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sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Aegithalos

Chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus)

Aegithalos

Um pêndulo delicado balança sobre a casca de musgo,
envolto numa mistura suave de rubor, carvão e neve.
O horizonte é perseguido por uma sombra rasteira de penas,
enquanto um coro de sussurros prateados agita os bosques adormecidos.
Quando a geada chega, o calor encontra-se num amontoado cerrado de asas,
antes que um ímpeto súbito de voo acrobático se disperse pela copa das árvores.
A pequena bolinha escura captura a imensidão da floresta,
sonhando secretamente com um universo escondido num único pedaço de líquen.

domingo, 3 de maio de 2026

Floresta: Portugal vai buscar insetos ao outro lado do mundo para salvar 3.000 milhões de euros por ano de exportações


Um escaravelho minúsculo, mas voraz, está a preocupar o setor florestal português. A traquimela - uma praga que se alimenta das folhas de eucalipto — ameaça um dos pilares das exportações nacionais: a fileira da pasta e do papel vale mais de 3.000 milhões de euros por ano.

A resposta está a milhares de quilómetros. Na Austrália, origem do eucalipto e também das suas pragas, investigadores portugueses procuraram aliados naturais: insetos que se alimentam da traquimela. No final do ano passado, cerca de 200 exemplares foram trazidos para Portugal e estão agora em quarentena, sob vigilância apertada.

O objetivo é simples, mas o processo é tudo menos trivial: garantir que estes “insetos bons” atacam exclusivamente a praga e não colocam em risco outras espécies ou culturas. “Como estamos a introduzir uma espécie nova, temos que ter a certeza que esse bicho só vai atacar a praga que nós queremos destruir”, explica Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Em laboratório, a estratégia passa por simular o que acontece na natureza. Os investigadores criam a traquimela e expõem os potenciais predadores a diferentes espécies, incluindo insetos autóctones, para testar o seu comportamento alimentar.

A lógica segue um princípio conhecido como controlo biológico: combater uma praga com os seus inimigos naturais, evitando o recurso a químicos e tentando reequilibrar o ecossistema. “Vamos buscar à Austrália porque o eucalipto é de lá. As pragas são de lá e os insetos benéficos também”, resume a especialista em proteção de plantas e florestas.

O instituto RAIZ, criado pela Navigator, tem duas décadas de experiência neste tipo de intervenção — e já ajudou a resolver outras pragas em Portugal. Mas cada nova introdução exige testes demorados e rigorosos.

Só depois de meses - por vezes anos - de validação é que estes aliados improváveis podem ser libertados no terreno.

“Um inseto importado evitou que a cultura de eucalipto fosse completamente destruída”
Para compreender melhor a importação de armas biológicas da Austrália, a CNN Portugal entrevistou Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Há quanto tempo vamos buscar bichos à Austrália?
Os primeiros trabalhos na Austrália aconteceram em 2008. Os primeiros insetos foram importados em 2009. Desde então temos ido regularmente à Austrália, tendo a última vez sido em final de 2025, para procurar insetos contra uma praga que está a ser muito destrutiva, chamada traquimela, e para uma planta invasora, a acácia mimosa.

Esses imigrantes já foram espalhados pela floresta?
Sim. Já libertámos na natureza três espécies. Todas passaram por vários anos em quarentena, para testes. Só depois foram libertadas, com as autorizações das entidades competentes. Atualmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Com que resultados?
Os resultados têm oscilado entre o sucesso total, em que a praga que queremos controlar deixou de ser um problema, e um caso em que o inseto benéfico não conseguiu competir com outro que já estava estabelecido. Ou seja, não causou danos, mas também não teve uma contribuição significativa. Há um caso extremo de sucesso de um inseto, o ‘Anaphes nitens’, contra o gorgulho-do-eucalipto, que é um verdadeiro caso de estudo a nível mundial. Em Portugal, há um estudo científico que coloca o benefício deste inseto em, pelo menos, 1,8 mil milhões de euros. Na prática, este inseto foi a diferença entre ser possível produzir eucalipto em Portugal ou ter a cultura completamente destruída pela praga. Importa ainda referir que os insetos podem ser eficazes sozinhos ou complementarmente com outras técnicas de controlo das pragas, como o uso de plantas resistentes (o chamado melhoramento genético) ou boas práticas de silvicultura.

Colaboram com universidades?
Felizmente, temos uma rede de parcerias de luxo. Começámos por trabalhar com a Navigator Forest Portugal, a Altri Florestal e com o Instituto Superior de Agronomia. Com o tempo fomos alargando as parcerias, que incluem hoje também a Universidade de Coimbra, a Escola Superior Agrária de Coimbra, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a ENCE (Espanha), a University of the Sunshine Coast (Austrália), a CSIRO (Austrália), Servicio Agrícola y Ganadero (Chile), o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Uruguai), o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Brasil), entre outros.

