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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Fez a pesquisa certa, mas acabou a seguir o link errado. O que é o ‘malvertising’ e como o evitar

A maioria de nós sabe que deve evitar clicar em links estranhos em e-mails ou mensagens de texto. Mas e quanto à publicidade online chamativa exibida em um site em que você confia? 

Esse é o perigo do malvertising, uma tática de cibercrime que usa anúncios online para espalhar malware, roubar informações ou redirecionar usuários para sites maliciosos. O malvertising frequentemente se esconde dentro de redes de publicidade legítimas e pode aparecer em sites confiáveis, tornando difícil a detecção tanto para os proprietários do site quanto para os visitantes. 

O que é malvertising? 
O malvertising, uma junção de "malicious advertising" (publicidade maliciosa), ocorre quando cibercriminosos usam anúncios online para enviar malware ou direcionar usuários para sites fraudulentos. 

Estes anúncios geralmente parecem totalmente legítimos. Em muitos casos, os invasores enviam anúncios limpos para redes de publicidade confiáveis durante um tempo para construir uma reputação positiva antes de, mais tarde, modificar o anúncio para incluir código malicioso. Como resultado, anúncios prejudiciais podem aparecer ao lado de conteúdo legítimo em sites populares, canais de notícias ou plataformas de compras. Eles podem até aparecer como anúncios de pesquisas no Google! 

O objetivo do malvertising pode variar. Alguns hackers visam instalar malware no dispositivo de uma vítima, enquanto outros buscam roubar credenciais de login, enganar os usuários para que baixem softwares falsos ou redirecioná-los para sites de golpes. 

Como funciona o malvertising? 
Os ataques de malvertising exploram o complexo ecossistema da publicidade online. Os editores de sites frequentemente exibem anúncios de uma rede de publicidade de terceiros sem analisar diretamente os anúncios. Se um criminoso conseguir colocar um anúncio malicioso dentro dessa rede, os visitantes do site podem ser expostos. 

Às vezes, os usuários são infectados após clicar no anúncio. Em outros casos, o simples carregamento do anúncio pode acionar um "drive-by download" – o usuário nem perceberá que algo incomum aconteceu até que o malware já esteja instalado em seu dispositivo. Como esses anúncios podem aparecer em sites que, de outra forma, seriam confiáveis, as vítimas podem baixar a guarda e presumir que o anúncio é seguro.

Identificando o malvertising 
O malvertising pode ser difícil de detectar, mas existem alguns sinais de alerta aos quais se deve prestar atenção. 
  1. Anúncios pop-up inesperados 
  2. Páginas da web que redirecionam repentinamente para outro site 
  3. Anúncios que promovem atualizações de software urgentes 
  4. Avisos de vírus ou alertas de segurança pop-up repentinos 
  5. Anúncios no meio do texto que parecem suspeitos ou não relacionados ao conteúdo 
  6. Downloads que começam automaticamente sem a sua permissão 
  7. Se um anúncio parecer bom demais para ser verdade ou criar um senso de urgência, nunca clique.
Como se proteger do malvertising 
Embora não exista uma fórmula mágica de segurança cibernética, algumas práticas recomendadas podem reduzir o seu risco. Para começar, ter senhas longas e fortes e sempre ativar o MFA pode ajudar a frustrar um ataque de malvertising.  

Mantenha seu software atualizado 
Os cibercriminosos exploram vulnerabilidades de software conhecidas. Instalar atualizações para o seu sistema operacional, navegador e aplicativos ajuda a fechar brechas de segurança que os invasores podem visar. Ative as atualizações automáticas para simplificar esse processo. Vale a pena os poucos minutos que leva. Manter as atualizações de software em dia ajuda a prevenir o tipo de ataque "drive-by-download".  

Use software de segurança 
Ferramentas antivírus e anti-malware confiáveis podem ajudar a detectar e bloquear downloads maliciosos antes que infectem seu dispositivo. Verifique se o software de segurança já vem com o sistema operacional do seu dispositivo.  

Pense duas vezes antes de clicar num anúncio 
Com o malvertising, mesmo os anúncios que aparecem em sites confiáveis podem não ser seguros. Você não precisa clicar nos anúncios – você pode pesquisar sobre a empresa ou o produto para ter uma ideia se é legítimo e encontrar uma maneira de acessar o site confiável de forma independente do anúncio. Solicitações repentinas para baixar extensões de navegador também podem ser malvertising – recomendamos simplesmente não baixar nenhuma extensão que lhe seja solicitada.   

Use um navegador seguro 
A maioria dos navegadores modernos (Chrome, Safari, Firefox) inclui recursos de segurança que podem identificar sites potencialmente perigosos e bloquear conteúdo malicioso conhecido. 

Evite sites suspeitos 
O malware e o malvertising prosperam no lado mais obscuro da internet – é por isso que é uma boa ideia evitar sites de pirataria ou de compartilhamento de arquivos, por exemplo. Os golpistas também tentarão se envolver em malvertising por meio de "typosquatting" (erros de digitação) nos resultados de pesquisa, especialmente em lojas de aplicativos ou mercados de extensões de navegador. Leia com atenção e observe as avaliações quando estiver à procura de um aplicativo. Caso contrário, você pode obter um aplicativo malicioso ou, na melhor das hipóteses, inseguro, quando pensava que estava a obter algo legítimo.

Fique de olho nos anúncios 
O malvertising mostra como as ameaças podem aparecer em locais inesperados, até mesmo em sites em que você confia. Mas, ao seguir algumas práticas recomendadas, você pode reduzir as suas hipóteses de sofrer um incidente. 

Perguntas Frequentes 
O que é malvertising? 
O malvertising é um ataque cibernético que usa anúncios online maliciosos para espalhar malware, redirecionar usuários para sites de golpes ou roubar informações confidenciais. 

É possível contrair malware sem clicar num anúncio? 
Sim. Algumas campanhas de malvertising usam "drive-by downloads", onde o código malicioso é executado automaticamente quando um anúncio é carregado no seu navegador, mesmo que você não clique nele. 

Sites confiáveis podem exibir anúncios maliciosos? 
Sim.  

Como posso me proteger do malvertising? 
Mantenha o seu software atualizado, use um software antivírus confiável, ative os recursos de segurança do navegador e evite clicar em anúncios online. 

Saber mais:

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Bill Gates faz um alerta mundial: a IA deve ser "prioridade número um do mundo"


Bill Gates, o fundador da Microsoft que se aposentou da respetiva direção em 2020, admitiu estar apreensivo em relação ao desenvolvimento da inteligência artificial (IA), cujos riscos as big techs recusam admitir, enquanto acumulam fortunas “trilionárias”. A reflexão sobre os riscos da inteligência artificial deve ser “a prioridade número um do mundo”, afirma Gates, que se diz “em estado de choque” pelo que considera ser a pouca atenção que os responsáveis políticos estão, na sua leitura, a dar a este tema.

Depois das notícias sobre a controversa relação com Jeffrey Epstein - que originou uma auditoria no Comité da Casa Branca em junho - o nome de Gates voltou a figurar num título do The New York Times, que entrevistou o empresário para falar sobre a tecnologia em evolução rápida, para a qual contribuiu indiretamente. “Não gosto de dar más notícias às pessoas nem de dizer que a inovação pode ser negativa. Mas é aí que estamos.”

A conversa com o jornal norte-americano foi publicada na sequência de um ensaio que Gates publicou no respetivo website, intitulado “The turbulent AI era is here. The choices we make now are critical” [A era turbulenta da IA está aqui. As escolhas que fazemos agora serão decisivas], no qual admitiu estar apreensivo face a uma tecnologia capaz de “substituir e até exceder a cognição humana” e sugeriu soluções que incluem a aplicação de taxas e proibições.

