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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

World heading toward ‘peak glacier extinction’ with up to 4,000 set to disappear a year



Hundreds gathered to say goodbye when 700-year-old Pizol died. The funeral in Switzerland in 2019 was solemn. Mourners wore black; flowers were laid; a priest spoke. It was a symbolic moment: Pizol had been a glacier, but human-driven climate change had reduced it to some scattered chunks of ice.

Pizol is far from the first glacier death. Thousands have vanished over the past few decades and as the world continues to heat up, they are expected to disappear at an increasing pace. New research gives a glimpse of just how quickly that might happen, and it’s stark.

By the middle of the century, the number of glaciers disappearing is set to peak at up to 4,000 a year, if humans keep pumping out climate pollution, according to a study published Monday in Nature Climate Change. That’s equivalent to losing all the glaciers in the European Alps in just one year.

Research has tended to focus on the total amount or area of ice lost from glaciers as temperatures tick upward, rather than changes to their total number. This is partly because the number of glaciers is a less clearly defined metric. It depends on assessments of what constitutes a glacier and current inventories sometimes struggle to detect smaller or debris-covered ice bodies. Best estimates say there are currently more than 200,000 glaciers on Earth.

But the study authors say knowing where and when individual glaciers will vanish is important. It shows “climate change does not just lead to some ice melt, but it leads to the complete extinction of many glaciers,” said Matthias Huss, a study author and a glaciologist at the Swiss university ETH Zürich, who spoke at Pizol’s funeral back in 2019.

The scientists looked at the planet’s glaciers using a global database to pin down “peak glacier extinction,” meaning the period during which the largest number of glaciers disappear.

They used models to determine when each individual glacier would become too small to be classified as a glacier: defined as when its area falls below 0.01 square kilometers (0.004 square miles), or it reaches less than 1% of its initial volume, as measured around the year 2000.

Their analysis found that glacier extinction will peak around mid-century, with the exact timing and extent dependent on the level of global warming.

If the world manages to keep warming to 1.5 degrees Celsius above pre-industrial levels, something it is not on track to do, the number of individual glaciers disappearing will peak around 2041, at roughly 2,000 per year.

At 4 degrees of warming, that peak shifts to the mid-2050s and intensifies to around 4,000 a year. This is 3 to 5 times higher than the present rate of global loss, the report says.

The world is currently on course for around 2.7 degrees of warming if climate pledges are met. At this level, peak extinction will happen over a longer period, with the world losing around 3,000 glaciers a year between 2040 and 2060.

The researchers also drilled down to specific regions. In areas where smaller glaciers dominate, such as the European Alps, parts of the Andes and North Asia, more than half the glaciers are expected to disappear within the next two decades, the report found. They are also expected to see an earlier peak in glacier extinction, around 2040.

In contrast, regions with bigger glaciers, including Greenland and the Russian Arctic, will see a delayed peak in glacier extinction, later in the century.

Whether the world ends up witnessing the deaths of 2,000 or 4,000 glaciers a year is all about how much is done to rein in global heating.

Only 20% of glaciers are expected to remain by 2100 under 2.7 degrees of warming, compared to around 50% at 1.5 degrees. At 4 degrees, the world is looking at a nearly complete loss of glaciers.

“This study does a great job at highlighting the fact not only are glaciers melting worldwide, many of them may be entirely gone in the coming decades; and the trend is accelerating,” said Eric Rignot, professor of Earth system science at the University of California at Irvine, who was not involved in the research. It is “a point of no return, because reforming a glacier would take decades if not centuries,” he told CNN.

The losses will have significant implications. Glaciers are a vital source of water for many communities but beyond that, they are a tourist draw, attracting millions of visitors each year and many ski resorts depend on them. They also hold a deep cultural importance for communities, tied to local traditions.

“They are really icons of climate change,” said Harry Zekollari, a study author and glaciologist at the Vrije Universiteit Brussel in Belgium. “If you go to someone, you talk to them on the street about the fact that temperatures have risen by 2 degrees, it’s really difficult to picture, but glaciers, they’re so visual.”

sábado, 22 de novembro de 2025

Björk & Massive Attack - Army Of Me/Safe From Harm (mashup)


Embora a base seja obra de artistas incríveis, o objetivo não é melhorá-la, mas sim oferecer uma perspetiva diferente.
Não há aqui nenhuma geração de música por IA envolvida; cada som e arranjo adicionado foi criado pelo  autor usando o FL Studio.
Os visuais de IA que vê são apenas para acompanhamento; não pretendo ser cineasta.

domingo, 19 de novembro de 2023

Por que é que os chineses comem animais exóticos?


Um artigo publicado pela revista científica The Lancet, intitulado “Game consumption and the 2019 novel coronavirus”, assinado por Jie Li, da Universidade de Guangzhou e Jun Li, da Universidade de Ningxia, juntamente com mais cinco autores chineses, explica as razões que estão por detrás de uma prática muito comum na sociedade chinesa desde há vários séculos.​

“A prática do consumo de carne e produtos oriundos de animais selvagens na China data de períodos pré-históricos. Nos tempos modernos, apesar deste tipo de comércio não ser essencial à alimentação, a tradição de comer este tipo de animais persiste”, lê-se no artigo.​

De facto, no período entre 1959 e 1961, terão morrido cerca de 15 milhões de pessoas devido à Grande Fome. Preocupado com um novo período de escassez de alimentos, em 1979, o governo chinês temia não conseguir voltar a alimentar os seus milhões de habitantes. Nessa altura, abriu a atividade agrícola a grandes grupos de privados que começaram a produzir galinha, porco e vaca. Os pequenos agricultores, que ficaram sem soluções, decidiram começar a criar animais selvagens, como cobras e tartarugas. O governo chinês apoiou esta iniciativa. ​

Ao mesmo tempo, com base em crenças antigas, muitas famílias acreditam que comer órgãos de animais selvagens pode curar ou prevenir doenças. Por exemplo, acreditam ainda que a carne de pangolim ajuda a aliviar o reumatismo, que o seu sangue ajuda a promover a circulação sanguínea, e as escamas um bom aliado nos tratamentos estéticos. “A cultura alimentar chinesa sustenta que os animais recém-abatidos são mais nutritivos e essa crença pode aumentar a transmissão viral”, salientam os cientistas chineses. ​

Por definição, animal exótico é todo aquele que não ocorre naturalmente numa determinada região geográfica e que foi trazido acidental ou intencionalmente pelo homem. ​

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A água mais antiga do mundo está no fundo de uma mina no Canadá e tem 2 biliões de anos


Em 2016, pesquisadores fizeram uma descoberta inovadora enquanto exploravam uma mina canadiana: a água mais antiga do mundo.

Localizada a aproximadamente a 3 quilómetros abaixo da superfície, estima-se que essa água tenha cerca de 2 biliões de anos. Esta descoberta adiou o recorde anterior da água mais antiga conhecida, encontrada na mesma mina,  Kidd Mine, em Ontário, pela mesma equipa em 2013 a uma profundidade de cerca de 2,5 quilómetros.

A mina canadiana onde esta água foi descoberta é a mina de metal basal mais profunda do mundo, pois os mineradores estão constantemente cavando mais fundo em busca de cobre, zinco e prata.

Quando os garimpeiros atingiram uma nova profundidade, os pesquisadores aproveitaram para explorar mais e analisar a água que encontraram. Eles estudaram os gases presos dentro da água, como hélio e xenónio, que podem ajudar a determinar a idade da água ao ficarem presos em rachaduras nas rochas.

Ao contrário do que se poderia esperar, a água descoberta nesta mina não era uma pequena quantidade presa na rocha, mas corria a uma taxa de 2 litros por minuto. Isso foi uma surpresa para os pesquisadores, que não previam um volume tão grande.