Como articulam a vossa atividade com o Estado?
Trabalhamos sempre com acompanhamento e supervisão do ICNF.

Oferecem ou vendem as espécies importadas a terceiros?
Não vendemos insetos, mas doamos a quem nos contacte através das equipas de apoio aos produtores. A estratégia é sempre libertar o máximo viável dentro das possibilidades de criação e ter como objetivo o benefício da floresta em geral. É normal que boa parte das áreas beneficiadas com o controlo biológico sejam de terceiros, frequentemente de pequenos produtores, que muitas vezes não têm acesso a outras formas de controlo, como as plantas resistentes.

sábado, 21 de março de 2026

O bom exemplo do bilionário Tim Sweeney, que trocou os iates pela Floresta


Tim Sweeney - O exemplo raro de Capitalismo de Conservação  

Enquanto a maioria dos bilionários gasta fortunas em iates de luxo, ilhas privadas ou na corrida ao espaço, Tim Sweeney, o CEO da Epic Games (criador do Fortnite e do Unreal Engine), está a trilhar um caminho solitário e admirável: a proteção permanente da biodiversidade.

Sweeney tem investido silenciosamente centenas de milhões de dólares na compra de vastas áreas de floresta na Carolina do Norte. O seu objetivo? Impedir o betão. Ao contrário de outros investidores, Sweeney utiliza mecanismos legais conhecidos como conservation easements (servidões de conservação) para garantir que estas terras nunca sejam alvo de construção ou exploração madeireira, protegendo-as para as gerações vindouras.

O que torna esta estratégia única?
Proteção contra infraestruturas: em 2016, Sweeney comprou a área de Box Creek Wilderness (cerca de 2.800 hectares) apenas para impedir que uma empresa de energia passasse uma linha de alta tensão através de um ecossistema sensível.

Doação histórica: em 2021, realizou uma das maiores doações de terra privada na história dos EUA, transferindo cerca de 3.000 hectares em Roan Highlands para uma organização de conservação, garantindo que o público possa usufruir da natureza intocada.

Filantropia de legado: com mais de 20.000 hectares já protegidos sob a sua influência direta, Sweeney é hoje um dos maiores conservacionistas privados do mundo.

Numa era em que o impacto ambiental é tantas vezes ignorado pelo lucro imediato, Sweeney demonstra que o verdadeiro poder da tecnologia pode — e deve — ser usado para salvar o mundo biológico. Como ele próprio afirmou, a terra protegida durará muito mais do que qualquer código de programação.

Fontes e leitura adicional (em inglês):

No dia 21 de março, quando se assinala o Dia Mundial da Floresta, o retrato da agricultura nos territórios vulneráveis em Portugal está longe de ser verdejante


Falta de incentivos públicos compromete mosaico agroflorestal que previna fogos rurais. Apesar do aumento de apoios públicos à agricultura entre 2020 e 2023, a gestão ativa do território em Portugal diminuiu drasticamente. Desapareceram cerca de 800 mil hectares de áreas agrícolas declaradas (quase metade), enquanto o número de agricultores se manteve estável, indicando que há mais dinheiro, mas menos território gerido. 
A nova portaria que apoia o pastoreio extensivo (fundamental para reduzir combustível vegetal) vê-se limitada porque faltam pastores. O rácio de agricultores com mais de 65 anos por jovem (menos de 35) subiu de 14 para 1 em 2020, para 19 para 1 em 2023. 
Sem gestão ativa (pastoreio) e sem renovação geracional, o território torna-se acumulador de vegetação, comprometendo o mosaico agroflorestal, que é uma das principais defesas contra os incêndios rurais. 
A Zero crítica a natureza temporária dos apoios (limitados a 2026), defendendo que a prevenção de incêndios exige estratégias de longo prazo, não soluções avulsas dependentes de ciclos políticos. Propõe-se a criação de um rendimento equivalente a um Indexante dos Apoios Sociais para jovens agricultores em territórios vulneráveis. Fonte

