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terça-feira, 11 de agosto de 2026

London Grammar - Nightcall


A melancolia noturna de "Nightcall": entre o synthwave e o existencialismo dos London Grammar


A letra de "Nightcall" aborda um reencontro noturno e tenso após um afastamento ou um evento traumático, focando-se no contraste entre a atração e o perigo. No original de Kavinsky, a faixa faz parte de uma narrativa concetual sobre um jovem que morre num acidente de carro nos anos 80 e regressa como "zombie" para rever a namorada. Na versão dos London Grammar, essa vertente de ficção científica desaparece, dando lugar a uma metáfora sobre a vulnerabilidade, o isolamento e a complexidade das relações humanas.

Esta narrativa liga-se a várias referências culturais e filosóficas. A figura misteriosa do condutor evoca o Herói Byroniano da literatura romântica - um indivíduo solitário, sombrio e carregado de culpa -, refletindo também o existencialismo urbano através da alienação e da viagem sem rumo na noite. A ideia de que "há algo em ti difícil de explicar" remete para o conceito de Doppelgänger e para a Sombra de Carl Jung, representando o lado oculto da personalidade que emerge no escuro. Além disso, a estética da autoestrada noturna remete para o Cinema Noir e para o conceito de "não-lugar" do antropólogo Marc Augé, onde o espaço urbano serve de palco para a suspensão do tempo e da moral.

O videoclipe oficial dos London Grammar reflete essa mesma atmosfera através de um ritmo lento e parado. Gravado num campo aberto e enevoado durante a noite, o vídeo mostra a banda a tocar sob luzes focadas, rodeada por elementos dispersos e aparentemente sem ligação direta: um carro vermelho com os faróis acesos, uma caravana iluminada, jovens reunidos à volta de uma fogueira e cavalos a correr no meio da névoa.

O significado deste videoclipe não passa por contar uma história linear, mas sim por traduzir visualmente o estado de espírito da canção. A lentidão das imagens e a penumbra reforçam a sensação de isolamento e melancolia. Os vários elementos funcionam como memórias desconexas ou símbolos de transição - o carro representa a viagem, a fogueira o desejo de calor e pertença, e os cavalos em liberdade simbolizam a natureza indomável dos sentimentos. Em vez de recorrer à ação ou à velocidade, o vídeo opta por uma estética contemplativa que deixa a música e a voz de Hannah Reid guiarem toda a carga dramática.

Filme Drive e filme completo aqui

Página oficial

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

domingo, 26 de julho de 2026

Xénia - A regra de Zeus

Zeus Xenios-Philoxenon
A Odisseia de Christopher Nolan pode não ser totalmente fiel ao poema épico de Homero mas tem o dom de por toda a gente a falar desta obra fundamental que, com a Ilíada, fundou a chamada civilização ocidental. Interessa pouco a escolha dos intérpretes  de alguns personagens, pois no fundo todos eles são inadequados já que não há gregos entre o cast, o que até é bastante insultuoso para a Grécia. 

Adiante. O que mais importa na Odisseia é que se tornou numa obra universal e ainda hoje pode ser entendida por todos, desde japoneses a congoleses: é um épico de provação e superação das dificuldades que podia ocorrer em qualquer civilização. E está tão bem relatado, que se torna no primeiro livro de aventuras digno desse nome. E a regra de Zeus (xénia), da hospitalidade obrigatória aos que chegam, de dar comida, bebida e abrigo sem perguntar nada e a gratidão intrínseca que os migrantes devem ter aos seus hospitaleiros ainda hoje tem eco nos migrantes actuais. 

Essa regra foi quebrada por Ulisses e também por alguns dos hospitaleiros, como Polifemo, e isso levou às desgraças que cada um teve de sofrer. E esta regra de Zeus não podia ser mais actual, pois ainda hoje a quebramos constantemente com os emigrantes, sejam os desgraçados africanos que atravessam o Mediterrâneo, sejam os hindus que povoam Lisboa que são rejeitados pela extrema-direita, sejam os latinos expulsos pelo ICE nos EUA. 

Daí o termo xenófobo, que é o contrário de bem-receber e à regra de Zeus, que podia ser de Deus, o tal que unificou o Olimpo num só omnipotente ser divino, que com todos os seus poderes não consegue aplacar as atrocidades que se cometem todos os dias contra emigrantes e não só.

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Deconstruction in a nutshell : a conversation with Jacques Derrida

sexta-feira, 10 de julho de 2026

França em revolta contra sistema de reciclagem de garrafas idêntico ao "Volta" em Portugal


Revolta ambiental. ONG's (Organizações Não Governamentais) e algumas autoridades locais eleitas estão a posicionar-se contra uma proposta do governo francês.

O plano prevê a reciclagem de garrafas plásticas recolhidas, em vez da sua reutilização. O presidente Emmanuel Macron retomou o projeto no final de maio deste ano, apesar de grupos ambientalistas já terem feito um alerta sobre o assunto algures em 2023.

Mas então, porque é que esta distinção é tão importante?
A ideia do governo é reciclar garrafas plásticas em vez de reutilizá-las. Axèle Gibert, coordenadora de prevenção de resíduos da France Nature Environnement (FNE), explica a questão: "Não se trata de um sistema de depósito para reutilização... mas de um sistema que permitirá aos fabricantes recuperar essas garrafas para produzir ainda mais plástico".

O problema: as garrafas não são lavadas para reutilização posterior
Elas serão recicladas. Além disso, muitos críticos do projeto, incluindo funcionários eleitos, querem usar um termo diferente de “depósito”. Segundo eles, as garrafas não são “retornáveis”. Até falam em 'greenwashing'. Nicolas Garnier, membro da associação Amorce, só vê lucro para os fabricantes. “Esta ampla medida de 'greenwashing' não tem outro objetivo senão vender mais garrafas de plástico descartáveis”.

Para o presidente da Câmara de Bures-sur-Yvette (Essonne), “teremos agora que tomar medidas que façam o Estado compreender que não deixaremos que este absurdo nos detenha”. Do lado do governo, Mathieu Lefèvre, Ministro Delegado responsável pela Transição Ecológica, explica que “a taxa de recolha e reciclagem de garrafas e outras embalagens de plástico foi de apenas 58,4% em 2024, contra uma meta de 90%”.

O uso de plástico continua a destruir o nosso planeta.

Se esta meta não for atingida, "a implementação de um sistema de depósito para reciclagem tornar-se-á obrigatória a 1 de janeiro de 2029". Segundo Nicolas Garnier, o projeto "custaria aos consumidores entre 1 mil milhão e 3 mil milhões de euros". Há, portanto, um verdadeiro impasse entre o governo e os críticos do projeto. Alguns autarcas de várias partes da França, apoiados por sindicatos do setor de gestão de resíduos, estão prontos para adotar medidas drásticas.

Mais especificamente, ameaçaram "suspender o pagamento da TGAP" - sigla para a taxa geral sobre atividades poluentes. Esta ameaça poderá concretizar-se caso o governo não mude de rumo e insista em manter a sua posição. Falando em nome dos opositores do sistema, o deputado Philippe Vigier lamentou o que descreveu não mais como uma consulta, mas como uma "imposição" por parte do Estado.

