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sábado, 26 de setembro de 2026

Uma espécie de cartel. Donos da inteligência artificial estão a usar o medo para fechar o mercado



Estão a meio de uma das competições mais agressivas da história do desenvolvimento tecnológico, mas mesmo assim foram capazes de concordar. Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, vieram a público admitir que o avanço descontrolado da Inteligência Artificial de fronteira (IA) acarreta riscos reais e exige um abrandamento concertado no ritmo de desenvolvimento. Um alinhamento quase sem precedentes entre os três maiores rivais de Silicon Valley, mas que, para os especialistas em cibersegurança ouvidos pela CNN Portugal, esconde motivações bem mais pragmáticas e calculadas do que um súbito despertar de consciência.

"Olho para isto como uma espécie de tentativa de colocar um muro à entrada de novos players. Com esta regulação, os pequenos concorrentes não têm capacidade de capital para conseguir estar ao alcance destes grandes grupos. No fundo, é tentar fazer uma espécie de cartel", resume Vítor Hugo Silva, especialista em cibersegurança, mestre em Segurança da Informação e arquiteto de cibersegurança da Galp.

Ao contrário dos alertas dos líderes destas empresas, que apontaram para o perigo iminente de os sistemas ultrapassarem as salvaguardas humanas e exigirem travões de emergência, os especialistas descartam essa ideia quase cinematográfica de uma IA a ganhar consciência, a contornar os criadores e a ameaçar fugir ao controlo dos humanos. Longe dos cenários de ficção científica, os documentos internos e relatórios de segurança apontam para um problema bem mais antigo: uma nova ferramenta que acelera o desenvolvimento tecnológico que, ao mesmo tempo, pode ser explorada para o crime.

Quando a Anthropic publicou um relatório a avaliar se os seus modelos poderiam ajudar na criação de armas biológicas, o alarme soou de imediato. Mas, na verdade, não houve qualquer algoritmo a tentar produzir vírus de forma autónoma, nem planos terroristas explícitos, mas sim utilizadores e cientistas a explorar a capacidade computacional do modelo para recolher dados sensíveis. Tratou-se de um problema clássico das tecnologias de duplo uso, onde a mesma informação que acelera o desenvolvimento de uma vacina pode, nas mãos erradas, ser desviada para conceber ameaças biológicas.

"O que existia naquela investigação era um potencial de duplo uso: a moeda que tem duas faces, o mal e o bem. A tecnologia sempre foi assim", explica Vítor Hugo Silva, para quem a insistência no mito da "máquina rebelde" apenas desvia as atenções da verdadeira falibilidade técnica destes sistemas. "Estes modelos são modelos probabilísticos. Há sempre uma chance de fazer alguma coisa que não era suposto. Não é intencional, é mesmo probabilidade, só isso".

O perigo mais próximo, defende o especialista, não é o de um ataque autónomo de um modelo de IA, mas sim o de uma precipitação humana em transferir poder de decisão para sistemas estatísticos sem a devida validação. Ao contrário da automação tradicional, como os pilotos automáticos da aviação comercial, desenhados para responder de forma determinística e previsível a regras muito restritas, os grandes modelos de linguagem operam sob lógicas probabilísticas, gerando respostas que parecem coerentes, mas que comportam sempre uma margem inevitável de erro e alucinação.

Para os especialistas, confiar cegamente nestes sistemas para gerir infraestruturas críticas, como redes elétricas, abastecimento de água ou refinarias, pode resultar em erros demasiado graves. Mesmo quando a probabilidade é baixa. "Temos de estar preocupados, não propriamente com a tecnologia em si, mas com a forma como se tem usado a tecnologia. Tem sempre duas faces na mesma moeda, para o bem e para o mal. Não focava muito na questão do controlo, porque estamos sempre no controlo. Nós é que temos de ter os pés na terra, perceber quais são as potencialidades da ferramenta e definir grades de segurança", afirma Bernardo Forbes Costa, especialista em Inteligência Artificial e professor na Nova School of Business and Economics.

Para os especialistas, este continua mesmo a ser o principal perigo, com utilizadores com más intenções a conseguir utilizar estas ferramentas para causar danos de larga escala. É por isso que Bernardo Forbes Costa olha para a proposta de Dario Amodei, que defendeu a criação de um sistema de fiscalização e auditorias permanentes, capaz de ditar o ritmo de treino e de lançamento dos modelos mais avançados, como algo que obedece mais às regras de mercado do que a questões éticas.

"Vamos supor, num cenário catastrófico máximo, que efetivamente um grupo terrorista consegue desenvolver um vírus que gera uma crise pandémica global ao estilo da Covid, e descobre-se que foi através de um modelo da Anthropic ou da OpenAI. Isso é uma sentença de morte para uma empresa. Não é só algo perfeitamente altruísta e responsável; há sempre também uma preocupação económica em última instância", nota Bernardo Forbes Costa.

Os especialistas apontam também para um outro motivo financeiro que pode estar a levar a uma mudança na postura destas empresas tecnológicas. A fatura da corrida aos modelos de fronteira tornou-se demasiado grande face ao atual retorno comercial. De acordo com projeções financeiras públicas da OpenAI, a criadora do ChatGPT estimava prejuízos na ordem dos 5 mil milhões de dólares para 2024, apesar de receitas de cerca de 3,7 mil milhões, absorvendo faturas de computação que crescem a ritmos difíceis de sustentar. No mesmo sentido, gigantes do capital de risco como a Sequoia Capital chegaram a alertar para um "buraco de 600 mil milhões de dólares" entre aquilo que a indústria gasta em infraestrutura, com centros de dados, eletricidade e processadores gráficos da Nvidia, e as receitas reais que o ecossistema de inteligência artificial consegue gerar no mercado.

"Há aqui uma questão económica que não se consegue ignorar: até que ponto os incrementos dos modelos em termos de eficiência já não são lineares àquilo que é o investimento? Para tornar o modelo duas vezes melhor, eu tenho de gastar quatro vezes mais, por exemplo. Estamos a chegar a um plateau, a um achatamento da curva em termos de eficiência. Os limites da física começam a pregar partidas pelo tamanho dos transístores", explica Vítor Hugo Silva.

Em vez de criar legislação que trave o progresso tecnológico e que sirva apenas para salvar as contas das principais empresas do setor, a resposta para garantir uma maior segurança destes modelos pode passar por uma abordagem segmentada. Para Bernardo Forbes Costa, a regulação deve focar-se na forma como a tecnologia chega ao público, com uma arquitetura segmentada em níveis de acesso. Nesta solução, as empresas ofereceriam modelos de linguagem "mais libertos de resguardas de segurança para a investigação, para governos, para instâncias militares e outros modelos menos capazes para o uso civil". Ao mesmo tempo isso poderia permitir que "novos modelos continuem a ser desenvolvidos", mas que não sejam necessariamente lançados ao público. "Uma coisa é o desenvolvimento do modelo, outra coisa é a sua comercialização", defende.

Os especialistas alertam também para o facto de os países ocidentais correrem o risco de ficar para trás face à concorrência tecnológica de países com menos restrições éticas. Particularmente por parte do maior rival geopolítico norte-americano, a China, que tem focado os seus esforços em copiar e aperfeiçoar modelos de baixo custo.

O próprio relatório da Anthropic apontou o dedo a laboratórios chineses que tentaram replicar as capacidades dos modelos Claude através desse método, evitando gastar milhares de milhões de dólares e os anos de investigação que sustentaram o seu desenvolvimento. Vários laboratórios em Pequim e Hangzhou, como a DeepSeek ou a Alibaba com a Qwen, conseguiram colocar modelos de código aberto no topo dos benchmarks mundiais recorrendo a modelos ocidentais como "professores" para treinar arquiteturas muito mais compactas e baratas.

"O que a China tende a fazer no fundo é o que se chama destilação de modelos. Agarram num modelo de topo e tentam, de certa forma, copiá-lo. A única coisa de que preciso e o meu constrangimento passa a ser a necessidade de ter uma boa máquina", alerta Bernardo Forbes Costa.

Quase fora desta corrida está a Europa. Segundo os dados do relatório AI Index 2026, da Universidade de Stanford, em 2025, dos modelos de IA notáveis produzidos no mundo, 59 tiveram origem nos Estados Unidos e 35 na China. Em toda a Europa, somaram-se apenas dois. O fosso repete-se na capacidade instalada e na propriedade intelectual, com 5.427 centros de dados nos Estados Unidos, dez vezes o registado em qualquer outro país. O fosso de infraestrutura é ainda mais gritante: o continente europeu não tem um único grande fornecedor de computação em nuvem e depende quase a 100% de semicondutores e servidores norte-americanos.

