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domingo, 4 de outubro de 2026

Faz mal deixar o gato ir à rua sozinho?


Gatos domésticos e a biodiversidade: o impacto silencioso na vida selvagem
Durante décadas, existiu o mito de que os felinos precisam de "liberdade" e de acesso à rua para terem uma vida plena e feliz. No entanto, a realidade atual desmente esta ideia. Deixar o seu felino passear sozinho e sem supervisão é, hoje em dia, um dos maiores riscos para a sua sobrevivência e, simultaneamente, uma ameaça silenciosa para o equilíbrio ambiental.
Embora o gato doméstico (Felis catus) seja um companheiro dócil dentro de quatro paredes, as suas garras e dentes escondem um predador altamente eficaz. Quando sai de casa, o seu instinto de caça permanece totalmente intacto. Ele não caça por fome, mas sim por puro reflexo natural. O resultado deste comportamento assume proporções alarmantes à escala global, com milhares de milhões de aves e pequenos mamíferos a perderem a vida todos os anos devido à predação felina.

O impacto global em números
Os números associados à predação felina são alarmantes. Um grande estudo internacional publicado na Nature Communications revelou que os gatos em liberdade consomem mais de 2.000 espécies de animais diferentes em todo o mundo, incluindo centenas que se encontram sob ameaça de conservação.
Apenas nos Estados Unidos, as estimativas apontam para a perda anual de aves - entre 1,3 e 4 mil milhões de indivíduos.  Mamíferos: entre 6,3 e 22,3 mil milhões de pequenos animais.

De acordo com dados analisados pela BBC News Brasil, esta pressão predatória contínua já associou os gatos à extinção moderna de pelo menos 63 espécies de aves, mamíferos e répteis.

A vulnerabilidade das ilhas e habitats isolados
O problema atinge proporções críticas em ecossistemas insulares. Como muitas espécies nativas evoluíram em ambientes sem a presença de mamíferos carnívoros rápidos, elas não possuem estratégias de defesa ou fuga eficazes. Em Portugal, este risco é visível em territórios como os Açores e a Madeira, onde projetos de conservação como o Natura@Night da SPEA monitorizam o impacto de gatos assilvestrados em aves marinhas vulneráveis, como as cagarras.

A realidade em Portugal Continental
A discussão ganha ainda mais relevância com os dados recentes do Primeiro Censo Nacional de Animais Errantes, coordenado pela Universidade de Aveiro em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O estudo confirmou a existência de cerca de 830 mil gatos errantes nas áreas urbanizadas do país.
Além da predação direta da fauna urbana, o ICNF alerta no seu canal oficial para outro perigo ecológico: a hibridização. O cruzamento de gatos domésticos abandonados com o raro gato-bravo (Felis silvestris) - uma espécie classificada "Em Perigo" de extinção em Portugal - ameaça a integridade genética da fauna selvagem nativa.

Os perigos invisíveis da rua para a saúde do gato e saúde pública
Os gatos domésticos não devem andar na rua sozinhos e sem supervisão devido a uma combinação de riscos graves para a sua própria segurança, para a saúde pública e para o equilíbrio do meio ambiente. [1, 2]
Os veterinários e as principais associações de bem-estar animal recomendam que vivam exclusivamente no interior (ou com acesso vedado) pelos seguintes motivos estruturais: [1, 2]

1. Riscos letais imediatos para o gato
A rua é um ambiente hostil para um animal domesticado. Os gatos com acesso livre à rua enfrentam perigos constantes que reduzem drasticamente a sua esperança média de vida: [1, 2, 3]
  1. Atropelamentos: é uma das causas mais comuns de morte súbita. Os gatos não têm perceção do perigo do trânsito automóvel. [1, 2, 3, 4]
  2. Envenenamentos: seja por ingestão acidental de químicos (como anticongelante de carros), raticidas ou plantas tóxicas, o risco de intoxicação é altíssimo. [1, 2]
  3. Maus-tratos e violência: infelizmente, os animais na rua estão expostos à crueldade humana, armadilhas ou ataques de cães. [1, 2]
  4. Lutas territoriais: os gatos são extremamente territoriais. As brigas com outros gatos de rua causam ferimentos graves, abcessos e infeções que necessitam de intervenção cirúrgica. [1, 2, 3]
2. Transmissão de doenças incuráveis
Mesmo que um gato seja vacinado, as saídas à rua expõem-no a vírus altamente contagiosos e fatais entre felinos. Estudos recentes mostram que gatos com acesso à rua têm taxas de doenças infeciosas semelhantes às de gatos totalmente errantes. Os principais riscos são: [1, 2, 3]
  1. FIV e FeLV: o Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV) e a Leucemia Felina (FeLV) não têm cura e são transmitidos facilmente através de mordeduras, arranhões ou partilha de fluidos na rua. [1, 2]
  2. Zoonoses (risco para os humanos): os gatos que andam na rua podem trazer para dentro de casa parasitas (pulgas, carraças, desinterias por vermes) e doenças transmissíveis ao ser humano, como a toxoplasmose e a raiva. [1, 2]
3. Destruição da biodiversidade local
Como vimos anteriormente, o instinto de caça do gato não desaparece por ele ter comida em casa. Um gato doméstico na rua torna-se um predador invasor que caça aves, lagartos e pequenos mamíferos nativos apenas por reflexo. Esta pressão ecológica contribui para o declínio de espécies protegidas e desequilibra a fauna urbana. [1, 2, 3, 4]

Medidas de prevenção e guarda responsável
A mitigação deste impacto silencioso não passa por diabolizar os felinos, mas sim por promover uma mudança de comportamento nos seus tutores. Algumas das recomendações estruturais apoiadas por especialistas incluem:
  1. Acesso controlado ao exterior: manter os gatos domésticos dentro de casa ou construir espaços exteriores vedados e seguros. Quem procura inspiração prática pode consultar várias Ideias para fazer um cercado externo (catios), que permitem adaptar janelas, pátios ou varandas para dar liberdade vigiada ao animal sem riscos.
  2. Estilo de vida enriquecido: para evitar o tédio e a ansiedade de estar apenas no interior, o tutor deve aplicar estratégias descritas num Guia de enriquecimento ambiental para gatos. Isto inclui a instalação de arranhadores altos, jogos de procura e o fornecimento de dietas ricas em proteína animal para satisfazer o reflexo natural de caça de forma segura.
  3. Controlo de populações de rua: apoiar os programas municipais de esterilização para travar o crescimento exponencial de colónias errantes. De acordo com o enquadramento legal de Detenção de Animais de Companhia do ICNF, a promoção da guarda responsável e o controlo destes animais em ambiente urbano (através de programas como o CED - Capturar, Esterilizar, Devolver) são passos cruciais para proteger tanto o bem-estar animal como a fauna selvagem nativa.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A ilusão do heroísmo: por que razão a caça aos troféus não tem lugar no século XXI

