Mostrar mensagens com a etiqueta Educação Ambiental. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Educação Ambiental. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ainda Girabolhos: A ironia da data e o impacto ambiental da nova barragem no Mondego


Por Alexandre Silva
Hoje, dia 15 de julho, vai ser anunciado pela Senhora Ministra do Ambiente e da Energia, a abertura do concurso para atribuição da concessão de captação de água, produção, Hidroelétrica e conceção, construção, exploração e conservação do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos Girabolhos/Bogueira no rio Mondego.

A data escolhida para o lançamento do procedimento concursal é no mínimo sinistra, enigmática, hilariante, infeliz, senão provocatória. Vejamos, por mero acaso ou por incúria, por desconhecimento ou insensatez, ou talvez para acicatar aqueles, que se manifestam e levantam muitas reservas à construção deste empreendimento, os promotores decidiram fazer o anúncio oficial, em data coincidente com as comemorações dos 50 anos do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e, aproveitando o ensejo, para se regozijarem pela recente classificação da região como Reserva da Biosfera da UNESCO (RBU). 

Será que o ICNF (salvaguardando que o empreendimento se encontra na periferia exterior do PNSE) e a pomposa RBU concordam com este tipo de infraestruturas? 

Acresce, ainda, que o local de implantação deste empreendimento é território abrangido pelo Estrela Geopark UNSECO e área marginal ao Sítio de Interesse Comunitário: Carregal do Sal, ao abrigo da Directiva habitats – Rede Natura 2000, criada para a conservação do narciso-do-mondego (Narcissus scaberulus), planta endémica do troço médio do rio Mondego. 

Será que a UNESCO compactuaria com a implementação deste empreendimento?

E quanto ao Plano Nacional de Restauro da Natureza a que estamos obrigados no âmbito da União Europeia? Não estamos a ir precisamente no sentido oposto? E os compromissos da mesma Rede Natura?

Será que foram avaliados os verdadeiros impactes sobre os sobreirais de ambas as vertentes do rio Mondego, na área de implementação do empreendimento? 

As barragens têm impactos ambientais muito significativos e as atuais orientações da Directiva-Quadro da Água, não privilegiam estas infraestruturas e consideram-nas como “pressões hidromorfológicas”. 

Presentemente, a União Europeia condiciona ou não financia de todo barragens.  Serão os vencedores do concurso os financiadores do projeto? A que custos para o erário publico e para os contribuintes? Rendas milionárias, quase perpétuas? Impostos encapotados? 

Uma barragem com fins hidroelétricos deve estar próxima da sua capacidade máxima, já para regularizar picos de caudal deve estar o mais vazia possível. Não parece um contrassenso?  

A Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) de 2009/2010 está, no mínimo, desatualizada e enferma de omissões.  

A sub-bacia regularizada pela Barragem de Girabolhos representará apenas 15% da Bacia do Mondego. O rio Ceira contribuiu com mais de 1000 m3/s nas cheias de 2019 e 2026. Não será fácil controlar as cheias em Coimbra e no Baixo Mondego aquando de eventos extremos. Girabolhos-Bogueira é um mero paliativo, caríssimo, de duvidosa eficiência e catastrófico a nível ambiental.

Porquê a pressa? Tendo sido alterados, os pressupostos iniciais a que o empreendimento se destinava, não seria lógico e mais consensual lançar uma nova AIA e depois decidir?

A APA consegue saber qual o impacte sobre a população de narciso-do-mondego, sobre os sobreirais e sobre os serviços dos ecossistemas associados a este troço do rio Mondego? 


A montante de Girabolhos-Bogueira:
O que se fez após os incêndios de 2017, 2022 e 2025 para minimizar a erosão? 
Porque não reabilitar a Barragem de Fagilde aumentando a sua capacidade de reserva?
E a jusante de Girabolhos-Bogueira:
Como tem sido a manutenção, ou falta dela, no Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego? Diques em rutura, vegetação exótica e invasora a desestabilizar e fragilizar a estabilidade e a segurança dos diques.

E a contínua construção em leito de cheia no setor inferior do Mondego? Quem a autoriza, mesmo após as cheias de 2026, apesar dos constantes e recorrentes alertas? 

Porque se projetou e edificou em 1991, um troço da A1 em pleno dique direito do Canal Principal do Mondego construído, 10 anos antes, em 1981?

E a falta do desassoreamento do troço do Mondego entre Santa Clara-Açude? De quem é a competência? Da APA? Do Governo? do Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego?



O que se antevê caso Girabolhos-Bogueira realmente se construa:
Abre-se  um sério precedente para a construção da Barragem de Nossa Senhora da Assedasse, entretanto adormecida numa qualquer gaveta poeirenta, mas que encontrará respaldo de Girabolhos-Bogueira! 

Estamos também dispostos a abdicar dos Casais de Folgosinho e do Covão da Ponte (Gouveia-Manteigas)? 

E porque não exumar das catacumbas o projeto da barragem da Candieira, em pleno Vale Glaciário do Zêzere (Aproveitamento Hidráulico do Alto-Zêzere)?

Será, também, uma excelente oportunidade para instalar parques eólicos e, talvez fotovoltaicos, como estruturas complementares a Girabolhos-Bogueira, que serão financiados, sob a forma de rendas ruinosas, a longo prazo, para pagar o investimento da construção. Não seremos nós a pagar, mas será a herança que será legada às gerações futuras e a uma população, ainda mais reduzida do que aquela que, hoje, por cá sobrevive.

Por fim, de que valem os chapéus como Reservas da Biosfera e Geoparques UNSECO, Sítios Rede Natura 2000, como o de Carregal do Sal criado para proteger uma planta endémica do Portugal e cuja área de inundação da barragem será um forte revés à sua conservação?

Será que o narciso-do-mondego sabe mesmo nadar?

