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sábado, 19 de setembro de 2026

A praga dos amontoados de pedras na Torre: tradição das mariolas ou destruição do Parque Natural?


Recentemente o Pedro Sarda viajou com os seus filhos até à “Torre”, o ponto mais alto de Portugal Continental. Já não ia à Torre há bastante tempo. Partilho a sua indignação.
"No essencial não tinha mudado assim tanto desde a minha última visita ao mesmo local. 
No entanto desta vez fui confrontado com um espectáculo verdadeiramente decadente. Ao que parece virou moda amontoar pedrinhas em montes simulando as chamadas “mariolas”. 
As mariolas originais têm um contexto, uma história e sobretudo uma finalidade. 
As chamadas mariolas eram (talvez cada vez menos) “marcas” deixadas na paisagem, habitualmente por pastores, com a finalidade de marcar o caminho. 
Esses pequenos amontoados de pedras eram colocados em locais estratégicos para que quem fosse a caminhar pudesse ter noção da direcção certa a seguir, em particular em períodos de fraca visibilidade. 
A “modinha” de começar a amontoar pedras só porque alguém se lembrou que é giro, ou só porque “sim”, não só não tem qualquer finalidade como tem até diversos impactos negativos. 
Desde logo, o mais evidente, para quem tiver o mínimo de sensibilidade, é o paisagístico. O cenário era em pouco ou nada diferente de uma autêntico cemitério. Aqueles amontoados de calhaus pareciam verdadeiramente sepulturas. O que, pode-se afirmar, até faz um pouco sentido já que ali parecia “jazer” o que outrora era uma paisagem relativamente natural. 
Por isso a meu ver a designação mais adequada não é de “mariolas” mas neste caso de “merdiolas”. Suponho que se nota o tom demasiado “irritado” nas minhas palavras o que se deve justamente a estar... profundamente irritado. 
Nas proximidades da entrada para uma das galerias de lojas com Produtos Regionais encontrei um autocolante bastante discreto onde se apelava ao bom senso dos visitantes (apelar ao bom senso em Portugal?) justamente no sentido de não adoptarem essa prática. As razões (impactos negativos da remoção das pedras do solo) transcritas no “aviso” eram: 
- Deixa o solo exposto a ventos fortes, evaporação e erosão 
- Desprotege a vegetação do vento e do solo  
- Modifica o habitate da fauna endémica 
- Altera o equilíbrio ecológico de habitats e paisagens protegidas (convém não esquecer que estamos neste caso a falar de um Parque Natural)
- Deixa uma profunda marca humana na paisagem natural 
- O equilíbrio precário dos amontoados torna-os perigosos para animais ou crianças que deles se aproximem. 
- As “mariolas” (pequenos amontoados de pedras) têm, em ambiente de montanha, a função tradicional de marcar a direcção correcta em caminhos pedestres. Reproduzi-las aleatoriamente inutiliza a função essencial das originais. 
Como mencionei o autocolante era efectivamente bastante discreto. Ainda assim, creio que mesmo com um autocolante mais visível ou até um cartaz o resultado não seria assim tão substancialmente diferente. Face à dimensão da estupidez e parolice “humanas” suponho que só medidas mais radicais têm a capacidade de surtir algum efeito. 
Um amigo do Sabugal (relativamente próximo da Torre), quando partilhava com ele a minha indignação perante aquele cenário decepcionante, contou-me que algumas escolas de Seia, creio, desenvolveram uma acção de sensibilização com os alunos na qual procederam á remoção de vários desses amontoados tentando repor a paisagem natural e sensibilizando obviamente para o problema. 
Não sei exactamente quando é que decorreu a acção mas entretanto muitas hordas de turistas terão passado pela torre fazendo questão de deixar a sua “assinatura” pindérica. 
Também os meus filhos, quando chocados com o panorama, derrubaram alguns dos pequenos mamarrachos mas ainda foram criticados por uns parolos, por sinal franceses, que devem ter um apurado sentido de gosto artístico assim como um ainda maior conhecimento das coisas do mundo natural. Provavelmente terão também lá deixado a sua Torre Eifel feita de calhaus. (Parece que a estupidez é mesmo das coisas mais universais que existem). 
De qualquer forma, mais do que esta triste situação em particular, acredito que a situação está bastante para além desta situação em específico e que se prende com questões porventura mais profundas e diria até... filosóficas. 
O Toque de Tânatos porque parece que onde quer que o ser humano chegue, faz questão de onde toca... o transformar em Merda. Por outras palavras, faz questão de estragar. Uma realidade ou “fenómeno” que tende a ser tanto mais provável quanto mais animais da espécie humana chegarem a determinado local. Como se não bastasse...parece que tudo o que basta para começar uma qualquer moda estúpida, com impacto para os habitats locais, é... simplesmente alguém começar. Depois com a banalização das redes sociais e afins é uma questão de tempo (muito pouco tempo) até se espalhar como um vírus. 
É importante falar das redes sociais pois, ao que parece, os “artistas” (pimba) fazem questão de “postar” com todo o orgulho as suas “obras de arte”. 
Este é um daqueles momentos em que o meu desencantamento com a espécie humana é de tal ordem que invejo Thoreau que decidiu isolar-se numa cabana no bosque. (o livro é Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau).
Creio que, no que a esta questão diz respeito (assim bem como a muitas outras), não se pode esperar que subitamente as criaturas que seguem a “modinha” dos montes de calhaus adquiram consciência e deixem de o fazer. 
Pelo que percebi, a Torre é um território muito particular administrado de forma conjunta por vários municípios da região (vem-me, assim à cabeça, Seia, Manteigas...). Parece-me fundamental a colocação no local de placas de considerável dimensão a dissuadir da prática em questão. Como provavelmente não será o suficiente, creio que faria todo o sentido a afectação de um pequeno corpo de “Guardas” responsáveis por zelar pelo espaço, nomeadamente proibindo determinantemente a prática. No caso de simples presença dos Guardas não ser suficiente, creio que é um daqueles casos em que passar multa se justifica plenamente e é na verdade necessário. Por vezes é esse o único local onde doí verdadeiramente aos portugueses: no bolso!!!"


segunda-feira, 25 de maio de 2026

O sistema Volta - puro Enshittification


Já tinha falado sobre isso aqui

A SDR Portugal, uma associação sem fins lucrativos, é apresentada como uma das grandes conquistas da nova economia circular. Uma solução moderna, sustentável e inevitável para aumentar as taxas de reciclagem e aproximar Portugal dos objectivos ambientais europeus. A narrativa pública é simples, eficaz e cuidadosamente construída: devolver embalagens para salvar o planeta.

Consumir continua perfeitamente aceitável. Desde que a culpa venha com código de barras e seja colocada na máquina correcta.

O presidente da SDR Portugal é Leonardo Bandeira de Melo Mathias, antigo Secretário de Estado Adjunto e da Economia no governo de Pedro Passos Coelho. Um dos vice-presidentes é António Augusto dos Santos Casanova Pinto, vice-presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal Marcas e administrador executivo do grupo.

Segundo o Relatório e Contas de 2024 da própria SDR, os órgãos sociais não são remunerados. No entanto, os gastos com remunerações em 2024 ascenderam a €136.333,25 antes de impostos (Seg. Social + IRS). O número de pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2024 era de apenas 3, sendo referido no relatório que existia um Director-Geral contratado desde Junho de 2022 e que apenas em Dezembro de 2024 foram contratados um Director de Operações e um Director de Tecnologias de Informação.