A recente publicação nas redes sociais por Kristi Noem, ex-Secretária de Segurança Interna dos EUA, posando triunfante ao lado de um alce morto por si com arco e flecha no Wyoming, reacendeu um urgente debate ético. Embora enquadrada como um momento de triunfo ao ar livre, a imagem ilustra um reflexo cultural preocupante: a celebração da morte de animais como uma conquista pessoal. No século XXI, as exibições públicas da caça troféu são inteiramente inaceitáveis. Se a caça ocorre sob quadros legais, deve ser realizada com discrição, contenção e solenidade, em vez de ser exibida como um espetáculo grotesco para validação nas redes sociais.

Note-se que no Estado de Wyomimg, regista uma sobrepopulação de alce canadiano em cerca de 25%, nas últimas duas décadas. 

Esta controvérsia com a caça ao alce não surge num vácuo, mas insere-se num histórico recente em que o tratamento de animais por parte de Kristi Noem foi centro de acesa polémica. Em abril de 2024, a divulgação de trechos do seu livro de memórias, No Going Back, gerou uma vaga de rejeição ao revelar que Noem tinha abatido a tiro a sua própria cadela de caça de 14 meses, Cricket, numa pedreira da propriedade, por a considerar "indomável" e incapaz de ser adestrada, além de ter abatido um bode na mesma ocasião. Ao tentar justificar o ato como uma prova da sua capacidade para tomar "decisões difíceis e pragmáticas" - uma narrativa calculada para projetar liderança política -, Noem enfrentou uma reação fortemente negativa de todo o espectro político. O episódio, que minou as suas aspirações políticas na altura, tornou-se um caso de estudo sobre os riscos de transformar a violência contra animais num espetáculo de firmeza.

A narrativa que envolve a caça com arco tenta frequentemente retratar o caçador como uma figura heroica envolvida numa busca exigente e ancestral. No entanto, ao remover este enquadramento romantizado, revela-se uma realidade profundamente diferente. A caça com arco baseia-se inerentemente em táticas de furtividade, camuflagem ou emboscada para atingir um animal desprevenido a curta distância - tipicamente entre 15 e 40 metros. Utilizar equipamento avançado de arcos compostos para disparar contra uma criatura desprevenida a queima-roupa não é um ato de bravura ou um duelo justo; é um ataque surpresa calculado que reflete cobardia em vez de valor.

Além disso, as tentativas de justificar a caça troféu sob o disfarce de controlo populacional ignoram soluções ecologicamente sólidas e muito superiores. Em vez de confiar em caçadores recreativos para gerir a dimensão dos rebanhos, a conservação da vida selvagem deve priorizar a verdadeira restauração ecológica, como a reintrodução de predadores de topo nativos em ecossistemas selecionados. O restabelecimento da dinâmica natural entre predador e presa regula as populações selvagens de forma sustentável, promove a biodiversidade e restaura o equilíbrio em paisagens danificadas - tudo isto sem reduzir a majestosa vida selvagem a meros adereços para uma fotografia.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quando uma morte pode ser evitada, ela deixa de ser um acidente e torna-se um fracasso coletivo


Por Julian Fernandez Quilez
Quando uma morte pode ser evitada, ela deixa de ser um acidente e torna-se um fracasso coletivo.
Há notícias que magoam especialmente, e esta, sem dúvida, é uma delas.
Como amante da natureza e fotógrafa que dedicou inúmeras horas a observar, documentar e admirar a fauna da nossa região, esta notícia me entristeceu profundamente. Meu coração se desolou ao saber que Urze, uma ibex feminina que representava a esperança de recuperação da espécie em nossa região, perdeu a vida junto com os seus dois filhotes em um barco de irrigação coberto de plástico na área de Isso.
Não posso evitar sentir uma imensa impotência. Não porque foi um evento imprevisível, mas precisamente porque foi uma tragédia que poderia ter sido evitada.
Urze chegou à área de Isso dois anos atrás equipada com um colar de rastreamento. Ela mal começou a sua nova vida quando perdeu o seu companheiro, Libre, um macho que morreu após ser atropelado na estrada perto do território onde ambos se haviam instalado. Apesar desse duro golpe, Urze avançou e conseguiu salvar a ninhada que estava no seu útero quando chegou à nossa região. Ela era um símbolo de esperança, prova de que o ibex estava lentamente voltando ao seu lugar, onde nunca deveria ter sido perdido.
A coisa mais triste é que essa tragédia foi totalmente evitável.
Barcos cobertos de plástico são verdadeiras armadilhas mortais. Suas superfícies lisas impedem qualquer possibilidade de escapar. Não são apenas lince, também mares, jardineiros, cervos, raposas, gatos, lagartos monitor, répteis, anfíbios e até mesmo pássaros de prédio que desempenham uma atividade de caça e que caem para beber ou tentam capturar alguma prática que está presa na água.
Não estamos a falar de um novo problema. Há anos, Castellana, a primeira lince feminina a chegar à área de Albatana, foi casada com um macho chamado Lucero. Ele também acabou se afogando em outro barco de plástico. Hoje, a história se repete.
Quantos outros animais têm de morrer antes de tomar medidas?
Não é suficiente lamentar quando uma desastre ocorre. É necessário prevenir. Existem soluções simples, econômicas e eficazes que já estão a ser usadas em muitos lugares e devem ser obrigatórias em todas as barcas de irrigação:
  1. Instale rampas de escape que permitam a qualquer animal que caia na água sair.
  2. Coloque redes ou redes de resgate nas laterais.
  3. Incorporar plataformas ou cordas flutuantes que servem como refúgio temporário até que o animal possa sair da barca.
  4. Instalar escadas e escapatórias flutuantes em cortiça 
  5. Adaptar todas as lagoas existentes e exigir que as novas se incorporem a esses sistemas desde a construção.
O custo dessas medidas é insignificante em comparação com a valorização de uma vida, e ainda mais quando estamos a falar sobre uma espécie cuja recuperação exigiu décadas de trabalho e um enorme investimento económico e humano.

