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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Cioran: entre o pessimismo e o fanatismo na política

A atmosfera de idolatria mostra um sintoma que revela nos sujeitos um desejo insaciável de dominação, transfigurado na política através da tirania, dos abusos de poder e do autoritarismo, características de grupos autoritários e radicais extremistas.

Em Portugal pouco ainda se fala sobre o filósofo romeno, Emil Cioran, nascido em 1911, em Rasinari, comuna romena localizada no distrito de Sibiu. O escritor e filósofo foi radicado posteriormente na França, onde ganhou fama nos círculos intelectuais, além de ser conhecido como “rei do pessimismo”, chamado assim por um jornal britânico da época. O seu pai, Emilian Cioran, era um padre ortodoxo romeno, enquanto a mãe, Elvira Cioran, era de Veneţia de Jos. Da linhagem materna pertencia a uma pequena família de nobres na Transilvânia, pois o seu avô materno era tabelião e ganhou o título de barão pelas autoridades imperiais.

Nos tempos de juventude apoiou o nazismo, após ter sido condecorado com uma bolsa de estudos em Berlim, assim como nutriu simpatia pelo fascismo italiano. Não muito tempo depois renega tal admiração da sua juventude, criticando os movimentos de ultradireita e os fascistas, além de tecer, durante toda a sua vida um mea culpa por seu envolvimento, denominando-os como “seitas doentias”, e referia a essa parte triste de sua vida como “doença da juventude”. Por esse motivo, supomos, a política nunca foi objeto direto de seus escritos, porém mesmo tratando de inúmeros temas, não deixou de alertar sobre as problemáticas que englobam os sujeitos como um todo.

Agregando o pessimismo de Schopenhauer, com o ceticismo de Montaigne e o niilismo de Nietzsche, não teve medo da represália académica ao discorrer sobre os temas da morte, da obsessão, da alienação e do fanatismo.

O assunto da alienação, recorrente em diferentes pensadores e perspectivas como Karl Marx, Jean-Paul Sartre e Albert Camus, retratam um ambiente de tortura e tormento, segundo Cioran, incitado pelas narrativas religiosas do pecado original e da obsessão pelo absoluto, como também pelo pragmatismo político observado no autoritarismo presente em diversos cantos da Europa. O filósofo viveu de perto o surgimento e a consolidação dos totalitarismos e as catástrofes causadas pelas crenças ideológicas do século passado, evidentemente, herdou a experiência sombria de tais eventos. Com efeito, sua filosofia é profundamente marcada por uma escrita trágico-poética, o que traduz bem seu pessimismo e desencantamento quase mórbidos, de quem assistiu aos horrores nefastos provocados pelos mais belos devaneios.

Pessimismo político e fanatismo
O pessimismo no que diz respeito à política, parte da compreensão de que as ideias, por si, deveriam estimular uma posição de tolerância entre as pessoas, de harmonia e bem-estar. Entretanto, movido pela animosidade e paixão, o ser humano projeta a si mesmo, transformando a ideia em crença, revelando um fundo bestial de entusiasmo através do proselitismo, da intransigência ideológica e da intolerância. Na prática, esse movimento é traduzido numa busca contínua pela hegemonia política, religiosa e ideológica, por parte do intolerante, descartando qualquer manifestação oposta ou contrária, não admitindo ideias que sejam contrárias às suas crenças subjetivas. Os radicais, em sua maioria, assumem uma postura excludente e fundamentalista, ligados ou não à religiosidade, mas estimuladas por grupos elitistas e burgueses da sociedade, que enxergam no caos da desordem a oportunidade de pôr em prática seus desejos de dominação.

