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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Drab Majesty - Noise of the Void


Ver vídeo aqui

[Verse 1]
Surrounded by reactive eyes
Mass reaction sadness
Satan hides no more
Love is on a leash today
Branded by the things you
Say-tan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
It's the emptiness, the emptiness

[Verse 2]
Love is a panopticon
Opted out of options
Satan hides no more
Satan hides no more
Death to your autonomy
Searching for that person
Satan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Bridge]
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender the horrendous sound of the hour is everywhere now?

[Refrain]
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)

[Chorus]
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Outro]
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

Narciso no Panóptico: A Desconexão Humana em "Noise of the Void"
Os Drab Majesty são uma banda originária dos Estados Unidos, mais concretamente de Los Angeles, Califórnia. O projeto define o seu som através do termo criativo "Tragic Wave", uma fusão estética que combina elementos de Darkwave, Coldwave, Post-Punk, Dream Pop e Goth Rock de inspiração oitentista.

Integrada no álbum Modern Mirror, a faixa aborda o estado de despersonalização e alienação provocado pelo ecossistema digital contemporâneo. O "ruído do vazio" refere-se à sobrecarga constante de informação, distrações e estímulos virtuais que mascaram a ausência de sentido e desvanecem a identidade individual. A letra sugere que a recuperação da consciência e do eu autêntico exige o silêncio e o afastamento desse ruído contínuo.

O videoclipe foi realizado pelo cineasta australiano Jai Love e filmado em película de 16mm em Sydney. As escolhas visuais contam com uma estética retro e hipnótica que reflete o isolamento urbano e a desconexão existencial descritos na faixa, recorrendo a cenários surreais e composições ritualísticas para ilustrar a busca por transcendência num mundo frio e automatizado.

Neste cenário visual, a presença das duas figuras femininas nuas funciona como um poderoso dispositivo simbólico que aprofunda a temática da obra. A nudez representa a vulnerabilidade do ser humano desprovido das suas máscaras sociais, artifícios urbanos e distrações digitais, criando um contraste direto entre a fragilidade e a pureza do corpo e a frieza dos cenários onde as cenas decorrem.

A narrativa conceptual do tema assenta principalmente no mito de Narciso e Eco, presente nas Metamorfoses de Ovídio, recontextualizado para a dependência moderna dos ecrãs e da autoimagem. No teledisco, a escolha das duas figuras femininas introduz precisamente este conceito da duplicidade e do espelho, em que ambas atuam como o reflexo uma da outra, simbolizando a procura constante da própria identidade através do "outro" ou da projeção do próprio reflexo. Esta dinâmica traduz o transe existencial e o ritual de regresso ao estado original do ser, numa tentativa de despir a mente do "ruído do vazio" e retornar a uma essência pura.

A nível filosófico, a canção cruza o existencialismo e o niilismo de autores como Friedrich Nietzsche ou Jean-Paul Sartre, ao confrontar a busca de sentido no meio do vazio, com a teoria do panóptico e da vigilância social de Michel Foucault e Jeremy Bentham, onde a constante exposição pública resulta na perda da individualidade. A exposição total dos corpos no vídeo dialoga diretamente com esta ideia de vigilância moderna, onde o indivíduo se encontra permanentemente observado, vulnerável e desnudado perante o olhar alheio na sociedade contemporânea.

domingo, 23 de agosto de 2026

Resíduos de painéis solares podem chegar a 402 milhões de toneladas até 2060


A rápida expansão da energia solar está a criar um novo desafio ambiental: o destino dos painéis fotovoltaicos quando chegam ao fim da sua vida útil. Um estudo internacional publicado na revista Nature estima que o volume global de resíduos de painéis solares poderá atingir entre 297 e 402 milhões de toneladas até 2060.

A investigação, que envolve investigadores da China, Austrália e Suécia, incluindo Jian Zuo, professor da Adelaide University, alerta, contudo, que esta crescente quantidade de resíduos pode transformar-se numa oportunidade económica. Segundo os autores, a reciclagem adequada dos painéis fotovoltaicos poderá gerar benefícios económicos acumulados de centenas de milhares de milhões de dólares até 2060, podendo atingir valores próximos de um bilião de dólares.

“A energia solar é essencial para a transição para um sistema energético de baixo carbono, mas não podemos ignorar o que acontece aos painéis solares no final da sua vida útil”, afirma Jian Zuo. Para o investigador, é necessário começar desde já a planear a reciclagem, de forma a transformar o fluxo crescente de resíduos numa fonte de materiais, em vez de num problema ambiental.

Os painéis solares contêm materiais com valor económico, como silício, prata, cobre e telúrio. Incluem também metais como chumbo e cádmio, que podem representar riscos ambientais caso os equipamentos sejam eliminados de forma inadequada.

Para avaliar as diferentes possibilidades, os investigadores desenvolveram um modelo integrado que analisou 1708 cenários de reciclagem em 32 regiões do mundo, considerando tecnologias disponíveis, preços dos materiais, comércio internacional e políticas de subsídios.

Os resultados indicam que a combinação de tecnologias de reciclagem adaptadas a cada região com o recurso a instalações de reciclagem externas poderá proporcionar os maiores benefícios económicos e ambientais. Esta abordagem permitiria reduzir custos e emissões, sobretudo através do encaminhamento dos resíduos para países com tecnologias de reciclagem mais avançadas e economicamente competitivas.

A solução levanta, contudo, uma questão de equidade. A concentração da reciclagem nas regiões com maior capacidade tecnológica poderá fazer com que os benefícios económicos fiquem igualmente concentrados, deixando países de menores rendimentos com uma parcela reduzida dos ganhos.

“A via de reciclagem mais barata ou eficiente a nível global não é necessariamente a mais justa”, alerta o investigador, defendendo que as políticas de reciclagem devem ter em conta não apenas a eficiência económica, mas também a distribuição dos benefícios e dos impactos ambientais.

