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sábado, 30 de maio de 2026

IA cria referências falsas e contamina artigos científicos, apontam estudos


O avanço do uso de inteligência artificial (IA) na produção de artigos científicos começa a provocar uma preocupação crescente entre investigadores e editoras académicas. Dois novos estudos internacionais apontam que ferramentas de IA generativa, como chatbots de linguagem, estão a criar referências falsas que acabam por ser incluídas em trabalhos publicados sem que autores, revisores ou revistas científicas se apercebam do erro.

Tornou-se comum os académicos serem alertados para novos trabalhos que citam a sua investigação, apenas para perceberem que se trata de um artigo inexistente. No ano passado, um relatório amplamente divulgado, o “Relatório MAHA”, emitido pela Casa Branca sobre as suas prioridades no combate às doenças crónicas, continha várias citações incorrectas que levaram alguns observadores a suspeitar que tinham sido geradas por inteligência artificial.

Um dos casos citados envolve o investigador Rafael Topaz, professor associado da Universidade de Columbia, nos EUA, que afirmou ter descoberto que uma ferramenta de IA adicionou silenciosamente uma referência inexistente num manuscrito académico. Segundo ele, o sistema foi usado apenas para ajustes gramaticais no texto. “Sou investigador de IA. Sei o que são alucinações. Se isto está a acontecer comigo, o que acontece com as outras pessoas?”, afirmou.

O estudo, publicado na revista científica The Lancet, chegou a conclusões semelhantes ao analisar artigos biomédicos publicados entre 2023 e o início de 2026. A auditoria encontrou mais de 4 mil referências falsas distribuídas em 2.810 artigos revistos por pares. Em 2023, um em cada 2.828 artigos apresentava pelo menos uma citação inventada. No início de 2026, a proporção passou para um em cada 277 trabalhos.

Os autores afirmam que o problema não está concentrado em investigações fraudulentas; em muitos casos, as citações inventadas aparecem espalhadas em trabalhos legítimos, o que sugere que os investigadores estão a copiar referências sugeridas por ferramentas de IA sem fazerem a verificação manual das fontes originais. O fenómeno foi mais comum entre autores menos experientes e equipas pequenas de investigação.

O alerta aparece num estudo conduzido por investigadores da Universidade Cornell, da UCLA e da UC Berkeley. Os cientistas analisaram 111 milhões de citações presentes em 2,5 milhões de artigos publicados entre 2020 e 2025 nas plataformas arXiv, bioRxiv, SSRN e PubMed Central. O trabalho identificou pelo menos 146.932 referências fabricadas por IA só em 2025.

Os investigadores rastrearam títulos de artigos que não puderam ser encontrados em bases académicas como o Google Scholar, Semantic Scholar e OpenAlex. A análise mostrou que o crescimento das referências falsas acelerou a partir de meados de 2024, cerca de um ano e meio após o lançamento público do ChatGPT, período em que as ferramentas de IA passaram a ser usadas também para sugerir bibliografias e citações automáticas.

Segundo o levantamento, as taxas de referências falsas chegaram a quase 2% os artigos publicados no SSRN em agosto de 2025. No PubMed Central, a principal base biomédica analisada, foram estimadas mais de 8 mil citações falsas em apenas um mês. O estudo também aponta que muitas destas referências sobreviveram aos processos de revisão e foram mantidas nas versões finais dos artigos científicos.

Tornou-se comum os académicos serem alertados para novos trabalhos que citam a sua investigação, apenas para perceberem que se trata de um artigo inexistente. No ano passado, um relatório amplamente divulgado, o “Relatório MAHA”, emitido pela Casa Branca sobre as suas prioridades no combate às doenças crónicas, continha várias citações incorrectas que levaram alguns observadores a suspeitar que tinham sido geradas por inteligência artificial.

Os investigadores alertam que o problema se pode tornar ainda mais difícil de controlar nos próximos anos, porque os modelos de IA treinados em bases académicas contaminadas por referências falsas podem reproduzir os mesmos erros em novos textos. Como resposta, os estudos defendem que as editoras científicas adotem sistemas automáticos de verificação de referências antes da publicação dos artigos.

Para saber mais:

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A propósito de Harvard


É difícil compreender que se possa colocar em causa uma universidade que, ao longo da sua história, se afirmou como uma referência nacional e internacional. Uma instituição de ensino superior que, de forma consistente, tem ocupado posições cimeiras nos rankings, contribuindo de modo inquestionável para o progresso científico, económico e social do país. Uma universidade que formou quadros extraordinários, muitos dos quais ocupam hoje posições de destaque nas mais prestigiadas empresas e instituições. Uma universidade que acolheu e inspirou inúmeros prémios Nobel, e que tem gerado conhecimento, inovação e soluções com impacto real e duradouro na vida das pessoas. Causa perplexidade e indignação que se procure fragilizar precisamente as instituições que mais têm contribuído para a prosperidade do país. Colocar em causa o conhecimento é um risco que não é apenas simbólico: é estrutural e profundamente destrutivo.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Miguel Guimarães e Ana Paula Martins geriram em conta pessoal fundo solidário de 1,4 milhões pejado de irregularidades. Não se sabe onde pára auditoria prometida


Miguel Guimarães (ex-bastonário da Ordem dos Médicos) e Ana Paula Martins (ex-bastonária da Ordem dos Farmacêuticos) serão, no próximo hemiciclo, colegas de bancada do PSD, mas já são ‘velhos conhecidos’, a tal ponto que geriram uma conta bancária pessoal conjunta (com Eurico Castro Alves) para gerir 1,4 milhões de euros de uma angariação de fundos em 2020 durante a pandemia, com financiamento quase em exclusivo de farmacêuticas. A gestão do dinheiro em conta pessoal – e não titulada pelas duas ordens profissionais – foi uma das muitas irregularidades e mesmo ilegalidades detectadas no decurso de uma investigação do PÁGINA UM no final de 2022. A existência de facturas falsas de quase 980 mil euros na Ordem dos Médicos foi apenas um dos problemas mais graves então encontrados. Miguel Guimarães garantiu então que estava a ser concluída uma auditoria às contas pela consultora BDO, mas mais de um ano depois, não se vislumbram conclusões. Perante a recusa da Ordem dos Médicos, uma sentença do Tribunal Administrativo exige agora que o actual bastonário, Carlos Cortes, revele o contrato da auditoria com a BDO (para confirmar se existe) e provas cabais que expliquem o alegado atraso. Há meses que o PÁGINA UM insiste em saber se a Procuradoria-Geral da República está a investigar a gestão muito particular da campanha ‘Todos por Quem Cuida’, mas nunca obteve resposta.