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Lorde - Team


Tanto a letra como o teledisco de "Team", da cantora Lorde, funcionam como um manifesto de resistência juvenil que rejeita os clichés do consumismo e celebra a resiliência das comunidades que vivem à margem do sistema. Na letra, a artista critica a ostentação e as falsas promessas de felicidade vendidas pela televisão, afirmando com orgulho que a maioria dos jovens vive em realidades invisíveis para a grande comunicação social através do icónico verso "vivemos em cidades que nunca verás no ecrã". Ao mesmo tempo, recusa a alienação das músicas festivas tradicionais ao cantar que já não tem paciência para que lhe digam para atirar as mãos para o ar, assumindo o peso do amadurecimento e a necessidade de procurar um propósito mais profundo. O refrão centraliza tudo na lealdade e na entreajuda, garantindo que, mesmo quando a realidade não é perfeita ou se vive nas ruínas de um palácio de sonhos, aquele grupo sabe exatamente como organizar-se, gerir a sua subsistência e comandar as coisas porque jogam todos na mesma equipa.

Fontes
The efeect of eco-anxiety on pro-environmental behaviors and mental well-being: a parallel mediation model
The effect of eco-anxiety on pro-environmental behaviors and mental well-being: a parallel mediation model

sábado, 6 de junho de 2026

Pandora


Pandora

Oculta sob a asa inferior verde-musgo de bosques antigos,
Filha do romper da alva e do cardo aquecido pelo sol,
Que ama o primeiro calor do sol matinal, o néctar doce das flores roxas e a quietude silenciosa antes do voo,
Que suporta o frio diário da sombra matinal, esperando que a luz lhe desperte as asas,
Que deu ao mundo um contraste impressionante de brilhantismo oculto, provando que um exterior modesto pode guardar uma maravilha deslumbrante,
Que anseia manter os seus segredos guardados sob as asas dobradas, mas que inevitavelmente liberta o seu espírito vibrante no ar,
Que traz uma tempestade mítica da história a um campo simples, unindo o abismo entre os contos antigos e a natureza viva,
Residente dos vales banhados pelo sol, para sempre ancorada por um frágil fio de Esperança.

Saber mais sobre Pandora - Mitologia Grega:

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Natureza não é um mero recurso - é onde o humano se reconecta

Toutinegra-de-bigodes-ocidental (Curruca iberiae)

Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra, esquecida no tronco das árvores só serve para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas.

Manoel de Barros, in "O Livro das Ignorãças" (1993)

O poema de Manoel de Barros, extraído de O Livro das Ignorãças, constitui um hino à sensibilidade, à infância e à capacidade de o ser humano se libertar da lógica puramente racional para se fundir com o mundo natural. Ao longo dos versos, o autor convida-nos a compreender o mundo através daquilo que apelida de "desimportâncias", valorizando o olhar sensível em detrimento da rigidez utilitária do quotidiano.

No centro da narrativa encontramos o "estágio de ser árvore". Esta expressão não evoca uma metamorfose literal, mas sim um profundo exercício de empatia, silêncio e contemplação, onde o irmão do poeta adota o tempo e o ritmo da própria terra. É através desta simbiose que surge uma crítica subtil ao ensino tradicional e dogmático. Ao afirmar que o irmão aprendeu mais sobre o sol, a lua e a santidade no tronco de uma árvore do que na escola ou no internato com os padres, o poeta exalta o saber sensorial e a vivência direta. A comunhão com o meio ambiente revela-se a verdadeira escola da vida, capaz de aproximar o indivíduo daquilo que designa como o "perfume de Deus".

Manoel de Barros foca-se também na utilidade do que parece inútil. A imagem da casa vazia da cigarra, esquecida no tronco e que "só serve para poesia", ilustra perfeitamente a sua filosofia: numa sociedade focada no lucro e na funcionalidade, a arte e a poesia residem precisamente naquilo que foi abandonado e que perdeu a sua função prática. Ao mesmo tempo, o autor humaniza a natureza ao atribuir vaidade e ciúmes à árvore, esbatendo as fronteiras entre o Homem e o meio que o rodeia, celebrando uma amizade pura com as borboletas e os pássaros.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Biofilia- o cordão vital que esquecemos de cortar

Cartaxo-comum ( (Saxicola rubicola)- macho

A nossa existência não é um fenómeno isolado, mas sim um capítulo indissociável da narrativa biológica da Terra. O ser humano, por mais que se cerque de betão e silício, carrega no seu ADN uma herança ancestral que clama pela proximidade com o mundo natural. Esta interdependência é capturada pelo conceito de biofilia - a nossa tendência inata para procurar ligações com a natureza e outras formas de vida. Como afirmou o biólogo Edward O. Wilson, o proeminente impulsionador deste conceito: 
"A nossa existência depende desta propensão, o nosso espírito tece-se a partir dela, e a esperança nela reside." 
Não se trata de um capricho estético ou de uma nostalgia romântica pelo campo; a biofilia é, em última análise, uma estratégia de sobrevivência. Num mundo que idolatra o betão, a luta pelo domínio dos recursos não renováveis e agora a Inteligência Artificial, insistir na nossa interdependência com o mundo natural é frequentemente ridicularizado como um delírio utópico ou um radicalismo fora de horas. No entanto, o verdadeiro irrealismo reside na crença de que podemos prosperar enquanto cortamos os laços com o sistema que nos mantém vivos. Como Edward O. Wilson alertou, a nossa essência está tecida na biodiversidade. Ignorar este vínculo não é apenas um erro filosófico, é um passo em direção à extinção. 

Quando rotulamos de "radical" quem defende a integração da natureza nas cidades ou a prioridade dos ecossistemas sobre o lucro imediato, estamos a sofrer de uma miopia civilizacional. A biofilia relembra-nos que o impacto ambiental não é um "problema lá fora", mas uma ferida no nosso próprio corpo coletivo. Negar esta ligação é como tentar viver num vácuo: podemos ignorar as leis da biologia por algum tempo, mas a conta acaba sempre por chegar. O vínculo essencial com a Terra não é uma escolha ideológica; é a nossa única apólice de seguro.

A metáfora do "cordão umbilical" é fascinante porque, ao contrário de um nascimento biológico onde o corte simboliza a conquista da independência, na biofilia, o corte simboliza a interrupção do fluxo vital. Se cortarmos essa conexão, não nos tornamos independentes da natureza; tornamo-nos biológica e psicologicamente órfãos de um sistema do qual somos apenas uma engrenagem, o que torna a ideia de "cortar o cordão" não uma evolução, mas um erro de cálculo fatal.