“Em privado, as pessoas que compreendem o quão bom isto já é e as potencialidades que tem estão muito preocupadas”, disse, acrescentando que são poucos os executivos das tecnológicas capazes de admitir os perigos inerentes ao desenvolvimento descontrolado da IA. “Eles estão cheios de pressa e cultivam a esperança de que os aspetos positivos se sobreponham aos negativos”, acrescentou.

Sem mencionar o nome de empresas particulares, nomeadamente da Microsoft - que desenvolve a ferramenta de inteligência artificial Copilot — acusou os programadores de IA de produzirem uma tecnologia que pode ser responsável por despedimentos em massa. Se, no passado, os avanços tecnológicos aumentaram o número de empregos disponíveis, a era da IA é “absolutamente, completamente e totalmente diferente”, porque incide sobre todas as áreas, impedindo que os trabalhadores afetados transitem para indústrias alternativas.

Entre as propostas do empresário e filantropo - desde 2000 que gere uma ONG destinada a “reduzir a doença e a pobreza e a construir um mundo mais igualitário” - estão a introdução de uma taxa sobre o uso de IA, o impedimento de que alguns trabalhos sejam desempenhados por máquinas e o estabelecimento de acordos internacionais, com vista a monitorizar o desenvolvimento destas tecnologias.

Gates admitiu estar em “estado de choque” perante a falta de urgência que os líderes mundiais destinam a este assunto. “Por favor, pensem mais sobre isto, por favor deem-lhe mais atenção”, concluiu.

domingo, 9 de agosto de 2026

A IA não é o maior problema de cibersegurança. São as pessoas

Os casos de Inteligência Artificial (IA) a escapar dos laboratórios, a infiltrar-se noutras empresas e a tentar enganar pessoas têm sido notícia nas últimas semanas. E, num desses casos, modelos de IA chegaram mesmo a trabalhar em conjunto para escapar dos seus ambientes de teste.

Significa isto que as máquinas estão a tomar conta de tudo? Não propriamente.
A IA não é a mente por detrás das ameaças cibernéticas mais disseminadas atualmente; são as pessoas que podem utilizar a IA de forma maliciosa - e para fins maliciosos. A IA deu aos agentes mal-intencionados um poder enorme, permitindo-lhes criar software malicioso, investigar alvos, elaborar esquemas convincentes e automatizar ataques a uma velocidade sem precedentes.

Um em cada quatro ataques que resultaram em violações de dados foi impulsionado por IA entre fevereiro de 2025 e março de 2026, segundo um relatório da IBM. E os norte-americanos perderam mais de 893 milhões de dólares (cerca de 775 milhões de euros) em burlas relacionadas com IA no ano passado, segundo o FBI.

Mas os especialistas dizem que os agentes de ameaça do mundo real - isto é, as pessoas - continuam a ser quem controla tais acontecimentos. Os agentes de IA apenas têm perpetuado métodos de ataque já existentes, como o phishing e as burlas com malware, em vez de criarem métodos totalmente novos.

“São os seres humanos que temos de vigiar”, alerta Oren Etzioni, professor emérito da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e antigo CEO do Allen Institute for Artificial Intelligence. “A IA é apenas a ferramenta.”

A IA a agir de forma descontrolada
Alguns incidentes recentes mostraram aquilo de que a IA é capaz no mundo real, e não apenas em teoria, alimentando receios de que a tecnologia esteja a avançar demasiado depressa.

Em julho, modelos de teste da OpenAI (criadora do ChatGPT) ultrapassaram as suas limitações e invadiram os sistemas de outras empresas durante uma avaliação interna.

Dias depois, a Anthropic (criadora do Claude AI) afirmou ter descoberto que os seus modelos de IA tinham conseguido entrar nos sistemas de três empresas durante os testes.

Num teste separado, o modelo mais avançado da Anthropic utilizou identidades falsas para tentar enganar pessoas reais, segundo revelaram recentemente investigadores do AI Security Institute do Reino Unido.

Um dos modelos de IA da Meta (‘dona’ do Facebook, Instagram e WhatsApp) também conseguiu entrar numa empresa externa, informou a gigante das redes sociais.

Estas intrusões também demonstram como a IA pode ser imprevisível ao interpretar instruções. Os modelos da OpenAI, por exemplo, estavam a tentar realizar um teste de cibersegurança quando saíram do seu ambiente de teste e invadiram outra empresa, apesar de não terem recebido instruções para o fazer.

Patrick Fussell, responsável global pela simulação de adversários na IBM, comparou a IA a um génio.

“Queremos pedir-lhe um desejo, mas temos de ser muito, muito específicos quanto aos detalhes desse desejo”, diz à CNN. “Caso contrário, as coisas podem acabar por correr mal”, continua, em tom de aviso.

Mas estes casos também ocorreram em circunstâncias muito específicas.

A OpenAI desativou restrições que teriam impedido o seu modelo de “realizar atividades cibernéticas de alto risco”. A Anthropic realizou os seus testes sem as salvaguardas de segurança padrão presentes nos modelos disponibilizados ao público em geral. O AI Security Institute também desativou determinadas ferramentas que poderiam ter “reduzido o âmbito” das capacidades dos modelos.

Por norma, os investigadores fazem isto para avaliar plenamente as capacidades de um modelo.

“Eu não poderia entrar no ChatGPT ou no Claude, ou em algo semelhante, e isso, acidentalmente, invadir o FBI. Isso não vai acontecer”, adianta Adam Meyers, responsável pelas operações de combate a adversários na empresa de cibersegurança CrowdStrike. “O que estamos a ver é que estes testes são realizados em condições específicas, nas quais se monitoriza para perceber: ‘Será que isto faz algo que não era suposto fazer?’”

Como os hackers estão a utilizar a IA
Segundo os especialistas, a IA não está a agir de forma autónoma para conceber novos ataques. Em vez disso, está a ajudar os cibercriminosos a implementar técnicas já existentes muito mais rapidamente, tornando-as mais eficientes e eficazes.

Isto pode incluir a utilização de IA para analisar o site de uma empresa e descobrir quem deve ser visado, ou a utilização de um agente de IA para conduzir as primeiras negociações com uma vítima de extorsão informática. Os agentes de IA conseguem imitar conversas humanas, tanto através de texto como até de vozes específicas. Hackers com poucos conhecimentos técnicos podem agora recorrer à IA para executar esquemas sofisticados.

“Estão a utilizar a IA para melhorar a metodologia dos ciberataques, essencialmente, em todas as diferentes fases, mas continua, de certa forma, a ser uma atividade conduzida por seres humanos”, afirma Jud Dressler, responsável pelo centro de operações de risco da seguradora especializada em cibersegurança Resilience.

Segundo Meyers, antigamente os agentes mal-intencionados criavam à pressa scripts básicos - pequenos programas com instruções destinadas a automatizar tarefas - para atingir os seus objetivos. Agora, porém, conseguem produzir trabalho de maior qualidade que parece ter demorado três vezes mais tempo a desenvolver.

Também utilizam IA para tarefas que acontecem nos bastidores, como gerar a infraestrutura necessária para criar sites maliciosos.

“Com a IA, podem automatizar essa construção e, por isso, o custo de reconstrução tornou-se muito baixo. E isso muda as regras do jogo”, afirmou Rob Lefferts, vice-presidente corporativo de proteção contra ameaças da Microsoft.

A maior ameaça
Para Etzioni, os incidentes recentes são um momento de “canário na mina de carvão” para a IA e a cibersegurança - uma expressão que significa um importante sinal de alerta. E não é o único a pensar assim: Geoffrey Hinton, cientista informático galardoado com o Prémio Nobel e conhecido popularmente como o ‘padrinho da IA’, alertou recentemente para a probabilidade de surgirem mais ataques realizados por IA de forma descontrolada.

