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sábado, 11 de julho de 2026

Por detrás da sua imagem amiga do ambiente, a IKEA - o maior consumidor de madeira do mundo - esconde práticas bastante pouco escrupulosas


O documentário "IKEA, o Caçador de Árvores" (originalmente IKEA, le seigneur des forêts ou How IKEA Plunders the Planet, 2024 ), realizado por Xavier Deleu e Marianne Kerfriden com base numa investigação jornalística de Alexander Abdelilah e Robert Schmidt, expõe o contraste dramático entre a imagem pública ecológica do gigante sueco do mobiliário e o impacto ambiental real da sua cadeia global de abastecimento de madeira. Consumindo cerca de 20 milhões de metros cúbicos de madeira por ano - o equivalente ao abate de uma árvore a cada um ou dois segundos -, a multinacional transformou-se num predador florestal global, cuja procura implacável por matéria-prima barata impulsiona crimes ambientais e a destruição de ecossistemas preciosos em múltiplos continentes.

A investigação percorre vários países, revelando que a exploração intensiva começa na própria Suécia. Ali, ativistas locais e representantes do povo indígena Sámi denunciam a prática sistemática de cortes rasos (abates totais de parcelas florestais) nas últimas florestas boreais antigas. Estas áreas ricas em biodiversidade são sistematicamente substituídas por monoculturas industriais de árvores alinhadas que funcionam como autênticos "desertos verdes", destruindo os líquenes de que as renas locais dependem para sobreviver e alterando permanentemente a paisagem escandinava.

O cenário agrava-se na Roménia e na Ucrânia, onde o documentário acompanha o rasto da madeira que alimenta as fábricas de fornecedores da IKEA. Na cordilheira dos Cárpatos romenos, lar de algumas das últimas florestas virgens da Europa, ativistas de organizações não-governamentais como a Agent Green expõem o abate ilegal e abusivo dentro de parques nacionais e áreas teoricamente protegidas pela rede Natura 2000. Cientistas e investigadores demonstram como o sistema de rastreabilidade é contornado através do branqueamento de madeira, misturando troncos extraídos ilegalmente com lotes autorizados. O impacto estende-se à Ucrânia, onde investigações anteriores já tinham sinalizado a entrada de madeira extraída de forma irregular nas cadeias de produção de produtos icónicos da marca.

A nível global, a reportagem viaja até à Rússia (região da Sibéria), expondo ligações a fornecedores locais envolvidos no desflorestamento de florestas protegidas de Taiga antes das restrições geopolíticas, e até à Nova Zelândia. Neste último país, o documentário foca-se nas consequências catastróficas das plantações intensivas de pinheiros exóticos que substituíram a vegetação nativa. Quando ocorrem tempestades violentas, os resíduos de madeira deixados pelas empresas de exploração florestal nas encostas deslizam em massa, gerando violentas enxurradas de detritos que destroem rios, praias e infraestruturas, afetando diretamente as comunidades locais e as terras ancestrais do povo Māori, que lamentam a perda da harmonia ecológica original. Representantes do povo Māori declararam na ONU que tal prática corporativa representa uma nova forma de colonização, retirando poder às comunidades nativas em favor do lucro estrangeiro e degradando a ligação sagrada que mantêm com a terra (Papatūānuku).

Um dos pontos centrais da crítica do documentário foca-se no papel do FSC (Forest Stewardship Council). Criado originalmente na década de 1990 com o apoio de organizações de prestígio como a WWF e a Friends of the Earth para garantir uma gestão florestal sustentável, o selo verde é apontado pelos realizadores e por antigos fundadores como tendo sido instrumentalizado. O FSC acabou por se transformar num escudo de greenwashing (lavagem verde) para as grandes corporações. Ao certificar áreas onde se praticam cortes rasos ou onde a madeira provém de origens controversas, o sistema falha em proteger as florestas que restam no planeta, permitindo que o consumidor compre mobiliário de massa sob uma falsa premissa de sustentabilidade.

Em janeiro de 2024, o documentário IKEA Loves Wood (IKEA elsker træ) já denunciava más práticas na Roménia.

Dinheiro a circular por paraísos fiscais e fundações suspeitas, graças à IKEA
Este artigo do portal de jornalismo independente Basta! esmiuça um relatório da organização Attac Alemanha sobre o intrincado labirinto financeiro que a IKEA utiliza para praticar a otimização fiscal em larga escala e minimizar as suas obrigações tributárias. A investigação desconstrói a imagem pública puramente filantrópica da empresa, demonstrando como as receitas geradas nas lojas físicas são canalizadas por uma complexa rede de holdings e fundações que se estende por várias jurisdições. 

No cerne desta estrutura está uma rede de fundações ostensivamente sem fins lucrativos, desenhada para fragmentar a propriedade legal e blindar o capital contra a tributação. Na Holanda, a fundação Stichting Ingka fica no topo da pirâmide como proprietária do Ingka Group, que opera a maioria das lojas globais. Pelo facto de o fisco holandês a reconhecer como uma entidade de caridade, os seus vastos rendimentos de investimentos e ativos líquidos desfrutam de massivas isenções fiscais. Além disso, a legislação holandesa protege este arranjo ao não exigir que a fundação publique relatórios financeiros anuais. 

Enquanto isso, o conceito da marca em si é controlado por outro braço através da Fundação Interogo, localizada no paraíso fiscal de Liechtenstein. Uma investigação da televisão sueca revelou que esta única entidade permitiu ao fundador da empresa, Ingvar Kamprad, evitar o pagamento de algo entre 2,3 e 3,2 mil milhões de euros em impostos ao longo de um período de vinte anos. 

Um terceiro grande tentáculo corporativo, o Ikano Group, está sediado em Luxemburgo e pertence aos três filhos de Kamprad. Esse braço supervisiona a gestão financeira, serviços bancários, imobiliários e de seguros, utilizando subsidiárias adicionais ocultas em paraísos fiscais como a Suíça e a ilha de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. 

Ao movimentar continuamente dinheiro entre a Holanda, Luxemburgo, Liechtenstein e Curaçao, a multinacional sueca paga taxas efetivas de imposto muito abaixo das médias corporativas europeias padrão. A empresa de retalho controladora historicamente enfrentou uma taxa efetiva de imposto sobre o rendimento de apenas 17,8%, enquanto o Inter IKEA Group, detentor da marca, pagou no máximo 11,6%. 