Ou seja, durante praticamente todo o exercício de 2024, o grosso dos encargos salariais esteve concentrado numa única pessoa e com um valor (€9.738 líquidos /mês) bastante interessante para uma estrutura ainda em fase inicial de operação. Afinal, até a reciclagem moderna exige a sua pequena aristocracia técnica.

O próprio Relatório e Contas revela ainda outro detalhe particularmente curioso: existe um conjunto de grandes empresas que realizaram empréstimos à SDR, os quais, segundo o Relatório de Gestão, serão pagos “quando a associação tiver meios financeiros para o fazer”.

Traduzindo do dialecto institucional para português corrente: o dinheiro há-de voltar. Ou seja, não se trata propriamente de capital a fundo perdido nem de um gesto puramente filantrópico. Trata-se de dinheiro que deverá regressar futuramente a quem o colocou no sistema.

Entre os credores encontram-se:
Auchan Retail Portugal, S.A.: €247.000
ITMP Alimentar, S.A.: €247.000
Super Bock Bebidas, S.A.: €247.000
Pingo Doce - Distribuição Alimentar, S.A.: €247.000
Lidl & Companhia: €247.000
Modelo Continente Hipermercados, S.A.: €247.000
Sumol Compal Marcas, S.A.: €247.000
Coca-Cola Europacific Partners Unipessoal, Lda: €247.000
SCC - Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, S.A.: €247.000
Unilever Fima, Lda: €247.000
Total: €2.470.000

A pergunta verdadeiramente interessante não é se o sistema é ecológico. É perceber como, quando e através de que mecanismos financeiros estes valores serão recuperados. Porque num sistema financiado por depósitos, taxas, fluxos operacionais e receitas futuras associadas à reciclagem, alguém acabará inevitavelmente por pagar a factura final da virtude ambiental.

No entanto, quando se observa o modelo para além da superfície publicitária e das campanhas institucionais, percebe-se que talvez estejamos perante algo bastante mais complexo do que uma simples iniciativa ecológica.

O que está a ser criado não é apenas um sistema de reciclagem. É uma infraestrutura económica, logística e tecnológica de enorme dimensão, construída em torno da circulação permanente de embalagens, depósitos, dados e contratos.

A lógica do mecanismo parece inocente. O consumidor compra uma bebida, paga um valor adicional associado à embalagem e recupera esse montante caso a devolva num ponto autorizado. À primeira vista, trata-se apenas de um incentivo comportamental. Uma pequena penalização temporária destinada a ensinar adultos a colocar recipientes vazios no sítio correcto. Mas é precisamente aqui que o modelo se torna interessante. O sistema não vive apenas da reciclagem. Vive sobretudo da arquitectura financeira criada à volta da reciclagem.

Cada embalagem deixa de ser apenas um recipiente descartável e transforma-se numa unidade económica rastreável:
- alguém paga
- alguém recolhe
- alguém valida
- alguém transporta
- alguém processa
- alguém monitoriza
- alguém factura

A garrafa já não termina no lixo. Passa a circular dentro de uma cadeia económica cuidadosamente organizada, onde praticamente cada etapa gera actividade financeira.

O primeiro aspecto raramente explicado de forma transparente é a importância dos depósitos não reclamados. Nem todas as pessoas irão devolver embalagens. Nem todas terão tempo. Nem todas terão máquinas próximas. Nem todas guardarão garrafas em casa. Nem todas considerarão justificável deslocar-se por alguns cêntimos. Nem todas transformarão a cozinha numa extensão informal do centro de triagem nacional.

E é precisamente aí que surge uma das peças mais relevantes do sistema. Os depósitos pagos e nunca recuperados permanecem dentro do circuito financeiro da estrutura. Ou seja, uma parte significativa da sustentabilidade económica do modelo assenta não apenas na reciclagem, mas também na inevitável imperfeição humana.

E aqui vale a pena pegar nas próprias palavras do presidente da SDR Portugal:
“Só para lhe dar um enquadramento, são consumidas em Portugal 2,1 mil milhões de garrafas de plástico (PET) até três litros. E as latas de aço e de alumínio, portanto, são 2,1 mil milhões de unidades por ano. Agora imagine…”
Sim, vamos então imaginar.
Com optimismo ambiental, admitamos que 70% das embalagens são devolvidas. Isso significa que 30% ficam fora do circuito de retorno.
2,1 mil milhões × 30% = 630 milhões de embalagens não devolvidas.
Multiplicando por um depósito de 10 cêntimos:
630 milhões × €0,10 = €63 milhões.

Ou seja, mesmo num cenário bastante optimista, estariam potencialmente 63 milhões de euros anuais a permanecer dentro do sistema apenas através de depósitos não reclamados.

Agora abandonemos por momentos o optimismo institucional e ambiental. Se a taxa de retorno fosse de 50%, então metade das embalagens não regressaria:
2,1 mil milhões × 50% = 1.050 milhões de embalagens.
Multiplicando novamente pelos 10 cêntimos:
1.050 milhões × €0,10 = €105 milhões.
Cento e cinco milhões de euros.

Naturalmente, estes valores não representam lucro directo líquido nem podem ser analisados isoladamente dos custos operacionais do sistema. Mas ajudam a perceber a dimensão financeira potencial criada por um mecanismo que depende precisamente de uma percentagem significativa de embalagens nunca ser devolvida.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. O sistema apresenta-se como solução para mudar comportamentos, mas beneficia financeiramente do facto de esses comportamentos nunca mudarem completamente. Se os consumidores devolvessem rigorosamente todas as embalagens, uma das maiores almofadas financeiras do mecanismo desapareceria. Isso obrigaria inevitavelmente a:
- aumentar taxas
- reforçar contribuições da indústria
- procurar mais financiamento público
- ou criar novas formas de receita

Por outras palavras, o sucesso ambiental absoluto poderia transformar-se num problema económico bastante menos sustentável do que os folhetos institucionais sugerem. Naturalmente, esta parte raramente aparece nos vídeos promocionais acompanhados por folhas verdes ao vento, crianças sorridentes e música suficientemente inspiradora para absolver moralmente uma garrafa de plástico. Mas os depósitos não reclamados são apenas uma componente do ecossistema.

Outra dimensão do modelo surge quando se observa a infraestrutura criada à sua volta.
Para operacionalizar a devolução de milhões de embalagens, torna-se necessário construir uma rede nacional composta por:
- máquinas automáticas de recolha
- software de reconhecimento e validação
- sistemas antifraude
- logística reversa
- transporte especializado
- centros de triagem
- compactação industrial
- plataformas digitais
- manutenção técnica
- monitorização estatística
- auditorias
- certificações ambientais
- contratos operacionais

Ou seja, cria-se um novo sector económico completo em torno de algo que, até aqui, cabia essencialmente num ecoponto. E como acontece frequentemente na economia contemporânea, o discurso público concentra-se na moralidade ambiental, enquanto os fluxos financeiros reais se distribuem silenciosamente pelos bastidores tecnológicos e logísticos.

Porque alguém fabrica as máquinas. Alguém fornece o software. Alguém gere os dados. Alguém assegura manutenção. Alguém opera a logística. Alguém ganha contratos. Alguém presta consultoria. Alguém vende a solução para o problema que o próprio sistema ajudou a transformar numa nova necessidade estrutural. O operador central pode apresentar-se como entidade sem fins lucrativos, o que é tecnicamente verdadeiro. Mas isso pouco diz sobre o volume de actividade económica gerada à volta da estrutura.