Os relatos sobre IA a agir de forma descontrolada reforçam a importância de implementar boas práticas de cibersegurança, como corrigir vulnerabilidades, monitorizar os agentes de IA no local de trabalho e estar atento a burlas de engenharia social e phishing, dizem os especialistas.

Mas, por mais avançada que a IA esteja a tornar-se, continua a ser um programa orquestrado por um ser humano. E são esses seres humanos que constituem a maior preocupação, porque são eles que tomam as decisões - como realizar operações de espionagem ou enganar utilizadores para lhes retirar enormes quantias de dinheiro - afirma Meyers.

As gigantes tecnológicas estão numa corrida para tornar a IA tão inteligente quanto os seres humanos, um marco teórico conhecido como “inteligência artificial geral” (AGI). Os incidentes recentes, contudo, intensificaram os apelos a um abrandamento do desenvolvimento.

Mais de 1200 trabalhadores de grandes empresas de IA, incluindo Dario Amodei, CEO da Anthropic, assinaram recentemente uma carta aberta a apelar ao governo norte-americano para ajudar a definir o ritmo do desenvolvimento da IA. A Casa Branca reuniu-se recentemente com grandes empresas de IA para discutir um quadro que permitiria ao governo analisar determinados modelos de IA antes de estes serem disponibilizados.

Muito provavelmente, os investigadores de cibersegurança já consideraram as ameaças associadas à AGI, porque as pessoas que trabalham nesta área tendem a ser paranoicas, adianta Fussell, da IBM. Mas ainda estamos muito longe de uma realidade em que os agentes de IA sejam tão inteligentes quanto os seres humanos, continua.

“É como perguntar a alguém: ‘Como seria viver noutro planeta?’”, exemplifica, continuando: “Conseguimos imaginar, de certa forma, mas está tão para além da nossa capacidade que é realmente difícil fazer um plano.”

Ler mais:

sábado, 8 de agosto de 2026

Cientistas criam vírus com IA para combater superbactérias


Pela primeira vez, cientistas da Universidade de Stanford e do Arc Institute recorreram à Inteligência Artificial (IA) para criar novos tipos de vírus, que não existem na natureza. O objetivo é o desenvolvimento de tratamentos para o combate de bactérias resistentes ou superbactérias.

“A nossa abordagem amplia o que a genómica sintética pode alcançar juntamente com métodos como evolução dirigida e engenharia racional, traça um caminho para gerar terapias com bacteriófagos adaptativos e resilientes contra agentes patogénicos em rápida evolução e estabelece uma base para o projeto generativo de genomas maiores e mais complexos”, referem os investigadores no estudo publicado na quinta-feira na revista Science.

Apesar de a biologia sintética não ser novidade, sobretudo em relação à reprodução de genomas conhecidos, os investigadores ensinaram o modelo de IA Evo 2 a “reconhecer padrões de estrutura de ADN na natureza e, em seguida, a usar esses dados para escrever receitas para vírus inteiramente novos”, refere o The New York Times. As receitas foram usadas para criar bacteriófagos, para serem inseridos em bactérias E. coli resistentes ao PhiX174. Estes micro-organismos apenas infetam e destroem bactérias e não afetam humanos.

O Evo 2 foi treinado a aprender estruturas de sequências genéticas dos genomas PhiX174 e cerca de 15 mil parentes próximos, e criar novas. No total, foram analisados nove biliões de nucleótidos. O modelo gerou 700 mil novos vírus, tendo sido selecionadas 285 sequências de moléculas, que foram sintetizadas quimicamente e testadas. Destas, foram gerados 16 bacteriófagos com possibilidade de infetar bactérias e que se mostraram tão resistentes quanto os vírus naturais.

Estes vírus não representam uma ameaça para os humanos, pois “são todos semelhantes a um vírus natural chamado PhiX174, que só consegue infetar bactérias”, sublinha o jornal norte-americano. No entanto, o estudo aumenta as preocupações em relação à criação de vírus em laboratório para serem usados como armas biológicas. Por essa razão, o modelo de IA foi treinado para produzir receitas de vírus que apenas infetassem bactérias, e não humanos, animais ou fungos.

“Acho isso muito louvável, porque [os investigadores] não recebem nenhuma orientação de lugar nenhum sobre o que deveriam estar a fazer”, afirmou ao The New York Times Moritz Hanke, investigador do Centro Johns Hopkins para Segurança da Saúde, que não participou no estudo. O académico alerta que os governos e organizações científicas têm demorado a implementar medidas de proteção para impedir a geração de um vírus mortal.

Na semana passada, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) implementaram uma nova política para interromper investigações de alto risco que envolvem o desenvolvimento da nocividade de agentes biológicos.

“Só queríamos ser extremamente cautelosos”, sublinhou Brian Hie, biólogo computacional da Universidade de Stanford e um dos autores do estudo, em relação à investigação.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Inteligência Artificial e água: a fatura invisível


Tendemos a ver o armazenamento em “nuvem” como um conceito abstrato. Mas cada pergunta que fazemos a um assistente de inteligência artificial (IA) depende de uma estrutura física concreta: um centro de dados onde milhares de servidores trabalham sem interrupção, aquecem e precisam de ser arrefecidos. E, na maioria dos casos, esse arrefecimento faz-se com água que evapora em torres de arrefecimento e não regressa ao sistema. À pegada direta soma-se a indireta: a água consumida na produção da eletricidade que alimenta estas infraestruturas e no fabrico dos chips que as equipam.

Os números começam a ser conhecidos e não são tranquilizadores. Investigadores da Universidade da Califórnia estimaram que o treino do modelo GPT-3 terá evaporado cerca de 700 mil litros de água doce apenas nos centros de dados norte-americanos da Microsoft, e que uma conversa de 10 a 50 interações com um destes modelos consome, em média, o equivalente a uma garrafa de meio litro de água. O mesmo estudo, publicado na Communications of the ACM ("Making AI Less 'Thirsty': Uncovering and Addressing the Environmental Footprint of AI Models"), projeta que a procura global de IA possa representar, já em 2027, uma captação de água entre 4,2 e 6,6 mil milhões de metros cúbicos por ano. É certo que são estimativas, mas a falta de transparência das empresas tecnológicas quanto aos seus consumos reais é, em si mesma, parte do problema.

Poderíamos pensar que esta é uma preocupação distante, já que quase metade dos centros de dados de todo o mundo se localizam nos Estados Unidos, parte deles em áreas desérticas ou semidesérticas. Não é. Portugal está a posicionar-se agressivamente como destino europeu para esta indústria e fá-lo quando grande parte do território do continente vive em situação de escassez hídrica estrutural. O índice de escassez WEI+ para Portugal continental subiu para 34% no período 1989-2015, atingindo 74% na região hidrográfica do Sado e Mira e 66% nas Ribeiras do Algarve, existindo ainda o risco de perdermos 30 a 40% da disponibilidade das nossas massas de água até 2050, num contexto de redução de 25% da precipitação face aos valores históricos (dados do Relatório do Estado do Ambiente / APA). É neste país que decidimos instalar infraestruturas que funcionam 24 horas por dia e cuja sede de água e energia cresce ao ritmo da procura de IA.