A gestão de um fundo de 1,4 milhões de euros de uma campanha para apoiar entidades na luta contra a pandemia da covid-19, promovida pela Ordem dos Médicos e Ordem dos Farmacêuticos a partir de 2020, estava pejada de irregularidades e mesmo ilegalidades, incluindo facturas falsas e fugas ao fisco, mas em 11 de Dezembro de 2022, em reacção às notícias do PÁGINA UM, o então bastonário dos médicos, Miguel Guimarães, garantia ao Correio da Manhã que o “fundo é à prova de bala e que foi tudo contabilizado” e que “está a ser concluída uma auditoria, pedida pelas duas ordens e pela Apifarma”.

Catorze meses depois, sem ser conhecida publicamente qualquer auditoria – a Ordem dos Médicos garante agora nunca ter sido concluída –, o Tribunal Administrativo de Lisboa obrigou anteontem, por sentença (que incluiu também os pareceres do Colégio de Pediatria sobre vacinação de menores contra a covid-19), que a Ordem dos Médicos, agora liderada por Carlos Cortes, disponibilize ao PÁGINA UM “a cópia do contrato celebrado entre a Ordem dos Médicos e a BDO & Associados, SROC, Lda., ou os documentos que comprove a adjudicação da auditoria às atividades e contas da ação solidária ‘Todos por Quem Cuida’, e ainda as comunicações que existam e estejam na posse da Entidade Requerida de ‘onde seja possível compreender os motivos para a eventual não conclusão da auditoria’ expurgados os dados pessoais deles constantes”. A Ordem dos Médicos tem 10 dias para cumprir a sentença.

Na verdade, existem sérias dúvidas sobre a existência de qualquer auditoria às contas daquele fundo gerido pessoalmente por Miguel Guimarães e Ana Paula Martins (antiga bastonária da Ordem dos Farmacêuticos), ambos agora na iminência de se tornarem deputados na Assembleia da República pelo PSD. A alegada realização da auditoria serviu, numa primeira fase em 2022, para tentar convencer o Tribunal Administrativo de Lisboa, a não disponibilizar o acesso às contas e operações logísticas da campanha “Todos por Quem Cuida” então solicitada pelo PÁGINA UM. Não teve as duas ordens sucesso. Depois, com a publicação das investigações do PÁGINA UM sobre as ilegalidades e irregularidades na gestão do fundo, o anúncio da realização de uma auditoria serviu para dar uma aura de credibilidade e seriedade.

Contudo, a existir um contrato entre a Ordem dos Médicos e a BDO & Associados, este deveria obrigatoriamente constar no Portal Base. E não está. Aliás, até à data nunca houve qualquer relação contratual entre estas duas entidades. Também entre a Ordem dos Farmacêuticos e a BDO não existem, até à data, quaisquer contratos registados na plataforma de contratação pública, como é obrigatório por lei.

sábado, 15 de julho de 2023

Seis princípios a respeitar pelos eurodeputados nas votações sobre matérias-primas essenciais


Exploração de lítio, cobalto, terras raras? Votações do regulamento das matérias-primas essenciais na União Europeia iniciam-se na próxima semana.

Face à aceleração das discussões e negociações no Parlamento Europeu, várias comissões votarão o Regulamento relativo às matérias-primas essenciais (CRMA na sigla em Inglês) na próxima semana. No contexto deste rápido progresso, 42 organizações não-governamentais, entre as quais a ZERO, levantaram uma bandeira vermelha, expressando sérias preocupações de que as agendas económicas e industriais possam ofuscar a importância das regulamentações ambientais e dos direitos das comunidades locais. Esta decisão crucial pode abrir um precedente – será favorecida a indústria ou defender-se-á a integridade ambiental e os direitos das comunidades?

Matérias-primas críticas: importância económica e riscos de aprovisionamento

A Comissão Europeia considera que as matérias-primas essenciais (CRM) são elementos-chave na economia europeia, tendo por base a identificação das CRM em função da sua importância económica e dos riscos de aprovisionamento. A União Europeia (UE) depende de materiais importados, provenientes, na sua maioria, de poucos países.

A dependência de matérias-primas estrangeiras foi colocada sob os holofotes pela pandemia de COVID-19 e as subsequentes crises energéticas, enfatizando a vulnerabilidade da UE a interrupções na cadeia de abastecimento. Olhando para o futuro, espera-se que a procura de CRM aumente, alimentando a concorrência pelos recursos à escala global.

A UE reconhece 34 CRM, entre as quais seleciona um grupo de 16 materiais considerados matérias-primas estratégicas. Estes elementos não são apenas críticos para as indústrias atuais, mas são também parte integrante de setores emergentes como a tecnologia verde, a transformação digital, a defesa e a indústria aeroespacial.

Para fazer face a estes desafios, a Comissão Europeia propôs, em 16 de março de 2023, o EU Critical Raw Materials Act (CRMA). Esta legislação foi elaborada para reforçar a capacidade da União para extrair, processar e reciclar estas matérias-primas estratégicas e diversificar as suas fontes de importação fora das fronteiras da UE, criando assim uma cadeia de abastecimento mais resiliente e sustentável.

Equilibrar Desenvolvimento e Responsabilidade: um Imperativo para a Mudança

O setor de mineração continua a apresentar ameaças significativas aos direitos humanos, à integridade ambiental e às comunidades locais. As comissões estão prestes a dar um passo decisivo no sentido de reconhecer as graves consequências das atividades mineiras sem controlo. A mudança pode ser orientada para uma gestão sustentável dos recursos através da circularidade e contrariando o aumento descontrolado da procura. É essencial que estes votos façam face às questões prementes que afetam desproporcionalmente os povos indígenas, as mulheres e os trabalhadores. Estes grupos suportam frequentemente o peso das violações dos direitos humanos, da degradação ambiental e da corrupção inextricavelmente ligadas às atividades mineiras. O Business and Human Rights Resource Centre regista 510 denúncias de abusos de direitos humanos no setor de mineração ocorridas nos últimos 12 anos, envolvendo recursos críticos como cobalto, cobre, lítio, manganês, níquel e zinco.