Além da sua idade impressionante, a água também contem vida. Em 2019 descobriram bactérias redutoras de enxofre [artigo científico aqui]

Esta descoberta tem implicações significativas para a nossa compreensão da vida na Terra biliões de anos atrás, bem como a busca de vida noutros planetas. Embora não existam mais rios na superfície de Marte, existem bolsões de água e gelo abaixo da superfície que podem fornecer as condições necessárias para o desenvolvimento de microorganismos.

Estes bolsões de água, embora não tão profundos quanto a água encontrada na mina canadiana, ainda podem conter informações valiosas sobre a possibilidade de vida extraterrestre.

domingo, 11 de setembro de 2022

Investigadora portuguesa estuda bactérias em risco em grutas na Noruega


Uma investigação liderada pela investigadora Ana Sofia Reboleira concluiu que bactérias de grutas subárticas, que podem originar bioprodutos para a indústria ou de resistência a antibióticos, correm risco de desaparecer antes de serem estudadas devido às alterações climáticas.

"As grutas são um manancial de descobertas de bactérias novas para a ciência, com um papel preponderante na descoberta de novos bioprodutos para a indústria e de resistência a antibióticos", disse à agência Lusa a bióloga Ana Sofia Reboleira, que liderou o estudo biológico numa expedição científica a grutas subárticas no norte da Noruega.

A investigação pretendia aumentar o conhecimento sobre a biodiversidade e dinâmica dos ecossistemas das grutas subárticas, sobre as quais "até agora pouco se sabia" e, simultaneamente, avaliar "o impacto das alterações climáticas nestes ecossistemas", explicou a investigadora.

Durante 10 dias a equipa multidisciplinar de cientistas noruegueses, liderados pela portuguesa, recolheram amostras nas grutas das montanhas geladas dos Alpes Escandinavos, que permitiram caracterizar as variáveis ambientais e as comunidades bacterianas e de invertebrados destas grutas.

Os resultados, publicados esta segunda-feira à noite na revista científica Environmental Microbiome, mostram que as comunidades bacterianas das grutas subárticas são diferentes - mais diversificadas e mais complexas - do que as da superfície.

"Os microbiomas das grutas são menos variáveis entre grutas na mesma área, do que entre a superfície e as grutas", explicou a investigadora, considerando que isso demonstra que "o forte filtro ambiental nos ambientes cavernícolas molda de forma similar as comunidades de bactérias únicas que se desenvolvem nestes habitats extremos".

O aumento da diversidade bacteriana dentro das grutas, comparado com a da superfície, "pode resultar de uma maior especialização de nicho ecológico e de níveis de interdependência relacionados com o ciclo dos nutrientes, vitais para o funcionamento da biodiversidade no nosso planeta", acrescentou.

Natureza da investigação

As regiões subárticas localizam-se na região geográfica imediatamente a Sul do Círculo Polar Ártico, geralmente em latitudes de 50 a 70°Norte, em direção ao Polo Norte.

São "ecossistemas particularmente vulneráveis às mudanças climáticas", sublinhou a bióloga aludindo ao clima caracterizado por invernos muito frios e longos, e verões curtos que tornam estas zonas "muito sensíveis às alterações globais".

As grutas onde se desenvolveu a expedição "são habitats extremos, com total ausência de luz, e com uma disponibilidade de alimento muito reduzida, constituindo fatores limitantes para a vida que pode sobreviver exclusivamente nestes locais", cujas comunidades que os habitam "são consideradas extremófilas".

A natureza estável dos complexos microbiomas das grutas sugere que mudanças ambientais como o "acelerado degelo nestas zonas, resultante do aquecimento global, podem ter um impacto negativo nessas comunidades", avisou a investigadora.

Segundo a investigadora, o papel preponderante que estas bactérias podem ter na descoberta de novos bioprodutos, particularmente no que respeita à resistência a antibióticos, "é relevante no contexto da vigilância epidemiológica das resistências aos agentes antimicrobianos".

Face aos impactos das alterações climáticas, a investigadora alertou para o perigo de se poder "perder esta biodiversidade desconhecida antes de sabermos que serviços prestam".

A investigação foi financiada pela Villum Foundation da Dinamarca, e está incluída no projeto "HiddenRisk" liderado pela cientista Ana Sofia Reboleira do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), em colaboração com investigadores da Universidade de Bergen na Noruega e da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca.

Ana Sofia Reboleira é professora no Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e já liderou expedições científicas em todos os continentes, exceto na Antártida. Já descobriu e catalogou nos últimos anos 70 novas espécies e géneros para a ciência.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Descobertas criaturas minúsculas em cavernas na Escócia


Foram descobertos raros crustáceos microscópicos em duas cavernas das Terras Altas, na Escócia.

As espécies de ostracodos foram descobertas na Smoo Cave, em Sutherland, e na Allt nan Uamh Stream Cave - também conhecida como "Caverna dos Ossos" -, em Assynt, e os investigadores acreditam que esta pode ser a primeira vez que se regista a sua presença na Escócia.

Os seres, que foram descobertos por Lee Knight e Dominika Wroblewska, têm cerca de um milímetro e vivem em piscinas dentro das cavernas.

"Estas criaturas vivem abaixo da superfície da Terra e as descobertas preliminares mostram que um dos ostracodos pode ser o primeiro descoberto na Escócia", disse Lee Knight.

Os espécimes foram provisoriamente identificados como Fabaeformiscandona latens, o que é muito importante já que os registos deste género são muito raros no Reino Unido.

A entrada da caverna Smoo, de 15 metros, é uma das maiores para uma caverna marinha de calcário na Grã-Bretanha e era usada há cerca de seis mil anos. Há quem acredite que era utilizada por contrabandistas e que tem ligações a histórias sobrenaturais.

Fontes: BBC e Newsweek

sábado, 25 de junho de 2022

We are living in Iceland, after all



Birgitta Björg Jóns­dótt­ir, the directing manager of Into the Glacier, which is behind the ice tunnel in Langajökull, says that the earthquake last Thursday has not impacted their business in any way. A 4.6 M earthquake was detected 13.8 km south of Eiríksjökull glacier, under Langjökull last Thursday.

The earthquake was felt in all of the Western part of Iceland, north to Húnvatns county, in the Reykjavik area and all the way south to Rangárvallasýsla as well as a series of post earthquakes that followed.

Not worried about more earthquakes

"Thish has no effect on what we are doing. There are no signs of earthquakes on the glacier, even though we felt it in Húsafell and also some of the post earthquakes. After conculting with the police in the Western part of Iceland and The Icelandic Met Office and The Department of Civil Protection and Emergency Management we decided to operate as usual, like nothing had happened. We are in full swing and have not been impacted by this earthquake in any way."

Langjökull. Rax / Ragnar Axelsson

Asked if they had detected earthquakes in the area, she says they have felt a few earthquakes close to the glacier, but never in the ice tunnel. "There was one earthquake last April, but we have never had a staff memeber in the tunnel when this has happened so we have not experienced it."

She is not worried about future earthquakes in the area. "No I have no anxiety. We take one day at a time and we are living in Iceland, after all."

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Este morcego imita zumbidos de vespas para assustar os predadores

Morcego-rato-grande (Myotis myotis)


Um grupo de cientistas descobriu o primeiro exemplo de um mamífero que simula ser uma espécie mais perigosa para se proteger: o morcego-rato-grande, também presente em Portugal.

O morcego-rato-grande (Myotis myotis) é o maior morcego cavernícola que habita em Portugal. Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, “é frequente em Portugal Continental, embora seja mais raro no Algarve”, e “caça essencialmente em meio agrícola” – sobretudo escaravelhos, grilos e aranhas, que detecta através do ruído que estes fazem quando se mexem no solo.