Mas os barcos não são a única ameaça que continua a tirar vidas.
As estradas que cruzam ou fronteiram as áreas onde o lince vive continuam a ser um dos seus maiores inimigos. O companheiro do Urze morreu logo após se estabelecer na área. Dois anos depois, Urze e os seus filhotes morreram num barco. Duas tragédias diferentes com o mesmo comum denominador: ambas poderiam ter sido evitadas.
Portanto, além de adaptar barcos de plástico, é essencial agir nas estradas que cruzam os territórios desta espécie: 
  1. É necessário implementar reduções de velocidade nos pontos mais conflitivos
  2. Colocar sinalética animal
  3. Instalar radares, melhorar a identificação específica para a fauna 
  4. Construir cruzeiros de fauna com cercas que lhes permitam ir para onde for necessário. 
Não podemos continuar a esperar por cada nova morte para nos lembrar do que já sabemos.
A recuperação do lince da Ibéria exigiu décadas de esforço, milhares de horas de trabalho e milhões de euros em investimento público. Seria uma grande contradição voltar a eles para que possam continuar a morrer de ameaças que conhecemos perfeitamente e que têm uma solução. A conservação não termina quando um lince é libertado; começa no mesmo momento. Devemos garantir que possa viver e criar seus filhotes num ambiente seguro.
Também quero fazer uma reconhecimento muito especial aos Agentes Ambientais, cuja dedicação diária é essencial para o monitoramento, proteção e conservação do lince ibério. Graças ao seu trabalho, a recuperação desta espécie foi possível e continua a progredir. Mas nem mesmo o melhor trabalho de campo pode impedir mortes que dependem exclusivamente de nós colocarmos soluções onde sabemos que há um problema.

Este artigo não pretende procurar culpados, mas sim despertar consciências. É um apelo às administrações, às comunidades de caçadores, aos proprietários de barcos e a todos os órgãos competentes para agir agora. Porque conservar uma espécie não é apenas sobre reprodução e liberação; é sobre eliminar as ameaças que continuam a acabar com a vida dela.

Não pedimos o impossível. Pedimos a força de vontade. Instalar uma rampa de escape num barco, colocar uma rede, um cortejo flutuante ou reduzir a velocidade em uma trilha perigosa é muito pouco. O que é inestimável é a vida de uma espécie que temos tanto esforço para recuperar.

Escrevo estas palavras com grande tristeza, mas também com a esperança de que servirão para mudar as coisas. Espero que a morte de Urze, dos seus dois filhotes, do Libre, do Lucero e de tantos outros não seja apenas mais uma história de notícias, mas o impulso definitivo para tomar medidas reais e eficazes.
Que esta seja a última vez que tenhamos que chorar pela morte de um lince por razões que estavam nas nossas mãos para evitar. O lince ibércio merece algo melhor. A nossa natureza também. Por favor, partilhem isto, isso tem de mudar.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Mini models of the human brain are revealing how this complex organ takes shape

Artigo científico aqui

In many ways, the brain is a black box. While we’ve devised various techniques to measure and track its activity, scientists are still looking for ways to directly observe the brain as it develops. Such advancements could help us better understand conditions like autism spectrum disorder, schizophrenia, and Alzheimer’s.

One relatively recent development in this arena doesn’t involve human brains at all, but rather Petri dishes holding infinitesimally small clumps of tissue called organoids. First developed in 2013 by researchers in Austria, these structures have garnered the nickname “mini brains” because they form rudimentary models of the human brain.

Organoids begin as single cells, sometimes stem cells—but they could also begin as, say, skin cells that undergo a chemical process to become stem cells—before developing into a structure comprising millions of neurons. Developed organoids tend to represent specific areas of the brain, such as the thalamus, albeit more simplified because they’re not integrated within a larger system.

As more labs have adopted this methodology, they’ve created increasingly complex structures, including interconnected systems of organoids called assembloids. One of the most developed assembloids incorporates four different types of organoids to model a pain sensory pathway, connecting brain organoids to a spinal organoid.

As assembloids become more complex and incorporate more organoids, allowing scientists to model biological features like the pain sensory pathway, the technology gives rise to the question of eventual consciousness in organoids. Specifically, at what point is it unethical to continue using them to model disorders of the human brain?

Part of the issue is that consciousness and its genesis are difficult to define. “There is still substantial debate about both the definition of consciousness and, however defined, what methods could be used to measure it,” says Alta Charo, JD, professor emerita of law and bioethics at the University of Wisconsin Law School.

But as organoids—and even complex assembloids—currently exist, “We can comfortably say there is no reasonable possibility of anything remotely like consciousness,” says Charo.

Researchers who work with organoids emphasize that they don’t resemble cogitating, fully formed human brains. Even the term “mini-brain” is an anthropomorphizing misnomer. “These models are not miniature versions of the brain,” says neuroscientist Sergiu Pașca, MD, a professor of psychiatry and behavioral sciences at Stanford University. “They are simplified, developmentally immature, and lack many defining features of an actual brain,” including a system of blood vessels and sensory input. Pașca and his lab constructed the four-part assembloid that models a pain sensory pathway.

They’re so developmentally immature that these organoids contain at most only 0.002 percent of the neurons in a human brain, according to Madeline Lancaster, PhD, a developmental neurobiologist studying brain size and evolution at the Medical Research Council Laboratory of Molecular Biology in the UK. As such, scale and physical integration are two significant factors for Lancaster, who developed the first organoids during her postdoctoral work in Austria. “If technology arose that could enable organoids to develop to a much larger size, say 1,000-fold larger, and start to form the proper shape and structure, and be integrated in some sort of embodied context, then we should reconsider this,” she says.

Indeed, there are bodies of experts with eyes on organoids. In 2021, the U.S. National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine published a report addressing ethics and governance on three human brain models, including organoids. While the report states that they “do not meet any current criteria for consciousness and awareness,” as they become more complex it will “be essential to revisit these questions.” So, organoid consciousness isn’t on the table yet, but experts are very much keeping an eye out in case consciousness—or anything remotely like it—blips into existence.

Expert opinions aren’t the only ones worth keeping in mind. Considering public perception of organoids further complicates the ethics at play. John Evans, PhD, a professor of sociology and co-director of the Institute for Practical Ethics at U.C. San Diego, examines the public’s views on ethically complex topics. Regarding organoids, he has observed that a broader audience “thinks that organoids are an extension of an existing human,” retaining an “ephemeral connection” with the human who provided an organoid’s initial cells. This view, he says, is consistent with how the public regards donated blood, tissue, and solid organs.