Apelamos a que o Parlamento Europeu corrija as deficiências dos sistemas de certificação na legislação proposta. As atuais disposições para a certificação de Projetos Estratégicos carecem de uma abordagem multilateral e de limites claros que garantam as questões ambientais e os direitos humanos. Defendemos que se vá além da dependência exclusiva da certificação, elevando as estruturas de governação e conferindo poder à Comissão Europeia para realizar análises independentes. A certificação deve complementar as avaliações rigorosas dos direitos humanos e do desempenho ambiental e não substituí-las. Estas medidas podem ajudar o Parlamento Europeu a garantir normas de sustentabilidade escrupulosas e a salvaguardar os direitos humanos e o ambiente no âmbito de Projetos Estratégicos.

Face às mudanças geopolíticas mundiais, à diminuição da produção de minério e ao aumento dos custos da energia, a UE precisa de reduzir a sua dependência das matérias-primas primárias. As políticas de suficiência, como o CRMA, podem diminuir a procura na UE e contrariar o desperdício no consumo. Ao moderar a procura, a UE pretende reforçar a resiliência, atenuar os riscos de violações dos direitos humanos e de danos ambientais, cumprir os objetivos climáticos da UE, promover a inovação e melhorar o bem-estar dos cidadãos europeus.

Os deputados ao Parlamento Europeu podem então criar um caminho para um futuro definido pela sustentabilidade e resiliência, onde os ecossistemas são preservados e uma economia global justa e sustentável é promovida.

Para Francisco Ferreira, Presidente da ZERO, “As votações nas várias comissões da próxima semana serão fundamentais na defesa dos direitos humanos e da proteção ambiental nas políticas de matérias-primas. A visão com impactes líquidos zero implica uma abordagem das causas profundas dos problemas, não apenas dos sintomas. A ação decisiva e a redução da procura podem estimular a inovação, reduzir a extração e conduzir-nos a um futuro sustentável protegendo as pessoas e o planeta.”

A ZERO, em linha com outras organizações de toda a europa apela ao respeito por seis princípios:
  1. A UE deve reduzir ativamente o consumo de matérias-primas em, pelo menos, 10 % até 2030 através de medidas como a eliminação progressiva dos produtos descartáveis que contêm matérias-primas essenciais, a implementação de um sistema de passaporte dos materiais e a promoção da eficiência dos materiais e de materiais alternativos.
  2. O CRMA não deve basear-se apenas em sistemas de certificação, mas deve realizar uma avaliação rigorosa dos direitos humanos e do desempenho ambiental, incluindo a governação multilateral, o cumprimento de normas, as regras de divulgação, os mecanismos de reclamação e as auditorias públicas.
  3. O foco do CRMA na segurança do abastecimento da UE deve priorizar as normas, a participação da sociedade civil e a proteção dos direitos humanos e do meio ambiente em países terceiros, alinhando parcerias com acordos internacionais, implementando mecanismos de monitorização, apoiando a industrialização doméstica, envolvendo a sociedade civil e os povos indígenas, garantindo transparência e evitando o desrespeito pelos compromissos.
  4. A aceleração dos procedimentos de licenciamento para projetos de matérias-primas essenciais deve equilibrar a proteção ambiental, a participação pública com a agilização dos prazos, incorporando elementos como o consentimento livre, prévio e informado (FPIC), os direitos indígenas e fazendo referência a acordos internacionais, alocando recursos, garantindo transparência e proibindo a mineração em alto mar.
  5. Dar prioridade a uma abordagem de economia circular no CRMA é crucial para o sucesso do Pacto Ecológico Europeu e para a autonomia da UE, através da implementação de uma estratégia de reciclagem, coerência com a hierarquia de resíduos, metas mais ambiciosas para a capacidade de reciclagem, otimização da recolha e separação de componentes, metas de conteúdo reciclado, medidas para contratos públicos e regulamentos abrangentes para a recuperação e remediação de resíduos mineiros.
  6. O CRMA deve incluir regras abrangentes para o cálculo e a verificação da pegada ambiental das matérias-primas essenciais, considerando os critérios relativos à pegada ambiental significativa, à circularidade e ao impacto da reciclagem, as normas internacionais, a consulta das partes interessadas, os pareceres científicos, as declarações sobre a pegada ambiental e o estabelecimento de classes de desempenho através de atos delegados.
Um apelo aos eurodeputados

À medida que se aproximam as próximas votações nas comissões do Parlamento Europeu, mantemo-nos atentos e expectantes. Estas decisões terão implicações profundas na proteção ambiental e dos direitos humanos e na gestão sustentável dos recursos. Aos eurodeputados das várias comissões é confiada a responsabilidade de fazer escolhas que moldarão não só a paisagem económica, mas também o futuro do nosso planeta e das suas comunidades. Esperamos que estejam à altura, aproveitando as suas funções para defender a redução do consumo de recursos, padrões de sustentabilidade mais fortes e uma avaliação abrangente dos direitos humanos e do desempenho ambiental. As suas ações podem abrir um precedente para um mundo mais sustentável e equitativo, garantindo o bem-estar do ambiente e das pessoas. Fazemos votos de que possamos testemunhar uma escolha pela sustentabilidade, resiliência e justiça.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

4 maneiras práticas de descarbonizar a indústria offshore


No webinar Net Zero Investment da Business Green para empresas offshore de petróleo e gás, um painel de investidores experientes fez um pronunciamento importante. Embora o portfólio global de investimentos em petróleo e gás tradicionais em 2021 ainda supere significativamente o das energias alternativas, o investimento em fontes renováveis ​​está aumentando anualmente. A questão para as empresas de petróleo e gás não é mais se as energias renováveis ​​ultrapassarão o petróleo, mas quando chegará o ponto de inflexão.

Dados como este – juntamente com condições de mercado em constante mudança, expectativas sociais e pressões financeiras – estão levando as empresas de petróleo e gás a se adaptarem. Muitos grandes produtores fizeram recentemente investimentos substanciais em energia renovável e prometeu retrabalhar suas cadeias de suprimentos e métodos de produção com alto teor de carbono. Mas é mais fácil falar do que fazer, e as empresas de petróleo e gás agora estão enfrentando as implicações práticas de seus investimentos e iniciativas conscientes do clima.

Quatro áreas-chave para ação

A primeira preocupação de qualquer empresa de petróleo e gás é minimizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) — principalmente carbono — das operações de produção. O petróleo não desaparecerá completamente e continuará a fazer parte do futuro mix de energia. Os produtores, no entanto, procuram tornar seus processos de produção mais ecológicos e gerar “barris de baixo carbono”. Isso requer a análise da cadeia produtiva, identificando áreas de melhoria e implementando políticas para reduzir a emissão de GEE.

