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domingo, 28 de junho de 2026

'Fracking', a técnica que mudou o panorama energético mundial

Chega a casa e acende as luzes. Em seguida, toma um banho de água quente e, quando termina, prepara o jantar. Hoje é frango grelhado com ervilhas salteadas. Esta poderia ser a sua rotina, tal como a de milhões de pessoas em todo o mundo que têm acesso ao gás nas suas casas. E é que este abastecimento tornou-se um dos pilares invisíveis da vida quotidiana moderna. Pelo menos em Portugal, está por trás de quase tudo o que fazemos. Tanto é assim que é mais comum questionarmo-nos sobre o seu preço do que sobre a sua origem.

Esta última questão não condiciona nem perturba o nosso quotidiano, mas também nos deveria interessar: de onde vem esse gás que sustenta as tarefas básicas do nosso lar? No caso nacional, provém de outros países, seja através de gasodutos ou sob a forma de gás natural liquefeito transportado a bordo de grandes navios metaneiros. E é aí que surge um termo que continua a gerar controvérsias entre o sector energético e o meio ambiente: o fracking (fracturação hidroeléctrica).

Como é realizado o fracking?
Os dados mais recentes revelam que uma parte significativa do gás natural consumido em Portugal é importada de países onde a exploração de hidrocarbonetos não convencionais, incluindo o fracking, tem um peso relevante. Por outras palavras, embora Portugal não explore gás natural através de fracking no seu território, parte do gás que consome é proveniente de países onde essa técnica é amplamente utilizada, nomeadamente dos Estados Unidos. Em 2024, por exemplo, cerca de 40% do gás natural liquefeito (GNL) importado pelo nosso país teve origem no país actualmente governado por Donald Trump.

Integrado no mercado internacional, este método de extracção permite aumentar a disponibilidade energética e, consequentemente, reduzir os preços. Um benefício tão relevante quanto superficial, que ignora as graves consequências desta técnica industrial para o ambiente, a saúde pública e a biodiversidade dos territórios onde é aplicada.

Não é de admirar que os Estados Unidos sejam, de longe, o país que mais utiliza esta técnica: foi lá que foi concebida, pelas mãos do multimilionário texano George Mitchell e do engenheiro Nick Steinsberger. No final do século XX, ambos descobriram que era possível libertar grandes quantidades de gás e petróleo retidos em rochas muito compactas, combinando duas inovações fundamentais: a perfuração horizontal e a injecção de fluidos a pressão muito elevada.

A fracturação hidráulica consegue atingir camadas profundas de xisto, para depois injectar no solo uma mistura de água, areia e aditivos químicos que fracturam a rocha: daí o seu nome. A areia mantém abertas essas microfracturas, permitindo que o gás ou o petróleo fluam para a superfície para serem recolhidos.

Por que gera tanta controvérsia o fracking?
Não são poucas as organizações científicas e ambientais que estudaram exaustivamente os efeitos do fracking nos ecossistemas. E é que, devido ao seu sucesso retumbante em termos económicos e geopolíticos na América do Norte, outros países com grandes reservas de combustíveis fósseis despertaram interesse por esta técnica: no mesmo continente, destaca-se o caso de Vaca Muerta, em Neuquén (Argentina), um jazigo que se tornou um dos maiores centros de exploração de hidrocarbonetos não convencionais do mundo.

O mesmo não acontece na Colômbia, onde a técnica ainda não foi regulamentada, embora o último governo se tenha posicionado abertamente contra a sua aplicação. O fracking, de facto, tem sido protagonista nos debates da campanha presidencial colombiana de 2026, e não é de admirar: num dos países com maior biodiversidade do mundo, a fracturação hidráulica pode colocar em risco ecossistemas de altíssimo valor ambiental, fontes de água doce e territórios habitados por comunidades rurais e indígenas.

É o que demonstram as evidências científicas: de acordo com um relatório da Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos, o fracking pode fazer com que fluidos se infiltrem nas águas subterrâneas, causando poluição na água. Além disso, tal como explica a especialista Sandra Steingraber à National Geographic, em algumas zonas próximas de jazidas, a fracturação "é a principal fonte de smog". E não é só isso: pode até provocar terramotos em regiões onde antes quase não se registavam movimentos sísmicos.

Tudo isto, sem esquecer o impacto desta indústria na saúde das pessoas: os estudos realizados até à data sugerem que os bebés nascidos perto de poços de fracking podem apresentar uma maior incidência de baixo peso à nascença, parto prematuro ou anomalias congénitas. Além disso, os cidadãos idosos podem correr um risco maior de morte prematura.

Em relação a estas investigações, todas realizadas em zonas petrolíferas dos Estados Unidos, Steingraber salientou: "Isto é uma crise de saúde pública". Mas nada parece travar os países que impulsionaram a sua economia através desta estratégia. E enquanto o mercado internacional continua a crescer e a procura de gás se mantém em alta, os alertas científicos parecem ficar relegados para segundo plano.

terça-feira, 23 de junho de 2026

António Guterres exige "toda a verdade" sobre o custo climático da IA

O secretário-geral da ONU avisou que o mundo precisa de agir com "muito mais urgência" para limitar o aquecimento global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou os líderes do setor da Inteligência Artificial a “dizerem toda a verdade” sobre o impacto ambiental dos centros de dados, apontando o dedo aos combustíveis fósseis.

“Chega de custos escondidos. Chega de impor este fardo aos mais vulneráveis. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o seu custo atual”, disse António Guterres esta terça-feira, durante o seu discurso na Semana de Ação Climática de Londres, um evento anual realizado na capital britânica.

O secretário-geral da ONU anunciou o lançamento da Iniciativa de Transparência Ambiental da IA, que exigirá que os gigantes globais da inteligência artificial calculem e divulguem a pegada ambiental das suas atividades — em termos de carbono, água e uso da terra, por exemplo. As empresas ficam comprometidas, então, a abastecer essas atividades com energia renovável até ao final da década.

“As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta”, sublinhou Guterres, reconhecendo que a IA é “exigente em termos de terra, água e energia”, embora possa contribuir para “acelerar as soluções climáticas”.

Os centros de dados - os repositórios de servidores que alimentam a IA e outros serviços digitais - consomem energia de forma extremamente intensiva e atingiram a marca dos 448 terawatts/hora (TWh) de eletricidade em 2025. A consultoria Gartner estima um aumento de 26%, elevando o consumo para 565 TWh e a potência para 132 GW em 2026. As projeções da Agência Internacional da Energia (AIE) apontam para um consumo que pode variar entre 945 TWh e 1.050 TWh até 20230.

Guterres pede “mais urgência”
Numa altura em que a Europa enfrenta uma vaga de calor e vários países, como o Reino Unido, França e Itália, batem recordes de calor, o secretário-geral da ONU alerta que é preciso agir “com muito mais urgência”.

“Devemos agir com muito mais urgência para limitar rigorosamente a extensão e a duração de qualquer ultrapassagem de 1,5°C”, disse Guterres, referindo-se ao limite de aquecimento estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015, em comparação com os níveis pré-industriais.

Para além da proposta relativa ao setor tecnológico, o secretário-geral da ONU lançou também um “apelo global à ação sobre o metano”, o segundo maior contribuinte para as alterações climáticas a seguir ao dióxido de carbono (CO2), com o objetivo de alcançar “emissões próximas de zero em toda a cadeia de valor”.

Para isso, Guterres propõe uma série de metas relacionadas com as fugas de metano na indústria do petróleo e gás e com a queima, que consiste na queima do gás natural emitido durante a extração de petróleo sem o seu aproveitamento.

Guterres defende também a redução das emissões do setor agrícola e dos aterros sanitários.
"Exorto a indústria dos combustíveis fósseis a assumir a responsabilidade e a fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo", disse António Guterres, sublinhando que "só em 2025, foram queimados cerca de 167 mil milhões de metros cúbicos de gás, o equivalente ao consumo anual de África".