A construção do fanatismo depende de enredos e alegorias apocalípticas que só teriam resolução a partir do surgimento de um mito ou herói. Ou seja, para se construir um “salvador da pátria” é necessário que se crie o caos, a instabilidade, o terror e o medo. Dentro desse contexto criado pela classe dominante surge o “messias”, que na verdade é o fanático por excelência ou aquele que dissemina o fanatismo por intermédio do controle e do autoritarismo. Através disso, não é difícil observar e apontar a semelhança dos movimentos autoritários e fascistas que de ontem e de hoje, além de criarem um cenário de extrema vulnerabilidade se colocam como a única alternativa cabível e válida.

Emil Cioran, em seus Syllogismes de l’amerture (em português, Silogismos da Amargura), afirma que “quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma nova religião”. Essa atmosfera de idolatria mostra um sintoma que revela nos sujeitos um desejo insaciável de dominação, transfigurado na política através da tirania, dos abusos de poder e do autoritarismo, características de grupos autoritários e radicais extremistas. A grande vitória da burguesia, segundo o autor, provém do fracasso do outro, um espetáculo de uma grande ideia desfigurada. O pessimismo inerente ao pensamento do autor não é um pedido de discipulado, ou um clamor por seguidores e arautos, mas um alerta para as sociedades não caírem nas amarras do obscurantismo e da tirania. Se por um lado, para muitos a utopia de um mundo harmonioso e feliz é posto como referência e ideal, pelo outro, Cioran, observa as tendências de estagnação prefiguradas pelas mesmas utopias, que caem em um idealismo abstrato e se acomodam, não contestam e nem buscam transformar a realidade.

Intolerância e fanatismo
Emil Cioran foi suscitado como teórico que fundamenta a discussão sobre o fanatismo, relacionando o modus operandi dos regimes autoritários com o desvio da racionalidade, que seria superado através da prática cética – ação que evitaria os apegos emotivos e irracionais sobre ideologias destrutivas. A postura racional, segundo o autor, não suscita o apelo por uma falsa alternativa política, mas reforça a necessidade de tolerância entre os indivíduos para que o fanatismo político e religioso não ganhe força na sociedade.

Na prática política contemporânea notamos o discurso de segmentos reacionários da nossa sociedade, dirigidos em especial às minorias e opositores, carregado de intransigência e proselitismo. Esses grupos ultrarradicais edificam as suas crenças no terreno dogmático, similar à religiosidade fanática, se fecham em círculos ou panelas com pessoas similar e com as mesmas tendências de pensamento, para que sejam validados seus preconceitos e visões deturpadas sobre o mundo.

A intolerância que vemos no mundo atual, pode ser definida como a ação que o fanatismo estimula e pratica em todas as suas declinações, tendo como alvo quem não se enquadra em seus devaneios e alucinações autoritárias. Por isso, segundo o autor franco-romeno, qualquer sujeito que abraça o proselitismo e desenvolve um fanatismo ideológico naturalmente se transforma num intolerante – e também num idólatra.

Um dos conselhos retirados das suas obras atravessa gerações: sempre que um fanatismo declina, outro surge em seu lugar. Observamos atentamente que o retorno de tendências fascistas nos principais postos governamentais, em grandes países no mundo, é a prova da existência do perigo constante que vivemos. Por conta disso, a humanidade pode caminhar para sua própria destruição, tornando-se mercadoria de si mesma, ou seja, vendendo a sua liberdade e os seus direitos, através da simpatia e do apoio por grupos extremistas. Numa leitura contemporânea, notamos o capitalismo, como um “fanatismo económico” ou “personificação material e valorativo do fanatismo”, onde todos são expostos a todo instante, sofrendo as consequências da disparidade social e da desigualdade. Entretanto, não esqueçamos que os ideais que flertam com o fascismo já encabeçam diversos países ao redor do mundo, através de seus chefes de Estado, possuindo em comum a servidão irrestrita ao neoliberalismo e ao imperialismo. O neoliberalismo, dessa forma, é a evolução do fanatismo e da subserviência dos intolerantes, personificada num modelo econômico excludente, desigual e injusto.