O sigilo que envolve estes arranjos é uma escolha deliberada. Quando a comissão de informação da Assembleia Nacional Francesa intimou grandes multinacionais a depor sobre otimização fiscal corporativa, a IKEA recusou-se categoricamente a participar, oferecendo a desculpa de que, infelizmente, carecia de conhecimento técnico num campo tão complexo, uma justificativa que os parlamentares rotularam como altamente improvável e perturbadora para uma organização do seu porte. 
O artigo, em última análise, destaca uma contradição gritante entre as mensagens corporativas e as práticas financeiras, observando que, embora a IKEA Foundation proclame publicamente uma dedicação ao bem-estar das crianças, a corporação como um todo minimiza agressivamente as próprias receitas fiscais necessárias para financiar os sistemas públicos de educação e saúde nas comunidades onde opera.

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Quando a IKEA lançou um outdoor fascista

terça-feira, 5 de maio de 2026

Philip Pilkington - O colapso do liberalismo global e ideias um pouco polémicas


No livro The Collapse of Global Liberalism (O Colapso do Liberalismo Global), o economista Philip Pilkington apresenta uma análise contundente sobre o declínio terminal da ordem liberal internacional, o sistema de cooperação política e comércio global liderado pelo Ocidente desde o pós-Segunda Guerra Mundial. A sua tese central baseia-se na ideia de que o "globalismo" não foi meramente um fenómeno económico de eficiência de mercados, mas sim um projeto ideológico falhado que pressupunha uma convergência universal para os valores da democracia liberal e do livre mercado. Pilkington argumenta que potências como a China e a Rússia demonstraram a fragilidade desta premissa ao integrarem-se na economia mundial sem abdicarem dos seus próprios modelos políticos e sociais, desmentindo a inevitabilidade da hegemonia ocidental.

Um dos pontos mais críticos da obra foca-se na desindustrialização do Ocidente. O autor sustenta que a busca desenfreada por lucros de curto prazo e eficiência logística impulsionou o offshoring, transferindo a base manufatureira para o exterior e criando uma dependência estratégica perigosa de rivais geopolíticos. Este processo não só enfraqueceu a segurança nacional das nações ocidentais, como também devastou a classe trabalhadora doméstica, servindo de combustível para a instabilidade política interna e para a ascensão de movimentos populistas. Paralelamente, Pilkington destaca a crise energética e de recursos, sublinhando que a prosperidade liberal dependia de energia barata e fluxos estáveis. Com a atual fragmentação geopolítica e os desafios da transição energética, o controlo do poder real deslocou-se para os países que detêm a produção física e os recursos naturais, deixando o Ocidente vulnerável na sua segurança material.

Para o economista, estamos a assistir ao fim da era do "idealismo liberal" e ao nascimento de um mundo dominado pelo "realismo geoeconómico". Neste novo paradigma, o comércio internacional deixa de ser visto como um instrumento de paz universal para ser utilizado como uma arma política, o que levará inevitavelmente à formação de blocos regionais fechados em detrimento de um mercado global único. Pilkington dirige ainda duras críticas às elites tecnocráticas ocidentais, acusando-as de estarem desconectadas da realidade material e de insistirem em estruturas obsoletas que apenas aceleram o colapso. Em última análise, o autor não prevê necessariamente o fim da civilização ocidental, mas sim o fim da ilusão do seu domínio global indefinido, defendendo que a sobrevivência nesta nova era de fragmentação exige um retorno pragmático à soberania nacional, à reindustrialização e à garantia da segurança material de cada Estado.


Minha análise
A tensão atual no liberalismo revela-se profunda quando confrontamos os ideais humanistas com a crueza da nova realidade geoeconómica. Para um liberal que se revê no Manifesto de Oxford, o cenário descrito por Philip Pilkington assemelha-se a um verdadeiro pesadelo, pois a fragmentação do mundo em blocos fechados e protecionistas coloca em causa a promessa fundamental de que cada indivíduo possa decidir o seu próprio rumo. Se a análise de Pilkington estiver correta, a mobilidade humana será drasticamente reduzida por fronteiras mais rígidas e o custo de vida sofrerá um agravamento inevitável, uma vez que o fim da eficiência global retira poder de compra às famílias, limitando as suas opções de vida reais e tangíveis.

Neste contexto, assistimos também a um crescimento perigoso do papel do Estado. Para garantir a reindustrialização e a segurança material exigidas pela soberania, o poder público tende a tornar-se cada vez mais interventivo, o que frequentemente resulta no atropelo da iniciativa privada e da autonomia individual. Ao admitir que Pilkington tem razão no seu diagnóstico do colapso, mas mantendo a fidelidade aos princípios de Oxford, o liberal contemporâneo mergulha num dilema intelectual fascinante: é o reconhecimento de que, embora o ideal de liberdade seja o destino desejado, a realidade material está a destruir a estrada que a ele nos deveria conduzir.

A questão crucial que agora se coloca é como salvar o espírito do Manifesto de Oxford num mundo que parece ter deixado de acreditar na cooperação global. O grande desafio passa por encontrar formas de preservar a dignidade e a liberdade da pessoa humana num ambiente que privilegia a segurança física e o poder estatal em detrimento da liberdade individual. Resta saber se o liberalismo terá a agilidade necessária para se reinventar, garantindo que o indivíduo não se torne um mero peão nas disputas geoeconómicas de uma nova era de fragmentação.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Delek Group, uma empresa israelita incluída na lista negra da ONU, arrecadou mais de mil milhões de dólares com o petróleo e o gás do Mar do Norte em apenas seis anos



An Israeli firm blacklisted by the UN for its West Bank activities has raked in over $1bn from North Sea oil and gas in just six years – and could be set to earn even more if the Rosebank field is approved.

Analysis by The Ferret shows Aberdeen oil company Ithaca Energy has paid over $1bn in dividends to its largest shareholder, Delek Group, since 2020.

Delek, an Israeli energy conglomerate, has been named on a United Nations database of firms whose activities in the occupied West Bank raise “particular human rights concerns”.

Ithaca owns a stake in the Rosebank oil field off the coast of Shetland, which the UK energy minister Ed Miliband is under pressure to green light. It also now owns 100 per cent of the Cambo field, which was at the centre of controversy in 2021.

Lawyers for the campaign group Uplift have claimed that Ithaca’s connection to Delek means approving Rosebank could risk the UK breaching the Geneva convention, and alleged that the Israeli company’s activities could be seen as “ancillary” to war crimes.

Environmental campaigners told The Ferret that “not one penny of profit should flow from the North Sea towards Delek” and that choosing to approve Rosebank would be “morally reprehensible” because it could “bolster" its activities in the West Bank.

Both Ithaca and Delek were approached for comment.

Delek has been Ithaca’s largest shareholder since 2017, but its pay-outs from the firm have accelerated in recent years as Ithaca expanded its presence in UK fossil fuels. Ithaca says it now holds stakes in six of the UK’s ten largest oil and gas fields.

Our analysis shows Ithaca paid $569m in dividends to Delek across 2024 and 2025, with a further $101m distributed on 16 April this year. That takes total payments since 2020 to more than $1bn.