O ser humano moderno comporta-se como um adolescente que declara independência dos pais, mas continua a usar o cartão de crédito e a comer a comida deles. O nosso "cartão de crédito" são os recursos finitos do planeta. Não se trata de um luxo ou de um passatempo de fim de semana, mas sim de um imperativo evolutivo. Se essa ligação for definitivamente rompida, enfrentamos uma degenerescência em várias frentes. Psicologicamente, a humanidade já sofre daquilo que os investigadores chamam de "Perturbação de Défice de Natureza", onde a desconexão gera picos de ansiedade e um isolamento existencial que nenhum algoritmo consegue mitigar. Fisicamente, a nossa sobrevivência depende de serviços ecossistémicos que não controlamos, como a polinização e os ciclos de purificação da água. Cortar o cordão seria, na prática, desligar as máquinas que sustentam a nossa sobrevivência no planeta.

Muitas vezes, a civilização moderna age como se o progresso fosse o ato de superar a natureza, mas essa é uma antítese falsa. A verdadeira resiliência da nossa espécie depende da nossa capacidade de integração e não do isolamento em ambientes puramente sintéticos. Tentar viver inteiramente fora da biofilia seria como tentar manter um peixe vivo num copo de leite: a estrutura física está lá, mas o meio é incompatível com a essência da vida. Portanto, a biofilia não é um laço que nos prende ao passado, mas sim a rede de segurança que nos permite ter um futuro. Se a cortarmos, não estaremos a nascer para uma nova era, estaremos a assinar a nossa própria extinção.

Referências bibliográficas

1.Abram, David (1996). The Spell of the Sensuous: Perception and Language in a More-Than-Human World.
Foco: Fenomenologia e Ecopsicologia. Explora como a linguagem e a abstração tecnológica nos desligaram dos sentidos e da perceção direta do mundo vivo.

2.Fromm, Erich (1973). The Anatomy of Human Destructiveness.
Foco: Psicanálise e Ética. Introduz a biofilia como uma orientação psicológica de amor à vida, opondo-a à necrofilia (fascínio pelo mecânico, inorgânico e pela destruição).

3.Kaplan, Stephen (1995). The restorative benefits of nature: Toward an integrative framework. Journal of Environmental Psychology.
Foco: Psicologia Cognitiva. Desenvolve a Teoria da Restauração da Atenção, provando que o contacto com a natureza é essencial para recuperar a fadiga mental causada por ambientes urbanos.

4. Kellert, Stephen R. & Heerwagen, Judith (2008). Biophilic Design: The Theory, Science, and Practice of Bringing Buildings to Life.
Foco: Arquitetura e Urbanismo. Estabelece as bases práticas para reintegrar a natureza nas construções modernas, tentando "curar" a separação entre o betão e a vida.

Kellert, S.R., Wilson, E.O. (Eds.). 1995. The biophilia hypothesis. 
Foco: É a validação científica e filosófica da ideia de que os seres humanos possuem uma necessidade intrínseca de contacto com o resto da vida, explorando as consequências práticas da sua ausência.

5. Louv, Richard (2005). Last Child in the Woods: Saving Our Children from Nature-Deficit Disorder.
Foco: Educação e Sociedade. Analisa as consequências sociais e comportamentais da vida artificial e cunha o termo "Transtorno de Défice de Natureza".

6.Terrapin Bright Green (2014). 14 Patterns of Biophilic Design.
Foco: Design e Sustentabilidade. Define padrões científicos e sensoriais (visuais, auditivos, térmicos) que mantêm o "cordão umbilical" funcional dentro de espaços fechados.

7.Wilson, Edward O. (1984). Biophilia.
Foco: Biologia Evolutiva. A obra que popularizou o conceito, defendendo que a nossa necessidade de natureza está codificada no nosso DNA devido a milhões de anos de evolução.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo revela que a ligação humana com a natureza diminuiu 60% em 200 anos


Estamos a perder a ligação à natureza e talvez nem estejamos a perceber.
Um estudo recente indica que a “ligação à natureza” terá diminuído mais de 60% desde o século XIX. Esta conclusão resulta de um modelo que combinou dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e mudanças culturais entre gerações, mostrando uma redução progressiva no contacto direto com o mundo natural.
Curiosamente, a investigação de Miles Richardson, professor da Universidade de Derby, em Inglaterra, aponta também para um reflexo simbólico desta mudança: a presença de palavras relacionadas com a natureza — como “rio”, “musgo” ou “flor” — tem diminuído na literatura ao longo do tempo, sugerindo uma transformação na forma como a natureza ocupa o nosso imaginário coletivo.
Os investigadores descrevem este fenómeno como uma possível “extinção da experiência”: menos contacto quotidiano com ambientes naturais, menos transmissão desse vínculo entre gerações e, consequentemente, uma relação mais distante com a biodiversidade que nos rodeia.
O estudo publicado na revista Earth ainda sugere medidas político-sociais para reverter esta tendência, tal como a introdução das crianças na natureza desde tenra idade e o reflorestamento radical dos ambientes urbanos, as intervenções mais eficazes, por exemplo.

sábado, 21 de março de 2026

Dia Mundial dos Glaciares: Por que o Destino dos Glaciares é o Nosso Próprio Destino


No calendário global, o dia 21 de março costuma ser associado ao início da primavera no hemisfério norte, um símbolo de renovação. No entanto, desde que a Assembleia Geral da ONU proclamou esta data como o Dia Mundial da Preservação dos Glaciares, o foco mudou para a conservação crítica do que já temos — e do que estamos prestes a perder. Os glaciares não são apenas blocos estáticos de gelo; são "sentinelas" que moldam a geologia, regulam a temperatura e sustentam a vida humana.

