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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Associação Zero pede “esforço climático real” face a falha da meta para o aquecimento global

A associação ambientalista Zero pediu hoje um “esforço climático real” face a um relatório da ONU que concluiu que o mundo falhou a meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais.

“Perdemos a oportunidade de evitar a ultrapassagem de 1,5°C. Não podemos perder a oportunidade de impedir um mundo de 2,8°C. Cada décima de grau conta”, salienta a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável em comunicado.


O relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) divulgado hoje refere que o limite de 1,5 graus de aquecimento global já foi ultrapassado e que “com as políticas atuais, o mundo caminha para 2,8°C até 2100”.

A Zero adianta, no entanto, que tal “não significa desistir do Acordo de Paris”, assinado em 2015 na conferência da ONU sobre o clima, com o compromisso de os países do mundo de impedir que as temperaturas a nível global subissem além dos 2ºC em relação à época pré-industrial, e que de preferência esse aumento não ultrapassasse os 1,5ºC.

“Cada décima de grau evitada, e cada ano a menos acima desse limiar, reduzem riscos para a saúde, a água, a produção alimentar e os ecossistemas”, refere a Zero.

Considerando que “mitigação e adaptação são inseparáveis”, a associação defende que, no primeiro caso, “Portugal tem de acelerar a aplicação da Lei de Bases do Clima e do Plano Nacional de Energia e Clima, com metas, responsáveis, orçamentos e resultados verificáveis”.

Ao nível dos transportes, “responsáveis por cerca de 35% das emissões nacionais em 2024”, a associação exige “uma mudança estrutural: mais ferrovia e transportes públicos, menos dependência do automóvel e eletrificação prioritária das frotas de utilização intensiva e do transporte de mercadorias”.

Pede ainda que se combata a pobreza energética e se apoie uma indústria menos dependente dos combustíveis fósseis.

“Na energia, é essencial acelerar a implantação de renováveis bem localizadas e compatíveis com a biodiversidade, reforçar redes, interligações, armazenamento e gestão da procura, e avaliar o abandono do gás fóssil na produção elétrica até 2035”, acrescenta a Zero no comunicado.

Portugal precisa, ao mesmo tempo, “de se preparar para mais ondas de calor, secas, incêndios rurais, precipitação extrema e erosão costeira”, adianta a associação ambientalista, defendendo que “a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 precisa de financiamento, prazos, metas e integração vinculativa no ordenamento do território”.

A “prioridade global e europeia deve ser a definição de um roteiro justo, calendarizado e financiado para o abandono do carvão, petróleo e gás fóssil, acompanhado pela rápida expansão da energia solar e eólica, da eficiência energética e da eletrificação”.

A Zero recomenda que a União Europeia reforce a execução das políticas climáticas e apoie os países mais vulneráveis, além de levar à 31.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações sobre Alterações Climáticas (COP31), que decorre no próximo mês na Turquia, “resultados concretos, incluindo a concretização do compromisso de triplicar a capacidade renovável e duplicar o ritmo de melhoria da eficiência energética até 2030”.

Numa mensagem sobre o relatório do PNUMA, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirma que “falhar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais breve e curta possível - e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 graus até ao final do século”.


Saber mais:

domingo, 20 de setembro de 2026

Ação climática e combate à poluição podem gerar 15 dólares por cada dólar investido

As alterações climáticas e a poluição atmosférica estão interligadas

O estudo, divulgado no Dia Internacional do Ar Limpo por um Céu Azul, é a primeira avaliação económica global abrangente dos benefícios de adotar medidas integradas para combater as alterações climáticas e melhorar a qualidade do ar.

Investir simultaneamente no combate às alterações climáticas e à poluição atmosférica poderá gerar cerca de 15 dólares (cerca de 12,8 euros) em benefícios económicos por cada dólar investido, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e da Climate and Clean Air Coalition (CCAC).

Segundo o relatório, as 25 medidas analisadas poderão gerar benefícios económicos anuais equivalentes a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. Estes ganhos incluem a redução das despesas de saúde, o aumento da produtividade e a diminuição dos custos associados aos danos provocados pelas alterações climáticas.

Mesmo excluindo os benefícios relacionados com o bem-estar e outros ganhos não diretamente refletidos no mercado, as medidas analisadas deverão gerar cerca de quatro dólares por cada dólar investido.

“Durante demasiado tempo, tratámos a ação climática como um custo a gerir e a poluição atmosférica como o resultado infeliz do desenvolvimento. Este relatório mostra o contrário: o ar limpo é um motor fundamental do desenvolvimento, da saúde, da segurança alimentar e energética e da estabilidade climática – um ativo no qual temos de investir”, afirma Inger Andersen, diretora-executiva do PNUA.

A responsável sublinha que já existem soluções comprovadas, mas que falta “uma liderança decisiva por parte dos governos, das instituições financeiras e das empresas” para as implementar com a rapidez e coordenação necessárias.