"Não podemos continuar a depender de um sistema baseado em combustíveis fósseis que alimenta tanto a crise climática como a crise energética", declarou o secretário no discurso durante a conferência em Londres.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Poluição atmosférica responsável por 79 mil mortes anuais na Europa, revela estudo


Um trabalho relaciona a exposição a curto prazo a uma série de poluentes atmosféricos com aproximadamente 146.500 mortes prematuras por ano na Europa, sendo as partículas finas as mais nocivas, responsáveis por 79.000 mortes.

Publicada na revista 'Nature Health', a investigação do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e do Centro de Supercomputação de Barcelona (BSC) fornece a primeira estimativa à escala europeia da mortalidade a curto prazo atribuível aos efeitos combinados de múltiplos poluentes em 31 países, representando mais de 530 milhões de pessoas.

Embora o maior impacto na saúde seja causado pela exposição a longo prazo, a poluição atmosférica a curto prazo pode também desencadear respostas fisiológicas agudas, como inflamação sistémica, desequilíbrio e aumento da coagulação sanguínea, que elevam o risco de mortalidade, noticiou na quarta-feira a agência Efe.

O estudo analisou quase 89 milhões de mortes registadas entre 2003 e 2019 em 653 regiões europeias, combinando dados de estações de monitorização, satélites, uso do solo e variáveis meteorológicas, ajustados para os níveis regionais.

Ao contrário da maioria das investigações anteriores, que se centravam apenas nas cidades ou analisavam um único poluente, este estudo considera quatro poluentes em conjunto: material particulado fino, dióxido de azoto, ozono e material particulado de tamanho intermédio.

"Isto permite uma análise mais precisa de como a exposição a curto prazo afeta as pessoas de forma diferente, dependendo da idade, sexo e causa da morte", explicou Zhao-Yue Chen, investigador do ISGlobal e primeiro autor do estudo.

Analisadas individualmente, as partículas finas causam anualmente aproximadamente 79.000 mortes, seguidas pelo dióxido de azoto com 69.000, do ozono com 31.000 e partículas de tamanho intermédio com 29.000, embora estes números não sejam cumulativos, uma vez que os poluentes tendem a ocorrer em simultâneo e os seus efeitos sobrepõem-se.

As partículas finas são as mais nocivas porque, devido ao seu tamanho, penetram profundamente nos pulmões e podem entrar na corrente sanguínea, desencadeando inflamação.

As partículas maiores afetam principalmente o trato respiratório superior, enquanto o dióxido de azoto e o ozono irritam os pulmões e aumentam a vulnerabilidade a doenças respiratórias.

A poluição do ar não afeta todos da mesma forma: os homens jovens apresentaram maior vulnerabilidade do que as mulheres da mesma faixa etária, de acordo com o estudo, devido à maior exposição ocupacional, ao tráfego e ao tabagismo, bem como ao início mais precoce de doenças crónicas.

No entanto, o padrão altera-se com a idade, uma vez que a partir dos 85 anos, o maior risco é observado nas mulheres, que também apresentam riscos cardiovasculares mais elevados devido à exposição a partículas do que os homens.

“Os nossos resultados apoiam a utilização de modelos epidemiológicos ajustados por sexo, idade e comorbilidades para criar sistemas de alerta precoce especificamente direcionados para grupos vulneráveis”, concluiu Joan Ballester, investigador do ISGlobal e coordenador do estudo.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Shell CEO sees energy crisis lasting until 2027


The shortage of oil and natural gas caused by the blockade of the Strait of Hormuz is likely to drag on for months and possibly into next year, the CEO of Shell, Wael Sawan, tells Bloomberg TV.

“We’re talking about roughly 900 million barrels that haven’t been produced in the last few months and have instead been replaced by inventory,” he says, adding:

“We’re now reaching some relatively low levels. We’re talking about constraints on demand in certain areas. And we’re talking about fuel switching.”

Sawan’s comments underscore the severity of the energy shock that has hit the global energy sector in the wake of President Donald Trump’s war with Iran, which began in late February.

About 20% of the world’s oil and natural gas cannot pass through the Persian Gulf, forcing countries like Iraq, Kuwait, and Qatar to shut down production and pushing customers—especially in Asia—to compete for supplies elsewhere by driving up prices.

“It’s leaving a deep mark—and not just on oil,” says Wael Sawan, noting that liquefied natural gas (LNG) is also at stake.

Earlier this week, Shell agreed to buy Canadian shale producer ARC Resources for USD 13.6bn in the energy giant’s largest deal in more than a decade.

The acquisition will support production growth through 2030 and help supply their LNG Canada facility, which exports natural gas to Asia.

sábado, 17 de janeiro de 2026

A petromoralidade de Trump



Em 1953, a Inglaterra e os Estados Unidos da América coordenam esforços para depor o governo democrático do Irão. Até há pouco tempo, a CIA e o MI6 negaram ter promovido um plano para derrubar o primeiro-ministro eleito, Mohammed Mossadegh, até que, em 2013, um relatório publicado pela CIA admitiu a manipulação da imprensa, as operações de propaganda e o financiamento de protestos contra o governo, reconhecendo a autoria do golpe.

A monarquia apoiada pelo Ocidente converteu-se numa ditadura brutal. A recente nacionalização do petróleo, motivo não assumido para o golpe de Estado, foi revertida a favor de empresas britânicas, norte-americanas, holandesas e francesas. Durante 38 anos, os iranianos sofreram as brutas consequências da intervenção imperialista. O profundo ressentimento popular aberto por essas décadas de repressão e exploração pavimentaram o caminho para a Revolução de 1979 e a instauração de um regime teocrático e violento, contra o qual o povo iraniano agora resiste corajosamente nas ruas.

Independentemente das coordenadas ideológicas de cada um, não acredito que exista um historiador ou analista intelectualmente honesto que não estabeleça um nexo de causalidade entre a intervenção externa motivada pelo controlo de petróleo e a ascensão do regime repressivo liderado por Ali Kahmenei. Da mesma forma, ninguém nega as verdadeiras motivações que levaram à destruição do Iraque, deixando um rasto de guerra e morte, milhões de refugiados e a ascensão do DAESH.

Tanto esforço dedicado à mentira, encobrimento e malabarismos morais para afinal acabarmos aqui. Séculos de doutrina da “guerra justa” arduamente pensada por filósofos, historiadores, teólogos, militares, glosadores e intelectuais, tudo arrasado numa frase digna do absolutismo mais raso, não de um príncipe, mas de um canalha: “os limites da guerra são os limites da minha moral”, ou seja, nenhuns.

Trump não precisou de uma tese hipócrita e mentirosa para justificar a operação militar especial e a ocupação (do poder) na Venezuela, não precisou de autorização do Congresso nem de fingir respeito pelo direito internacional. Bastou-lhe a legitimidade conferida pelas poderosas petrolíferas norte-americanas e o seu vazio ético e moral.

É tudo assustador, mas será suficiente para demolir um edifício normativo internacional fundado no século XVII e edificado depois de duas guerras mundiais, cem milhões de mortos e mais do que um genocídio? Não, isto não é trabalho para um homem só.

O resto, o bocado que falta, está a ser-lhe servido na bandeja da quieta complacência europeia e da terna cumplicidade dos que exclamam “as pessoas falam do petróleo como se isso fosse uma razão menos digna para uma intervenção”.

Não celebro o fim da hipocrisia, acho que havia nela uma réstia de ilusão sobre um mundo em que os pequenos conseguem proteger-se contra os desvarios dos grandes. Está na moda teorizar sobre o interesse nacional, reduzindo-o à legitimidade de pilhar os vencidos. Até admito que nos EUA essa tese seja “natural”, o que me espanta é a síndrome de Estocolmo em países periféricos e mínimos mas com 1,7 milhões de km² de águas marítimas e uma plataforma continental que pode chegar a 4 milhões de km².