Delek has previously described Ithaca’s operations in the North Sea as part of the “growth engine” for its wider business. 

As The Ferret first reported when Ithaca bought Cambo back in 2022, Delek was included in a 2020 list of companies whose activities in the occupied West Bank “raised particular human rights concerns” after a UN fact finding mission. It remained on updated versions of the list published in 2023 and 2025.

Delek was included because it was deemed to be providing services and utilities to support the maintenance of the settlements and was using natural resources in the West bank for “business purposes”. Israeli settlements in the West Bank are widely regarded as illegal under international law.

We also previously found that another firm in which Delek holds a significant stake – Delek Israel – has held contracts to provide refueling services to the Israel Defense Forces (IDF).

Rosebank is at the centre of a political row over whether the UK should continue to expand oil and gas production in the North Sea.

It is the UK’s largest untapped oil field and is estimated to contain 300 million barrels of oil. Backers of the project argue it could create thousands of jobs and support the country’s energy security in an increasingly unstable world.

Opponents claim it is incompatible with the UK’s climate targets and would do little to lower bills because most of the oil extracted from it would be exported.

The field was initially approved by the Conservative government in 2023, but Scotland’s court of session later found that decision unlawful, deeming that its full environmental impact had not been considered.

A revised application has since been submitted and the final decision will rest with Ed Miliband, who has faced pressure from politicians and industry to approve the project.

Analysis by WWF Norway previously estimated a further $300m (£222m) could flow to Delek if Rosebank goes ahead. Ithaca is expected to make a final decision on whether to try and develop the Cambo field either this year or in 2027.

“If the UK Government chooses to green light Rosebank, it would be a morally reprehensible decision that turns a blind eye to the fact that the project could bolster Delek’s activities in the Occupied Palestinian Territories,” Lauren MacDonald from the campaign group Stop Rosebank told The Ferret.

She continued: "There are many reasons why this toxic field should be stopped - but this is simply indefensible.

“The UK Government is well aware of these risks, and has even been warned that it could breach its own obligations under international law if it allows the field to go ahead.

"If the UK and Scottish governments are serious about creating a better world, they will pull the plug on Rosebank for good and ensure no further profits flow from our North Sea to Delek.”

Ithaca has not publicly commented on Delek’s links to the West Bank but has pointed out that it is a London stock exchange listed company and claims to be “governed by the highest standards of corporate governance”.

“Ithaca is one of the biggest investors in the North Sea and Scotland, is a responsible employer and is a major contributor to both the UK Treasury through tax payments and the UK’s energy security,” it told us in response to a story last August.

The UK Government also failed to respond to a request for comment. It previously said in regard to Rosebank that it cannot comment on individual projects.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Arranha-céus vazios de Nova Iorque onde os ultrarricos escondem fortunas


Quase metade dos apartamentos nos sete arranha-céus residenciais mais altos de Nova Iorque está atualmente vazia, incluindo a Central Park Tower, concluída em 2020 e considerada o edifício residencial mais alto do hemisfério ocidental, com mais de 470 metros.

A urbanização da zona começou no início da década de 2010, com edifícios como o One57, o 432 Park Avenue e o 220 Central Park South. Todos chegaram ao mercado ao longo da mesma década, com a Central Park Tower a ser comercializada ainda antes de estar concluída. [Reportagem do Guardian em 2019]

Com um preço médio de oferta de 30 milhões de dólares (25,2 milhões de euros), muitos apartamentos continuam, sem surpresa, por vender.

A Central Park Tower, por exemplo, ainda tinha 87 apartamentos por vender em 2023. No início de 2025, a Extell Development terá refinanciado 18 apartamentos ainda por vender com um empréstimo de 270 milhões de dólares (227,6 milhões de euros), sublinhando as persistentes taxas de escoamento muito baixas.

Ainda assim, a maioria dos apartamentos que foram vendidos acabou nas mãos dos ultra-ricos do mundo, muitos dos quais nunca lá chegaram a viver.

EUA: 'parking money' em arranha-céus de Nova Iorque
Para bilionários em todo o mundo, estes apartamentos de luxo funcionam menos como casas e mais como verdadeiros "cofres-fortes" imobiliários, numa estratégia que parece privilegiar a preservação do capital em vez da geração de lucros.

Antes de mais, o dinheiro é canalizado para ativos imobiliários denominados em dólares norte-americanos, o que ajuda a proteger a riqueza da inflação, da volatilidade cambial e da instabilidade política noutros países. Estes ativos podem ainda ser usados como garantia quando os proprietários precisam de liquidez.

O mercado imobiliário de Nova Iorque é amplamente visto pelos ultra-ricos como uma classe de ativos de "porto seguro", comparável ao ouro ou à arte de primeira linha. As casas de luxo em Manhattan, em particular, oferecem uma reserva de valor estável e relativamente imune a choques económicos.

Outro fator é que estes investimentos permitem diversificar carteiras mantendo o anonimato. Os apartamentos são frequentemente adquiridos através de sociedades de responsabilidade limitada (LLC), que podem ocultar a identidade do proprietário.

Essa opacidade é particularmente atrativa para ultra-ricos muito expostos mediaticamente, que pretendem evitar o escrutínio público sobre os fluxos de capital ou limitar aquilo que as autoridades fiscais dos seus países de origem podem inferir sobre o seu património global.

Por fim, o fenómeno das "torres fantasma". Os apartamentos permanecem às escuras e desabitados durante grande parte do ano, o que faz parte, de forma calculada, da própria estratégia.

Para um bilionário, o potencial rendimento de arrendamento de um apartamento de luxo é muitas vezes irrelevante face ao incómodo de gerir inquilinos e ao risco de desgaste de um ativo mantido em estado impecável.

Manter o apartamento vazio garante que se conserva em perfeitas condições, pronto para ser liquidado rapidamente quando for preciso dinheiro.

Consequentemente, o valor do apartamento reside no facto de ser detido e não habitado, funcionando como uma reserva de capital líquida, transmissível e hipotecável num dos mercados imobiliários mais cobiçados do mundo.

Estados Unidos: o bairro mais exclusivo do mundo
Os residentes da Billionaires' Row formam, provavelmente, um dos enclaves mais exclusivos do planeta. Ainda assim, raramente convivem como vizinhos e muitos permanecem totalmente anónimos.

A lista de proprietários é dominada por titãs dos fundos de cobertura norte-americanos e magnatas da tecnologia.

Ken Griffin, fundador e presidente-executivo da Citadel, um dos fundos de cobertura mais bem-sucedidos do mundo, foi notícia em 2019 ao fechar a compra de uma penthouse quádrupla recorde por 238 milhões de dólares (200,6 milhões de euros) no 220 Central Park South.