Como funciona a TAGP  e porque é que os autarcas ameaçam suspender o pagamento?
A TGAP (Taxe Générale sur les Activités Polluantes) é a Taxa Geral sobre Atividades Poluentes em França, um imposto cobrado pelo Estado com base no princípio do poluidor-pagador. Quem paga esta taxa diretamente ao Estado não são os cidadãos, mas sim as entidades responsáveis pela gestão de resíduos. Na prática, sempre que uma autarquia francesa recolhe o lixo dos seus habitantes e o envia para um aterro ou para um incinerador, é obrigada a pagar ao governo central uma quantia fixa por cada tonelada de resíduos tratada. A nível nacional, este imposto representa um valor astronómico que ronda as centenas de milhões de euros anuais pagos pelos municípios aos cofres do Estado.

O descontentamento com o plano do governo de Emmanuel Macron levou os presidentes de câmara e os municípios franceses a ameaçarem suspender o pagamento desta taxa, por se sentirem profundamente injustiçados a nível financeiro e logístico. Ao longo dos últimos anos, as autarquias investiram milhões de euros na modernização de ecocentros públicos para separar o lixo doméstico. Dentro de todos os resíduos, as garrafas de plástico PET limpas funcionam como o filé mignon do lixo, sendo o único material que os municípios conseguem vender a bom preço às empresas de reciclagem para financiar e cobrir os custos do resto da recolha urbana.

O novo plano do governo destrói completamente este equilíbrio económico. Ao criar um sistema de máquinas de depósito nos supermercados, o Estado retira a recolha das garrafas de plástico das mãos dos municípios e entrega o negócio diretamente à indústria das grandes marcas de bebidas. Isto resulta num castigo duplo para as autarquias francesas, que perdem subitamente uma receita essencial com a venda do plástico, mas continuam com a obrigação onerosa de recolher o lixo que ninguém quer, como restos de comida, fraldas ou sofás. Para agravar a situação, os municípios teriam de continuar a pagar a pesada taxa TGAP ao Estado pelo envio desse lixo restante para incineração ou aterro, mesmo sem o retorno financeiro do plástico.

Esta ameaça de suspensão do pagamento funciona, portanto, como uma poderosa arma de arremesso político e uma autêntica greve fiscal ecologicamente motivada. Ao cortarem o fluxo deste imposto, os autarcas franceses lançam um ultimato claro ao governo central, avisando que não vão financiar os cofres do Estado se este insistir em retirar o negócio do plástico ao setor público para o entregar aos grandes industriais privados (como a Nestlé, Coca-Cola, Pepsi-Cola, etc.)

Empresas industriais estão na mira de grupos ambientalistas

Por enquanto, as discussões parecem estar paralisadas.
As relações estão tensas e as associações lamentam o facto de o governo permitir que a indústria continue a utilizar plástico — repetidamente — em vez de combater essa prática e tentar minimizar o seu uso.

Fonte

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Mesmo com mais população, Portugal convergiu com os países mais ricos da Europa

O PIB per capita de Portugal ainda está muito abaixo do dos países mais ricos da UE, mas mesmo corrigindo o efeito do aumento da população, está mais próximo do destes países do que alguma vez esteve nos últimos 60 ou 70 anos

A ideia de que, os novos dados sobre população, revelam que a convergência de Portugal na última década afinal não existiu, é uma ideia falsa. Na última década (2015-2025), ao contrário do que tinha acontecido na década e meia anterior (2000-2015), Portugal convergiu com os países mais ricos da União Europeia, e também com os EUA, o Canadá e o Japão. A alteração ao cálculo da população residente, feita pelo INE, altera a dimensão dessa convergência, mas não muda o facto de que Portugal se aproximou em PIB per capita (em PPC) de todos os países do G7, o grupo que reúne as economias mais ricas do mundo.

Quando, em 1986, Portugal entrou para a então CEE, o objetivo era conseguir aproximar-se do rendimento per capita das economias mais ricas desse clube (Alemanha França, Itália, Reino Unido). Nesse ano, Portugal era o país mais pobre dos 12, com um PIB per capita entre os 50% e os 60% do destes seis países e de 45% do PIB per capita dos EUA.

Nos primeiros 15 anos de integração, o país teve um forte processo de convergência. Em 2001, Portugal continuava a ser o país mais pobre da União Europeia a 15, mas tinha um PIB per capita que já estava entre os 65% e os 72% de qualquer uma das 4 maiores economias da UE e que já chegava aos 52% do dos EUA.

A este primeiro período de convergência, seguiram-se 14 anos de estagnação ou mesmo de retrocesso. Entre 2001 e 2015, o PIB per capita português caiu face a todos os parceiros da UE15, exceto a Grécia e a Itália.

Estes dados estão refletidos no gráfico. Em todos os países apresentados, a primeira coluna é positiva mostrando que houve convergência entre 1986 e 2001. Pelo contrário, a segunda coluna é negativa ou próxima de zero para todos os países exceto a Itália, o que significa entre 2001 e 2015, Portugal não convergiu com os países mais ricos.

Quando olhamos para as últimas duas colunas, o que vemos é que, no período de 2015 a 2025 os valores são todos positivos. Isso significa que, depois de 2015, voltou a haver convergência. Esta conclusão é visível na coluna a preto (que apresenta os cálculos com os valores utilizados pelo Eurostat), mas é também visível na coluna a cinzento, em que os dados foram corrigidos pela nova estimativa da população portuguesa. Obviamente, tomando em consideração os novos dados da população, a convergência em termos de PIB per capita fica menor. Mas continua a ser bem visível nos dados.

Portugal convergiu, mesmo com a Correção da População
Mesmo com os dados corrigidos, na última década, o PIB per capita de Portugal converge. Convergiu 23 pontos percentuais (pp) com o do Japão, 10 pp com o do Reino Unido, 7 pp com o da Alemanha e França, 6 com o dos EUA, e 2 pp com o de Itália. Por exemplo no caso da França, usando os dados do Eurostat, o PIB per capita de Portugal passa de 71% do de França, em 2015, para 82% em 2025. Corrigindo, com o aumento da população, o PIB per capita português já só representa 78% do PIB francês. É uma diferença entre uma convergência de 11 pontos e uma de apenas 7 pp, nestes 10 anos. Mas, em qualquer dos casos Portugal está hoje próximo dos 80% do PIB per capita francês, quando em 1986 estava nos 57% e, em 2015, estava nos 72%.

Estes dados significam que o ritmo de convergência anual entre Portugal e as economias mais ricas do mundo, nestes últimos dez anos, foi em alguns casos, muito próximo do que se registou nos primeiros 15 anos de integração.

Mesmo com os dados corrigidos, no caso dos EUA, Japão e Reino Unido, na última década, convergimos mais por ano, do que no período de ouro dos primeiros 15 anos de integração (1986-2001). Nos casos da França e Alemanha, no primeiro período convergimos 1 ponto percentual por ano, (15 pp em 15 anos), o mesmo valor que obtemos para a última década, com os dados não corrigidos. Quando se corrigem os dados, o valor passa para 0,7 pontos por ano, um ritmo menor, mas ainda assim uma aproximação significativa (7 pontos percentuais numa década). Apenas no caso da Itália, a correção coloca a convergência a níveis pouco significativos (passa de 6pp para 2pp).