O estudo aponta para a possibilidade de recorrer a subsídios decrescentes, que seriam reduzidos progressivamente à medida que a reciclagem se tornasse economicamente viável. Segundo os investigadores, este modelo poderia melhorar a distribuição dos benefícios entre regiões e exigir menos investimento do que a manutenção de subsídios permanentes.

O valor dos materiais recuperados será também determinante. Uma subida dos preços de matérias-primas como a prata, o alumínio e o silício poderá aumentar a rentabilidade da reciclagem, enquanto a evolução tecnológica deverá contribuir para reduzir os custos dos processos.

Para os investigadores, a cooperação internacional será essencial para preparar o setor para o aumento dos resíduos fotovoltaicos. “Precisamos de encarar os painéis solares como parte de uma economia circular, e não como um produto descartável”, defende Jian Zuo.

A conclusão surge num momento em que a indústria fotovoltaica ainda tem oportunidade de criar capacidade de reciclagem antes de o volume de equipamentos em fim de vida atingir o seu pico. Para os autores, antecipar esse investimento será fundamental para evitar que a transição para a energia solar crie um novo problema de resíduos à escala global e para garantir que os materiais dos painéis possam voltar ao ciclo produtivo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Felsmann + Tiley - Open Fields (feat. The Kite String Tangle)


Letra
[Verse]
I feel you close, I could hold you
But the walls are cold, I could fall through
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus]
Mmh oh, oh, oh, oh

[Verse]
I feel you close, I could touch you
But the air is cold all around you
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus] 2X

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be worlds apart, but I’ll see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just light intertwined (mmh oh, oh, oh, oh)

Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be lighting up when I see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just you and I (mmh oh, oh, oh, oh)

[Post-Chorus]

Open Fields de Felsmann + Tiley: estilo, significado e influências filosóficas
A canção "Open Fields", lançada em 2025 pelo duo alemão Felsmann + Tiley em colaboração com o artista australiano The Kite String Tangle (Danny Harley), aborda temas como a distância, a desconexão física e a presença emocional. A letra estabelece um contraste marcante entre o frio da separação física e o calor de uma ligação afetiva persistente, sugerindo que os chamados "campos abertos" representam um espaço metafórico ou pós-físico no qual a intimidade prevalece sobre a distância espacial.

No que respeita ao estilo musical, o tema enquadra-se na música eletrónica neoclássica e no ambient pop de cariz cinematográfico. Fiel à identidade estética de Felsmann + Tiley, a composição prescinde de percussão e bateria tradicionais, construindo a sua tensão dinâmica e carga emocional através da modulação de sintetizadores, de camadas harmónicas e do desempenho vocal intimista.

Do ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a narrativa da canção evoca o conceito de espaço liminar e a noção de "não-lugar", proposta pelo antropólogo Marc Augé, apresentando os campos abertos como zonas de transição onde as barreiras físicas se diluem em prol da memória. Adicionalmente, a obra reflete o dualismo corpo-mente de matriz cartesiana e fenomenológica - ao explorar como a perceção e o afeto transcendem os limites do corpo -, mantendo igualmente pontos de contacto com a tradição romântica, na qual a paisagem natural serve de espelho e extensão dos estados emocionais humanos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Bodies ft. Buzz Kull - Kill Shelter

Melhor som aqui
Letra
We shared the looks
and the womb
you came before me
our love was new
I was stuck
in a rhythm of hate
speaking in tongues
the devil can wait

[refrão]
We masked ourselves and our bodies
you never knew any better
we couldn’t tell anybody
our love was lost and forever

Physical form
now at its peak
a crowd around you
feed from the weak
moment of tense
days by the few
ignore the action
a lie I knew

[refrão]

A dança da alienação: estilo, significado e filosofia em "Bodies" (Kill Shelter ft. Buzz Kull)
A colaboração entre o projeto Kill Shelter e o artista Buzz Kull no tema "Bodies", lançado em 2018 no álbum Damage, junta duas forças proeminentes da música alternativa contemporânea numa obra densa, fria e hipnótica. No plano estilístico, a composição enquadra-se rigorosamente nos domínios do Darkwave, Post-Punk e EBM (Electronic Body Music), fundindo baterias eletrónicas mecânicas e pulsantes com linhas de sintetizador incisivas, guitarras atmosféricas carregadas de reverberação e uma interpretação vocal cavernosa e monótona. Esta sonoridade resulta de uma fusão geográfica e criativa singular entre duas nacionalidades distintas: o produtor e multi-instrumentista Peter White, responsável pelo projeto Kill Shelter a partir de Edimburgo, na Escócia, e o produtor Marc Henry, a mente por trás de Buzz Kull, vindo de Sydney, na Austrália.

O significado da canção e do seu videoclipe gravita em torno da alienação urbana, da objetificação e da anestesia emocional na era moderna. A narrativa conceptual reduz o ser humano à sua dimensão puramente física - meros "corpos" em movimento, desprovidos de ligação interpessoal ou profundidade psicológica. O videoclipe traduz visualmente este estado de desconexão através de uma estética lo-fi e claustrofóbica, dominada por iluminação estroboscópica, fortes contrastes em preto e branco e visões fragmentadas que simulam a sensação de transe e isolamento numa pista de dança escura.

No plano literário e filosófico, a obra inspira-se profundamente no Existencialismo e no Niilismo, abordando a perda de identidade, a inutilidade da procura de sentido e a solidão coletiva. Há também um claro eco do Distopismo Literário de autores como J.G. Ballard ou Philip K. Dick, onde a tecnologia e a modernidade industrial não servem para libertar o indivíduo, mas sim para o desumanizar, transformando a existência numa rotina puramente mecânica e corpórea.

domingo, 2 de agosto de 2026

Cientistas descobrem DNA misterioso: dois antepassados desconhecidos no genoma humano

A calote craniana encontrada no vale de Salkhit, no leste da Mongólia, pertenceu a uma mulher que viveu há cerca de 34.000 anos. Institut für Archäologie, Mongolische Akademie der Wissenschaften

Investigadores da conceituada University of California, em Berkeley, fizeram uma descoberta impressionante: identificaram segmentos de ADN no genoma dos humanos atuais, que provêm de antepassados até agora desconhecidos. Os cientistas falam de “antepassados fantasma”, porque destas populações humanas extintas nada se sabe por enquanto.