Em nenhuma circunstância Portugal teria a possibilidade de garantir militarmente a sua soberania no Atlântico, o que inclui os Açores. Será assim tão difícil compreender que é do interesse de Portugal e da maioria dos estados (que não são superpotências) alinhar pela defesa do direito internacional e do respeito pela soberania?

Enquanto escrevo, tropas alemãs, norueguesas, suecas e dinamarquesas são simbolicamente desembarcadas para “defender” a Gronelândia dos apetites vorazes do sr. Trump. Mas há em Portugal quem ache que o nosso destino é escolher um dos líderes imperiais autoritários para ser o “nosso líder autoritário”. Sonham com o império e aceitam patrioticamente converter-se em pequeno jardineiro do seu quintal… que patético “interesse nacional”.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Novo estudo da OXFAM mostra que os 0,1% mais ricos dos EUA queimam carbono a uma taxa 4.000 vezes superior à dos 10% mais pobres do mundo


Segundo uma análise fornecida ao The Guardian, os super-ricos dos EUA estão a consumir carbono a uma velocidade 4.000 vezes superior aos 10% mais pobres da população mundial.

Estes multimilionários e multimilionários, que representam os 0,1% mais ricos da população dos EUA, estão também a reduzir o espaço climático seguro do nosso planeta a um ritmo 183 vezes superior à média global.

Os dados, produzidos pela Oxfam e pelo Instituto Ambiental de Estocolmo antes da cimeira climática COP30, destacam o fosso entre os ricos , grandes consumidores de carbono e principais responsáveis ​​pela crise climática, e os pobres, vulneráveis ​​ao calor, que sofrem as piores consequências. A China ocupa o 2º lugar.

Numa das extremidades da pirâmide social, os 0,1% mais ricos emitem, em média, 2,2 toneladas de CO2 por dia, o equivalente ao peso de um rinoceronte ou de um SUV.

Por outro lado, um cidadão da Somália emite apenas 82 gramas de CO2 por dia, o que equivale pouco à massa de um único tomate ou de meia chávena de arroz.

Entre estes dois extremos, a média para todos no planeta é de 12 kg por dia, aproximadamente o peso de um pneu de automóvel normal.

A análise foi fornecida para o lançamento do relatório anual da Oxfam sobre a desigualdade de carbono, que destaca como os estilos de vida luxuosos de superiates, jatos privados e grandes mansões se combinam frequentemente com investimentos em indústrias poluentes para criar pegadas individuais que desestabilizam o clima.

O estudo, divulgado na quarta-feira, descobriu que 308 dos multimilionários do mundo tinham uma contagem combinada de CO 2 que, se fossem um país, os tornaria o 15º país mais poluente do mundo.

A grande disparidade de carbono aumentou nos últimos 30 anos. Desde 1990, a quota das emissões dos 0,1% mais ricos aumentou 32%, enquanto a quota dos 50% mais pobres desceu 3%.

“A crise climática é uma crise de desigualdade”, afirmou Amitabh Behar, diretor executivo da Oxfam Internacional. “Os indivíduos mais ricos do mundo estão a financiar e a lucrar com a destruição climática, deixando a maioria global a suportar as consequências fatais do seu poder desenfreado.”

A desigualdade cria retroalimentações perigosas: quanto mais riqueza é acumulada nas mãos de poucos, mais a responsabilidade pela crise climática se concentra entre um pequeno número de indivíduos poderosos, que usam o seu dinheiro e influência para negar, atrasar e distrair das reduções de emissões.

O relatório apurou que quase 60% dos investimentos dos multimilionários são em “setores de alto impacto climático”, como empresas de mineração ou de petróleo e gás. Isto representa mais 11 pontos percentuais do que o investidor médio.

Um quadro semelhante foi pintado por um relatório separado, também divulgado na quinta-feira, pelo World Inequality Lab , que revelou que o 1% mais rico tem 2,8 vezes mais emissões associadas ao seu capital do que ao seu consumo.

Nos EUA, o relatório da Oxfam referiu que as empresas gastam, em média, 277 mil dólares por ano em lobby anti-clima, liderado pelas empresas de petróleo e gás natural. Na última Cimeira do Clima (COP) em Baku, havia 1.773 lobistas do sector do carvão, petróleo e gás, um contingente superior ao de todos os países, excepto três. O grupo afirmou que isto levou a um alívio das penalizações para os grandes emissores, ao retrocesso nos compromissos internacionais de transição para longe dos combustíveis fósseis e a contestações internas aos impostos sobre o carbono e à legislação destinada a reduzir as emissões. Mais preocupante ainda, segundo a Oxfam, é a tendência para os doadores ricos financiarem movimentos de extrema-direita e racistas, que estão na vanguarda da oposição às políticas de emissões líquidas zero.

As consequências são mortais. O relatório calcula que as emissões do 1% mais rico da população são suficientes para causar cerca de 1,3 milhões de mortes relacionadas com o calor até ao final do século, além de 44 biliões de dólares em prejuízos económicos para os países de baixo e médio-baixo rendimento até 2050. O sofrimento é desproporcionalmente maior no Sul Global, a região do mundo que menos culpa tem pelas alterações climáticas.

As emissões dos super-ricos estão também a afastar cada vez mais o mundo das metas do Acordo de Paris sobre o clima, que visa limitar o aumento da temperatura entre 1,5°C e 2°C acima dos níveis pré-industriais. Desde o acordo global de 2015, o 1% mais rico do mundo consumiu mais do dobro do orçamento de carbono restante em comparação com a metade mais pobre da humanidade combinada, afirma o relatório. A última década foi a mais quente de que há registo, elevando o aquecimento global acima da marca dos 1,5°C em 2024.

A Oxfam disse que os governos precisam de reduzir as emissões e a influência dos super-ricos com impostos sobre eles e indústrias que destabilizam o clima.

“Devemos quebrar o domínio dos super-ricos sobre a política climática, taxando a sua riqueza extrema, proibindo o seu lobby e, em vez disso, colocando os mais afectados pela crise climática no comando da tomada de decisões climáticas”, disse Behar.

domingo, 28 de setembro de 2025

Colonialismo Verde - transição energética enriquece bilionários e devasta países do Sul, segundo a Oxfam


Os minerais para a transição energética, extraídos no Sul Global, estão a ser monopolizados pelos ultra-ricos do Ocidente, denuncia a Oxfam num relatório. Esta prática reforça padrões coloniais destrutivos.

Libertar os hidrocarbonetos do nosso quotidiano e voltar a nossa atenção para as energias renováveis. Este é o objectivo da transição energética, defendido e incentivado durante muitos anos em resposta à crise climática. No entanto, para promover esta transformação do sistema, são necessários minerais — lítio, cobalto, níquel e cobre —. E embora 70% deles se encontrem no subsolo do Sul Global, grande parte dos lucros acaba nos bolsos do 1% mais rico.

A 24 de setembro, a Oxfam divulgou um relatório que esclarece o funcionamento interno deste poderoso negócio. Segundo a ONG, os ultra-ricos — indivíduos, empresas e governos — estão a apropriar-se da transição em detrimento das comunidades de baixo rendimento. Não se trata de abandonar a lógica capitalista ou de questionar o consumo excessivo de energia. Também não se trata de imaginar uma partilha adequada dos lucros obtidos com os povos locais, que suportam o peso das repercussões nefastas da exploração mineira.

"Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais."
Nesta corrida frenética aos minerais, os países do Sul Global estão a ver os seus recursos serem roubados e as suas terras confiscadas por multinacionais. "Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais, e são implementados sem o consentimento das comunidades que vivem nos países em questão", escrevem os autores. Acrescentam: "Por outras palavras, a dinâmica que deu origem ao colonialismo histórico está a ressurgir em novas formas com a transição ecológica."