O que é verdade para as grandes economias da UE, é também verdade para todos os restantes países que faziam parte da UE15. Mesmo considerando os dados corrigidos, entre 2015 e 2025, Portugal convergiu em PIB per capita com todos os países que integravam a UE15, exceto a Irlanda.

Quando se olha para a média, a correção populacional baixa significativamente a nossa convergência. Na última década, a aproximação de Portugal passa a ser de apenas 1 a 2 pontos percentuais (em vez de 5 ou 6 pp sem a correção), se considerarmos a UE27, e 3 ou 4 pontos, se compararmos com a Zona Euro (em vez de 7 ou 8 pp).

Isto deve-se ao facto de que a maioria dos países de leste terem continuado a crescer a um ritmo mais elevado do que Portugal e do que os restantes países da UE. A correção do PIB per capita português, pelo aumento da base populacional, apenas acentua esta realidade, que os dados anteriores já mostravam. Portugal convergiu mais com os países mais ricos do que com a média porque houve outros países que também convergiram, e que convergiram mais, contribuindo para aumentar a média.

Convergência mais forte dos países de leste
Desde 2000, a generalidade dos países de leste, cresceram a um ritmo muito superior ao português e ao da média da União Europeia. No entanto, também aqui é possível encontrar dois períodos distintos. Enquanto, entre 2000 e 2015, os países de leste convergiam fortemente com os países mais ricos da Europa e Portugal estava a divergir, depois de 2015, os países de leste continuaram a convergir, mas Portugal voltou a convergir.

Entre 2000 e 2015, todos os países de leste aumentaram o seu PIB per capita face ao de Portugal de forma acentuada. Depois de 2015, alguns países de leste, como a Chéquia, a Estónia e a Eslováquia, tiveram uma evolução do PIB per capita muito semelhante à de Portugal, mas outros, como a Bulgária, a Roménia ou a Polónia, continuaram a crescer a um ritmo mais acelerado.

Nos últimos anos Portugal cresceu mais em PIB per capita e convergiu com a Alemanha, a França, a Áustria e a Suécia. Mas, cresceu menos do que a Roménia a Polónia ou a Bulgária. A Roménia e a Polónia convergiram com Portugal, tendo chegado já ao mesmo nível de PIB per capita do nosso país.

A correção do PIB pela nova estimativa da população não altera a realidade de que os países de leste cresceram mais do que Portugal. No entanto, na margem, pode alterar a posição de Portugal, no ranking do PIB per capita, face a países como a Estónia, a Polónia, a Roménia ou a Croácia. Estes quatro países registam um PIB per capita entre os 77% e os 81% da média da UE27. O valor de 81% é o que surge para Portugal, nos dados do Eurostat e coloca o nosso país à frente destes países. O de 77% é o que se obtêm para Portugal quando se aplica a alteração da população portuguesa (sem outros ajustamentos) e coloca estes países à frente de Portugal. O valor real vai provavelmente estar no meio destes dois.

Estas pequenas diferenças mostram como este indicador face a países próximos é muito sensível a alterações de critérios, no cálculo da população, do PIB, ou dos níveis de preços. O próprio Eurostat salienta que: “há um consenso geral de que os indicadores baseados em Paridades de Poder de Compra (PPC), não se destinam a estabelecer um ranking rigoroso dos países. O grau de incerteza associado aos dados de preços e despesas, bem como aos métodos utilizados para o cálculo das PPC, pode gerar erros que influenciam a classificação dos países, especialmente quando estes se concentram em uma faixa de resultados muito estreita”. Parece uma frase destinada ao presente caso, mas já lá está há muitos anos.

Neste caso, para além da incerteza no cálculo dos preços, estamos a juntar alterações nas estimativas da população, e a aplicar essas alterações sem ter em conta os efeitos que a própria alteração da população pode ter no cálculo do PIB.

Questões sobre o uso dos novos dados de população
Na parte anterior deste artigo aceitei a ideia de fazer o ajustamento do PIB per capita de Portugal introduzindo na base 11,39 milhões de cidadãos (para 2024), em vez dos 10,75 milhões, que anteriormente eram usados. O resultado é uma descida do PIB per capita de 81% da média europeia, para os 77%. O que tentei demonstrar foi que, mesmo considerando este ajustamento, na última década, verifica-se uma convergência significativa entre Portugal e todos os países mais ricos da UE, exceto a Irlanda.

Esta correção, ao adicionar 637 mil residentes face às anteriores estimativas de população do INE, altera as estimativas de PIB per capita. Mas estas alterações não são lineares, uma parte dos agregados do PIB são estimados usando o emprego e a população como fatores de cálculo, o que significa que os novos dados de população podem obrigar a uma revisão para cima do PIB português, nos anos de 2021 a 2025. Ou seja, o método que apliquei na primeira parte do artigo, tende a sobrestimar a diminuição do PIB per capita. Esta diminuição deverá existir, mas pode não ser tão acentuada como a que utilizei.

Para calcular a nova estimativa de população, o INE recorreu a dados administrativos provenientes de uma multiplicidade de entidades públicas como a AIMA, a Segurança Social, o Instituto de Registos e Notariado, a Autoridade Tributária, o Instituto do Emprego e Formação Profissional e o Ministério da Educação. Estas estimativas permitiram encontrar a presença de muitos residentes estrangeiros que estavam a ser omitidas no método anterior.

O atual método, permite contar na população residente mesmo estrangeiros que estão ilegais, ou temporários. Isso dá uma visão mais realista do total dos residentes em Portugal. No entanto, devemos ter cuidado a ter no uso dos novos dados nas comparações internacionais.

As estimativas de estrangeiros ilegais na Alemanha variam entre os 800 mil e os 1,5 milhões, na França apontam para 600 a 900 mil ilegais, a maioria não captados nas estatísticas da população. Em Espanha, as estatísticas de estrangeiros residentes, para 2024 ou 2025, consideram apenas os registados. O governo estimava-se que pudessem existir mais de 500 mil imigrantes não registados. No processo extraordinário de regularização, em 2026, surgiram mais de 1,2 milhões de inscrições. Se estamos a ajustar o PIB per capita português colocando mais 600 mil pessoas, não devíamos então comparar este com um PIB per capita da Espanha ajustado para incluir mais 1,2 milhões de residentes? Ou o da Alemanha com mais 1,5 milhões de pessoas?

Por outro lado, se ficou claro que o método anterior subestimava o número de residentes, penso que é importante verificar se o atual método, para efeitos de cálculo do PIB per capita, não poderá sobrestimar os residentes estrangeiros.

Hoje temos mais nómadas digitais, que vivem parte do ano em Portugal, mas têm rendimentos fora do país. Temos também mais trabalhadores sazonais e temporários, em áreas como a construção, o turismo ou a agricultura, que mudam muitas vezes de emprego e de país, ao longo do ano. Temos ainda imigrantes temporários, que entraram em Portugal, mas estão em circulação para outros países.

É razoável assumir que muitos destes estrangeiros residentes, agora detetados, apenas trabalhem uma parte do ano em Portugal. Nestes casos estamos a contar uma capita na parte de baixo da equação, como se esta pessoa tivesse passado todo o ano em Portugal, mas o contributo para a produção e consumo desta pessoa em Portugal, pode ter sido dado em apenas alguns meses. Estas realidades podem conduzir a conclusões erradas sobre a produtividade e o contributo para o PIB per capita destes trabalhadores.