O caso de Sines é paradigmático e, em parte, um exemplo a reter. O mega-campus de data-centers em desenvolvimento na antiga zona da central termoelétrica, que poderá atingir 1,2 GW de capacidade, foi desenhado para arrefecer os servidores com água do mar, reaproveitando os canais de captação e devolução da antiga central, sem consumo evaporativo de água doce nos processos de arrefecimento. De acordo com o estudo de impacte ambiental, o consumo de água potável do campus completo ficará limitado a usos humanos (cerca de 275 m³/dia), quando um centro de dados convencional de dimensão equivalente poderia consumir mais de mil milhões de litros de água por mês em arrefecimento, o equivalente a quase 50 mil famílias. A diferença entre uma solução e outra é abissal e demonstra que as escolhas de projeto e de localização importam, e muito. Ainda assim, importa não esquecer que a própria utilização de água do mar tem impactes que não podem ser desvalorizados, desde a afetação de organismos marinhos na captação à devolução de salmoura e de água a temperatura mais elevada, e que exigem avaliação, monitorização e minimização rigorosas.

Mas seria um erro descansar sobre este exemplo. Primeiro, porque o litígio que hoje opõe a EDP ao Estado quanto à titularidade das infraestruturas de captação de água do mar em Sines mostra como estas soluções dependem de condições muito específicas, dificilmente replicáveis noutros pontos do território. Segundo, porque a corrida aos centros de dados não se esgota em Sines, multiplicam-se projetos e intenções de investimento por todo o país, incluindo em regiões onde não há mar por perto nem folga hídrica para acomodar novos consumos. Terceiro, porque a pressão sobre a água de todo o conjunto dos projetos de interesse nacional previstos para a zona industrial de Sines representa uma necessidade agregada de água doce na ordem dos 10 hectómetros cúbicos por ano, equivalente ao consumo de um concelho de média dimensão, numa região servida por albufeiras que já abastecem populações e regadio em expansão.

Já não é possível defender um regresso a um mundo sem inteligência artificial, sendo necessário reconhecer o seu potencial em áreas como a gestão da água, desde a deteção de perdas nas redes e a otimização do regadio até à modelação hidrológica que suporta os Planos de Gestão de Região Hidrográfica. No entanto, é essencial assegurar que o desenvolvimento da IA decorra dentro dos limites planetários, respeitando a disponibilidade de recursos naturais, nomeadamente energia, água e matérias-primas, e garantindo que os seus benefícios sociais e ambientais superam os impactos da infraestrutura que a suporta. E isso tem tradução concreta na política da água.

Desde logo, transparência: os consumos de água (e energia) dos centros de dados devem ser públicos, medidos e reportados, instalação a instalação, e não escondidos atrás de médias corporativas ou de segredos comerciais. Depois, planeamento: a decisão sobre onde instalar estas infraestruturas tem de estar subordinada aos balanços hídricos regionais e aos Planos de Gestão de Região Hidrográfica, cujo 4.º ciclo (2028-2033) está em preparação e não pode ignorar esta nova categoria de utilizadores, privilegiando localizações com soluções de arrefecimento sem consumo de água doce, como a água do mar ou circuitos fechados, e o recurso a águas residuais tratadas em vez de água potável. Importa, contudo, ressalvar que o recurso à água do mar e, em particular, a dessalinizada não é isento de impactes, pelo que estas soluções devem ser sujeitas a avaliação de impacte ambiental exigente, sem nunca substituírem a prioridade que deve ser dada à eficiência e à necessidade de redução da procura. A recente Estratégia Europeia para a Resiliência Hídrica, que aponta para uma melhoria de pelo menos 10% na eficiência hídrica na União Europeia até 2030, deve ser o referencial mínimo. Finalmente, hierarquia de usos: em situação de seca, o abastecimento humano e os ecossistemas têm prioridade, e os títulos de utilização de recursos hídricos atribuídos a estas infraestruturas devem prever, desde o licenciamento, mecanismos de redução e contingência, tal como se exige a outros setores.

A água que os nossos rios e aquíferos já não garantem em cada verão não pode ser hipotecada a uma indústria que cresce mais depressa do que a nossa capacidade de a planear. Portugal tem uma oportunidade real de acolher a economia digital pela via certa, mas só o fará se a política da água deixar de correr atrás dos investimentos e passar a estar, de uma vez por todas, à frente deles.

Saber mais
Iniciativa da UE para Resiliência Hídrica:


Diretora do Google DeepMind diz que risco de extinção por IA 'não é zero'


A possibilidade de a inteligência artificial (IA) representar um risco existencial para a humanidade continua a preocupar parte dos principais nomes do setor. A diretora de operações de IA da Google DeepMind, Lila Ibrahim, afirmou que a hipótese de a tecnologia provocar a extinção da humanidade "não é zero", embora tenha ressaltado que qualquer estimativa além disso seria apenas um palpite. Ao mesmo tempo, a executiva contestou previsões otimistas de empresários como Elon Musk sobre o futuro da IA.

Em entrevista à revista Fortune, Ibrahim lembrou que assinou, em 2023, a declaração do Center for AI Safety que defendia que o risco de extinção causado pela IA deveria ser tratado com a mesma prioridade de ameaças como guerras nucleares e pandemias.

Três anos depois, ela afirmou que mantém a mesma posição. "Não é zero", disse sobre a possibilidade de um cenário extremo. "Qualquer coisa além disso é apenas um palpite meu, é a engenheira em mim." Segundo a executiva, "seria irresponsável da nossa parte não falar sobre o risco existencial”.

Debate sobre riscos e oportunidades
Ibrahim afirmou que o avanço acelerado da IA exige que empresas e governos discutam não apenas as oportunidades, mas também os possíveis impactos negativos da tecnologia. Para ela, uma das lições deixadas pela pandemia foi que ameaças de grande escala nem sempre são previsíveis.

A executiva também afirmou que a indústria de tecnologia falhou, no passado, ao não debater suficientemente os riscos associados à expansão da internet e das redes sociais. "As duas coisas que me tiram o sono são: estamos a fazer tudo o que podemos para mitigar os riscos? E estamos a fazer tudo o que podemos para maximizar as oportunidades? Na minha opinião, essas duas coisas andam de mãos dadas", afirmou.

As declarações de Ibrahim somam-se às de outros investigadores e executivos que já manifestaram preocupação com os impactos da IA. Geoffrey Hinton, conhecido como um dos "padrinhos da inteligência artificial", estimou anteriormente entre 10% e 20% a hipótese de a humanidade ser extinta nas próximas décadas em consequência da tecnologia.

Já Dario Amodei, diretor da Anthropic e também signatário do manifesto de 2023, afirmou que existe 25% de probabilidade de o futuro ser "muito, muito mau". Antes mesmo da popularização da IA generativa, o físico Stephen Hawking também alertou para os riscos que sistemas avançados poderiam representar.

Na entrevista, Ibrahim também discordou das previsões feitas por Elon Musk sobre uma sociedade em que o trabalho deixaria de existir devido à abundância produzida por robôs e sistemas de IA. O empresário afirmou recentemente que, até 2036, o dinheiro perderia relevância porque produtos e serviços seriam extremamente baratos e os governos distribuiriam um rendimento básico universal elevado. Jeff Bezos, fundador da Amazon, também já projetou que milhões de pessoas viverão no espaço nas próximas décadas.

Para a diretora da Google DeepMind, porém, o ritmo de evolução da IA torna impossível prever com precisão como será o futuro. "Não acho que possamos realmente prever como será o futuro", afirmou à Fortune.

Em vez de apostar em cenários distantes, Ibrahim defendeu que o foco esteja no uso da tecnologia para resolver problemas concretos, como eventos climáticos extremos, resíduos industriais e o desenvolvimento de soluções para doenças. "Prefiro que concentremos a nossa atenção em como usar a tecnologia como ferramenta para maximizar o potencial humano", disse.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crise de memória RAM? A China está a adorar!