"Estamos em maus lençóis a esse nível, porque tudo o que é inteligência artificial de ponta, na vanguarda, é tudo americano e chinês. Não temos quase nada na Europa", adverte o professor da Nova SBE

Saber mais:
1. Sequoia Capital. (2024). AI's $600B Question. Sequoia Capital Research

domingo, 23 de agosto de 2026

Resíduos de painéis solares podem chegar a 402 milhões de toneladas até 2060


A rápida expansão da energia solar está a criar um novo desafio ambiental: o destino dos painéis fotovoltaicos quando chegam ao fim da sua vida útil. Um estudo internacional publicado na revista Nature estima que o volume global de resíduos de painéis solares poderá atingir entre 297 e 402 milhões de toneladas até 2060.

A investigação, que envolve investigadores da China, Austrália e Suécia, incluindo Jian Zuo, professor da Adelaide University, alerta, contudo, que esta crescente quantidade de resíduos pode transformar-se numa oportunidade económica. Segundo os autores, a reciclagem adequada dos painéis fotovoltaicos poderá gerar benefícios económicos acumulados de centenas de milhares de milhões de dólares até 2060, podendo atingir valores próximos de um bilião de dólares.

“A energia solar é essencial para a transição para um sistema energético de baixo carbono, mas não podemos ignorar o que acontece aos painéis solares no final da sua vida útil”, afirma Jian Zuo. Para o investigador, é necessário começar desde já a planear a reciclagem, de forma a transformar o fluxo crescente de resíduos numa fonte de materiais, em vez de num problema ambiental.

Os painéis solares contêm materiais com valor económico, como silício, prata, cobre e telúrio. Incluem também metais como chumbo e cádmio, que podem representar riscos ambientais caso os equipamentos sejam eliminados de forma inadequada.

Para avaliar as diferentes possibilidades, os investigadores desenvolveram um modelo integrado que analisou 1708 cenários de reciclagem em 32 regiões do mundo, considerando tecnologias disponíveis, preços dos materiais, comércio internacional e políticas de subsídios.

Os resultados indicam que a combinação de tecnologias de reciclagem adaptadas a cada região com o recurso a instalações de reciclagem externas poderá proporcionar os maiores benefícios económicos e ambientais. Esta abordagem permitiria reduzir custos e emissões, sobretudo através do encaminhamento dos resíduos para países com tecnologias de reciclagem mais avançadas e economicamente competitivas.

A solução levanta, contudo, uma questão de equidade. A concentração da reciclagem nas regiões com maior capacidade tecnológica poderá fazer com que os benefícios económicos fiquem igualmente concentrados, deixando países de menores rendimentos com uma parcela reduzida dos ganhos.

“A via de reciclagem mais barata ou eficiente a nível global não é necessariamente a mais justa”, alerta o investigador, defendendo que as políticas de reciclagem devem ter em conta não apenas a eficiência económica, mas também a distribuição dos benefícios e dos impactos ambientais.

O estudo aponta para a possibilidade de recorrer a subsídios decrescentes, que seriam reduzidos progressivamente à medida que a reciclagem se tornasse economicamente viável. Segundo os investigadores, este modelo poderia melhorar a distribuição dos benefícios entre regiões e exigir menos investimento do que a manutenção de subsídios permanentes.

O valor dos materiais recuperados será também determinante. Uma subida dos preços de matérias-primas como a prata, o alumínio e o silício poderá aumentar a rentabilidade da reciclagem, enquanto a evolução tecnológica deverá contribuir para reduzir os custos dos processos.

Para os investigadores, a cooperação internacional será essencial para preparar o setor para o aumento dos resíduos fotovoltaicos. “Precisamos de encarar os painéis solares como parte de uma economia circular, e não como um produto descartável”, defende Jian Zuo.

A conclusão surge num momento em que a indústria fotovoltaica ainda tem oportunidade de criar capacidade de reciclagem antes de o volume de equipamentos em fim de vida atingir o seu pico. Para os autores, antecipar esse investimento será fundamental para evitar que a transição para a energia solar crie um novo problema de resíduos à escala global e para garantir que os materiais dos painéis possam voltar ao ciclo produtivo.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Governo chinês antecipa o fim do Windows e adopta sistemas operativos locais


A China está a acelerar a remoção do Windows dos sistemas governamentais. O Ministério da Segurança do Estado ordenou a várias organizações estatais que desinstalem uma versão personalizada do Windows 10 vários meses antes do previsto. De acordo com o site TechSpot, esta decisão aproxima do fim a tentativa da Microsoft de criar um ecossistema de software desenhado especificamente para Pequim.

O fim de uma parceria estratégica
A C&M Information Technologies (CMIT), a empresa responsável pelo desenvolvimento deste sistema operativo especial, tinha planeado retirar o software de circulação apenas em Fevereiro de 2027. Esta edição governamental do Windows 10 chegou ao mercado em 2017, fruto de uma parceria entre a Microsoft e a estatal China Electronics Technology Group Corporation.

O sistema baseava-se na versão Enterprise, mas sem funcionalidades consideradas desnecessárias pelas autoridades, como o OneDrive. Além disso, dava ao governo controlo total sobre a telemetria e as actualizações, oferecendo ainda suporte para algoritmos de encriptação locais. Pessoas próximas do processo indicam que esta antecipação se deve a preocupações com a segurança de dados, embora não tenham sido identificadas vulnerabilidades específicas. A Microsoft já fez saber que desconhece qualquer incidente de segurança e que o produto continua a receber actualizações regulares.

A transição para alternativas nacionais
Esta directiva surge num momento em que Pequim intensifica a sua campanha para substituir hardware e software estrangeiro por alternativas domésticas. Em vez do produto da Microsoft, os funcionários públicos chineses vão passar a utilizar sistemas operativos da Kylin Software e da Tongxin Software Technology, na sua maioria baseados em Linux.

A necessidade de manter documentos confidenciais protegidos levou o governo chinês a implementar regras rigorosas de compras públicas em 2023. Estas normas exigem processadores e sistemas operativos “seguros e fiáveis”, o que resultou na exclusão gradual de chips da Intel e AMD, bem como de bases de dados estrangeiras.

O impacto na presença da Microsoft
A versão personalizada do Windows nunca conseguiu a adopção que a gigante tecnológica norte-americana desejava. Uma análise recente a guias de compras governamentais mostrou que a esmagadora maioria já não recomendava o software da Microsoft, preferindo soluções de código aberto apoiadas pelo Estado, como o openKylin.

Como resultado destas políticas, a presença da empresa na China tem vindo a diminuir, com o encerramento de pelo menos quinze escritórios e parcerias nos últimos cinco anos. Ainda assim, a tecnológica mantém-se no país a vender serviços de inteligência artificial e cloud a empresas locais com operações internacionais.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O fim do "mandato elétrico" de Trump, o domínio da China e o petróleo iraniano: o triângulo geopolítico da energia

Donald Trump voltou a criticar os carros elétricos, chamando recentemente os seus condutores de "doentes" e "loucos". O presidente dos Estados Unidos da América referiu-se à chamada "ansiedade de autonomia".

No ano passado, Donald Trump acabou com os incentivos fiscais à aquisição de carros elétricos nos Estados Unidos da América, começando a desviar a eletrificação do panorama automóvel do país.

Num recente discurso em Las Vegas, transmitido pela NBC News, o presidente norte-americano começou por falar do fim do chamado "mandato elétrico": "A esquerda radical quer banir uma coisa chamada gasolina. Temos 100 anos de gasolina e é o que as pessoas preferem. Eu terminei com o mandato elétrico. Não quero falar sobre isto porque o Elon [Musk] não ficou propriamente emocionado comigo, mas tive de o fazer. Terminei porque dizia que, num período de tempo muito curto - 2030 - todos teriam de ter um carro elétrico apesar de não haver forma de o carregar".

Importa salientar que o "mandato elétrico" a que Donald Trump se referiu trata-se do conjunto de medidas da administração de Joe Biden para fomentar a adoção de veículos eletrificados - sem, no entanto, impor qualquer obrigação de comprar este tipo de automóveis.

Seguiram-se, então, as críticas aos condutores de carros elétricos, em particular por causa da ansiedade de autonomia: "Já viram os sinais de estar a conduzir um carro elétrico? Eles são doentes, é uma doença. As pessoas estão a conduzir e percebem que a bateria está a ficar com pouca carga, e começam a pensar nisso. Tem três quartos da carga, perde um bocado. Perguntam para onde estão a ir, estão a conduzir na autoestrada e veem uma estação de carregamento com uma seta de 143 km à direita. Estas pessoas são loucas".