Hoje, o Homo sapiens é a única espécie humana ainda existente. No passado distante, porém, partilhava o planeta com numerosas outras linhagens de hominídeos.

Estudos anteriores já tinham mostrado que os humanos modernos se cruzaram com neandertais e com os chamados humanos de Denisova, gerando descendentes comuns. Muitos indivíduos conservam ainda hoje, no seu genoma, vestígios genéticos desses encontros. Agora, um novo estudo sugere que terão existido pelo menos mais dois grupos humanos desconhecidos, que também transmitiram ADN aos nossos antepassados.

Um destes antepassados até agora desconhecidos cruzou-se há mais de 50.000 anos, em África, com os antepassados dos humanos modernos, antes da última grande vaga migratória de Homo sapiens para a Europa e a Ásia. Os genes herdados nessa altura representam hoje cerca de 1% do genoma de todas as pessoas – aproximadamente a mesma proporção da componente neandertal do ADN.

Segundo os cálculos dos investigadores, esta enigmática linhagem humana terá divergido da linha evolutiva que conduziu ao humano moderno há cerca de 800.000 anos – aproximadamente na mesma altura em que também neandertais e humanos de Denisova se separaram entre si.

“Estudos anteriores já tinham sugerido a existência de uma chamada descendência fantasma – ou seja, vestígios genéticos de linhagens humanas desconhecidas e extintas no genoma dos humanos modernos”, explica a doutoranda de Berkeley Yulin Zhang, uma das primeiras autoras do estudo. “Até agora, porém, não se sabia se essa descendência desconhecida ocorria apenas em africanos, nem quando terá acontecido essa mistura. Conseguimos agora identificar e cartografar os segmentos de ADN correspondentes no genoma de humanos modernos e demonstrar que esta descendência fantasma está presente em todas as populações atuais – não apenas em africanos.”

Linha temporal: 1,8 milhões de anos
Ainda mais enigmático é o segundo antepassado, que os investigadores descrevem como “super-arcaico”. A sua linhagem humana ter-se-á separado das restantes há cerca de 1,8 milhões de anos. Há mais de 200.000 anos, terá provavelmente cruzado, na Eurásia, com os humanos de Denisova – e foi por essa via indireta que fragmentos desse ADN ancestral acabaram por entrar no genoma do humano moderno.

“O registo deste antepassado super-arcaico é particularmente intrigante, porque revela contribuições genéticas de uma linhagem humana que viveu há mais de um milhão de anos – apesar de, até agora, não existir qualquer ADN desta população decifrado”, afirmou Arjun Biddanda, pós-doutorando na Johns Hopkins University e um dos primeiros autores do estudo.

“Graças ao ADN antigo de neandertais e de humanos de Denisova, bem como a novos métodos genealógicos, estamos a perceber cada vez melhor que, ao longo da evolução, as populações humanas se misturaram repetidamente”, afirmou Priya Moorjani, professora de Biologia Molecular e Celular na University of California, em Berkeley. “A evolução humana assemelha-se, por isso, menos a uma árvore genealógica ramificada e mais a uma rede complexa, em que diferentes populações ficaram ligadas entre si através de sucessivas migrações e misturas.”

Diferença entre ADN neandertal e de Denisova
Atualmente, a maioria das pessoas fora de África possui cerca de 1% a 2% de ADN neandertal no seu genoma. Em média, entre 1% e 2% do genoma de europeus e asiáticos atuais provém de neandertais. Esse é o resultado de cruzamentos entre neandertais e primeiros humanos modernos há cerca de 50.000 a 60.000 anos, pouco depois de Homo sapiens ter saído de África.

Os segmentos de ADN herdados continuam a influenciar os humanos atuais. Algumas variantes estão associadas à resposta imunitária, às características da pele e do cabelo ou à adaptação a condições ambientais. Outras aumentam o risco de determinadas doenças ou influenciam a reação a infeções.

Grupos populacionais na Ásia e na Oceânia têm, além do ADN neandertal, componentes genéticas dos humanos de Denisova. Restos de humanos de Denisova com ADN sequenciado foram sobretudo identificados na região da Eurásia:

Há cerca de seis anos, o estudo do genoma do mais antigo fóssil humano até agora descoberto na Mongólia permitiu novos avanços no conhecimento da história antiga da nossa espécie. Investigadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, e da Academia de Ciências da Mongólia mostraram que, nos restos com cerca de 34.000 anos de uma mulher, cerca de 25% do ADN tinha origem em antepassados da Eurásia ocidental. Além disso, a equipa encontrou no genoma dessa mulher – tal como no de um humano com cerca de 40.000 anos da China – traços de ADN de Denisova, a forma humana extinta que viveu na Ásia antes de ali chegarem os humanos modernos.

É igualmente significativo que neandertais e humanos de Denisova também se tenham cruzado entre si. Sabe-se, a partir de um fóssil da gruta de Denisova, na cordilheira de Altai, no sul da Sibéria, perto das fronteiras com o Cazaquistão, a Mongólia e a China, que se tratava de uma mulher com mãe neandertal e pai de Denisova – uma prova direta de que ambas as formas humanas tiveram descendência comum.