Aliás, um dos traços mais sofisticados dos modelos contemporâneos é precisamente este: o núcleo institucional mantém uma aparência neutra e moralmente virtuosa, enquanto a rentabilidade se espalha discretamente pelas camadas periféricas do sistema.

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente mais valiosa a longo prazo: os dados.
Cada devolução gera informação. Cada máquina recolhe padrões de utilização. Cada localização produz métricas comportamentais. Cada embalagem contribui para mapear hábitos de consumo. Num contexto onde indicadores ambientais, métricas ESG* e monitorização de comportamento possuem valor económico crescente, o controlo de uma infraestrutura nacional deste tipo representa muito mais do que reciclagem. Representa capacidade de observação, recolha, análise e venda de dados. (*Indicadores quantitativos e qualitativos que medem o desempenho de uma empresa nas áreas Ambiental, Social e de Gestão)

Quem gere um sistema desta escala passa a ter acesso a:
- padrões de consumo
- volumes regionais
- sazonalidade de vendas
- participação dos consumidores
- fluxos logísticos
-métricas ambientais
- indicadores de conformidade regulatória
O lixo deixa de ser apenas lixo.Torna-se informação.

Outro aspecto particularmente curioso é a transferência parcial de trabalho da indústria para o cidadão. Antes, o consumidor colocava a embalagem no ecoponto e encerrava aí a sua participação. Agora, espera-se que:
- guarde embalagens em casa sem as danificar 
- organize resíduos
- transporte recipientes
- procure máquinas disponíveis
- aguarde validação
- execute parte da logística operacional

Tudo isto naturalmente apresentado como exercício de cidadania ambiental. Na prática, parte do trabalho anteriormente absorvido pelo sistema tradicional de resíduos é silenciosamente transferido para o próprio consumidor, que continua simultaneamente a financiar o processo através dos depósitos pagos.

Entretanto, os grandes produtores de embalagens conseguem algo ainda mais relevante: legitimidade. As empresas responsáveis pela colocação de milhões de embalagens descartáveis no mercado passam a operar dentro de uma arquitectura verde certificada, compatível com exigências regulatórias europeias e extremamente útil para relatórios ESG, reputação corporativa e marketing institucional.

A questão deixa então de ser: “como reduzir embalagens descartáveis?” E passa subtilmente a ser:“como integrar embalagens descartáveis num circuito economicamente rentável e ambientalmente legitimado?”

É uma diferença conceptual importante.
O sistema não elimina o consumo massivo de recipientes descartáveis. Pelo contrário: reorganiza-o, profissionaliza-o e transforma-o numa cadeia económica ainda mais sofisticada.

No fundo, o que está a emergir não é apenas um mecanismo de reciclagem. É a monetização integral da embalagem desde o momento da compra até ao momento da devolução.

A embalagem gera receita quando é vendida. Gera receita quando circula. Gera receita quando não é devolvida. Gera receita quando é devolvida. Gera receita quando é processada. Gera receita enquanto dado estatístico. E gera legitimidade política e ambiental durante todo o percurso. Chama-se a isso enshittification (merdificação)

Nada disto significa que reciclar seja inútil ou que a reutilização de materiais não tenha benefícios reais. O problema não está na reciclagem. Está na forma quase religiosa como certos modelos económicos são apresentados como altruísmo ambiental puro, quando na realidade envolvem estruturas financeiras altamente sofisticadas e interesses económicos evidentes.

Porque quando uma solução ecológica cria uma indústria multimilionária sustentada por depósitos, contratos, dados, logística, tecnologia e falhas previsíveis do comportamento humano, talvez seja legítimo perguntar se o principal objectivo é proteger o ambiente ou descobrir como transformar até o lixo numa fonte permanente de rentabilidade.
E nesse aspecto, convenhamos, o modelo é brilhante.

O ecoponto de rua - esse herói anónimo da reciclagem portuguesa — continua a ser mais eficiente, mais inclusivo e com menor pegada carbónica. Pode não dar vales de desconto, mas pelo menos não exige carregar lixo no porta-bagagens. Faz apenas aquilo que deve: recolher para reciclar. Por isso, continuo fiel a ele. Pode não ser bonito nem moderno, mas funciona - e não precisa de marketing para provar isso.
E mais: 
Aqui em casa uso água da torneira. É o mais ecológico e simples. Quando vou a restaurantes, se bebo água devolvo o talão à menina(o). 

Saber mais:
3. Sistema Volta, as contas da DECO e o peso da tua “preguiça” forçada

terça-feira, 21 de abril de 2026

Mais um miradouro, neste caso, em frente à Cascata de Fisgas do Ermelo


A cascata das Fisgas de Ermelo, conhecida como uma das maiores de Portugal e da Europa, tem agora um novo miradouro. A inauguração oficial aconteceu na manhã deste domingo, 19 de abril, em Mondim de Basto, no distrito de Vila Real. O momento contou com a presença do Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Pedro Machado.

A queda de água tem um impressionante desnível de 400 metros e já contava com um miradouro natural. No entanto, a Câmara Municipal realizou recentemente uma construção para melhorar as condições de acesso, deixando-as mais seguras para os visitantes e atletas que percorrem a região.

Foram criados um acesso pedonal e um passadiço para permitir que os visitantes consigam aceder ao miradouro sem qualquer problema. A construção, segundo o autarca, já devia ter sido inaugurada, mas sofreu atrasos devido à falência da empresa responsável.

“Tivemos a infelicidade de a empresa que estava responsável pela construção da plataforma ter entrado em falência. Portanto, todo o procedimento para que a autarquia pudesse assegurar a concretização da obra foi moroso”, apontou, aqui citado pelo “Público”.

As obras também chegaram a ser criticadas por alguns residentes, que acreditam que a nova construção afeta a paisagem natural. No entanto, a autarquia acredita que vai atrair mais turistas para a região.

𝐏𝐞́𝐬𝐬𝐢𝐦𝐚 𝐧𝐨𝐭𝐢́𝐜𝐢𝐚!  Mais um postal para a "Disneylândia" da natureza - a tendência das autarquias para artificializar paisagens selvagens através da construção de passadiços e plataformas de metal e vidro. Este fenómeno transforma o contacto com o mundo natural numa experiência de consumo visual rápido, focada na partilha em redes sociais, em vez de promover uma ligação autêntica e educativa com o ecossistema. 

Paralelamente, o impacto na biodiversidade e na geologia é preocupante, uma vez que estas estruturas permanentes podem fragmentar habitats — afetando aves de rapina que nidificam nas escarpas — e descaracterizar a geologia local, sendo a perfuração de rochas milenares para fixar estacas vista como um atentado ao património.

O Parque Natural do Alvão, com as suas escarpas rochosas e vales profundos (como as Fisgas de Ermelo), é um habitat crucial para várias aves de rapina rupícolas. Espécies notáveis que nidificam nas escarpas incluem o Grifo (Gyps fulvus), o Bufo-real (Bubo bubo), a Águia-real (Aquila chrysaetos) e o Falcão-peregrino (Falco peregrinus).

A área também é frequentada por outras rapinas, como o Bútio-vespeiro e a Águia-cobreira, que, embora prefiram árvores, podem caçar nas áreas rochosas. 