Michael Dell, fundador e presidente-executivo da Dell Technologies, também comprou na mesma faixa. Em 2014, adquiriu uma penthouse no One57 por 100,5 milhões de dólares (84,7 milhões de euros), então um recorde para a casa mais cara de sempre vendida em Nova Iorque.

A eles juntam-se outros nomes de peso do mundo financeiro, como Bill Ackman, da Pershing Square Capital Management, e Daniel Och, presidente e antigo presidente-executivo da Och-Ziff Capital Management.

Para lá dos compradores norte-americanos, muitas das torres pertencem a membros da elite global.

Entre eles contam-se figuras como o magnata saudita do imobiliário Fawaz Alhokair, que comprou a residência mais alta do 432 Park Avenue, o empresário têxtil de Hong Kong Silas Chou e Sting, o popular cantor britânico.


Ainda assim, para cada proprietário identificável, há dezenas de outros escondidos atrás de estruturas societárias complexas.

O resultado é um paradoxo curioso: alguns dos metros quadrados mais caros do planeta pertencem legalmente a empresas-fantasma.

O que realmente caracteriza estes proprietários é a sua transitoriedade. Um bilionário pode passar duas semanas por ano numa penthouse em Manhattan antes de seguir para uma propriedade nos Hamptons, uma villa em Saint-Tropez ou um apartamento em Knightsbridge, em Londres.

Por isso, a relação entre pessoal e residentes nestes edifícios é muitas vezes impressionante. Muitos funcionam com serviços de concierge de luxo 24 horas por dia e, nalguns casos, chefs privados, mantendo os apartamentos num estado de prontidão permanente, mesmo que o dono não ponha lá os pés há anos.

Nesse sentido, a Billionaires' Row está também cheia de "moradores fantasma", que são donos da vista, mas raramente aparecem na fotografia.

Estados Unidos: ofensiva de Mamdani contra bilionários
As finanças da cidade de Nova Iorque sofreram um forte abalo na semana passada, quando o autarca Zohran Mamdani apresentou o seu primeiro orçamento preliminar desde que tomou posse no início do ano.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Documentário: The Epstein Files and the 100 Most Powerful Figures


This documentary examines publicly released records related to the Jeffrey Epstein case using primary documents and verified reporting.

Sources include:
  1. U.S. Department of Justice releases (Jan–Feb 2026)
  2. Unsealed federal court filings (SDNY; U.S. Virgin Islands)
  3. Congressional statements (Feb 10, 2026)
  4. Reporting from BBC, Reuters, AP, and The New York Times ...
  5. The film analyzes how names appear in official materials such as flight logs, depositions, correspondence, and contact records.
This work focuses on evidentiary clarity — not speculation.

Legal Protection & Standards

This content is protected under:
  1. First Amendment free speech protections
  2. Public Record Doctrine (FOIA; federal transparency rules)
  3. Fair Use (17 U.S.C. §107) for news reporting, commentary, and education
  4. Public Figure Doctrine (New York Times v. Sullivan, 1964)
Supported by Supreme Court precedent including:
  1. Bartnicki v. Vopper (2001)
  2. Cox Broadcasting v. Cohn (1975)
  3. Florida Star v. B.J.F. (1989)
All individuals discussed are presumed innocent unless legally convicted.

Editorial Standards
This documentary distinguishes between:
✓ Documented fact (name appearing in records)
✓ Reported public outcome (resignation, investigation)
✓ Analytical commentary

It does not make criminal accusations.

Purpose
This film exists for:Historical documentation
  1. Legal literacy
  2. Public record clarification
  3. Educational analysis
  4. It is not intended to defame, accuse, or sensationalize.
The list above contains only billionaires, powerful politicians, or royalty.
✅ CLEARED IMPACT
Evidence shows they never engaged with Epstein or successfully avoided his approaches. Their reputation remains intact or even improved.
⚪ NO IMPACT
Found only in Epstein's surveillance files monitoring them without their knowledge. No actual contact, no consequences.
🟢 MINIMAL IMPACT
Brief mentions in address books or attendance at large public events. Easily explained as coincidental proximity. Media attention fades quickly.
🟡 MODERATE IMPACT
Notable PR challenges requiring public statements. Media coverage and online discussions continue, but no legal consequences or job losses.
🟠 SERIOUS IMPACT
Active investigations or lawsuits underway. Significant professional pressure with outcomes still uncertain. Career stability at risk but position maintained.
🔴 CRITICAL IMPACT
Resignations occurring or expected soon. Official investigations opened. Career significantly damaged with institutional relationships strained.
⚫ CATASTROPHIC IMPACT
Complete career ruin. Federal prosecution proceedings, permanent professional exclusions, or total institutional separation with no realistic path forward.

IMPORTANT NOTE: According to the U.S. Department of Justice, none of the individuals listed have been convicted or found guilty. The DOJ’s investigative process remains ongoing.

Note (4:40): 
(49) Sergei Belyakov served as Former Deputy Minister of Economic Development of Russia. 
(50) Al Gore served as Vice President of the United States from 1993 to 2001.
The on-screen labels were blurred due to a rendering error.

Trump was initially placed in the serious impact level, but after considering his history of navigating multiple controversies simultaneously, I moved him to moderate. Similar to Mark Zuckerberg, he has demonstrated a strong ability to manage legal and media challenges. In general, billionaires often have a higher chance of surviving media impact than politicians, since politicians depend more heavily on public legitimacy.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

2,9 milhões de euros. É este o valor que Portugal perde todos os dias


Não é um erro de cálculo. É o dinheiro que as multinacionais retiram do país diariamente através de esquemas de planeamento fiscal agressivo. Estamos a falar de mais de 1000 milhões de euros por ano que deviam entrar nos cofres públicos, mas que desaparecem para paraísos fiscais ou jurisdições mais simpáticas.

​E quem é que paga o rombo? Pagas tu.
​A máquina fiscal é implacável, mas só com quem não tem como fugir. Caem em cima do trabalhador por conta de outrem, caem em cima da pequena empresa que luta para pagar salários, caem em cima da classe média. Para nós, a carga fiscal é asfixiante, para os gigantes que lucram milhões cá dentro, é opcional.

Relatório da Tax Justice Network
O relatório da Tax Justice Network concluiu que durante seis anos, entre 2015 e 2021, Portugal perdeu cerca de cinco mil milhões de euros. Ou seja, por ano o país ficou com menos 800 milhões de euros. O estudo indica que estas perdas estão associadas a estratégias de transferência de lucros para paraísos fiscais e jurisdições fiscais mais brandas. Dos cinco mil milhões perdidos, cerca de 739 milhões de euros correspondem apenas a multinacionais com sede nos Estados Unidos

O contraste com Espanha é humilhante.
​Enquanto por cá fingimos que não se passa nada, aqui ao lado teve-se a coragem política de avançar. Espanha criou o Imposto de Solidariedade sobre Grandes Fortunas (para patrimónios acima de 3 milhões de euros). Resultado? Só no primeiro ano, foram buscar 623 milhões de euros aos mais ricos. O Tribunal Constitucional espanhol deu luz verde, ignorando os protestos da direita que queriam proteger os milionários.