A ciência por trás da sua importância é fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante. Estas massas de gelo funcionam como o sistema de refrigeração da Terra através do efeito albedo. Quando a radiação solar atinge a superfície branca e brilhante de um glaciar, a maior parte dessa energia é refletida de volta para o espaço. À medida que o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano abaixo, a taxa de absorção de calor aumenta. É um equilíbrio delicado que pode ser resumido pela relação física onde a variação da temperatura  é inversamente proporcional à capacidade de reflexão da superfície (efeito albedo). Pode imaginar o efeito albedo como o sistema de 'espelhos' da Terra. Os glaciares brancos refletem até 90% da luz solar de volta para o espaço, mantendo o planeta fresco. No entanto, quando o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano, a superfície passa a absorver a energia solar. Em termos físicos, a redução da refletividade (albedo) resulta num aumento catastrófico da absorção de calor. O infográfico abaixo ilustra claramente este ciclo de aquecimento.




O Ponto de Inflexão
De acordo com o Relatório AR6 do IPCC, a influência humana é 'inequívoca' no recuo global dos glaciares desde a década de 199. Os dados revelam que estamos a perder cerca de 220 mil milhões de toneladas de gelo anualmente, um ritmo que coloca ecossistemas inteiros num ponto de inflexão. Isto significa que certas perdas glaciares tornaram-se irreversíveis, independentemente dos nossos esforços imediatos. O recuo nestas áreas aumenta o risco de inundações catastróficas e, a longo prazo, de secas severas. O impacto não é apenas visual; é uma ameaça direta à segurança hídrica de mil milhões de pessoas que dependem destas fontes de água doce. 

No entanto, o Dia Mundial dos Glaciares não serve apenas para lamentar perdas. É um convite à ação. Do majestoso Perito Moreno na Argentina às cavernas de gelo azul do Vatnajökull na Islândia, estas estruturas guardam a história do nosso clima. Cada bolha de ar presa no gelo profundo é um registo atmosférico de milhares de anos — uma biblioteca congelada que projetos como o Ice Memory tentam salvaguardar em "santuários de gelo" na Antártida.

Porém a rapidez com que o restante gelo desaparece ainda depende das nossas ações hoje. Estima-se que mais de mil milhões de pessoas dependam do degelo sazonal para obter água potável, irrigação e energia. Regiões como os Andes e os Himalaias (o "Terceiro Polo") estão na linha da frente.  

Em 2026, a mensagem da ONU é clara: os glaciares são os "Guardiões do Futuro da Terra". Preservá-los é indissociável das metas de emissões zero. Reduzir a nossa pegada de carbono não é apenas um conceito abstrato; é o esforço direto para manter estes gigantes vivos. Ao celebrarmos este dia, devemos olhar para o gelo não como algo distante, mas como o espelho do nosso próprio destino. Se o gelo respira, nós respiramos.

Para saber mais:
World Glacier Monitoring Service (WGMS) - Global Glacier Change Bulletin

quinta-feira, 5 de março de 2026

Encontros Improváveis: Thomas Nashe e Vanessa Bowman



✍ "Spring, the sweet spring, is the year’s pleasant king,
Then blooms each thing, then maids dance in a ring,
Cold doth not sting, the pretty birds do sing:
Cuckoo, jug-jug, pu-we, to-witta-woo!..."
Thomas Nashe (1567 - 1601), Spring, the sweet spring

🎨 Vanessa Bowman é uma artista Britânica contemporânea de estilo naif que nasceu em 1970

terça-feira, 3 de março de 2026

Shifting baseline syndrome key to growing nature disconnect


Not long ago, summer in the Pacific Northwest felt seasonal. Campfires were the norm, free from bans and fears of sparking catastrophic blazes. Windshield fluid had to be replenished after a long road trip — especially on rural highways or backcountry roads. We were lucky to get a week or two of hot weather.

Now, with drought alerts, heat and fire warnings and eerily fewer insects buzzing around the road, summer feels terminal. Many of us are old enough to be amazed at how quickly “normal” environmental conditions can change. Many of us are young enough to have never known anything different.

This latter inability to recognize the true scope of environmental change is a widespread phenomenon, called “shifting baseline syndrome.” Shifting baseline syndrome is “a socio-psychological phenomenon in which historical environmental information is lost over time and people do not notice changes in biological systems.” This concept was first coined by Daniel Pauly, a marine biologist at the University of British Columbia. In 1995, he observed that fisheries scientists evaluated changes in fish stock size and composition using the quantities at the beginning of their careers as a reference. With the next generation of fishers, fish stocks typically declined. However, each generation of scientists saw this degraded state as the new baseline, as there was, and still is, a lack of knowledge transfer between fishers. Without the passage of knowledge of environmental conditions, understanding of the magnitude of environmental change is lost. This ultimately shifts the condition’s “baseline,” which continues with each generation.

Shifting baseline syndrome is mainly linked to a lack of experience, memory and knowledge of historic conditions, typically caused by a lack of intergenerational communication about past environmental conditions and historical information. Studies have shown that older generations more readily recall accurate past environmental conditions compared to younger generations, indicating a “generational amnesia.” This gap between generations is happening through three avenues: lack of awareness or difficulties in accessing historical environmental data, lack of familiarity and knowledge of natural history and declining interactions between people and the environment. This last avenue is partly caused by increased urbanization, with fewer opportunities to interact with the environment, and partly because people are more inclined to go on social media or the internet instead of spending time in nature.

Why does it matter? 
Shifting baseline syndrome is increasingly recognized as a significant barrier to implementing policies and actions that could address some of today’s environmental challenges, because we misinterpret the scale and impact of change over time. When more experienced, older fishers fail to share their expertise and stories, newer fishers often accept the present ecosystem state without question. This can lead to less-effective measures being taken to address collapsing fish stocks because the resource decline was not recognized. This tolerance of degraded environments is one of many consequences of shifting baseline syndrome. When society gets used to a degraded environment as the baseline, further degradation will not be seen as something to be concerned about. With this generational amnesia and society’s decreasing contact with nature, we may see inappropriate conservation, restoration and management targets by policy-makers and stakeholders, and pushback against necessary conservation and restoration efforts. Even more concerning is the loss of public support for conservation measures such as the establishment of terrestrial and marine protected areas, which would go some way to halting environmental loss.