A ZEC Marão-Alvão é uma zona fundamental para a conservação destas espécies em Portugal, beneficiando da orografia acidentada.[Consultar ICNF] 

Além disso, o lobo-ibérico marca presença no Parque Natural do Alvão, sendo um dos habitantes mais emblemáticos e importantes desta área protegida. Esta espécie, cientificamente designada como Canis lupus signatus, encontra no Alvão e nas serras vizinhas, como o Marão, um habitat fundamental para a sua sobrevivência a sul do rio Minho. Apesar de estar classificado como "Em Perigo" em Portugal, o lobo mantém alcateias na região. Porém no último Censo 2019-2021 [consultar ICNF] este núcleo populacional sofreu uma redução do número de alcateias detectadas, da ordem dos 50 %, não tendo sido detectada a presença de 7 das 13 das alcateias registadas no anterior censo. 

Esta facilitação do acesso acaba por gerar problemas graves de capacidade de carga e massificação, atraindo milhares de pessoas para zonas antes preservadas pelo seu isolamento, o que resulta em acumulação de lixo, pressão sobre os recursos hídricos e perturbação do sossego da vida selvagem. Estes projetos raramente incluem planos de gestão a longo prazo para mitigar o impacto humano. O investimento deveria priorizar a vigilância e a conservação, através da contratação de mais vigilantes da natureza, em vez de se concentrar exclusivamente em infraestruturas turísticas.  
 
Muitas destas obras ignoram o que acontece "antes" e "depois" do miradouro:
1. Estacionamentos - para levar pessoas ao novo miradouro, é preciso alargar estradas e criar parques de estacionamento, o que impermeabiliza o solo.
2. Espécies Invasoras: o movimento constante de carros e pessoas facilita o transporte de sementes de espécies invasoras nas solas dos sapatos e nos pneus, que acabam por colonizar o Parque Natural e expulsar a flora nativa.

Portugal tem um histórico de construir passadiços e miradouros magníficos que, cinco anos depois, estão degradados, tornando-se perigosos e visualmente ainda mais chocantes na paisagem.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Ecoparolice - Maior árvore eólica do país instalada no concelho de Pampilhosa da Serra

A instalação de uma árvore eólica, parte integrante da empreitada de arranjo urbanístico da entrada oeste da vila de Pampilhosa da Serra, encontra-se em fase de testes e será responsável por alimentar a quase totalidade das necessidades energéticas do espaço assim que a obra estiver finalizada.
A energia produzida por esta energia permitirá “assegurar o funcionamento de vários sistemas do novo arranjo urbanístico, desde a iluminação pública ao sistema de tratamento e recirculação da água, garantindo que estas infraestruturas funcionem com um custo de energia praticamente nulo”, explica a autarquia em nota enviada à comunicação. Trata-se de uma solução inovadora em meios urbanos, que reforça o compromisso com a eficiência energética e a sustentabilidade ambiental.
Inspirada na natureza, a chamada “WindTree” funciona como um sistema complementar de produção de energia elétrica. A estrutura é composta por 36 microturbinas eólicas, com uma potência total de 10.800 W, num sistema eletrónico inteligente que regula continuamente o funcionamento das turbinas, ajustando a produção às condições do vento e garantido o máximo aproveitamento energético.
Integrada no projeto de requalificação da entrada oeste da vila, esta árvore eólica assume-se como “um elemento simbólico de inovação, sustentabilidade e valorização do espaço público, contribuindo para um futuro energeticamente mais eficiente em Pampilhosa da Serra”, salienta ainda na mesma nota.
De relembrar que em Portugal existe apenas outra árvore eólica de menor potência com características semelhantes (CascaiShopping), sendo esta a de maior dimensão.
Ora esta região é densamente povoada por eucaliptais e monoculturas intensivas. O concelho de Pampilhosa da Serra é, de facto, caracterizado por uma forte presença de eucaliptais (frequentemente em regime de monocultura) e pinheiro bravo, o que tem gerado debates sobre sustentabilidade, biodiversidade e risco de incêndio. Após os grandes incêndios de 2017 e 2025, a Montis tem sido uma voz crítica e ativa no terreno, defendendo que a reconstrução da Pampilhosa não pode ser "mais do mesmo". Eles focam-se na regeneração natural assistida, ajudando a floresta a recuperar-se sozinha mas com uma composição mais variada e segura. Outra associação ambientalista, MilVoz sofreu um revés pesado nos incêndios recentes. Em agosto de 2025, a sua Bio-Reserva mais importante (localizada no Vale da Aveleira, na Lousã, vizinha da Pampilhosa) foi severamente fustigada pelas chamas. Manuel Malva classificou o evento como uma "calamidade ecológica", sublinhando a dificuldade de proteger estas "ilhas de biodiversidade" quando a paisagem em redor é altamente inflamável.

Aqui estão os pontos principais sobre a situação florestal nesta área:
Elevada densidade de eucalipto: o eucalipto (Eucalyptus globulus) é predominante na paisagem, muitas vezes explorado intensivamente para a produção de pasta de papel.
Riscos associados: a elevada presença destas espécies, que são altamente combustíveis, tem contribuído para a facilitação da propagação de grandes incêndios na região.
Ações de conservação: existem iniciativas, como a da organização Montis, que actuam na região para reconverter eucaliptais em matas mais biodiversas e resilientes, nomeadamente através do corte de eucaliptos em áreas específicas.
Contexto de despovoamento: a monocultura intensiva está também ligada ao despovoamento do interior, onde estas plantações ocupam terras que antes tinham outros usos.
Artigo científico (2021)

domingo, 2 de junho de 2024

É assim que o TikTok ou o Instagram destroem praias, montanhas e outros locais naturais

De lugares tranquilos e pouco conhecidos a destinos que se tornaram populares devido ao poderoso efeito das redes sociais. Estas são as consequências para a natureza quando ela se torna um "alvo" em massa de selfies e vídeos.


Há quem sonhe viver em primeira mão as experiências turísticas idílicas e fotogénicas promovidas pelos criadores de conteúdos no TikTok ou Instagram. São lugares, por vezes pouco conhecidos, que, em questão de dias, recebem atenção global devido ao efeito viral das plataformas de vídeos curtos às quais milhões de pessoas estão fisgadas.

Então, é claro, vêm as deceções. E o que se imaginava como destinos exclusivos, como as trilhas naturais, transformam-se, parecendo verdadeiras romarias, filas intermináveis para visitar uma praia e "cotovelaços" para tirar selfies.

A consequência de “criar tendência” nos destinos turísticos é um aumento repentino e inesperado de visitantes em espaços que muitas vezes não são projetados para serem usufruídos por uma massa descontrolada de pessoas.

Um fenómeno ligado ao congestionamento, às multidões e à muita poluição, que já está a ser estudado e que tem consequências negativas para o ambiente natural.

As consequências danosas do ‘efeito TikTok’ na natureza
Em Espanha as ações de alguns influenciadores encorajaram a destruição real de espaços naturais protegidos.

Nas Dunas de Maspalomas, espaço natural localizado no sul de Gran Canaria, a organização de uma “caça ao tesouro” (mil euros enterrados) levou muitas pessoas a escavar nesta área protegida.

Em Tenerife, dois YouTubers, com 111 mil inscritos, vangloriaram-se no seu canal ao fazerem “o percurso mais perigoso” da ilha. Para isso, eles percorreram um caminho protegido numa área que possui espécies ameaçadas de extinção, como o lagarto gigante, sem se preocupar em pisotear a flora nativa. E o pior? Eles “inspiraram” outros.