Quem eram exatamente este “antepassado fantasma” e o “antepassado super-arcaico” continua por esclarecer. Os momentos de divergência calculados ajustam-se, contudo, a formas humanas já conhecidas: os antepassados fantasma poderão ter pertencido a grupos de Homo do Médio Pleistocénico que viveram em África há cerca de 800.000 anos. O antepassado super-arcaico poderá ter sido idêntico, ou estreitamente aparentado, a Homo erectus, espécie que colonizou a Eurásia há cerca de 1,8 milhões de anos.

sábado, 1 de agosto de 2026

Vígundr - Draumspaki


A tradução do título Draumspaki vem do nórdico antigo, sendo a junção das palavras draumr (sonho) e spaki (sabedoria ou dom da profecia), resultando em termos como "Sabedoria dos Sonhos", "Adivinhação pelos Sonhos" ou "Aquele que interpreta sonhos". Na tradição nórdica antiga, os sonhos eram encarados como visões proféticas enviadas pelas Fylgjur (espíritos protetores) ou pelos próprios deuses para antecipar o destino imutável (Örlög). Como a música do Vígundr não possui uma letra convencional - utilizando apenas vocalizações atmosféricas, cânticos guturais, sussurros e instrumentos ancestrais -, o vídeo funciona como um poema audiovisual focado no estado de transe e na viagem astral. Ele retrata o limiar entre o sono e a vigília, evocando as antigas práticas de feitiçaria e xamanismo nórdico (Seiðr), onde o isolamento na natureza, o fogo e a fumaça servem de conduíte para desligar a mente do mundo físico e navegar pelo inconsciente.

Musicalmente, a obra transita pelo Pagan e Dark Ambient, com fortes traços de Neofolk e Dungeon Synth, priorizando drones contínuos, tambores xamânicos e texturas soturnas para criar uma atmosfera hipnótica e meditativa, muito alinhada a uma vertente mais abstrata do folk nórdico. Suas influências conceituais bebem diretamente da literatura das Sagas e da Poética Edda - em especial relatos como Baldrs Draumar, onde os sonhos prenunciam o inevitável -, mas também dialogam com a Psicologia Analítica de Carl Jung, tratando o sonho como a linguagem pura dos arquétipos e do inconsciente coletivo. Além disso, há um fundo do Romantismo Sombrio e do Existencialismo, expressos pelo fascínio pela solidão, pelo sublime da natureza selvagem e pelo confronto do indivíduo com o mistério e com a sua própria sombra.
Mary Anlezark vive e produz o seu trabalho a partir da Austrália.

Vale a pena rever e ouvir:
Viktor Orri Árnason - Hino da Terra

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Zoè Zanias - Dawn

Melhor som aqui 
Letra
[refrão]
Strange how they say
It’s always been this way
When the only constant thing is change
Strange how they say
It’s up to us to clean the mess they made
I’d like to make the mess their grave

Too easy to forget there’s more of us than them
Thread the power through the pain (the pain)
Anger turns to iron on the flame
And we can dare, we can dare to dream

[refrão]
How many worlds are left, do we have any left to play?
You shield your eyes til there’s nothing (nothing, nothing) left to save
Thread the power through the pain
(Anger turns to iron) anger turns to iron on the flame
Anger turns to iron on the flame

[refrão]
Thread the power through the pain
Anger turns to iron on the flame
We can dare to dream

O tema inovador de Zanias : Darkwave "Científico e Biológico".
Em vez de cantar sobre amor, morte abstrata ou escuridão, as letras focam em neurobiologia, física quântica, evolução, apego psicológico e células.
Zanias é o projeto a solo de Alison Lewis, uma artista de nacionalidade australiana (nascida em Melbourne e criada no Sudeste Asiático) radicada há vários anos no centro da cena eletrónica underground de Berlim. Musicalmente, a canção "Dawn" enquadra-se no darkwave contemporâneo, cruzando a pulsação ritmada e visceral da EBM (Electronic Body Music) com sintetizadores etéreos, texturas industriais e uma estrutura melódica próxima do synth-pop cinematográfico.  Inserida no álbum Cataclysm, a canção "Dawn" surge como o ponto de viragem emocional e espiritual de todo o disco. Após faixas que retratam a dor e o luto, "Dawn" (que significa "alvorada" ou "despertar") assume o significado de uma declaração de resiliência e propósito. O tema apela à conversão do trauma em força transformadora, assentando no mantra "thread the power through the pain" ("tece o poder através da dor") e lembrando a necessidade de ação política e solidariedade coletiva contra a resignação perante as crises do mundo contemporâneo.  
O videoclipe de "Dawn" foi concetualizado e dirigido pela própria Zanias (Alison Lewis) em colaboração com a sua equipa criativa. Esteticamente carregado de uma atmosfera desértica e intemporal, o significado do vídeo gira em torno do arquétipo da travessia no deserto. A aridez da paisagem simboliza o isolamento, o colapso ambiental e a devastação espiritual; no entanto, a presença da artista como uma figura guerreira e cerimonial transforma essa vastidão estéril num espaço de ritual, purificação e renascimento.  
As influências literárias e filosóficas da obra estão profundamente ligadas à formação académica de Alison Lewis em Antropologia e Arqueologia. Notam-se referências à ecologia política e ao ecofeminismo (próximo do pensamento de autoras como Donna Haraway), ao lado de preocupações existencialistas sobre a vulnerabilidade e a finitude humana. No plano literário e mítico, a obra inspira-se no imaginário da ficção científica e da fantasia epopeica - como a obra Dune de Frank Herbert -, combinada com os arquétipos de transformação e sombra da psicologia analítica de Carl Jung, onde a descida ao abismo é condição necessária para a emergência de uma nova luz.  

terça-feira, 28 de julho de 2026

Nove em cada dez europeus ponderam emigrar: estes são os destinos preferidos

Como já tinha referido aqui, há uma mudança global nos passaportes e destinos.

Quase metade das pessoas que vivem em França, Alemanha, Itália e no Reino Unido espera vir a viver noutro país algures no futuro, revela um novo inquérito.

Realizado para a seguradora digital Feather, o estudo mostra que a crise do custo de vida é o principal motivo que leva as pessoas a ponderar uma vida no estrangeiro, apontado por 53% dos britânicos, 48% dos franceses, 43% dos alemães e 32% dos italianos.

Apenas um em cada dez europeus em cada um dos mercados analisados – com 500 adultos inquiridos em cada país – afirmou que, em caso algum, se mudaria para o estrangeiro.