Para atenuar os efeitos da evasão fiscal, as autoridades portuguesas têm em vigor uma taxa aprovada pelo G7, em 2021, e apoiada pelo G20, que passa pela cobrança de 15% sobre os lucros das multinacionais com vendas superiores a 750 milhões de euros.

​Lá, o dinheiro dos mais ricos serve para financiar o Estado Social. Cá, continuamos a proteger o grande capital enquanto o SNS, a Cultura, a Ciência, o Ambiente e a Escola Pública pedem socorro.

​E não se iludam com o atual cenário político. Com o crescimento da direita e da extrema-direita em Portugal, a tendência não será ir atrás dos poderosos. A história diz-nos exatamente o oposto, o discurso de "baixar impostos" serve muitas vezes para aliviar quem está no topo, enquanto a fatura e o desmantelamento dos serviços públicos sobram para quem vive do seu trabalho. Vêm sempre atrás do elo mais fraco.
A questão é até quando vamos permitir.

sábado, 1 de novembro de 2025

Ninguém devia ter mil milhões de euros

Vamos começar por aqui. E não, isto não é inveja, é matemática. É uma quantia absurda. A maior parte destas fortunas gigantescas é herdada. E a outra parte? Foi acumulada à custa do que não foi pago a quem realmente ajudou a construí-la. Por outro lado a tecnologia permite lucros globais com poucos custos; o valor das ações aumenta fortunas rapidamente; os impostos baixos e influência política protegem os ricos e finalmente a globalização, que concentra lucros nas grandes empresas.

Antigamente, alguns magnatas construíam bibliotecas, ou fundavam universidades, pelo menos sentiam a obrigação de devolver algo estrutural à sociedade.

Hoje? A ambição é ir ao espaço, ter o iate maior, o relógio mais caro e 50 carros na garagem. Não se importam de pagar valores absurdos por caprichos, só lhes custa pagar pelo trabalho. E o trabalho, a produção, o esforço humano, é a única coisa que realmente gera riqueza.

Mas para perceber o quão doentio isto é, temos de sair dos milhões e ir para o tempo de vida.
A nossa medida vai ser o Salário Mínimo em Portugal, €870 por mês. Com subsídios, são €12.180 por ano. Este é o valor de um ano inteiro da nossa vida de trabalho.

À escala de Portugal, a Família Amorim tem €5,4 mil milhões.
Para eles gastarem isto, ao ritmo de um ano inteiro do nosso trabalho, demorariam 443 000 ANOS.

A nossa espécie, o Homo Sapiens, existe há 300 000 anos. A totalidade da nossa história não chega.
À escala do Mundo, o homem mais rico, Elon Musk, tem €426 mil milhões. Demoraria 35 MILHÕES DE ANOS a gastar tudo.

Os dinossauros foram extintos há 65 milhões de anos. Isto não é tempo de vida. É tempo geológico.

Quem resumiu isto na perfeição foi a Billie Eilish esta semana. 
Billie Eilish pertence à Geração Z.

Num evento com bilionários na audiência, depois de anunciar que ia doar 11.5 milhões de dólares, confrontou-os diretamente: "És bilionário, porquê?"

Ela não está a falar de culpa pessoal. Está a falar desta distorção completa da escala humana.
O problema é um sistema que permite que um indivíduo acumule o equivalente a 35 milhões de anos de trabalho de outra pessoa, enquanto essa outra pessoa mal consegue sobreviver com o salário de um ano.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A Demagogia da Direita - usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas

É desconcertante como grande parte da direita portuguesa continua a usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas.
Como se a única diferença entre Portugal e a Irlanda fossem as taxas de imposto:
- como se os níveis de escolaridade na Irlanda não fossem há décadas superiores aos portugueses 
- e ainda são: 83,5% dos irlandeses adultos têm pelo menos o 12º ano, enquanto em Portugal são 61,3%, a taxa mais baixa da UE (ver gráfico);
- como se os irlandeses não falassem inglês nativo (a mesma língua que falam os chefes das empresas de sectores sofisticados que lá investem desde há décadas);
- como se o Estado irlandês não tivesse seguido, desde 1958, uma estratégia persistente de atracção de investidores americanos em sectores específicos de alta tecnologia (enquanto nós insistimos na ideia de disparar para todo o lado a ver se chove).

Mais desconcertante ainda é insistirem em usar números que não passam de uma ficção. Não são só os cépticos que o dizem: é o próprio Instituto Nacional de Estatística irlandês (o CSO). A questão é fácil de perceber: o facto de a Irlanda funcionar como uma espécie de paraíso fiscal leva muitas empresas a registar no país activos que rendem lucros, mas que não deixam nenhuma actividade no país.

Por exemplo, grandes multinacionais, sobretudo nos sectores das tecnologias digitais (Google, Apple, Meta) e farmacêutico (Pfizer, Johnson & Johnson) registam na Irlanda os lucros associados à propriedade intelectual, inflacionando as contas nacionais sem corresponder a actividade produtiva real no território.

Por isso, o governo e o CSO (o instituto nacional de estatística lá do sítio) passaram a dar destaque a medidas alternativas, como o Rendimento Nacional Bruto Modificado (RNB*), que exclui os efeitos artificiais da transferência de activos e lucros de multinacionais.

Segundo o CSO, o valor do RNB* da Irlanda em 2024 era pouco mais de metade (57%) do valor do PIB nesse ano (ver aqui). Estão a ver o efeito que isto tem na análise dos níveis relativos de riqueza, dos níveis de endividamento do país, ou do peso das despesas públicas na economia - tudo variáveis cujos indicadores usam o PIB no seu cálculo?

Podemos ter uma conversa séria sobre a relação entre competitividade e fiscalidade, claro, assumindo sempre que há diferentes desenhos possíveis para um sistema fiscal que se quer eficiente e justo. Mas já paravam com tanta demagogia, não era?

Além disso, A emigração irlandesa ainda é elevada e isso é demonstrativo de que a riqueza não é devidamente distribuída.

Entretanto, os irlandeses que trabalham em Inglaterra mesmo os altamente qualificados são discriminados. São vistos como os indostânicos em Portugal. Mão-de-obra barata, sem acesso a cargos de topo nas empresas. Sei bem do que falo pois trabalhei durante anos em várias empresas britânicas onde testemunhei sempre o mesmo padrão ( Carlos Vargas) . Os irlandeses são imigrantes e tratados dentro do padrão de discriminação "natural".