Os pessimistas costumam ser bons profetas. Emil Cioran previa um pequeno declínio dos ideais políticos, de modo geral, através da epidemia do fanatismo que já se vivia naqueles anos, o retorno das ideais autoritárias é a prova de que o fanatismo e a intolerância não são vencidos somente com a ajuda do tempo. É preciso muito mais que notas de repúdio e camisas antifascistas.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Encontros Improváveis- Platão e Dave Gahan & Soulsavers - All of This and Nothing


"Music is a moral law. It gives soul to the universe, wings to the mind, flight to the imagination, and charm and gaiety to life and to everything" ~Plato

Nota: É uma citação inegavelmente bela e extraordinariamente popular, mas, para sermos totalmente francos, existe aqui uma reviravolta: Platão quase de certeza que nunca disse ou escreveu estas palavras. Embora soe exatamente ao tipo de reflexão poética que um filósofo da Grécia Antiga faria numa tarde ensolarada em Atenas, esta frase é uma criação moderna que acabou por lhe ser atribuída erradamente ao longo dos anos, espalhando-se pela internet e por cartazes motivacionais.
Na verdade, se Platão estivesse vivo hoje para ler esta citação, é muito provável que ficasse bastante surpreendido. A perspetiva real de Platão sobre a música, expressa em obras como A República, era consideravelmente mais rigorosa, política e regulada:
  • Música como controlo do estado: Platão acreditava que a música exercia um poder enorme porque o ritmo e a harmonia penetravam profundamente na alma. Precisamente por isso, defendia que o Estado Ideal devia censurar rigorosamente a música.
  • Escalas "boas" vs. "más": o filósofo favorecia modos musicais que inspiravam coragem, disciplina e ordem, enquanto argumentava a favor da proibição de modos que induzissem à tristeza, à preguiça ou a emoções caóticas.
  • Função moral e não mero entretenimento: para Platão, a música não servia para dar "encanto e alegria à vida" pelo simples prazer pessoal, mas sim como uma ferramenta educacional concebida para cultivar a virtude moral e a harmonia civil nos cidadãos.
Portanto, enquanto a citação apócrifa apresenta a música como uma força libertadora e alegre para a imaginação, o verdadeiro Platão via-a como uma ferramenta de grande alcance que exigia uma vigilância apertada para não desestabilizar a sociedade. [Fonte]

A colaboração entre Dave Gahan e o projeto Soulsavers junta a voz marcante do vocalista britânico dos Depeche Mode à produção da dupla inglesa composta por Rich Machin e Ian Glover. Lançada em 2015 como o primeiro single do álbum Angels & Ghosts, a faixa All of This and Nothing representa a fusão refinada de identidades artísticas do Reino Unido. Em termos de estilo musical, a canção enquadra-se no rock alternativo de matiz cinematográfica, combinando elementos de blues, gospel, música gótica e darkwave. Diferente do som predominantemente sintético dos Depeche Mode, a sonoridade construída pelos Soulsavers privilegia instrumentações orgânicas e densas, onde violinos ascendentes, um baixo pulsar cadenciado, arranjos de guitarra intimistas e coros de inspiração gospel envolvem a tessitura grave e barítona de Gahan. O significado da canção gravita em torno do paradoxo da existência e da fragilidade humana. Liricamente, a expressão «tudo isto e nada» expressa a dualidade entre o absoluto e a insignificância do indivíduo perante o universo. O eu lírico apresenta-se simultaneamente como a poeira sob os pés e o sol que nasce, encarnando o cosmos e a mortalidade. O apelo constante para «sair da escuridão» (move in from the dark) atua como uma busca por redenção e renovação espiritual em resposta a fantasmas do passado e a tempestades interiores. Essa carga temática revela profundas influências literárias do Romantismo Negro, do existencialismo e do gnosticismo. Nota-se uma afinidade com a poesia de William Blake na articulação dos opostos (luz e sombra, o divino e o terreno) e com a tradição das tragédias existenciais, onde a sobrevivência física e espiritual - marcas da história de vida do próprio Dave Gahan - é retratada através de alegorias bíblicas e imagens da natureza. O videoclipe da canção, dirigido pelo coletivo artístico fourclops, destaca-se pelo seu conceito tecnológico e metafórico inovador. Criado especificamente para ser visualizado através do efeito de ilusão holográfica do fantasma de Pepper (utilizando uma pirâmide de plástico sobre o ecrã do smartphone), o teledisco exibe imagens em sobreposição: o rosto e o corpo de Dave Gahan, exames neurológicos de cérebros, metamorfoses biológicas, flores a desabrochar e dinâmicas cósmicas. O significado visual reflete a mensagem da própria canção - a projeção efémera da vida sobre a vacuidade do espaço, onde a consciência humana e a matéria biológica se entrelaçam antes de se dissolverem na escuridão.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Emil Cioran - O filósofo da melancolia