Por estas e outras razões, a nova metodologia não deve dispensar a realização de um exercício de Census, que permita avaliar algumas destas questões e calibrar os eventuais erros e omissões.

Conclusão
A revisão de dados sobre a população feita pelo INE é a meu ver positiva. Vai permitir um retrato mais claro da população residente e da presença de cidadãos estrangeiros no território nacional. No entanto, a utilização destes dados para comparações internacionais, deve ser feita com cuidado, no sentido de ser compatível com os critérios dos países com que estamos a comparar, e de incorporar todos os efeitos desta alteração, incluindo a forma como vai afetar o cálculo do PIB.

Volto ao princípio deste artigo, para salientar que, mesmo usando os dados na versão mais simples, e que tem mais impacto na baixa do nosso PIB per capita, o que os dados revistos com o aumento da população mostram é que, nos últimos 10 anos, o PIB per capita de Portugal se aproximou, não só do de todas as economias mais ricas da UE (UE15 - exceto a Irlanda), mas também do dos restantes países do G7 (EUA, Canadá e Japão).

Os novos dados sugerem que o país se aproximou menos do que antes pensávamos. E certamente menos do que desejávamos. Mas mostram que a realidade de Portugal como um país que não se estava a conseguir aproximar dos países mais ricos, que dominou todo o período entre 2001 e 2015, se inverteu na década de 2015 a 2025.

A última década correu bem e permitiu a Portugal convergir com a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Suécia, a Áustria, os EUA ou o Japão. E convergiu em valores significativos. O PIB per capita de Portugal ainda está muito abaixo do dos países mais ricos da UE, mas mesmo corrigindo o efeito do aumento da população, está mais próximo do destes países do que alguma vez esteve nos últimos 60 ou 70 anos.

Penso que é mais importante centrarmo-nos em como conseguir que essa convergência continue ou até se reforce na década de 2025 a 2035, do que estar a usar os novos dados para alimentar o negativismo e para tirar conclusões, que estes não sustentam.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A libertação dos rios: porque é que há várias países a destruir centenas de barragens

O rio apareceu quase de imediato.

À medida que as barragens no rio Hiitolanjoki, na Finlândia, foram sendo desmanteladas, o rio começou a mudar - a corrente ficou mais rápida e a água mais fria, parecendo menos um reservatório e mais um rio novamente. Depois vieram os peixes.

Pela primeira vez em mais de um século, os salmões remontaram o rio para além do local onde outrora se erguiam três barragens hidroelétricas, recuperando um troço de rio que se encontrava isolado há mais de um século.

Transformações semelhantes estão a ocorrer por toda a Europa, onde os países estão a desmantelar barragens e açudes envelhecidos - barragens que outrora alimentavam moinhos e fábricas, mas que agora, muitas vezes, já não têm grande utilidade.

“Assim que se remove uma barragem, o rio retoma o controlo“, explica Angela Ortigara, consultora sénior e estratega para a água doce da WWF Países Baixos, à CNN. “É uma ação que tem um efeito imediato e um benefício a longo prazo. “

Em 2025, foram removidas 603 barragens em 21 países - um número recorde e o mais elevado de sempre -, de acordo com o último relatório anual da Dam Removal Europe, uma coligação de seis organizações que trabalham para restaurar a conectividade fluvial.

A remoção destas barragens ajudou a restabelecer a ligação entre mais de 3.740 quilómetros (2.324 milhas) de rios em todo o continente e está associada ao objetivo da UE de restaurar 25.000 quilómetros (15.534 milhas) de rios de curso livre até 2030.

De acordo com o relatório, divulgado na semana passada, o número de barragens removidas ultrapassou em 11% o recorde anterior, estabelecido em 2024.

As remoções em 2025 foram também seis vezes superiores às registadas no primeiro recenseamento realizado em 2020.

Os números indicam que a recuperação dos rios está a ser cada vez mais adotada, mas refletem também uma reavaliação mais ampla do funcionamento dos rios numa era de fenómenos climáticos extremos. O que outrora era visto como um progresso é cada vez mais considerado um problema ambiental crescente.

Rios fragmentados
Estima-se que 1,2 milhões de barragens - incluindo barragens, açudes, bueiros e eclusas - fragmentem os rios da Europa, de acordo com o projeto de investigação “Gestão Adaptativa das Barragens nos Rios Europeus “ (AMBER), uma das avaliações mais abrangentes da conectividade fluvial alguma vez realizadas no continente. Muitas dessas estruturas foram construídas há décadas para fins hidroelétricos, de navegação ou agrícolas, mas milhares delas estão agora obsoletas.

Cientistas e grupos ambientalistas afirmam que as consequências podem ser de grande alcance.
“Quando um rio é represado, o seu leito - outrora protegido pela vegetação ribeirinha - transforma-se num lago ou reservatório de água parada, exposto ao sol. Isto aumenta significativamente a temperatura da água “, explica Pao Fernández Garrido, gestora sénior de subvenções do Programa Europeu “Open Rivers“, uma iniciativa de financiamento à escala europeia que apoia a remoção de pequenas barragens e barragens fluviais, com vista à restauração dos ecossistemas fluviais naturais.

Grandes volumes de água nos reservatórios também podem perder-se por evaporação. O material orgânico retido nos reservatórios acumula-se e decompõe-se ao longo do tempo, libertando metano - um potente gás com efeito de estufa que contribui significativamente para o aquecimento global, afirma Fernández Garrido à CNN. 

Os ecossistemas fragmentados têm também muito menos capacidade para fazer face ao aumento das inundações, das secas e dos fenómenos climáticos extremos, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente. Ao longo da última década, nove em cada dez catástrofes naturais no continente estiveram relacionadas com a água, afirmou a agência.

“Perdemos cerca de 80% das nossas zonas húmidas ao longo do último milénio devido à drenagem, à impermeabilização e à degradação “, refere a agência à CNN. “As zonas húmidas ajudam a reduzir estes riscos, atuando como esponjas naturais, absorvendo água durante as cheias e libertando-a lentamente durante as secas. “

A Dam Removal Europe diz que a fragmentação fluvial é um dos principais fatores que contribuem para o declínio da biodiversidade de água doce na Europa, citando uma avaliação recente da Comissão Europeia que revelou que mais de 42% das espécies de peixes de água doce do continente estão ameaçadas, enquanto quase dois terços são consideradas em risco de se tornarem ameaçadas ou já se encontram próximas desse estatuto.

Espécies como o salmão do Atlântico e a enguia europeia, juntamente com algumas populações de truta, podem ser impedidas ou atrasadas na sua chegada aos habitats a montante necessários para a reprodução, o que contribui para o declínio das populações ou, em alguns casos, para a extinção local.

Mesmo nos casos em que estão instaladas passagens para peixes, a sua eficácia varia e, muitas vezes, estas não conseguem dar resposta às necessidades das espécies com menor capacidade de natação, deixando trechos significativos dos ecossistemas fluviais parcialmente desligados.