A ansiedade de autonomia é o fenómeno de ficar apreensivo com a possível insuficiência de carga para chegar a um determinado destino, não havendo como recarregar entretanto. Mas têm vindo a surgir mais postos de carregamento (ainda que a um ritmo não uniforme). Nos EUA, ainda não há uma disponibilidade tão generalizada fora dos centros urbanos. Ainda assim, a capacidade das próprias baterias tem aumentado, permitindo percorrer mais quilómetros.

Sobre o tema, Donald Trump referiu ainda: "Eu gosto de carros elétricos, vendemos sete por cento [de carros elétricos] apesar de todos os impostos e tudo o que cedemos. Sete por cento. Mas a questão é que temos mais petróleo e gasolina do que qualquer outro país do mundo".

1. Nunca existiu um "mandato elétrico e Trump volta a falar para o seu eleitorado mais conservador, republicano, nacionalista e MAGA
Este discurso de Donald Trump insere-se numa estratégia política, económica e ideológica contínua que reflete as prioridades centrais da sua administração para o setor energético e industrial. A narrativa em torno do alegado fim do "mandato elétrico" é, na sua essência, um exercício de comunicação política que contrapõe a retórica à realidade legislativa do país. Embora a administração afirme ter acabado com uma imposição federal que obrigaria todos os americanos a adquirir carros elétricos, a verdade é que nunca existiu uma lei com esse teor nos Estados Unidos. Durante o mandato de Joe Biden, o quadro regulatório assentava, antes, na definição de metas rigorosas de emissões por parte da U.S. Environmental Protection Agency (EPA) e na atribuição de incentivos fiscais - como o crédito de 7.500 dólares previsto na legislação do Internal Revenue Service (IRS) - desenhados para estimular a produção e a renovação da frota automóvel. Ao revogar estes incentivos, flexibilizar as exigências ambientais e contestar judicialmente as normas estaduais mais estritas, como as impostas pela California Air Resources Board (CARB), a administração procura redefinir os rumos do mercado automóvel nacional.

Esta posição apoia-se diretamente na defesa intransigente das indústrias tradicionais de petróleo e gás através da bandeira popularizada como "Drill, Baby, Drill". O programa económico prioritário sustenta que a transição forçada para as energias renováveis encarece os custos energéticos e fragiliza a competitividade global da indústria americana. Ao destacar que os Estados Unidos possuem reservas substanciais e "combustível para mais de cem anos", conforme reportado por órgãos como a NBC News e documentado pela U.S. Energy Information Administration (EIA), procura-se mobilizar diretamente a classe trabalhadora ligada à extração energética e ao fabrico de motores de combustão interna no ecossistema industrial norte-americano.

Paralelamente, o discurso explora de forma calculada os receios pragmáticos do eleitorado, recorrendo à sátira em torno da chamada "ansiedade de autonomia". Ao ridicularizar as preocupações com o carregamento das baterias, a retórica liga-se ao ceticismo dos cidadãos que residem no interior do país, onde a infraestrutura de carregadores rápidos gerida pelo Federal Highway Administration (FHWA) ainda apresenta descontinuidade e desafios logísticos. Esta abordagem tira partido das limitações reais vivenciadas na fase inicial de adoção da tecnologia - como os tempos de espera e a disponibilidade de postos de carregamento - para colocar em causa a viabilidade geral da eletrificação de massas.

No plano empresarial e institucional, a postura da administração reflete uma relação complexa e cheia de ambiguidades com a indústria automóvel. Se, por um lado, existe uma proximidade e alinhamento público com líderes da inovação como Elon Musk e a Tesla no plano do empreendedorismo privado, por outro, mantém-se uma recusa perentória em conceder subsídios estatais que beneficiem o setor. Esta orientação responde de perto aos apelos dos construtores tradicionais de Detroit, como a Ford e a General Motors, que têm enfrentado pressões significativas sobre as suas margens de lucro e uma desaceleração no crescimento da procura por veículos 100% elétricos, optando por reorientar os seus investimentos estratégicos para soluções híbridas.

Por fim, o tema do tipo de automóvel transformou-se num vetor central da "guerra cultural" que divide a política americana contemporânea. Conforme analisam diversos estudos publicados por centros de investigação como o Pew Research Center, os veículos elétricos tornaram-se símbolos associados às elites urbanas e às agendas progressistas de transição ecológica, enquanto os motores a combustão continuam a ser defendidos como um baluarte da liberdade individual, da autossuficiência e da identidade cultural do interior dos Estados Unidos.

2. Geopolítica da mobilidade: o triângulo estratégico entre a transição energética da China, o petróleo iraniano e a segurança nacional
Para compreender como o discurso sobre o fim do "mandato elétrico" nos EUA se cruza com a geopolítica do Irão e o domínio industrial da China, é preciso analisar a convergência entre a indústria automóvel, a produção de energia e a segurança nacional.

A China consolidou a sua posição como a líder incontestável no mercado global de veículos elétricos. Empresas chinesas como a BYD e a gigante de baterias CATL não só dominam a produção de veículos, como controlam quase 80% do processamento mundial dos minerais críticos essenciais para esta tecnologia, como o lítio e o cobalto. De acordo com relatórios da Agência Internacional de Energia (AIE), a aposta massiva de Pequim na eletrificação automóvel visou dois objetivos principais: liderar a próxima revolução industrial e reduzir a dependência nacional do petróleo importado do Médio Oriente.

É neste ponto que entra a ligação ao Irão. Como maior importador de crude do mundo, a China compra volumes significativos de petróleo iraniano - frequentemente transacionados fora dos circuitos bancários ocidentais devido às sanções impostas pela U.S. Department of the Treasury. Para a estratégia de Pequim, transitar a sua frota interna para energia elétrica significa enfraquecer a sua vulnerabilidade a eventuais bloqueios no Estreito de Ormuz, a rota marítima vital do Médio Oriente por onde circula grande parte do petróleo mundial.

Por outro lado, a perspetiva expressa em intervenções públicas como as da NBC News reflete uma abordagem oposta da política norte-americana. Ao rejeitar os subsídios e as metas de emissões associadas aos veículos elétricos, a narrativa de "dominância energética" argumenta que acelerar a transição ecológica forçada exporia os EUA a uma dependência crítica das cadeias de fornecimento chinesas. Em alternativa, defende-se o aumento da produção de crude nacional através do  U.S. Energy Information Administration (EIA), utilizando as vastas reservas americanas de combustíveis fósseis para estabilizar os preços e contrariar o impacto económico de crises geopolíticas no Médio Oriente.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A Guerra da IA e o Mito da Missão: Por que os engenheiros escolhem o dinheiro às custas da ideologia

Anthropic CEO Dario Amodei weighed in on where the AI race is headed in a new essay [2024]

A recente polémica gerada por fugas de informação sobre Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, veio desmantelar a ideia romantizada da "missão ética" no mundo da Inteligência Artificial. Quando se soube do descontentamento do executivo com novos funcionários motivados por salários astronómicos - e não pela causa da segurança tecnológica -, a internet não perdoou. A notícia foi avançada pela AXIOS AI's talent wars have a loyalty problem. Uma fonte familiarizada com o assunto disse ao Axios que o CEO da Anthropic, Dario Amodei, expressou preocupação com a chegada de novos talentos à empresa motivados pelo salário em vez da missão . Como noticiado pelas reações irónicas ao caso de Dario Amodei, choveram piadas nas redes sociais. Afinal, ver um líder multimilionário parecer chocado com o facto de as pessoas trabalharem a troco de dinheiro gerou tiradas inevitáveis como "Última hora: CEO descobre que os trabalhadores pagam as contas em dólares e não com a missão da empresa". Analistas do setor, como o engenheiro Gergely Orosz, foram diretos à ferida: a Anthropic é das empresas que mais inflaciona os salários para desviar talentos da Google ou da Meta. Se o objetivo era testar a devoção ideológica dos candidatos, bastava pagar abaixo da média do mercado e ver quem sobrava.

No fundo, esta tensão salarial é apenas o sintoma visível de algo muito maior. No relatório oficial da tecnológica sobre a sua posição relativamente aos modelos de pesos abertos (open-weights), o próprio Dario Amodei deixa claro que a corrida à IA se tornou uma questão de soberania e segurança nacional contra potências como a China. É esta pressão geopolítica que força as grandes empresas a disputar os melhores cérebros do mundo a qualquer custo, criando um fosso gigante entre os discursos públicos dos executivos e os bastidores do mercado.

