consumo de anúncios, em que os consumidores são incentivados a dar o seu “consentimento” para serem vigiados e rastreados.

A utilização de serviços digitais não pode ser condicionada à aceitação da vigilância e definição de perfis de consumidor anónimos. É necessária transparência na publicidade online e uma verdadeira aplicação dos nossos direitos sobre os nossos dados pessoais, ainda para mais numa altura em que a Autoridade de Proteção de Dados da Bélgica considerou que estes pop-ups de consentimento violam o Regime Geral de Proteção de Dados (RGPD).


A única solução para isto é devolver aos utilizadores o controlo sobre os seus dados pessoais. As Big Tech não podem continuar a tomar decisões sobre as nossas vidas. Devem ser conferidos poderes mais amplos aos reguladores para que estas empresas tecnológicas sejam responsabilidades, incluindo poderes de auditoria robustos. Na Europa, não podemos permitir que as falhas na aplicação da lei se repitam, como tem acontecido com o RGPD.

Chegou por isso o momento de estas grandes empresas tecnológicas removerem os riscos para os utilizadores das suas plataformas, depurarem os seus algoritmos, darem aos utilizadores um controlo real e serem responsabilizadas se o não fizerem.

Em julho do ano passado, a Transparency International lançou uma atualização do Integrity Watch, no sentido de aumentar o escrutínio do trabalho dos eurodeputados, ao permitir um acompanhamento das reuniões com lobistas. Atualmente, 373 dos 704 eurodeputados (cerca de 53%) publicaram reuniões com lobistas. Portugal está acima da média, com 61,8% dos eurodeputados a divulgarem essa informação.

No início deste ano, a Transparency International EU publicou um relatório sobre os esforços de lóbi de empresas como a Amazon, Apple, Google, Facebook ou Microsoft junto do Parlamento Europeu e de vários governos europeus, detalhando as suas atividades em Bruxelas, Paris, Dublin e Londres.

“É evidente que os gigantes da tecnologia dedicam recursos significativos para influenciar a política da União Europeia. Por exemplo, o orçamento interno do lobbying da Google em Bruxelas aumentou 360 por cento desde 2014 e continuamos a ver as grandes empresas de tecnologia classificadas entre os lóbistas com as reuniões de mais alto nível com a Comissão Europeia”, disse Raphael Kergueno, Policy Officer da Transparency International EU e autor principal do relatório.

Se está nas nossas mãos exigir às grandes empresas tecnológicas que acabem com os ataques corporativos às nossas liberdades e privacidade, é também responsabilidade das autoridades pressionarem as Big Tech e não cederem à sua chantagem.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Facebook Papers: o que são, o que revelam e como podem abalar o império de Zuckerberg


Milhares de documentos internos mostram como o algoritmo amplifica o ódio, a violência e prioriza conteúdos de extrema-direita. Até mesmo a ligação da rede social à invasão do Capitólio está a ser analisada.

Os “Facebook Papers” são o mais recente escândalo que envolve a gigante tecnológica detida por Mark Zuckerberg. Mas, afinal, o que está em causa? O que revelam e que consequências podem ter?

O que são?

Este é o nome de um projeto de investigação, conduzido por um consórcio de 17 órgãos de comunicação social norte-americanos, que teve acesso a milhares de documentos internos do Facebook vazados pela denunciante Frances Haugen, especialista de dados e ex-funcionária da empresa.

O que revelam?

Os documentos confidenciais revelam a forma como grupos de Facebook promovem o ódio e a violência - o que inclui também a forma como a invasão do Capitólio, que ocorreu a 6 de janeiro, foi organizada na rede social.

Também a forma como o algoritmo potencia a desinformação e amplifica mensagens veiculadas por grupos de extrema-direita estão a ser analisadas, assim como impacto negativo do Instagram nos utilizadores mais jovens, uma vez que promove a idealização do corpo.

Frances Haugen  adverte que “os conteúdos do Facebook prejudicam as crianças, fomentam a divisão e enfraquecem a democracia”.

Os “leaks” demonstram ainda como traficantes de seres humanos têm usado a rede social para a sua atividade criminosa. Da mesma forma, carteis de droga têm utilizado a plataforma para recrutar novos membros e postar conteúdos violentos. Fotos e vídeos com pessoas decapitadas ou baleadas também têm sido partilhadas em grupos privados.

De que forma afetam o império de Mark Zuckerberg?

Este é apenas mais um dos escândalos no qual o Facebook se vê envolvido, uma vez que por diversas vezes já foi acusado de comprometer a privacidade dos dados pessoais dos utilizadores.

A dor de cabeça para Mark Zuckerberg é: como poderá o Facebook moderar e estancar a onda de extremismo e ódio que inundam as redes sociais?

O impacto destes documentos está a ser de tal ordem que o Facebook está mesmo a pensar alterar o nome da empresa, o que deverá acontecer até esta quinta-feira.

A organização não confirmou a decisão, mas também não desmentiu os rumores e tudo leva a crer que o novo nome deverá ser revelado durante a conferência anual da marca.