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Dia Mundial da População


Crónica de Pedro Vieira

não é não.
não, filha, a imigração não está no topo dos problemas deste retângulo amaldiçoado e abençoado; a desigualdade, o acesso à habitação, à saúde e a educação de qualidade, sim.

não, amor, não são os imigrantes amontoados em camaratas que andam a destruir o teu direito constitucional à habitação; são os "imigrantes" dos vistos gold, os fundos imobiliários predadores e os autarcas amigos de hotéis de 5 estrelas e alojamentos locais e fantasias de equídeos com chifres que estão a rebentar com o tecido social das cidades.

não, miga, os imigrantes não estão cá a mamar subsídios e a viver à tua conta; eles andam a contribuir para um sistema que é desbaratado pelos destruidores de bancos e pelas multinacionais à boleia de borlas fiscais e pelos liberais com pés de barro que se agarram às tetas do estado que adoram vilipendiar.

não, fofo, a imigração nunca foi tão alta como agora; continua a haver 3% de deslocados no mundo, valor igual desde o final da segunda guerra mundial, lançada pelos tiranos que o teu novo partido favorito gosta de glosar.

não, meu bem, o teu novo partido favorito não existe para te defender e gritar "vergonha"; existe para te convencer que a culpa é dos de baixo, enquanto mama nos de cima.

não, mor, os imigrantes não roubam empregos e puxam os salários para baixo; eles deslocam-se para os lugares onde há trabalho disponível, mesmo por valores indecentes, e muitos regressam às famílias e lugares de origem quando têm a vida mais orientada.

não, coração, não és só tu que preferes estar junto dos teus; eles também.

não, querido, os imigrantes não têm sangue de monhé ou de preto; têm sangue com hemoglobina como o teu.

não, riqueza, os imigrantes não matam mais do que o teu companheiro violento e abusador.

não, minha jóia, os imigrantes não estão a invadir-nos; em muitos lugares, estão a repor vida, num país que adora exportar cortiça, conservas e jovens sem futuro.

não, cariño, tu não és descendente de um pastor de cabras da zona de Viseu com pouco jeito para escolher guarda-costas; és descendente de iberos que ninguém sabe de onde vieram, de celtas e de romanos, de fenícios, cartagineses, mouros, castelhanos e de franceses, mais os negros de África e de europeus de fracas sortes e de gente dos orientes. e de neandertais, também, e às vezes nota-se. és como um daqueles pratos do honest greens - cantina preferida dos colarinhos brancos jovens e dos empreendedores, na qual são os imigrantes que cozinham - aqueles pratos com muitas cores e paladares, sem perceberes bem o que lá está.

não, meu doce, os imigrantes não são os teus inimigos de classe; esses são os que enviam anualmente o valor de um SNS para offshores, enquanto se riem da tua fúria (e das tuas filas de espera e das tuas crianças nascidas em ambulâncias) no deck de um iate.

não é não é não

quarta-feira, 4 de junho de 2025

José Luís Arnaut - o facilitador das privatizações


Em entrevista ao podcast “A lei e a Prática” do Diário de Notícias, José Luís Arnaut afirma que “a morte do Bloco de Esquerda é um sinal positivo para a economia”. E por economia o ex-ministro do PSD e atual presidente da ANA Aeroportos refere-se ao investidor estrangeiro que “olha para as notícias e vê tetos nas rendas, taxar os ricos, impostos sobre a fortuna” e assusta-se e vai embora. Para o antigo secretário-geral do PSD, “quem o bom senso dos portugueses mandou embora foram esses que tinham essas veleidades, digamos, de criar essas medidas”.

17 de janeiro 2018

O antigo ministro de Durão Barroso e Santana Lopes ficou conhecido como “o advogado das privatizações”, com o seu escritório a estar ligado às vendas pelo Estado da EDP, REN, ANA, TAP e CTT. No caso dos Correios, o seu escritório assessorou o banco Goldman Sachs, que se tornou no maior acionista após a privatização. Arnaut viria a ser nomeado em 2014 para o conselho consultivo internacional do Goldman Sachs, cargo que ainda hoje ocupa.

Entre 2014 e 2016, a sociedade de advogados de Arnaut faturou mais de 400 mil euros em serviços jurídicos à REN, outra empresa privatizada e onde Arnaut ocupa o cargo de administrador não executivo desde 2012.
O centro de negócios, 03 de abril 2019

Em 2013 o governo de Passos Coelho e Paulo Portas concluiu a privatização dos aeroportos portugueses, entregando 95% do capital à multinacional francesa Vinci. Do lado do comprador, estava a assessoria jurídica da CMS Rui Pena & Arnaut, como o ex-ministro à frente da equipa que preparou o negócio. Mais tarde viria a ser recompensado com o cargo de presidente da ANA Aeroportos, que também continua a ocupar hoje.

Segundo os dados biográficos atualizados, além dos cargos na Goldman Sachs, REN e ANA Aeroportos, José Luís Arnaut é ainda presidente adjunto da Associação de Turismo de Lisboa, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Portway, da Siemens, do grupo Super Bock e da Tabaqueira. Até há poucos meses ocupava o mesmo cargo na Federação Portuguesa de Futebol e também presidiu à Associação de Amizade Portugal-Qatar, participando em iniciativas promovidas pela família real daquele país. Em 2021, o consórcio de jornalistas OCCRP - Organized Crime and Corruption Reporting Project - revelou detalhes do negócio de concessão à Vinci de um aeroporto em Belgrado e da compra dos terrenos contíguos a um milionário com ligações ao narcotráfico, que a seguir se tornou sócio de José Luís Arnaut.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Relembrar alguns dos apoios do Chega - a 18 de Maio vamos retirá-lo do Parlamento


Num relatório publicado pela ONG norte-americana GPAHE contra ódio e extremismo, o Ergue-te foi classificado, juntamente com o ADN e o Chega, como um grupo de ódio e extrema-direita.

Aliás, o líder racista Mário Machado que votou sempre no PSD até 2000, passou depois a votar PNR e , quando apareceram os cheganos fez um vídeo na net a apelar ao voto nos cheganos. Não esquecer nem ignorar ainda a enorme quantidade trolls e bots cheganos que campeiam na rede X.

Partilha. Dia 18 vota para erradicar esta escumalha destruidora do bem estar social e democrático e violadora da Constituição da nossa República. Fascistas nunca mais.

Fonte 7 Março 2024
Quem apoia e financia o Chega merece ser nomeado. Não que o mesmo não deva ser feito com todos os demais partidos, mas a capa de virtude saneadora com que se cobre o dr. Ventura é, na situação presente, um logro que tem de ser revelado. Sabe-se, por exemplo, das formas enviesadas como o CDS chegou a ser financiado, sabe-se que os grandes grupos empresariais repetem abundantes e regulares donativos ao PSD e ao PS. A marca dos interesses de classe que se perfilam por trás destes apoios é clara, mesmo se pouco divulgados.