Shifting baseline syndrome is difficult to combat because it acts as an accelerating feedback loop. Trying to reduce its effects would take four strategies, suggested by researchers. The most direct action would be environmental restoration, specifically through rewilding efforts. As environmental degradation accelerates, this is of utmost importance to protect biodiversity. Second is to gather more high quality and consistent environmental data. This gives future researchers and scientists an actual, holistic baseline and makes them more informed regarding environmental conservation efforts they partake in. Furthermore, the broader public should be encouraged to increase interactions with nature to gain a better understanding and relationship with the environment. Finally, through public education, we can increase people’s familiarity with nature while also providing more accurate information on historic and current environmental conditions. Indigenous knowledge is crucial to limiting the syndrome’s effects, as it pushes forward the lived experiences of communities that recognize historic baseline conditions. In this way, sharing Indigenous knowledge is a remedy against generational amnesia.

Shifting baseline syndrome has been fuelled by the lack of connection that people have with one another and between people and the environment. In the article “Integrating historical sources for long-term ecological knowledge and biodiversity conservation,” the researchers highlight the value of historical data sources for providing a baseline for species and ecosystem change over time. Since beginning this initiative, we have pored over historical images and maps and read accounts of voyages from the 1800s describing vast schools of dolphins and porpoises playing about ships and a sea that abounds with fish. How much we have lost! Over the month of March, we will compare historical records with present-day imagery and historical storytelling to represent generational change. We hope that through our exploration of shifting baseline syndrome, we can encourage communities to reflect on changes they’ve observed and encourage action and advocacy for increased environmental protection, so that we can begin to halt biodiversity decline.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis - John Muir

Parque Natural do Alvão
John Muir: o profeta da natureza
John Muir (1838–1914) foi o catalisador que mudou a percepção do mundo ocidental sobre a vida selvagem, movendo-a da exploração utilitária para a veneração espiritual.

"Wilderness is a necessity... there must be places for human beings to satisfy their souls." – John Muir

John Muir, frequentemente aclamado como o "Pai dos Parques Nacionais", foi uma das figuras mais influentes na formação da consciência ecológica moderna. O seu pensamento não era apenas uma teoria académica, mas uma filosofia vivida, profundamente enraizada numa visão espiritual e holística da natureza. Para Muir, o mundo natural não era um recurso a ser explorado, mas um templo sagrado onde a humanidade poderia encontrar renovação e verdade.

O panteísmo naturalista
No cerne da filosofia de Muir reside a convicção de que Deus e a Natureza são indissociáveis. Influenciado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, Muir via em cada glaciar, árvore ou tempestade uma manifestação direta do divino. Ele rejeitava a visão antropocêntrica — a ideia de que a Terra existe apenas para servir o Homem — e argumentava que todas as espécies possuem um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a civilização.

Preservacionismo vs. Conservacionismo
Muir é o principal rosto do preservacionismo. Esta postura diferenciava-o de contemporâneos como Gifford Pinchot, que defendia o "conservacionismo" (a gestão eficiente dos recursos naturais para uso humano). Enquanto Pinchot olhava para as florestas como madeira em potencial, Muir via-as como essenciais para a saúde espiritual e psicológica da humanidade. Para ele, a natureza selvagem (wilderness) deveria ser mantida intacta, protegida de qualquer intervenção comercial.

Pontos-Chave do Pensamento de Muir
  1. Interconectividade: Muir antecipou conceitos da ecologia moderna ao afirmar que, quando tentamos isolar algo na natureza, descobrimos que está "preso a tudo o resto no Universo".
  2. A Natureza como terapia: Ele acreditava fervorosamente que o contacto com o mundo selvagem era a cura para os males do materialismo industrial, descrevendo a ida para as montanhas como um "regresso a casa".
  3. Ativismo político: A sua filosofia traduziu-se em ação direta, resultando na fundação do Sierra Club e na criação de parques icónicos como Yosemite, Mount Rainier  e Sequoia.
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e demasiado civilizadas, estão a começar a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa; que a vida selvagem é uma necessidade." — John Muir

A herança de Muir continua viva hoje, servindo de base para o movimento ambientalista global e para a compreensão de que a preservação do planeta é, em última análise, a preservação da nossa própria essência.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sobre este Inverno chuvoso - não aprendemos nada com as ideias de Gonçalo Ribeiro Telles


Este comboio de tempestades não é único. Muitas destas tempestades em sucessão são alimentadas por rios atmosféricos. São faixas estreitas de humidade tropical concentrada que atravessam o Atlântico. Quando o "corredor" se abre em direção à Península Ibérica, as tempestades seguem esse rasto como se estivessem em carris. Tudo depende de um "braço de ferro" de pressão entre os Açores e a Islândia. Quando esta oscilação está numa determinada fase, o jet stream (uma corrente de ar a grande altitude) empurra todas as tempestades diretamente para nós, em vez de as desviar para o Reino Unido ou Escandinávia. Antigamente não dávamos nomes às tempestades (como Joseph, Leonardo e Kristin), o que dava a ideia de que era apenas "um inverno chuvoso". Hoje, ao darmos nomes individuais a cada depressão, temos muito mais consciência de quantas estão a passar por nós seguidas. A perceção de excecionalidade resulta, em grande parte, da forma como os fenómenos recentes são lembrados. A nossa memória meteorológica é curta e estamos mais marcados pelos episódios de secas severas que têm sido a marca dos últimos ano. 𝐃𝐞𝐯𝐢́𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐯𝐞𝐧𝐭𝐢𝐯𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬. Aprender a não voltar a repetir a tragédia de 1967 (25 para 26 de novembro) em que choveu num só dia o equivalente a um quinto de todo o ano. A região da Grande Lisboa e do Vale do Tejo foi devastada. O regime de Salazar tentou "abafar" a dimensão da tragédia. Oficialmente falou-se em cerca de 460 mortos, mas estimativas reais apontam para mais de 700 vítimas.
𝐆𝐨𝐧𝐜̧𝐚𝐥𝐨 𝐑𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐓𝐞𝐥𝐥𝐞𝐬 𝐚𝐥𝐞𝐫𝐭𝐨𝐮-𝐧𝐨𝐬 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐯𝐢𝐭𝐚𝐫 𝐝𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐡𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞𝐬 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐬𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬. 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐯𝐢𝐦𝐨𝐬. 𝐈𝐧𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐦𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐫𝐮𝐢𝐫 𝐞𝐦 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐜𝐡𝐞𝐢𝐚, 𝐞𝐧𝐭𝐮𝐛𝐚𝐫 𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐞 𝐫𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐞 𝐚 𝐩𝐚𝐯𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚𝐬𝐟𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐞 𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨.
𝐎 𝐂𝐨𝐫𝐫𝐞𝐝𝐨𝐫 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐧𝐬𝐚𝐧𝐭𝐨, 𝐞𝐦 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐞𝐱𝐞𝐦𝐩𝐥𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚𝐝𝐢𝐠𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐨: 𝐝𝐞𝐦𝐨𝐫𝐨𝐮 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟑𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢́𝐝𝐨 𝐞𝐱𝐚𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐥𝐞 𝐭𝐞𝐯𝐞 𝐝𝐞 𝐥𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐢𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐭𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 "𝐞𝐬𝐜𝐨𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨" 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Gaia e Nossa Conexão Cósmica