Na prática, a empresa mudará de nome, mas a rede social deve manter o nome Facebook.

sábado, 9 de outubro de 2021

Redes Sociais

Por Carlos Vargas
Quem entra no caldeirão desgovernado do Facebook, e de outras redes sociais, sabe que perde totalmente a privacidade. Sendo que isso é matéria sobre a qual compete a cada um de nós decidir. O pior é que quem entra no Facebook perde também, e por inteiro, o controlo da identidade jurídica e pessoal. O que fia mais fino. E, pior ainda, sem que a grande maioria das vítimas sequer se aperceba. Passamos a fazer parte de uma turba global que já vai em 3 mil milhões de alminhas virtuais, sem que a larguíssima maioria faça a menor ideia sobre quem de facto contacta nas redes, ou por quem é contactado. Nem por onde viajam os seus dados, a quem são vendidos ou com que máfias são traficados. 1/3 da humanidade, os tais 3 mil milhões, valem um rotundo zero no balanço do deve & haver do jovem Zuckerberg. Os algoritmos tratam de tudo. Eles sabem tudo, guardam todos os nossos sinais mais íntimos para nos tratarem da saúde como ninguém. O mercado dos algoritmos tem vindo a criar a ritmo alucinante - em 'moto continuo' permanente - matilhas de consumidores dos mais diversos produtos. Da Coca-Cola e dos produtos para fazer crescer o cabelo o catálogo do Facebook evoluiu para a política e para a venda de ideologias. O algoritmo mágico vida própria aos seguidores e leva-os ao céu e ao inferno. Sem que as vítimas façam a menor ideia do que é feito à sua identidade jurídica e pessoal pelos imperadores do ciberespaço. É a vida, como diria o engenheiro. Mas a vida tornou-se muito perigosa, conforme o Senado dos EUA é forçado a começar a constatar, depois de andar anos e anos a tapar o sol com a peneira. Há hoje muita gente no mundo que sente presa no arame farpado das redes. Essas pessoas começam por isso a pensar em apagar o FB das suas vidas, tal como a TIME nos dá conta na sua capa desta semana.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Dos impostos sobre lucros e da forma de terminar com quatro décadas de regabofe


Hoje o Jornal de Negócios traz-nos uma notícia que parece ter sido escrita pelo departamento de marketing de uma federação patronal e que tem um título que dispensaria a leitura do resto do artigo: Mercado pede um OE com mais PRR e menos impostos
Não vou maçar-vos com comentários ao ‘pedido’ do ‘mercado’ de mais PRR. O Nuno Serra, por exemplo, já tratou convenientemente o enviesamento implícito desta converseta

Também vou poupar-vos a comentários acerca das confusões teóricas ali abundantemente servidas a propósito do conceito de poupança, confusões essas com convenientes implicações práticas de curto prazo para o setores financeiro e segurador, porque já o fizemos, por exemplo, aqui

Quero antes começar por recordar, como faz David Fickling nas páginas da Bloomberg, que se passaram oito anos desde que os governos da OCDE se comprometeram com uma ação coordenada de repressão da utilização de paraísos fiscais com o objetivo de minimizar os impostos sobre as empresas e subtrair aos Estados receitas que lhes pertencem. 

Um compromisso que não podia ser mais meritório. Só assim se podem impedir as políticas fiscais do tipo beggar thy neighbour, ou seja, de empobrecimento do vizinho, numa tradução pobre porque não captura a falácia de composição que estas políticas encerram, políticas que minam a soberania nacional, desequilibram as contas públicas, as contas externas e a distribuição do rendimento nacional, prejudicando, no fim do jogo,  todos os países envolvidos e, neles, sobretudo, quem vive não de lucros, mas do seu trabalho presente ou passado. 

No entanto, como sói dizer-se, de compromissos e piedosas intenções está o inferno cheio. Se alguma coisa mudou no regabofe que dura há 4 décadas, o que é hoje diferente é ainda pior. Fazendo fé na caixa de Pandora que se abriu recentemente ao sempre maçador escrutínio público, os espertalhões facilitadores deste mundo, entre eles, o Morais Sarmento, o Vitalino Canas e o Manuel Pinho, continuam, impunemente, a colocar o carcanhol ao fresco enquanto, substantivamente, os países que se comprometeram a tomar medidas para impedir esta fuga à tributação nacional mais não fizeram do que descer a taxa de impostos sobre os lucros


É a fotografia da corrida para o fundo onde todos, menos os que fogem aos impostos, perdem. É um quadro com caixilho neoliberal de onde os tais mercados, com lugar sempre garantido na opinião publicada, vão deixando claro que, se as ‘distorções’ não forem removidas, se as políticas não forem ‘amigas da poupança’, se os impostos não baixarem, se o país não for ‘fiscalmente competitivo’, dizem-nos veladamente, a massa acaba num qualquer paraíso fiscal, ou seja, no inferno da soberania nacional, do Estado Social e de quem, vivendo do cheque ao fim do mês, não pode, evidentemente, pagar de modo chorudo a um qualquer ‘consultor’ para que este lhe coloque o salário nas Bahamas. 

Consequentemente, como bem se pode compreender, com impostos cada vez mais baixos, as empresas retêm cada vez mais lucros e com lucros a pesar cada vez mais no rendimento nacional, os salários pesam cada vez menos. 


Sucintamente, como chegámos a esta bandalheira? Como também afirma, bem, David Fickling “as pessoas encarregadas de redigir as leis e tratados [os tais Sarmentos, Canas e Pinhos deste mundo, digo eu] que sustentam os fluxos internacionais de capital têm muito a ganhar com a atual configuração. Enquanto uma quantidade irracional de riqueza e poder estiver concentrada nas mãos de alguns indivíduos e empresas, eles procurarão formas de transferir bens para qualquer lugar que prometa tratá-los de forma mais clemente” (...) “[e]m última análise, o problema reside nos fluxos desenfreados de capital que se deslocam pelo globo desde o fim, nos anos 70, do sistema de Bretton Woods” e, assim sendo, “[s]e os governos quiserem abordar a causa da evasão fiscal em vez de aplicarem infindáveis pensos rápidos aos sintomas, essa decisão [a livre circulação internacional de capitais] deve, em última análise, ser revista”. 