Uma segunda frente crucial é o desenvolvimento de energias mais limpas. Empresas offshore de petróleo e gás deram os primeiros passos para desenvolver parques eólicos offshore, que podem se beneficiar de algumas das mesmas infraestruturas das plataformas de petróleo. A eletrificação de ativos permitirá que os produtores removam máquinas pesadas em carbono, substituindo-as por conexões com operações onshore e parques eólicos offshore que geram eletricidade produzida de forma sustentável. Entre as fontes de energia renovável que as empresas estão desenvolvendo estão o hidrogénio verde, a energia solar, a energia eólica offshore e a energia das marés.

Um terceiro pilar para muitas empresas envolve a minimização das emissões de carbono durante a transição de atividades pesadas em carbono para atividades descarbonizadas. O desenvolvimento da tecnologia de captura e armazenamento de carbono (CCS) é fundamental para esses esforços, permitindo que os produtores capturem quantidades significativas de carbono produzido por atividades tradicionais. Olhando ainda mais adiante, a tecnologia CCS pode ajudar as empresas de petróleo e gás a remover o carbono que já escapou para a atmosfera, desfazendo os impactos ambientais negativos do passado.

Finalmente, além de mudar os processos internos de produção e desenvolver formas sustentáveis ​​de energia, as empresas de petróleo e gás precisarão ampliar sua visão para incluir toda a cadeia de suprimentos. As empresas estão cada vez mais sendo responsabilizadas pelos impactos dos fornecedores e, para alcançar emissões líquidas zero até 2050, os fornecedores também precisarão limitar as emissões. Embora as empresas possam primeiro priorizar a minimização da emissão de carbono de suas próprias operações, elas precisarão integrar o pensamento da cadeia de suprimentos em suas estratégias de gestão ambiental de longo prazo.

Um conjunto de serviços para a descarbonização

Em colaboração com nossos colegas da rede global do Bureau Veritas, o Bureau Veritas Marine & Offshore oferece um conjunto completo de serviços de descarbonização. Nossos especialistas ajudam empresas offshore de petróleo e gás a construir uma estratégia completa de carbono. Com uma abordagem sólida, nossos clientes podem quantificar seu impacto, implementar padrões e sistemas de gerenciamento relevantes, relatar esforços de descarbonização e verificar dados .

Nossas soluções técnicas para protocolos de GHG e critérios ESG ajudam as empresas a monitorar e limitar seu consumo de energia e emissões . O Bureau Veritas fornece verificação de terceiros, certificação de projeto, aprovação em princípio e qualificação de tecnologia para novas soluções para CCS, hidrogénio e outras energias alternativas.

Isso ajuda a reduzir os riscos e avançar em projetos importantes, permitindo que os clientes capitalizem a já extensa experiência do Bureau Veritas em energias renováveis ​​e limpas. Também oferecemos verificação de dados por terceiros, auditoria regulatória, garantia e relatórios e consultoria para atores em toda a cadeia de suprimentos, incluindo fabricantes, operadores e distribuidores.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Oxfam: dados publicados pelo Banco Mundial sobre clima não são fiáveis



Cerca de 7 mil milhões de dólares (40%) dos 17,2 mil milhões que o Banco Mundial (BM) afirma no seu relatório do ano fiscal de 2020 como tendo sido destinados a ajudar os países em desenvolvimento a reduzirem os efeitos das alterações climáticas, podem nunca ter tido essa finalidade, conclui uma auditoria realizada pela organização Oxfam, revelada hoje, dia 3 de outubro.

“É alarmante”, afirmou Nafkote Dabi, responsável pela área das alterações climáticas da Oxfam, que “num momento em que a crise climática causa tantos danos, tanta pobreza e tanta fome em todo o mundo encontremos tão pouca clareza sobre a qualidade e quantidade desses fluxos financeiros”. Recorde-se que o BM é responsável por mais de 56 por cento de toda a ajuda financeira propiciada pelos bancos multilaterais aos países em desenvolvimento para combaterem os efeitos das alterações climáticas.

A gravidade da ausência de informação capaz por parte do BM é particularmente significativa, pois a maioria das outras instituições financeiras segue os procedimentos do BM, levando a que “as partes interessadas, como os governos dos países em desenvolvimento, não tenham acesso a informação correta e auditada que lhes permita responsabilizar os bancos e os governos dos países ricos”. “Tudo isto”, conclui Dabi, “introduz um défice significativo de confiança nas negociações climáticas da ONU”.

No Acordo de Paris sobre o clima (2015), as nações mais ricas comprometeram-se a investir todos os anos 100 mil milhões de dólares no apoio ao esforço de mitigação e adaptação dos países mais pobres resultantes do aquecimento global para o qual estes nada, pouco ou muito pouco contribuem. Tal montante nunca foi atingido e em 2020, segundo a Oxfam, 70 por cento dos 83,3 mil milhões investido foram-no sob a forma de empréstimos que terão de ser pagos pelos destinatários.

Esta não é a primeira vez que os fluxos financeiros contabilizados pelo Banco Mundial são alvo de críticas e descrédito. Já em dezembro de 2021 o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, afirmou numa conferência do Financial Times que o Banco Mundial estava “ausente da luta contra o aquecimento global” e que era “necessária uma nova liderança”. Hoje a liderança é a mesma e a desconfiança tem vindo a aumentar, o que não augura nada de bom em termos dos resultados da próxima conferência sobre o clima, que se realiza em Sharm el-Sheikh, no Egito, a partir de 6 de novembro.

Até ao início da noite de segunda-feira o Banco Mundial não divulgou nenhuma reação ao relatório da Oxfam.