Closer at hand than organoid consciousness, however, is the practice of implanting organoids into the brains of living animals. In 2022, Pașca and his team published a paper describing the first time human organoids were successfully transplanted and integrated into newborn rats, influencing their behavior as part of the brain. Animals like these are called chimeras, and the 2021 report describes them, too.

“Transplanting organoids into living animals does carry important ethical concerns, mainly around animal welfare,” Lancaster says. “That’s not because of the organoids themselves, but rather because of course animals do have those features of actual brains that we should care about and that suggest at least some level of consciousness.”

Likewise, Evans recognizes the greater ethical concern when it comes to involving animals, especially from a layperson perspective, and not just because of animal welfare. “While scientists and ethicists tend to not consider there to be a fundamental moral divide between humans and animals, the general public does,” he says. “Therefore, mixing humans and animals—particularly in the brain that is seen as the core part of the human—is more ethically fraught.”

Experts recognize the need for guardrails as this field rapidly progresses; Pașca, Charo, and Evans are all co-authors on a 2025 paper entreating the global scientific community to monitor this progress as it continues apace. But, as the 2021 report brings up, there are also positive ethics of continuing this research. Modeling the brain and its disorders could alleviate a great deal of suffering in the future, creating an ethical imperative to continue studying organoids.

“Their unique value comes from giving us access to human brain biology that is otherwise inaccessible,” says Pașca, “allowing us to study disease processes directly in human cells and tissues and to test potential therapeutics.”

terça-feira, 7 de abril de 2026

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

Porky (2021) por Andrea Lavery
Sobre a Pintora e o quadro
Andrea Lavery é uma conceituada artista que cresceu no ambiente rural de Newtown, Connecticut, EUA residindo e trabalha atualmente na zona costeira do mesmo estado. A sua trajetória artística é marcada por uma evolução orgânica e apaixonada; embora os seus registos biográficos privilegiem a experiência prática, a sua técnica revela um domínio consolidado dos meios tradicionais, fruto da sua formação académica com um Bacharelato em Belas Artes (BFA) pelo Paier College of Art, concluído em 1985.

O seu trabalho é amplamente classificado como Impressionismo Contemporâneo, um estilo que a própria define como "Happy Colorful Art". A temática da sua obra é profundamente inspirada pela natureza e pela vida selvagem, destacando-se as suas representações vibrantes de pássaros, abelhas, coelhos e flores. Através de pinceladas fluidas e expressivas, Lavery cria texturas ricas que privilegiam uma interpretação emocional e luminosa do objeto em detrimento de um realismo rígido.

Do ponto de vista técnico, a artista utiliza predominantemente óleos solúveis em água, recorrendo ao óleo de linhaça com a mesma propriedade para conferir transparência e fluidez às composições. Andrea Lavery é particularmente reconhecida por trabalhar em painéis de pequeno formato, nos quais consegue concentrar uma enorme densidade de cor e energia. O sucesso do seu estilo reflete-se não só em galerias, mas também no mercado de licenciamento, com as suas criações a serem aplicadas em tecidos (notavelmente para a QT Fabrics), impressões artísticas e diversos objetos de decoração.

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

O que diz a Ciência 
Apesar dos estereótipos de serem animais simplórios e desleixados, os porcos/suínos são animais extremamente inteligentes, limpos, emotivos e sociais.

A investigação contemporânea no domínio da etologia e da neurociência cognitiva tem demonstrado que os suínos (Sus scrofa domesticus) possuem uma complexidade neurocognitiva que rivaliza com a de primatas não humanos e cetáceos, destacando-se como uma das espécies mais inteligentes do reino animal. No estudo fundamental "Thinking Pigs: A Comparative Review of Cognition, Emotion, and Personality in Sus scrofa domesticus" (Marino & Colvin, 2015), os investigadores compilam evidências de que os porcos exibem uma memória a longo prazo notável e uma capacidade avançada de resolução de problemas. Um dos marcos desta inteligência é a compreensão da perspetiva espacial, demonstrada no estudo "Pigs learn what a mirror image represents and use it to obtain information" (Broom et al., 2009), onde os animais conseguiram utilizar espelhos para localizar alimento escondido, um indicador de processamento visual sofisticado.

Para além da inteligência lógica, os porcos manifestam uma vida social e emocional extremamente rica. A existência de empatia e contágio emocional foi documentada em "Indicators of positive and negative emotions and emotional contagion in pigs" (Reimert et al., 2013), revelando que estes animais não só sentem emoções complexas, como estas são influenciadas pelo estado de ânimo dos seus pares. Esta sensibilidade estende-se à interação com humanos e à capacidade de aprendizagem tecnológica, como comprovado pela recente investigação "Investigation of Video Game Play in Pigs" (Croney & Boysen, 2021), onde os suínos demonstraram competência na manipulação de joysticks para atingir objetivos num ecrã.

Contrariamente ao estigma popular, o porco é um animal instintivamente limpo; quando dispõem de espaço adequado, estabelecem áreas rigorosas para alimentação e repouso, mantendo-as afastadas das zonas de excreção. O comportamento de se refrescarem na lama é, na verdade, uma solução biológica engenhosa para a termorregulação e proteção dérmica, uma vez que a sua anatomia possui um número reduzido de glândulas sudoríparas. Em suma, a ciência moderna reitera que os porcos são seres sencientes, dotados de consciência social, capacidades cognitivas superiores e uma higiene comportamental que desafia preconceitos históricos.

Saber mais:

1. Pig Intelligence

2. From snout to tail, there’s more to pigs than meets the eye

3. No, Pigs Aren't Dirty

4. Eight Things You Probably Didn’t Know About Pigs

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Gigantes globais da carne são forçados a reduzir as alegações enganosas sobre o clima



No final de 2025, um acordo judicial histórico nos EUA colocou a gigante da carne Tyson Foods e as suas alegações climáticas exageradas sob um escrutínio sem precedentes.

O processo, interposto pelo Environmental Working Group (EWG) , representado pelo Animal Legal Defense Fund , Earthjustice, Edelson PC e FarmSTAND, questionou a promessa da Tyson de atingir emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa até 2050 e o seu marketing de "carne de bovino climaticamente inteligente", incluindo a linha Brazen Beef, agora descontinuada, anunciada como "a primeira carne de bovino amiga do clima com uma redução de 10% nas emissões de gases com efeito de estufa". O cientista ambiental Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, questionou a credibilidade científica de alegações tão precisas sobre as emissões e se os consumidores poderiam realmente ter a certeza de que os seus bifes teriam emissões mais baixas em comparação com os produtos de carne de bovino convencionais. Como parte do acordo, a Tyson concordou em deixar de descrever a sua carne de bovino como "emissões líquidas zero" ou "climaticamente inteligente" durante cinco anos, a menos que estas alegações sejam comprovadas por provas verificadas por especialistas, embora a empresa ainda insista que a decisão "não representa qualquer admissão de culpa".