Um comunista lunático, este tipo da Bloomberg, só pode. E no entanto, obviamente, para mudar este irracional e imoral estado de coisas não basta reconhecer que "a natureza de curto prazo e a volatilidade inerente dos fluxos globais de capital são problemáticos” e cruzar os braços; de facto, para além da evasão fiscal e das suas consequências distributivas, as razões para abandonar a livre circulação de capitais são muitas e, parece-nos, claras. 

Para finalizar, e para agrado de alguns dos nossos estimados leitores e desagrado de outros, cá estamos novamente perante a questão das vestes do monarca, ou seja, da questão da União Europeia, onde a pertença depende da aceitação da livre circulação de capitais, uma das 'quatro liberdades' que obrigam os seus membros. Liberdades para uns, servidão para outros, como se vê.

Fonte: aqui

terça-feira, 20 de julho de 2021

Bilionários como Bezos ou Buffett conseguem pagar zero impostos

De acordo com a investigação da ProPublica, através de estratégias fiscais perfeitamente legais, bilionários norte-americanos pagam um valor irrisório de IRS ou, inclusive, reduzem as suas faturas de imposto sobre o rendimento a zero.


A ProPublica, uma redação independente sem fins lucrativos que investiga abusos de poder, obteve um alargado leque de informações do Internal Revenue Service, o fisco norte-americano, com as declarações de impostos de milhares de pessoas, as mais ricas dos Estados Unidos da América, cobrindo mais de 15 anos.

Os dados “fornecem uma visão sem precedentes da vida financeira dos titãs americanos, incluindo Warren Buffett, Bill Gates, Rupert Murdoch e Mark Zuckerberg”, lê-se no relatório da organização. Em causa estão não só informações sobre os seus rendimentos e impostos, mas também sobre os seus investimentos, negociações de ações, ganhos em jogos e até mesmo os resultados de auditorias.

A investigação revela que, em 2007 e 2011, Jeff Bezos não pagou um único cêntimo em impostos federais sobre o rendimento. Assinale-se que, em 2007, a fortuna de Bezos aumentou 3,8 mil milhões de dólares e que, em 2011, o bilionário chegou a reivindicar, e a receber, um crédito fiscal de 4.000 dólares para os seus filhos.. O mesmo aconteceu com o fundador da Tesla, Elon Musk, em 2008. Já Michael Bloomberg conseguiu essa proeza nos últimos anos. O investidor bilionário Carl Icahn evitou pagar impostos por duas vezes e George Soros não pagou imposto por três anos consecutivos.


Ainda que a riqueza dos 25 americanos mais ricos tenha aumentado, no global, 401 mil milhões de dólares entre 2014 e 2018, estes bilionários pagaram apenas 13,6 mil milhões de dólares em impostos sobre o rendimento nesse período, o que equivale a uma tributação de somente 3,4%.

“Juntos, eles arrasam o mito fundamental do sistema tributário americano: que todos pagam a sua parte justa e os americanos mais ricos pagam mais”, escreve a ProPublica. De acordo com a organização, os registos “mostram que os mais ricos podem – de forma perfeitamente legal - pagar impostos sobre o rendimento que são apenas uma pequena fração das centenas de milhões, senão milhares de milhões, que as suas fortunas aumentam a cada ano”.

Para o efeito, os bilionários da América recorrem “a estratégias de evasão fiscal que estão além do alcance das pessoas comuns”. Na realidade, a “sua riqueza decorre do valor exorbitante dos seus ativos, como ações e propriedades. Esses ganhos não são definidos pelas leis dos EUA como receita tributável, a menos e até que os bilionários os vendam”, explica a ProPublica.

Entre os 25 mais ricos, Buffett é o campeão no que concerne a evitar impostos, o que, conforme é sublinhado no relatório, contrasta com a sua posição pública como um defensor de impostos mais elevados para os ricos. De acordo com a Forbes, a sua riqueza aumentou 24,3 mil milhões de dólares entre 2014 e 2018. Ao longo desses anos, Buffett relatou ter pago 23,7 milhões de dólares em impostos. “Isso resulta numa taxa de imposto real de 0,1%, ou menos de 10 centavos para cada cem dólares que ele acrescentou à sua riqueza”, refere a Propublica.

“Nem os líderes políticos nem o público jamais tiveram uma imagem precisa de como os americanos mais ricos evitam pagar impostos. Buffett e os seus colegas bilionários conhecem esse segredo há muito tempo. Como Buffett disse em 2011: ‘Tem havido uma guerra de classes nos últimos 20 anos, e a minha classe venceu’”, remata a ProPublica no final do seu relatório.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Cristina Martín Jiménez - ‘Os Globocratas Têm Em Marcha Um Plano Para Tomar Conta Do Mundo’


Segundo a tese da escritora espanhola, por detrás de uma crise sanitária, a pandemia do coronavírus, estão motivações económicas e políticas de uma elite, que tem como rostos visíveis Mark Zuckerberg e Bill Gates.

O mundo está em pandemia declarada desde março de 2020. A tese que defende é que por detrás de uma crise sanitária, estão motivações económicas e políticas. Pode explicar melhor o seu ponto?
Para compreender a pandemia do coronavírus é preciso contextualizar um fenómeno muito complexo de entender. Cheguei à conclusão, há uma década, com a Gripe A, que as elites financeiras estavam a utilizar esta pandemia para lançar o seu projeto para controlar e dominar o mundo. Nessa altura, referi-me a uma nova tática de guerra – uma guerra silenciosa que não é compreendida pela população – a que denominei por «tática da pandemia».