Na Europa, o morcego-rato-grande pode encontrar-se desde a Península Ibérica até às regiões ocidentais da Polónia, Ucrânia e Turquia.

Agora, um grupo de cientistas em Itália anunciou, ligada a esta espécie de morcego, a descoberta do primeiro caso de mimetismo batesiano num mamífero. Os resultados deste estudo foram publicados na revista Current Biology.

O mimetismo batesiano acontece quando uma espécie imita um outro animal mais perigoso, conseguindo assim evitar eventuais predadores.

Danilo Russo, da Universidade degli Studi di Napoli Federico II, em Portici, na Itália, apercebeu-se deste som enganador quando fazia trabalho de campo a apanhar morcegos em redes, para serem estudados. “Quando pegávamos nos morcegos para os retirarmos das redes ou para os analisar, eles invariavelmente zumbiam como vespas”, explicou este investigador, citado numa nota de imprensa da Cell Press, editora da Current Biology.

Apesar de ficar intrigado, só passados alguns anos é que Danilo Russo e o resto da equipa se decidiram a avançar com o estudo destes estranhos sons.

Primeiro, compararam os “zumbidos” dos morcegos com espécies de insectos sociais com ferrão: abelhas-do-mel (Apis mellifera) e vespa-crabro (Vespa crabro). Concluíram que os sons do morcego-rato-grande se podem confundir com os da maior vespa nativa da Europa, em especial quando se restringem àquilo que mochos e corujas conseguem ouvir.

De seguida, a equipa emitiu sons de diferentes espécies junto de corujas-das-torres (Tyto alba) e corujas-do-mato (Strix aluco), para ver como reagiam. Embora as corujas com mais experiência de viver na natureza respondessem mais fortemente, os animais testados “reagiram consistentemente aos zumbidos de insectos e dos morcegos afastando-se da coluna de som”, explica a nota de imprensa. “Em contraste, o som de presas potenciais – sons normais de morcegos – fazia com que as corujas se aproximassem da coluna.”

“É de alguma forma surpreendente que os mochos representem uma pressão evolutiva sobre os morcegos, como resposta às más experiências que tiveram com insectos que picam”, afirmou Russo. “Este é só mais um exemplo da beleza dos processos evolutivos!”

De acordo com o investigador, muitas outras espécies de vertebrados também zumbem quando se sentem em perigo e existem centenas de espécies de morcegos, pelo que é possível que algumas outras adoptem esta mesma estratégia.

Fonte: Wilder

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Scientists ID Dozens of Plants, Animals from Free-Floating DNA

In a trio of studies, researchers report capturing and analyzing airborne environmental DNA from a wide variety of plants and animals, suggesting a new way of monitoring which terrestrial species are present in an area.

For a little more than a decade, scientists have been filtering water samples from aquariums, rivers, lakes, and even the ocean to obtain DNA that was shed by fish and other aquatic life. The goal: to use this environmental DNA (eDNA) to monitor aquatic species. Now, a trio of papers—two on animals, and one on plants—suggest it’s also possible to detect and identify terrestrial organisms using eDNA floating in the air.

Although the research (along with the entire field of eDNA) is in early stages, experts tell The Scientist that the technology could make it more logistically and financially feasible to find and monitor rare, endangered, invasive, or shy species. Such studies will likely complement rather than replace existing monitoring methods such as camera traps, say scientists working with eDNA, but the ability to fill in the blind spots left by current methods could be immensely beneficial to ecologists.

Genetic analyses including eDNA are “a way of democratizing and enhancing our ability to know what’s going on in the natural world, and also what we’re doing to it,” Mark Stoeckle, an environmental genomicist at the Rockefeller University who uses eDNA to monitor fish populations and was not involved in any of the new studies, tells The Scientist.

Two of the three studies, both published today (January 6) in Current Biology, demonstrated the successful collection and analysis of airborne eDNA shed by animals. Those experiments, one conducted at and around the Hamerton Zoo in the UK and the other at the Copenhagen Zoo in Denmark, relied on the assumption that animals in pens, enclosures, and indoor exhibits would give off strong, consistent signals. The authors of both papers were able to detect and identify the DNA of dozens of different animal species.

By sheer coincidence, the two experiments were conducted in parallel without either team knowing about the other until one team led by York University molecular ecologist Elizabeth Clare, then at Queen Mary University of London, posted its work as a preprint on bioRxiv just days before the other group, led by evolutionary genomicist Kristine Bohmann from the University of Copenhagen’s GLOBE Institute planned to submit its own. After Bohmann’s and first author Christina Lynggaard’s panic over being “scooped” subsided, they tell The Scientist, the two teams got in touch—it’s a small community and they already knew each other—and decided to submit their papers to journals as a package deal. Having “two independent confirmations of the same thing,” Clare tells The Scientist, makes her “feel way more confident that what we’ve done is really replicable.”

The studies differ in important ways, but their similarities are more prominent. Both captured eDNA using vacuums to pass air through a filter at various sites at their respective zoos. Both used PCR amplification with primers for known species in the area to identify and verify zoo animals, a process called eDNA metabarcoding. And in both cases, their results blew their authors’ expectations out of the water, especially for proof-of-concept research. Based on their findings, the researchers conclude that animal DNA can travel much farther through the air than they expected—both teams were able to detect zoo animals as well as those living outside the zoo, even from hundreds of meters away.

“We were seriously worried it wouldn’t work,” Clare tells The Scientist. Lynggaard echoes that sentiment. “When I was planning this, I thought of the worst-case scenario. . . Most likely we’re not going to get anything,” she says of her initial expectations. But the results were unexpectedly robust, with each sample yielding detectable DNA from between 6 and 21 species.

Altogether, Clare’s team was able to identify DNA from 25 different mammal and bird species that live in or near the zoo, as well as DNA from the food being fed to those animals. Sometimes a sensor located outside of a building would pick up identifiable quantities of DNA from a species housed inside, or from an enclosure located all the way across the zoo. Meanwhile, Bohmann’s team detected 49 vertebrate species: 30 mammals, 13 birds, a handful of fishes, one amphibian, and one reptile—a taxonomic range that left Bohmann and her colleagues “sitting in awe,” she tells The Scientist.
There's something in the air

The studies follow up on earlier work in which Clare’s team detected airborne eDNA from a colony of naked mole rats maintained in a laboratory setting—an environment with far fewer variables than the zoo.

“The perfect thing about zoos is you have all these nonnative species you cannot mix up with anything else,” Clare tells The Scientist. “And you also know precisely where they are. That became really important for both of us because we were picking up the animals we were near [the sensors], but a lot of other animals as well.”

The zoo research is still considered proof-of-concept for terrestrial eDNA monitoring, though taking the eDNA sensors outdoors represents a notable step forward for the field. In this case, the two teams took a variety of approaches to collection, which the study authors say should be informative as airborne eDNA monitoring makes its way into applied ecological research. Bohmann’s team developed three different types of sensors that sucked in air through both conventional and water vacuums and positioned them in and around the zoo, where they filtered air for hours at a time. By contrast, Clare’s team only used one kind of sensor and ran collections for, at most, half-hour bursts. Having both approaches published side by side, experts tell The Scientist, will serve as a valuable reference when determining which approaches are better for various settings.

“We had forensically-tiny amounts of DNA,” Clare tells The Scientist. “They had tons of DNA,” she adds, but because the other team ran fewer collections for longer periods of time, “they didn’t have as much detail on where it [came from].”

For now, the process is far from perfect. Some animals living in the zoos, such as a tiger that Clare’s team attempted to detect, were missing from the eDNA samples altogether. That might be due to experimental error or the animal shedding less DNA than other creatures, or a combination of myriad other factors. For now, any attempt to explain why some animals were more readily detected than others, Clare says, would be pure speculation.