De acordo com o estudo da Oxfam, 60% dos territórios reconhecidos como terras indígenas estão ameaçados por projetos relacionados com a transição energética. Isto equivale à área total do Brasil, dos Estados Unidos e da Índia ou o dobro do tamanho do império colonial francês no seu auge. "Sem uma reforma urgente para proteger os direitos e os territórios, a transição apenas reforçará os padrões de mais de 500 anos de colonialismo energético, escravatura e exploração de biomassa na era do carvão e do petróleo", lamenta a Oxfam.

Tesla, a personificação do colonialismo verde
Uma alavanca fundamental na descarbonização do sector dos transportes, a conversão das frotas de veículos ocidentais para a energia eléctrica é uma clara ilustração deste desequilíbrio. Por um lado, as comunidades suportam os custos desta transição. Por outro, um bilionário vê o seu portefólio impulsionado pela crise climática.

Em 2024, a Tesla, propriedade do homem mais rico do mundo, Elon Musk, registou 5,63 mil milhões de dólares em lucros com a venda destes veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a República Democrática do Congo recebeu apenas 17,5 milhões de dólares em royalties pelas enormes quantidades de minerais fornecidas para construir cada um destes automóveis — 3 quilogramas de cobalto por veículo.

A diferença é ainda mais abismal entre a fortuna do oligarca e o salário de uma pessoa que trabalha nas minas, estimado em 7 dólares por dia: "[Isto] significa que ele levaria quase dois anos a ganhar o que a Tesla ganha com um único carro", observam os autores.

França também envolvida
Elon Musk, que fez a saudação nazi no início deste ano, não é o único a lucrar à custa do Sul Global. A multinacional francesa TotalEnergies também utiliza esta estratégia. Em 2024, a sua subsidiária maioritária, a TE H2, lançou um projeto denominado Chbika em Marrocos. O objetivo? Desenvolver um gigawatt de capacidade solar e eólica onshore para alimentar a produção — através da eletrólise da água do mar dessalinizada — de hidrogénio verde, posteriormente transformado em amoníaco verde destinado ao mercado europeu.

Embora o conceito possa parecer obscuro, a intenção final é simples: fornecer à União Europeia recursos renováveis. Este visa atingir os objectivos definidos pelo plano REPowerUE, que visa reduzir a sua dependência dos combustíveis fósseis russos até 2027. Ou seja, Marrocos — bem como outros países do Sul Global, que detêm 70% do potencial eólico e solar do mundo — está excluído da transição devido à falta de financiamento acessível.

Mecanismos Financeiros Coloniais
"A arquitectura financeira internacional é [além disso] igualmente desequilibrada, uma vez que, moldada por séculos de poder colonial, continua a aprisionar os países de baixo rendimento numa dependência estrutural", refere o relatório. Quando um país rico investe num projecto de energia limpa, beneficia de taxas de juro de 3 a 6%. Por outro lado, quando o cliente é um país do Sul, os bancos inflacionam estas taxas para 13,5%. Por outras palavras, fornecer energia limpa a 100.000 pessoas custa 95 milhões de dólares ao Reino Unido mas 188 milhões de dólares à Nigéria. Esta diferença de tratamento justifica-se por uma percepção distorcida do risco, afirma o relatório, moldada por décadas de estereótipos negativos.

Os dados estão também viciados pela espiral da dívida em que as elites poderosas mergulharam os mais vulneráveis. "Os países ditos 'em desenvolvimento' têm uma dívida externa de 11,7 biliões de dólares, mais de 30 vezes o custo estimado para garantir o acesso universal à energia limpa até 2030", alerta a Oxfam. Esta espada de Dâmocles é um enorme obstáculo à sua transição energética.

Uma única estatística basta para demonstrar o absurdo da situação: 14% da energia consumida pelo 1% mais rico do planeta poderia satisfazer as necessidades energéticas básicas de todos aqueles sem electricidade. A grande maioria destas pessoas vive na África Subsariana. No entanto, em 2024, o continente terá captado apenas 2% do investimento global em energia limpa. Uma triste ironia que a Oxfam esteja a pedir o fim.

domingo, 23 de junho de 2024

Milhares de pessoas marcham em Londres pela proteção da natureza e do clima


Londres, 22 jun 2024 (Lusa) - Milhares de pessoas participaram hoje numa manifestação em Londres, promovida por organizações como a Extinction Rebellion (XR) e o World Wide Fund for Nature (WWF), para apelar aos políticos para que atuem pela natureza e pelo clima.

Esta manifestação acontece a menos de duas semanas das eleições legislativas de 04 de julho no Reino Unido. Segundo as recentes sondagens, os trabalhistas estão amplamente em vantagem, prevendo-se, assim, uma pesada derrota para os conservadores, no poder há 14 anos.

A atriz britânica Emma Thompson e o naturalista e apresentador britânico Chris Packham ocuparam os lugares da frente na marcha realizada em Londres, pedindo para se “restaurar a natureza agora”.

Chris Packham explicou que esta é a primeira vez que organizações tão diferentes se unem para uma manifestação, dando como exemplo o National Trust (Fundo Nacional para Locais de Interesse Histórico ou Beleza Natural), que defende a herança britânica, e o grupo ativista ambiental Just Stop Oil, representado por ecologistas que são muito controversos pelas ações contundentes que realizam.

Fazendo-se notar de forma muito colorida, a manifestação decorreu num ambiente de boa disposição, num percurso desde Hyde Park até ao parlamento, em Westminster.

Entre a multidão de manifestantes, que vieram de várias zonas do Reino Unido, havia muitos fantasiados de animais, incluindo girafas e ursos.

“Não há vida sem vida selvagem” e “Não há botão para começar do zero” eram algumas das mensagens dos cartazes erguidos na manifestação.

Em declarações à agência de notícias France-Presse (APF), a atriz britânica Emma Thompson dirigiu-se aos políticos: “Parem de ser tão profundamente irresponsáveis”.
“Não acredito na falta de compromisso deles” com o clima durante a campanha eleitoral, criticou a atriz, que é ativista ambiental, alertando que o planeta está “no meio da tempestade”, manifestando “surpresa ao ver quanta negação ainda existe”.

Emma Thompson disse que apoia o grupo Just Stop Oil, do qual dois ativistas pulverizaram, na quarta-feira, tinta nos monólitos do famoso sítio pré-histórico inglês de Stonehenge.

O Just Stop Oil reclama o fim da exploração de combustíveis fósseis até 2030.

“Penso que apoio todos os que estão a liderar este combate extraordinário”, disse Emma Thompson, defendendo que não se pode mais extrair petróleo do solo.

O naturalista e apresentador britânico Chris Packham disse não estar muito impressionado com o conteúdo dos programas dos vários partidos políticos britânicos.

“Quando se trata de enfrentar os verdadeiros grandes problemas, não há substância, compromisso ou determinação para enfrentá-los, e isso é realmente dececionante”, criticou Chris Packham

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Dados da OMM e Copernicus. Mortes associadas ao calor aumentam 30% na Europa


O serviço de observação da Terra da União Europeia, Copernicus, e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) apresentaram uma análise sobre o “stress térmico extremo” que assola a Europa.

O relatório conjunto sobre o estado do clima afirma que a taxa de mortalidade devido ao clima quente aumentou 30 por cento na Europa em duas décadas. 2023 foi o ano de todos os máximos em termos de calor. Onze dos 12 meses registaram temperaturas acima da média no ar e à superfície do mar. Setembro foi mesmo o mês mais quente desde que há registos. Os poluentes que retêm o calor e obstruem a atmosfera contribuíram para elevar as temperaturas na Europa, em 2023, para níveis nunca antes registados. O estudo apurou também que os europeus, ao sofrerem com este calor sem precedentes durante o dia, acumulam stress e as noites tornam-se desconfortáveis.