E essa «tática da pandemia», segundo escreve, está outra vez em curso?
Quando começaram a ser difundidas pela televisão as imagens do caos sanitário na China, compreendi que essa elite que quer dominar o mundo tinha voltado a recorrer a essa estratégia. Existe um padrão que é posto em marcha e é repetido cada vez que é anunciada uma crise. Por exemplo, na crise financeira de 2008, ou agora, a crise provocada pela pandemia de coronavírus.

Em que consiste o padrão de atuação dessas elites?
Em primeiro lugar, propagar o medo através dos meios de comunicação social. Depois, esse medo faz com que as pessoas fiquem paralisadas, bloqueadas e sem resposta perante o que as rodeia. Nesta crise, chegaram a ir mais longe: obrigaram-nos a ficar fechados em casa, como se de um sequestro se tratasse. Atentaram contra a Constituição, a liberdade de movimentos e inclusive a liberdade de propriedade de lojas e outros estabelecimentos comerciais, que foram fechados compulsivamente. O passo seguinte era óbvio: a ruína económica da classe média e dos pequenos e médios empresários. Finalmente, a compra a preço de saldo de todas essas indústrias severamente castigadas pela pandemia. Estamos a assistir a como estes fundos financeiros estão a comprar cadeias de hotéis e já chegaram inclusive à primeira liga espanhola de futebol. Os fundos de Warren Buffett, George Soros e JP Morgan estão a comprar tudo o que podem do setor do alojamento, do turismo e do ócio. O que anunciei em julho, quando o meu livro foi lançado em Espanha, está a cumprir-se do princípio ao fim.

As forças ocultas que refere pretendem empobrecer a sociedade, privar os cidadãos de direitos e tornar os Estados mais dominadores?
Sim, trata-se de uma estratégia de pressão económica e de ataque às nossas liberdades, permitindo dar mais poder a uma espécie de Estado global. Esse Estado global é o maior objetivo e propósito que está por detrás desta campanha. Já que estou a falar para um meio de comunicação social português, permita-me que lembre que ouvimos Durão Barroso realçar, há uns meses, a necessidade de uma governação mundial. Na 75.ª assembleia geral da ONU também escutámos outro português, António Guterres, dizer que «ninguém quer um governo mundial, mas necessitamos uma governança mundial.» E esta governança mundial seria gerida pela ONU – pela família da ONU, ou seja, as agências supranacionais, como a OMS ou a OMC, que atuariam como ministérios globais – e os fundos financeiros. Estes seriam os gestores desta governança mundial. E este caminho deixa à margem as democracias e os parlamentos, perante a indiferença dos cidadãos. Isto mais não é do que uma nova tirania perante os nossos olhos.

A capa do seu livro “A verdade sobre a pandemia – Quem foi? E porquê?” está ilustrada com pessoas de máscara, protegendo-se do vírus e também amordaçadas, e ao mesmo tempo algemadas. Pretende transmitir que está em curso um processo de domesticação das massas?
Essa é a parte mais interessante da planificação do que eu chamo a «plandemia». Existem dois tipos de laboratórios: o de Wuhan, na China, de onde supostamente saiu este vírus – não podemos esquecer que é aqui que se armazenam as estirpes de vírus que podem ser empregados num momento de guerra; e os laboratórios de dinâmica e engenharia social, onde se estabelecem os protocolos que vão ser impostos aos cidadãos de todo o mundo.

E que laboratórios de engenharia social são esses?
Um deles é o MIT dirigido por Alex Pentland, o guru da elite mundial, que está a trabalhar em estreita ligação com a fundação Chan Zuckerberg, a fundação Bill Gates, o Hudson Institute, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a ONU, etc. Em resumo, entidades dirigidas por “globocratas”, pessoas com grande poder económico e financeiro, que pretendem dominar o mundo. A CEO da fundação Chan Zuckerberg, que é neurobióloga de formação, disse que o que se pretendia com a pandemia era condensar o desenvolvimento dos próximos 500 anos em apenas um século. Um dos objetivos era que os cidadãos trocassem a liberdade pela segurança, com a aplicação de tecnologias. Associado a isto surgem as App de rastreamento de movimentos, a videovigilância, o passaporte digital, etc. E seria em função de aceitarmos obedientemente estes expedientes ou recusá-los que seriamos qualificados enquanto bons ou maus cidadãos, e castigados ou premiados em função desse comportamento. Esse é o plano.

Refere que o dinheiro e o poder estão na base da pandemia e no seu livro aponta o dedo a Zuckerberg, o dono do Facebook, e a Bill Gates, o fundador da Microsoft. Estes senhores são, por assim dizer, «os donos disto tudo»?
Os donos do mundo apresentam-se, publicamente, como grandes filantropos, mas na verdade, são os grandes responsáveis por esta crise. Porquê? Porque com o seu dinheiro compraram os meios de comunicação social, o que é básico para controlar a mensagem. Têm também a “santa inquisição” que são os “fact check”. Controlam o Twitter, o Facebook e o Instagram. E qualificam como falsidade as informações que criticam o poder.












Mas coloca em causa, sem hesitar, a generosidade de Zuckerberg e Gates?
Zuckerberg e Gates não são filantropos, são tiranos e ditadores. Não permitem a liberdade de expressão e tudo fazem para fechar a porta dos órgãos de comunicação social que controlam a cientistas de renome ou até a escritoras como eu, que sou censurada em muitas partes do mundo, mas o meu último livro já é um “best-seller” em Espanha. Os filantropos estão a chantagear-nos, permanentemente, durante esta pandemia. Basta ver como os proprietários dos órgãos de comunicação social e os acionistas das grandes farmacêuticas apresentaram a vacina como a única salvação para sair desta crise.