Parques Nacionais soam o alarme
O efeito indireto causado pelas imagens e vídeos publicados nas redes sociais tornou-se um verdadeiro problema para a maioria dos parques nacionais em Espanha.

Até 11 dos 16 espaços protegidos da rede reportam “problemas óbvios” gerados pela multiplicação de visitantes e que devem ser geridos. Risco de incêndios, destruição de habitats e elevado número de veículos que geram engarrafamentos, poluição e problemas de segurança são os principais problemas.

Fora de Espanha, embora existam inúmeros exemplos, é bem conhecida a situação vivida no segundo pico mais alto do mundo. As intermináveis filas nas encostas do K2, uma montanha na Ásia, prenunciam um mau prognóstico: a montanha passa por um profundo processo de transformação devido à presença excessiva de seres humanos.

Protestos em Espanha contra o turismo maciço
Nas últimas semanas, milhares de habitantes cujos locais ficaram transformados em destinos turísticos saíram às ruas para protestar contra os impactos negativos deste modelo, tanto a nível ambiental como social, cultural e económico.

O movimento, que é global, já chamou atenção em Espanha. Em Palma de Maiorca, Donostia-San Sebastián, Las Palmas de Gran Canaria e em alguns municípios da Cantábria, como Loredo e Langre, os moradores mobilizaram-se com os seguintes argumentos:
  1. Gentrificação: o aumento dos preços da habitação causado pela 'proliferação' de apartamentos turísticos, e também de bens e serviços, resulta no deslocamento dos residentes locais dos seus próprios bairros.
  2. Perda de autenticidade: na sociedade de consumo tudo é comercializável. Também a cultura local, da qual são selecionados apenas os elementos, considerados produtos ou meros espetáculos de entretenimento, que fazem maior sucesso junto dos turistas. A consequência é a perda de tradições e costumes genuínos.
  3. Superlotação: quando afeta locais históricos ou bens culturais, podem sofrer danos devido ao excesso de visitantes.
  4. Dependência económica: quando as economias locais se tornam muito dependentes do turismo, tornam-se muito vulneráveis às mudanças que podem ocorrer na procura turística.
  5. Má qualidade de emprego: que o turismo gera riqueza é um facto. Porém, outra coisa é como isto é redistribuído. E, muitas vezes, os empregos ligados a este setor económico são sazonais e mal remunerados.
Rumo ao turismo sustentável
O impacto do turismo de massa não deve ser medido apenas pelos seus benefícios económicos e pela criação de emprego, que nem sempre é de qualidade. Para o ONU Turismo, o turismo sustentável é o turismo que “leva plenamente em conta os impactos económicos, sociais e ambientais atuais e futuros para satisfazer as necessidades dos visitantes, da indústria, do ambiente e das comunidades anfitriãs”.

Avançar para este novo modelo envolve, antes de tudo, regulamentação. Ou seja, limitar o número de visitantes em áreas sensíveis para evitar a sobre-exploração.

Do ponto de vista do ordenamento do território, é também necessário planear o uso do solo para minimizar o impacto ambiental e preservar a biodiversidade, o que inclui a criação de áreas de proteção e conservação.

Desenvolver uma consciência pública mediante campanhas de sensibilização para as comunidades locais e visitantes, e a promoção do turismo responsável através dos meios de comunicação social e das próprias redes sociais, é outra estratégia essencial para avançar para um turismo mais sustentável.

Fonte: Meteored

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Armeria gaditana


Armeria gaditana no jardim botânico Dunas del Odiel, já no final do período de floração e com as pétalas secas. 
Esta espécie ocorria no litoral algarvio mas é possível que se encontre extinta, ou que desapareça nos próximos anos. O site Flora-on refere apenas uma localização conhecida com um indivíduo adulto. Actualmente para a vermos temos de ir a Doñana ou ao litoral de Cádis. 
Afinal, para que serve o Parque Natural da Ria Formosa, se permite que uma espécie emblemática da costa algarvia chegue à beira da extinção, e se não se conhecem quaisquer planos de recuperação ou reintrodução? Qual é a função de um Parque Natural? Conservar património biológico e cultural ou ser convertido num parque temático para turistas, recheado de passadiços e concessões, campos de golfe e urbanizações?

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Mata da Bufarda enriquece candidatura de Conímbriga a Património Mundial


A riqueza botânica e histórica da Mata da Bufarda, em Condeixa-a-Nova, defendida por sucessivas gerações de investigadores, é igualmente valorizada na candidatura da cidade romana de Conímbriga a Património da Humanidade.

O canhão do rio dos Mouros, junto ao campo arqueológico e ao Museu Nacional de Conímbriga, e aquela mata “são dois elementos preponderantes no processo”, disse à agência Lusa Miguel Pessoa, do Movimento para a Promoção da Candidatura de Conímbriga a Património Mundial da UNESCO.

“Conímbriga é muito mais do que um museu. Só se consegue perceber a longa e fascinante diacronia da cidade se entendermos o território envolvente”, confirmou Vítor Dias, diretor do Museu Nacional.

Também o presidente da Câmara de Condeixa-a-Nova, Nuno Moita, realçou a necessidade de assumir uma visão integrada do património cultural e natural do município, no distrito de Coimbra, que em termos turísticos tem vindo a apostar na herança da romanização.

“A localização que os romanos escolheram para Conímbriga tem a ver com toda a envolvente, ainda com muita biodiversidade”, afirmou à Lusa.

A importância da arte dos mosaicos, que surgem na região em diversos sítios arqueológicos ligados à ocupação romana, é igualmente reconhecida pela candidatura de Conímbriga a Património Mundial, cuja proposta foi entregue este ano à representação da UNESCO em Portugal.
“É naquelas margens do rio dos Mouros, em plena Mata da Bufarda, que encontramos os calcários de várias cores usados pelos mosaicistas”, enfatizou Miguel Pessoa, dirigente da Associação Ecomuseu, que promove o processo para a classificação em conjunto com o município de Condeixa e o Centro de Estudos Vergílio Correia.

A mata, onde foram identificadas quase 350 espécies botânicas, incluindo pinheiros-mansos e outras resinosas de um coberto vegetal mais recente, “ajuda a compreender a cidade romana”.

“Foi dali que vieram as madeiras para construir as habitações de Conímbriga”, sublinhou Miguel Pessoa.

Conímbriga, com as suas especificidades e localização, “permite uma ligação interdisciplinar com quase todos os ramos de saber, porque nos transporta para fora do edificado”, salientou Vítor Dias, por sua vez.

O diretor do Museu Nacional afirmou à Lusa que, no passado, a Mata da Bufarda “tinha mais carvalho, azinheira e sobreiro”, mas que, mais de 2.000 anos após a chegada dos romanos, continua a ser indissociável da cidade, enquanto área verde com centenas de hectares que mantém as características primitivas da floresta mediterrânica.

No verão, foram inaugurados os passadiços do rio dos Mouros, num percurso aproximado de 800 metros, entre Conímbriga e a cascata, que a Câmara Municipal quer prolongar até ao Poço, aldeia onde se cruzam as rotas turísticas pedestres de Santiago, Carmelitas e Terras de Sicó.

“Os passadiços são uma feliz iniciativa da autarquia e uma excelente oportunidade para potenciar esta dimensão paisagística e ambiental que Conímbriga e Condeixa têm”, enalteceu Vítor Dias.