Embora o destino preferido varie de país para país, Espanha surge como a escolha destacada.

Tanto britânicos como italianos identificam Espanha como a opção de eleição, com 24% e 20% a indicar o país, respetivamente, enquanto este ocupa o segundo lugar em França e Itália, com 16% e 12% a sugeri-lo como principal opção.

No caso de França, o destino número um é o Canadá, mencionado por 17% como um lugar onde gostariam de viver no futuro, à frente de Itália, assinalada por 14% dos inquiridos.

Os alemães não parecem querer afastar-se muito de casa: 17% escolhem a Áustria, seguida de Espanha e Suíça, ambas com 12%.

Já os britânicos mostram-se bastante disponíveis para mudar para destinos longínquos, com 19% a escolher a Austrália, 15% o Canadá e 10% a Nova Zelândia.

Embora o Dubai seja frequentemente referido como um dos principais destinos para expatriados, apenas 3% dos britânicos disseram estar a ponderar essa opção. Ainda assim, o inquérito foi realizado no final de junho, pelo que as respostas terão sido inevitavelmente influenciadas pelos ataques do Irão contra os Emirados Árabes Unidos nos últimos meses.

Ascensão dos ‘semi-pats’
Ao analisar o futuro dos expatriados, a Feather falou também com a especialista em viagens Holly Rubenstein.

A autora do podcast “The Travel Diaries” nota que a versão tradicional da vida de expatriado, em que se escolhe um único país e aí se constrói toda a vida, está a perder terreno.

“A versão que está a emergir é muito mais flexível: passar seis meses num lugar, trabalhar remotamente, experimentar um estilo de vida e criar ligações em vários sítios”, sublinha.

“A geração Alpha vai crescer com a ligação remota como norma. Para estas pessoas, carreira, amizades e identidade já não terão de estar concentradas num único lugar.”

segunda-feira, 13 de julho de 2026

RY X - Salt

Melhor som aqui

Letra
Under the lighting
Heavier breath
High by a mouth made
Knees to your chest

[refrão]
We let love be like water to wine
We let love be the higher design
We let love be a call in the night
We let love be the fire divine

Under the shadow
Heavy remains
Chemical ashes fall
Lips to my veins

[refrão]

But here we are turning our heads down
Here we are falling like lovers
We're falling like lovers and I turn my head
'Cause I know what shame you've done

[refrão] 2X

I know I started it all
I know I started to run
I won't let go of it all
I won't let go of the gun

Oh God, below
What have we done?

Abaixo, analiso os diferentes aspetos desta obra, desde as suas origens até às suas camadas mais profundas de significado.

RY X, nome artístico do cantor, compositor e produtor Ry Cuming, é um artista australiano cuja identidade musical foi profundamente moldada pelas suas origens em Angourie, uma isolada comunidade costeira em New South Wales. Essa ligação visceral com a natureza reflete-se num estilo musical único, frequentemente classificado como Indie Pop, Ambient Folk e Alt-Pop. A sua assinatura sonora assenta numa abordagem minimalista e despojada, onde guitarras acústicas dedilhadas e sintetizadores subtis servem de moldura para a sua voz de falsete etérea, criando uma atmosfera de intensa intimidade, melancolia e vulnerabilidade. A faixa "Salt", lançada no aclamado álbum Dawn, é um dos exemplos mais puros desta estética.

A canção funciona como uma meditação profunda sobre a dor, a impermanência e o processo de cura. O título "Salt" carrega uma dupla metáfora poética: evoca tanto o sal das lágrimas provocadas pelo sofrimento e pelo distanciamento emocional, quanto o sal do oceano, que atua como um elemento de purificação e renovação espiritual. Na sua essência, a letra explora a coragem de se manter vulnerável e a necessidade de sentir a dor por inteiro para que se possa, eventualmente, transcendê-la.

Essa mesma narrativa estende-se ao videoclipe da faixa, co-dirigido pelo próprio artista. Visualmente, o vídeo utiliza uma paleta de cores frias e um jogo expressivo de luz e sombra para construir uma atmosfera cinematográfica e crua. Através da dança contemporânea e expressionista, os corpos dos intérpretes contorcem-se, aproximam-se e repelem-se, traduzindo visualmente o conflito interno, o desejo de conexão e a angústia da separação. A presença constante de elementos naturais e a nudez parcial reforçam o desapego das máscaras sociais, expondo o ser humano no seu estado mais primitivo e honesto.

Do ponto de vista intelectual, a obra de RY X bebe de ricas fontes filosóficas, literárias e poéticas que valorizam o silêncio e a introspeção. Há uma clara ressonância com o pensamento oriental, particularmente com o Zen Budismo e o conceito do Wabi-Sabi, que prega a aceitação da imperfeição e da transitoriedade da vida. Em vez de evitar o sofrimento, o compositor abraça-o como parte fundamental da existência. Na literatura e na poesia, "Salt" aproxima-se do Romantismo Sombrio e do olhar transcendental de autores como Rainer Maria Rilke e Walt Whitman, que utilizavam as forças da natureza como um espelho para a alma. O mar e os elementos naturais surgem na canção como representações do inconsciente e das emoções avassaladoras, transformando o peso do sofrimento num ritual estético de desapego que converte a dor numa beleza quase sagrada.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

‘Indefensible’: Meta unleashes on Anthony Albanese’s journalism levy


Tech behemoth Meta has lashed the Albanese government’s plans to impose a new tax on its Australian revenue to fund journalism, describing it as an “indefensible” regime that will make media companies dependent on government handouts.

In a blog post published overnight, Meta, which owns Facebook, Instagram, WhatsApp and Quest virtual reality products, unleashed its response to the News Bargaining Incentive, a new law attempting to strongarm three of the world’s biggest tech companies – Meta, Google and TikTok – into striking deals funding media outlets.