Com refere, as vacinas foram apresentadas ao mundo como a grande esperança para o fim da crise. Como vê esta polémica com a vacina da AstraZeneca? Admite que houve questões políticas e económicas por detrás da cortina?
As nove farmacêuticas que venderam as vacinas à União Europeia são todas financiadas pela fundação de Bill e Melinda Gates. Por isso, não há concorrência entre elas, há cooperação. O escandaloso é que os governantes da União Europeia aceitaram passivamente, sem alertar a opinião pública, os efeitos secundários conhecidos nas várias vacinas distribuídas, como por exemplo, na da Pfizer, em que são reportados casos de enfartes, encefalites, riscos para as grávidas, etc. Os governantes europeus escondem-nos estes detalhes que são muito importantes e obrigam a população a vacinar-se. Torna-se difícil entender se estes políticos estão, em primeira linha, a defender a população europeia ou se pretendem proteger, a todo o custo, os grandes fundos financeiros. Qual é a recompensa que recebem por promover as vacinas? Está em curso uma enorme corrupção e ela acontece mesmo à nossa frente.

Bill Gates antecipou a pandemia em 2015. Mas na sua tese, o fundador da Microsoft sabia o que ia acontecer antes do tempo. É assim?
A ciência preditiva está na moda, mas Bill Gates não previu nada. Ele sabe perfeitamente que a «tática da pandemia» é uma arma de guerra e um agente acelerador para implementar toda a nova tecnologia de controlo e vigilância dos cidadãos com que sempre sonhou.

Defende que os tais poderes ocultos queriam ver Donald Trump fora da Casa Branca. A «tática da pandemia» tinha como um dos objetivos fazê-lo perder as eleições?
Sim. Trump tinha uma conceção de poder diferente e, como tal, ficou pelo caminho. O ex-presidente norte-americano não pertencia a este clube de poder dos filantropos e era abertamente um feroz opositor, chegando mesmo a denunciá-los. Repare que apenas com um dos seus “tweets”, Trump fez com que a poderosa Amazon perdesse mil milhões de dólares. O dono da Amazon, Jeff Bezos, nunca lhe perdoou e prometeu vingança. E ela aconteceu nas eleições de novembro.

Especializou-se na investigação do funcionamento do Clube Bilderberg, um grupo de poderosos que anualmente se reúne, envolto em grande secretismo, numa qualquer parte do mundo. Um dos fundadores é português e chama-se Francisco Pinto Balsemão. Qual é a influência do empresário neste Clube?
Quando o Clube Bilderberg é criado, em 1954, financiado por David Rockefeller, procura recrutar membros da elite europeia e norte-americana para se juntar a este projeto que tinha e tem como objetivo criar uma nova ordem mundial. Desde muito cedo, Pinto Balsemão une-se a esta causa, tendo no seu currículo ter sido presidente do PSD, primeiro-ministro de Portugal e dono da Impresa, um dos maiores grupos de comunicação nacional, que integra o canal SIC. Ou seja, Balsemão concretiza o vínculo perfeito e necessário entre o poder político e mediático. Em 2005, deu uma entrevista ao jornal espanhol “ABC” e questionado sobre a sua ligação ao Clube Bilderberg respondeu que era uma reunião seleta com pessoas muito interessantes e muito inteligentes e que os que criticavam este projeto apenas o faziam por inveja.

Mas Durão Barroso também por lá passou e chegou onde sabemos…
Durão Barroso sempre foi aquilo a que eu chamo uma jovem promessa. Participou em várias reuniões de Bilderberg e atualmente é um dos seus principais dirigentes. Em 2004, como todos se lembram, abandonou os portugueses, demitindo-se do cargo de primeiro-ministro para assumir as funções de presidente da Comissão Europeia. Mais recentemente, após abandonar Bruxelas, foi para um dos maiores grupos financeiros mundiais, a Goldman Sachs.

Como funciona o processo de selecionar as pessoas que passam a ter lugar cativo em Bilderberg?
O comité diretivo do Clube Bilderberg é constituído por 33 elementos – a maior parte deles europeus e americanos – sendo Durão Barroso um dos integrantes. São estes que se convertem numa espécie de caça talentos e que acabam por “eleger” as pessoas que têm mais capacidades e qualidades para servir a sua causa em determinados setores, seja na política, na economia, na banca, no jornalismo, etc. Esses escolhidos acabam por participar nestas reuniões, onde lhes é apresentado um plano cativante e que acaba por entusiasmá-los.













Uma pergunta final sobre o jornalismo, no fundo, a sua área de formação. Esta pandemia tem confirmado que o jornalismo sério e independente está a perder terreno para realidades alternativas como as redes sociais?
O jornalismo é um dos grandes derrotados desta pandemia e está a ser vítima de uma grande desconfiança. Muitos cidadãos aperceberam-se que existem muitas manobras para manipular a informação e que os órgãos de comunicação social estão subjugados por muitos interesses financeiros. O poder financeiro, proprietário de muitos meios de comunicação social, tem uma ideologia que passa por utilizar os “mass media” como arma de desinformação. O que estamos a viver é a última fase da Terceira Guerra Mundial. E em qualquer guerra a primeira caraterística é a confusão. E é este papel que os grandes órgãos de comunicação social têm desenvolvido. Existem, em todo o mundo, sete conglomerados de informação que difundem uma mensagem única e um sentimento único. Não há debate. Hoje em dia, os meios de comunicação são um instrumento de guerra nas mãos do poder financeiro. Felizmente, são milhares de pessoas que, graças à pandemia, estão a procurar canais alternativos de informação, tendo em vista chegar à fonte de informação e investigar por sua conta. Um cidadão passivo pode estar a transformar-se, a pouco e pouco, num cidadão ativo. Acredito que estes pseudofilantropos, que ambicionam tomar conta do mundo, são poderosos, mas não são omnipotentes. O problema é que estão a colocar em perigo o nosso futuro e a nossa liberdade. Por isso, defendo que o conhecimento é fundamental para enfrentar os tempos atuais.