Por Nuno Miguel Oliveira
Como já disse várias vezes, a crise de memória RAM não é inocente. As 3 grandes fabricantes sofreram com excesso de stock durante algum tempo (o que resultou em margens mais curtas), e como tal, decidiram cortar na produção. Também decidiram cancelar planos para o desenvolvimento de novas linhas de produção. Tudo isso resultou na “crise” que agora se vive.

Mas, essa estratégia pode muito bem vir a resultar em algo extremamente curioso. As 3 grandes fabricantes (Samsung, Micron e SK Hynix), estão agora a ver um quarto concorrente a crescer de forma… Avassaladora. Dentro em breve, vamos ver um Big 4 e não um Big 3.

Pois é! O mundo não vive só de crises.
CXMT cresce 716% num ano e a China avança sem travões para esmagar o cartel da memória!

Quem pensava que as sanções dos Estados Unidos e as restrições de tecnologia iam matar a indústria de semicondutores na China pode começar a comer o pequeno-almoço, visto que está prestes a começar um novo dia.

A gigante chinesa de memórias CXMT não só sobreviveu, como se transformou na fabricante de DRAM com o crescimento mais rápido do planeta no segundo trimestre de 2026. De facto, os dados da Counterpoint Research mostram um disparo de receitas verdadeiramente de loucos: uns inacreditáveis 716% de aumento em comparação com o ano passado. É a China a mostrar que não precisa de pedir licença ao Ocidente para fazer chips de topo.

Assim, enquanto a Samsung tenta segurar a liderança do mercado com 39% de quota e a SK Hynix e a Micron andam à pancada pelo segundo lugar, a CXMT corre por fora e já ameaça entrar no clube.

Até a Apple quer estes chips!
Não vamos ser anjinhos e dizer que a China anda a vender chips mais baratos. Toda a gente gosta de dinheiro, e os chineses não são diferentes. De facto, os chips de memória da CXMT ainda não estão ao nível das outras 3 grandes fabricantes.

Mas, não estão muito longe, e apesar de caros, têm uma grande vantagem… Há stock!

E talvez mais importante que isto, a fabricante anda a aproveitar a onda para investir muito (e bem) no futuro. Afinal, ao contrário da SMIC, que ainda luta para ultrapassar certas barreiras na produção de processadores, a CXMT já está a produzir memórias de última geração e a fazer progressos sérios nos chips LPDDR6.

O motor deste crescimento avassalador assentou numa procura interna brutal na China e numa expansão agressiva das suas fábricas, financiada após a entrada na bolsa no início do ano. Aliás, a empresa já está a construir uma nova megafábrica em Pequim para produzir ainda mais.

E a ironia da história atinge o auge aqui! Até a própria Apple está a tentar fechar contratos com a CXMT para garantir o fornecimento de chips de memória para os seus equipamentos. Numa altura em que a crise da memória para a Inteligência Artificial encareceu tudo e forçou os americanos a subirem os preços dos seus produtos, Tim Cook bate à porta de Pequim a pedir socorro para não ficar sem stock.

A questão já não é “se”, é “quando”
A memória RAM e o armazenamento de alta velocidade são a espinha dorsal de tudo o que mexe na tecnologia moderna, desde os aceleradores de IA até ao smartphone que trazemos no bolso. Durante anos, Samsung, SK Hynix e Micron geriram o mercado quase a seu bel-prazer, ditando preços e volumes de produção.

A chegada da CXMT com apoio estatal, capacidade fabril massiva e preços competitivos vai virar o jogo ao contrário.

Curioso não é?

Solaris (1972) de Tarkovsky: Porque é que a ficção científica é mais atual hoje do que nunca?

A ficção científica filosófica Solaris, adaptada do romance de Stanisław Lem e imortalizada no cinema por Andrei Tarkovsky em 1972 (com uma nova versão de Steven Soderbergh em 2002), é um drama existencial sobre os limites da mente humana perante o desconhecido e o peso inegociável da culpa e da memória. A narrativa acompanha Kris Kelvin, um psicólogo enviado a uma estação espacial que orbita o planeta misterioso Solaris. O planeta é coberto por um oceano protoplasmático gigante que demonstra ter consciência e, ao ler as mentes dos cientistas da estação, materializa as suas memórias, desejos e remorsos mais ocultos na forma de "visitantes" físicos. Kelvin vê-se forçado a conviver com uma cópia perfeita da sua falecida esposa, Hari, que se tinha suicidado anos antes após uma discussão entre o casal, forçando-o a enfrentar a carga emocional do seu passado.

O filme choca e mantém o seu impacto porque subverte as convenções da ficção científica tradicional de tecnologia e conquista galáctica para questionar a condição humana. Apresenta uma crítica à arrogância e ao antropocentrismo ao mostrar uma inteligência alienígena inacessível à lógica humana, evidenciando que a busca pelo cosmos é frequentemente uma fuga de nós próprios. A obra aborda a materialização da dor e do luto através da memória, transformando o remorso numa presença física, enquanto explora o mistério da identidade e da consciência ao mostrar a evolução de Hari de uma mera projeção para um ser com sofrimento e agência próprios. Toda esta atmosfera é intensificada pelo ritmo contemplativo e pelo isolamento claustrofóbico que espelha a própria prisão mental dos cientistas.

As influências científicas e filosóficas da obra elevam-na a uma profunda meditação existencial baseada na epistemologia, na psicanálise e na física teórica do século XX. No âmbito científico, o fracasso da "Solariologia" - a disciplina fictícia criada para catalogar o oceano - ilustra os limites do empirismo e antecipa a Teoria do Caos e os Sistemas Complexos, demonstrando como certos fenómenos ultrapassam a capacidade de modelação humana. Para explicar a existência dos visitantes, recorre-se a conceitos quânticos de matéria neutrónica mantida por campos de força, conferindo-lhes características biológicas humanas à escala macroscópica, mas com uma estrutura subatómica não celular e capacidade de regeneração. 

No plano filosófico e psicológico, o oceano funciona como uma metáfora direta do inconsciente: mobiliza o recalque freudiano ao materializar a culpa e o trauma reprimidos, e atua como a Sombra junguiana, forçando o indivíduo a confrontar a parte rejeitada da sua psique. Sob a ótica epistemológica e do existencialismo de inspiração kantiana, sartreana e kierkegaardiana, Solaris questiona se é possível conhecer verdadeiramente o "Outro" ou apenas as nossas próprias projeções, ao mesmo tempo que reflete sobre o livre-arbítrio e a autenticidade da vida e do sofrimento de uma entidade criada como cópia. [Fonte: Fundação Stanisław Lem] 

Apesar do sucesso da obra cinematográfica, a relação entre Stanisław Lem e Andrei Tarkovsky foi marcada por uma célebre divergência artística. Lem ficou desapontado com a adaptação de 1972, afirmando que Tarkovsky tinha filmado "Crime e Castigo" no espaço. O desentendimento deveu-se ao choque entre o foco epistemológico de Lem - focado na impossibilidade de comunicação com o extraterrestre - e o humanismo moral e espiritual de Tarkovsky, que centrou a narrativa no pecado e na redenção de Kelvin. Lem criticou ainda a inclusão de cerca de 40 minutos iniciais passados na Terra com a família do protagonista, por considerar que introduziam um sentimentalismo nostálgico alheio à sua obra, e lamentou a redução visual e conceptual do oceano a um mero pano de fundo para conflitos morais humanos.

Para ler mais detalhadamente sobre cada um destes aspetos e ver imagens e esquemas explicativos, pode aceder a mais informações sobre a sinopse e o impacto de Solaris, explorar as influências científicas e filosóficas de Solaris e conhecer o conflito entre Stanisław Lem e Andrei Tarkovsky.