‘Foreign extortion’
The plan has triggered an angry response from US business lobby groups, which have warned that it falls foul of Australia’s free-trade obligations with the US. The White House described it as “foreign extortion” but, so far, has not stepped in to impose any retaliatory trade measures.

The major Australian media companies, meanwhile, took the rare step of sharing a joint statement in April, warning that without compensation, “journalism becomes unsustainable”. On Wednesday, News Corp Australia chief Michael Miller rejected the notion that the incentive was a tax.

“The government only built this path because Meta refused to sit down at the negotiating table, and again they are flipping the script rather than adhering to Australia’s proposed laws,” he said.

Nine Entertainment chief executive Matt Stanton said it was disingenuous to suggest that following Australian law was blocking investment.

“This initiative would be completely unnecessary if these companies simply adhered to existing Australian law, came to the bargaining table and reached deals for the fair use of our commercial property,” he said.

On Tuesday evening, Albanese backed the importance of the news incentive during a speech at a Parliament House function celebrating 195 years of The Sydney Morning Herald, according to several people who attended the event.

Meta has been a fierce critic of the policy since the beginning, but its rhetoric has escalated as the law comes closer to being introduced. The government wants to legislate the incentive this winter. Meta wrote in its Australian blog that the incentive is a “discriminatory tax built on a false premise”, and said it could remove news from its platforms entirely – as it did in Canada in response to a similar law – and people would use its platforms more.

Its harshest criticism is reserved for the levy being imposed on “consolidated revenue attributed to Australia” – a broad definition that captures its sales of Quest devices and, potentially, Google’s smartphones and other tech products.

“It is broader than digital services taxes, as it is applied on the widest possible revenue base and with no credible connection to news,” Meta wrote.

“The case for extracting revenue from social media services – where publishers voluntarily share news – is not supported by the evidence. Extending that logic to VR headsets and smart glasses is indefensible.”

Meta said it rewarded legacy business models instead of innovation and insulated news publishers from competition. “This is not a plan to save journalism. It is a tax on innovation dressed up as media policy,” it concluded.

“We are vehemently opposed to this legislation. It is discriminatory, economically incoherent, and will not deliver the sustainable news sector that Australian journalists and audiences deserve.”

Google has continued to honour and re-sign its pre-existing commercial deals with Australian media companies, but there are grave fears it would decimate journalist roles if it followed Meta in pulling out.

The policy is playing an active role in the minds of investors. On Tuesday, Macquarie reduced its valuation for Nine from $1.15 to $1.05 a share, ahead of its current price of 92¢, noting the incentive policy could add “an incremental $20 million in annual revenues on high margin”.

Nine owns the Nine Network, streaming platform Stan, out-of-home firm QMS Media and publications including The Australian Financial Review, The Sydney Morning Herald and The Age.

Free TV, the group representing Nine, Southern Cross Media (which owns Network Seven) and Network Ten, has argued in its own submission to Treasury that the scheme is too narrow and should be expanded to include Microsoft and Apple.

It has also called for “robust powers” to be granted to the Tax Commissioner to demand that each tech platform report its Australian revenue. Google and Facebook do not report the full revenue they derive from Australians due to complex resale agreements or because they act as “agents” for low-tax jurisdictions like Singapore or Ireland. The two companies transferred more than $11 billion abroad in 2025.

“Free TV is concerned that there is insufficient power granted to the Taxation Commissioner to investigate whether a platform may exclude Australian-generated gross revenues from its calculations of this amount,” the group wrote.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Nick Cave & The Dirty Three - Time Jesum Transeuntum et Non Riverentum


O título em latim, Time Jesum Transeuntum Et Non Riverentum, traduz-se aproximadamente como "Temei a Jesus que passa e não volta". A música carrega esse peso teológico e existencialista que é a marca registrada de Nick Cave, envolta no caos controlado e orgânico dos Dirty Three

Footages fom Movie: Frailty (2001)

O filme conta a história de um homem atormentado que chega a uma delegacia durante uma noite chuvosa, alegando conhecer a identidade do assassino conhecido como "A Mão de Deus". Em seu depoimento, ele volta à sua atribulada infância numa quinta de rosas no Texas, onde o seu pai acreditava ter recebido uma incumbência divina: matar os demónios que habitam a Terra, disfarçados de humanos. Enquanto ele cumpre essa terrível missão, o garoto e seu irmão precisam encontrar uma maneira de impedir o pai de continuar com os assassinatos.

sábado, 4 de abril de 2026

Jesse Madigan - Time Falls


In front of the ocean
You were holding on his hands
Mountains of hands
And it took you so high

Wherever you were going
Once again
You could see the sky
You can see the sky

Time falls
And you can see
You can see the sky

A canção "Time Falls", de Jesse Madigan, é a 10ª canção do renomeado álbum Soft Room for Movement (2022). É uma meditação sonora sobre a transitoriedade da vida e a forma como nos situamos perante a imensidão do mundo. Através de uma sonoridade minimalista e carregada de reverberação, a letra evoca imagens de elementos naturais grandiosos, como o oceano e as montanhas, que servem de pano de fundo para uma memória de ligação humana. Ao mencionar o ato de segurar as mãos de alguém, Madigan sugere uma tentativa de ancoragem num momento que, inevitavelmente, se dissolve.

O conceito central de "o tempo cai" funciona como uma metáfora para a fluidez da existência; o tempo não é algo que controlamos, mas sim algo que nos atravessa e nos rodeia, tal como a água de uma cascata. Existe um sentimento de desapego e de clareza que surge à medida que a canção avança: a repetição da frase sobre "poder ver o céu" indica que, ao aceitarmos a passagem do tempo e a perda do que é efémero, ganhamos uma nova perspetiva, mais ampla e pacífica. No fundo, a canção é um convite à contemplação e à aceitação da nostalgia, transformando a melancolia de um momento que passou numa sensação de liberdade e de quietude espiritual.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Nick Cave and Warren Ellis - We Are Not Alone


Melhor som aqui
Apresentação do álbum aqui
Letra
This world has ears and rocks have eyes
Nature loves to hide
The world is a bush full of fiery eyes

Nature loves to hide
I've travelled a lot, I was observed
I was observed and unaware

I've travelled a lot unaware I was observed, I was observed
We are not alone (Good news for life) 20X

Uma Meditação sobre a Natureza: "We Are Not Alone"
No seu trabalho colaborativo para o documentário A Pantera das Neves (The Velvet Queen), Nick Cave e Warren Ellis exploram a linha ténue que separa a humanidade do divino. A canção "We Are Not Alone" serve como o pulsar emocional desta jornada, afastando-se da obsessão moderna pelo "eu" em direção a uma ligação profunda e comunitária com o meio ambiente.