Os dados destacados pelo EWG pintam um quadro negro das prioridades dentro da corporação: segundo o relatório, a Tyson gasta menos de 0,1% da sua receita anual em esforços de redução de emissões, principalmente em investigação, o que equivale a cerca de 50 milhões de dólares de um total aproximado de 53 mil milhões de dólares, enquanto gasta cerca de três vezes mais em publicidade . Durante este período, o EWG estima que as emissões de gases com efeito de estufa da Tyson superam as de países inteiros como a Áustria ou a Grécia, sendo que a produção de carne de bovino é, por si só, responsável por 85% da sua pegada de carbono.

O setor da criação de animais em geral continua a ser um dos maiores poluidores climáticos, com uma estimativa de 12% a 19% de todos os gases com efeito de estufa causados ​​pela atividade humana ligados aos animais explorados para alimentação, sendo a carne de bovino apontada como particularmente prejudicial. Outras corporações têm-se apoiado na marca “carbono neutro”, frequentemente sustentada por compensações em vez de cortes profundos na produção, enquanto a JBS, outro gigante global da carne, foi recentemente pressionada pelo procurador-geral do estado de Nova Iorque a baixar a sua mensagem de “Emissões Líquidas Zero até 2040” para uma mera “meta” ou “ambição” e a investir 1,1 milhões de dólares em programas de agricultura climática inteligente. Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, que há muito critica as chamadas narrativas sobre carne amiga do clima, acolheu bem o escrutínio, dizendo à Corporate Knights : "10% parece uma redução de emissões tão pequena que está bem dentro da margem de erro.
Duvido que alguém tenha informações que possam 'provar' que, quando um consumidor vai ao supermercado, está realmente a consumir menos 10% de emissões do que o bife que está ao lado." 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Craig, elefante ícone de Conservação da Natureza, morreu este fim-de-semana


Craig, o velho elefante que vivia no parque nacional de Amboseli, Quénia, morreu este fim-de-semana aos 54 anos de idade, aparentemente de velhice e devido ao desgaste da sua última série de molares. Este indivíduo era um símbolo, conhecido de muita gente

Apesar deste desfecho triste é positivo que Craig tenha conseguido ter uma vida longeva, a salvo das ameaças que continuam a pairar sobre esta espécie. As autoridades de conservação quenianas acompanharam a situação e tomaram as medidas para garantir que as presas deste magnífico animal, com 45 kg cada, não foram desviadas para fins ilícitos.

Fonte: Amboseli Trust for Elephants

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Rãs galáxia em risco de extinção devido a práticas fotográficas antiéticas


Cientistas da Sociedade Zoológica de Londres alertam para o possível desaparecimento das rãs galáxia de Querala, na Índia. Os resultados constam de um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Herpetology Notes.

As Melanobatrachus indicus, nome científico das rãs galáxia, são endémicas das florestas do sul da Cordelheira dos Gates Ocidentais, da Índia, mais concretamente da floresta tropical de Querala. Trata-se de pequenos anfíbios, do tamanho da ponta de um dedo e que se caracterizam pelas suas manchas reluzentes, usadas como forma de comunicação entre os espécimes.

É a “única representante” da sua subfamília no reino animal e está classificada como “vulnerável” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, desde 2020.

O seu habitat a ser conquistado por explorações agrícolas de café e chá.
Se uma investigação feita pelos autores do estudo em 2020 dava conta da existência de sete espécimes debaixo de “troncos caídos incrustados na serapilheira”, as buscas efetuadas em 2021 e 2022 não detectaram a presença de rãs galáxia na floresta.

Ao jornal britânico The Guardian, o investigador Rajkumar KP alerta para a destruição do micro-habitat destes animais. Um dos troncos estava “completamente destruído e fora do lugar” e a vegetação estava “pisada”.

Alerta para os perigos da prática fotográfica desregulada
De acordo com vigilantes locais, “grupos de quatro a seis fotógrafos visitaram o local” em várias ocasiões, entre junho de 2020 e abril de 2021. Tiraram fotografias com flash e tocaram nos espécimes encontrados para serem levados para locais mais “fotogénicos, como musgos e troncos”.

Numa das ocasiões, juntaram cinco espécimes, sendo que as visitas podem ter resultado na morte de dois deles, algo não confirmado pelo estudo. Cada sessão fotográfica durava cerca de quatro horas.

Apesar de tentarem impedir a entrada destes grupos, os fotógrafos utilizavam autorizações oficiais para terem acesso aos habitats protegidos.

Tendo em conta que estes animais respiram pela pele, que é ultrassensível, o estudo aponta para o perigo de dessecação dos corpos dos espécimes decorrente do uso de flashs e de transmissão de doenças provocado pela ausência de uso de luvas na captura dos animais.

O incidente chama a atenção para os riscos do turismo fotográfico desregulado, de acordo com Rajkumar, que coloca em causa espécies vulneráveis e a preservação dos seus habitats, assim como provoca alterações de comportamento dos animais e até a sua morte.

O estudo propõe medidas para “promover” práticas de fotografia de natureza “mais éticas”, como a inclusão de “conhecimento das práticas éticas na fotografia de vida selvagem para o procedimento de seleção de guias licenciados” pelo Ministério do Turismo e a elaboração de um código de ética que inclua “restringir a captura, manuseamento e perseguição” dos espécimes, assim como a minimização do uso de “luzes de alta intensidade”.

Também é proposta a penalização dos fotógrafos que não cumpram as medidas.

As restrições à fotografia na Índia não são inéditas, existindo já proibições na fotografia durante as épocas de acasalamento e de ninhos durantes competições fotográficas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Peter Singer- Libertação Animal

E-livro aqui

Como muitos dos debates internacionais que animam a opinião pública, as universidades e os intelectuais dos países mais desenvolvidos, o problema dos direitos dos animais tem passado despercebido em Portugal. Temos até o caso de Barrancos a lembrar-nos até onde a crueldade portuguesa pode ir em nome da tradição (como se qualquer tradição, só por ser uma tradição, devesse ser respeitada — afinal, também a escravatura era uma tradição milenar e foi abandonada). Com a publicação em Portugal da obra Libertação Animal, de Peter Singer, a Via Óptima vem dar aos portugueses a possibilidade de participar no debate internacional de ideias e de repensar algumas das suas convicções mais enraizadas. Esta obra foi originalmente publicada em 1975 e foi responsável pela vitalidade dos mais importantes movimentos em prol dos direitos dos animais. A edição a que agora temos acesso em português, traduzida por Maria de Fátima St. Aubyn, é a edição revista de 1990.