“Que nosso tempo seja lembrado pelo despertar de um nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”.

Esta frase emblemática encerra o preâmbulo da Carta da Terra, um documento fundamental que apela a uma nova consciência global, apelando ao respeito pela diversidade, sustentabilidade ecológica, justiça social e uma cultura de paz. Este apelo visa transformar a sociedade em direcção a um futuro mais justo e sustentável.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Educação Ambiental em risco desde 1 de janeiro


A Direção-Geral da Administração Escolar determinou a cessação abrupta da mobilidade de professores colocados em ONGA, ao abrigo de protocolos com a APA, obrigando ao seu regresso imediato às escolas de origem - apesar de estas mobilidades estarem aprovadas até agosto de 2026.

A medida afeta diretamente três docentes (ASPEA, OIKOS e PATO), mas compromete uma rede nacional de Educação Ambiental, com projetos em curso, financiamentos aprovados, atividades já calendarizadas com escolas, municípios e parceiros europeus.

O impacto desta decisão na falta de professores nas escolas é insignificante, mas o prejuízo para a Educação Ambiental é enorme e imediato.

Perante a ausência de esclarecimentos e diálogo, as ONGA avançaram com uma providência cautelar para suspender os efeitos da decisão.

Exigimos transparência, razoabilidade e a regularização do processo! A Educação Ambiental não pode continuar a ser desprezada. Mais do que nunca, é essencial defendê-la como política pública estratégica e não como uma variável descartável.

Oito organizações não-governamentais sobre ambiente (ONGA) vão avançar com uma providência cautelar para suspender a decisão do Governo de fazer regressar às escolas de origem os professores ao serviço da Agência Portuguesa do Ambiente.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Liberdade não se canta: vive-se!


A Liberdade é Acção  
"Os pássaros domesticados cantam sobre a liberdade. Pássaros selvagens voam." - John Lennon

Introdução
Esta breve citação encerra uma reflexão profunda sobre a forma como compreendemos e praticamos a liberdade. No seu aparente contraste simples — cantar versus voar — está implícita uma crítica poderosa aos discursos que exaltam a liberdade sem a concretizar. Este pensamento é particularmente pertinente quando analisado à luz da educação, da ecologia e da sociedade contemporânea.

Educação: ensinar a cantar ou aprender a voar?
Grande parte dos sistemas educativos afirma formar cidadãos críticos, autónomos e livres. Contudo, na prática, muitos continuam assentes em modelos de padronização, obediência e reprodução de conteúdos. Neste contexto, os estudantes tornam‑se “pássaros domesticados”: aprendem o vocabulário da liberdade, do pensamento crítico e da cidadania, mas raramente dispõem de espaço real para questionar, experimentar ou errar.

Uma educação verdadeiramente emancipadora não se limita a falar de autonomia — cria condições para que ela seja vivida. Voar, aqui, significa permitir escolhas, fomentar a curiosidade, aceitar a diversidade de percursos e reconhecer o erro como parte essencial da aprendizagem. Como defendia Paulo Freire, não há educação neutra: ou ela domestica, ou liberta.

Ecologia: discursos verdes em gaiolas douradas
No campo da ecologia, a metáfora de Lennon ganha uma força ainda mais evidente. Nunca se falou tanto de sustentabilidade, biodiversidade e proteção ambiental. No entanto, a degradação dos ecossistemas continua a acelerar. Multiplicam‑se os discursos “verdes”, mas persistem práticas económicas e políticas que mantêm a natureza confinada a uma lógica de exploração.

Cantar sobre a liberdade da natureza traduz‑se em campanhas, relatórios e compromissos internacionais; permitir que os pássaros voem implica respeitar os limites ecológicos do planeta, restaurar ecossistemas e aceitar que nem tudo pode — ou deve — ser controlado.

Uma ecologia autêntica não é apenas declarativa. É prática, ética e relacional. Reconhece que a natureza não precisa apenas de proteção, mas de autonomia funcional.

Sociedade contemporânea: a ilusão da liberdade
Vivemos numa sociedade que se apresenta como livre, aberta e plural. Contudo, muitos dos nossos comportamentos são moldados por algoritmos, padrões de consumo, pressões sociais e medo da exclusão. Fala‑se muito de liberdade de escolha, mas as escolhas são frequentemente condicionadas.

Os “pássaros domesticados” da contemporaneidade repetem discursos de liberdade enquanto permanecem presos a rotinas e expectativas impostas. Já os “pássaros selvagens” são aqueles que ousam questionar, desacelerar, resistir à normalização e viver com coerência entre valores e ações.

Voar, neste contexto, implica responsabilidade, consciência crítica e, muitas vezes, desconforto.

Conclusão: da retórica à prática
A citação de John Lennon lembra‑nos que a liberdade não se esgota na palavra. É uma experiência vivida, construída diariamente nas escolhas individuais e colectivas.

Na educação, na ecologia e na sociedade, o desafio é o mesmo: deixar de apenas cantar sobre a liberdade e criar condições reais para que ela exista. Porque, no fim, não é o canto que transforma o mundo — é o voo.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A mística e a educação ambiental na conservação da natureza


A mística e a educação ambiental na conservação da natureza

Resumo
A crise socioambiental contemporânea evidencia os limites de abordagens exclusivamente técnico-científicas na conservação da natureza. Neste contexto, a mística — entendida como uma experiência profunda de conexão, sentido e transcendência na relação ser humano–natureza — emerge como um elemento relevante para a educação ambiental. Este ensaio analisa o papel da mística na educação ambiental e sua contribuição para a conservação da natureza, defendendo que dimensões simbólicas, éticas, espirituais e afetivas são fundamentais para promover mudanças duradouras de valores, atitudes e práticas socioambientais.