A música sugere que a "presença" não se resume apenas a outras pessoas; trata-se dos espíritos da paisagem, dos animais que nos observam das sombras e dos ecos ancestrais que habitam os lugares silenciosos do mundo. É uma chamada de atenção, assustadoramente bela, para pararmos, ouvirmos e reconhecermos o nosso lugar dentro da tapeçaria viva do planeta.

segunda-feira, 23 de março de 2026

IKON - The Garden of the Lost


A música "The Garden of the Lost" faz parte do EP The Garden of the Lost, lançado originalmente em 1998. Melhor som aqui

Innocence, never in you
 Decay, through and through
The garden of the lost
The garden of the faceless
When I look into your eyes
I see the hate that will arise
And take you under in the end

Disease, is all of you
 You're fake, and psycho too
The garden of the lost
The garden of the faceless
When I look into your eyes
I see the hate that will arise
And take you under in the end

As imagens utilizadas para ilustrar a música desta banda australiana pertencem ao filme O Amante (L'Amant), de 1992, dirigido por Jean-Jacques Annaud. O filme é baseado no romance autobiográfico de Marguerite Duras e passa-se na Indochina Francesa (atual Vietname).

Musicalmente, a faixa assenta numa linha de baixo pulsante e hipnótica, complementada por guitarras carregadas de reverb e chorus que criam uma sensação de espaço vazio e frio, evocando a influência direta de bandas como Joy Division e New Order. A voz barítona de Chris McCarter entrega a letra com um distanciamento emocional que reforça o sentimento de desolação e introspeção típico do género.

No que toca ao seu significado, a letra funciona como uma metáfora poética sobre o isolamento e a decadência emocional. O "jardim dos perdidos" representa um estado mental ou um refúgio metafórico onde são depositadas as memórias esquecidas, as oportunidades perdidas e os sentimentos de abandono. Há uma celebração da tristeza e da solidão, transformando a dor num lugar de beleza estática, onde o tempo parece não passar. A canção explora a ideia de que certas experiências e amores deixam marcas que nos confinam a um espaço interior do qual nunca conseguimos sair totalmente, restando apenas o silêncio e a contemplação do que foi perdido.

sábado, 21 de março de 2026

IKON - Black Roses


Letra
She doesn't know me
She doesn't care
Behind her darkness
Behind her stare

She sees it all

And in my dying hour
She gives me black roses
And as my time shall pass
I'm falling for her

My time is ending
My time draws near
My time is ending
My time draws near
Behind her darkness
Behind her eyes
Behind her darkness
There she lies

And in my dying hour
She gives me black roses
And as my time shall pass
I'm falling for her
You might also like
I’ve Been

And now my time has passed
I've fallen for her
Sobre a música "Black Roses" (1994)
Esta faixa faz parte do álbum de estreia, No Day Shall Erase You From The Memory Of Time, e é considerada um clássico absoluto do género Gothic-Rock

Ouve-se melhor aqui e este remix (em 2024)

Os Ikon foram fundamentais para manter o movimento gótico vivo nos anos 90, em que as camisas de flanela do Grunge e a ascensão meteórica do Rap e Hip-hop dominavam por completo as rádios e a MTV. Eles conseguiram criar uma sonoridade que era, ao mesmo tempo, nostálgica e autêntica. Eles não se limitaram a copiar o passado; eles reinvigoraram-no.

Apesar de serem australianos, tiveram um impacto enorme em países como a Alemanha e o Reino Unido, onde o movimento Darkwave continuava a ter bases sólidas em clubes underground.

A canção "Black Roses" dos Ikon é uma peça fundamental do Darkwave australiano que encapsula a essência da melancolia romântica e do isolamento existencial típicos dos anos 80. No contexto lírico e sonoro desta banda de Melbourne, a "rosa preta" surge como uma metáfora central para um amor que é, simultaneamente, eterno e fúnebre. A letra explora a beleza que reside na decadência e na dor, sugerindo que certas perdas são tão profundas que se tornam parte da identidade de quem sobrevive.

Musicalmente, o significado da faixa é amplificado por uma produção fria e minimalista, onde a linha de baixo persistente e os sintetizadores gélidos criam uma atmosfera de desespero contido. Não se trata apenas de uma música sobre a morte física, mas sim sobre a morte emocional e o conforto encontrado na sombra. Há uma aceitação do destino e uma entrega à tristeza, elevando o luto a uma forma de arte. Para os Ikon, "Black Roses" funciona como um manifesto de resistência cultural: num mundo que exigia felicidade e cores vibrantes, eles escolheram cultivar a elegância do abismo, transformando a angústia post-punk numa oferenda de devoção eterna aos sentimentos mais sombrios da alma humana.

Sites
IKON bandcamp
IKON wikipedia
IKONtheband youtube

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Música do BioTerra: The Paper Kites - Walk Above The City (feat. MARO)


O título "Walk Above The City" (Caminhar sobre a cidade) funciona como uma metáfora. Não se trata de uma caminhada física literal, mas de encontrar um estado mental de serenidade ou um lugar (talvez um telhado ou uma colina) onde o barulho lá embaixo já não importa.