O livro tem 6 capítulos, dois prefácios (referentes às edições de 1975 e de 1990), três apêndices e várias fotografias ilustrativas do modo como os animais são tratados. Os apêndices apresentam uma útil bibliografia comentada, indicações que ajudam a viver sem pactuar com a crueldade para com os animais, e ainda uma listagem de organizações que, um pouco por todo o mundo, lutam contra o modo como tratamos os animais. O editor português incluiu nesta lista, e bem, referências a organizações congéneres portuguesas.

O primeiro capítulo é semelhante ao capítulo 2 da obra Ética Prática e tem por título "Todos os animais são iguais". Trata-se de discutir a ideia de igualdade e de mostrar que restringir esta ideia aos seres humanos é uma forma de "especismo" — um preconceito indefensável e semelhante em tudo ao racismo. A ideia de igualdade é muitas vezes mal compreendida pelo grande público. Pensa-se que as mulheres e os negros ou os ciganos têm os mesmos direitos que as outras pessoas por serem iguais às outras pessoas. Mas isto esconde ainda uma forma de racismo e de sexismo. Em primeiro lugar, os homens são muito diferentes das mulheres: têm sexos diferentes. Mas daí não se segue que os direitos das mulheres se subordinem aos direitos dos homens. Em segundo lugar, é óbvio que há pessoas mais inteligentes que outras. Newton ou Einstein ou Descartes foram mais inteligentes do que a maior parte de nós; mas daí não se segue que tenham mais direitos do que nós. Em conclusão: não é por os ciganos, negros, etc. serem iguais aos outros seres humanos que têm os mesmos direitos. É verdade que são realmente iguais, em termos genéricos, nomeadamente quanto à inteligência; mas mesmo que não fossem, isso não determinaria que tivessem menos direitos. Afinal, um deficiente mental não tem a mesma inteligência de uma pessoa normal, mas não deve ser discriminada por isso.

Quando compreendemos a igualdade correctamente, compreendemos que é difícil não a alargar aos outros animais; discriminar com base na espécie é tão aleatório como discriminar com base na etnia ou no sexo. O que é moralmente relevante para ter direitos é a possibilidade de sofrer. Dado que os animais podem sofrer, têm direitos. No primeiro capítulo, Singer procura mostrar que a correcta compreensão da noção de igualdade implica que os animais têm direitos, respondendo a muitas das objecções que é comum levantar neste ponto do debate: será que os animais sofrem realmente, ou serão meros autómatos incapazes de sentir dor por não terem alma, como defendia Descartes? Será que faz sentido falar de direitos dos animais quando eles não têm sequer a noção do que é um direito? Singer responde com imparcialidade, rigor e bonomia a estas e outras objecções.

O segundo capítulo, intitulado "Instrumentos para a investigação" apresenta a realidade das experiências científicas com animais. Tanto este capítulo como o seguinte baseiam-se em ampla documentação. O autor conduziu uma investigação sobre o modo como os animais são usados na investigação científica — e os resultados são surpreendentes. A ideia que se tem geralmente é que as experiências com animais permitem avanços importantes em medicina, o que ajuda a salvar vidas humanas. Isto é falso. Grande parte das experiências científicas com animais são levadas a cabo por psicólogos que estudam o comportamento dos animais em situações anormais. Por exemplo: colocam um cão vivo numa espécie de forno, o qual aquecem lentamente até o cão morrer por ser incapaz de suportar o calor. Dão choques eléctricos a ratos e cães, para determinar como reagem a situações de dor permanente. Grande parte deste capítulo consiste em descrever experiências deste género, com base nos relatórios publicados nas revistas da especialidade.

Além de grande parte das experiências com animais levadas a cabo pelos cientistas ser perfeitamente irrelevante para o progresso do conhecimento, não é também verdade que algumas experiências sejam determinantes para salvar vidas humanas. Na verdade, nunca tal coisa aconteceu; e o contrário está mais próximo da verdade. Alguns avanços médicos cruciais que salvaram milhares de vidas jamais teriam sido alcançados caso se baseassem em experiências com animais: "a insulina pode provocar deformações em coelhos e ratos pequenos, mas não nos seres humanos. A morfina, que actua como calmante nos seres humanos, provoca delírios em ratos" (p. 53). E a penicilina é tóxica para os porquinhos-da-índia.

A maior parte das pessoas que defendem os direitos dos animais estarão dispostas a concordar com os argumentos do autor até chegarem ao capítulo 3, intitulado "Visita a uma unidade de criação intensiva". Neste capítulo descreve-se a forma como os animais que comemos são tratados pelas modernas unidades de criação intensiva e o sofrimento a que são sujeitos. E é aqui que começam as dificuldades para o defensor dos animais, pois agora não se trata só de uma opinião sobre coisas que não o afectam; para ser consequente, o defensor dos direitos dos animais terá de deixar de comer animais, dado que é o nosso gosto por carne e peixe que determina o modo como os animais são tratados. O modo como as galinhas, os porcos e as vacas são tratados nas unidades de criação intensiva é descrito de forma imparcial, com base nas revistas da especialidade.

Dada a forma como os animais são tratados para produzirem carne, ovos e leite, que pode o defensor dos direitos dos animais fazer para ajudar a resolver a situação? O tema do capítulo 4, "Ser vegetariano", defende um estilo de vida vegetariano como resposta a esta questão, para que o defensor dos direitos dos animais não seja hipócrita e inconsequente, defendendo com palavras o que contraria nos seus actos: "É fácil tomar posição acerca de uma questão remota, mas os especistas, como os racistas, revelam a sua verdadeira natureza quando a questão se torna mais próxima. Protestar contra as touradas em Espanha, o consumo de cães na Coreia do Sul ou o abate de focas bebés no Canadá enquanto se continua a comer ovos de galinhas que passam as suas vidas amontoadas em gaiolas, ou carne de vitelas que foram privadas das mães, do seu alimento natural e da liberdade de se deitarem com os membros estendidos, é como denunciar o apartheid na África do Sul enquanto se pede aos vizinhos para não venderem a casa a negros" (p. 152).