The tiger question also confused Stoeckle, who didn’t work on either of the new papers. He tells The Scientist he would have liked to see more discussion of possible reasons that some animals went undetected, but is overall very complimentary of both zoo studies.

“When you’re starting out, the positive results are the most important ones,” he says. “The negative ones are less important, and the positive results in these papers are great.”

Passively detecting plants

Meanwhile, research on airborne plant eDNA is a few steps ahead, giving animal researchers hints as to what they might attempt next. Last month, Texas Tech University doctoral candidate Mark Johnson, his advisor, ecologist Matthew Barnes’, and their colleagues reported in BMC Ecology and Evolution the results of a study in which they sequenced eDNA from dust traps, which passively collect pollen as well as any other airborne molecules, in a field owned by the university. The team found several species of grass, fungi, and even an invasive species called tree of heaven (Ailanthus altissima) that had all been overlooked by more conventional surveys.

“Airborne eDNA continues to surprise us with how much material is in the environment,” Johnson tells The Scientist.

Johnson and Barnes have conducted similar experiments before, but this paper looked at a year’s worth of collection data, offering new insight into how seasonal changes, weather, and other factors impact the species detected by eDNA, offering new insight into the ecosystem’s dynamics.

Other researchers are also trying to do the same with insect eDNA. Preprint research presented at last month’s Ecology Across Borders conference reportedly identified 85 insect species—and some vertebrates—from airborne eDNA.

The scientists behind the trio of recent papers all agree that there’s lots of work to be done in order to make eDNA an established and useful tool for ecological research. “We’ve shown that it works, now we need to try to understand some of the nuances of it,” Johnson tells The Scientist. “How does wind, how does weather, how does height affect our collection?”
Leaving the lab

As the field forges ahead, airborne eDNA scientists do have one major source of guidance: the field of aquatic eDNA research, in which researchers have several years’ worth of a head start. Scientists working with aquatic eDNA have already thoroughly demonstrated that the technology works and are now making strides toward using it as a standard ecological tool. Airborne eDNA research is a few years behind, but it’s “following a similar trajectory,” Johnson explains.

For both animal and plant studies, the next stage of research involves taking collections out of artificial environments and into natural settings. In some cases, this work is already underway: Johnson is now working on follow-up research in natural environments that takes a closer look at specific variables such as distance, weather, and altitude, and a paper in which he uses his passive dust traps to collect animal eDNA is making its way through the peer review process.

Bohmann, Lynggaard, and Clare note that many basic questions remain unanswered. For example, they won’t be able to glean any sort of temporal resolution—how long ago an animal can pass through the area and still get detected—until they bring their work out of a zoo and into a forest or jungle, where animals roam free rather than being confined to one area. Unfortunately, that kind of research brings new challenges.

“We can’t plug a water vacuum in in the rainforest in Madagascar,” Bohmann tells The Scientist. “And also we can’t make too much noise,” which would disturb the wildlife. That’s why her team tested a few different types of sensors, and why Johnson’s passive collection research will likely prove valuable. “We wanted something that would be transferrable to a natural environment,” Bohmann adds.

University of Guelph biologist Robert Hanner, who didn’t work on any of the studies but helped shape the field of eDNA research, says that the aquatic eDNA research community still has plenty of challenges of its own; although it has progressed further than the airborne eDNA field, scientists don’t yet have all the answers they need to make eDNA surveys practical. For example, ecologists are often interested in measuring the abundance of a given species in an area, and so far, aquatic eDNA surveys only detect their presence.

“There are so many caveats,” Hanner tells The Scientist, adding that the two zoo studies serve as valuable proof-of-concept papers, but that he’s skeptical of their practical utility. Their success “warrants a bit of cautious optimism rather than irrational exuberance,” he says.

Much like Clare’s issue with the zoo’s tiger, Hanner recalls a researcher working in his lab who failed to gather eDNA from a crustacean from water in its immediate vicinity. The challenge, he explains, is that the field doesn’t yet know why that would happen. The conventional explanation would be that the PCR amplification somehow went wrong. But it’s also possible, Hanner says, that certain organisms shed less eDNA than others, or that the primers used to identify them are faulty or can’t handle the degree to which eDNA tends to be fragmented. For all he knows, certain sediments in the water might bind to eDNA or the particles ferrying it, preventing collection of that DNA from happening in the first place.

And that’s just to name a few; Hanner notes that factors such as air or water flow, seasonal changes, time of day, temperature, and, as Johnson examined, altitude, may all play a role in determining how much eDNA is obtained or what species are detected. Yet these details often go unreported in the literature, which has primarily been saturated with proof-of-concept studies focused on showing that eDNA analysis works at all. That, Hanner says, is currently holding the field back.

Still, many researchers are hopeful that eDNA holds the key to understanding what happens in natural environments when scientists are not around to see or hear it.

“It’s surprising how much we don’t know about the natural world, even for familiar animals,” Stoeckle tells The Scientist. “These new technologies are going to help us understand that better, and hopefully be better stewards of the environment. That’s ultimately the goal, and in that way, I’m optimistic.”


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Outcry in Brazil over photos of people scavenging through animal carcasses

Pictures of destitute Brazilians searching scraps for food lay bare scale of economic and social crisis

                                       


Heart-wrenching photographs of destitute Brazilians scavenging through a heap of animal carcasses for food have laid bare the hunger crisis blighting Latin America’s most populous nation, where millions have been plunged into deprivation by the coronavirus pandemic and soaring inflation.

The images, taken in Rio last week by the prize-winning photojournalist Domingos Peixoto, show the group rummaging for scraps in the back of a lorry that had been transporting the discarded offal and bones to a factory that makes pet food and soap.

“Some days … I want to cry,” the lorry’s driver, José Divino Santos, told the reporter Rafael Nascimento de Souza, who was covering the story with Peixoto for the Rio newspaper Extra.

“Before people would come and ask for a piece of bone for their dogs. These days they beg for bones to make food,” added Santos, who distributes the scraps to Rio’s needy after collecting them from supermarkets.

One 51-year-old scavenger, Denise da Silva, said she needed to feed her five children and 12 grandchildren having recently lost her partner. “It’s been so long since I saw a bit of meat, since before the pandemic … I’m so grateful for this,” Silva said of the fragments.

The images, one of which appeared on Extra’s front page under the headline “Brazil 2021: the pain of hunger”, sparked an immediate outcry.

An estimated 19 million Brazilians have gone hungry since the start of a Covid outbreak that has killed 600,000 people. Elsewhere in the region the suffering is even more intense. Last week, a top Venezuelan university said nearly 77% of citizens there lived in extreme poverty, with crippling fuel shortages and Covid to blame for a 10% jump over the last year.

Thousands of protesters marched through the streets of Rio on Saturday to denounce a social calamity many blame on Brazil’s rightwing president, Jair Bolsonaro, whose Covid response has been globally condemned.

“It’s inhumane,” said Alex Frechette, a 43-year-old artist, who was carrying one of his paintings showing Bolsonaro chuckling beside three black children who clutched bowls filled with bones.

A protest against Jair Bolsonaro in Rio de Janeiro on Saturday. Photograph: António Lacerda/EPA


José Manuel Ferreira Barbosa, a 63-year-old decorator from Rio’s impoverished northern outskirts, also blamed the president for Brazil’s hunger crisis. “Things are really tough right now. Some people are eating bones. Others have nothing to eat at all,” Barbosa said as he took to the streets.

“It’s a disgrace,” agreed Rosa Maria Xavier da Silva, 53, a street hawker who lives in a squat in central Rio and is struggling to feed eight grandchildren with a monthly benefit payment of 150 reais (£20).

During a congressional hearing into Brazil’s Covid catastrophe, the leftist senator Humberto Costa said Peixoto’s photos exposed the social tragedy unfolding under Bolsonaro. “Unemployment is rising. Inequality is growing. Poverty is growing. Hunger has returned. This is what this government … has done to our country,” Costa said.