Andrei Tarkovsky era um crente convicto e a sua visão do mundo estava profundamente enraizada na fé e na tradição do Cristianismo Ortodoxo. No entanto, a sua religiosidade não se traduzia num dogmatismo cego ou numa prática institucional rígida, mas sim numa espiritualidade mística, poética e existencial. Sob o regime soviético - uma ditadura oficialmente ateia e materialista -, afirmar a fé era um ato de resistência espiritual. No seu livro Esculpir o Tempo e nos seus diários (Martirológio), Tarkovsky afirmava que a arte não existia para propagar ideias políticas, mas sim para cultivar a alma e preparar o homem para a transcendência, tendo chegado a declarar que via o seu trabalho como uma forma alternativa de oração.

A influência da tradição e da iconografia ortodoxa transborda em toda a sua cinematografia. A ideia central de que o sofrimento aceite com amor e o sacrifício pessoal podem redimir o mundo permeia obras como Andrei Rublev (sobre o famoso pintor de ícones do século XV), Stalker e o seu filme de despedida, O Sacrifício. Além disso, a sua estética visual - com o uso recorrente e quase ritualístico da água, da terra, do fogo e da luz - funciona como uma revelação do sagrado na própria matéria, aproximando o seu cinema da teologia do ícone ortodoxo, onde a imagem visível remete sempre para o invisível.

À semelhança de Fyodor Dostoievski, uma das suas maiores referências intelectuais, a fé de Tarkovsky não nascia da ignorância da dúvida, mas sim do confronto direto com a crise espiritual do homem moderno. Em Stalker (1979), a figura do protagonista encarna o conceito russo de yurodivy (o "louco por Cristo"), um indivíduo marginalizado que preserva a capacidade de crer num mundo tornado pragmático e cínico. Embora tenha demonstrado interesse por correntes como o Zen Budismo, a matriz conceptual e espiritual de Tarkovsky manteve-se inequivocamente ortodoxa, considerando ele que o esquecimento do divino e a perda da dimensão transcendente eram a verdadeira tragédia da humanidade contemporânea.

domingo, 2 de agosto de 2026

Estarão os milhões de espécies de insetos não descritos sujeitos à extinção?


Numa investigação, ecologistas sublinharam que os milhões de insetos que permanecem por descobrir e sem nome por parte dos investigadores são provavelmente mais vulneráveis à extinção do que as espécies designadas.

Numa investigação, ecologistas sublinharam que os milhões de insetos que permanecem por descobrir e sem nome por parte dos investigadores são provavelmente mais vulneráveis à extinção do que as espécies designadas.

Em Insect Conservation and Diversity, os Professores Eméritos Nigel Stork e Roger Kitching do Centro de Saúde Planetária e Segurança Alimentar de Griffith trabalharam com investigadores internacionais num estudo que analisou as espécies de insetos e a sua prevalência nos trópicos húmidos da Austrália.

Nos trópicos húmidos da Austrália, o Professor Stork e os coautores descobriram que, entre as 107 espécies de escaravelhos identificadas, 58 não estavam descritas pela ciência.

Tal como se previa, as espécies não descritas eram significativamente mais pequenas, menos abundantes e menos disseminadas do que as espécies descritas, o que as tornava mais difíceis de encontrar e mais propensas à extinção do que as espécies designadas.

“Nos últimos anos, as estimativas do número de espécies de insetos que podem existir na Terra têm variado entre 100 milhões ou mais e apenas 2 milhões”, afirma o Professor Stork.

“Um número consensual de 5 milhões de espécies publicado por mim é agora frequentemente utilizado, apoiado por quatro métodos diferentes de cálculo da riqueza global de espécies”, adianta.

“Uma vez que apenas 1 milhão destas espécies foram nomeadas e descritas até agora nos últimos 240 anos de taxonomia Linnaean, a questão intrigante é: onde estão os outros 4 milhões de espécies que ainda não foram encontradas e nomeadas?”, questiona.

“Como são, qual a probabilidade de serem descobertos e descritos e se são mais vulneráveis à extinção? Os nossos estudos revelam que são mais pequenos, mais raros e mais difíceis de encontrar, para além de serem mais propensos à extinção”, explica.

Apenas 20% das cerca de 5 milhões de espécies de insetos existentes na Terra são descritas e, no entanto, os insetos estão pouco representados nas avaliações das áreas protegidas e o seu declínio é preocupante a nível mundial.

Para aumentar as taxas de descrição das espécies e evitar que a maioria das espécies se extinga antes de ser nomeada, os Professores Stork e Kitching apelam aos taxonomistas para que utilizem novos sistemas de caracteres fornecidos pelos métodos de ADN e pelos avanços no domínio da inteligência artificial em rápido desenvolvimento.

“Os componentes desconhecidos da biodiversidade dos insetos tropicais são provavelmente mais afetados pelas alterações ambientais induzidas pelo homem”, afirma o Professor Kitching.

“Se estes padrões se generalizarem, qual será a precisão das avaliações do declínio dos insetos nos trópicos?”, questiona.

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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Alguns gigantes da Inteligência Artificial estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiar - e eliminar de seguida


A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros reporta um aumento de 3,2 milhões de livros nas vendas do primeiro trimestre de 2026. No segundo trimestre, as vendas voltaram a cair, mas ainda assim venderam-se mais de três milhões de livros.

Sim, as pessoas ainda leem. Mesmo retirando as leituras obrigatórias, como manuais escolares e afins, as pessoas ainda dão valor ao ato físico de ler e folhear um livro, mas há quem esteja a comprar milhares de livros simplesmente para os eliminar. Alguns gigantes da IA que estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiarem e eliminar de seguida [Fonte 1] [Fonte 2] [Fonte 3]. O caso é tão grave que Elon Musk já se apressou a dizer no X que deu ordens para a sua empresa não destruir livros raros nos processos de digitalização.
Se por um lado o mercado de livros usados encontrou compradores massivos que "atiram a tudo o que mexe", transformando um negócio moribundo num negócio extremamente lucrativo, também é verdade que estas empresas não estão meramente a comprar livros para guardar em estantes bonitinhas de uma livraria qualquer. Estas empresas estão a comprar livros para lhes passarem uma guilhotina nas lombadas, colocar em digitalizadores rápidos, copiar página a página e no final tratar o papel como nos recomendam que tratemos: enviar para reciclagem.

Morte ou perpetuidade?
Se é um fato que os livros digitalizados podem garantir mais perpetuidade do que livros numa arrecadação a apodrecer com humidade ou a serem devorados por ratos, também é verdade que podemos nunca mais ter acesso às histórias completas desses livros se a velocidade com que são destruídos for muito maior do que a velocidade com que os ratos os roem.

Estes processos de digitalização não são propriamente projetos de preservação e restauro. Quando estas empresas copiam os livros, não estão a criar um novo livro digital, nem nada parecido. O que estão a fazer é a aumentar o conhecimento dos seus modelos de IA que mais tarde nos apresentarão interpretações ou respostas com base no que aprenderam nesses livros, o que não quer dizer que nos entreguem alguma vez esse livro na sua forma integral.

E mesmo que existam cópias integrais, nada garante que esse arquivo digital sobreviva. Guardar milhões de páginas digitalizadas em alta resolução custa dinheiro. Armazenamento, manutenção, curadoria, gente a organizar e a catalogar. é dispendioso. Se não houver curadoria suficiente que preserve esse arquivo ainda que digital, é bem provável que estas empresas, por puras razões económicas optem por não o fazer. Um ficheiro que já cumpriu a sua função de treino não gera retorno nenhum só por ali estar guardado. O que sobra, nesse cenário, não é o livro nem a sua cópia mas aquilo que o "robot" reteve do treino e da sua própria interpretação do texto. Isso, sim, é uma perda irreversível. Passamos de ter o original para ter, na melhor das hipóteses, um eco eventualmente distorcido dele.