O impacto vai além dos peixes. A conectividade fluvial sustenta ecossistemas aquáticos na sua totalidade, desde insetos até aves e mamíferos. Quando o fluxo de sedimentos é interrompido, os leitos dos rios podem tornar-se mais simples e menos adequados para a desova, enquanto as alterações na temperatura e no caudal reduzem a diversidade do habitat.

Existem também preocupações crescentes relativamente ao envelhecimento das infraestruturas hídricas da Europa. Muitas barragens obsoletas não são devidamente mantidas e podem tornar-se riscos para a segurança à medida que se deterioram, especialmente durante fenómenos meteorológicos extremos.

“A construção de barragens fluviais acarreta uma longa lista de problemas de segurança e ambientais “, lembra Fernández Garrido. “É sempre mais seguro e mais económico trabalhar com a natureza do que contra ela. “

O impulso crescente em torno da recuperação dos rios está agora a ser reforçado também através da política de recuperação da natureza da UE.

No entanto, a política também tem sido alvo de críticas por parte de alguns grupos de agricultores e decisores políticos, preocupados com os potenciais impactos no uso do solo e nos meios de subsistência rurais.

O Regulamento da UE relativo à Restauração da Natureza, que entrou em vigor em 2024, estabelece metas vinculativas para restaurar, pelo menos, 20% das áreas terrestres e marítimas da UE até 2030, incluindo a restauração de, pelo menos, 25.000 km de rios para um estado de fluxo livre. O objetivo é recuperar quase todos os ecossistemas que necessitam de recuperação até 2050. Esta legislação marca a primeira vez que a conectividade fluvial e a remoção de barragens foram integradas na legislação da UE.

“Este regulamento tem o potencial de ser um verdadeiro ponto de viragem. Não se trata apenas de proteger o que ainda resta. Trata-se de devolver a natureza, de devolver os nossos rios“, aponta a Agência Europeia do Ambiente.

Rios restaurados
No entanto, a remoção de uma barragem raramente é tão simples como demolir betão.

Os projetos podem demorar anos a realizar-se, envolvendo avaliações ambientais, estudos de engenharia e negociações com os proprietários das barragens e as autoridades locais. Após a demolição, é necessário gerir cuidadosamente os sedimentos, estabilizar as margens dos rios e monitorizar os ecossistemas.

Mas, assim que as barragens forem eliminadas, a transformação pode ocorrer com uma rapidez notável.

Na Finlândia, a remoção das três barragens hidroelétricas ao longo do rio Hiitolanjoki, entre 2021 e 2023, reabriu as rotas de migração do salmão de água doce, uma espécie em perigo crítico de extinção, restaurando o acesso às zonas de desova que se encontravam bloqueadas desde o início do século XX. O salmão regressou a algumas zonas do rio logo na primeira época de migração.

Mais a leste, a atenção centra-se agora na barragem hidroelétrica de Palokki, na bacia hidrográfica do rio Vuoksi, na Finlândia, onde estão em curso planos para restaurar a conectividade numa outra bacia hidrográfica fortemente fragmentada.

“Quando este projeto for implementado, será o maior projeto do Programa Open Rivers alguma vez apoiado “, diz Fernández Garrido. “A remoção desta barragem irá desobstruir 1 523 quilómetros (946 milhas) de rio.“

Noutros pontos da Europa, estão a intensificar-se esforços de restauração semelhantes.

Em França, a remoção das barragens de Vezins, em 2020, e de La Roche Qui Boit, em 2022, no rio Sélune, que estavam em funcionamento desde as décadas de 1920 e 1930, restaurou quase 90 quilómetros (56 milhas) de curso de rio livre num dos maiores projetos de remoção de barragens alguma vez realizados na Europa.

No Lake District, em Inglaterra, a desmontagem da barragem de Bowston, em 2022, no rio Kent, contribuiu para restaurar um caudal mais natural do rio, melhorando as condições para os peixes migratórios e os ecossistemas circundantes.

Na Bélgica, a remoção de passagens subterrâneas na floresta de Anlier está a restabelecer a ligação entre afluentes mais pequenos que desempenham um papel importante na biodiversidade local.

A Espanha, a Dinamarca, a Suécia, a Alemanha e a Estónia têm vindo a levar a cabo projetos de remoção de barragens nos últimos anos, embora a dimensão destes esforços varie consideravelmente de país para país.

Em 2025, a Suécia eliminou o maior número de barragens, 173, seguida pela Finlândia, com 143, e pela Espanha, com 109.

Os países do sul e do sudeste da Europa, incluindo a Eslováquia, a Croácia, a Bósnia-Herzegovina e até mesmo a Ucrânia, devastada pela guerra, também têm vindo a eliminar barragens nos últimos anos, enquanto outros, como a Grécia, têm envidado esforços nesse sentido, salienta Ortigara.

Nos Estados Unidos, a remoção de grandes barragens demonstrou a rapidez com que os rios se podem recuperar assim que as barragens são eliminadas.

No rio Klamath, na Califórnia, o maior projeto de remoção de barragens da história dos EUA foi concluído em 2024, reabrindo centenas de milhas de habitat para peixes migratórios. No rio Elwha, em Washington, a remoção anterior de barragens restaurou o fluxo de sedimentos e provocou o regresso dos peixes e da vegetação após mais de um século de perturbações. Na Europa, muitas remoções continuam a envolver estruturas muito mais pequenas - açudes baixos, bueiros e barragens hidroelétricas envelhecidas -, mas os especialistas afirmam que o seu impacto cumulativo está a aumentar.

“Temos mais de um milhão de barragens na Europa “, realça Ortigara. “A remoção de algumas centenas por ano é um começo - mas não é suficiente. “

Segundo os especialistas, o sucesso dependerá da recuperação de trechos inteiros de rios e bacias hidrográficas, trabalhando em estreita colaboração com as comunidades locais e garantindo que, uma vez restabelecida a conectividade, esta seja mantida ao longo do tempo. “O verdadeiro desafio agora é a implementação - fazê-lo em grande escala e de forma estratégica “, refere a Agência Europeia do Ambiente.

“Quando um rio está vivo, tem um som “, diz Ortigara. “Ouve-se o seu murmúrio a escorrer pelas rochas. Vê-se vegetação à sua volta. É este fluxo da vida".

Por toda a Europa, esse som está agora a começar a regressar. Fonte

Haunted House - Deep


Letra
In the corners, where the secrets creep,
You bury your lusts in the heart of sleep.
Whispers of sin that you can’t confess,
Locked in the dark, where the demons rest.

Eyes wide shut, but the visions burn,
Desires so deep, they twist and turn.
Tangled in chains of your own design,
Craving the edge where the darkness binds.

deep, so deep

Fetish of flesh, a forbidden rite,
A dance with the void in the dead of night.
You taste the taboo, it’s bittersweet,
The deeper you go, the more you’re complete.