Palavras-chave: mística; educação ambiental; conservação da natureza; ética ambiental; espiritualidade ecológica.

1. Introdução
A degradação ambiental, a perda de biodiversidade e as alterações climáticas colocam desafios complexos à humanidade. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, observa-se uma persistente distância entre o conhecimento ambiental e a transformação efetiva dos comportamentos sociais. Tal cenário tem levado educadores e investigadores a questionar modelos de educação ambiental centrados apenas na transmissão de informação e no racionalismo instrumental.

Neste contexto, a mística surge como uma dimensão frequentemente marginalizada no campo académico, mas historicamente presente nas relações humanas com a natureza. Diferentes culturas, tradições espirituais e movimentos sociais reconhecem a experiência mística como fonte de sentido, compromisso ético e cuidado com o mundo natural. Este ensaio propõe reflectir sobre a articulação entre mística, educação ambiental e conservação da natureza, argumentando que a integração desta dimensão pode fortalecer processos educativos mais críticos, transformadores e emancipatórios.

2. Compreendendo a mística no contexto socioambiental
A mística pode ser compreendida como uma experiência de profundidade existencial caracterizada pela sensação de unidade, interconexão e pertença a uma totalidade maior. No contexto ambiental, essa experiência manifesta-se na relação sensível e ética com a natureza, percebida não apenas como recurso, mas como comunidade de vida.

Diferentemente de uma abordagem estritamente religiosa, a mística ecológica pode assumir formas laicas, interculturais e plurais. Ela expressa-se no encantamento diante da biodiversidade, no silêncio contemplativo, no cuidado com os ecossistemas e na reverência pela vida. Autores da ecologia profunda e da ética ambiental defendem que tal experiência é essencial para superar a lógica utilitarista que sustenta a crise ecológica.

Assim, a mística não se opõe à ciência, mas complementa-a, oferecendo uma base simbólica e afetiva para a construção de valores ecológicos e de uma ética do cuidado.

3. Educação ambiental: limites e possibilidades
A educação ambiental consolidou-se como um campo interdisciplinar voltado para a formação de sujeitos críticos e comprometidos com a sustentabilidade. No entanto, práticas educativas excessivamente normativas, informativas ou tecnocráticas tendem a produzir resultados limitados, sobretudo quando desconsideram as dimensões emocionais, culturais e espirituais dos educandos.

A incorporação da mística na educação ambiental amplia suas possibilidades pedagógicas, ao favorecer experiências vivenciais, sensoriais e reflexivas. Caminhadas interpretativas, atividades de imersão na natureza, narrativas simbólicas, arte, rituais ecológicos e momentos de silêncio são exemplos de práticas que podem despertar vínculos afetivos e sentido de responsabilidade ecológica.

Essa abordagem contribui para uma educação ambiental que não apenas informa, mas transforma, ao tocar dimensões profundas da subjetividade humana.

4. Mística e conservação da natureza
A conservação da natureza depende, em grande medida, de escolhas éticas e políticas fundamentadas em valores. A mística pode atuar como força mobilizadora, capaz de inspirar atitudes de respeito, cuidado e solidariedade interespécies. Comunidades tradicionais e povos indígenas, por exemplo, frequentemente articulam práticas de conservação a cosmovisões espirituais que reconhecem a sacralidade da natureza.

Ao integrar a mística à educação ambiental, promove-se uma mudança de paradigma: da dominação para a convivência, da exploração para o cuidado, da fragmentação para a interdependência. Tal mudança é crucial para sustentar estratégias de conservação que sejam socialmente justas, culturalmente sensíveis e ecologicamente eficazes.

5. Considerações finais
A mística, enquanto experiência de conexão profunda com a natureza, constitui um elemento potente para a educação ambiental e a conservação da natureza. Sua integração no campo educativo contribui para superar reducionismos racionalistas e fortalecer uma ética ecológica baseada no cuidado, na responsabilidade e na pertença à comunidade da vida.

Este ensaio defende que a educação ambiental deve reconhecer e valorizar a dimensão mística como parte legítima dos processos formativos, promovendo abordagens pedagógicas integradoras, críticas e sensíveis. Num contexto de crise civilizatória, a reconciliação entre conhecimento, sensibilidade e espiritualidade pode representar um caminho fecundo para a construção de sociedades mais sustentáveis.

Referências bibliográficas

domingo, 21 de dezembro de 2025

Santuário Cósmico


O santuário cósmico não é um lugar delimitado por paredes ou altares visíveis. Ele existe na totalidade do universo e manifesta-se sempre que o ser humano reconhece a sacralidade da vida. Cada estrela, cada organismo vivo, cada sopro de ar compõe este templo maior, onde tudo está interligado por relações de dependência, equilíbrio e mistério.

A cosmologia científica descreve a evolução do cosmos desde o Big Bang, a formação das galáxias, das estrelas e dos planetas, até ao surgimento da vida. Ao fazê-lo, mostra que somos feitos da mesma matéria primordial que deu origem às estrelas. Esta perceção reforça a ideia do santuário cósmico: não somos visitantes externos, mas expressão consciente de um processo cósmico em contínua transformação. O templo não está fora de nós; ele prolonga-se na nossa própria existência.

A cosmogonia, por sua vez, oferece narrativas simbólicas sobre a origem do mundo. Mitos de criação, tradições religiosas e saberes ancestrais não competem com a ciência, mas respondem a outras perguntas: porquê existimos, qual o nosso lugar, que valores devem orientar a vida. Essas narrativas transformam o cosmos em espaço de significado, onde cada elemento participa de uma história sagrada.