A presença de outra pessoa (representada no dueto) é o que permite esse "vôo". A canção sugere que, quando estamos com alguém que nos entende, conseguimos nos desligar do resto do mundo e observar a vida de uma perspectiva superior e mais calma.
A sonoridade suave, quase como uma canção de ninar, evoca a imagem de luzes da cidade à noite vistas de longe — bonitas, mas distantes. 
Melhor som aqui

A canção consta do álbum 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Noire - He's My Baby


Letra
He's my baby, ain't it something
I'm a mess all for you
Walking home just to hear you say
Hey, baby, how's your day?

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good if you do

He's my baby, it's what I get romance is a nonsense bid
Pull me to the couch, put on ry cooder so we could sing the blues
I've been thinking there's a lot of lonely people in this town, yeah

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good you do

He's my baby, June is fadin', September's fadin' too
What's the price you pay, an hour wasted on you

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good if you do

He's my baby, ain't it something


A banda, formada em Sydney em 2014, criou este álbum após um período de isolamento rural, resultando num som "reverb-heavy" comparado a Mazzy Star e à estética de David Lynch.

'He's My Baby' é a segunda faixa do álbum de estreia de NOIRE, Some Kind of Blue, lançado em 29 de setembro de 2017.

O teledisco foi filmado no Avalon Restaurant, em Katoomba (nas Blue Mountains, Austrália), o que explica a vibe de "cidade pequena isolada" que a música transmite.

A estética visual é fortemente inspirada no cinema, especificamente no filme Coffee and Cigarettes de Jim Jarmusch.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Nick Cave And The Bad Seeds - All Tomorrow's Parties


Versão ainda mais dramática que a original The Velvet Underground & Nico - All Tomorrow's Parties, de 1966.

All Tomorrow's Parties
The Velvet Underground

And what costume shall the poor girl wear
To all tomorrow's parties
A hand-me-down dress from who knows where
To all tomorrow's parties
And where will she go, and what shall she do
When midnight comes around
She'll turn once more to sunday's clown and cry behind the door

And what costume shall the poor girl wear
To all tomorrow's parties
Why silks and linens of yesterday's gowns
To all tomorrow's parties
And what will she do with thursday's rags
When monday comes around
She'll turn once more to sunday's clown and cry behind the door

And what costume shall the poor girl wear
To all tomorrow's parties
For thursday's child is sunday's clown
For whom none will go mourning

A blackened shroud
A hand-me-down gown
Of rags and silks - a costume
Fit for one who sits and cries
For all tomorrow's parties

Solidão e máscaras sociais em “All Tomorrow's Parties”
Em “All Tomorrow's Parties”, do The Velvet Underground, a repetição da pergunta “And what costume shall the poor girl wear to all tomorrow's parties” (“E que fantasia a pobre garota usará em todas as festas de amanhã”) destaca a angústia sobre identidade e pertencimento. A música faz referência ao ambiente das festas da Factory de Andy Warhol, conhecidas por reunir pessoas excêntricas e outsiders. A “pobre garota” representa tanto figuras reais, como Darryl (citada por John Cale), quanto qualquer pessoa marginalizada que tenta se encaixar em um meio marcado por aparências e expectativas sociais. O trecho “hand-me-down dress from who knows where” (“vestido usado, vindo sabe-se lá de onde”) reforça a sensação de exclusão e vulnerabilidade dessa personagem.

O tom melancólico da canção se intensifica com a imagem da garota que, ao fim das festas, “turns once more to sunday's clown and cry behind the door” (“volta mais uma vez ao palhaço de domingo e chora atrás da porta”). O “clown” funciona como metáfora para a máscara social que ela precisa usar, escondendo sua solidão e tristeza sob a superfície festiva. A alternância entre “thursday's rags” (“trapos de quinta-feira”) e “yesterday's gowns” (“vestidos de ontem”) sugere um ciclo de tentativas frustradas de renovação, onde o passado e a precariedade sempre retornam. O verso “For thursday's child is sunday's clown, for whom none will go mourning” (“Pois a criança de quinta-feira é o palhaço de domingo, por quem ninguém vai lamentar”) reforça o anonimato e o desamparo da personagem. Assim, a música faz uma crítica à superficialidade e à efemeridade das relações sociais, especialmente em ambientes artísticos e boémios, onde a busca por aceitação muitas vezes esconde solidão e sofrimento.

sábado, 10 de janeiro de 2026

King Dude - The Hottest Girl on Earth


A canção “The Hottest Girl on Earth” de King Dude foi lançada em 20 de agosto de 2021 como parte do álbum Beware of Darkness, uma coletânea de covers, B‑sides, demos e algumas faixas inéditas lançada nessa mesma data.
A canção “The Hottest Girl on Earth” fala de um narrador obcecado pela “garota mais quente da Terra”, disposto a ir para qualquer lugar mais quente onde ela esteja, mesmo que enfrente perigos como cobras ou aranhas. O tom da música é exagerado e humorístico, transmitindo de forma cómica a intensidade de uma paixão, sem recorrer a simbolismos profundos ou mitológicos, funcionando como um hino romântico e irónico dentro da estética de King Dude.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Estudo genético diz que os humanos terão chegado à Austrália há cerca de 60.000 anos, vindos de África

Como chegaram até ali? Simples, quase sempre a pé. Naquela altura, estávamos em plena Era Glaciar (Hürm) e o nível do mar era muito inferior ao de agora (100 a 120 m a menos), deixando extensas áreas, hoje submersas, fora de água. Duas massas terrestres, a primeira chamada Sundaland, na actual Indonésia e outra a Norte da Austrália que a unia a Timor Leste, bem como extensões de terra de outras ilhas, como Bornéu e Sumatra, deixaram pouca área marinha para atravessar, o que podia ser feito por simples pirogas ou com as jangadas tão típicas daquela zona.
Muito mais tarde, há cerca de 30 a 35.000 anos atrás, os humanos chegariam à América pela mesma razão, ao atravessar a pé o actual Estreito de Bering, que então era uma grande massa terrestre chamada Beríngia.
Estudo aqui