Even after three decades documenting Rio’s drug conflict and social ills, Peixoto, 57, said he had been shocked to see citizens sifting through carcasses. “I haven’t slept for two days, trying to process it all,” said the photographer, who struggled to remember seeing so many homeless on the streets.

“People are having to cook with firewood – and not just the homeless … Damn, we’ve got to find ways to tell these stories to see if we can help in some way,” he added.
A woman scavenges through through animal carcasses for food in Rio de Janeiro.
A woman scavenges through animal carcasses. Photograph: Domingos Peixoto/Agencia O Globo
Peixoto said he was haunted by the memory of one scavenger he had seen smiling as the lorry arrived to share its gut-churning cargo. “He looked so happy … [because] he knew it meant another day’s food on their table,” Peixoto said, adding: “I didn’t take the picture. It was one of those images you just take with your eyes and store in your heart.”

De Souza, the reporter, remembered urging one woman not to consume the thrown-away meat. “Young man, either we eat this or we starve to death,” she replied.

“This is the reality,” said the 30-year-old journalist. “If this doesn’t make you angry, if this doesn’t move you, then I don’t know [what will].”

sábado, 17 de abril de 2021

Dia Internacional da Apreciação dos Morcegos



Celebra-se hoje, dia 17 de abril, o Dia Internacional da Apreciação dos Morcegos. Tradicionalmente vistos como animais asquerosos e transmissores de doenças, esta má fama agravou-se com a pandemia da COVID-19, em que foi disseminado pela comunidade científica que uma espécie de morcego terá servido de intermediária entre outra espécie hospedeira e os humanos.

Mas os morcegos prestam um serviço muito importante no nosso dia-a-dia e que merece ser celebrado. Em Portugal temos 28 espécies de morcegos, sendo uma endémica da Ilha da Madeira, estando mais de metade destas espécies potencialmente ameaçada de extinção em território nacional.

Para que os morcegos nacionais continuem a desempenhar o seu papel no ecossistema, é preciso um maior investimento na proteção dos seus habitats, nomeadamente os habitats cavernícolas e mediterrânicos onde tantas colónias residem. Também é necessário maior investimento na monitorização regular destas espécies para colmatar as falhas de conhecimento atualmente existentes em quase um terço das espécies de morcegos presentes em Portugal. Por último, é preciso reforçar a educação das pessoas acerca destes magníficos animais, e apostar num ecoturismo sustentável a habitats onde estas espécies podem ser observadas com o mínimo de perturbação.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Arte rupestre na Amazónia


OMG. Newly discovered rock art in the Colombian Amazon. Any fan of rock and cave art, Lascaux, Chauvet, Aboriginal Australian, or the pictographs of the American Southwest, better just sit the fuck down… These elaborate paintings are 12,500 years old and stretch along eight miles of remote cliff face, there are tens of thousands of images. This picture shows an arrangement of images as an organized story, much like an Egyptian hieroglyph and very different from other ancient rock art. Researchers say it will take years, maybe decades to record, photograph, and study it all. Wow, I’m stunned.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Há 25 Anos Na Floresta: Mick Dodge, O Homem Que Desistiu Da Modernidade

Deixando para trás um emprego estável e bens materiais na década de 90, o homem se tornou um nômade famoso e estrelou uma série documental


“Eu não quero voltar para a cidade. Eu já estou há muito tempo aqui. Não vou abrir mão de tudo isso”. Mick Dodge se libertou da vida na sociedade moderna, com todas suas tecnologias e facilidades, para viver no meio da floresta. Há 25 anos, o americano vive na natureza e, para ele, foi a melhor decisão que já tomou.

Desde criança, Mick era muito apegado ao ambiente natural, gostava de brincar ao ar livre e sentia um grande respeito pela natureza. Nascido em 1951, na região afastada de Península olímpica, Estados Unidos, cresceu em meio a terra, num local cercado pelo oceano Pacífico.

Com o passar dos anos, saiu da casa dos avós e viajou o país inteiro com seu pai, Ronald Dodge, que era um fuzileiro naval. Fato este que o influenciou a ingressar, na adolescência, no Corpo de Fuzileiros Navais. Serviu por seis anos, mas não estava totalmente satisfeito, então foi em busca de uma realização pessoal.

Com uma carreira estabilizada, Dodge trabalhava como engenheiro mecânico, tinha dinheiro, posses, mas o mais importante lhe faltava: a felicidade. Vivendo sob a filosofia de que todo dia é uma nova aventura, ele embarcou na maior de sua vida, largou tudo e partiu para a floresta. “Um dia eu simplesmente peguei meu equipamento e simplesmente voltei para cá nas montanhas”, disse à National Geographic.

Cena da série A lenda de Mick Dodge / Crédito: Divulgação/YouTube

Sua família, de origem escocesa-irlandesa, por gerações mantinha residência em uma área florestal dos EUA, mas para Mick não era o suficiente. O homem decidiu se instalar nas montanhas Olympic, no estado de Washington.

Uma vida nova
A decisão, tomada em 1991, perdura até os dias de hoje. Ele abriu mão de comida industrializada, o conforto de uma casa, e o que faz o mundo funcionar: dinheiro. Na floresta, Mick depende de tudo que a natureza pode lhe oferecer, contando com a ajuda de seus instintos primitivos para sobreviver a cada novo dia.

Comendo larvas, plantas, ou ainda, animais, Dodge encontrou a si mesmo em meio à natureza. Dorme em troncos de árvore e cavernas, caça com arco e flecha e bebe água de musgo, que diz ter um gosto de “vinho e de champagne”.

Após anos isolado, ele optou por ir mais além. Deixou de lado os calçados e passou a andar apenas descalço. “Meus pés se tornaram meu mapa. Meus pés se tornaram minha bússola.” O homem explica que pisar sem sapatos no chão de terra o faz se conectar mais profundamente com o ambiente onde vive.

Apelidado de Barefoot Sensei (Sensei Descalço), a vida simples e peculiar de Mick atrai atenção de muita gente. Por isso, decidiu aceitar uma proposta e mostrar sua jornada numa série documental.

Mick correndo pela floresta em cena do documentário / Crédito: Divulgação/YouTube


“Eu tinha várias casas, carros, uma vida bem confortável. Até que um dia eu peguei minhas coisas e vim para cá. Eu nunca mais quis voltar para casa”, fala no seu seu projeto do National Geographic, A lenda de Mick Dodge, que foi lançado em 2014.

Com duas temporadas lançadas e mais uma para estrear, a produção acompanha Dodge nos seus desafios diários, como comer, dormir e se proteger do intenso inverno local. Apesar de não ter nem uma conta bancária, o aventureiro recebeu uma quantia em dinheiro para filmar o documentário.

Além disso, ele possui alguns truques modernos para sobreviver a situações mais extremas, como botas de couro e roupas de plástico para manter-se seco quando necessita. Sobre os perigos da floresta e animais selvagens, o nómada relembra uma situação incomum: “Os encontros mais perigosos que já tive na selva, nas muralhas da cidade e nas terras cercadas foram com criaturas de dois pés”.

A sociedade moderna não tem nada para lhe oferecer, Mick, hoje com 69 anos, encontra paz e tudo o que precisa na floresta. Mesmo sendo admirado por fãs e causando curiosidade na media, ele se sente bem distante do título de sua série: “Não sou uma lenda. A terra é uma lenda”.

sábado, 11 de julho de 2020

Descoberta nova espécie de dinossauro carnívoro em Torres Vedras e Lourinhã

Fonte: Greensavers

A descoberta do ‘Lusovenator santosi‘, com 145 milhões de anos, pertencente ao Jurássico Superior de Portugal, mostra que estes animais estavam presentes no hemisfério norte, 20 milhões de anos antes do que indicava o registo conhecido, concluíram Elisabete Malafaia, Pedro Mocho (Universidade de Lisboa), Fernando Escasso e Francisco Ortega, todos investigadores ligados à Sociedade de História Natural de Torres Vedras e à Universidade Nacional de Educação à Distância de Madrid (Espanha).