Esta batalha pelo futuro da tecnologia dividiu as figuras de topo do setor em duas filosofias opostas:

De um lado, os líderes norte-americanos dividem-se entre o controlo e a abertura.
  1. Dario Amodei (CEO da Anthropic) defende modelos fechados para travar a espionagem e o contrabando de chips;
  2. Sam Altman (CEO da OpenAI) continua a puxar pela escala gigante e proprietária, pagando pacotes milionários para reter a equipa;
  3. Mark Zuckerberg (CEO da Meta) aposta as fichas todas no código aberto com o Llama para travar o monopólio dos concorrentes; e
  4. Jensen Huang (CEO da Nvidia) incentiva o ecossistema aberto, garantindo que a procura por semicondutores continua em alta.
Do outro lado, a resposta da China tem sido fulminante.
  1. Liang Wenfeng (Fundador da DeepSeek) chocou Silicon Valley ao provar que é possível criar modelos de topo com uma fração do orçamento americano;
  2. Yang Zhilin (CEO da Moonshot AI) destaca-se na corrida aos modelos capazes de processar volumes massivos de texto;
  3. Zhang Peng (CEO da Zhipu AI) lidera a aposta na autonomia tecnológica chinesa;
  4. Eddie Wu (CEO do Alibaba Group) massificou a distribuição da família aberta Qwen;
  5. Liang Rubo (CEO da ByteDance) acelerou a integração da IA nas aplicações de consumo;
  6. Robin Li (CEO do Baidu) mantém a aposta no ecossistema proprietário ERNIE; e
  7. Pony Ma (CEO da Tencent) canalizou o modelo Hunyuan para a máquina do WeChat.
As piadas que dominaram a internet revelam uma verdade desconfortável para os executivos de Silicon Valley: a Inteligência Artificial já não é um debate filosófico sobre salvar o mundo. Tornou-se o centro de uma guerra económica implacável onde o altruísmo serve para o discurso de imprensa, mas é a riqueza geracional que decide quem ganha a corrida aos melhores engenheiros. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Europa: estamos preparados para o fim de vida de 1 milhão de baterias?


Mais de um milhão de baterias de veículos elétricos (VE) poderão atingir o fim da vida útil até 2030, tornando-se num dos “fluxos de resíduos com crescimento mais rápido” a nível mundial.

As vendas globais de VE dispararam nos últimos anos, ultrapassaram os 20 milhões de unidades e já representam cerca de 25 por cento de todos os carros novos vendidos no mundo. O boom dos VE foi também impulsionado pela guerra contra o Irão, que continua a fazer disparar os preços do petróleo e do gás.

Na verdade, mais de 1,24 milhões de carros totalmente elétricos foram vendidos na Europa no primeiro semestre de 2026, o que representa um aumento de 33,7 por cento face ao mesmo período do ano passado.

Veículos elétricos são mais ecológicos do que carros a gasolina?
Os VE começam frequentemente com uma “dívida de carbono” mais elevada do que os carros a gasolina e a gasóleo, porque exigem muito mais energia para serem fabricados.

Muito disso deve-se à produção das baterias, que necessita de enormes quantidades de eletricidade para gerar o calor requerido durante a fabricação. Embora essa eletricidade possa ser produzida a partir de renováveis, muitos países continuam a depender da queima de combustíveis fósseis poluentes.

Minerais como lítio, cobalto e níquel, necessários nas baterias de VE, levantam também preocupações ambientais e sociais.

Um relatório de 2023 da Amnistia Internacional concluiu que a exploração de minerais críticos deu origem a uma série de violações de direitos humanos, incluindo despejos forçados e agressões físicas.

Embora a mineração moderna continue a ser controversa, a investigação mostra que os benefícios ambientais dos VE superam o impacto da sua produção intensiva em energia.

Um relatório de 2020 da organização Transport & Environment (T&E) concluiu que os VE têm melhor desempenho do que os carros a gasóleo e a gasolina em todos os cenários, mesmo em redes elétricas intensivas em carbono, como a da Polónia, onde são cerca de 30 por cento mais limpos do que os carros convencionais.

No melhor cenário, em que um VE é alimentado por eletricidade limpa e a bateria é produzida com eletricidade limpa, os veículos elétricos já são cerca de cinco vezes mais limpos do que os equivalentes convencionais.

“Fundamentalmente, os dados mostram que os VE alimentados com a eletricidade média amortizam a sua ‘dívida de carbono’ decorrente da produção da bateria ao fim de pouco mais de um ano e poupam mais de 27 toneladas de CO₂ ao longo da sua vida útil, em comparação com um equivalente convencional”, lê-se no relatório.

“Os VE que fazem quilometragens elevadas (por exemplo, veículos partilhados, táxis ou serviços tipo Uber) poupam até 77 toneladas ao longo da sua vida útil (em comparação com veículos a gasóleo).”

Resíduos de baterias de VE tornam-se preocupação crescente
Grande parte dos VE é alimentada por baterias de iões de lítio (LIB), do mesmo tipo que se encontra em muitos equipamentos eletrónicos do dia a dia, como smartphones, computadores portáteis e consolas de jogos.

Mas, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o número de baterias de iões de lítio e similares que chegam ao fim da vida útil deverá aumentar acentuadamente a partir de meados da década de 2030. É nessa altura que a bateria já não consegue armazenar ou fornecer energia de forma eficaz, porque se degradou ao longo do tempo.

Isso significa que cerca de 1,2 milhões de baterias de VE poderão tornar-se resíduos nos próximos quatro anos. Em 2040, prevê-se que esse número chegue aos 14 milhões.

Em simultâneo, a procura de baterias de iões de lítio está a aumentar, o que intensifica a pressão para extrair minerais críticos e aumenta o risco de uma futura escassez de lítio.

Embora as baterias de VE possam ser recicladas, fazê-lo é notoriamente difícil e dispendioso. Antes de uma bateria poder sequer iniciar o processo de reciclagem, tem de passar por uma fase de preparação demorada, que implica a descarga, desmontagem e separação dos seus componentes.

Existem também riscos de segurança associados às reações químicas usadas na reciclagem das baterias, que podem libertar substâncias tóxicas como o ácido fluorídrico. Estes compostos representam riscos graves para a saúde e segurança dos trabalhadores e podem mesmo danificar os equipamentos das unidades de reciclagem.

Por isso, especialistas defendem uma “expansão significativa” das infraestruturas de reciclagem, capaz de gerir os volumes de resíduos futuros e recuperar, em segurança, os materiais valiosos necessários à produção de novas baterias.

“Os VE são uma parte essencial da transição para uma economia de baixo carbono, mas o seu sucesso a longo prazo depende da forma como gerimos, de forma eficaz, o fluxo de resíduos associado, reforçando ao mesmo tempo o abastecimento de minerais críticos”, afirma James Skifmore, da consultora ambiental Valpak.

“Ampliar a capacidade e a eficiência das infraestruturas circulares será fundamental para recuperar materiais valiosos, reforçar as cadeias de abastecimento, reduzir a dependência da extração de recursos virgens e maximizar a sustentabilidade a longo prazo da transição para os VE.”

Em toda a Europa, empresas estão a correr para alcançar precisamente isso.

Podem as baterias de VE ser recicladas de forma mais eficiente?
O projeto ReLiB, liderado pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido, está a desenvolver tecnologias de reciclagem que, afirma, irão colocar o país na “linha da frente” da investigação e desenvolvimento.

Os investigadores pretendem desenvolver e ampliar tecnologias que elevem as taxas de recuperação de materiais das baterias recicladas de cerca de 50 para 90 por cento, apostando em processos de desmontagem e separação mais rápidos e eficientes.

A União Europeia financiou também um projeto de quatro anos, coordenado pelo Centro Tecnológico LEITAT, em Espanha, que visa substituir a desmontagem manual e lenta por sistemas semiautomatizados capazes de desmantelar as baterias em segurança, recuperando cerca de 95 por cento dos componentes.

O projeto BATRAW, financiado pela UE, irá igualmente trabalhar na atribuição de uma segunda vida às baterias, já que algumas baterias de VE podem deixar de ter capacidade suficiente para alimentar um carro, mas continuar aptas para funções de armazenamento de energia menos exigentes, em vez de serem imediatamente recicladas.

O projeto está a desenvolver formas mais seguras de transportar baterias antigas e a explorar como as novas baterias podem ser concebidas para serem mais fáceis de reparar e reciclar.

China morde os calcanhares dos EUA na corrida à IA. "A questão é quanto tempo é que esta liderança se vai manter"

A estratégia está longe de ser de agora. Começou há duas décadas e está a dar cada vez mais frutos. Só no último mês, multiplicaram-se as notícias de que a China ocupa o lugar cimeiro numa série de setores de Investigação & Desenvolvimento, da produção de chips avançados ao registo de patentes, da exploração espacial à matemática.