Surpreendentemente, há ainda outras razões para abandonar o consumo de carne. A produção intensiva de animais para abate é, em termos ecológicos, um disparate. "São necessários cerca de 11 kg de proteínas em ração para produzir o 1/2 kg de proteína que chega aos seres humanos. Recuperamos menos de 5 % daquilo que investimos" (p. 155). As fezes dos animais que são produzidos para abate contribuem em larga medida para o efeito de estufa; as urinas contaminam os solos e os lençóis subterrâneos de água. A água é consumida em grandes quantidades pelos animais para abate, contribuindo assim para o esgotamento progressivo das reservas de água potável. "A água necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro" (p. 157). Os animais para abate são alimentados com rações que são produzidas a partir de cereais que os seres humanos podem consumir directamente, de forma muito mais vantajosa. "Se os americanos reduzissem o seu consumo de carne em 10 % durante um ano, libertariam pelo menos 12 milhões de toneladas de cereal, que […] seria suficiente para alimentar 60 milhões de pessoas" (p. 156).

O capítulo 5, intitulado "O domínio do Homem" procura dar conta das origens históricas do especismo. O pensamento grego, romano, islâmico e cristão é profundamente especista — coloca os animais fora da consideração moral, tratando-os como meros objectos inanimados. A ideia de ver um animal a sofrer e de explorar o seu comportamento nessa situação tem raízes antigas, subsistindo ainda nos dias de hoje em espectáculos como a tourada. Peter Singer acompanha a história do especismo, que começa a tornar-se cada vez mais difícil de sustentar, sobretudo depois de Darwin. Mas trata-se de um preconceito de tal modo enraizado que mesmo T. H. Huxley, um dos maiores defensores do darwinismo, compreendendo que não há um fosso biológico entre nós e os outros animais, continua a acreditar nele, resistindo à refutação do especismo. Mas "a resistência à refutação é uma característica distintiva de uma ideologia. Se os fundamentos de uma posição ideológica lhe forem retirados, encontrar-se-ão novas construções ou, então, a posição ideológica permanecerá suspensa, desafiando o equivalente lógico da lei da gravidade" (p. 197).

O capítulo final do livro, "O especismo hoje", apresenta objecções e respostas à causa dos direitos dos animais e alguns dos resultados prometedores a que já se chegou. Diz-se por vezes que os animais não podem ter direitos porque não têm deveres nem entendem o que é ter direitos. Mas os deficientes mentais e os bebés também não têm deveres nem compreendem o que é ter direitos — e no entanto têm direitos. Afirma-se também por vezes que os seres humanos não podem passar sem comer carne; mas isto é pura e simplesmente falso, como o atestam os milhões de vegetarianos saudáveis em todo o mundo. Também se coloca por vezes a questão de saber por que motivo nos devemos coibir de matar os animais para comer, se os animais se matam uns aos outros com o mesmo fim. Mas ninguém acha que podemos matar outros seres humanos para comer, apesar de sabermos que os animais matam seres humanos para comer se tiverem oportunidade de o fazer.

Libertação Animal é uma obra de leitura obrigatória. Pela clareza, seriedade e honestidade. Pelo rigor lógico. Pela inteligência dos seus argumentos. Está de parabéns a Via Optima. E quando uma editora está de parabéns, somos todos nós que ganhamos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Habita a Terra como ela te habita


"Caminho descalço para aprender o chão.
Cada grão de pó é um irmão mais velho
que me ensina a leveza do peso
e a gravidade das minhas escolhas.
A terra respira por baixo de mim,
larga e silenciosa,
como se guardasse no húmus
uma lei sem nome:
a de não ferir o que vive.
Toco nas pedras com as mãos abertas,
procuro nelas o fogo antigo
que nunca reclamou conquistas,
apenas lugar.
E penso que também eu devia ser assim:
habitar, não possuir.
O vento atravessa o vale —
não reclama nada,
apenas desloca o mundo com a sua suavidade.
Deixa-me limpo de excessos,
como tronco depois da chuva.
Então compreendo:
a força é um animal oculto que caminha sem pegadas,
e uma semente rasga o véu do subterrâneo
como um astro minúsculo acendendo luz
no ventre intacto da noite.
E quando a luz se deita sobre o campo,
percebo que o mundo é um corpo
que me empresta abrigo.
Em troca só me pede isto:
caminha suave,
não abras feridas
onde a vida se faz inteiro."
Joao Soares 03.12.2025

domingo, 30 de novembro de 2025

Islamismo, cães, gatos, FIFA e legislação sobre alimentação de animais de rua em Portugal


Marrocos estará a considerar o abate de 3 milhões de cães de rua antes do Campeonato do Mundo de Futebol de 2030 para "melhorar" a aparência da cidade. Os activistas dos direitos dos animais estão indignados. Cerca de 300 mil cães são mortos todos os anos, e este número tem aumentado desde que Marrocos foi escolhido como um dos países anfitriões.

A maioria dos muçulmanos acredita que os cães são animais impuros e, inclusive , procuram evitar todo e qualquer contato com eles, principalmente com a saliva do animal.
O engraçado é que essa crença, ao contrário do que muitos deles pensam, não está no Alcorão. O Alcorão (ou seja, Allah) não fala que os cães são impuros. O que acontece é que os muçulmanos seguem, além do Alcorão, suas interpretações: as Sunas e os Hadiths.

Sunas são as tradições e os ensinamentos transmitidos pelo profeta Muhammad (Maomé em português), que é o mais recente e último profeta do Deus de Abraão.

Hadith é um corpo de leis, lendas e histórias sobre a vida do profeta Muhammad. 

No fundo em todas as religiões do mundo há contradições e modificar uma postura incongruente e pouco ética de cada religião, demora o seu tempo.

Não deveria acontecer em parte nenhuma do mundo, infelizmente nuns países pior do que noutros e Portugal, não é exceção. Até há regulamentos municipais em Portugal que proíbem, com coimas, alimentar cães e gatos de rua.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

A beleza da Perdiz-Vermelha e o dilema invisível nos nossos campos

A natureza tem uma forma única de nos desarmar. Recentemente, cruzei-me com uma imagem que me fez parar: uma perdiz-vermelha (Alectoris rufa), com o seu colar preto bem marcado e o bico de um vermelho vivo, a caminhar livremente pelo campo. Completamente selvagem e alheia ao mundo dos humanos. É uma imagem pacífica, mas para quem conhece a realidade do nosso mundo rural, ela traz consigo um dilema profundo. À medida que as temperaturas descem e o mês de outubro avança, os campos portugueses ganham uma nova dinâmica com a abertura da época venatória. É o momento em que a tradição e a conservação colidem.