domingo, 1 de março de 2026

O esverdeamento global (global greening) está a deslocar-se para Nordeste

Para visualizar melhor aqui

Um novo estudo liderado pelo Centro Alemão de Investigação Biológica Integrativa (iDiv), pelo Centro Helmholtz de Investigação Ambiental e pela Universidade de Leipzig revelou que a "onda verde" da Terra — o indicador da saúde e atividade da vegetação — está a deslocar-se gradualmente para nordeste. 
Através de um método inovador que calcula o centro de massa da vegetação global, os cientistas conseguiram monitorizar como a densidade das folhas verdes se move pelo planeta ao longo das décadas. Para ilustrar o conceito, o autor principal, Miguel Mahecha, sugere imaginar um globo com pequenos pesos aplicados em cada ponto onde existe vegetação; ao colocar esse globo na água, o centro de massa apontaria sempre para baixo, permitindo seguir a sua oscilação.
Utilizando observações de satélite e modelos de dados, a equipa descobriu que este "centro verde" oscila anualmente entre a Islândia, em meados de julho, e a costa da Libéria, em março, seguindo o ritmo das estações. 
No entanto, a análise de longo prazo revelou uma tendência preocupante e inesperada: um desvio consistente para norte em todas as estações do ano. Ao contrário do que previam, os investigadores não observaram um desvio compensatório para sul durante o verão do Hemisfério Sul. Esta mudança parece ser impulsionada por invernos mais amenos e épocas de crescimento mais longas no Hemisfério Norte, que permitem que a vegetação permaneça verde por períodos mais extensos.
Além do movimento para norte, o estudo identificou uma deslocação nítida para leste, fenómeno que os especialistas associam a focos de esverdeamento intenso em regiões como a Índia, a China e a Rússia. Este processo de "esverdeamento global" é amplamente influenciado pela atividade humana, uma vez que o aumento do CO2 atmosférico funciona como um fertilizante que potencia a fotossíntese, enquanto a subida das temperaturas altera os ciclos biológicos. Este novo método de monitorização oferece agora uma ferramenta crucial para compreender como a superfície viva do planeta se está a reorganizar face ao aquecimento global, ligando fatores como a migração animal, a dinâmica de incêndios e as interações entre a biosfera e o clima.
Este novo método de monitorização funciona como um termómetro visual da saúde do planeta, mostrando que a Terra não está apenas a aquecer, está a transformar-se fisicamente.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

The Veins of the Earth


"It is not "water" that moves here,
but the mountain’s cold blood
seeking the lowest prayer.

The white rush of the stream
is the only clock that matters,
carving a dialogue between stone and gravity
long before we learned to speak.

Look at the moss—
those emerald lungs clinging to the bark.
The tree does not own the moss,
nor does the moss steal from the tree;
they are a single, breathing yes
to the dampness of the world.

We stand on the ridge,
clinging to our names and our borders,
while the ivy bridges the gap
between the root and the sky.

Under the floor of copper leaves,
the mycelium whispers in the dark,
proving that to be alone is an illusion
we invented to feel important.

The forest does not look at you.

It invites you to be quiet enough
to hear your own heart beating
in sync with the falling water,
until you can no longer tell
where the wood ends
and you begin. "

João Soares, 14.02.2026

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Tabernis - Carmen Reginarum


“Carmen Reginarum” tem origem no latim e significa literalmente “Canção das Rainhas”. A palavra carmen era usada no latim clássico para designar um canto, poema ou recitação com valor ritual, poético ou até mágico, enquanto reginarum é o genitivo plural de regina, “rainha”, indicando “das rainhas”. O título não corresponde, ao que se conhece, a um texto medieval específico ou a uma composição histórica documentada, sendo antes uma construção latina de caráter evocativo. No contexto da música de Tabernis, a expressão funciona como um recurso estético e simbólico, remetendo para um imaginário medieval, feminino e ritual, em sintonia com o estilo dark folk e de inspiração histórica do projeto.

Segundo descrição da banda:
Na quietude da natureza selvagem, a Colmeia desperta. Entre pedra, vento e sombra, os nossos instrumentos falam a língua do mundo antigo. Deixe a floresta testemunhar. Deixe o enxame guiá-lo. Se este caminho ressoa consigo, junte-se à Colmeia e desperte connosco.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Maria durch ein Dornwald ging e significa literalmente: “Maria caminhou por um bosque de espinhos.”


Esta frase é o primeiro verso de um cântico tradicional alemão de Advento/Natal, muito antigo (século XVI). A canção descreve Maria a caminho do nascimento de Jesus, atravessando um bosque seco e cheio de espinhos.
Significado simbólico:
1. O bosque de espinhos representa dificuldades, sofrimento e esterilidade.
2. Quando Maria passa por ele, o bosque floresce, simbolizando a esperança; o milagre do nascimento de Cristo e a vida que surge onde antes não havia.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Emilia Milcheva


Emilia Milcheva (pintora Búlgara, nascida em 1972) -"Better walk that lane"

A sua arte é fortemente inspirada pela natureza — paisagens, campos, flores, céus — transformadas em composições por vezes oníricas, recolhendo harmonia e serenidade da natureza. 
Técnicas e abordagem: Trabalha principalmente com óleo e acrílico sobre tela. Prefere representar cenas naturais — campos, florestas, céus, flores — evocando sensações de tranquilidade, liberdade e contemplação.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

UE afasta alterações ao regulamento que proíbe produtos que causem desflorestação



Os negociadores do Parlamento e do Conselho chegaram a um acordo político provisório para adiar a aplicação do Regulamento Europeu de Desflorestação (EUDR), para ser aplicado pelos Estados-membros a partir de dezembro de 2025. Porém, afastam as alterações de atenuação do mesmo propostas pelos legisladores da União Europeia (UE).