A promoção das “diferentes potencialidades que o sítio encerra” exige um “planeamento com todas as entidades” que intervêm na zona.

“É necessário um planeamento conjunto, a longo prazo, que seja capaz de perspetivar as potencialidades de todo este imenso território”, preconizou o arqueólogo.

A mata não está classificada. Porém, como em parte “está dentro da zona de proteção de Conímbriga”, acaba por “ter alguma proteção”, referiu Nuno Moita.

Ressalvando que são muitos os proprietários, o autarca apelou à criação de mecanismos para preservar e tornar mais acessível este património natural em redor de Conímbriga.

“Muito diminuída e adulterada em relação à floresta original”, a Mata da Bufarda “constitui ainda um coberto vegetal de grande importância para o estudo da flora mediterrânica”, consideram Adília Alarcão, antiga diretora do museu, e o seu colega Virgílio Correia.

Num trabalho conjunto sobre Conímbriga, publicado em 2004, os dois arqueólogos abordam “a urgência da classificação desta mata”, assim defendida por historiadores, botânicos e outros investigadores.

domingo, 18 de junho de 2023

Memorial das Vítimas de Pedrógão - Parolo e com a água mais cara do País!

Memorial- foto de Franziska Schmidt, 11/02/2023

Quando o verdadeiro memorial seria um Projecto Piloto de Floresta em Pedrógão, o embuste político cumpriu mais uma vez este seu esperado papel, para agora, a mais pura incompetência se voltar a revelar, num simples obelisco parolo e caro.

Um pouco da "estória"
O memorial de homenagem às vítimas dos incêndios de 2017 só foi inaugurado, 45 meses depois do anúncio da sua construção.

A 17 de junho de 2019, perante as então três mais importantes figuras do Estado - Marcelo Rebelo de Sousa, Eduardo Ferro Rodrigues e António Costa -, Nádia Piazza, presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG), anunciava a construção de um memorial de homenagem às vítimas dos incêndios que, precisamente dois anos antes, tinham provocado 66 mortos e cerca de 250 feridos. Na mesma sessão de evocação da tragédia e tributo às vítimas, realizado em Castanheira de Pera (um dos três concelhos mais atingidos pelas chamas), Nádia Piazza explicou em que é que consistia o projeto do memorial, concebido gratuitamente pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura.

O concurso público foi lançado em 10 de fevereiro de 2021. Orçada em 1.794.761,91 euros, a obra foi iniciada em 13 de setembro do mesmo ano e tinha um prazo de execução de 300 dias, que terminava no dia 10 de junho de 2022.

Em junho do ano passado, a Infraestruturas de Portugal justificou o atraso da conclusão da empreitada com a falta de materiais.

Já em fevereiro último, a empresa esclareceu que as últimas tarefas a realizar, que incluíam plantações e sementeiras, só podiam ser realizadas na primavera, pelo que à data os trabalhos estavam suspensos, indicando-se a conclusão dos trabalhos neste segundo trimestre.

Concluindo
O memorial de homenagem às vítimas dos incêndios de 2017, relembro, da autoria do arquiteto Souto Moura, foi aberto ao público na quinta-feira (15.06.2023), sem cerimónia oficial de inauguração.

Além disso parece-me de uma coisa mórbida o memorial estar rodeado por um eucaliptal! O mesmo tipo de árvore que causou e potenciou toda aquela desgraça.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Parque das Serras do Porto - um olhar independente


Um trabalho independente sobre o estado atual da área verde mais importante do Grande Porto. E que na minha opinião não está a ser devidamente acautelada. Este documentário de cerca de 12 minutos contou com os depoimentos de Jorge Gomes, José Pereira, Vitor Parati, Serafim Riem e Filipa Almeida. 
Um projeto de consciência Loving the Planet.

Site:

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Música do BioTerra: The Chameleons - A Person Isn't Safe Anywhere These Days

The end of this song, the final minute is pure genius. Rock music does not get any better than this.Sad, that so many people preferred the U2 posers instead of The Chameleons.


As she parts her greying hair
Voices on the stair
When she turns there's someone there

Like a nightmare from the past
To the sound of splintered glass
Dance the monsters in the masks

Men of steel
Just stood laughing in the rain

Have you killed her
Someone said
As they dragged her from her bed
Kicking in her head

What kind of times are these
No one hears, no one sees
As they drive her to her knees

Men of steel
Just stood laughing in the rain

What kind of times are these
As they drive you to your knees
They just stood laughing in the rain
The rain

How can you laugh this one away
Will you ever laugh this one away

Best band nobody knows about.
 

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Terminal do Cais do Cavaco em Gaia terá dois pisos e será revestido a tijolo


O terminal fluvial do Cais do Cavaco, em Vila Nova de Gaia, desenhado pelo arquiteto Álvaro Siza, terá dois pisos e será revestido a tijolo burro, de acordo com um estudo em consulta pública até 14 de junho.

Segundo o resumo não técnico do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do projeto, o edifício do terminal "de planta retangular, apresenta 180 m [metros] de comprimento e 27 m de largura" e "dispõe de dois pisos, apresentando altura de 10 m, e a sua área de implantação é de 4.825 m2 [metros quadrados]".

"O edifício reveste-se de tijolo burro à cor natural, contrastando com o verde presente na colina a tardoz, e pousa sobre uma plataforma em betão branco. Esta plataforma fundada em estacas, liga-se a terra através de um aterro marginal sobre o rio que suportará um sistema viário mais eficiente para a circulação de veículos que acederão ao terminal", pode ler-se no documento submetido a avaliação ambiental.

De acordo com o estudo disponível no portal Participa, o terminal "deverá dispor de quatro postos de acostagem com capacidade para acolher quatro navios-hotel com comprimento de 80 m", estando também prevista "a possibilidade de acostagem de um navio extra para efeitos de pequena manutenção, cargas ou outros".

Além dos navios-hotel, a infraestrurura fluvial também contempla "a instalação de um pequeno núcleo de recreio náutico com capacidade para cerca de cinco dezenas de embarcações de recreio".

"Com exceção da faixa adjacente à margem, construída em aterro, toda a infraestrutura do terminal será fundada em estacas cilíndricas de betão armado", e "a plataforma do cais oferece uma frente-cais de 343 m de comprimento, com uma largura de 10 m".

Em terra, "do lado da marginal é criada uma alameda servindo-se da via atual e de uma outra via, a construir", permitindo a nova estrutura viária "a inversão de marcha de veículos de grandes dimensões como autocarros ou camiões garantindo uma maior flexibilidade de acessos ao terminal".

No dia 11 de novembro de 2022, a Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL) anunciou que estava "a desenvolver um projeto de construção de um terminal de embarcações marítimo-turísticas na margem sul do rio Douro", em consonância com a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia quanto ao "local, projeto, arquiteto e enquadramento urbanístico".

De acordo com o estudo colocado em consulta pública no dia 03 de maio, a construção do terminal "tem ainda subjacente a relocalização do cais-base dos navios-hotel que atualmente opera no Cais de Gaia em condições muito limitantes para esta atividade, bem como para a zona urbana em que se insere, em pleno centro histórico da cidade de Gaia".

Apesar de o estudo classificar que os impactos negativos estão "na sua larga maioria qualificados como pouco significativos", o estudo refere também que foram consultados os residentes do empreendimento Destilaria Residence, em frente ao terminal projetado, em que "os proprietários do condomínio foram unânimes a manifestar desagrado com o projeto do terminal cuja cércea interfere com as vistas sobre o rio".