A caça à perdiz-vermelha é considerada por muitos o pináculo da caça menor em Portugal. O "arranque" - o voo súbito, ruidoso e extremamente rápido da ave quando se sente encurralada - exige reflexos rápidos e perícia por parte do caçador. Nesta atividade, o papel dos cães é absolutamente central. Raças excecionais como o nosso autóctone Perdigueiro Português ou o ágil Epagneul Breton são fundamentais no terreno através de duas funções principais: a parada, onde o cão deteta o odor da ave e paralisa no terreno, apontando a sua direção; e o cobro, que acontece após o disparo, quando o cão localiza e traz a ave de volta, evitando que esta se perca inutilmente no mato.

Por trás da perícia da caça esconde-se, contudo, uma ameaça invisível: as munições de chumbo. Durante décadas, toneladas de pequenos bagos de chumbo foram acumulando-se nos solos, gerando um impacto ambiental devastador. Este problema manifesta-se sobretudo através do saturnismo, que ocorre quando as aves confundem o chumbo com pequenas pedras necessárias para moer o alimento no moageiro e o ingerem, sofrendo uma morte lenta por envenenamento. Além disso, assiste-se à contaminação da cadeia alimentar, dado que os predadores que consomem estas aves, bem como os humanos que comem a sua carne, acabam por acumular este metal pesado no organismo.

Para combater este cenário, a União Europeia implementou restrições severas. Atualmente, segundo as diretrizes da Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA), é totalmente proibido o uso de chumbo em zonas húmidas e num raio de 100 metros destas, forçando a transição para alternativas ecológicas como o aço ou o tungsténio. No entanto, a transição em Portugal ainda enfrenta resistência no terreno devido ao custo dos novos cartuchos, à incompatibilidade com espingardas mais antigas e à complexidade da fiscalização por parte das autoridades.

Perante este cenário, muitos ponderam a criação de perdiz-vermelha em cativeiro para consumo alimentar ou repovoamento. Embora seja uma atividade legal, o processo está longe de ser simples. Para avançar, o criador enfrenta um labirinto burocrático que exige licenciamento junto do ICNF para a detenção de espécies cinegéticas, além do cumprimento das estritas normas sanitárias,  e de bem-estar animal exigidas pela DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária). Esta enorme barreira burocrática e financeira muitas vezes afasta os pequenos produtores locais, que gostariam apenas de desenvolver um negócio artesanal.

Em meados de outubro, com a época de caça oficialmente aberta - cujos períodos regulamentares podem ser consultados em detalhe no Calendário Venatório do ICNF -, os nossos campos tornam-se o palco deste eterno braço de ferro entre a exploração dos recursos e a conservação da biodiversidade. Ao olhar para a perdiz selvagem da fotografia, o meu desejo imediato era que o mundo não olhasse para tudo o que é belo apenas como um recurso regulado, licenciado ou consumível. Proteger a natureza e garantir que estas aves continuem a voar livres e sem a ameaça de contaminação nos nossos campos não devia ser um dilema burocrático ou cultural - devia ser a nossa única escolha.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Michal Swider


Biografia

Só me ocorre palavras mais profundas e que desapareceram: ética ambiental, consciência animal e ecologia profunda. O economês e a alquimia que isso provoca é sedutora e ecocida.
Resta-me a arte e literaturae e o activismo.

sábado, 27 de maio de 2023

Documentário: Punk Rock Vegan Movie


"Punk Rock Vegan Movie” explora as ligações entre o punk e o veganismo e conta com as participações de Dave Navarro, Rob Zombie ou Ian MacKaye. Moby sabe do que fala: tem um passado no punk ‘hardcore’.

O documentário foi escrito e realizado pelo próprio Moby, que também se encarregou da banda-sonora, e contém entrevistas com nomes como Rob Zombie, dos White Zombie, Dave Navarro, dos Jane's Addiction, e Ian MacKaye, dos Fugazi, entre outros.

Moby é há muito ativista pelos direitos dos animais, tendo-se tornado vegetariano em 1984 e vegano em 1987. Em declarações ao “NME”, o músico revelou que o seu mundo se alterou quando os Vatican Commandos, banda hardcore punk da qual fez parte, passou uma noite numa casa ocupada vegana. “Tinha 15 anos e nem sequer sabia o que era um vegano”, disse.

“Punk Rock Vegan Movie” tem a duração de 1h30 e está disponível, na íntegra, no YouTube. “O realizador e os produtores esperam que ninguém pague para ver este documentário, já que é fruto de amor e ativismo”, pode ler-se na legenda no vídeo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Da tenacidade germânica vs. lusa- estudo de caso Frankfurt


Frankfurt, sede do Banco Central Europeu (BCE)  estive há 20 anos atrás e fui recentemente até lá. O rio Meno limpinho, mais espaços para os peões, uma cadeia de produtos biológicos famosa na Alemanha,  capaz de competir com lojas comerciais do tamanho da "nossa" Auchan, por exemplo: trata-se da Alnatura. Marca alemã (com sede na cidade de Darmstadt) que como o próprio nome indica os produtos comercializados são naturais, biológicos e com várias secções dedicadas a intolerantes (sem glúten e sem lactose). 
Portanto, mesmo com uma pressão enorme como um ponto fulcral do espaço aéreo da Europa, os germânicos pensam e fazem à séria a sustentabilidade das suas cidades. É uma cidade "cara" certo, mas o dinheiro vemos no reflexo na qualidade de vida das suas gentes. Frankfurt  é incomparável com Lisboa. Ultrapassa Lisboa em muitos scores. Em Frankfurt as pessoas são respeitadas! Em Lisboa? É que vemos....cidade triste, cada vez com menos árvores. Hoje leio que em Aveiro fechou "A Salineira Aveirense" que iniciou atividade há cerca de 70 anos. Refere que a falta de sal é um dos motivos para o fecho do único espaço que se dedicava à venda de sal. No "Allgarve"  luta ambiental longa de 7 anos Alagoas Brancas  quando a vida selvagem pode ser substituída por um retail park. Demorou muitos anos, mas vencemos!  . O rio Tejo? Ninguém quer saber...Em Portugal não saímos da cepa torta!!