O dinossauro que pertence ao grupo dos carcharodontossauros, vem reforçar a tese de que a Península Ibérica é uma “região fundamental para compreender o processo de dispersão deste grupo de animais no hemisfério norte durante o final do Jurássico, vários milhões de anos antes destes dinossáurios se tornarem os maiores predadores terrestres no hemisfério sul, no final do Cretácico”, explicou Elisabete Malafaia à agência Lusa.

A nova espécie foi identificada a partir de restos recolhidos nas duas últimas décadas nas jazidas das praias de Valmitão (Lourinhã) e de Cambelas (Torres Vedras).

De início, os fósseis foram atribuídos ao dinossauro carnívoro terópode ‘Allosaurus’, mas uma análise mais detalhada do material permitiu aos paleontólogos identificar um conjunto de características exclusivas que permitiu estabelecer este novo género e espécie.

Os carcharodontossauros, de que havia registos do Cretáceo Inferior (130 milhões de anos) e no final do Cretáceo (100 milhões de anos), são um grupo de dinossauros carnívoros que inclui alguns dos maiores predadores que habitaram o planeta.

Na Península Ibérica o grupo estava representado apenas pela espécie ‘Concavenator corcovatus’, identificada na jazida de Las Hoyas (Cuenca, Espanha) por alguns dos mesmos investigadores.

O carcharodontossauro mais antigo conhecido foi encontrado na Tanzânia, em África, sendo da mesma altura da nova espécie agora identificada em Portugal, o que, segundo os paleontólogos, “constitui a primeira evidência e a mais antiga deste grupo no hemisfério norte”.

A identificação desta nova espécie amplia a diversidade de dinossauros terópodes conhecidos no Jurássico Superior português, um dos melhores registos fósseis deste período. O ‘Lusovenator santosi’ foi apelidado em homenagem a José Joaquim dos Santos, um curioso da paleontologia, que, durante mais de 30 anos, descobriu fosseis de dinossauro, guardando-os em casa. Mais tarde, vendeu à Câmara Municipal de Torres Vedras a coleção, que tem vindo a ser estudada por investigadores da Sociedade de História Natural de Torres Vedras.

sábado, 4 de julho de 2020

São Serafim de Sarov


“Beba água da nascente onde os cavalos bebem. O cavalo nunca vai beber água ruim.
Coloque sua cama onde o gato dorme.
Coma a fruta que foi tocada por um verme.
Escolha corajosamente o cogumelo onde os insectos pousam.
Plante a árvore onde a toupeira escava.
Construa a sua casa onde a cobra se senta para se aquecer.
Cave a sua fonte onde os pássaros se escondem do calor.
Vá dormir e acorde ao mesmo tempo que os pássaros -
com isso, você colherá todos os dias grãos de ouro...
Coma mais verde - você terá pernas fortes e um coração resistente, como os seres da floresta.
Nade com frequência e você se sentirá na terra como o peixe na água.
Olhe para o céu o mais rápido possível e seus pensamentos se tornarão cada vez mais claros.
Fique quieto, muito, fale pouco - e o silêncio entrará em seu coração, e seu espírito estará calmo e cheio de paz."

de São Serafim de Sarov (Anacoreta, padre do deserto) (1754-1833).

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O coronavírus e a batalha da espécie humana

Nestes tempos sombrios gostava de falar de esperança mas baseada no conhecimento. E também de esperança na espécie humana, na nossa criatividade, na nossa capacidade de dar a volta às situações mais difíceis.
António Costa Silva*


Não vamos ter ilusões. A tragédia global provocada pela pandemia do coronavírus é séria e é um dos maiores desafios já colocados à sobrevivência da espécie humana. Parece uma ironia do destino. Há alguns meses atrás estávamos preocupados, e bem, porque a espécie humana, no seu afã de dominar e subjugar a natureza, estava a destruí-la e a caminhar para o apocalipse climático. De repente é a própria espécie humana que é ameaçada pela natureza, na forma de um vírus microscópico, invisível e letal.

A realidade é mais complexa do que todas as nossas frágeis teorias e fundamentalismos. A situação é muito difícil mas é preciso termos esperança. Antes de falar de esperança é bom termos a noção do desafio. Nesta altura, os países confrontam-se com um dilema e há duas estratégias em curso. O modelo epidemiológico do Imperial College, da Universidade de Londres, é crucial para fazermos esta análise. É apenas um modelo e sabemos que os modelos, mesmo os mais avançados do ponto de vista científico, são apenas pálidas imagens da realidade.

O modelo testa as duas estratégias: a primeira, que é a da contenção, seguida na China, Coreia do Sul, Singapura e UE, incluindo Portugal. Significa actuar o mais cedo possível, confinar as pessoas à sua residência, evitar os contactos e tentar achatar a curva que mede o ritmo de propagação do vírus. Esta estratégia funcionou nos países asiáticos. Qual é o inconveniente? Sustém o contágio mas não erradica o vírus. O número de mortes é mais baixo mas quando a quarentena termina o vírus pode voltar e novas quarentenas podem ser necessárias. Isto pode ser insustentável do ponto de vista social e económico.

A outra estratégia é a do Reino Unido, Suécia, EUA e Israel. É uma estratégia que visa criar a imunidade de grupo, isto é, deixar o vírus propagar-se até grande parte da população estar infectada. Isto deve ser feito isolando e protegendo os grupos de risco como os idosos e os doentes. Qual é o inconveniente? O número de mortos pode ser brutal até se criar a imunidade de grupo. O modelo do Imperial College estima que, com esta estratégia, nos EUA podem morrer dois milhões de pessoas e no Reino Unido 500 mil. O preço a pagar é demasiado alto. E isto confronta os governos com grandes dilemas nas decisões que têm de tomar. Por isso, este não é o tempo de atirar pedras. Este é o tempo de nos unirmos à volta das autoridades e das instituições, seguirmos as directivas e as regras terapêuticas, ter em conta que as estratégias de combate não são estanques e podem ser híbridas, que todos estão a aprender com todos e que, no fim, as melhores decisões vão prevalecer para salvar o maior número de vidas.

Nestes tempos sombrios gostava de falar de esperança mas baseada no conhecimento. É a esperança na ciência que muitos desvalorizaram e atacaram ao longo dos últimos anos. O que nos vai salvar não é o obscurantismo, não é a feitiçaria, não é a sorte, não são as seitas que pregam contra as vacinas. O que nos vai salvar é o trabalho denodado dos profissionais de saúde e é o trabalho dos cientistas e dos investigadores para criarem uma vacina. A ciência, a investigação e o conhecimento vão sair mais reforçados desta crise. Vai demorar tempo mas os sinais da investigação que vêm do Japão, da China, da Alemanha e dos EUA são encorajadores. É também a esperança na espécie humana, na nossa criatividade, na nossa capacidade de dar a volta às situações mais difíceis. Quando as catástrofes aparecem elas fazem emergir o melhor de nós. Isso aconteceu muitas vezes na história. Nós temos muitos defeitos. Somos capazes do melhor e do pior. Mas quando toca a lutar pela sobrevivência mobilizamos tudo o que nos distingue, como a inteligência, e é assim que passamos as maiores tribulações. 