Saber mais:
Working at the World Bank, I can see how it is failing humanity on the climate crisis

domingo, 2 de junho de 2019

Falhas na reciclagem deixam sem controlo poluentes de resíduos electrónicos

Portugal corre o risco de não cumprir as exigentes metas de recolha e encaminhamento para reciclagem de 65% dos resíduos de equipamentos eléctricos e electrónicos este ano.
Foto aqui

A ZERO fez uma avaliação da gestão dos Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrónicos (REEE) relativamente ao ano de 2017, tendo detetado diversas ilegalidades que conduzem Portugal a ficar aquém das metas de recolha e tratamento destes resíduos estabelecidas para esse ano. Com base nas evidências constatadas a ZERO apresentou uma queixa à Comissão Europeia contra o Estado Português por incumprimento da legislação comunitária.
As ilegalidades detetadas pela ZERO são corroboradas por uma auditoria efetuada pela Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT)  e homologada pelo Ministro do Ambiente e da Transição Energética em 2017. No entanto, de acordo com a avaliação da ZERO, o Ministério ainda não tomou quaisquer ações decorrentes das conclusões da auditoria, o que não se compreende.
Em 2017, Portugal tinha de cumprir um objetivo de recolher e tratar 45% dos REEE, mas as evidências obtidas através da avaliação da ZERO e da auditoria da IGAMAOT apontam para que muitos desses resíduos ou foram tratados em condições inaceitáveis, sem remoção das componentes perigosas, ou nem sequer entraram nas unidades de tratamento.
A IGAMAOT refere mesmo que há operadores de tratamento de resíduos que declararam à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) quantidades de resíduos tratados inferiores às que declararam às Entidades Gestoras do fluxo dos REEE e que foram utilizadas pelo Ministério do Ambiente para reporte de dados à Comissão Europeia.
Por esse motivo, a IGAMAOT conclui que os dados reportados pelo Estado Português à Comissão Europeia “não são fidedignos”, não existindo assim prova de que Portugal tenha cumprido as suas metas de recolha e tratamento de REEE.
A avaliação feita pela ZERO e a auditoria da IGAMAOT concluem que a APA não tem cumprido o seu papel de regulação deste setor, tendo sido identificadas diversas falhas graves no acompanhamento da gestão dos REEE que, na opinião da ZERO, colocam em causa a sua capacidade para exercer a função de Autoridade Nacional dos Resíduos.
Os dados obtidos pela ZERO permitem ainda concluir que em 2019 Portugal vai recolher e tratar, no máximo, apenas metade dos 65% dos REEE a que está obrigado, sem que a APA até ao momento tenha tomado qualquer medida para corrigir esta situação.
Os REEE são resíduos que carecem de uma atenção especial devido aos muitos componentes perigosos para a saúde e para o ambiente que possuem, como sejam o mercúrio, os PCB, os gases de refrigeração (CFC entre outros), os plásticos com retardadores de chama bromados, as pilhas e baterias, o amianto ou os tubos de raios catódicos.
O acompanhamento insuficiente que as autoridades ambientais estão a fazer deste importante fluxo de resíduos está a gerar situações de risco para a saúde pública e contaminação ambiental (incluindo a libertação de gases de efeito de estufa), para além de impedir o desenvolvimento de uma verdadeira economia circular neste setor, baseada na reutilização e reciclagem dos REEE.
Com a apresentação desta denúncia, a ZERO espera que a Comissão Europeia obrigue o Estado Português a corrigir esta grave situação.
Fonte: aqui

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Dez dicas para reduzir o uso do plástico na sua casa

Foto e notícia aqui

A União Europeia vai proibir palhinhas, cotonetes e copos de plástico dentro de dois anos. Lisboa quer limpar a cidade de copos de plástico até 2020 e em escolas da cidade as refeições em cuvetes de plástico já são coisa do passado.

Sim, já demos conta: o plástico é sério candidato a inimigo número 1 do ambiente, num tempo em que a consciência ambiental é mais aguda. Há previsões catastróficas: se nada for feito, em 2050, haverá mais plástico nos mares do que peixes. Mais de oito milhões de toneladas de plástico acabam nos oceanos todos os anos.

A solução é mesmo evitar o uso de plásticos. Sandra Laville, editora de ambiente do jornal britânico The Guardian, apontou dez dicas para que possamos reduzir o uso de plástico. Mas, atenção, alguns dos produtos podem doer mais na sua carteira.

1. Comece por casa. Faça uma auditoria ao plástico que existe em sua casa: embalagens de gel de banho, desodorizantes, detergentes, frascos de champô. Dispense o gel de banho e troque-o por sabão ou sabonete; use cotonetes de bambu, por exemplo; procure embalagens de detergente líquido em garrafas plásticas recicladas e encontre uma recarga para as encher de novo. Também há papel higiénico em embalagens recicladas.

2. Nos EUA, todos os anos são descartadas mil milhões de escovas de dentes de plástico - trata-se de cerca de 50 milhões de quilos de resíduos. Tente usar escovas de dentes de bambu: biodegradam-se em cerca de seis meses.

3. Quando vai às compras, leve sacos de tecido reutilizáveis.

4. Tente comprar por atacado e colocar produtos secos, como arroz, macarrão ou lentilhas, em frascos de vidro, para evitar a compra de produtos embrulhados em plástico.

5. Recicle os brinquedos de plástico que as crianças já não usam. Procure entregar em associações na sua zona, doando a crianças desfavorecidas. E opte por lojas de segunda mão ao procurar presentes.

6. Leve o seu café num termo ou copo reutilizáveis.

7. Diga não aos talheres de plástico. Na sua marmita inclua um garfo de metal ou use uma alternativa compostável.

8. Não use película plástica aderente para a sua comida. Em alternativa, use folhas de alumínio ou caixas de plástico reutilizáveis.

9. Use uma máquina de barbear elétrica em vez de lâminas descartáveis de plástico.

10. Escreva para empresas cujas embalagens não sejam recicláveis, pedindo-lhes que considerem o uso de materiais menos destrutivos.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

EDP foi deliberadamente beneficiada em mais de mil milhões (em prejuízo dos consumidores)

O presidente da EDP, António Mexia (C), acompanhado pelo Vogal do Conselho de Administração Executivo, João Manso Neto (E), e presidente em representação da China Three Gorges Corporation, António Catroga (D) - Fonte: Lusa, 10 de Junho de 2017

A EDP terá sido deliberadamente beneficiada pelo Governo em mais de mil milhões de euros, com prejuízos para os consumidores, considera o Ministério Público na investigação que abriu à operadora de energia em 2012.

O dado é avançado pelo semanário Expresso, que salienta contudo que, até agora, o Ministério Público (MP) ainda não conseguiu encontrar provas sólidas da existência de eventuais subornos a decisores políticos que terão garantido esses benefícios da ordem dos mil milhões de euros.

O MP abriu em 2012, um inquérito-crime para averiguar suspeitas de corrupção no âmbito das chamadas “rendas excessivas” pagas pelos consumidores na factura da luz.