Atualmente, na zona do Cais do Cavaco, "existe uma antiga ponte-cais, em estrutura metálica, desativada desde há vários anos", e, a realizar-se a construção do cais, estima-se que a empreitada demore dois anos, segundo o estudo.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Empilhar pedras pode prejudicar a biodiversidade


Num artigo publicado na revista científica Human-Wildlife Interactions, uma equipa internacional de investigadores, da qual fazem parte vários investigadores do cE3c, alerta que o empilhamento de pedras pode prejudicar várias espécies, algumas das quais já ameaçadas de extinção. A criação de montinhos de pedras tem-se tornado uma prática popular um pouco por todo o mundo, encontrando-se associada ao turismo de natureza e à partilha de fotografias nas redes sociais.

Em passeio ou numa caminhada, pode já ter encontrado um destes montinhos de pedras. São cada vez mais populares e surgem inclusive em áreas protegidas – por exemplo no Parque Nacional do Teide em Tenerife, nas Ilhas Canárias (Espanha) ou no Parque Nacional de Thingvellir na Islândia –, onde se encontram associados ao crescimento do turismo de aventura e de natureza e à partilha de fotos nas redes sociais. Mas estas estruturas modificam o habitat de várias espécies animais e vegetais que utilizam rochas como refúgio ou que dependem das condições microclimáticas associadas às mesmas, prejudicando a biodiversidade nestes locais.

Montinhos de pedras no Parque Nacional de Thingvellir na Islândia. ©: Filipe Tavares.

Também em Portugal existem locais onde os visitantes deixam a sua marca – como na Serra da Estrela e em diversas praias na Costa Vicentina, por exemplo. Apesar de poderem ser úteis como marco de orientação em zonas montanhosas, chamados de mariolas neste caso, os montes de pedras, quando não têm o intuito de sinalizar o caminho podem induzir caminhantes em erro e trazer danos para a biodiversidade. No artigo de opinião agora publicado, os investigadores alertam para o potencial impacto desta prática.

“Esta prática tem um impacto preocupante em zonas sensíveis para a conservação da natureza, pois existem diversas espécies, particularmente em zonas áridas, que dependem das condições microclimáticas associadas às pedras existentes nos seus habitats. Nas Ilhas Selvagens por exemplo, a maioria das pedras com mais de um palmo de diâmetro dão abrigo a uma ou mais osgas-das-Selvagens, uma espécie endémica e ameaçada de extinção. As pedras isoladas criam condições especiais de temperatura e humidade que são importantes para várias espécies e a disposição das pedras influencia a dinâmica entre predadores e presas ou entre competidores. Por isso mover, retirar ou partir estas pedras pode provocar um desequilíbrio no ecossistema”, explica Ricardo Rocha, primeiro autor deste artigo. Ricardo Rocha é investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos – CIBIO-InBIO, da Universidade do Porto.

Os investigadores descrevem o potencial impacto desta prática na Ponta de São Lourenço, o local mais a leste da Ilha da Madeira, incluído na Rede Natura 2000 e no Parque Natural da Madeira. Sendo um destino de turismo de natureza muito popular, nos últimos anos estas estruturas têm-se multiplicado, levando à erosão do solo e a danos na vegetação. Aqui, a perturbação de habitat associada à construção de montinhos de pedras ameaça várias espécies endémicas com distribuições muito reduzidas, como o briófito Riccia atlantica, classificada como ‘Criticamente em Perigo’ pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês).

Lagartixa da Madeira (Teira dugesii), único réptil nativo da ilha, que depende das rochas para refúgio. ©: Ricardo Rocha.

Na Madeira, o único réptil nativo da ilha – a lagartixa da Madeira (Teira dugesii) – depende destas rochas para se refugiar. A Ponta de São Lourenço acolhe também uma grande diversidade de invertebrados – como a tarântula-insular (Hogna insularum), endémica do arquipélago, e a aranha-flor-da-Madeira (Misumena nigromaculata), endémica especificamente da Madeira – que dependem da disponibilidade e da não perturbação destas rochas para sobreviver. É também esse o caso de vários moluscos terrestres endémicos da Ilha da Madeira, como o caracol de São Lourenço (Amphorella tornatellina minor), que se encontra restrita à Ponta de São Lourenço.

“Existem várias espécies que dependem destas pedras como abrigo e, por isso, pedimos a quem visita zonas sensíveis para a conservação da natureza que não mova estas pedras. Limitem-se aos trilhos pré-existente e tentem reduzir o vosso impacto ao máximo. Não é fácil antecipar quais as consequências que atividades aparentemente inócuas, como a construção destes montinhos de pedras, podem ter em zonas com espécies sensíveis e ameaçadas”, alerta Ricardo Rocha.

Painel informativo na Ponta de São Lourenço, Parque Natural da Madeira, alertando os visitantes para a importância de respeitar e preservar os valores do local, em particular para a importância de não mover as pedras. ©: Ricardo Rocha.

Em zonas urbanizadas, como na Praça do Comércio, em Lisboa, onde também podemos encontrar estas estruturas, a atividade não é particularmente problemática, do ponto de vista do investigador. “No entanto, mesmo nestas zonas, a construção destes montinhos de pedras eventualmente leva a banalização destas estruturas, e isso pode, quase que por contágio, induzir a construção destes montes de pedras em zonas mais sensíveis”, explica Ricardo Rocha. Deste modo, os investigadores incentivam também as autoridades a impor restrições na construção destas estruturas e a desmantelar as já existentes, de modo a não encorajar novas construções que possam constituir uma ameaça à biodiversidade em zonas particularmente sensíveis.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Ambientalistas contra passadiço que poderá causar “debandada” de aves


O Paul do Taipal, uma Zona de Protecção Especial para a Avifauna (isto é, as aves que ocorrem na região), está em vias de ter um passadiço, mas as obras de construção pararam esta semana. O motivo: o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) não permite que decorram durante o período de nidificação dessa mesma avifauna (entre o início de Fevereiro e o final de Junho).

Alguns ambientalistas estão a aproveitar o momento para voltarem a contestar o projecto, uma iniciativa da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho (CMMV) que, argumentam, poderá provocar uma “debandada brutal” das espécies de aves aquáticas que o paul alberga.

​“O passadiço vai passar, num dos seus sectores, muito perto da água. O Paul do Taipal, que é [reconhecido como sendo] uma zona húmida de importância internacional [Sítio Ramsar 2001], acolhe aves aquáticas que, quando virem a aproximação humana, vão fugir”, diz ao PÚBLICO David Rodrigues, professor e investigador da Escola Superior Agrária de Coimbra e um dos principais opositores.

Esta luta não é de hoje. Associações ambientalistas como a Milvoz, organização não-governamental (ONG) dedicada à preservação do património natural de Coimbra (distrito a que o Paul do Taipal pertence), andam a alertar para os possíveis perigos do passadiço há bastante tempo.

“O problema é que [ele] passa mesmo junto à margem dos lagos que constituem o refúgio mais importante, particularmente para a comunidade de anatídeos [família de animais que inclui cisnes, gansos e patos]”, disse ao PÚBLICO Manuel Malva, presidente da Milvoz, no final de 2021. “Isto é querer colocar as pessoas a verem os animais quase como se estivessem num zoológico, mas as aves não vão tolerar isso”, acrescentou então.