“O custo da ação climática pode parecer elevado”, disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, “mas o custo da inação é muito mais elevado”.

Calor e chuva intensos
Durante o ano passado, as temperaturas na Europa estiveram acima da média durante 11 meses de 2023. O mês de setembro foi considerado o mais quente desde que há registo, de acordo com o estudo. Neste ciclo de altas temperaturas, o clima quente e seco facilitou a propagação de grandes incêndios, que por sua vez saturaram a atmosfera das cidades com a grande quantidade de fumo espalhado no ar. Portugal, Espanha e Itália são os países europeus identificados como os mais fragilizados pela seca. A Grécia está apontada como tendo sofrido o maior incêndio florestal registado na UE, com 96 mil hectares de área ardida. Mas não é só o calor a provocar desastres. As chuvas intensas também causaram inundações mortais por toda a Europa. Em 2023, o território europeu teve um aumento de sete por cento de precipitação, relativamente à média dos últimos 30 anos.

O relatório conclui que um terço da rede fluvial ultrapassou o limiar “alto” de cheias. Um sexto atingiu níveis “severos”. "A temperatura média da superfície do mar em toda a Europa foi a mais alta já registada, e os Alpes viram perda excepcional de gelo", reporta o estudo.

“Em 2023, a Europa testemunhou o maior incêndio florestal alguma vez registado, um dos anos mais chuvosos, fortes ondas de calor marinhas e inundações devastadoras generalizadas”, sublinhou Carlo Buontempo, diretor do serviço de alterações climáticas Copernicus, citado no jornal britânico The Guardian. Os glaciares dos Alpes perderam dez por cento do volume nos últimos dois anos.“As temperaturas continuam a aumentar, tornando os nossos dados cada vez mais vitais na preparação para os impactos das alterações climáticas”, acrescentou. O relatório não forneceu dados sobre o número de mortes causadas pelo calor em 2023, mas estima que houve mais 70 mil óbitos extra em 2022.

Friederike Otto, cientista climática do Imperial College London, não esteve envolvida no relatório mas admite que o “número de mortes relacionadas com o calor em 2023 provavelmente terá sido maior”.“Para muitas destas mortes, o calor adicional causado pelas emissões de combustíveis fósseis teria sido a diferença entre a vida e a morte”, adverte Otto. Ana Raquel Nunes, professora assistente de saúde e ambiente na Universidade de Warwick, externa ao estudo acentua que é “imperativo tomar medidas urgentes para proteger a saúde e incluí-la na política climática”.“Qualquer coisa menos do que isso significaria negar às gerações futuras a proteção e a previsão que merecem”, remata.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Extração de hidrocarbonetos soma e segue


A produção média de petróleo nos EUA será de 13,2 milhões de barris por dia este ano, aumentando para 13,4 milhões de b/d em 2025, de acordo com uma previsão energética divulgada pela Administração de Informação de Energia. Os números superam os 12,9 milhões de b/d estimados em 2023 – em si um recorde, superando os níveis alcançados antes da pandemia de Covid-19. Também a Rússia parece estar a caminho de um segundo ano de perfuração recorde de petróleo e até mesmo a Galp está a perfurar petróleo no mar da Namíbia. Fontes: Financial Times, Bloomberg e OEDigital.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Nanoplásticos podem afetar células cerebrais e do cólon humano


Cada vez mais presentes no nosso quotidiano, os nanoplásticos podem desencadear respostas inflamatórias no corpo humano, representando um potencial risco para a saúde. As conclusões são de uma investigadora do MARE, que observou respostas inflamatórias em diferentes tipos de células após a exposição a nanoplásticos, revela o centro de investigação científica em comunicado.

Segundo a mesma fonte, conhecidas como nanoplásticos, estas minúsculas partículas de plástico, que são mais pequenas que os microplásticos, podendo ter dimensões 70 vezes inferiores ao diâmetro de um cabelo, estão entre os principais poluentes do ambiente, especialmente no meio aquático. “É graças ao continuado aumento da produção de plástico, ao seu descarte inadequado, à fragmentação de plásticos de maiores dimensões em partículas mais pequenas, e aos contaminantes associados que surge a preocupação relativamente aos malefícios que podem trazer à saúde humana. Isto porque os nanoplásticos têm tamanho suficiente para atravessar as membranas celulares do nosso corpo, tornando-se mais fácil a sua ingestão e absorção”, sublinha a nota.

Joana Antunes, aluna de doutoramento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCT) e investigadora do MARE, no âmbito do projeto Nanoplastox coordenado pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa (FFUL), demonstrou que estas partículas podem afetar células intestinais e cerebrais.

Joana Antunes expôs vários tipos de células a nanoplásticos, nomeadamente células do cólon humano e células de microglia de ratinho, que são células do sistema nervoso central com função imunológica, de forma a entender as suas respostas inflamatórias, uma função vital para a defesa do organismo.

A equipa responsável pelo estudo mostrou que os nanoplásticos “têm a capacidade de interferir com recetores existentes nas membranas das células intestinais e, consequentemente, ativar processos inflamatórios que podem, eventualmente, alterar a permeabilidade da barreira intestinal”.

A inflamação é uma resposta essencial do sistema imunológico a infeções, lesões ou a agentes estranhos. As consequências das respostas observadas neste estudo ainda não são claras, mas a inflamação descontrolada ou crónica está associada a patologias mais graves como alergias, doenças autoimunes e aumento do risco de desenvolvimento de doenças cancerígenas.

O estudo sugere que a exposição a nanoplásticos pode ativar respostas inflamatórias que variam dependendo do tipo de célula. As células intestinais aumentaram significativamente a produção de fatores pró-inflamatórios, após 24 horas em contato com nanoplásticos de dimensões entre 25 a 100 nanómetros, enquanto que nas células cerebrais a resposta foi menos acentuada.

O que se segue?
Depois de se verificar que a presença dos nanoplásticos em células intestinais humanas e cerebrais pode causar inflamação, está a ser iniciada uma nova fase de investigação onde serão analisadas misturas destes nanoplásticos com outros contaminantes que já existem no ambiente, como por exemplo o benzopireno, um hidrocarboneto (do petróleo) presente no fumo do tabaco.

Será esta mistura mais prejudicial para a saúde humana? A equipa de investigadores do MARE e da FFUL pretende responder a esta questão através da exposição de modelos celulares e peixe-zebra a estas misturas.

Publicado na revista científica “Environmental Toxicology and Pharmacology”, pode consultar o estudo aqui.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

COP será presidida novamente por homem com carreira no petróleo

Mukhtar Babayev
Um homem com carreira no setor do petróleo vai voltar a presidir à conferência do clima da ONU, já que o Azerbaijão nomeou o seu ministro da Ecologia e dos Recursos Naturais como presidente da COP29 de novembro.

“Sua Excelência Mukhtar Babayev foi nomeado presidente designado da 29.ª sessão da conferência das partes” da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, segundo informação do ministério enviada hoje à agência France Presse sobre a nomeação do ex-funcionário da petrolífera Socar.

Os Emirados Árabes Unidos tinham escolhido para presidente o sultão Al Jaber, dirigente da empresa nacional Adnoc, para presidir a conferência da ONU do clima, que terminou em dezembro em Dubai com um apelo histórico inédito para uma “transição” afastada dos combustíveis fósseis.

A presidência da COP28 já felicitou Babayev, que representou o Azerbaijão nas negociações do Dubai, através de uma mensagem na rede social X: “Vamos trabalhar com as presidências da COP29 e COP30 (no Brasil), bem como com a ONU para o Clima, para concretizar o sucesso histórico e transformador da COP28 e manter a meta de 1,5°C ”.

O novo presidente da COP tem no seu currículo, entre 1994 a 2003, funções no departamento de relações económicas externas da Socar, a empresa nacional de petróleo e gás, antes de passar para a área de marketing e operações económicas.