Cada ano de atraso custa 1,5 biliões de dólares
O relatório estima que cada ano de atraso na implementação das medidas represente uma perda de mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios económicos, equivalente a cerca de 0,5% do PIB mundial.

“Um rácio benefício-custo de 15 para 1 atrairia capital instantaneamente em praticamente qualquer outro sector”, considera Elliott Harris, copresidente independente da avaliação.

Segundo o especialista, uma das razões pelas quais este investimento ainda não acontece à escala necessária é o facto de os benefícios estarem distribuídos por diferentes áreas, como os sistemas de saúde, a produtividade e a redução dos danos climáticos.

“Cada ano de atraso custa ao mundo mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios que não vamos recuperar”, alerta.

Poluição do ar provoca milhões de mortes prematuras
Os benefícios económicos identificados incluem a redução das despesas de saúde, ganhos de produtividade e a diminuição dos danos materiais, mas também o valor económico associado à redução das mortes prematuras e à melhoria da saúde.

Em 2025, a exposição à poluição atmosférica exterior provocada por atividades humanas, nomeadamente partículas PM2,5 e ozono, esteve associada a cerca de 6,4 milhões de mortes prematuras em todo o mundo. A poluição do ar dentro das habitações terá provocado mais dois milhões de mortes prematuras, incluindo cerca de 300 mil crianças.

O relatório contabiliza ainda os efeitos económicos das doenças relacionadas com a poluição atmosférica, incluindo a pressão sobre os sistemas de saúde, as perdas de produtividade e os impactos no bem-estar.

Só em 2025, a poluição exterior terá contribuído para 5,5 milhões de novos casos de asma infantil, dois milhões de novos casos de demência e milhões de casos de enfarte, doenças pulmonares, diabetes, acidente vascular cerebral e cancro do pulmão.

25 medidas em seis setores
As medidas analisadas abrangem seis grandes sectores: energia e sistemas associados aos combustíveis fósseis, indústria, transportes, agricultura e sistemas alimentares, cozinhar e aquecer as habitações e gestão de resíduos.

Entre as propostas estão o reforço das energias renováveis e da eficiência energética, a expansão de soluções de cozinha e aquecimento limpas, normas mais exigentes para as emissões e eficiência dos veículos, a promoção dos veículos elétricos e a utilização de combustíveis com baixo teor de enxofre no transporte marítimo.

O pacote inclui ainda medidas para reduzir as fugas de petróleo e gás, melhorar a gestão de gado e estrume, aumentar a eficiência na utilização de fertilizantes, adotar práticas agrícolas mais eficientes, reduzir a queima de resíduos agrícolas e melhorar a gestão de resíduos sólidos e águas residuais.

A redução progressiva dos hidrofluorocarbonetos (HFC) e o combate às emissões de metano e carbono negro fazem igualmente parte da estratégia.

Se forem plenamente implementadas, as 25 medidas poderão evitar cumulativamente 144 milhões de mortes prematuras relacionadas com a poluição atmosférica até 2050, incluindo 96 milhões associadas exclusivamente à poluição do ar exterior.

Menos emissões e menos aquecimento global
A implementação imediata das medidas permitiria reduzir para metade as emissões globais de dióxido de carbono até 2050, face ao cenário de referência utilizado no relatório. As emissões de metano poderiam diminuir 60% e os principais poluentes atmosféricos, incluindo carbono negro, dióxido de enxofre e óxidos de azoto, cerca de 70%.

As medidas permitiriam ainda evitar aproximadamente 0,34 ºC de aquecimento global até 2050 e 1,4 ºC até 2100. Em muitas regiões, onde as temperaturas terrestres aumentam mais rapidamente do que a média global, o aquecimento evitado poderá atingir entre 1,5 e 2 ºC até ao final do século.

“Este relatório apresenta a evidência mais rigorosa até à data de que tratar as alterações climáticas e a poluição atmosférica como problemas separados leva-nos a subestimar os benefícios de combater qualquer um deles”, afirma Simon Dietz, copresidente da avaliação e professor de Política Ambiental na London School of Economics.

Segundo o investigador, quando os dois problemas são analisados em conjunto, “os retornos foram maiores do que os que cada um poderia mostrar isoladamente”, uma vez que as mesmas fontes, sectores e políticas estão frequentemente na origem de ambos.

Barreiras podem atrasar implementação
Apesar dos benefícios identificados, o relatório aponta vários obstáculos à implementação das medidas, nomeadamente processos de decisão fragmentados, capacidade limitada de fiscalização e fraca coordenação entre governos.

No conjunto, estas barreiras poderão atrasar quase oito anos a implementação integral das medidas à escala mundial. O relatório defende, por isso, um planeamento integrado das políticas climáticas, de qualidade do ar, saúde e economia, instituições e mecanismos de fiscalização mais fortes e uma melhor articulação entre financiamento público e privado.