Agora, novamente ouvido pelo PÚBLICO, o biólogo retoma a conversa. “O Paul do Taipal, sendo uma zona pouco fragmentada ou perturbada, acolhe espécies que são de relevância nacional e internacional, por terem um estatuto de conservação pouco favorável. É justamente devido à ausência de perturbação humana que estas espécies estão lá”, frisa, dizendo que estes animais têm “distâncias de fuga bastante largas”.

A distância de fuga de uma ave é a distância a partir da qual ela levanta voo perante a aproximação de uma pessoa, por sentir que é uma ameaça. Muitas das aves que o Paul do Taipal acolhe são espécies com “elevada sensibilidade à figura humana”, diz Manuel Malva, afirmando que, no sector mais “crítico” do passadiço, as distâncias de fuga “não são minimamente respeitadas”.

“Inevitavelmente, algumas daquelas espécies mais vulneráveis abandonarão a área. Será uma debandada brutal”, afirma. Tanto Manuel Malva como David Rodrigues alegam que, com as obras, há um declínio populacional já em curso.

Faltou fazer análise de incidências ambientais, acusa Milvoz

Em Julho de 2022, a Milvoz e a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) tentaram acabar imediatamente com a construção do passadiço, através da interposição de uma providência cautelar. “Inicialmente, o tribunal concedeu mérito a essa acção”, o que levou a uma interrupção momentânea dos trabalhos, mas depois “a sentença não deu provimento à providência cautelar”. Porquê? As ONG não terão conseguido demonstrar que a continuação das obras levaria a “consequências graves” para a fauna do paul, explica a Milvoz num comunicado de imprensa enviado ao PÚBLICO.

“Na prática, o tribunal considerou que a SPEA e a Milvoz teriam de provar cabalmente as consequências irreversíveis, algo que só pode ser feito” com uma “análise de incidências ambientais”, pode ler-se no mesmo comunicado.

Manuel Malva afirma que cabia ou à CMMV, enquanto responsável pelo projecto, ou ao ICNF, enquanto instituto responsável pela conservação da natureza a nível nacional, fazer uma análise de incidências ambientais. Era não só sua responsabilidade, como sua “obrigação”, “sendo o paul uma área classificada”, refere.

Ouvido pelo PÚBLICO, o ICNF diz que, na sua actual redacção, a lei estabelece a necessidade de fazer esta análise quando se trata de “acções ou projectos susceptíveis de afectar significativamente um Sítio da Rede Natura 2000” — coisa que o Paul do Taipal é, por ser uma Zona de Protecção Especial para a Avifauna.

O ICNF “emitiu parecer favorável condicionado” ao projecto por considerar que este “não é susceptível de afectar o Paul do Taipal de forma significativa”, graças às “medidas de minimização dos efeitos negativos” que o projecto prevê e às “condicionantes” estabelecidas pelo ICNF no seu parecer.

O instituto refere ser “importante sublinhar” que: as obras são executadas fora do período de nidificação da avifauna; “serão instalados painéis informativos ‘avisadores’”, que darão conta das regras de acesso e normas de conduta dos visitantes; a entrada dos mesmos será monitorizada, através da instalação de um “sistema para contagem de acessos em tempo real”; e, ainda, “a concepção do traçado do percurso permite, sempre que necessário, o seu seccionamento e a interdição do acesso a zonas mais sensíveis e/ou em determinadas épocas do ano”.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Passadiços do Mondego, Tua e Oleiros

Vale do Tua, Murça- Portugal

O que eu desunhei para obter esta foto. O wilderness / selvagem puro no nosso País está um caos. Dantes eram as eólicas e eu evitava as fotos que incluíam eólicas. Agora é a praga dos passadiços. Estão por todo o lado. Imaginem no coração da Beira Baixa, em pleno Geoparque Naturtejo, esconde-se mais um passadiço que veio aumentar a já longa lista de percursos deste género em Portugal: os passadiços do Orvalho, no concelho de Oleiros. Já fiz esta região sem passadiços. É dura, bela, longa e fantástica. Para quê "passadiços"? Até em Murça!!

E a moda dos passadiços não para; agora foi a própria Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, que foi inaugurar os 4 milhões de euros e doze quilómetros dos passadiços do Mondego, equipamento que, segundo o autarca da Guarda, “vai dar a conhecer a serra da Estrela como os visitantes “nunca a viram” (deve-se referir à serra depois de queimada...) e vai dinamizar a economia local da região Centro, até porque estamos perante um projeto de interesse turístico internacional” que incluí “três pontes suspensas de cortar a respiração”... (Em Morbi, na Índia, uma ponte suspensa, objeto de obras de recuperação, reaberta ao público cinco dias antes, desabou no mês passado e cortou, a 137 pessoas, muito mais que a respiração, cortou a vida... longe vá o agoiro).

Qual o interesse internacional deste percurso, numa Europa cheia de percursos pedonais, bem projetados, marcados e sinalizados, mas aproveitando caminhos antigos e não caminhos de tábuas de pinho que apodrecem em dez anos! Que é que isto tem a ver com “coesão territorial”?

É “coesão territorial” devassar e degradar o território? Se calhar é, pois como a maioria do país já está degradado, degradar o que ainda não está dá coesão ao território! Mas, pasme-se, estes passadiços foram cofinanciados a 80% pelo FEDER, ignorando o princípio comunitário do “Do No Significant Harm” (Não Prejudicar Significativamente o ambiente, que determina que os projetos ao abrigo do financiamento europeu não devem causar danos significativos a nenhum dos seis objetivos ambientais definidos no Regulamento de Taxonomia da UE.).

Na Áustria onde estive há pouco tempo, só me chocou uma paisagem plana cortada por enormes torres eólicas. Mas passadiços, não vi. 

Shafelberg - Austria

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Gavião: Novos passadiços da Rota da Sirga perturbam abutres e impedem nidificação!



Passadiço da Rota da Sirga perturba abutres, que já não nidificaram este ano no Gavião.

Tal como a Rádio Campanário noticiou no passado mês de março, foi inaugurado o Percurso Pedestre 8 intitulado de Rota da Sirga.

A criação destes novos passadiços estão agora envoltos em polémica. De acordo com a notícia avançada pelo Médiotejo, o Biólogo Carlos Pacheco vem agora criticar a criação deste novo percurso pedestre por considerá-lo prejudiciais ao ambiente.

De acordo com a mesma fonte, estes passadiços vêm “perturbar” a nidificação dos grifos e o abutre-do-egipto, uma vez que, como refere o Biólogo,  desapareceram sinais de qualquer nidificação nos 22 ninhos de uma colónia de grifos ali existente, com três núcleos, e noutro de um casal de abrute-do-egipto – espécie ainda mais rara nestas paragens, pois só nidifica em zonas inóspitas e tranquilas.

O Presidente da Câmara de Gavião, questionado pelo Médiotejo se foi elaborado algum estudo de impato ambiental para a construção do mesmo, deu conta que "não , porque não era obrigatório."

Certo é que, de acordo com a notícia avançada, nas escarpas junto ao Tejo, no concelho de Gavião, nesta primavera não há ovos nem crias em nenhum dos 22 ninhos de grifos identificados pelo Instituto de Conservação da Natureza, bem como no de um (raro) casal de abutre-do-egipto.

Leia a notícia completa em MédioTejo


Saber mais: 
2021 - O abutre-preto regressou ao território português