Em causa estão os Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC) que, segundo o Expresso, incluem o uso de taxas de cálculo inapropriadas que levaram à sobrevalorização dos direitos adquiridos da EDP e, por outro lado, à subavaliação do valor da extensão do prazo das concessões de 27 barragens hidroeléctricas.

Os CMEC também incluem custos não previstos nos contratos de aquisição de energia que estavam em vigor, conforme adianta o Expresso.

As suspeitas em torno dos CMEC levaram já à constituição do presidente executivo da EDP, António Mexia, como arguido, envolvendo também o nome de Manuel Pinho, o ex-ministro da Economia de José Sócrates.

Governo vai exigir 500 milhões à EDP

O primeiro-ministro afirmou no último debate quinzenal que a EDP tem “manhas” que contornam as regulamentações e os contratos “com a cobertura das entidades reguladoras”, prometendo que o governo vai renegociar os contratos no sector da energia para que os consumidores paguem menos.

O Expresso nota que o Governo quer recuperar valores pagos a mais à EDP durante os últimos dez anos. O Executivo aguarda o relatório da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), quanto aos CMEC, para fazer o acerto de contas sobre as “rendas excessivas” e definir os preços da electricidade para 2018.

Para já não há ainda um valor concreto, mas a previsão do Expresso aponta para que estejam em causa até 500 milhões de euros.

A ideia do Governo de António Costa é acertar o ajuste dos preços antes da entrega do Orçamento do Estado para o próximo ano, de modo a poder contar com este dinheiro extra.

EDP ganhou 46,6 milhões de euros a mais do que devia

O Público adianta entretanto, que uma auditoria feita há cerca de um ano, a pedido do Governo PSD-CDS, apurou que a EDP ganhou, pelo menos, 46,6 milhões de euros a mais com a prestação de serviços que os consumidores pagam na factura da luz.

Esse valor continua por devolver, e o secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, garante ao diário que “esta questão é para levar até às últimas consequências“, notando que a devolução do valor terá repercussões nos preços a pagar pelos consumidores.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Podemos estar a respirar microplásticos, avisa especialista

Frank Kelly, professor do King’s College de Londres, avisa que podemos estar a inalar micropartículas de plástico.


Há cada vez mais microplásticos no mar, onde os animais marinhos os ingerem por os confundirem com comida, e os cientistas também alertam para a sua presença nos terrenos agrícolas, onde ainda se desconhecem as suas consequências. Segundo Frank Kelly, professor de saúde ambiental do King’s College de Londres, haverá mais motivos para preocupação: podemos estar a inalar estas partículas, avisa.

“Existe uma possibilidade, uma possibilidade genuína, de que algumas destas micropartículas sejam arrastadas para o ar e transportadas de um lado para o outro e que nós acabemos por as inalar”, disse.

Na sua opinião, o tamanho destas partículas possibilita a sua inalação e o facto de estarem cada vez mais presentes nos nossos ambientes faz com que esta hipótese deva ser considerada. Os microplásticos poderiam ser transferidos para a atmosfera através da secagem das lamas de ETAR, utilizadas como fertilizante nos solos agrícolas, explica o professor, acrescentando que um estudo francês detetou a presença das partículas no ar.


“Se as inalarmos, elas poderão trazer químicos para as partes inferiores dos nossos pulmões e talvez até para a nossa circulação”, afirmou, comparando este problema a “todas as outras emissões” de poluentes dos veículos. Os efeitos na saúde dos microplásticos, quer ingeridos quer inalados, só agora começam a ser estudados.

Segundo o Departamento do Ambiente, da Alimentação e dos Assuntos Rurais do Reino Unido, “mesmo para os consumidores de grandes quantidades de peixe ou marisco com a maior probabilidade de possuírem um grau relativamente elevado de contaminação por microplásticos marinhos, é provável que a exposição dietética às partículas de microplásticos seja relativamente baixa em comparação com a inalação de microplásticos”.

Todos os anos, 8 milhões de toneladas de plástico invadem os oceanos, dando origem a biliões de pedaços deste material a flutuar na superfície marinha e depositados no fundo do mar. Um único banho pode originar a entrada de 100 mil partículas de plástico no oceano, graças à utilização de produtos de higiene – como gel de banho, esfoliantes e pasta de dentes – com micropartículas de plástico, segundo relatórios do Comité para a Auditoria Ambiental do Reino Unido.

Estas micropartículas perfazem apenas uma pequena quantidade do total de detritos de plástico no mar, contudo ativistas de todo o mundo defendem que a sua presença nos ecossistemas marinhos poderia ser facilmente evitada com proibições decretadas pelos governos. Face a estes protestos, os EUA proibiram a utilização destas partículas em dezembro de 2015 e o Reino Unido decretou também a sua proibição, que entrará em vigor em 2018.

As micropartículas de plástico são ingeridas por criaturas marinhas, que as confundem com comida. Os pequenos fragmentos podem acumular toxinas da água marinha, que são posteriormente passadas pela cadeia alimentar, explica o The Guardian.
De acordo com um estudo, uma pessoa que coma meia dúzia de ostras poderá estar a ingerir 50 micropartículas de plástico.

Fonte: Uniplanet

domingo, 15 de outubro de 2006

Carta à Alemanha (versões em inglês e em alemão)