Nós surgimos há cerca de 200.000 anos atrás neste planeta extraordinário que é a nossa casa. O planeta já tinha 4500 milhões de anos de história quando nós aparecemos. O nosso percurso é uma fracção ínfima da vida do planeta. Nós somos os acidentes gloriosos de um processo imprevisível, como disse um dia o biólogo Stephen Jay Gould. Quando os nossos antepassados emergiram nas savanas africanas, e pronunciaram pela primeira vez a primeira palavra, começaram a comunicar uns com os outros e a cooperarem entre si. Essa cooperação foi decisiva para se defenderem com sucesso dos perigos imensos que os rodeavam. E eles sobreviveram porque, sem o saberem, transportavam consigo aquela que é a mais poderosa máquina da criação: o cérebro humano. Ele ajudou-os a ler o mundo, a decifrar os sinais, a detectar o perigo, a construir a cooperação que é a base da vida das comunidades. A descoberta da palavra mudou tudo e com ela veio também a capacidade de efabulação da nossa espécie, que é extraordinária.
Esta crise vai obrigar-nos a lutar pela sobrevivência, a reinventar a vontade e a atenção, a redescobrir a cooperação por objectivos comuns. Vai obrigar-nos a ler, a estudar e a pensar. Como dizia Swift: “Ser é ser tudo.” Esta crise vai reensinar-nos a ser tudo outra vez

Os nossos antepassados resistiram a tudo: aos ataques das feras, aos sustos da natureza, aos ciclos climáticos, à devastação das colheitas, às epidemias mortíferas, às erupções vulcânicas, aos terramotos, às quedas de meteoritos e asteróides. Nessa admirável luta milenar, em cada dia que chegava ao fim, eles reuniam-se à volta da fogueira e contavam as histórias que ainda hoje são o património matricial da nossa espécie. Eles inventaram o fogo, as ferramentas, a vida nas primeiras cavernas e nas primeiras comunidades. Eles inventaram as redes sociais de cooperação. Eles inventaram os primeiros poemas, as primeiras pinturas e transformaram a arte em mais uma ferramenta para a sobrevivência. E há 75.000 anos atrás a espécie humana passou por uma das maiores ameaças à sua existência: a erupção brutal do vulcão Toba, na Indonésia. Esta foi a maior explosão vulcânica até hoje registada na Terra. Biliões de metros cúbicos de cinzas vulcânicas foram expelidas para a atmosfera. O Sol deixou de se ver durante dias a fio. O planeta entrou numa espécie de Inverno vulcânico. As cadeias alimentares foram destruídas. Muitas espécies foram extintas. Os nossos antepassados sobreviveram a esta catástrofe indizível. No fim, os sobreviventes, estima-se hoje, foram cerca de 2000. Cabiam num hotel moderno. E nós somos todos filhos dos 2000.

É por isso que o ADN de dois seres humanos, sejam eles quais forem, é praticamente idêntico. Nenhuma outra espécie tem este grau de similaridade no seu ADN e isto torna ainda mais ridículas as teorias racistas, a xenofobia, a exclusão do outro. Só há uma raça: a raça humana. Estes sobreviventes resistiram a tudo, incluindo às glaciações que fizeram baixar a temperatura do planeta de forma terrível. Esta é uma grande lição. E quando, há cerca de 10.000 anos atrás, a temperatura subiu e as condições ficaram mais favoráveis, eles foram capazes de erguer grandes civilizações, da Mesopotâmia à Pérsia, da Índia à China, da Europa à África e às Américas. Neste caminho a espécie humana foi movida pela curiosidade, pelo espanto, que, como disse Platão, é o motor do conhecimento. Ontem como hoje ele vai contribuir para a nossa sobrevivência.

Na terceira parte do Gulliver, o escritor Jonathan Swift descreve uma estirpe de homens decrépitos e envelhecidos, acomodados e entregues a débeis apetites, falhos de vontade, incapazes de comunicar e incapazes de ler. Este parece um retrato premonitório das nossas sociedades antes do coronavírus: frívolas, superficiais, egoístas, monossilábicas, mutiladas, zombies em perpétuo zapping. Mas esta crise vai obrigar-nos a lutar pela sobrevivência, a reinventar a vontade e a atenção, a redescobrir a cooperação por objectivos comuns. Vai obrigar-nos a ler, a estudar e a pensar. Vai, porventura, criar novos paradigmas políticos, económicos e sociais. Como dizia Swift: “Ser é ser tudo.” Esta crise vai reensinar-nos a ser tudo outra vez.

*Professor do Instituto Superior Técnico

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

As neurociências ensinaram-me a fazer menos julgamentos sobre os outros”, por Rui Costa