No caso do Chega, que se apresenta como cavaleiro da luta contra a corrupção, querendo parecer que joga por fora e contra “o sistema”, importa mostrar como, também neste aspecto, faz parte plena do sistema e dele beneficia. O seu propósito é apenas o de ganhar um lugar ao sol. Empresários variados, juristas, salazaristas, neonazis, ex-militares e ex-diplomatas – o leque fala por si.

Ver também o artigo do jornalista Miguel Carvalho no Público de 25 de fevereiro de 2024 «A grande ‘família’ do Chega».

Chega, Ventura e amigos

Quem são os ditos “portugueses de bem” que estão no Chega:

João Maria Bravo – Dono da Helibravo. Omitiu informação ao Estado e às Forças Armadas para ganhar o concurso público dos meios aéreos de combate aos fogos (Fonte: https://bit.ly/3sJiF5Y)

Subcontratou as empresas Pegasus e Elittelina. Ambas são investigadas por [terem organizado] cartéis do fogo [negócio do combate aos fogos], a primeira em Portugal, no âmbito da operação “Crossfire”, em que é suspeita de concertação de preços. (Fonte: https://bit.ly/3sJiF5Y)

Dono do Grupo Sodarca. Lidera o fornecimento de armas, munições, tecnologia e equipamento militar ao Estado, Forças Armadas e Segurança. (Fonte: https://bit.ly/39LdObv)

Paulo Corte-Real Mirpuri – Empresário que liderou a Air Luxor que acabou sufocada em dívidas, tendo os bens desaparecido misteriosamente. O processo de insolvência envolveu 51 credores e dívidas no valor de 86 milhões de euros. (Fonte: https://bit.ly/3p07Av1)

Francisco Sá Nogueira – Gerente da área turística da Helibravo. Ex-presidente da antiga holding do Grupo Espírito Santo para as atividades de agências de viagens e operador turístico, a Espírito Santo Viagens. (Fonte: https://bit.ly/2LFvMo5)

Jorge Ortigão Costa – Empresário e produtor agrícola, amante de touradas (coudelaria com o mesmo nome), cujo nome consta no Panama Papers. (Fonte: https://bit.ly/35Vrv6M)

Francisco Cruz Martins – Advogado, padrinho de casamento de Ventura, também citado no Panama Papers. Aparece também associado aos escândalos do BANIF, BES, Vale do Lobo e à elite angolana. Foi acusado pelo Estado angolano de desviar dinheiro adiantado para comprar ações do Banif. (Fonte: https://bit.ly/38ZwxkB)

Salvador Posser de Andrade – Co-administrador da antiga empresa imobiliária do Grupo Espirito Santo, e administrador da Coporgest. Usou os seus contactos para ajudar Ventura, nomeadamente a angariar dinheiro para o partido. (Fonte: https://bit.ly/2KtKRIv)

Jaime Nogueira Pinto – histórico militante fascista, “o grande pai da extrema-direita portuguesa desde o fim da ditadura salazarista” (Steven Forti). (Fonte: https://bit.ly/3qznbBZ)

Eduardo Amaral Neto – Empresário com ligações à Chamusca. Dono da sociedade de consultoria Gavião Real. (Fonte: https://bit.ly/2NcI3k0)

César do Paço – Multimilionário radicado nos EUA. Suposto apartidário doou dinheiro ao CDS e agora ao CHEGA. Viaja num jato de 55 milhões de dólares mas só declara um volume de negócios de 900 mil dólares. Na sua fundação fantasma reúne figuras do PSD, CDS-PP, Chega (José Lourenço e Diogo Pacheco de Amorim). Sócio maioritário do Clube Futebol Canelas e amigo de Fernando Madureira, líder dos Super Dragões. Financiador da equipa de Boxe do FCP que já serviu de guarda costas de A[ndré] V[entura] em acções no Porto. (Fonte: https://bit.ly/3bZ1EhZ)

Helder Fragueiro Antunes – Empresário, Engenheiro, ex-piloto de corridas. CEO da Global Data Sentinel. Parceiro de César do Paço em alguns negócios, primo de Miguel Frasquilho (chairman da TAP). (Fonte: https://bit.ly/2NcI3k0)

José Lourenço – Consultor de César do Paço e administrador da sua fundação fantasma. Presidente da distrital do Porto do Chega. Mandato e eleição no Porto envoltos em escândalos, ameaças e jogos de poder dentro do Chega. Acusado pelo ex-dirigente nacional do Chega (Miguel Tristão) de fazer entrar dinheiro de formas “estranhas” no partido. O seu nome consta da lista pública de devedores fiscais em Portugal.

Pedro Pessanha – Militar na Reserva, gestor imobiliário. Assessorou vários negócios do BES Angola (BESA), hoje Banco Económico.

Fernando Jorge Serra Rodrigues – Empresário Têxtil (sofás). Salazarista devoto, defensor da ditadura fascista do Estado Novo e divulgador de propaganda nas redes sociais. É o famoso autor da saudação nazi no jantar de apoio a André Ventura no Porto. (Fonte: https://bit.ly/3bUcO7z)

Igreja Maná (de Jorge Tadeu) – Detentora dos canais de televisão Kuriakos TV, TV Maná e ManáSat 1, tem dado especial destaque a André Ventura nos seus canais promovendo-o como “defensor da moral e dos bons costumes cristãos contra gays e outras modernices antinatureza e antifamílias”. (Fonte: https://bit.ly/3itfRoE)

Luis Filipe Graça – Sócio na mediadora Elegantalfabeto. Foi angariador imobiliário no segmento premium. Presidente da Mesa da Convenção Nacional do Chega. Foi dirigente e fundador da organização neonazi ‘NOS’, cujo dirigente máximo foi Mário Machado, o mais conhecido skinhead português. Fundador da organização neofascista ‘Portugueses Primeiro’, em que figura o conhecido assassino de Alcindo Monteiro, João Martins, e colaborou com o ‘Escudo Identitário’. Na última Convenção Nacional do Chega encabeçou a lista da Mesa da Convenção Nacional. Apareceu em vídeos com skinheads em protestos. (Fonte: https://bit.ly/2KB26rC e https://bit.ly/3o01Jo2)

Nelson Dias da Silva – Secretário da Mesa da Convenção Nacional do Chega. Porta-voz da organização “Portugueses Primeiro”, fortemente influenciada por João Martins, condenado pelo assassinato do jovem negro Alcindo Monteiro e fundador da secção portuguesa do grupo nazi ‘Misanthropic Division’, liderado internacionalmente pelos nazis ucranianos do batalhão Azov. Na última Convenção Nacional do Chega integrou a lista da Mesa da Convenção Nacional. (Fonte: https://bit.ly/3o01Jo2)