O EUDR estabelece a proibição de comercialização na UE de produtos que causem desflorestação no mundo e que impactam produtos como óleo de palma, gado, madeira, café, cacau e soja.

Os grandes operadores e comerciantes terão agora de respeitar as obrigações deste regulamento a partir de 30 de dezembro de 2025, e as micro e pequenas empresas a partir de 30 de junho de 2026. Este tempo adicional destina-se a ajudar as empresas de todo o mundo a implementar as regras de forma mais suave desde o início, explica o PE em comunicado.

"Prometemos e cumprimos. Este adiamento significa que as empresas, os silvicultores, os agricultores e as autoridades terão mais um ano para se prepararem. Garantimos que a Comissão irá concluir a plataforma online e a categorização dos riscos no prazo de seis meses, garantindo mais previsibilidade em toda a cadeia de abastecimento", refere a relatora do Parlamento, Christine Schneider, em comunicado. E acrescenta: "Uma avaliação de impacto e uma maior simplificação deverão seguir-se na fase de revisão para os países ou regiões de baixo risco, proporcionando aos países um incentivo para melhorarem as suas práticas de conservação florestal".

A votação do acordo informal entre os colegisladores será incluída na ordem de trabalhos da próxima sessão plenária do Parlamento (16-19 de dezembro). Para que o adiamento entre em vigor, o texto acordado terá de ser aprovado pelo Parlamento e pelo Conselho e publicado no Jornal Oficial da UE antes do final do ano.

Recorde-se que a Comissão apresentou a sua proposta de adiamento da data de aplicação do regulamento relativo à desflorestação em resposta às preocupações manifestadas pelos Estados-membros, países terceiros, comerciantes e operadores de que existia o risco de não poderem cumprir plenamente as regras até 31 de dezembro de 2024.

No decorrer do ano de 2024, foram várias as vozes que se levantaram contra as novas normas. A indústria de café, por exemplo, manifestou que teria dificuldades em cumprir os prazos. Também os ministros da Agricultura de 20 dos 27 países-membros da UE apoiaram um apelo da Áustria para rever o regulamento. Os países produtores de café também criticaram o regulamento, afirmando que era discriminatório e que poderia acabar por vedar o acesso dos pequenos agricultores ao lucrativo mercado da UE. Também os secretários do Comércio e da Agricultura dos Estados Unidos tinham pedido à UE um adiamento da proibição de importação de produtos ligados à desflorestação, argumentando que colocava desafios críticos aos produtores norte-americanos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Jornalismo Florestal - Prémios PINUS distinguem reportagens da RTP e da Antena 1


O prémio pretende distinguir o trabalho jornalístico que, pela qualidade e originalidade, contribua para um maior conhecimento sobre a importância ambiental, económica e social das florestas.

Assim, o Primeiro Prémio de Reportagem Diária foi para um trabalho de Daniela Santiago, Manuel dos Santos, Fábio Siquenique e Joana Melo, sobre o valor da Floresta e o Circuito do Carbono

O Primeiro Prémio de Grande Reportagem foi para um investigação do programa A Prova dos Factos, de Emanuel Boavista, com Paulo Maio Gomes e Guilherme Terra, sobre o facto de as verbas europeias para a floresta não chegarem ao terreno.

A RTP recebeu ainda uma Menção Honrosa para outra peça do programa A Prova dos Factos sobre o abandono do Pinhal de Leiria, também de Daniela Santiago.

A reportagem da Antena 1 sobre as Florestas Miyawaki recebeu igualmente uma Menção Honrosa. Esta distinção foi atribuída à jornalista Arlinda Brandão.

Esta é considerada "uma oportunidade para reforçar o reconhecimento do jornalismo como serviço público e celebrar a importância da floresta", segundo o promotor da iniciativa.A cerimónia da 7ª edição do Prémio Centro PINUS - Jornalismo Florestal teve lugar no Clube de Jornalistas, em Lisboa.

O Prémio Centro PINUS de Jornalismo Florestal é atribuído bianualmente e, segundo a organização, "pretende homenagear os jornalistas e as peças que aproximem a floresta do cidadão através do rigor e da informação.

Paralelamente, reconhece o papel do jornalista na sua missão de serviço público e valoriza o jornalismo livre, independente e de qualidade".

Ver as reportagens aqui


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Portugal está a ser vendido às peças em nome da “transição verde”

Vale do Lítio em Minas Gerais- Brasil


O discurso é clima e futuro; a realidade, no terreno, é corrupção suspeita, decisões opacas e destruição brutal de turismo, agricultura, comunidades e natureza.