You drown in the dark, where your fears reside,
No escape from the thrill, no place to hide.
Desire and dread in a twisted embrace,
In the deep, you’ve found your place.

deep so deep

O projeto musical Haunted House, lançado pela editora alemã Cold Transmission Music e concebido pelo músico Philippe Marlat (frequentemente associado à cena eletrónica e darkwave europeia, com fortes ramificações em Itália e França), destaca-se na cena vanguardista de horror abstrato e música eletrónica sombria. No que toca ao estilo musical e visual do tema "Deep", o som de fundo combina elementos de Witch House, Dark Ambient, Industrial e Glitchcore, resultando numa estética musical de vanguarda que recorre a ruídos, batidas distorcidas, sons de estática e frequências desconfortáveis propositadamente desenhadas para gerar ansiedade. Visualmente, o vídeo de animação digital adere à vertente do CGI Surrealista e Voidcore, utilizando uma modelagem 3D intencionalmente rudimentar — ao estilo low-poly ou de jogos de computador antigos — enriquecida com texturas fotorrealistas sobrepostas, como o sangue e os vermes, que visam causar um efeito imediato de asco, estranheza e transe hipnótico.

Relativamente ao significado do vídeo "Deep", e como sucede com a maioria das obras de arte surrealistas e abstratas, não existe uma resposta única ou de "manual", mas a comunidade de arte digital e de horror psicológico costuma interpretá-lo através de metáforas bastante pesadas sobre o subconsciente. Por um lado, a cruz a sangrar representa a espiritualidade corrompida, simbolizando a perda da fé, a culpa religiosa ou o peso do pecado, ao mesmo tempo que mostra o sagrado a ser violado pelo profano, servindo de representação visual de uma mente em sofrimento moral ou espiritual profundo. Por outro lado, a presença dos vermes remete para a decomposição em vida, representando a inevitabilidade da morte, a podridão e a decadência; no contexto do vídeo, estes sugerem que algo dentro da personagem, seja uma memória, um sentimento ou a própria sanidade, está a apodrecer enquanto esta permanece "viva" e se move naquele ritmo mecânico e inexplicável. Por fim, o próprio título "Deep" (Profundo) refere-se ao ato de mergulhar fundo na própria psique, acedendo às partes da mente que habitualmente tentamos esconder, tais como os nossos traumas, medos biológicos, como a aversão a vermes e o medo de sangue, e crises existenciais. Em resumo, o vídeo configura uma representação abstrata de uma mente em colapso ou num estado de depressão profunda, sendo como se o criador tivesse transformado a sensação de agonia interna e de culpa em imagens de um pesadelo computadorizado.

Este poema de Haunted House evoca uma atmosfera gótica, psicológica e intensamente visceral, transitando entre o terror psicológico, o existencialismo e o erotismo sombrio da transgressão. Na filosofia, a influência mais direta reside em Georges Bataille e a sua exploração da relação íntima entre o erotismo, o tabu e a morte, onde o fetiche da carne surge como uma tentativa de alcançar a totalidade existencial através do proibido. Este abismo dialoga com Friedrich Nietzsche e o confronto com a nossa própria escuridão interna, bem como com Sigmund Freud e o conceito de Id, onde os desejos reprimidos e os impulsos de morte e prazer se fundem no confessionário do sono.

Na poesia, o texto ressoa fortemente com as visões de Charles Baudelaire em As Flores do Mal, onde o pecado, a carne e o bizarro se transformam em arte, encontrando eco também no surrealismo violento de Conde de Lautréamont e na obsessão de Edgar Allan Poe pela culpa autoimposta e pelo confinamento da mente.

Esta herança literária e filosófica ganha uma tradução visual e interativa marcante no cinema e nos videojogos. A nível cinematográfico, a referência a "olhos bem fechados" remete imediatamente a Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick, com os seus rituais secretos e desejos reprimidos, cruzando-se com o universo de Hellraiser, de Clive Barker, onde o prazer extremo e a dor se abraçam na escuridão, e com o body horror de David Cronenberg, que explora a fusão entre a carne e a obsessão psicológica. Já no panorama dos videojogos, o paralelo perfeito encontra-se em Silent Hill 2, uma obra-prima sobre a punição autoimposta e monstros que materializam fetiches e traumas reprimidos. A estética gótica e industrial de Vampire: The Masquerade – Bloodlines e a descida literal e metafórica às profundezas da mente em Amnesia e SOMA completam este mosaico de referências, onde o medo e o desejo se tornam uma coisa só.

domingo, 28 de junho de 2026

Esther Abrami - Transmission

“My grandmother was a violinist but stopped her career when she got married. I know she never imagined that her only granddaughter would take up the instrument she had left behind one day. This piece is my way of continuing her story, whilst also telling my own. ‘Transmission’ is about the passing of music through generations. This is the first time I’ve ever recorded one of my own compositions. Merci Mamie de m’avoir mis ton violon dans les mains.”

“Ma grand-mère était violoniste mais elle a arrêté sa carrière quand elle s’est mariée. Je sais qu’elle n’aurait jamais imaginé que sa seule petite fille, des années plus tard, reprenne l’instrument qu’elle avait elle-même délaissé. Cette pièce est ma manière de continuer son histoire, tout en inscrivant la mienne. Transmission parle de la passation de la musique entre les générations. C’est la première fois que j’enregistre l’une de mes compositions. Merci, Mamie, de m’avoir mis ton violon dans les mains.”


A avó de Esther, Françoise Abrami era uma violinista muito talentosa, mas, seguindo os costumes rígidos da sua época, abandonou totalmente a prática e a perspectiva de uma carreira musical assim que casou. A ligação entre as duas começou muito cedo: quando Esther tinha apenas três anos, a avó Françoise deu-lhe o seu próprio violino, que conservava com todo o carinho. Embora Esther só tenha começado a estudar o instrumento a sério por volta dos dez anos, o impacto de ter recebido aquele objeto tão cheio de história moldou o seu destino. 
Infelizmente, a avó Françoise já faleceu, mas a sua memória e o seu sonho continuam bem vivos a cada nota de "Transmission".

Biografia de Ilse Weber

Página Oficial

quinta-feira, 25 de junho de 2026

The Young Gods, live at Hellfest Open Air 2026

Setlist 
0:00 Appear Disappear
4:07 Systemized
7:47 Hey Amour
12:30 Blackwater
19:42 All My Skin Standing
29:58 Kissing the Sun
34:14 Gasoline Man
38:59 Blue Me Away
43:00 Mes yeux de tous
49:04 Shine That Drone

Um dos grandes nomes do rock eletrónico, o trio suíço The Young Gods está entre as atrações mais prestigiadas do Hellfest deste ano. Acturam no dia 20 de junho no palco Valley.

Formado em Genebra em 1985, o projeto The Young Gods foi lançado por Franz Treichler, Cesare Pizzi e Frank Bagnoud. O mentor do grupo, Treichler, mantém-se como o único membro permanente até aos dias de hoje, após mais de quarenta anos de carreira. Bernard Trontin juntou-se a eles, substituindo Bagnoud, em 1997.

Pioneiros no seu género, os The Young Gods influenciaram muitos artistas que ultrapassaram em muito o seu próprio nível de fama, tornando-os uma referência essencial do underground. David Bowie, Nine Inch Nails, Ministry: todos veneram a prolífica banda suíça que, ao lado de outro monumento da música industrial (a banda alemã Einstürzende Neubauten), representa um dos pilares fundamentais do rock experimental e atmosférico.

Para esta edição de 2026 do Hellfest, tomam conta do palco Valley para um dos concertos mais memoráveis ​​do festival. Uma experiência imperdível trazida até si pela ARTE Concert.