Rui Costa, que dirige um grupo de investigação no centro de neurociências da Fundação Champalimaud, fala em entrevista ao DN do seu trabalho, de algumas das suas descobertas e desse órgão complexo e maravilhoso que é o cérebro humano
Na Guarda, onde nasceu e cresceu, e na aldeia dos pais, lá perto, Rui Costa aprendeu a amar a natureza. Na televisão, David Attenbouroug falava-lhe doutros mistérios e ele acabou por ir para veterinária, para poder estudar o comportamento animal. Daí às neurociências foi um passo. Já fez várias descobertas, algumas das quais poderão conduzir a novas terapias para doenças como a de Parkinson, ou os distúrbios da compulsão. Dirige um grupo de investigação na Fundação Champalimaud. É lá, no seu gabinete fronteiro ao Tejo, que nos encontramos, numa manhã cheia de sol.
Primeiro formou-se em veterinária e depois vieram as neurociências. Não foi uma grande reviravolta?
Pode parecer, mas a minha inclinação para veterinária aconteceu porque eu gostava de comportamento animal. No estágio fui para a Suécia fazer investigação em comportamento animal, sobre a amamentação. Fiz manipulações com a oxitocina, a hormona que está relacionada com a ligação mãe-filho e com a ejeção do leite. Pus cateteres nos animais e por controlo remoto conseguia dar mais oxitocina ou bloqueá-la para ver o que acontecia.
Percebeu coisas novas?
Sim. Há uma teoria chamada optimal foraging, ou valores de otimização mínima, segundo a qual há uma estratégia ótima para explorar o mundo para um objetivo. Descobri que isso se aplica à amamentação. A cria mama numa glândula e quando o leite diminui muda para outra, e isso é governado pela oxitocina. No estudo, se eu injetava mais hormona na mãe, a cria ficava mais tempo a mamar numa glândula, se bloqueava, ela mudava. Vimos que o padrão obedece àquela teoria e descobrimos que aquele comportamento não é inato, é aprendido, e leva três ou quatro semanas a ficar ótimo. Pensei que devia estar ali a acontecer qualquer coisa e, então, um professor de etologia disse-me: "Isso já não é etologia, é neurociência". E eu pensei: então é isso que quero fazer.
Que idade tinha?
Tinha 23 anos, e regressei a Portugal. Entrei no programa de doutoramento GABBA[ Biologia Básica e Aplicada] da Universidade do Porto e dei-me conta de que a neurociência clássica estava à beira de uma grande revolução, com a biologia molecular e a genética. Percebi que tinha de fazer neurociência ligada à genética. Fiz o doutoramento nos Estados Unidos com um português, o Alcino Silva, a primeira pessoa que fez uma mutação genética no cérebro de um ratinho. Escolhi a área de aprendizagem de memória, com um estudo sobre a neurofibromatose do tipo 1, uma doença causada por mutações num gene, que causa deficiências de aprendizagem. Criámos um modelo em ratinho, com as mesmas mutações, e isso permitiu-nos estudar o que acontece quando há memória e aprendizagem normal e quando há a mutação.
E o que viram?
No cérebro há neurónios inibitórios e excitatórios e o que vimos foi que a inibição dos neurónios está aumentada com a mutação, porque há uma molécula sobreactiva. Conseguimos diminuir a inibição dos neurónios e baixar a atividade da molécula, e verificámos que isso normalizava os problemas de aprendizagem. Foi a primeira vez que se falou numa doença ligada a este equilíbrio de excitação e inibição nos neurónios e também que se conseguiu reverter problemas de aprendizagem no rato adulto, e depois em adolescentes e adultos humanos. Esta é uma doença do neurodesenvolvimento e há a ideia de que, se se perde a janela da aprendizagem, depois já não há nada a fazer. Nós verificámos nesta doença que não é bem assim. Isso depois levou a ensaios clínicos, em que participou o Alcino Silva. Eu já não estava envolvido, mas continuo a seguir esses estudos.
Já existe uma terapia?
Há vários compostos em estudo. Ainda não há resultados dos últimos ensaios clínicos, mas há algumas indicações positivas anteriores. Há muitos fármacos que já foram testados em pessoas e que são seguros, mas que foram testados para outras coisas. E para este tipo de doença, há um ou dois desses que, se funcionarem, já estão aprovados. A minha filosofia é a de que para muitas doenças pode-se encontrar soluções.
É o caso dessa doença?
É. No meu trabalho estudo coisas interessantes, mas ligadas a um problema, ou uma doença, porque sei que isso é relevante. Depois do doutoramento sobre as memórias, decidi estudar a aprendizagem das ações. É incrível o que nós, humanos, fazemos com a informação. Construímos edifícios, criamos carros e máquinas. É a nossa capacidade de mudar o mundo. Isso interessava-me muito. Por exemplo, como é que iniciamos uma ação de forma espontânea? O que governa essas coisas em nós? E depois, se gostamos de qualquer coisa, como voltamos a fazê-la? Como é que o cérebro sabe, e como ganhamos uma capacidade que parece inata, mas que foi aprendida?
Como é que essas coisas se estudam no laboratório?
Há uns anos, tudo isto era do domínio da filosofia. Mas há pessoas que não conseguem iniciar ações espontâneas, que são os pacientes de Parkinson. No cérebro destes doentes os neurónios da dopamina na zona lateral morrem. Nós vimos que estes neurónios são fundamentais na atividade neuronal para a iniciação do movimento, e que há duas vias para isso: uma direta e uma indirecta. Pensava-se que estes circuitos neuronais eram como um acelerador e um travão. Nós descobrimos que estão os dois ativos e que são ambos importantes para a ação, e agora pensamos que uma, a via direta, é mais importante para iniciar e sustentar a ação, e a outra para mudar de ação. Há doenças, por exemplo, em que o problema é fazer esta mudança da ação, como nas compulsões, ou no autismo. A nossa hipótese é que na compulsividade a via indireta está menos ativa, ou a direta está mais, e no défice de atenção seria o oposto. O que se vê em termos de sintomas são coisas muito diferentes, dependendo de onde está a desregulação, mas há circuitos em comum que aprendem e controlam ações. As doenças oferecem-nos janelas para percebermos o que está a acontecer, e isso depois ajuda-nos a encontrar soluções para as doenças.
E quando poderá haver novas terapias para as doenças ligadas a esses circuitos da ação?
Talvez dentro de 10 anos. Sou um otimista.
O seu grupo participou no projeto Brain Flight para fazer voar um drone só com o pensamento. Como se põe um drone a voar assim?
Neste momento já fazemos voar um avião. A Daimler modificou um avião e há duas semanas e meia [no princípio de dezembro], em Munique, fizemos isso. O piloto, a certa altura, no ar, largou os comandos e fez o voo só com comando cerebral. Há várias formas de fazer isso. Uma é perceber o que acontece no cérebro quando se mexe um braço, por exemplo, e depois usar isso para um comando. Outra é pedir à pessoa que pense, por exemplo, em nuvem, e a essa atividade cerebral atribuir o comando de viragem à direita. Depois, pensar em Sol para virar à esquerda, e assim fazer um classificador. A terceira, que é o nosso trabalho, é através da aprendizagem de ações.
Como é que isso funciona?
No fundo é muito simples. Quando nascemos não sabemos controlar os braços ou as pernas, mas aprendemos e ao fim de muita prática isso automatiza-se de forma natural. Quando aprendemos a mexer um cursor num computador, com um rato, é a mesma coisa. Ao fim de uns dias a experimentar, a pessoa fica muito boa naquilo. Então pensámos: vamos fazer a mesma coisa. Temos o jogo do avião, ligamos a atividade do cérebro ao jogo com elétrodos externos que medem essa atividade, e o avião anda para a esquerda e para a direita, como o cursor do computador, baseado só na atividade do cérebro. No início não se consegue, até que se começa a ter algum controlo, e ao fim de duas semanas, em média, as pessoas estão acima dos 80% no número de vezes que querem ir para um lado, ou para outro, e vão.
Mas as pessoas pensam em quê?
No início podem pensar em relaxar, ou em concentrar-se. Mas ao fim de duas semanas pensam: quero ir para a esquerda. E vão para esquerda. Depois de 15 dias deste treino paramos três semanas. A seguir as pessoas voltam e fazem aquilo na mesma, sem problemas.
É como andar de bicicleta?
É, e era isso que queríamos. Ou seja, conseguimos aprender uma coisa nova, o cérebro sabe fazê-lo. E nós sabemos como é que ele aprende. Portanto, em vez de tentarmos imitá-lo, fazemos com que ele aprenda outro instrumento, porque ele tem capacidade para usar mais instrumentação, para além do próprio corpo.
Como lhe surgiu essa ideia?
Não sei. Fiz teatro amador, e pensei muito sobre a ação do ponto de vista do ator. Sempre me interessou muito isto da ação e do movimento.
O que é que os estudos das neurociências lhe ensinaram sobre a natureza humana?
Ensinaram-me muito. Por exemplo que a memória é uma coisa relativa e que as pessoas têm naturalmente perceções diferentes. Isto ajudou-me muito porque me fez olhar para a diversidade das pessoas e de comportamentos, com menos julgamento sobre os outros. Nesse sentido, mudou muito a minha visão dos outros.
E a nossa mente? Ela está no cérebro?
Acho que sim. A minha opinião é que está nos cérebros: no nosso cérebro e no cérebro dos outros, e a comunicação entre cérebros cria coisas maiores do que no cérebro de cada um. Por exemplo, aquilo que chamamos inteligência coletiva.
Como se houvesse uma mente coletiva?
Sim, mas não é uma coisa etérea. É o cérebro construído, mapeado no mundo. Hoje, por exemplo, guardamos muito da nossa memória em computadores. Isso é parte da mente? Se estiver ali só guardado, não. Mas aquilo em utilização é parte da minha mente. É o cérebro mapeado ao mundo.
O que é que isso quer dizer?
Há uma mente muito básica, mas o resto é o mapeamento que se faz ao longo do desenvolvimento de cada um, na relação com o mundo e com os outros, e que cria complexidades. O nosso cérebro não é biologicamente diferente do cérebro do homem das cavernas. No entanto, cada um de nós aprende a história da humanidade em capacidades e cultura. Cada geração aprende os skills todos. Biologicamente a mente é a mesma, mas o conteúdo de cada desenvolvimento individual é um sumário da história humana. O cérebro seria o hardware onde se constrói a mente, e não se pode explicar a mente só com o hardware. É preciso estudar a dinâmica de como o hardware se constrói culturalmente e evolutivamente.
Haverá coisas nunca chegaremos a perceber sobre o cérebro?
Se falarmos do hardware, acho que é possível conhecer tudo. Mas se falarmos de tudo o que o cérebro faz, e nós não conhecemos os limites do que ele pode fazer, é diferente. O cérebro que percebe muda e passa a haver o cérebro que sabe que sabe. A partir do momento em que percebemos, há um novo nível de mente. Será que conseguimos perceber o cérebro que sabe que sabe?
Essa seria a última fronteira do estudo do cérebro?
[Risos] Espero que sim, para termos que fazer, porque eu gosto muito de estudar.