Barroso e Montalegre: O que era paisagem intacta, ideal para caminhadas, gastronomia local e vida comunitária, arrisca tornar-se um cenário de explosões, pó e camiões. Ao mesmo tempo, concessões polémicas, negócios com baldios travados em tribunal e projectos ligados à Operação Influencer (Galamba/Escária PS- etc) alimentam a ideia de que o que manda não é o interesse público, mas redes de influência em torno do Estado.

No Alentejo, a mega-central solar Fernando Pessoa significa abater cerca de um milhão e meio de árvores e transformar centenas de hectares num campo industrial cercado. O montado, a paisagem aberta, o silêncio e o céu limpo – pilares do turismo, da agricultura de qualidade e da identidade da região – são sacrificados em troca de um “mega projecto” aprovado à pressa, já contestado. A energia e o dinheiro saem pela linha de alta tensão; quem fica herda a paisagem arruinada

Em Sines, a corrida ao hidrogénio “verde” e a novas infraestruturas industriais ameaça virar a costa alentejana – hoje motor de turismo balnear e de natureza – num corredor de tubos, tanques e betão. Um dos grandes projectos está também sob investigação na Operação Influencer, reforçando a percepção de que a transição energética é o novo campo de negócios para quem tem a chave dos gabinetes certos.

Quanto à Central Solar SOPHIA , na Beira Interior podemos dizer com certeza que a Central Solar Sophia é um projeto privado, promovido pela Lightsource bp, com apoio de empresa nacional para licenciamento (Coloursflow). Contudo:

1.Há receio de que o projeto assuma características de “mega-central”, implicando vastas áreas vedadas (1.734 hectares vedados, segundo dados públicos) e ocupação de solos que hoje têm funções agrícolas, florestais ou naturais.

2. A escala do projeto, o tipo de zoneamento de solo e a densidade de instalação levantaram enormes críticas de ambientalistas, populações locais e comunidades intermunicipais.
3.A contestação pública e institucional é significativa — há quem considere que a forma como o processo está a decorrer reflete desequilíbrios entre interesses privados e os valores ambientais, sociais e territoriais da região.

Por isso, para muitos, Sophia já não é apenas “energia solar”: é um exemplo do que se entende como “projetos energéticos feitos à pressa” — com promessas de “transição verde” que coincidiriam com lucro para privados, e riscos definitivos de prejuízo para território, biodiversidade e comunidades.

Conclusão
Estamos perante um caso de Green Corruption (Corrupção Verde)
O padrão é sempre o mesmo: destrói-se em baixo, lucra-se em cima. Territórios que vivem de turismo, agricultura e natureza perdem tudo o que os faz existir; grandes empresas e decisores políticos ganham projectos “estratégicos”, subsídios e poder. Se isto é a “transição verde”, o risco não é só matar serras, campos e mar – é matar a já quase nula confiança das pessoas e transformar o combate ao clima em mais um capítulo da história da corrupção em Portugal. E Portugal mais pobre em todos os aspectos. Todos estes projectos, a ser confirmados, inevitavelmente gerarão um considerável passivo ambiental para as gerações futuras.

domingo, 23 de novembro de 2025

Hoje é Dia da Floresta Autóctone. Porém há poucos motivos para festejar

Hoje é Dia da Floresta Autóctone. Porém há poucos motivos para festejar. Se celebramos o “dia da floresta autóctone” com a imagem romântica de florestas antigas, biodiversas e protegidas, a realidade florestal em Portugal torna essa celebração algo ambígua: a maioria das florestas são plantações, privadas, de reflorestação e sem uma gestão unificada ou ecológica profunda.

Há mais motivos para preocupação (incêndios, gestão deficiente, fragmentação) do que para festejo triunfal de uma floresta “autóctone” bem conservada.                                                                      Embora haja sinais de progresso: os programas de reflorestação com espécies autóctones, a certificação e os relatórios recentes mostram que há algum movimento para melhorar a qualidade (não só a quantidade) da floresta.

Segundo o relatório FRA 2025 , estima-se para 2025 uma área florestal de 3,36 milhões de hectares, o que corresponde a cerca de 36,7% do território nacional. 

Isso representa um ligeiro aumento comparado a alguns momentos anteriores, embora haja incerteza: a estimativa baseia-se em tendências, já que o último IFN (Inventário Florestal Nacional) completo disponível é o IFN6, relativo a 2015. 

Por outro lado, a Carta de Uso e Ocupação do Solo (COS) 2023 aponta para uma percentagem de floresta de 31,8% do território continental, o que sugere uma diminuição — embora sejam metodologias diferentes (COS vs IFN). 