Sem querer prever o futuro, ultrapassada esta pandemia, diz-se que teremos outra, mais cedo do que tarde. O que é que diz a sua “bola de cristal”?
A “tática da pandemia” vai continuar, mas desta feita as novas protagonistas podem ser as armas biológicas. E o maior temor é que caiam nas mãos de organizações terroristas. Seria um enorme caos, ainda mais devastador do que a atual crise do coronavírus.

Saber mais:

Ver o TED Talk de Yuval Noah Harari

segunda-feira, 18 de maio de 2020

After Truth: Disinformation and the Cost of Fake News




O mais recente documentário sobre fake news da HBO, dirigido por Andrew Rossi, que chegou à plataforma no final de março de 2020, analisa o fenómeno das fake news a partir de um conjunto de case studies, pesando as causas e consequências para o panorama social contemporâneo. Por entre conspirações incluindo pizza e ataques no Facebook, o olhar de jornalistas e especialistas no assunto traz uma maior compreensão ao fenómeno em ascensão. Confira aqui alguns desses case studies.

Fake News: uma tentativa de definição neutra

O fenómeno das fake news vem ganhando terreno no debate público ano após ano. Craig Silverman, do Buzzfeed News, expõe como investiga o tema desde 2014, procurando exemplos desta prática dia após dia. Segundo este, não havia real interesse no fenómeno até 2016, quando a campanha de Trump trouxe o tópico a público, demonstrando como esta prática poderia constituir uma violenta arma política. A partir desse momento, confessa, o termo foi totalmente politizado.

Molly Mckew, estudiosa dos fenómenos de desinformação na Universidade de Georgetown, tenta trazer atenção para o tópico, avisando que “A pior parte do que está a acontecer é que estamos a fazê-lo a nós próprios”, ao se focar na forma como candidatos e grupos políticos dos EUA têm usado campanhas baseadas neste mecanismo para apelarem aos seus votantes mais leais e radicais.

Fake News: uma definição político-bélica

No entanto, nem todos aqueles que estão dentro do fenómeno o vêm desta forma. Segundo Jake Burkman, operacional político que se envolveu recentemente em polémicas com Jacob Wohl, parte da máquina de desinformação de Donald Trump, as fake news agem fora de um plano moral, ou seja, o seu utilizador não tem de gostar delas, mas apenas de as usar como arma, tal como todo o resto do mundo faz. “As notícias falsas são uma arma (…) uma boa maneira de conduzir uma história (…) Se as pessoas acreditam e reimprimem, então é reimpressa. ”, confessa este a Andrew Rossi. “As pessoas usam-nas. Estão a transformar-se numa ferramenta de guerra.”

Outro apoiante desta ideia é Jerome Corsi, conhecido operacional político e escritor, figura por detrás de algumas das maiores conspirações circundando a administração Obama. Para este, fake news tornou-se um termo politizado, utilizado para censurar ideias políticas de índole conservadora, menosprezando-as e diminuindo-as.

2015: Jade Helm 15

Mas o verdadeiro perigo das fake news começa quando estas conseguem mover quase toda a população de um local a acreditar em teorias da conspiração infundadas. Foi isto que aconteceu em Bastrop, quando, em 2015, se soube que militares iriam fazer exercícios naquela localidade.

A informação rapidamente se amplificou para um conjunto de teorias da conspiração, muito motivadas por canais como a InfoWars, de Alex Jones, e que se aproveitaram da preocupação recorrente com a falta de transparência da administração Obama. Estas, que englobavam uma rede de esgotos do WallMart e a ideia de que Obama queria colocar os seus opositores em campos de concentração na área, ficaram conhecidas como as “Conspirações do Jade Helm 15”.

À luz de tais eventos, Paul Pape, juíz do condado, realizou uma reunião aberta, para a qual convidou Mark Lastoria, porta-voz dos militares dos U.S., de modo a se explicarem as operações aos interessados. Lastoria explanou que era apenas um exercício militar de oito semanas para uma guerra não convencional. No entanto, as pessoas que compareciam na reunião tiveram dificuldade em acreditar, consumidas pelas fake news. Mark Lastoria acabou desabafando que “Todos querem que isto seja uma coisa que não é”.

Esta foi a primeira vez que uma fake new criou um alarido tão grande. Passados cinco anos, Troy Michalik, vendedor de armas em Bastrop, diz ainda não saber em que acreditar ou não. O facto de pessoas entrarem diariamente na sua loja durante o ano de 2015 para perguntar sobre tais teorias abalou para sempre a sua confiança nos meios de comunicação.

2016: Restaurante do Pizzagate

Em 2016, um renomeado restaurante de Washington D.C., Comet Ping Pong, conhecido por ser frequentado por personalidades mediáticas da política e jornalismo, foi vítima de uma campanha de difamação que quase acabou em disparos, quando um homem entrou armado no estabelecimento para salvar crianças que estavam a ser, supostamente, traficadas no interior.