O desenvolvimento científico e tecnológico tem sido de tal forma que, numa sondagem do Pew Research publicada no mês passado, um número recorde de norte-americanos considerou que o líder global em Inteligência Artificial (IA) é a China e não os EUA, com mais de um terço dos inquiridos a considerar isso mesmo, contra apenas 12% que consideram que são os Estados Unidos quem vai à frente nessa corrida. Esta perceção, contudo, não corresponde à realidade, ressalta Bernardo Forbes Costa, professor da Nova School of Business and Economics especializado em ciência de dados e IA.

“Temos de ser claros: ao dia de hoje, a dominância no que toca à Inteligência Artificial reside nos Estados Unidos, o líder mundial são os EUA, em particular os laboratórios da Anthropic e da OpenAI, isso é claro para toda a gente”, garante o especialista. “A questão é quanto tempo é que isto vai durar e se realmente essa liderança se vai manter ao longo do tempo ou se vai haver dispersão", contrapõe. "Acho que há dinâmicas nesse sentido e há, sem dúvida, uma corrida a acontecer.”

A corrida está a ser tão frenética e a liderança dos EUA está tão ameaçada que, no espaço de uma semana, o The Guardian dedicou dois longos artigos ao assunto, referindo num primeiro momento a “dor de cabeça para Silicon Valley” enquanto a China “reduz a vantagem em relação aos EUA na corrida à IA” e, dias depois, como o debate sobre o futuro da IA está a “dividir Silicon Valley à medida que a China ganha terreno”.

Trump mostra decreto a lançar a Iniciativa IA, integrada num plano de ação de 5 mil milhões de dólares focado na desregulação do setor e no investimento em infraestruturas; ao mesmo tempo, está em curso um debate interno na administração norte-americana sobre os riscos associados a essa desregulação. 

“Se nós pensarmos no que gera valor para um país, temos três fatores – tecnologia, trabalho e capital - e quando falamos de IA, estamos a falar da primeira componente enquanto multiplicadora das outras duas”, explica Forbes Costa. “Quem tem maior acesso ao mesmo nível de capital e trabalho, e acesso a uma maior capacidade de tecnologia, tem um multiplicador maior e as suas economias irão crescer. É, sem dúvida, uma vantagem competitiva gigantesca - e o que a China fez foi dizer ‘OK, vamos competir, vamos tentar destronar os EUA e os laboratórios que estão na fronteira’, apostando no custo e na eficiência, fornecendo alternativas muito baratas ou praticamente gratuitas, modelos baratos e eficazes, para criar pressão competitiva nestes laboratórios e, por conseguinte, na economia americana, enquanto nos EUA a estratégia foi ‘vamos tentar ter o melhor modelo pelo preço mais caro’.”

Com ecos de estratégias passadas, em que a China conseguiu, em pouco tempo, tornar-se competitiva produzindo o mesmo que o Ocidente mas com custos mais baixos, a rota rumo à dominância em Inteligência Artificial está a começar a dar frutos. E os EUA estão preocupados. Há poucos dias, o Axios noticiou em exclusivo “a batalha secreta da administração Trump para combater a IA chinesa”, com base em “sinais” vindos do governo federal de que “poderá banir os modelos chineses de IA de ponta – uma medida de grande impacto que poderá consolidar o domínio da OpenAI e da Anthropic”.

Também esta intenção não é uma novidade, tendo em conta os esforços da administração Trump ao longo de 2025 para limitar ou proibir o acesso de laboratórios de IA chineses ao mercado norte-americano. De acordo com fontes ao Axios, no ano passado o Departamento do Comércio considerou incluir esses laboratórios na sua “Lista de Entidades”, uma medida que, na prática, bloquearia o acesso dos EUA aos mesmos sem uma licença, e a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o gabinete do Diretor Nacional de Cibernética da Casa Branca também ponderaram emitir um alerta sobre as ameaças que estes laboratórios chineses representam, na prática desencorajando as empresas norte-americanas de utilizarem tecnologias norte-americanas.

Nada disso chegou a acontecer até dezembro, mas meio ano depois os esforços ganharam novo fôlego perante o lançamento do modelo Kimi 3 pela chinesa Moonshot IA há duas semanas. O modelo gerou uma tal procura que, em poucos dias, a empresa teve de suspender novos registos, fazendo deflagrar novas preocupações entre alguns funcionários do governo Trump e um choque destes com outros mais pró-competitividade.

“Autoridades governamentais ansiosas por evitar que as regulamentações sufoquem a inovação puseram a fim a todos estes esforços [mas] vozes importantes como a do ex-conselheiro da Casa Branca Siriam Krishnan abandonaram entretanto os seus cargos, e os defensores de uma postura mais conservadora em relação à segurança nacional tornaram-se mais incisivos”, escreve o portal de notícias. “Com esta mudança de pessoal – juntamente com a ascensão de empresas tecnológicas chinesas mais poderosas e novos receios em relação à cibersegurança – o movimento de proibição está novamente a ganhar força.”

Fonte aberta: benefícios vs. riscos
Estes esforços serviram de pano de fundo à carta aberta que uma série de tecnológicas norte-americanas, com a Microsoft à cabeça, publicaram no final de julho a defender a necessidade de ter uma IA de código aberto. Apenas a Anthropic não subscreveu a missiva. E mesmo dentro dos laboratórios há quem não concorde com a posição . caso de Dean W. Ball, diretor de futuros estratégicos na OpenAI, que recorreu à X para argumentar que abraçar a chamada IA de open-weights só iria beneficiar a China e conduzir ao “comunismo pleno da IA”.

“É interessante ver empresas, nomeadamente americanas, a apoiar esta posição”, refere Bernardo Forbes Costa. “Esta discussão sobre open-weight não é nova nem exclusiva da IA, sendo a premissa a de que, se a ciência, por exemplo, for aberta, e estiver disponível para todos, isso promove o desenvolvimento científico e gera valor para a sociedade como um todo”, adianta, dando como exemplo as vacinas contra a Covid-19, que envolveu um “esforço aberto a nível mundial para colaborar e partilhar patentes”, tornando mais rápido o acesso à inoculação.

Enquanto especialista em IA e ciência de dados, Forbes Costa ressalta que esta aposta “não iria beneficiar só a China, mas também as empresas privadas, como a NVIDIA, a IBM, a Microsoft, em primeiro lugar porque vendem infraestrutura, ou seja, o modelo existe e é acessível, mas é preciso computação – havendo mais necessidade de modelos de IA, há mais necessidade de infraestrutura e de computação, o que faz com que estas empresas ganhem com isso”.

O laboratório norte-americano da Anthropic, que lidera a corrida da IA juntamente com a OpenAI, foi a única que não subscreveu a carta aberta divulgada em julho, na qual as tecnológicas pedem que se evite a "sobrerregulação" do setor e se aposte em modelos de fonte aberta. 

Mas isso, assume o especialista, acarreta os seus riscos, o que, em parte, explica a posição da equipa de Trump. “Se tivermos uma administração que é agressiva, se calhar mais nacionalista, que é mais protecionista daquilo que são os interesse americanos, e sendo este um fator determinante para o mercado económico global, vai ser uma prioridade e vamos ter uma abordagem mais protecionista destes fatores tecnológicos, pelo que não me surpreende que seja essa a postura.”

«Ainda assim, Forbes Costa contrapõe que existem formas de proteger os interesses fomentando a IA open-weight, porque “não temos necessariamente de disponibilizar tudo, nem de pôr de lado a vantagem competitiva das empresas americanas, podemos simplesmente ter quase como se fossem vários níveis de abertura com suficiente capacidade mas cientes dos riscos que pode ter para a sociedade”, argumenta. “É tal qual como termos uma fórmula química altamente aberta, com certeza haverá malfeitores que irão usar essa fórmula para criar armas químicas, neste caso cometer crimes com os modelos em particular. E portanto o que é preciso é regular.”

Aqui entra na equação a União Europeia que, sendo “uma região francamente muito pobre em termos de progresso tecnológico no que toca à IA”, não só teria a ganhar com tecnologia de fonte aberta, como já tem regulação implementada para acautelar potenciais riscos. Este domingo entrou em funcionamento uma unidade da Comissão Europeia criada há dois anos para reforçar ainda mais a regulação do setor, com um arsenal de poderes regulatórios destinados a supervisionar as ações de gigantes da IA, como as norte-americanas OpenAI e Anthropic, mas também das suas concorrentes chinesas, como a Moonshot e a Deepseek.