Mas os grandes desafios persistem:
1. A predominância de plantações (74% segundo FRA 2025) continua alta, o que significa que muito da floresta não é “autóctone original” nem está em estado natural antigo.

2. A fragmentação da propriedade, com muitos proprietários muito pequenos, limita a coordenação para a gestão sustentável ou preventiva (incêndios, biodiversidade, restauração).

3. A falta de planos de gestão em muitas áreas torna a floresta vulnerável: sem gestão sistemática, mesmo as iniciativas de reflorestação serão fragilizadas (manutenção, crescimento, proteção).

4. A privatização massiva torna difícil ao Estado impor metas de renaturalização ou conversão para espécies autóctones em larga escala, sem incentivos ou regulamentação forte.

5 .Segundo a avaliação da FAO (FRA 2025), cerca de 74% da floresta estimada para 2025 é floresta plantada (2,49 M ha), enquanto apenas ~26% é regeneração natural e menos de 1% é floresta primária (i.e., muito antiga / original). 

Isso reforça a ideia de que, mesmo que muitas formações sejam “autóctones” (espécies locais), grande parte da floresta é resultado de plantações (muito geridas, monoculturas de eucalipto e de Pinus), não remanescentes naturais primários.

6. Propriedade florestal
Continua a haver elevada percentagem de floresta privada: fontes da PEFC afirmam que 84% da floresta é de propriedade privada. 
Segundo o FRA 2025 citado por Florestas , mais de 92% da floresta portuguesa é privada (dado de 2020 usado como base). Só cerca de 2% da floresta é de domínio público (Estado).

A pequena propriedade é ainda muito comum: por exemplo, segundo o ECO, a área média por propriedade florestal em Portugal é de apenas 0,57 hectares, o que dificulta a gestão integrada. 

7. Gestão florestal / planos de gestão
Portugal tem uma das menores percentagens de floresta com plano de gestão de longo prazo na UE. 
Isso significa que, mesmo com propriedade privada dominante, nem toda a floresta é eficazmente “gerida” para prevenir riscos como incêndios, de modo coordenado.

8. Certificação florestal
Quanto à floresta plantada certificada (PEFC), há cerca de 248 mil hectares certificados em Portugal no final de 2022. 
Isso mostra um esforço de parte dos proprietários para uma gestão mais “sustentável” (no sentido de certificação), mas esse número é apenas uma fração da floresta total privada.

9. Incêndios e resiliência da floresta autóctone
Monoculturas de eucaliptos (o eucalipto ocupa cerca de 26,2% da área florestal segundo o PEFC)  e de Pinus, os matos, o desconhecimento das demarcações de territórios rústicos, com muitos proprietários muito pequenos e a falta de limpezas,  continuam a ser um fator crítico.

A solução não está em plantar mais árvores — está em gerir melhor
Plantámos muito nas últimas décadas.
O problema é o que acontece depois: falta manutenção; falta continuidade ecológica, falta criação de solos saudáveis, falta acompanhamento de 3, 5 ou 10 anos, falta gestão para reduzir o risco de incêndio.
O país troca sistematicamente a restauração ecológica por “eventos de plantação”.
É o equivalente florestal às “selfies de voluntariado”.

O que fazer então?
Aqui está um caminho realista — e urgente.
1. Agrupar a gestão da pequena propriedade ZIF, AIGP, condomínios rurais — chamem-lhe o que quiserem. Sem gestão conjunta, nada funciona. Só assim se consegue escala para limpar, planear, prevenir e restaurar.

2. Incentivos sérios para gestão a longo prazo
Precisamos de financiamentos que mantenham a floresta viva, não só plantada: fundo nacional de manutenção, contratos de 5–7 anos para gestão ativa, apoio à condução de povoamentos e criação de descontinuidades.

3. Restaurar floresta autóctone verdadeira
Não basta escolher espécies nativas.
É preciso: restaurar linhas de água, proteger solos, criar bosques contínuos, ligar manchas de habitats, aumentar a idade média da floresta.
A natureza não se reconstrói com eventos: constrói-se com décadas de persistência.

4. Reequilibrar o modelo das plantações industriais
Não se trata de eliminar o eucalipto — mas de o domar: limitar onde pode ser plantado, impedir a continuidade total, obrigar a mosaicos com espécies nativas.

5. Reforçar fiscalização e meios
Uma lei sem fiscalização é só poesia jurídica.
É preciso garantir: cumprimento de planos, gestão mínima obrigatória, controlo de novas plantações ilegais, eliminação de invasoras, recrutar mais técnicos e vigilantes da natureza e criar melhores incentivos 

6. A sociedade civil também tem um papel crucial
Exigir políticas públicas com base em dados, não slogans.
Apoiar projetos de restauração que fazem manutenção, não apenas plantação simbólica.
Aumentar a literacia ecológica (saber distinguir floresta de matagal e de plantação).
Um país que não entende o que é a sua floresta não pode defendê-la.