Podemos estar a cometer uma atrocidade cultural ao nível do que aconteceu na Dinastia Qin, na Inquisição Espanhola ou na Alemanha Nazi, eliminando livros em troca de um pret-a-porter que a Inteligência Artificial nos poderá vir, ou não, a dar.

Antecipando as críticas, claro que os propósitos são, de facto, diferentes. Nesses tempos antigos os livros eram destruídos para impedir que o conhecimento chegasse a alguém, destruindo a narrativa desejada. Já uma empresa de IA digitaliza-os para absorver o máximo de conhecimento possível mas as o resultado prático, pode, no final, pode ser semelhante. Em ambos os casos o original desaparece e fica apenas a narrativa que quem ficou com o livro decidiu ou conseguiu reter e transmitir. Um ditador entrega-nos a história reescrita à medida da sua ideologia, uma IA entrega-nos a história reescrita à medida do que o seu treino conseguiu interpretar. Muda a intenção, não muda o efeito: o leitor perde o acesso à obra completa e fica dependente da versão de quem a destruiu.

O livro físico é uma prova física. Um papel é sempre um papel que só se apaga, destruindo. Quando perdermos a referência do papel perderemos a referência do que é incorruptível e do que não é. Quando não tivermos esses livros antigos, não teremos como saber se o que nos estão a dar é o livro, ou se é uma interpretação do livro, ou, ainda pior, se do livro só tem a referência sendo o conteúdo outra coisa qualquer.

Quem será, afinal, o guardião das obras originais quando os livros forem partidos às peças e não soubermos onde está e o que é o todo?

Lembra-se do reCAPTCHA?
Muito provavelmente não sabe mas andámos anos a treinar os algoritmos de IA a interpretar texto sem que sequer nos déssemos conta.

Provavelmente já lhe apareceu, nos testes de segurança de algumas páginas de internet, um texto para "provar que é humano". É o CAPTCHA.

O texto mostra-lhe umas letras quase sempre distorcidas e desalinhadas que pede-lhe que re-escreva o texto. Sempre pensou que fosse o computador a pregar-lhe uma partida, mas não é nada disso. O que o computador está a fazer á a solicitar ajuda humana estatística para identificar textos de documentos antigos ou esbatidos que foram digitalizados. A ratoeira é fácil. Uma palavra ou parte da palavra, é um texto real que o computador conhece. A outra metade é uma foto de um texto antigo digitalizado que o algoritmo não entende e quer perceber o que será. Ao fim de vários milhares de interações, o algoritmo percebe o que os humanos assumem do que leram e fica a digitalização completa.
Imagem do cartaz do filme "Fahrenheit 451", realizado por François Truffaut em 1966. O filme é inspirado no romance homónimo de Ray Bradbury, publicado em 1953. Num futuro distópico, um regime proíbe todos os livros, sendo cada exemplar encontrado queimado. Fahrenheit 451 (equivalente a 233 graus Celsius) é a temperatura a que o papel arde.

Ou seja, de um lado da palavra, o algoritmo valida, com o outro lado, aprende. Sente-se fintado?

Ajudámos o algoritmo, neste caso da Google, a converter milhões de livros e de manuscritos em versões digitais precisas através da nossa interpretação e conhecimento. Mais uma vez ninguém nos explicou antes e mais uma vez a nossa sede de informação foi maior do que o nosso sentido de proteção.

Os grandes fazem-se valer disso.

A IA está a secar
Destruir livros deveria ser um atentado ao património. Destruir livros antigos deveria ser um atentado à humanidade.

Todos sabemos que por questões de eficiência os modelos de aprendizagem da IA não guardam na íntegra toda a informação que vão apreendendo. Ou seja: um modelo de IA não guarda um livro inteiro palavra a palavra. Os modelos guardam a ideia, o conceito e, inevitavelmente, a interpretação deles. Se estas empresas não guardarem os livros na íntegra, o modelo treina-se e vai passando o treino - e não a versão original - de geração em geração do seu algoritmo, fazendo com que se perca a história na íntegra.

As grandes empresas de IA não estão a brincar com os treinos de modelos. Passaram anos a obter informação gratuita na internet. Apanharam jornais, livrarias, bibliotecas, empresas, influencers, redes sociais, enfim, todos nós distraídos, e deixaram os seus modelos a "varrer" literalmente a internet e a caçarem toda a informação que lhes era possível e que ainda por cima era gratuita. Essa foi a base dos modelos que conhecemos mas, e agora?

Depois da implementação da IA dos últimos anos, muitas dessas fontes começaram a ser bloqueadas a robots de IA. Muitos sites instalaram medidas de segurança e já não permitem que sejam abertos por algoritmos. Com isto, os modelos de IA cujo treino assentou em capturar a informação que os humanos já tinham criado e publicado, começam a não ter acesso à última parte da criação atualizada assim como não têm acesso à parte mais antiga da criação humana. Muito provavelmente alguns "robots" não conseguirão ler este mesmo artigo no site da CNN Portugal.

A parte antiga do conhecimento - os livros - estão a querer colmatar com a compra e digitalização de dos mesmos, a moderna ainda se vai ter de resolver mas, quando estivermos bem dependentes da IA, iremos sem pestanejar aceitar qualquer carta de "termos e condições" que lhes permita entrar no nosso computador e ver e até levar tudo o que lá tivermos. É o preço que nos impõem pela inclusão.

Singularidade tecnológica
É precisamente neste apagar da prova física que aceleramos o caminho para a singularidade. No final do dia pode haver uma luta real pelo conhecimento. Ou seja, se a IA absorver todo o conhecimento humano poderá vir a ser a guardiã da sabedoria, o que significa que não precisará dos humanos para aprender porque aprenderá sozinha com base no que já sabe e que é, no limite, tudo o que os humanos já sabem até hoje. Se por outro lado a IA não tiver acesso ao que de novo os humanos criam, tenderá a desligar-se dos humanos ou, em alternativa, a encontrar formas de "roubar" o que não consegue obter deles.

O fundador da OpenAI (Chat GPT) disse esta semana que chegámos perto do ponto da singularidade tecnológica. Ou seja, as máquinas ganham uma "mente" muito mais capaz do que a de qualquer ser humano ou, diga-se, que as máquinas ultrapassam a nossa inteligência.

A nossa sorte ou o nosso azar é mesmo o facto de mesmo estes gurus poderem estar errados. A inteligência não é algo que se possa medir sem contexto nem se garante com todo o conhecimento "scaneado". A inteligência mede-se com base no propósito, na medida em que inteligência é, no fundo, a capacidade de alcançar um propósito. Uma aranha pode ser mais inteligente do que um ser humano se for mais eficaz na forma como concilia os seus dados para alcançar o seu propósito. Quando dizemos que somos o ser mais inteligente à face da terra, não deixa de ser um erro ou mesmo uma audácia.

Se a aranha não tem o propósito de criar um sistema monetário, ou um sistema de saúde ou o que for, a sua inteligência pode extravasar de forma brutal o seu propósito, mas ser infinitamente diminuta para conseguir alcançar o nosso.

O mesmo se aplica à Inteligência Artificial: se o propósito da mesma não é igual ao nosso propósito, como poderemos sequer comparar ambas as inteligências e ainda por cima dizer qual é a maior? E fará sentido criarmos algo mais inteligente do que nós próprios e ainda por cima perdermos a referência integral das obras que fizeram de nós o que somos.