Tiago Monteiro – Dirigente nacional e líder do Chega em Mafra. Foi dirigente da organização ‘NOS’, liderada pelo skinhead Mário Machado, onde era responsável pelo concelho de Sintra. Atualmente, é responsável pela atividade do Chega em Mafra e membro do Conselho Nacional. (Fonte: https://bit.ly/3o01Jo2)

Cristina Vieira – Cartomante na TVI, antiga diretora de Operações da LibertaGia, sociedade que a partir das Bahamas terá lesado cerca de 2 milhões de clientes através de um esquema fraudulento de pirâmide. (Fonte: https://bit.ly/3p2hmMW)

António Tânger Correia – Ex-diplomata, adjunto de Freitas do Amaral durante o governo de Sá Carneiro. Suspenso de várias funções devido a várias irregularidades na gestão da embaixada em Vilnius: lesou o Estado em 348.270€ em IVA mais 411.181€/ano em despesas pessoais. (Fonte: https://bit.ly/39POZer)

Paulo Lalanda de Castro – Empresário. Referenciado nos Panama Papers, Operação Marquês e nos Vistos Gold. Acusado de corrupção no processo Máfia do Sangue. Dono da Intelligent Life Solutions, empresa que André Ventura ajudou a ilibar no pagamento de mais de 1 milhão de Euros em IVA, enquanto Inspetor Tributário.(https://bit.ly/38ZkHH1, https://bit.ly/3p0hDQL, https://bit.ly/39QYxG2 e https://bit.ly/391F7PT )

Arlindo Fernandes – Empresário, admirador de Salazar, ex-dirigente e breve deputado do CDS. Acusado em 2019 pelo MP de burla qualificada, falsificação de documentos e branqueamento de capitais em negócios imobiliários. Ameaçou de morte João Ferreira, outro dirigente do Chega. (Fonte: https://bit.ly/3p4rEMD)

Manuel de Carvalho – O “Miterrand” de Armamar. Empresário, cônsul honorário da Costa do Marfim, antigo deputado e ex-vereador do CDS (Viseu). Em 2012 foi declarado insolvente por dívidas à banca, tendo cumprido o prazo da exoneração do passivo. (Fonte: https://bit.ly/39M2ax7)

Lucinda Ribeiro Alves – Fanática Religiosa. Adepta do Sionismo Cristão que impõe, para o regresso de Jesus à Terra, a expulsão de todos os muçulmanos de Jerusalém. Jair Bolsonaro e Mike Pompeo, por exemplo, são outros destacados sionistas cristãos.(Fonte: https://cutt.ly/1jFTVXM)

Diogo Pacheco de Amorim – Membro do gabinete político da rede armada de extrema-direita (MDLP), responsável por atentados bombistas e outros ataques terroristas que levaram à morte de várias pessoas. Confesso admirador de Jean-Marie Le Pen, patriarca da extrema-direita francesa, e do primeiro-ministro húngaro de viés totalitário Viktor Orbán. Autor da última versão do programa do Chega, onde se apontam grandes semelhanças com o programa do partido de extrema-direita PNR. (Fonte: https://cutt.ly/cjFRgtj)

sexta-feira, 3 de maio de 2024

A atribulada carreira diplomática do candidato do Chega



O cabeça de lista do Chega às próximas eleições europeias tem no seu currículo quatro décadas de carreira diplomática marcadas por várias polémicas e infrações disciplinares. Antes disso, juntou-se ao CDS e foi secretário-geral da Juventude Centrista logo em 1974. E esteve ligado a um dos momentos mais importantes dos primeiros tempos do partido, quando organizou o comício no Teatro de São Luiz que acabou com os militares a escoltarem os jovens centristas à saída do local, cercado por manifestantes da esquerda. Depois do evento, a atividade partidária reduz-se mas mantém a proximidade. Em 1979, a vitória da AD garante a pasta dos Negócios Estrangeiros a Freitas do Amaral e Tânger, há poucos meses no quadro do Ministério, é chamado para seu adjunto. Numa reportagem sobre o percurso de Tânger Corrêa, o Público recorda que o ativismo partidário do jovem diplomata, que passava pela colagem de cartazes do partido, deixou furioso o então secretário-geral do Ministério, Gonçalo Caldeira Coelho, também próximo do CDS.

Comunidade portuguesa de Toronto recolheu dinheiro para lhe comprar barcos de competição... e ficou a ver navios
Já nas funções de chefia de um posto diplomático, em 1984 como cônsul-geral em Toronto, surge o primeiro caso polémico. O estilo aventureiro e enérgico depressa lhe garantem simpatia de figuras da comunidade emigrante. E Tânger transmite-lhes o seu amor pela prática de vela e o sonho de ir aos Jogos Olímpicos. A comunidade mobilizou-se para lhe oferecer um barco de competição, mas o azar levou a que fosse destruído na viagem para uma competição nos EUA. Seguiu-se novo peditório para angariar dezenas de milhares de dólares e assim comprar um segundo barco topo de gama para o cônsul. Não há memória de um diplomata português ter aceite um presente - na verdade, dois - tão caro, o que as regras de conduta hoje proíbem expressamente a partir de um limite de 150 euros.

Tânger Corrêa usou o barco na preparação dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992, onde cumpriu o sonho de participar. Mas a promessa de devolver o barco à comunidade portuguesa quando abandonasse o posto consular, ficando à guarda de um clube náutico que a comunidade iria criar, nunca se cumpriu. O cônsul trouxe o barco para o Clube Naval Setubalense, alegando que para isso teve o acordo da comunidade, que ficou a ver navios. Um inquérito do Ministério foi arquivado após as explicações de Tânger Corrêa de que o barco era apenas emprestado e que dele não tirou benefícios patrimoniais.

Em Goa ocupou uma casa, içou a bandeira... e abriu conflito diplomático
Depois de Toronto, foi colocado em Goa em 1993, com a missão de comprar uma casa para a residência oficial e a chancelaria. O negócio com uma propriedade da família Pacheco de Figueiredo ficou fechado, mas a casa estava vazia e à guarda de um motorista da família, que se recusou a abandoná-la. Com um grupo de amigos, Tânger Corrêa arrombou a porta da casa quando o seu ocupante estava ausente, retirando os seus pertences e colocando um poste onde içou a bandeira portuguesa, abrindo assim um incidente diplomático. Um grupo de populares organizou-se e retirou a bandeira, num caso que fez notícia e levou o governo local a afirmar não ter autorizado a mudança do consulado português. O negócio da casa ocupada acabou por cair e Tânger não tardou a ser retirado do posto.