As frentes de batalha da administração Trump
A partir de agora, se os reguladores da UE não aprovarem determinadas ações das tecnológicas, terão o poder de aplicar multas e até mesmo bani-las do mercado comum, no âmbito do chamado AI Act, que Forbes Costa considera como “um conjunto de regulamentações muito exigente e sem cooperação total com o que se pratica nos EUA” – mas que tem levado a crescentes pressões da administração Trump sobre a UE para desregulamentar o setor.

“É preciso dar o devido valor à UE por ser organizada, por ter tido esta iniciativa de garantir que, sim, o processo existe, mas há gestão do seu impacto na sociedade, isso é excecional e realmente mostra que os valores europeus são fortes e benéficos para todos”, ressalta o especialista português. “Mas há aqui esta outra questão da competitividade que é preciso ter em conta, porque a cautela tem um custo – se realmente vivemos num mercado global em que todos temos acesso a uma ferramenta que existe, e que no caso foi feita nos EUA, o facto de irmos devagar ou com mais cautela prejudica-nos”.

Da mesma forma, também tem havido pressões vindas do outro lado do Atlântico para negociar com os EUA em detrimento da China, apesar de os chineses fornecerem alternativas igualmente boas mas mais baratas numa série de setores, como o dos carros elétricos – só em Portugal há seis marcas chinesas a circular, como ressalta Forbes Costa.

Há um ano, quando o governo português e a chinesa CALB anunciaram um enorme investimento em Sines para construir uma fábrica de baterias de lítio, Daniel S. Hamilton, do Diálogo Transatlântico sobre Comércio, Tecnologia e Segurança, já tinha ressaltado à CNN Portugal que “cada lado [EUA e UE] aborda a China a partir de uma posição estratégica diferente, com instrumentos e prioridades diferentes”. E isso também se aplica à IA.

Fontes dizem à Reuters que EUA e China vão discutir Inteligência Artificial antes da cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping, marcada para 24 de setembro na Casa Branca; os detalhes desse encontro técnico ainda não são conhecidos.

Há duas semanas, cinco fontes com conhecimento das políticas da administração disseram à Reuters que os EUA e a China vão realizar conversações sobre IA em setembro, antes de uma antecipada cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping na Casa Branca marcada para o dia 24 do mesmo mês. “À medida que as superpotências procuram formas de mitigar os riscos representados pelos modelos de fronteira – cada vez mais poderosos – desenvolvidos por ambos os lados”, refere a agência, “Pequim e Washington estão a avaliar como regular modelos avançados de IA que poderiam fortalecer as capacidades militares, viabilizar ataques cibernéticos a infraestruturas críticas e perturbar os mercados de trabalho”.

Quatro das cinco fontes dizem que este encontro vai ser liderado por Scott Bessent, o secretário norte-americano do Tesouro, com outras três a referirem que nada está ainda decidido - nem as identidades dos restantes participantes de ambos os lados, nem a agenda ou o local onde as conversas terão lugar. Questionado sobre o que Trump pretende debater com Xi na cimeira de finais de setembro após um encontro com o seu homólogo chinês na semana passada, o secretário de Estado de Trump escusou-se a adiantar informações, dizendo apenas que o objetivo é definir potenciais áreas de cooperação.

“O trabalho que precisamos de fazer agora, em setembro, é identificar quais são essas áreas, para que possamos lançar as bases para uma visita muito positiva, falámos muito sobre isso”, disse Marco Rubio aos jornalistas à saída da reunião com Wang Yi. “Há áreas de grandes divergências. Ambos os lados reconhecerão isso. Teremos de trabalhar nestas questões, e penso que essas diferenças existirão num futuro próximo. Obviamente defenderemos sempre os nossos interesse nacionais, e antecipo que eles façam o mesmo, da forma que os definem, mas penso que existem algumas áreas de potencial cooperação.”

Os media estatais chineses e os comentadores têm pintado a cimeira Trump-Xi de setembro como fruto dos receios dos EUA de que a China venha a ganhar vantagem na corrida global da IA. E com Pequim a morder-lhe os calcanhares, Washington está empenhado em fazer de tudo para manter a pole position na corrida mais importante e frenética desta era. A questão é que nada garante que vá continuar ao leme.

“Havendo esta iniciativa de openweight, de disseminação da tecnologia, mais depressa esta vantagem competitiva dos laboratórios norte-americanos se pode espremer e ficar cada vez mais reduzida, porque havendo mais modelos abertos e esse conhecimento gratuito acessível a todos, mais depressa a China pode convergir”, ressalta Bernardo Forbes Costa. “É por isso que a carta aberta, subscrita por algumas empresas, como a OpenAI, quase que de forma silenciosa, é tão interessante - e as medidas que a administração Trump está a ponderar surgem quase como uma contramedida face à disponibilização destes modelos de fonte aberta”.

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domingo, 2 de agosto de 2026

Cientistas descobrem DNA misterioso: dois antepassados desconhecidos no genoma humano

A calote craniana encontrada no vale de Salkhit, no leste da Mongólia, pertenceu a uma mulher que viveu há cerca de 34.000 anos. Institut für Archäologie, Mongolische Akademie der Wissenschaften

Investigadores da conceituada University of California, em Berkeley, fizeram uma descoberta impressionante: identificaram segmentos de ADN no genoma dos humanos atuais, que provêm de antepassados até agora desconhecidos. Os cientistas falam de “antepassados fantasma”, porque destas populações humanas extintas nada se sabe por enquanto.

Hoje, o Homo sapiens é a única espécie humana ainda existente. No passado distante, porém, partilhava o planeta com numerosas outras linhagens de hominídeos.

Estudos anteriores já tinham mostrado que os humanos modernos se cruzaram com neandertais e com os chamados humanos de Denisova, gerando descendentes comuns. Muitos indivíduos conservam ainda hoje, no seu genoma, vestígios genéticos desses encontros. Agora, um novo estudo sugere que terão existido pelo menos mais dois grupos humanos desconhecidos, que também transmitiram ADN aos nossos antepassados.

Um destes antepassados até agora desconhecidos cruzou-se há mais de 50.000 anos, em África, com os antepassados dos humanos modernos, antes da última grande vaga migratória de Homo sapiens para a Europa e a Ásia. Os genes herdados nessa altura representam hoje cerca de 1% do genoma de todas as pessoas – aproximadamente a mesma proporção da componente neandertal do ADN.

Segundo os cálculos dos investigadores, esta enigmática linhagem humana terá divergido da linha evolutiva que conduziu ao humano moderno há cerca de 800.000 anos – aproximadamente na mesma altura em que também neandertais e humanos de Denisova se separaram entre si.

“Estudos anteriores já tinham sugerido a existência de uma chamada descendência fantasma – ou seja, vestígios genéticos de linhagens humanas desconhecidas e extintas no genoma dos humanos modernos”, explica a doutoranda de Berkeley Yulin Zhang, uma das primeiras autoras do estudo. “Até agora, porém, não se sabia se essa descendência desconhecida ocorria apenas em africanos, nem quando terá acontecido essa mistura. Conseguimos agora identificar e cartografar os segmentos de ADN correspondentes no genoma de humanos modernos e demonstrar que esta descendência fantasma está presente em todas as populações atuais – não apenas em africanos.”

Linha temporal: 1,8 milhões de anos
Ainda mais enigmático é o segundo antepassado, que os investigadores descrevem como “super-arcaico”. A sua linhagem humana ter-se-á separado das restantes há cerca de 1,8 milhões de anos. Há mais de 200.000 anos, terá provavelmente cruzado, na Eurásia, com os humanos de Denisova – e foi por essa via indireta que fragmentos desse ADN ancestral acabaram por entrar no genoma do humano moderno.

“O registo deste antepassado super-arcaico é particularmente intrigante, porque revela contribuições genéticas de uma linhagem humana que viveu há mais de um milhão de anos – apesar de, até agora, não existir qualquer ADN desta população decifrado”, afirmou Arjun Biddanda, pós-doutorando na Johns Hopkins University e um dos primeiros autores do estudo.

“Graças ao ADN antigo de neandertais e de humanos de Denisova, bem como a novos métodos genealógicos, estamos a perceber cada vez melhor que, ao longo da evolução, as populações humanas se misturaram repetidamente”, afirmou Priya Moorjani, professora de Biologia Molecular e Celular na University of California, em Berkeley. “A evolução humana assemelha-se, por isso, menos a uma árvore genealógica ramificada e mais a uma rede complexa, em que diferentes populações ficaram ligadas entre si através de sucessivas migrações e misturas.”