Filmado a 20 de junho de 2026 no Hellfest Open Air Festival, Clisson.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A natureza cura-se quando deixamos de a envenenar


Notícias fantásticas! Desde 2018, após a proibição na França dos pesticidas neonicotinoides - aqueles infames produtos químicos que matam abelhas —, as populações de aves insetívoras, como chapins, pisco-de-peito-ruivo e melros, aumentaram de 2% a 3% em todo o país. Isso é o que mostra um novo estudo publicado em 15 de novembro de 2025 na revista Environmental Pollution.


Mas essa notícia merece uma pequena explicação. Primeiro, deixe-me lembrar que 19% - quase um quinto - das aves da Europa desapareceram em 40 anos. E isso acompanha logicamente o declínio dos insetos visados pelos pesticidas.

Mas, novamente, precisamos evitar a supersimplificação do problema. Nem todas as populações de aves são afetadas da mesma forma. Enquanto o número total de aves caiu 19%, as aves de áreas agrícolas diminuíram impressionantes 60%. A principal causa desse declínio é a agricultura intensiva. E você não precisa de mim para te dizer isso. É a agricultura que usa cada vez mais herbicidas, fungicidas e pesticidas, levando à destruição massiva de insetos, plantas e fungos.

Além disso, a expansão das lavouras e a destruição de áreas húmidas também tornam mais difícil para as aves fazerem ninhos e encontrarem alimento suficiente. As alterações climáticas também são um fator importante. A BirdLife afirma que uma em cada oito espécies de aves no mundo está atualmente ameaçada de extinção. Uma em cada oito!

Tudo isso para dizer que a melhora de 2% a 3% observada neste novo estudo que mencionei no início pode parecer minúscula, mas ainda assim demonstra o impacto imediato e mensurável de mesmo um pequeno esforço para causar um pouco menos de dano ao mundo vivo ao nosso redor.

sábado, 13 de junho de 2026

GENER8ION - Love and Tears, featuring Yannis Phillipakis

Letra
Out, out,
From the wall,
See it all fall.
And down, down around you,
All and out our way.

Out, out,
Seven feet tall,
Fool around then fall.
All, all around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven, seven,
Feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
From the wall,
See it all fall.
And down, down around you,
All and out our way.

Out, out,
Seven feet tall,
Fool around then fall.
All, all around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven, seven,
Feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven, seven,
Feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out...

A canção "Love and Tears" é uma colaboração artística marcante que une o projeto multimédia francês GENER8ION, liderado pelo produtor Surkin em parceria com o realizador Romain Gavras, à voz do músico luso-grego ou britânico Yannis Philippakis, conhecido como o vocalista da banda Foals. Esta fusão cultural resulta num estilo musical que transita pelo pop eletrónico alternativo e pelo indie dance, combinando uma produção eletrónica densa, com sintetizadores cinemáticos de travo french touch, à interpretação vocal crua e melancólica típica do indie rock. Toda a envolvência sonora é descrita como hipnótica e nostálgica.
Todo o álbum "Love and Tears" trata-se de uma instalação artística visual ambientada num futuro distópico no ano de 2034.A obra aborda a fragmentação social, a saturação emocional e o impacto da inteligência artificial/tecnologia na identidade humana.
O significado da canção expande-se através do seu conceito visual, funcionando como a faixa-título de um projeto mais amplo ambientado num futuro distópico. A obra aborda a fragmentação social, a saturação emocional e o impacto da tecnologia na identidade humana. No aclamado videoclipe, protagonizado pela atriz Charlize Theron, a câmara foca-se obsessivamente nas suas expressões faciais enquanto um motor de renderização digital a replica, transitando de uma euforia radiante para um desespero profundo. A letra, interpretada por Philippakis, reflete sobre o desejo e o isolamento, retratando a forma como o amor e a dor se transformam em espetáculo num mundo cada vez mais sintético e alienante.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

November Ultra - Silencio (feat. Patrick Watson)


Letra
Silencio
Yo te di el silencio
Pa' que tú entiendas
¿Cómo
Va la vida?
¿Cómo
Va la vida?

I lost my voice 'cause I talked too loud
Like an old friend that ain't hanging around
In this quiet while I do my best
But I can't stop making this shit up in my head
But that's alright, I think I see the light
Half of the time, and we're just talking to ourselves

And you want to explode
And let the world know
It's the middle of the night, you're all by yourself
Begging, praying, chasing, looking for a reason, won't you let it go?
'Cause you don't know
Then you take a bow, watch the quiet smile and say "Anyhow"

I've been too many lives
I've been too many tries
Too many times, losing my mind
Thinking about what I said last night
I think you like me better since I lost my voice
Something about this quiet

¿Cómo va la vida?
No sé si bien o mal, la vida sigue igual
Doy sentido a las palabras de la gente
And, ¿Cómo va la vida?
Si queries la verdad, me cuesta respirar
A veces ya no quiero levantarme
¿Cómo va la vida?
Oir sin escuchar, no sé qué preguntar
Hubiera deseado que me escuches

It was late last night, you know
I was laying in my bed
I just wanted to know
Well, how are you doing?

Woah, just let the quiet smile
All of the "I don't know why" s, you've already tried
You're breaking your mind, so you wave and walk by
Oh, just gotta let it go
Well, the funny thing is
They think you're smarter when you shut your mouth
Take a break from yourself while you wander around
You close your eyes with a quiet smile
Hmm-mm-mm

Escúchame
Escúchame

Significado da canção
A canção "Silencio", de Patrick Watson em colaboração com a artista francesa November Ultra, carrega um significado profundamente íntimo e transformador, tendo nascido de um momento de grande vulnerabilidade física e emocional. O tema central da obra gira em torno do poder da escuta, da humildade e da redescoberta de si mesmo através do silêncio forçado, servindo quase como uma reflexão espiritual sobre a comunicação humana.

A grande inspiração por detrás desta composição foi um problema de saúde real de Patrick Watson, que o deixou completamente sem voz durante cerca de três meses. Para um cantor e compositor que vive da sua expressão vocal, este episódio poderia ter sido catastrófico, mas acabou por se transformar numa lição de humildade. Watson partilhou que o silêncio lhe trouxe a constatação, com um toque de humor, de que falava demasiado no dia a dia. Ao ser obrigado a calar-se, percebeu que muitas das coisas que dizia não eram assim tão cruciais e que, frequentemente, passava mais tempo a falar sozinho do que a dialogar verdadeiramente com os outros.

Esta experiência mudou a sua forma de interagir com o mundo, revelando-lhe a arte de saber ouvir e a importância de dar espaço ao outro. Watson notou que, quando deixava de tentar preencher o vazio com palavras, as pessoas ao seu redor começavam a ocupar esse espaço com as suas próprias confidências e verdades. O silêncio forçado ensinou-o a ser um ouvinte muito mais atento e empático, levando-o à conclusão de que nos tornamos muito mais vulneráveis quando somos nós a falar do que quando nos limitamos a escutar.