Pensar o cosmos como santuário é admitir que a natureza não é apenas recurso, mas presença. O solo que pisamos, a água que bebemos e a luz que nos aquece participam de uma ordem mais ampla, que nos antecede e nos transcende. Nesse sentido, cuidar da Terra torna-se um gesto espiritual: preservar é reverenciar, destruir é profanar.

O santuário cósmico também convida à humildade. Diante da imensidão do universo, o ser humano percebe a sua pequenez, mas também a sua responsabilidade. Somos parte do todo e, ao mesmo tempo, conscientes dele. Essa consciência transforma-se em ética: uma forma de estar no mundo baseada no respeito, na cooperação e na gratidão.

Por fim, reconhecer o cosmos como santuário é reconciliar ciência e espiritualidade. O conhecimento científico revela as leis e processos que sustentam a vida; a contemplação espiritual atribui sentido e valor a essa revelação. Juntas, elas apontam para uma visão integrada da existência, onde viver é, em si, um acto sagrado.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Clarice Lispector - Estado de Graça

Santuário Cósmico
"Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. E uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável."

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O Dia Internacional das Montanhas de 2025 destaca as comunidades e os ecossistemas das montanhas do mundo



O Dia Internacional das Montanhas é celebrado em todo o mundo anualmente em 11 de dezembro, e é um dia dedicado ao papel que as montanhas desempenham na manutenção da vida, da cultura e da biodiversidade. As montanhas ocupam aproximadamente 22% da área terrestre da Terra. e são o habitat natural de mais de 1.1 bilião de pessoas em todo o mundo. Elas oferecem rios, alimentos, energia e uma fonte de patrimônio cultural para as populações que vivem tanto em suas encostas quanto em áreas mais afastadas. Este Dia Internacional das Montanhas de 2025 é um momento para lembrar as comunidades de montanha e a natureza que delas dependem; portanto, o foco se volta para a necessidade de sua gestão sustentável para salvar essas áreas delicadas.

Ameaças aos ecossistemas de montanha
Ainda assim, os ecossistemas de montanha estão declinando de forma muito grave em várias partes do mundo. As mudanças climáticas aceleraram o derretimento das geleiras, elas estão recebendo chuvas em épocas nunca antes vistas e estão sofrendo deslizamentos de terra com mais frequência devido ao aquecimento global.

Corte de madeira, extração de minerais e atividades turísticas descontroladas. São exemplos de intervenções humanas que tornam o local ainda mais perigoso para os moradores dessas áreas. fauna e flora da montanha Essas regiões são particularmente vulneráveis, visto que um grande número de espécies está aclimatado a pouquíssimas condições climáticas. É de suma importância que protejamos esses ecossistemas para garantir o abastecimento contínuo de água e o equilíbrio ecológico para milhões de pessoas que vivem rio abaixo.

Comunidades de montanha: a vida em lugares altos
As montanhas não são meramente formações naturais; elas também abrigam civilizações e meios de subsistência distintos. Normalmente, comunidades indígenas e rurais Eles se dedicam à agricultura, à pecuária e ao turismo como fontes de renda. No entanto, estão na linha de frente para sofrer os impactos negativos das mudanças ambientais.[Fonte]

Neste dia, os eventos e projetos giram principalmente em torno do tema de equipar os habitantes com os meios de sobrevivência através da implementação de práticas ecologicamente corretas e do uso de energia renovávele a oferta de educação.

Aumentar a Conscientização e a Ação
O Dia Internacional das Montanhas de 2025 é uma oportunidade para aumentar a conscientização e agir em prol da conservação e do desenvolvimento sustentável de áreas de alta altitude. Muitas organizações promovem a data realizando workshops, organizando mutirões de limpeza comunitários, fornecendo informações educativas e patrocinando atividades de aventura para conectar as pessoas a essas paisagens majestosas. Este dia promove a colaboração global e o apoio mútuo para ajudar a garantir a prosperidade das montanhas. comunidades montanhosas e ecossistemas saudáveis.

Ao celebrarmos este dia, lembramos da importância das montanhas para a vida, a cultura e a regulação do clima da Terra, e que, ao protegê-las, podemos ajudar a garantir que as pessoas e os ecossistemas prosperem nas montanhas do mundo para as gerações futuras.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dia Internacional dos Direitos Humanos e Dia Internacional dos Direitos dos Animais


O astronauta da NASA Ron Garan, que passou 178 dias no espaço, afirma que a humanidade está “vivendo uma mentira” após ver, com os próprios olhos, a fragilidade da Terra e vivenciar o profundo Efeito Perspectiva (Overview Effect).

Ao observar o planeta da órbita, Garan percebeu como nossas prioridades estão invertidas: colocamos a economia em primeiro lugar e o planeta por último, mesmo sabendo que a fina atmosfera da Terra é a única barreira que protege toda a vida. Para ele, a verdadeira ordem de importância deveria ser: Planeta → Sociedade → Economia, já que sem uma Terra saudável, nem as pessoas nem os sistemas conseguem sobreviver.

Ele descreve a “mentira” como a ilusão da separação — a falsa crença de que somos divididos por nações, políticas ou identidades. Na realidade, segundo Garan, somos uma única família humana compartilhando um lar frágil. Sua mensagem é um apelo urgente por união, consciência e sustentabilidade, antes que seja tarde demais.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Chuva que somos

Chuva que somos
"A chuva cai
como quem devolve ao mundo
a memória do que é simples.
Não molha a terra —
acorda-a.
E cada gota, ao tocar o solo,
faz o planeta respirar mais fundo,
como se dissesse:
“Estou vivo contigo.”
Há um silêncio verde
que cresce entre as raízes,
um pensamento que não é meu
nem de ninguém,
porque a Natureza pensa sem palavras.
Vejo a chuva cair nos campos,
e percebo que não há fronteiras
entre o que sou
e aquilo que se renova.
Sou apenas mais um corpo húmido,
uma pele que o mundo toca
para me lembrar
que pertenço.
E então sinto —
sem querer sentir —
que tudo é suficiente:
a terra que bebe,
o ar que se perfuma,
o chão que se entrega
sem nunca pedir.
A chuva é a mestra mais antiga:
ensina caindo,
e ensina sempre
a mesma lição.
Que viver é deixar-se molhar
pelo que vem do céu
e regressa ao chão
para começar de novo."