Preparem-se para pensamentos melancólicos. Para ideias desconcertantes. Para ideias que nos incomodam. Se forem de natureza macambúzia e com pouco senso de reflexão, sugiro que não se apercebam do filósofo romeno Emil Cioran, que nasceu em Rășinari, uma área rural da Transilvânia (portanto, conterrâneo do Conde Drácula) em 1911 e que faleceu em Paris, no ano de 1995. Ainda na Roménia, aos 17 anos ingressou na Faculdade de Filosofia, e encantou-se pela política partidária aderindo a um Partido Nacionalista, inspirado no Nazismo, mas na fase adulta reconheceu este erro e acabou por se desculpar; mas foi em Paris que se radicou e tentava viver como estudante apenas.

Tanto é que foi chamado à responsabilidade pela administração da Sorbonne, pois já estava com 40 anos e havia estado há muito na instituição, aproveitando-se das refeições baratas nos bandejões da cantina da universidade. Assim, teve que se desligar da instituição (ou desligaram-lhe) e entronizou a característica com a qual gostaria de ser conhecido e reconhecido: a de um eterno estudante.

Nos primeiros ensinamentos da Filosofia, encantou-se com Immanuel Kant (1724-1804), Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Contudo, refutou a Filosofia como o grande esquema de explicação do mundo e de Nietzsche herdou a característica de se expressar por aforismos, tais como:

“Amo o pensamento que guarda um gosto de carne e sangue, e a uma abstração vazia prefiro mil vezes uma reflexão surgida de uma exaltação dos sentidos ou de uma depressão nervosa“.

Cioran é de um pessimismo impressionante. Mas, quando leio alguns dos seus pensamentos, consigo encontrar humor, mesmo que negro, das suas provocações. Na fase adulta, foi acometido por uma insónia que não o deixava aspirar a novos começos, pois, segundo ele, só aqueles que dormem e se levantam normalmente na manhã seguinte têm o direito de aspirar a coisas novas, sonhos novos, projetos novos.

Saindo do seu quarto barato de hotel, pela madrugada lá ia Cioran perambular pela Cidade Luz, em becos escuros contando com a companhia de putas tristes que formavam as cenas. Sem aspiração alguma, pessoal ou profissional, sem compromissos e sem ter que prestar contas a ninguém, Cioran tinha tempo de sobra para refletir e tirar extratos destas sinapses, tais: “O paraíso é a ausência do homem“.

O mundo de Cioran é cinza e não intenta nenhuma metafísica. Ele mesmo desejava uma vida de inseto, tipo “A Metamorfose” de Franz Kafka e fico aqui a pensar se este desapego à vida é que não fez com que, contraditoriamente, vivesse tanto, afinal, morreu aos 84 anos, precedido pelo Mal de Alzheimer.

Os seus livros mais conhecidos são “A Tentação de Existir“, “Exercícios de Admiração“, “Breviário de Decomposição” e “Silogismos da Amargura“. Citando fontes, o filósofo foi-me apresentado pelo excelente artigo de Paulo Jonas de Lima Piva, “Cioran Uma Mente Desconcertante“, publicado na Revista Discutindo Filosofia (Ano 1, n.º 2). Do mesmo modo que a partir desta apresentação procurei inteirar-me mais sobre Cioran, espero que este artigo em questão lhes possa proporcionar isso.