A participação de November Ultra enriquece esta narrativa, uma vez que a artista trazia a sua própria bagagem de exaustão física e colapso vocal após uma longa digressão, precisando também ela de reaprender a respirar e a respeitar o silêncio do seu corpo. Cantada numa mistura de espanhol e inglês, a música abre com os versos "Yo te di el silencio / Pa' que tú entiendas", sintetizando a ideia de que o silêncio não é uma ausência de comunicação, mas sim o melhor presente que podemos dar a alguém — ou a nós mesmos — para que surja uma compreensão real e honesta. Em resumo, "Silencio" é um hino poético sobre encontrar beleza e clareza no vazio, aprendendo a calar o ruído do mundo para valorizar a presença genuína através da escuta.

domingo, 7 de junho de 2026

Vergonha do Dia D! Pete, do Pentágono, envergonha os nossos heróis caídos da Segunda Guerra Mundial na cerimónia da Normandia ao comparar os barcos dos migrantes à invasão aliada contra os nazis!


O secretário para os Crimes de Guerra, Pete Hegseth, teve um comportamento extremamente desrespeitoso na comemoração do Dia D, hoje, na Normandia, aproveitando o evento solene para promover uma retórica anti-imigrante.

Enquanto se encontrava nas praias sagradas onde as forças aliadas lançaram a maior invasão da história para libertar a Europa da ocupação nazi, Hegseth afirmou:

«Hoje, diferentes praias europeias são invadidas por diferentes ideologias perigosas. Em Espanha, Itália, Grécia e Bulgária, chegam barcos e homens. Quando é que as capitais europeias farão algo em relação a essa invasão? Ou será que já é tarde demais?» [aqui]

Meu Deus. O Dia D foi o momento em que as tropas americanas, britânicas, canadianas e outras forças aliadas arriscaram tudo para invadir aquelas praias e derrotar o fascismo. Um dia em que parecia realmente que o futuro do mundo estava por um fio.

Desvalorizar a 82.ª comemoração desse dia com posturas políticas xenófobas e sem sentido sobre a migração é simplesmente inconcebível.

Em nome do punhado de jovens heróis que ainda estão entre nós com 100 anos ou mais, pedimos desculpa em nome do povo americano.

Num dos locais mais sagrados e históricos do mundo, o trumpista Hegseth nem sequer conseguiu mostrar algum respeito básico pelos que morreram, deixando a política de fora, por uma vez.

Que vergonha, Pete. Cala-te, porco.

Testemunho de Robert Reich
Toda Verdade aqui

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Encontros Improváveis: Paul Éluard e Steven Mcloughlin


O perfume do espelho verde

A terra acorda vestida de azul,
Uma nudez de pétalas onde o vento se perde.
Não há caminhos entre as árvores,
Há apenas o olhar que se dissolve no infinito.

Eu toco na luz que atravessa as folhas,
Como quem toca nos teus cabelos ao amanhecer.
O bosque não esconde os seus segredos,
Exibe-os nesta tapeçaria de silêncio e cor.

Aqui, o tempo é um rio estagnado de flores,
Onde o rosa e o azul disputam a primazia da sombra.
Viver é este deslumbramento:
Ser árvore, ser haste, ser a claridade que nos salva.

O mundo é belo como um rosto reencontrado
No fundo de uma floresta que nunca termina.

Meu poema, baseado na leitura do livro Capitale de la douleur (1926), de Paul Éluard

Steven McLoughlin é um reputado artista britânico, nascido em 1970 em Derbyshire, Inglaterra, que se tem vindo a destacar no panorama da arte contemporânea pelo seu olhar único sobre as paisagens do Reino Unido. Maioritariamente autodidata, McLoughlin trabalhou durante vários anos no setor da arte comercial, um percurso que lhe permitiu consolidar uma extraordinária destreza técnica antes de se dedicar por inteiro à pintura de estúdio e de ar livre.

O seu estilo artístico insere-se num Impressionismo Atmosférico Contemporâneo. Mais do que uma reprodução literal ou fotográfica da realidade, o pintor procura captar o "estado de espírito" (mood) e a carga emocional de um lugar, deixando-se guiar pelas constantes mutações do clima e das estações do ano. As suas telas evocam uma profunda sensação de tranquilidade e nostalgia, convidando quem as observa a entrar na narrativa visual da obra, seja através de um caminho sugerido ou de uma clareira de luz.

No que toca à técnica, a luminosidade quase etérea que se observa em obras como Bluebell Forest é alcançada através de um processo minucioso. McLoughlin combina óleos e meios mistos, recorrendo frequentemente à técnica de vitrificação (glazing). Este método consiste na aplicação sobreposta de múltiplas camadas de tinta extremamente finas e translúcidas. Como resultado, a luz consegue penetrar estas películas e refletir-se a partir das camadas inferiores, conferindo ao tapete de jacintos-azuis e à folhagem das árvores um brilho vibrante, profundo e tridimensional que parece emanar do interior da própria tela.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Arnaud Rebotini - YOUTH! Take A Stand


Por restrições de idade o vídeo pode ser visto aqui


Melhor som aqui

Youth!
Take a stand
Youth!
Take a stand

It's time to rise up against your enemies
Murder and lies on TV
Time is running out for your future

Youth!
Take a stand
It's time to break down your walls

Youth!
Take a stand
Because the world is choked control
Manipulation of the canvas
It's time for you to refuse

Youth!
Take a stand
It's time to break down your walls

Youth!
Take a stand

Everything has to be erased and re-branded
Murder and lies on TV
We have to refuse
We have to fight for a new world
A new conception
High education
No more resignation
We have to refuse
Resist
Fight

We have to refuse
We have to fight for a new world
A new conception
High education
No more resignation
We have to refuse
Resist
Fight

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Omar Doom – Reflections (Feat. Arnaud Rebotini)


Melhor som aqui
Omar Doom é um ator, músico e pintor americano. Ele interpretou como Soldado de Primeira Classe Omar Ulmer no filme Bastardos Inglórios, de 2009, dirigido por Quentin Tarantino. Seu projeto musical atual é um projeto eletrónico/techno/EBM chamado Straight Razor

Arnaud Rebotini: é francês (nascido em Nancy). Rebotini é uma figura lendária da música eletrónica europeia, conhecido tanto pelo seu trabalho a solo com sintetizadores analógicos, como pela sua icónica banda de electroclash/synth-rock Black Strobe, além de ser um premiado compositor de bandas sonoras (como a do filme 120 Batimentos por Minuto).


O conceito central da música baseia-se no que os próprios artistas descrevem como uma descida à vaidade e à decadência. Os vocais, que surgem geralmente falados ou sussurrados de forma profunda e ameaçadora — uma marca muito característica do estilo de Arnaud Rebotini e Omar Doom —, giram em torno de temas como o duplo e a ilusão. Aqui, a própria palavra Reflections funciona num duplo sentido, referindo-se tanto ao que se vê no espelho através da obsessão com a imagem, a vaidade e a casca humana, quanto à própria reflexão mental sobre os erros cometidos e a passagem inexorável do tempo.

Além disso, este ambiente lírico constrói um mundo de sonho, ou talvez de pesadelo, feito de ouro, sombras e um pacto infernal. A narrativa aborda a ideia de se vender a autenticidade ou a própria alma em troca de poder, beleza ou ilusão, o que culmina inevitavelmente na decadência e na ruína psicológica. Por fim, a expressão "Meet us on the other side" surge como o grande mote da faixa, funcionando como um convite quase hipnótico e ritualístico para que o ouvinte se desapegue da realidade e decida entrar no universo obscuro da pista de dança underground que os dois produtores criaram.