Entre 2007 e 2010, foi vice-presidente responsável pela ecologia da empresa de petróleo e gás e é ministro da Ecologia e Recursos Naturais desde 2019.

Historicamente, os presidentes da COP foram ministros ou diplomatas, com exceção do ano passado com Sultan Al Jaber, que é presidente da Adnoc, um dos maiores produtores de gás e petróleo do Golfo, e representou o seu país em várias COP’s e afirmou-se como líder da empresa de energia renovável Masdar.

O governo azeri nomeou o vice-ministro dos Negócios Exteriores, Yalchin Rafiyev, como negociador-chefe da COP29.

O anfitrião anual da COP é escolhido por consenso pelos países da região designada. Em 2023, os países asiáticos designaram os Emirados Árabes Unidos, e este ano, após meses de bloqueios, foi definido o Azerbaijão pelos países da Europa de Leste, que incluem a Rússia.

Este ano será Baku a receber a COP e poderá fazer recordar a edição anterior, já que foi uma das capitais mundiais do petróleo no início do século XX, como apontou à AFP Francis Perrin, especialista em energia do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, “com os interesses russos, da Shell e dos irmãos Nobel da época”.

O país desenvolveu grandes depósitos de petróleo e gás no Mar Cáspio desde a década de 1990, acrescentou.

Atualmente, o gás tornou-se mais importante do que o petróleo para este membro da OPEP+, exportado principalmente para a Europa.

“O país continua hoje muito dependente dos hidrocarbonetos, que representam pouco menos de 50% do seu PIB, pouco mais de 50% das suas receitas orçamentais e pouco mais de 90% das suas receitas de exportação”, analisou Perrin.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

COP28: Clama-se o fim da era fóssil, mas também se deixam alertas



Nas primeiras horas desta quarta-feira, depois de uma longa noite de intensas negociações, a presidência da 28.ª cimeira global do clima (COP28) anunciou que, por fim, se havia chegado a um acordo.

No documento que avalia os progressos feitos até ao momento para combater as alterações climáticas e o que precisa ainda de ser feito, conhecido como Global Stocktake (GST), o texto volta a fazer referências a um eventual fim da produção e consumo de combustíveis fósseis como a melhor forma de manter o aquecimento do planeta abaixo dos 1,5 graus Celsius face a níveis pré-industriais.

Recorde-se que na segunda-feira, a presidência da COP28 tinha divulgado uma proposta de texto que não fazia qualquer menção ao fim do fóssil e apenas apresentava uma série de ações que os Estados podiam, à escolha, tomar para reduzir as suas emissões. Essa versão gerou uma torrente de críticas, que acusavam os Emirados Árabes Unidos, responsáveis pela redação do texto, de ceder aos interesses dos países e empresas da indústria fóssil e de ignorar os inúmeros apelos a uma linguagem forte e clara que declarasse, pela primeira vez, o fim, ainda que progressivo, da produção e uso de todos os combustíveis fósseis.

Aquela que é a versão final do documento reconhece também que, para limitar o aquecimento global a 1,5 graus, “são precisas reduções rápidas e sustentadas das emissões globais de gases com efeito de estufa em 43% até 2030 e 60% até 2035 relativamente ao nível de 2019”, com o objetivo de se alcançar a neutralidade carbónica em 2050.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, em comunicado, que o acordo “manter-nos-á em linha com os objetivos do Acordo de Paris” e permitirá acelerar “a transição para uma economia mais limpa e saudável”.

Wopke Hoekstra, comissário europeu para as alterações climáticas, saudou também o consenso alcançado, afirmando que este é “o início do fim dos combustíveis fósseis”.

Por sua vez, António Guterres, Secretário-geral das Nações Unidas, que lançou apelos sucessivos ao fim progressivo dos combustíveis fósseis, escreveu na rede social Twitter que a declaração aprovada é “um momento decisivo na luta contra as alterações climáticas” e que “pela primeira vez, existe o reconhecimento da necessidade de se fazer uma transição para além dos combustíveis fósseis”.

Contudo, deve atentar-se na expressão “transição para além dos combustíveis fósseis”, ou ‘transitioning away from fossil fuels’ na redação original em inglês, e como surge no texto.

Isto, porque versões anteriores equacionavam uma linguagem muito mais clara e definitiva, como “abandono progressivo”, ou ‘phaseout’.

Reações menos efusivas vieram de vários lados, incluindo do próprio responsável das Nações Unidas para as alterações climáticas, Simon Stiell.

Salientando os “avanços genuínos” alcançados pela cimeira no que toca a triplicar as energias renováveis, a duplicar a eficiência energética e a operacionalizado o Fundo de Perdas e Danos, Stiell diz, no entanto, que “não virámos a página da era dos combustíveis fósseis”, ainda que afirme que “este resultado é o princípio do fim”.

As reações de desilusão vieram também de Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos da América, que escreveu no Twitter que a decisão a que se chegou é “um marco importante”, “mas é também o mínimo indispensável”.

“A influência do Estados petrolíferos continua a ser evidente em metade das medidas e nas lacunas incluídas no acordo final”, afirmou, acrescentando que “se este é um ponto de viragem que verdadeiramente marca o início do fim da era dos combustíveis fósseis depende das ações que venham a ser tomadas e da mobilização financeira necessária para alcançá-las”.

Mary Robinson, presidente da organização Elders, considera que “o acordo da COP28, embora assinale a necessidade de se acabar com a era dos combustíveis fósseis, peca por não se comprometer com um total abandono progressivo”.

Porém, reconhece que esta versão é melhor do que a anterior e saúda os países por terem sido capazes de encontrarem “terreno comum suficiente no Dubai para manter a ação climática em movimento”.

Recorde-se que Mary Robinson esteve envolvida numa troca de palavras duras com o presidente da COP, Al Jaber, quando esse último afirmou que não havia evidências científicas que sustentassem as declarações de que acabar com os combustíveis fósseis permitiria travar as alterações climáticas. Al Jaber veio depois dizer que o que disse foi mal interpretado.

A organização internacional Oxfam é mais dura nas críticas que faz ao desfecho da COP28. Numa declaração divulgada nas redes sociais, Nafkote Dabi, responsável de alterações climáticas, afirma que “a COP28 foi sem dúvida uma desilusão, porque não pôs dinheiro em cima da mesa para ajudar os países em desenvolvimento na transição para as energias renováveis”.

“E uma vez mais os países ricos renegaram as suas obrigações para ajudar as pessoas que estão a ser atingidas pelos piores impactos da degradação climática”, acusou.

Do lado da Greenpeace, Kaisa Kosonen, que liderou a delegação da organização ambientalista na COP28, declara que “esta não é ainda a decisão de que o mundo precisa ou merece, mas há algumas melhorias com o apelo à transição para além dos combustíveis fósseis”.

A responsável destaca que “o sinal que a indústria fóssil temia está aqui: acabar com a era dos combustíveis fósseis, bem como um apelo para escalar massivamente as renováveis e a eficiência nesta década”. Mas alerta que essas medidas estão “enterradas sob muitas distrações perigosas e sem meios suficientes para alcançá-las de forma justa e rápida”.

Do lado de Portugal, também se ouviram já reações. Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, reconhece como positivo o acordo firmado, mas diz que a cimeira terminou com “sabor agridoce”. Num vídeo publicado na rede social Twitter, diz que “a mensagem principal é muito clara: estamos no fim da era dos combustíveis fósseis”.

Ainda assim, alerta que o texto contém “falsas soluções que nos vão distrair deste objetivo do investimento no triplicar das energias renováveis entre 2022 e 2020 e no duplicar da eficiência energética”.

Salienta ainda “necessidades prementes” no que toca ao financiamento climático e à adaptação, outros grandes temas desta cimeira, avisando que “conseguir uma transição justa é um elemento que ficou aquém do desejável”.