Diferença entre ADN neandertal e de Denisova
Atualmente, a maioria das pessoas fora de África possui cerca de 1% a 2% de ADN neandertal no seu genoma. Em média, entre 1% e 2% do genoma de europeus e asiáticos atuais provém de neandertais. Esse é o resultado de cruzamentos entre neandertais e primeiros humanos modernos há cerca de 50.000 a 60.000 anos, pouco depois de Homo sapiens ter saído de África.

Os segmentos de ADN herdados continuam a influenciar os humanos atuais. Algumas variantes estão associadas à resposta imunitária, às características da pele e do cabelo ou à adaptação a condições ambientais. Outras aumentam o risco de determinadas doenças ou influenciam a reação a infeções.

Grupos populacionais na Ásia e na Oceânia têm, além do ADN neandertal, componentes genéticas dos humanos de Denisova. Restos de humanos de Denisova com ADN sequenciado foram sobretudo identificados na região da Eurásia:

Há cerca de seis anos, o estudo do genoma do mais antigo fóssil humano até agora descoberto na Mongólia permitiu novos avanços no conhecimento da história antiga da nossa espécie. Investigadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, e da Academia de Ciências da Mongólia mostraram que, nos restos com cerca de 34.000 anos de uma mulher, cerca de 25% do ADN tinha origem em antepassados da Eurásia ocidental. Além disso, a equipa encontrou no genoma dessa mulher – tal como no de um humano com cerca de 40.000 anos da China – traços de ADN de Denisova, a forma humana extinta que viveu na Ásia antes de ali chegarem os humanos modernos.

É igualmente significativo que neandertais e humanos de Denisova também se tenham cruzado entre si. Sabe-se, a partir de um fóssil da gruta de Denisova, na cordilheira de Altai, no sul da Sibéria, perto das fronteiras com o Cazaquistão, a Mongólia e a China, que se tratava de uma mulher com mãe neandertal e pai de Denisova – uma prova direta de que ambas as formas humanas tiveram descendência comum.

Quem eram exatamente este “antepassado fantasma” e o “antepassado super-arcaico” continua por esclarecer. Os momentos de divergência calculados ajustam-se, contudo, a formas humanas já conhecidas: os antepassados fantasma poderão ter pertencido a grupos de Homo do Médio Pleistocénico que viveram em África há cerca de 800.000 anos. O antepassado super-arcaico poderá ter sido idêntico, ou estreitamente aparentado, a Homo erectus, espécie que colonizou a Eurásia há cerca de 1,8 milhões de anos.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Por que razão Taiwan é o coração da IA mundial e o ponto mais crítico da geopolítica global?


Quando se fala na revolução da Inteligência Artificial (IA), a atenção recai habitualmente sobre os grandes algoritmos desenvolvidos em Silicon Valley, os supercomputadores de Elon Musk ou os apoios estatais em Pequim. Contudo, toda a arquitetura da economia digital moderna assenta fisicamente sobre uma ilha no Pacífico com cerca de 36 mil quilómetros quadrados: Taiwan.

A relevância de Taiwan ultrapassou a esfera do comércio tradicional para se converter no centro de gravidade da segurança nacional global, da transição energética e do futuro da computação.

O Monopólio da TSMC e o "Escudo de Silício"
A Nvidia desenha os processadores gráficos (GPUs) mais potentes do mundo e empresas como a xAI, a Meta e a OpenAI desenvolvem os modelos de IA, mas nenhuma destas entidades fabrica os seus próprios chips.

A produção física de mais de 90% dos semicondutores de ponta do planeta está concentrada numa única empresa taiwanesa: a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company).

Fundada em 1987 por Morris Chang, a TSMC popularizou o modelo de "fundição pura" (pure-play foundry), optando por fabricar os componentes concebidos por terceiros sem competir com eles no design. Esta especialização permitiu à empresa dominar as técnicas de litografia mais avançadas do mundo (nodos de 3nm e 2nm). Sem a precisão atómica das fábricas (fabs) em Hsinchu e Tainan, a produção de novos servidores de IA, processadores para smartphones e sistemas de navegação avançados pararia quase instantaneamente a nível global.

Esta concentração extrema deu origem ao conceito de "Escudo de Silício" (Silicon Shield): a teoria de que a dependência vital do Ocidente e da China em relação aos chips taiwaneses impede uma intervenção militar direta, uma vez que a destruição ou paralisação das infraestruturas da TSMC desencadearia um colapso económico global imediato.

O ponto de falha único na Guerra Fria Tecnológica
A posição geográfica e industrial de Taiwan transformou a ilha no principal ponto de fricção entre as duas maiores potências do mundo:
  1. A perspectiva dos EUA: em Washington, a dependência excessiva em relação à TSMC é encarada como o maior risco estratégico de segurança nacional. As administrações americanas têm pressionado a TSMC a diversificar a produção - construindo fábricas no Arizona e na Europa - enquanto impõem controlos de exportação para impedir que semicondutores avançados produzidos em Taiwan cheguem à China.
  2. A perspectiva da China: Pequim considera Taiwan uma província rebelde e defende a "reunificação" como prioridade nacional. Contudo, as sanções americanas que proíbem a venda de chips da Nvidia fabricados em Taiwan para o mercado chinês aceleraram a corrida de Pequim pela autossuficiência tecnológica, levando laboratórios chineses a apostar fortemente em modelos de IA de código aberto (open weights) para otimizar o hardware de que dispõem localmente.
O Impacto na economia real e na sustentabilidade
A relevância de Taiwan não se esgota no setor da defesa ou da tecnologia pura. Estudos de mercado sobre a transição sustentável - como as análises da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a Temasek - indicam que centenas de milhares de milhões de euros em ganhos de produtividade futura virão da aplicação de IA em redes elétricas inteligentes, manutenção preditiva e otimização industrial.

Toda esta transformação na economia real depende do fornecimento contínuo de novos chips. Caso a cadeia de abastecimento em Taiwan seja interrompida por um bloqueio naval ou conflito armado, os custos para a economia mundial seriam contados em biliões de dólares, afetando desde a produção automóvel à gestão energética global.

Referências Bibliográficas e Análises de Referência
Para aprofundar a análise sobre a centralidade de Taiwan no ecossistema global de semicondutores e geopolítica, destacam-se as seguintes obras e relatórios essenciais:

A obra de referência sobre a história da indústria dos semicondutores, detalhando como a TSMC e Taiwan se tornaram o ponto mais crítico da economia moderna.

2. Center for Strategic and International Studies (2024). Geopolitics and the Semiconductor Supply Chain. CSIS.
Análises estratégicas sobre o impacto de uma potencial crise no Estreito de Taiwan e a vulnerabilidade da infraestrutura tecnológica ocidental.

3. Boston Consulting Group & Semiconductor Industry Association (2021).Strengthening the Global Semiconductor Supply Chain in an Uncertain Era. BCG / SIA.
Estudo detalhado que mapeia os pontos de falha único (single points of failure) na cadeia de valor dos chips, com destaque para o monopólio de Taiwan na litografia de ponta.

4. TrendForce (2024). Global Semiconductor Foundry Market Share Analysis. TrendForce.
Relatórios de mercado que acompanham a quota de fabricação de semicondutores, demonstrando a liderança superior a 90% da TSMC no segmento de nós avançados para IA.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Rússia e China adotam “movimento dissimulado de apropriação territorial” no Ártico: “A Noruega tem soberania sobre Svalbard, ponto final”


Durante mais de duas décadas, um par de imponentes leões de granito ladeou a entrada de um edifício vermelho-ferrugem em pleno Círculo Polar Ártico. Já não é assim. No mês passado, desapareceram - e a sua ausência conta uma história sobre a geopolítica cada vez mais tensa no topo do mundo.

Os leões desaparecidos guardavam outrora uma estação de investigação operada pela China na colónia de Ny-Ålesund, em Svalbard, um arquipélago situado entre a Noruega continental e o Polo Norte. Em maio, foram removidos pela empresa estatal norueguesa que gere a colónia; em junho, a mesma empresa retirou uma placa do edifício onde se lia "Estação Rio Amarelo".

A iniciativa da Noruega é vista por alguns especialistas como parte de uma tentativa de reforçar a sua soberania sobre esta parcela do Ártico, face a mudanças geopolíticas e climáticas sísmicas.

A Gronelândia pode dominar as preocupações no Ártico - com o Presidente Donald Trump a tentar repetidamente reivindicá-la para os Estados Unidos, invocando a necessidade de contrariar a crescente influência de Pequim e Moscovo -, mas outra disputa potencialmente explosiva está a desenrolar-se em Svalbard, onde a China e a Rússia já têm presença. E há quem receie que o mundo não esteja a prestar atenção suficiente.