Tudo começou no Reddit, após os e-mails de John Podesta, presidente da campanha de Hillary Clinton, terem sido vazados online. Apoiantes de Trump começaram a ler os e-mails e a criar teorias da conspiração a partir deles. Uma destas tinha por base a ideia que Hillary e o proprietário do e Comet, James Alefantis, molestavam e traficam crianças no restaurante. A teoria rapidamente foi divulgada noutras redes sociais como o 4chan, ganhando até um nome: Pizzagate.

James Alefantis pensou que o mediatismo iria acabar após de alguns dias. No entanto, as tensões cresceram e imagens da sua conta do Instagram começaram a ser roubadas para suportar a conspiração. Algum tempo depois, Edgar Welch, seguidor assíduo da InfoWars, entrou no restaurante armado, com a intenção de salvar as supostas crianças que ali estariam. Após revistar o restaurante e nada encontrar, entregou-se à polícia.

2018: Mark Zuckerberg, Dry Alabama e o escândalo do Facebook

Um dos mais recentes escândalos envolvendo fake news teve como protagonista Mark Zuckerberg e a sua palataforma, o Facebook. Acusado de não proteger os dados dos utilizadores, foi presente a uma audiência das Comissões do Judiciário e do Comércio. Nesta, Zuckerberg foi questionado sobre os problemas de privacidade, mas também sobre a abundância de fake news na plataforma. Após várias horas de audiência, prometeu trabalhar para melhorar o Facebook, suprindo algumas das lacunas existentes.

No entanto, em palestra algum tempo antes, Zuckerberg confessou que a ideia de que fake news no Facebook pudessem ter manipulado as eleições de 2016 constituía uma ideia louca, devido a estas constituírem apenas uma pequena parcela do conteúdo partilhado.

Mesmo assim, a plataforma é grandemente utilizada para fins políticos de desinformação. Exemplo disto é Matt Osborne, que criou uma rede de fake news para apoiar Dog Jounes, nas eleições do Alabama, contra Roy Moore. Esta rede era baseada numa página chamada Dry Alabama, onde este se fazia passar por um grupo de republicanos que apoiavam Roy e queriam instaurar a “Lei Seca” de novo no Alabama. Segundo este, “Dog Jounes ganhou, absolutamente. Tudo o que fiz foi empurrar um pouco desde fora”.

Artigo da autoria de Marco Matos. Revisto por Miguel Marques Ribeiro.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Paradise Papers: The True Story Behind The Secret Nine-Month Investigation


Os Paradise Papers são um conjunto de 13,4 milhões de documentos eletrónicos confidenciais de natureza fiscal que foram enviados ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung. O jornal os compartilhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, e alguns detalhes foram divulgados em 5 de novembro de 2017. Wikipédia

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Saiba como gerir o facebook com os seus filhos



É território completamente novo para os pais. À medida que as redes sociais vão evoluindo e ocupando cada vez mais espaço na vida das pessoas, também surgem novos usos em que não se tinha pensado antes.
Já pensou em usar o Facebook como forma de castigar os filhos quando se portam mal? Não se trata de cortar o acesso à rede social, antes pelo contrário.

O Mashable ensina regras pouco convencionais para castigos, no mínimo, originais. Para que funcionem, os seus filhos têm de o ter na lista de amigos.

Estas dicas são, na maioria, mais engraçadas que realistas, mas vale a pena dar uma olhada.
Ler artigo completo aqui

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O espelho mágico do Facebook


O facebook no mundo- foto tirada em 2010. Créditos: Paul Butler

O Facebook reflete a nossa época, egoísta e publicitária, preocupada com o marketing pessoal. Ele promove a experiência de estar em constante representação face a nossos amigos. E quanto mais a projeção eletrônica reflete a nossa personalidade, ou o nosso desejo, mais nos deixamos embriagar pelo seu reflexo

por Philippe Rivière, Le Diplomatique Brasil, 1.12.10

Há alguns dias, o Facebook me pediu para trocar de nome. Não porque eu tivesse escolhido um apelido obsceno, que fizesse apologia ao ódio, ou que usurpasse o “nick” do todo poderoso Mark Zuckerberg (chefe, fundador e principal acionista do Facebook), ou até mesmo porque estivesse usando um nome vagamente parecido com o de uma marca registrada. Tudo que fiz foi inventar um sobrenome composto de belos caracteres em Braille. Os engenheiros do site californiano decidiram, de repente, que isso não era mais tipograficamente correto.

Na inscrição, o site havia pedido meu sobrenome verdadeiro; em seguida, tinha confirmado a minha existência por meio de um código secreto enviado ao meu telefone. Eles tinham também insistido para que eu lhes desse a senha do meu endereço de e-mail para recuperar meu catálogo de endereços e, assim, facilitar a identificação dos meus contatos – meus “amigos” na terminologia do site.

Policiado permanentemente por algoritmos, seguindo regras de utilização que ninguém lê, a página azul do Facebook oferece um casulo aconchegante a seus membros, que podem se conectar a ele para conversar sem se verem invadidos por mensagens de desconhecidos e por parasitas que lhes prometem a Lua. As inserções de publicidade são relativamente discretas, e é possível, por um tempo interminável, ficar vendo as fotos de amigos, se divertir ou se indignar com as mesmas informações compartilhadas por eles, jogar os mesmos jogos, seguir o que há de novo em suas vidas, tanto os acontecimentos mais triviais quanto os mais felizes.