[Fonte: Auditoria Cidadã]
Dear Ms. Bundeskanzlerin Angela Merkel,

Regarding your coming visit to Portugal, I hereby request that you forward the following brief message to your fellow citizens: We are well aware of the fact that in the past decade, your governments told you that you would have to forfeit part of your wages in order to protect your welfare State. They told you, and you believed them, that by forfeiting a little bit of your income you would become “more competitive” and thereby your country would generate enough savings to support your pensions and your children’s future social benefits. We are also well aware of the fact that the past decade was hard on you and that your country became less agreeable and more unequal. We know that the intended goal was achieved. That Germany became “more competitive”, exported more and imported less at lower costs. We know that your country generated large current account surpluses and that those savings were accumulated in your banks. We also know, but perhaps you do not, because your leaders do not tell you, that money accruing in your banks has been invested, for lack of a better choice, in low-interest loans to Southern European banks, including Portuguese ones. These banks then sold credit, amidst lots of shifty advertising, to Southern European families whose wages also did not rise all that much, but who harbored aspirations to homes, cars and a lifestyle akin to yours. Our economy faced globalization-bred competition - which largely benefited your exporting companies - and thus grew very slowly. But credit provided by your banks, via Portuguese banks, allowed household access to consumer goods, many of which produced by your exporting companies. For a while, this state of play seemed beneficial to everyone. In 2008, when bubbles started blowing up, your banks found out that they could not afford so much risky lending and cut credit to Southern European banks and even States. If the European Union had not decided that no bank would go under, making States responsible for bank liabilities, we would have seen a wipeout of indebted banks as well as creditor banks. But the EU decided that first governments would provide “bailouts” to banks and afterwards it, the EU, jointly with the European Central Bank and the International Monetary Fund, would provide “bailouts” to States. This was how your banks, who offered low-interest loans beyond all responsible limits, saved themselves from going under. This was how your banks managed to go on charging interest on loans and securing loan payments. Otherwise, they would have gone bankrupt. Maybe you do not know about this, but loans to Greece, Ireland and Portugal are really debts imposed on the peoples of these countries in order to “bail-out” your banks. Perhaps you also do not know that up until now, your State and all of you as taxpayers, have not contributed a single euro to Greek, Irish or Portuguese “bailouts”. Until now, your government has provided guarantees to a European fund which issues debt at almost null interest rates and then offers loans to “bailed-out” countries at 3 to 4% interest rates. Perhaps you do not know that this may soon change. Austerity measures imposed in exchange for those loans are breaking “bailed-out” countries apart. These countries will soon reach a point where debt service operations will stop. At this point everyone will incur extremely heavy losses, including German taxpayers. Perhaps you are not aware of this, but in the end, your decade-long effort to make Germany “more competitive” and surplus-generating may swiftly melt into thin air. Because your surpluses are our deficits and our debts are your banks’ assets. Your leaders should know that an economy is a system and that the eurozone economy is no exception to this. When system components seek advantage on the backs of others, disaster ensues for both the system and all components. Perhaps you do not know this, but your leaders have been deceiving you for too long. Forgive me, Ms. Merkel, if I come across as excessively bitter. But I am unable to hide this: the spectacle of peoples against peoples is unbearable to me, especially when all of them face a common challenge - a coalition of finance and governments who rule on behalf of the 1%, governments like yours and ours. I remember past tragedies that should be unthinkable and remain in history books. I hope you will agree with me at least on this one point, Ms. Merkel: we must avert a return to that past. (Tradução de Luís Bernardo) 
A versão original deste texto, em português, pode ser lida aqui.
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Sehr verehrte Frau Merkel, Bundeskanzlerin der Bundesrepublik Deutschland Anlässlich Ihres Besuches, den Sie uns in Kürze abstatten werden, möchte ich Sie bitten eine kurze Nachricht an Ihre Mitbürger mitzunehmen. Ich möchte Sie bitten ihnen folgendes zu übermitteln: Wir wissen, dass im hinter Ihnen liegenden Jahrzehnt Ihre Regierungen Ihnen gesagt haben, dass Sie auf Lohn verzichten sollten, um die Zukunft Ihres Sozialstaates zu sichern. Man hat Ihnen gesagt, und Sie glaubten es, dass, wenn Sie auf einen kleinen Teil Ihres Lohnes verzichten würden, Sie ”wettbewerbsfähiger“ wären und Ihr Land so Sparleistungen erbringen würden, die Ihre Renten und die sozialen Rechte Ihrer Kinder sicherten. Wir wissen, dass das hinter Ihnen liegende Jahrzehnt nicht einfach für Sie war und Ihr Land weniger schön und ungleicher wurde. Wir wissen auch, dass das erwünschte Ziel erreicht wurde, dass Deutschland “wettbewerbsfähiger” wurde, viel exportierte, niedrigere und billigere Importe hatte, sowie grosse Zahlungsbilanzüberschüsse erzielte und Ersparnisse in Ihren Banken ansammelte. Wir wissen auch, aber vielleicht wissen Sie das nicht, weil Ihnen das von Ihren Führungspersönlichkeiten nicht gesagt wird, dass die Ersparnisse, die in Ihren Banken angesammelt wurden, von diesen wegen fehlender Alternativen in Krediten zu niedrigen Zinsen für die Banken in Südeuropa angelegt wurden, darunter portugiesischen Banken, die diese wiederum mit viel Publicity und Durchtriebenheit Familien des Südens geliehen wurden, deren Löhne auch nicht gestiegen sind, die aber Haus, Auto und einen ähnlichen Lebensstil wie Sie zu haben wünschten. Unsere Wirtschaft, die dem durch die Globalisation entstandenen Wettbewerb unterliegt, der unseren exportierenden Firmen so gelegen kam, wuchs wenig. Aber der Kredit, den Ihre Banken uns über unsere Banken anbot, erlaubte, dass unsere Familien Zugang zu Konsumgütern hatten, die oftmals von Ihren exportierenden Firmen kamen. Einig Zeit schien es so, als ob dieser Zustand für alle gut sei. Als 2008 alle Blasen zu paltzen begannen, entdeckten Ihre Banken, dass sie nicht weiter so viel riskieren konnten und strichen die Kredite an die Banken und selbst die Staaten des Südens. Wenn die Europäische Union nicht entschieden hätte, dass keine Bank in Konkurs gehen könne und die Staaten zu Bürgen der Bankschulden gemacht hätte, hätten wir sowohl einer Vernichtung der verschuldeten Banken als auch der Gläubigerbanken beigewohnt. Aber die Europäische Union entschied, dass die Regierungen die Banken “retten” sollten und sie selbst danach mit Hilfe der EZB und des IWF die Staaten ”retten” würde. Auf diese Weise retteten sich Ihre Banken, die zu niedirgen Zinsen Kredite jenseits aller Kriterien der Vorsicht vergeben hatten, sich selbst vor dem Konkurs. So kamen sie dazu, weiter die Zinsen für die von ihnen vergebenen Kredite einzunehmen und Ihre Amortisation zu erreichen. Auf andere Weise wären sie gescheitert. Vielleicht wissen Sie es nicht, aber die Kredite, die Griechenland, Irland und Portugal gewährt wurden, sind in Wirklichkeit eine Schuld, die den Völkern dieser Länder auferlegt wurde, um Ihre Banken zu “retten”. Vielleicht wissen Sie auch nicht, dass bis jetzt Ihre Staaten, Sie alle als Steuerzahler, nicht einen einzigen Euro für die “Rettung” Griechenlands, Irlands und Portugals ausgegeben haben. Bis jetzt gewährte Ihr Staat allein einem Europäischen Fond Garantien, der Schuldverschreibungen zu einem Satz von fast Null ausgibt, um sie zu 3% oder 4% an die “geretteten” Staaten weiterzuleihen. Vielleicht wissen Sie auch nicht, dass sich dieser Zustand in Kürze verändern kann. Der im Gegenzug zu den gewährten Krediten auferlegte Sparkurs, zwingt die “geretteten” Länder in die Knie. In Kürze werden diese Länder an den Punkt kommen, ihren Schulkdendienst aussetzen zu müssen. Dann wird es Verluste geben, Verluste für alle, inklusive die deutschen Steuerzahler. Vielleicht wissen Sie es nicht, aber am Ende werden die ganzen Anstrengungen, die Sie im vergangenen Jahrzehn auf sich genommen haben, um Deutschland “wettbewerbsfähiger” zu machen, in einem Nichts verpuffen. Schliesslich sind Ihre Zahlungsbilanzüberschüsse unsere Defizite, die Kredite Ihrer Banken sind unsere Schulden. Ihre Führer sollten wissen, dass eine Wirtschaft ein System ist und die Ökonomie des Euros dabei keine Ausnahme macht. Wenn die Partner versuchen, Vorteile auf Kosten des anderen zu erreichen, wird das Resultat für die Gesamtheit und jeden einzelnen ihrer Bestandteile nur katastrophal sein. Vielleicht wissen Sie es nicht, aber Ihre Führungspersönlichkeiten betrügen uns schon seit langem. Verzeihen Sie mir Frau Merkel, wenn ich zwischen dem einen oder anderen Wort eine etwas überzogene Bitterkeit durchblicken liess. Aber ich bin nicht in der Lage zu verbergen, dass das Spektakel einiger Völker gegen andere mir unerträglich ist, vor allem, wenn sie sich alle mit einem gemeinsamen Problem beschäftigen: dem der Finanzwelt, die Regierungen im Dienste von 1% der Bevölkerung, Ihrer als auch unserer, regiert. Aus der Erinnerung erscheinen mir vergangene Tragödien, die schon undenkbar sein sollten. Sie werden mit mir zumindest in einem Punkt übereinstimmen: Die unnennbare Rückkehr in die Vergangenheit muss vermieden werden! (Tradução de Klemens Detering)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