Conclusão: Celebrar menos, transformar mais
Em vez de celebrar uma floresta autóctone que quase não existe,
talvez seja tempo de trabalhar para que ela exista realmente.
A boa notícia?
Há conhecimento, há técnicos, há soluções e há vontade local.
O que falta é coragem política, coordenação e persistência.
Se queremos que o “Dia da Floresta Autóctone” deixe de ser simbólico e passe a ser real, então é preciso fazer o que nunca fizemos: gerir o território como um todo, com ciência, escala e visão ecológica.
Porque a floresta não precisa de aplausos — precisa de cuidado e de uma política florestal de médio e longo prazo.

Saber mais:

sábado, 15 de novembro de 2025

Há alternativas ao eucalipto? Sim, há - exige uma mudança hercúlea de paradigma de floresta portuguesa


Ponto Prévio - Os bosques maduros são florestas antigas, ricas em biodiversidade especializada, mas extremamente raras em Portugal. Estes ambientes representam manchas cada vez mais escassas no território, resultado de séculos de exploração, degradação e fragmentação.

Vamos à análise
Pinheiro (Pinus, sp.) e Eucalitpto são lixo florestal! Um lixo florestal, pois endivida os pequenos proprietários e só crescem acácias depois dos incêndios. Há que haver uma política ecológica forte e interdisciplinar para restaurar a nossa floresta nativa, também rica em fibras para celulose, mas com crescimento mais lento. 

1.Na região Norte e Centro sugiro Choupo/álamo (Populus spp.)- porém a cadeia industrial em Portugal ainda está pouco desenvolvida e Bétula (Betula alba)

2. Outras árvores autóctones 
2.1..Medronheiro (Arbutus unedo)
Resiste bem ao fogo e rebenta vigorosamente.
Pode gerar rendimento pela produção de fruto.
2.2. Loureiro, amieiro, freixo, salgueiro
Adequados a zonas húmidas e linhas de água.
Muito úteis na restauração de ecossistemas.

3. Alternativas para sistemas agroflorestais / multifuncionais
3.1. Castanheiro + pastoreio
Elevado valor económico.
Melhora solos.
3.2. Olival ou nogueira combinados com floresta
Produção alimentar + proteção paisagística.
3.3. Sistemas silvopastoris com sobro ou azinheira
Produção de cortiça + sombra para gado. 

4. Reciclagem - contribuidor em ascensão
Portugal tem boa taxa de reciclagem, mas ainda expandível. Associação de Empresas de Resíduos alerta para a situação crítica dos aterros
Reduz significativamente a necessidade de pasta virgem.
Adequado para papel de impressão, embalagem e papel tissue (com mistura).

Sim, há um estudo da Wildforests que diz que o eucaliptal não é um deserto ecológico. Porém, salvaguardam que a diversidade e os padrões de vida das espécies animais em florestas plantadas para produção de madeira é ainda um assunto pouco estudado. Contribuir para este conhecimento foi um dos objetivos que levou a The Navigator Company a disponibilizar as suas propriedades para que o trabalho de campo do projeto WildForests pudesse ser realizado.

Antes do arranque deste projeto, a empresa já tinha identificado vários destes mamíferos nas propriedades que gere e já realizava algumas destas boas práticas, estando a integrar, caso a caso, outras recomendações emanadas do WildForest. A manutenção de pequenas manchas de vegetação nativa nas plantações, assim como de afloramentos rochosos e de árvores que permitem criar corredores ecológicos, contínuos ou descontínuos (stepping stones) são alguns exemplos. De resto, todo o projeto permite saber mais sobre as espécies presentes em eucaliptais e sobre as práticas que a favorecem, ajudando a The Navigator Company a tomar as melhores opções de gestão florestal a integrá-las na sua estratégia de conservação da biodiversidade.

Artigo científico aqui

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

E.O.Wison e a renaturalização

"There can be no purpose more enspiriting than to begin the age of restoration, reweaving the wondrous diversity of life that still surrounds us." We have ancient and new born trees, according to old registrations.
A walk in our preserved forest makes us feel quite proud, and it's all thanks to nature. Finally : the true meaning of life is to plant native trees, under whose shade you do not expect to sit. Hope our legacy will continue for next generations!

Últimas Novidades

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Principais Críticas ao Mercado Voluntário de Carbono


Avançou no Público, que o Mercado Voluntário de Carbono português passará a estar, finalmente, operacional a partir desta sexta-feira, com a publicação da primeira metodologia nacional entretanto aprovada pela Agência para o Clima (ApC).