As interações são sempre positivas: é possível, ao clicar sobre um ícone qualquer, “curtir” alguma coisa, mas não detestar; um aviso aparece quando a gente ganha um amigo, mas não quando ele nos deixa. Vários controles protegem o usuário: assim, o viajante que se conecta de um lugar inabitual, se vê submetido a um interrogatório (lúdico) à base de fotos, a fim de provar sua identidade.

Tudo isso não acontece sem arbitrariedades. Páginas sensíveis – como aquela do grupo de apoio ao soldado Bradley Manning, acusado de ter transmitido informações secretas sobre a guerra do Iraque ao site Wikileaks – são por vezes suspensas, e restabelecidas alguns dias depois sem mais explicações. Para eliminar os spams, os membros do Facebook são incentivados a denunciar com um clique as mensagens ofensivas, e o site então suspende a conta dos usuários suspeitos. Uma brecha no sistema, à qual ativistas de todo tipo acabam apelando, organizando por esse método a desconexão de seus adversários políticos. O Facebook proíbe seus membros de publicar links para sites perigosos (que tentariam, por exemplo, instalar vírus ou roubar dados bancários); mas esse Big Brother bondoso, às vezes, cede à tentação da censura e bloqueia links para sites de compartilhamento de arquivos ou de manifestações artísticas e políticas.

Essa sábia mistura de vida privada e voyeurismo, esse regime açucarado de transgressões moderadas e liberdade vigiada constituiu a receita vencedora de Zuckerberg. Graças a ela, o comandante da rede social conseguiu o grande feito de reunir 500 milhões de inscritos, dos quais 50% se conectam ao site todos os dias, num total de 700 bilhões de minutos a cada mês. E 200 milhões de pessoas consultam a página por telefone celular. Começando do nada – ou quase, já que a prestigiosa Universidade Harvard não foi irrelevante no seu início fulgurante, em fevereiro de 2004 –, o Facebook é agora, com apenas 1.700 funcionários, o maior site do planeta.

Ao permitir que cada um cuide da sua marca pessoal, o Facebook é o espelho mágico da nossa época, egoísta e publicitária. A experiência Facebook é para cada um o sentimento de estar em constante representação face a 130 pessoas (número médio de amigos de um membro da rede social) aplaudindo cada gesto e cada boa palavra. Quanto mais a projeção eletrônica de nosso ser reflete a verdade de nossa personalidade – ou de nosso desejo –, mais nos deixamos embriagar pelo seu reflexo.

Esse sentimento conduz cada um a alimentar sua página, às vezes, de maneira compulsiva, publicando seus gostos, endereço, local em tempo real por meio de diversas técnicas de geolocalização, ou a crônica de seus conflitos amorosos. A empreitada deixa estupefatos todos os organismos de defesa da vida privada, de todo modo superados, frente à sua própria aceitação por meio do crescimento exponencial das tecnologias.

Excessivamente positivo

Mas o Facebook não pretende parar por aí: começando em um site restrito, ele busca agora se estender ao conjunto da internet. Introduzido em abril de 2010, o botão “curti” é uma funcionalidade de aparência trivial que cada webmaster pode integrar em seu próprio site para facilitar o “buzz”; graças a esse engenhoso sistema, já instalado em um milhão de sites, o Facebook afirma poder monitorar por nome as visitas feitas nas telas de 150 milhões de pessoas todos os meses, refinando, assim, a construção de seus perfis. Para melhor servir (e identificar) o internauta, o Facebook também acaba de lançar uma caixa de correio eletrônico que agrupa e-mail, SMS e conversas virtuais instantâneas – apontando para uma concorrência frontal com o Google, o outro ponto de controle gigante da internet.

O Facebook garante que apenas os nossos amigos têm acesso a essa massa de textos e imagens que flui continuamente nessas bases de dados. Denunciado, em novembro de 2010, por uma investigação do Wall Street Journal que revelou que alguns dos maiores operadores dos jogos no Facebook escondiam dados de identificação pessoal dos jogadores e de seus amigos, o grupo decretou “tolerância zero” às empresas intermediárias de bases de dados e afirmou que o Facebook “nunca vendeu nem venderá informações de usuários”. (Não se fala, claro, da “Patriot Act” [Lei Patriótica], que permite às autoridades americanas ter acesso a informações pessoais hospedadas nos Estados Unidos.)

Em 1993, um memorável desenho de Peter Steiner, publicado no The New York Times, explicava que “na internet, ninguém sabe que você é um cão”. Em 2010, o anonimato está prestes a ser abolido. “Com 14 fotos suas, nós temos capacidade de identificá-lo. Você acha que não há 14 fotos suas na internet? Tem as fotos do Facebook”, lembra o presidente do Google, Eric Schmidt, na Conferência Technomy, em 4 de agosto de 2010. Um estado dos fatos não somente irrevogável, mas, a seus olhos, necessário: “Em um mundo de ameaças assimétricas, o verdadeiro anonimato é perigoso. (...) É preciso um sistema confiável de verificação de identidade – e o melhor exemplo, hoje, de tal serviço é o Facebook. (...) Os governos vão acabar exigindo isso”.

Se ainda sobra a possibilidade de trapacear, isso será, no futuro, cada vez mais difícil. Os arquitetos mais poderosos do mundo online e os dirigentes políticos são destinados a “civilizar” uma internet livre e sempre vista como zona de não direitos. Se eles conseguirem domesticá-la, dar sua identidade real será o preço a pagar para participar dela com plenos direitos. A tela servia até aqui como uma imagem para designar um sistema descentralizado de rede de informações interconectadas. Ninguém imaginava que uma aranha se debatendo acabaria se instalando em seu centro e observava, assim, o comportamento de todos os internautas.