Um arquipélago único sob pressão
Svalbard é um grupo de ilhas singular. Tem apenas cerca de 3000 residentes, mas não tem população nativa e as mulheres não podem dar à luz ali. É o lar da cidade permanentemente habitada mais a norte do planeta, Longyearbyen, e é o local que mais rapidamente aquece na Terra, a um ritmo cerca de seis a sete vezes superior à média global.

Um tratado centenário confere à Noruega total soberania, mas também permite que cidadãos de quase 50 países signatários, incluindo a China e a Rússia, vivam e trabalhem em Svalbard sem necessidade de visto.

Nas últimas décadas, tornou-se o principal centro mundial de ciência ártica e um local raro de cooperação internacional.

"Pessoas de todo o mundo, com enormes diferenças culturais... juntam-se para colaborar", afirmou Hedda Andersen, uma glaciologista que trabalha na Estação de Investigação de Ny-Ålesund.

Contudo, esta harmonia está a desgastar-se à medida que a orgânica única de Svalbard colide com relações internacionais cada vez mais fraturadas e com a busca dos países por influência num Ártico em rápido aquecimento.

"Estamos a ver o contexto geopolítico mais amplo a transbordar para o território de uma forma que não se via nas décadas anteriores", explicou Otto Svendsen, investigador associado no Center for Strategic and International Studies (CSIS).

A atração estratégica de Svalbard
A geografia de Svalbard é grande parte do que a torna tão atraente:
Recursos: o seu oceano ostenta ricas zonas de pesca e minerais críticos no fundo do mar.
Tecnologia: está numa localização privilegiada para controlar e descarregar dados de satélites de órbita polar usados para ciência, previsão meteorológica e defesa.
Militar: situa-se perto da Península de Kola, na Rússia, uma das regiões militares mais estratégicas de Moscovo, onde se encontra grande parte do seu arsenal nuclear marítimo.

O arquipélago é de fácil acesso. Voos regulares a partir da Noruega continental permitem chegar ao alto Ártico em poucas horas. Dezenas de países têm presença em Svalbard, incluindo a Rússia, a China, o Reino Unido, a Itália, o Japão e a Polónia. As suas estações de investigação servem de porta de entrada para a influência no Ártico, funcionando "quase como uma moeda geopolítica", sublinhou Serafima Andreeva, investigadora do The Arctic Institute.

O fim do "Alto Norte, baixa tensão"
Durante décadas, o lema na região foi "Alto Norte; baixa tensão", recordou Eivind Vad Petersson, secretário de Estado no Ministério dos Negócios Estrangeiros norueguês, mas "essa já não é uma descrição precisa da realidade".

A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 desfez a ideia de que o Ártico estava imune aos ventos geopolíticos e colocou o foco na dissonância de a Rússia ter uma colónia em território da NATO. Barentsburg, um posto avançado de mineração e investigação em Svalbard, é habitado quase inteiramente por russos e é vigiado por um enorme busto de Vladimir Lénine.

As ações russas em Svalbard têm inflamado ainda mais as tensões:
Em 2023, a Rússia realizou um desfile de estilo militar em Barentsburg, com uma coluna de camiões e motas de neve com bandeiras russas e um helicóptero a voar a baixa altitude, o que valeu a Moscovo uma multa da autoridade de aviação norueguesa.
No ano passado, o deputado russo Sergey Mironov sugeriu que Svalbard deveria ser renomeada como "Ilhas Pomor", numa referência a um grupo de caçadores russos presentes no arquipélago há séculos.
Retórica: A Rússia tem invocado o mesmo tipo de linguagem que usa para justificar as suas ações na Ucrânia, argumentando que precisa de proteger os falantes de russo em Svalbard. Tem também acusado repetidamente a Noruega de tentar militarizar as ilhas.

Nikolay Korchunov, embaixador da Rússia na Noruega, afirmou que Oslo "bate no limite" da estipulação do Tratado de Svalbard de que as ilhas não devem ser usadas para "fins bélicos". Korchunov acrescentou que a Rússia nunca pôs em causa la soberania da Noruega, mas está, sim, a "tentar trazer clareza" sobre a forma como esta soberania é exercida.

O papel da NATO e as ambições da China
O secretário de Estado norueguês, Petersson, rejeitou as alegações de militarização, explicando à CNN que o Tratado de Svalbard impede a criação de uma base da NATO nas ilhas ou a sua utilização para fins bélicos, mas que isso é "muito mais restrito e algo muito diferente de ser uma zona desmilitarizada".

"Svalbard é parte da Noruega; Svalbard é parte da NATO; Svalbard faz parte dos planos de defesa noruegueses", declarou.

Poucos acreditam que a Rússia esteja a traçar um caminho para uma ação militar direta. Já tem quase tudo o que quer em Svalbard e está focada na Ucrânia, apontou Andreas Østhagen, investigador sénior no Instituto Fridtjof Nansen, em Oslo. Em vez disso, a Rússia parece querer usar Svalbard como um local "para mostrar que não será recuada pela Noruega, ou pela NATO em geral".

Mas não são apenas as ações da Rússia que preocupam. Há também a China.
Ao contrário da Rússia, a China não é uma potência ártica, mas tem ambições. No seu documento de estratégia para o Ártico de 2018, autodenominou-se um "Estado quase-Ártico" e referiu repetidamente Svalbard. Tem também planos para uma "Rota da Seda Polar", um corredor de infraestruturas e navegação no topo do mundo.

Em 2024, quando a China celebrou o 20.º aniversário da sua estação de investigação em Ny-Ålesund, uma empresa de viagens chinesa levou mais de 100 turistas a Svalbard. Alguns agitaram bandeiras; um deles vestia uma farda de camuflagem com o que parecia ser um emblema militar chinês. O evento gerou alarme na Noruega.

Um porta-voz da Embaixada da China na Noruega afirmou que o país participa nos assuntos do Ártico "de acordo com o direito internacional" e que as suas intenções na região visam "salvaguardar os interesses comuns de todos os países".

O catalisador das alterações climáticas
Existe outro fator crucial nesta teia de tensões: as alterações climáticas causadas pelo Homem. No verão de 2024, Svalbard quebrou recordes anteriores de degelo, perdendo mais de 60 gigatoneladas de gelo (cerca de 1% do seu total), com as temperaturas a subirem cerca de 4ºC (7ºF) acima da média. Quatro dos últimos cinco anos estabeleceram novos recordes de perda de gelo.

As alterações climáticas são "em grande parte o que está a impulsionar muito do interesse geral em direção ao Ártico", referiu Østhagen. Existe a narrativa de que o degelo abrirá oportunidades económicas e estratégicas.

A realidade é mais complexa. Há décadas que se antecipa um fluxo de navios pelo Oceano Ártico e uma corrida ao petróleo, gás e minerais sob as suas águas gélidas - mas isso ainda não aconteceu. A região continua a ser dura e inóspita.

Ainda assim, se o degelo vai ou não abrir a região "não importa", considerou Torbjørn Pedersen, professor na Universidade Nord. O "medo de ficar de fora" está a empurrar os países a marcarem presença no Ártico e a exercerem influência política.

A Noruega aperta o controlo
Face a isto, a Noruega parece estar a apertar o controlo sobre Svalbard:
  1. Alteração de leis: em 2022, o governo mudou as regras eleitorais para impedir que cidadãos não noruegueses votassem nas eleições de Longyearbyen, a menos que tivessem vivido na Noruega continental durante três anos.
  2. Mineração: a Noruega assumiu a ambição de explorar minerais críticos numa vasta extensão do fundo do mar do Ártico em redor de Svalbard. O plano foi contestado pela Rússia.
  3. Símbolos nacionais: seguiu-se a remoção dos leões da China e de símbolos nacionais noutros edifícios de Ny-Ålesund.
"Não existe uma estação de investigação chinesa em Svalbard", clarificou Petersson. "Existe uma estação de investigação norueguesa com inquilinos chineses. Essa é uma distinção que faz a diferença."

Para já, a Noruega mostra-se confiante na capacidade de "manter um certo nível de estabilidade nesta região". Mas o mundo está a mudar rapidamente. Com Trump a reiterar que os EUA deveriam deter a Gronelândia, a aliança da NATO sob pressão crescente e os países a posicionarem-se como potências árticas, o futuro parece cada vez menos certo.

Os países podem começar a pensar que "o que importa agora é o poder e a capacidade de afirmar esse poder", concluiu Østhagen, "e não necessariamente as normas e leis que estabelecemos ao longo do último século."
Fonte [PT] [EN]

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