Deixo-lhes alguns pensamentos, e esclareço que não me aprofundei mais para dar um certo estilo às intenções de Cioran: mais vale uma vida vivida com toda a sua contrariedade a esquemas de reflexões e de salvação do mundo, pelo menos a nossa própria. Tentem não se matar ao lerem estas reflexões tortas. Ao menos para mim, significou deleite puro, pois, para além da seriedade das sentenças, percebi um certo sorrisinho de mofa.

“No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!“;

“O momento em que pensamos ter compreendido tudo dá-nos ar de assassinos“;

“O destino do homem é esgotar a ideia de Deus“;

“A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade“;

“Que vale mais: realizar-se na ordem literária ou na ordem espiritual, ter talento ou força interior? Parece a segunda fórmula a preferível, pois mais rara e enriquecedora. O talento destina-se ao olvido, em contrapartida a força interior aumenta com os anos, podendo atingir o seu apogeu no momento em que a pessoa expira“.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Carnaval - Entre o riso e o sagrado


Carnaval e Festa dos Loucos

É discutido o étimo de Carnaval. Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar.

O étimo mais aceite é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).

Quando se procura as raízes históricas do Carnaval, há quem vá até às festas em honra de Ísis e Osíris, no Egipto. Entre os gregos e os romanos, havia grandes festejos, com cantos, sexo e vinho, em honra de Dioniso e Saturno, para celebrar a entrada da Primavera. Os germanos celebravam o solstício do Inverno, homenageando os deuses e expulsando os demónios maus.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se.

O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente "normalizar" comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.

Trata-se de uma espécie de necessidade catártica, numa terapia colectiva, como se tudo se invertesse ou voltasse ao caos originário, para ser possível regressar à ordem.

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: "Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando se não abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria rebentaria, se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião."

Precisamente a Festa dos Loucos leva-nos a reflectir sobre a relação entre o riso e o sagrado.

Nos Evangelhos, de Jesus diz-se que ele se admirava, comentando Tomás de Aquino que essa é a prova da sua humanidade, pois é próprio do homem espantar-se (não é o espanto o princípio da Filosofia?), e também se afirma que chorou, nunca se referindo, porém, nem o sorriso nem o riso.

Por isso, no quadro da desconfiança ascética face ao riso, que chegou a ser considerado demoníaco, generalizou-se a ideia de que nunca se riu. Mas é evidente que Jesus sorriu e riu, pois sorrir e rir são características distintivas do homem. Ai do homem incapaz de rir-se de si mesmo!

Por outro lado, só nas ditaduras é que não é permitido fazer humor nem rir dos poderes instituídos.

Há testemunhos das Festas dos Loucos desde finais do século XII e eram promovidas pelo baixo clero. Elegia-se, entre os subdiáconos, um senhor da festa, designado por "Bispo". Na transmissão simbólica do "báculo", entoavam -se os versículos do Magnificat: "Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes", apontando assim para a utopia da igualdade e a inversão da ordem vigente na realização do Reino de Deus.

Chegava-se a colocar o clérigo feito "Bispo" sobre um burro, avançando para o altar com o rosto voltado para a cauda. Durante a liturgia, em momentos fundamentais, o celebrante e os assistentes zurravam.

Neste descalabro burlesco, seria possível, ver, no limite, a urgência de não confundir o sagrado em si com as mais variadas formas idolátricas que os crentes lhe emprestam. Pode perguntar-se com Paulo A. Borges se "nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos", não se tratará de estender ao sagrado e ao divino "aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar, como dignos de veneração e culto", "os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir".

Quem pode imaginar o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Um Deus que não chega às máquinas multibanco, que "dão" dinheiro!