Por parte do Governo português, o ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, afirmou à agência Lusa que o acordo a que se chegou “fecha com chave de ouro a participação de Portugal na COP” e “dá-nos também uma perspetiva de esperança, que é muito necessária na política climática”.

O governante considera que “do ponto de vista daquilo que é o texto e a sua ambição”, está “muito mais em linha” com o que diz a ciência, com uma linguagem “do fim dos fósseis”.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Cartoon - As alterações climáticas são causadas por duas coisas: atividade humana...e inação humana


Não votem na Iniciativa Liberal, nem no Partido Chega. São cépticos climáticos e vendidos ao lóbi das petrolíferas.
Dr Friederike Otto, of Imperial College London said: “The science of climate change has been clear for decades: we need to stop burning fossil fuels. A failure to phase out fossil fuels at Cop28 will put several millions more vulnerable people in the firing line of climate change. This would be a terrible legacy for Cop28.”

The Global Carbon Project, an international collaboration of scientists, estimates that worldwide carbon dioxide emissions from burning fossil fuels will rise 1.1% this year over 2022, to 36.8 billion metric tons. That’s a new peak and 1.4% higher than the level in 2019, prior to the Covid-19 pandemic. [Bloomberg

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Presidente COP28 defende fim de combustíveis fósseis após palavras polémicas

O porta-voz da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas afirmou que o sultão Al-Jaber dos Emirados Árabes Unidos tem sido “inabalável ao afirmar que atingir 1,5 ºC implica atuar numa série de áreas e setores”. O sultão considerou antes que uma transição muito rápida levaria o mundo à "idade das cavernas"


O presidente da cimeira climática COP28 disse este domingo, 3 de dezembro, ter bem presente que os combustíveis fósseis devem ser progressivamente diminuídos e abandonados, após declarações polémicas a questionar a ciência e a meta de redução de 1,5ºC no aquecimento global.

Questionado pela agência EFE, o porta-voz da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP28) afirmou que o sultão Al-Jaber dos Emirados Árabes Unidos, país que acolhe a cimeira do clima desde quinta-feira, tem sido "inabalável ao afirmar que atingir 1,5 ºC implica atuar numa série de áreas e setores" e que "o presidente da COP deixa claro que a redução progressiva e o abandono dos combustíveis fósseis é inevitável e que devem ser mantidos os 1,5ºC ao alcance".

"Não temos certeza do que este artigo supostamente revela. Não há nada nele que seja novo ou notícia de última hora", afirmou o porta-voz a propósito das declarações de Al-Jaber hoje reveladas pelas imprensa britânica, comentando que "esta história nada mais é do que mais uma tentativa de minar a agenda da presidência, que tem sido clara e transparente e apoiada por conquistas tangíveis do presidente da COP e da sua equipa".

As declarações, dadas a conhecer este domingo pelo jornal britânico The Guardian e pelo Centre for Climate Reporting, remontam a 21 de novembro num evento online organizado pela iniciativa "She Changes Climate", num debate tenso com a ex-Presidente irlandesa e antiga Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Mary Robinson.

O sultão considerou então a saída dos combustíveis fósseis inevitável, mas advertiu que uma transição muito rápida para limitar o aquecimento global a 1,5ºC levaria o mundo à "idade das cavernas" e pediu pragmatismo sobre esta matéria.

Na discussão, Mary Robinson, presidente do grupo independente Os Sábios (altos dirigentes, ativistas da paz e defensores dos direitos humanos), tinha desafiado Al-Jaber no sentido de, na qualidade de presidente da COP e líder da petrolífera estatal Adnoc, a assumir a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis "com mais credibilidade".

Em resposta, Al-Jaber afirmou: "Aceitei vir a este encontro para ter uma conversa sóbria e madura. Não estou de forma alguma a aderir a nenhuma discussão alarmista. Não há nenhuma ciência, ou nenhum cenário, que diga que a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis é o que vai atingir [a meta assumida no Acordo de Paris de] 1,5°C".

Segundo o The Guardian, a antiga política irlandesa continuou a desafiar o presidente da COP, afirmando ter lido que a estatal Adnoc estava a investir muito mais em combustíveis fósseis no futuro, ao que Al-Jaber ripostou: "Por favor, ajude-me, mostre-me o roteiro para uma eliminação progressiva dos combustíveis fósseis que permitirá o desenvolvimento socioeconómico sustentável, a menos que você queira levar o mundo de volta às cavernas".

Na mesma ocasião, o sultão duvidou que se consiga ajudar a resolver o problema climático com acusações ou contribuindo para a polarização e uma divisão que disse já estar a acontecer no mundo: "Mostre-me as soluções. Pare de apontar o dedo. Pare com isso".

A nomeação de Al-Jaber como presidente da COP28 foi duramente criticada e centenas de organizações da sociedade civil pediram a sua demissão por ser o diretor-executivo da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (Adnoc).

No seu relatório de setembro, a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a produção de combustíveis fósseis deve cair 83% entre 2022 e 2050 para se alcançar a neutralidade carbónica.

O foco das críticas às declarações do sultão prende-se com a diferença entre redução e eliminação dos combustíveis fósseis para se alcançar o objetivo da diminuição do aquecimento global.

A este propósito, nos primeiros trabalhos da abertura da COP28, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que "a ciência é clara e o limite de 1,5ºC só é possível se pararmos de queimar todos os combustíveis fósseis", salientando que não se trata de reduzir ou diminuir, mas da "eliminação gradual, com um prazo claro".

Citado pelo The Guardian, Bill Hare, diretor-executivo da organização não-governamental (ONG) Climate Analytics, comentou que o debate entre Al-Jaber e Mary Robinson é "extraordinário, revelador, preocupante e conflituoso", assinalando que mandar o mundo de volta à idade das cavernas é uma imagem recorrente da indústria fóssil e que está "à beira da negação das alterações climáticas".

A cimeira do clima que começou na quinta-feira no Dubai vai debater estratégias de adaptação e mitigação, apoios financeiros, e fazer um balanço de oito anos de ação climática, que a ONU diz ir em sentido contrário.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Meet Oblivia Coalmine, the latex clad oil exec paid for by our pensions

Conheça Olivia Colman, a executiva do petróleo vestida de látex paga pelas nossas pensões. Este novo filme dos Make My Money Matter, protagonizado pela vencedora de um Óscar, Olivia Colman, revela que 88 mil milhões de libras do dinheiro dos aforradores de pensões do Reino Unido estão investidos em combustíveis fósseis.

Sign our petition to stop UK pension schemes financing fossil fuel expansion


Make My Money Matter - works to transform the financial system, so it puts people and planet on a par with profit. There are trillions of pounds in UK pensions and banks – we believe that money should be moved from the destructive, harmful investments of the past, into those which help build a future we can be proud of.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Ambientalistas processam Estado português por incumprir Lei de Bases do Clima

Pela primeira vez, a justiça portuguesa vai ser chamada a pronunciar-se sobre a omissão do Estado no combate à crise climática.


A associação ambientalista Último Recurso, com o apoio das organizações Quercus e Sciaena, vai avançar com um processo contra o Estado português por falhar na aplicação da Lei de Bases do Clima, aprovada no Parlamento no final de 2021, considerando tratar-se de uma "omissão de ação gravíssima" por parte do Governo.

Esta será uma "ação histórica" por ser a primeira a tentar obter a redução de emissões de gases de estufa através de decisões judiciais em Portugal, disse à Lusa a presidente da Último Recurso, Mariana Gomes.

"Esta ação faz história em Portugal porque é a primeira que menciona directamente os efeitos das alterações climáticas e a sua relação com o Direito, e é a primeira que, na petição inicial, relaciona a violação do Direito com os efeitos das alterações climáticas. Se a lei não for cumprida, os nossos direitos serão violados, porque existem alterações climáticas que fazem com que exista a necessidade da lei ser cumprida", afirmou a ativista.