Porém há muitas críticas
  1. Adicionalidade duvidosa

  2. Medição, Monitorização e Permanência

    • Medir de forma confiável a redução ou remoção de carbono (especialmente em projetos florestais) é complexo: é necessário estimar cenários futuros (“o que teria acontecido sem o projeto”), considerar vazamentos (emissões que migram para outros lugares) e riscos como incêndios, degradação ou reversão. 

    • A permanência também é um problema: por exemplo, florestas usadas para créditos podem ser cortadas ou queimar no futuro, liberando o carbono “sequestrado”. 

  3. Transparência e Governança Fraca

    • Falta de transparência nos preços: muitas revendedoras (“resellers”) não divulgam suas margens nem quanto do valor dos créditos vai para os projetos e comunidades locais.

    • Ausência de regulação forte: como é um mercado voluntário, não há um regulador central forte (ou padronização global), o que permite práticas divergentes entre diferentes certificadoras e projetos. 

    • Problemas de dupla contagem (“double counting”): em alguns casos, o mesmo crédito pode ser reivindicado por mais de uma parte, o que enfraquece a confiança no impacto real.

  4. Risco de “Greenwashing”

    • Empresas podem usar créditos para aparentar ação climática (“net zero”) sem fazer reduções reais — simplesmente comprando créditos para compensar emissões, em vez de reduzir suas próprias emissões. 

    • Há casos em que empresas fazem alegações vagas (“carbon neutral”, “Paris aligned”) que são difíceis de verificar e podem enganar consumidores. 

  5. Qualidade dos Créditos

    • Alguns créditos são de baixa qualidade ou inflacionados: por exemplo, projetos de fogões limpos (“cookstove”) foram recentemente criticados por superestimar seus benefícios climáticos por um fator muito alto. 

    • Segundo a Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM), uma parte significativa de metodologias (por exemplo, de energia renovável) não atende critérios recentes de integridade (“Core Carbon Principles”), especialmente no que toca à additionalidade. 

  6. Volatilidade de Mercado e Risco Financeiro

    • Os preços dos créditos podem ser altamente voláteis, o que dificulta o planeamento para compradores e desenvolvedores de projetos. 

    • A liquidez pode ser limitada, porque o mercado é fragmentado (muitos padrões, muitos tipos de crédito, muitos intermediários). 

  7. Impactos Sociais e Ambientais Não Intencionais

    • Alguns projetos podem ter consequências negativas para comunidades locais: por exemplo, projetos florestais podem deslocar populações ou gerar conflitos de uso da terra. 

    • A equivalência entre carbono biológico (florestas) e carbono fóssil nem sempre é realista: créditos baseados em florestas (ciclo rápido de carbono) podem não compensar totalmente as emissões fósseis (ciclo lento), especialmente se haver risco de reversão. 

  8. Incentivos Pervertidos

    • perverse incentives: quanto mais emissões, mais procura por créditos, mais lucro para quem vende créditos. Isso pode levar a uma lógica onde emissores grandes preferem continuar poluindo e “compensar”, em vez de reduzir. 

    • Também há críticas de que a existência de um mercado voluntário pode desviar o foco de políticas mais rígidas de regulação (por exemplo, impostos sobre o carbono, metas de redução obrigatórias). 

  9. Credibilidade e Reputação

Conclusão Crítica

  • Não é tudo “golpe”, mas há riscos reais: muitos críticos não rejeitam totalmente o VCM, mas pedem reformas — mais transparência, padrões mais rigorosos, verificação independente, regulação.

  • Complemento, não substituto: para muitos analistas, os créditos voluntários devem ser usados além das reduções diretas, não como a única estratégia.

  • Governança é chave: com a criação de órgãos como o ICVCM (Integrity Council), há movimento para tornar o mercado mais confiável, mas ainda há muito trabalho.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O carvalhal


«Nos cumes mais elevados encontram-se, nos lugares húmidos, os bosques de vidoeiros e sobre os rochedos as sorveiras. Nos lugares mais baixos atingem-se no norte de Portugal os bosques de carvalhos, em que as árvores estão suficientemente próximas para darem sombra aos caminhos e suficientemente afastadas para permitirem a passagem.
Os vales do Minho estão cobertos de bosques de carvalhos contínuos. Em seguida surge a região dos bosques de castanheiros, os verdadeiros bosques deste país, cujas árvores se tocam pela folhagem. Ornam as encostas da Serra do Marão, da Serra da Estrela, na direcção do Fundão, da Serra de Portalegre e de Monchique. No sopé das grandes montanhas encontram-se os pomares, onde a cultura dos frutos é sinal de região fria. Mais abaixo surgem a árvore da cortiça, o carrasco, o pinheiro-marítimo, em seguida o limoeiro e finalmente a laranjeira. A oliveira está ainda mais espalhada, encontra-se perto dos vidoeiros do Gerês e ao lado das laranjeiras, perto de Lisboa.»
baseado nas viagens de Hoffmansegg e Link