Crescimento - Desenvolvimento - Sustentabilidade


Acho curioso como os politólogos falam em sustentabilidade da Segurança Social e não em Desenvolvimento Sustentável da mesma???!!
E depois de ler esta notícia também os economistas/senhores empresários têm que pensar melhor nos desenvolvimentos económicos que andam teimosamente a picaretar, pois esses sim, são INSUSTENTÁVEIS.
Continuo com o debate.


As privatizações contribuíram para agravar o défice orçamental e não impediram o rápido crescimento da dívida pública

RESUMO DESTE ESTUDO

De acordo com dados constantes do estudo “Sector Empresarial do Estado: evolução no período 1996-2001” da Secretaria de Estado do Tesouro do Ministério das Finanças; com dados da auditoria aos “Dividendos e Remunerações de Capitais do SEE” realizada pelo Tribunal de Contas, e com base também em dados do INE, do Banco de Portugal e da Direcção Geral de Orçamento conclui-se:

1. Entre 1989 e 1995, ou seja, com os governos do PSD tiveram lugar as privatizações do sector bancário e segurador tendo sido arrecadado receitas no valor de 6.827,3 milhões de euros. Entre 1996 e 2001, com os governos do PS, as receitas arrecadas com a privatizações somaram 15.919,8 milhões de euros o que, como confessa o próprio ex-ministro das Finanças do PS, Oliveira Martins, «é revelador não só da decisão política de intensificação das operações de privatização como uma das principais transformações estruturais da economia portuguesa», pois permitiu a reconstituição de antigos grupos económicos ou a criação de novos grupos económicos.

2. De acordo com a auditoria realizada pelo Tribunal de Contas, entre 1993 e 2003, as receitas arrecadadas pelo Orçamento do Estado resultantes de dividendos e participações nos lucros de empresas do Estado somaram 4.653,1 milhões de euros (930,6 milhões de contos).

3. No entanto, os lucros das empresas públicas foram muito superiores àqueles valores. Segundo o mesmo relatório do Tribunal de Contas, os lucros antes dos impostos de apenas 11 empresas públicas e só em 4 anos (1999­‑2002) somaram 9.176,7 milhões de euros (1.835 milhões de contos), sendo os lucros líquidos, ou seja, depois de pagar os impostos ao Estado, de 7.057,1 milhões de euros (1.411 milhões de contos). Com a privatização de muitas destas empresas, o Orçamento do Estado perdeu uma importante fonte de receitas, e aqueles lucros líquidos e, muitas vezes, até uma parte dos impostos passaram a ser arrecadados pelos grupos económicos que ficaram com essas empresas.

4. Apesar das privatizações maciças das empresas públicas que tiveram lugar no período analisado (1989-2004), e apesar de um dos argumentos utilizados pelos sucessivos governos para justificar essas privatizações tenha sido que dessa forma se obteriam importantes receitas com as quais se amortizaria a Dívida Pública, reduzindo assim os pesados encargos suportados pelo Estado devido a essa dívida, o certo é que a Dívida Pública nunca parou de aumentar de uma forma rápida.

5. Assim, de acordo com dados do INE, do Banco de Portugal e da DGO, em 3 anos de governo Cavaco Silva (92-95) a Dívida Pública aumentou 46,2%, ou seja, em média 5.548 milhões de euros por ano (1.109,6 milhões de contos/ano); em 6 anos de governos PS de Guterres (1995/2001) cresceu 37,5%, ou seja, em média 3.294 milhões de euros por ano (658,8 milhões de contos/ano); e, finalmente, em 3 anos de governos PSD/PP (2001-2004) a Dívida Pública cresceu 14,7%, ou seja, em média 3.557 milhões de euros por ano (711,4 milhões de contos/ano)

6. Em resumo, entre 1992 e 2004, a Dívida Publica passou de 36.043 milhões de euros para 83.122 milhões de euros, ou seja, em 12 anos aumentou 130,6%, isto é, 47.079 milhões de euros (9.415,8 milhões de contos), o que dá um aumento médio anual de 3.923 milhões de euros (784,6 milhões de contos ano). Face a estes números oficiais é-se obrigado a concluir que o Estado perdeu um importante instrumento de obtenção de receitas e de política económica, que eram as empresas nacionalizadas, muitas delas estratégicas, e não resolveu o problema do rápido crescimento da Dívida Pública.