Mas o recurso à justiça para fazer os políticos passarem das promessas às ações não é inédito. Mariana Gomes recorda que "na Alemanha houve um processo judicial parecidíssimo com este que estamos a iniciar. Eles têm uma meta de redução por volta dos 50% e o Tribunal Constitucional alemão disse que o Estado deveria reduzir 70% até 2030. Há a questão de obter esta sentença judicial que aumente o compromisso e a ambição de Portugal e, consequentemente, as políticas públicas inerentes", referiu.

Se a Lei de Bases fosse de facto aplicada, isso "significaria idealmente que Portugal em 2030 iria conseguir atingir as reduções de CO2 necessários para manter a Terra abaixo dos 1,5 ou 2 graus. O problema é que 99% dos prazos definidos pelo parlamento na lei aprovada não foram cumpridos e quase nada foi feito", prossegue a ativista, considerando que "isto significa uma violação gravíssima dos nossos direitos constitucionais, nomeadamente o direito à vida, a um futuro digno e das futuras gerações, e é colocada em causa a confiança no Estado de Direito, que deveria cumprir as metas europeias e o Acordo de Paris", salientou.

A ação judicial contará com o advogado Ricardo Sá Fernandes como representante da causa em tribunal e a associação enumera os seus quatro objetivos que quer ver atingidos em tribunal: o reconhecimento de que o Estado está em falta com a adoção de medidas suficientes para reduzir a emissão de gases, que está em incumprimento na adoção das medidas previstas na lei, que o Estado seja condenado a adotar essas medidas e que o juiz dê um prazo de três meses para o fazer.

No final do mês passado, treze associações escreveram a Marcelo Rebelo de Sousa a pedir que o Presidente faça cumprir a Lei de Bases do Clima, aprovada pelos deputados no final de 2021 e que prevê medidas que deveriam ter sido concluídas até fevereiro deste ano, como a criação de orçamentos de carbono - "os quais deverão orientar a política e a economia nacionais" -, a criação do Portal da Ação Climática, um relatório de avaliação do impacto climático da legislação vigente, uma análise sobre o património público e sobre o risco climático dos ativos financeiros ou a revisão do regime jurídico dos hidrocarbonetos, entre outras questões.

Já este mês, a associação Zero criticou a proposta de Orçamento do Estado para 2024 por "demonstrar uma fraca adequação à lei de bases do clima, representando uma dotação orçamental inferior a 3% da despesa total, não apresentando, face ao ano anterior, uma melhoria adequada”. E com a falta de implementação das medidas previstas na Lei de Bases, “torna-se mais difícil alcançar as metas, ficando Portugal climaticamente como um barco sem rumo”, alertava.

sábado, 11 de novembro de 2023

Produção de combustíveis fósseis será em 2030 mais do dobro do compatível com as metas ambientais


Foi esta quarta-feira lançado o Production Gap Report 2023, um estudo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente que se debruça sobre as discrepâncias entre as promessas de corte das emissões de gases com efeito de estufa e a realidade. Nele se evidencia que os governos a nível mundial planeiam “produzir mais 110% de combustíveis fósseis do que o considerado compatível com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC; e mais 69% do relativo à meta de 2ºC” de aumento relativamente à época pré-industrial.

O relatório foi produzido pelo Stockholm Environment Institute, em colaboração com a Climate Analytics, a E3G, o International Institute for Sustainable Development (IISD) e o próprio PNUMA e envolveu mais 80 cientistas de cerca de trinta nacionalidades.

O documento mostra também que apenas 20 países são responsáveis por 80% das emissões globais e três quartos do consumo global de combustíveis fósseis. São eles: Austrália, Brasil, Canadá, China, Colômbia, Alemanha, Índia, Indonésia, Cazaquistão, Kuwait, México, Nigéria, Noruega, Qatar, Federação Russa, Arábia Saudita, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos da América.

António Guterres, secretário-geral da ONU, vincou que “não podemos lidar com a catástrofe climática sem resolver a sua causa: a dependência dos combustíveis fósseis.” E instou a COP28 a “enviar um sinal claro de que o combustível fóssil está a perder gás – que o seu fim é inevitável”. Assim, “precisamos de compromissos credíveis para incrementar as energias renováveis, eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e aumentar a eficiência energética, assegurando ao mesmo tempo uma transição justa e equitativa”.

Ploy Achakulwisut, investigadora do SEI Asia, explicou durante a apresentação o relatório que “só os dez países ricos são responsáveis por se ultrapassar a meta de 1,5ºC” de aumento da temperatura relativamente à era pré-industrial, denunciando que “muitos governos estão a promover o gás fóssil como um combustível essencial para a ‘transição’, mas sem quaisquer planos aparentes para o abandonar mais tarde”.

Em comunicado, Inger Andersen, diretora executiva do PNUmA, pronuncia-se sobre este quadro sublinhando que “as nações têm que acordar na COP28 a eliminação progressiva do carvão, do petróleo e do gás para acalmar a turbulência” que temos “pela frente e beneficiar todas as pessoas do planeta”. Também ela critica os planos para aumentar a produção de combustíveis fósseis que “mina a transição energética necessária para se alcançar o objetivo de ‘emissões líquidas-zero’” e “põe em causa o futuro da humanidade”.

Neil Grant, da Climate Analytics, reforça a mensagem dizendo que “em meados do século, o carvão apenas devia constar dos livros de história e a produção de gás e petróleo estar reduzida em três quartos a caminho da sua eliminação total”. O cientista fustiga igualmente os governos que “planeiem investir ainda mais dinheiro numa indústria suja e moribunda, enquanto as oportunidades abundam num sector de energia limpa florescente”.

O texto defende que “os países devem ter como objetivo uma eliminação quase total da produção e utilização de carvão até 2040, uma redução do consumo de energia elétrica até 2030 e uma redução combinada da produção e utilização de petróleo e gás em três quartos até 2050, em relação aos níveis de 2020”.

Saber mais:

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Finalmente Portugal abandona o Tratado da Carta da Energia (TCE)



No dia 28 de Setembro, o Jornal Público publicou na sua secção Azul uma notícia intitulada: “Portugal já rompeu com o Tratado da Carta da Energia”.

A TROCA tem-se batido ao longo dos últimos anos para que este acontecimento se tornasse realidade, e é com incontida alegria que partilha algumas citações desta notícia:

«Ambientalistas saúdam abandono de “um acordo danoso” para o clima, que “protege” empresas de combustíveis fósseis. É oficial: em linha com Bruxelas, Portugal rompeu com o Tratado da Carta da Energia.

Portugal já abandonou o Tratado da Carta da Energia, alinhando-se assim com a posição da Comissão Europeia sobre esta convenção multilateral. A conclusão do processo de denúncia foi anunciada quarta-feira na página da Assembleia da República.

O acordo internacional permite que companhias que operam na área da energia – incluindo aquelas ligadas aos combustíveis fósseis – processem países cuja moldura legal interfere com os seus interesses.

Juntamente com a Troca (a Plataforma por um Comércio Internacional Justo), há muito que a Zero exigia que Portugal rompesse com convenção, a exemplo do que a pioneira Itália fez em 2016.

Uma investigação realizada pela Investigate Europe em 2021 revelou vários aspectos problemáticos da convenção então subscrita por 55 países. Entre as fragilidades do acordo está o facto de ser unilateral e estar redigido de forma pouco clara. Um exemplo: segundo o documento, as empresas podem processar os Estados sempre que estas sentirem que estão a ser tratadas “injustamente”.

[O trabalho jornalístico] “O tratado, assinado em Lisboa, que incentiva o aquecimento global” mostra como investidores usaram o acordo para intimidar Estados-membros da União Europeia, exigindo indemnizações da ordem dos milhares de milhões. E revela ainda como a convenção multilateral protege, só na Europa, infra-estruturas energéticas no valor de 344,6 mil milhões de euros.»