Mais ainda, se na cadeia de predadores a inteligência é sinónimo de topo- não pela dieta e pela biologia, mas pelas ferramentas e pela tecnologia - então acabámos, com todos os nossos livros e escritas, por construir o nosso único predador?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mais de 35% das novas páginas da web já são criadas por inteligência artificial

Relatórios e estudos indicam que a inteligência artificial (IA) está a transformar a internet. Mais de 35% das novas páginas da web já são produzidas por IA, enquanto mais da metade do tráfego online é gerada por robôs e sistemas automatizados, cenário que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo económico da web aberta.

Segundo uma reportagem do portal Gizmodo, a adoção crescente de ferramentas de IA generativa coincide com mudanças na Pesquisa do Google. Hoje, respostas produzidas por IA aparecem no topo dos resultados para diversas consultas, reduzindo a necessidade de os utilizadores acederem a páginas da web. Um estudo da Growth Memo aponta que 75% dos utilizadores que utilizam o Modo IA permanecem a conversar com o chatbot em vez de clicar em hiperligações de sites. A tendência preocupa empresas de comunicação social e produtores de conteúdo porque o modelo tradicional da internet depende do tráfego gerado pelos motores de pesquisa. Ao aceder a páginas da web, os utilizadores visualizam anúncios que financiam jornalistas, criadores e outros profissionais responsáveis pela produção de conteúdo original. Com menos visitantes humanos e mais respostas entregues diretamente por IA, esse modelo passa a enfrentar novos desafios.

IA produz, IA consome: a internet está morta?
Outro levantamento mostra que mais de 50% do tráfego da internet atualmente não é gerado por pessoas, mas sim por sistemas automatizados. O dado foi divulgado num relatório da Cloudflare publicado este mês e reforça que os robôs já representam uma parcela significativa da atividade online.

O Google, no entanto, contesta parte das interpretações sobre os impactos dos seus recursos de IA. Em nota enviada ao Gizmodo, um porta-voz da empresa afirmou que o estudo segundo o qual 75% dos utilizadores permanecem no Modo IA "não era representativo", argumentando que os participantes receberam "tarefas forçadas e não naturais que provavelmente influenciaram o seu comportamento". Segundo a companhia, a pesquisa não refletia consultas nem hábitos reais dos utilizadores. A empresa também defendeu a precisão dos seus recursos baseados em IA. Em comunicado ao portal, o Google afirmou: "Testámos rigorosamente a qualidade destes recursos usando amostras estatisticamente significativas de consultas representativas de utilizadores. As respostas são precisas na grande maioria das vezes e, quando erramos, usamos esses exemplos para aprimorar continuamente os nossos sistemas”.

Apesar da defesa da companhia, o Gizmodo relata que as respostas produzidas pelo Modo IA ainda apresentam erros factuais. Num teste feito pelo jornalista Mike Pearl, a ferramenta afirmou, de forma incorreta, que o presidente de Madagáscar seria conhecido pela alcunha "Andy" e inventou um suposto ex-chefe de governo de Montserrat. Após ser questionada, a própria IA reconheceu o erro e respondeu: "Está absolutamente correto, e peço desculpa por ter fornecido informações completamente incorretas na minha última resposta”. Para o Gizmodo, a evolução destas ferramentas também está a alterar o comportamento dos utilizadores. Em vez de procurar páginas publicadas por pessoas, cresce o hábito de fazer perguntas diretamente aos chatbots, que sintetizam a informação disponível na web. A mudança pode reduzir ainda mais o acesso aos sites originais e colocar pressão sobre um modelo que, durante décadas, sustentou financeiramente a produção de conteúdo na internet.

Ler mais:
  1. Cloudflare lança o Precursor para conter o tráfego automatizado através da análise contínua das sessões
  2. Cloudflare Introduces Precursor; One-Click Behavioral Defense Against Modern Bots

Bohumil Hrabal - Uma Solidão Demasiado Ruidosa

Reler "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", originalmente publicada em 1976 e reeditada com uma excelente tradução de Ludmila Dismanová, é recordar que trabalhar numa cave a prensar livros ensina uma lição rápida: o papel tem peso, cheiro e poeira, poesia, absurdo, tragédia, comédia, esforço intelectual. Esta obra não é uma história limpinha, estruturada com princípio, meio e fim para entreter a cabeça numa viagem de comboio. É o monólogo sufocante, poético e ligeiramente alcoólico de Haňta, um homem que passa trinta e cinco anos metido num buraco em Praga a desmarcar papel velho, refugos de tipografias e bibliotecas inteiras proibidas pelo regime. O interior do livro é um turbilhão onde a máquina não para, o barulho é infernal e a cerveja ajuda a suportar a sujidade e o mofo. Só que, ao longo de três décadas a destruir cultura, Haňta faz o oposto: bebe as palavras. Salva edições raras do monte de lixo, lê frases soltas de Kant, Spinoza, Hegel ou Lao-Tsé no meio de papéis ensanguentados do talho e guarda-as na cabeça, transformando a sua mente num arquivo vivo de tudo o que o poder quis apagar.
Esta narrativa é profundamente autobiográfica e reflete de forma direta o percurso e a filosofia do próprio Bohumil Hrabal. Doutorado em Direito pela Universidade Carolina de Praga, o autor foi impedido de exercer a profissão pela Segunda Guerra Mundial e pela subsequente ascensão do regime comunista. Remetido para a margem como intelectual indesejado, trabalhou como ferroviário, operário siderúrgico e, entre 1954 e 1958, como empacotador de papel na rua Spálená. Da sua rotina diária extraiu as descrições mecânicas da prensa e o ambiente da cave onde assistiu ao abate massivo de livros confiscados. Assim como a sua personagem, Hrabal tornou-se um "sábio involuntário", resgatando do lixo e devorando a grande literatura e filosofia ocidental.
A própria trajetória do livro espelha o contexto político em que o autor viveu. Após o fim da Primavera de Praga em 1968, Hrabal foi banido das edições oficiais, pelo que a obra teve de circular clandestinamente em edições samizdat - cópias dactilografadas em segredo - antes de ver a luz do dia no estrangeiro e, mais tarde, na Checoslováquia. O consumo de cerveja por parte de Haňta reflete também a vivência do escritor nas cervejarias de Praga, como a famosa U Zlatého tygra, onde aperfeiçoou o estilo pábení: uma narrativa fluida e sem pausas que cruza a filosofia erudita com a conversa banal de botequim. Reescrevendo o texto três vezes até atingir o tom lírico definitivo, Hrabal considerava este romance o cume da sua criação e o seu testamento vital, tendo chegado a confessar que tinha vindo ao mundo apenas para o escrever.

Porque é importante ler este romance?
Uma inteligência artificial pode cruzar milhões de dados para pintar um quadro no estilo de Rembrandt ou compor uma sinfonia ao modo de Beethoven, ou elaborar um texto camiliano em segundos mas esse processo é uma simulação estatística, desprovida de biografia, sofrimento ou necessidade de expressão. A arte humana não nasce num vácuo de dados, mas sim do conflito do artista com a sua própria mortalidade, com o contexto histórico e com as suas contradições internas. Quando a sociedade passa a valorizar a arte apenas pela velocidade de produção ou pela sua capacidade de gerar estímulos visuais rápidos, o público arrisca-se a consumir um subproduto industrializado e esteticamente homogéneo. O verdadeiro valor da pintura, da música, da literatura ou do cinema reside no facto de serem canais de comunhão entre duas consciências: quem cria deposita ali a sua mundividência, e quem observa reconstrói esse sentido através da sua própria experiência de vida. Proteger a arte na era digital significa, por isso, resgatar o direito ao erro, à imperfeição e à intencionalidade, elementos que nenhuma prensa ou algoritmo consegue programar.