Segundo a avaliação, a adoção de incentivos fiscais e regulamentação que permitam ao sector privado implementar tecnologias simultaneamente rentáveis e capazes de reduzir emissões poderá acelerar a transição e desbloquear até 10 biliões de dólares em benefícios adicionais para a saúde até 2040.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Aumento da temperatura global vai atingir pelo menos 1,8°C, avisa ONU, e 'não há bons resultados'

  • Relatório aponta pico de aumento de temperatura no melhor cenário para os 1,8°C; outros sugerem mais de 2°C
  • Acima dos 1,5°C, os impactos climáticos e os riscos de pontos de rutura intensificam-se a cada fração de grau
  • Trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' é a melhor opção restante para ajudar nações e comunidades vulneráveis a responder e a regressar a valores abaixo dos 1,5°C
Nairóbi, 2 de setembro de 2026 - O aumento da temperatura global está prestes a cruzar a barreira dos 1,5°C, provavelmente dentro dos próximos anos, elevando os riscos e impactos climáticos a níveis cada vez mais perigosos. Contudo, ainda é possível reduzir as temperaturas e alcançar as metas globais do Acordo de Paris, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA).

O relatório, Limiting Overshoot, identifica a trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' como a melhor opção restante para minimizar a magnitude e a duração desta ultrapassagem, tentando regressar a valores inferiores a 1,5°C o mais depressa possível.

“O calor escaldante, os incêndios devastadores e as inundações mortais deste verão são um aviso do que nos espera. Temos de fazer com que a ultrapassagem acima dos 1,5 graus seja o menor e mais curta possível. Isso exige uma ultrapassagem de ambição”, afirmou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

Esta trajetória minimizaria o pico de aumento da temperatura através de cortes imediatos e sustentados nas emissões de gases com efeito de estufa, incluindo o metano, a caminho do zero líquido (net-zero). Posteriormente, baixaria as temperaturas através de emissões líquidas negativas a longo prazo, com a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) devidamente governada - o processo de retirar carbono do ar e armazená-lo através de reflorestação ou outros meios - a assumir-se como parte essencial da solução.

Ao mesmo tempo, seguir este caminho envolveria ações de adaptação que reduzem a vulnerabilidade aos impactos atuais, esperados e inesperados das alterações climáticas nas sociedades, comunidades e economias - embora existam prováveis limites à adaptação e impactos irreversíveis, especialmente se os picos de temperatura não forem minimizados. O relatório reforça que tal trajetória reduziria riscos e impactos, tornaria a adaptação menos difícil e dispendiosa, e aumentaria as hipóteses de baixar as temperaturas.

“Não há bons resultados se permanecermos acima dos 1,5°C. Em todo o mundo, as ondas de calor extremo já provam que os impactos climáticos vão atingir-nos mais rápido, com mais força e durar mais tempo - custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, disse Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUA. “Agora é o momento de duplicar os esforços na ação climática. Podemos - e devemos - entrar no caminho certo. Cortando emissões de gases com efeito de estufa, reforçando a resiliência e a adaptação, e garantindo que a ultrapassagem dos 1,5°C seja o mais reduzida e curta possível.”

Impactos devastadores
O cenário mais otimista prevê que o pico do aumento de temperatura atinja os 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, superando a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C definida pelo Acordo de Paris. A maioria dos restantes cenários prevê picos ainda mais elevados.

Acima dos 1,5°C, os riscos e impactos intensificar-se-ão a cada fração extra de grau e a cada ano. Os impactos previstos incluem eventos meteorológicos extremos mais intensos, perda de ecossistemas e a submersão de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e cidades costeiras de baixa altitude. Esperam-se danos graves na saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, natureza, cidades, infraestruturas e economias.

O relatório avisa que a probabilidade de cruzar pontos de rutura irreversíveis aumenta com a magnitude e duração de temperaturas mais elevadas. Estes incluem a desestabilização de grandes calotas polares, a degradação da floresta amazónica e a perturbação da Circulação Meridional do Atlântico (o sistema de correntes que move água quente de superfície para norte e água fria profunda para sul, desempenhando um papel fundamental na regulação do clima). Alguns impactos podem surgir abruptamente, enquanto outros se acumularão ao longo do tempo.

Tendo em conta a dimensão dos riscos e os benefícios paralelos das intervenções climáticas - como a transição rápida dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, melhorando a qualidade do ar e a saúde pública, reduzindo os custos de energia e aumentando o acesso à eletricidade -, o relatório apela a uma ação global, coletiva e acelerada para entrar na trajetória de ultrapassagem, pico e declínio. A rapidez e a força desta ação definirão a forma e a trajetória desse caminho.

Condições para o sucesso
Vontade política forte, multilateralismo, políticas eficazes, governação inclusiva e financiamento são condições essenciais para a ação - e a equidade e a justiça devem fundamentar todas as respostas. Os países com maior responsabilidade pelas alterações climáticas devem agir mais depressa e com maior ambição.

O relatório também conclui que a mitigação e a adaptação, que se reforçam mutuamente, têm de avançar juntas, mantendo-se responsivas a riscos emergentes. Intervenções que atinjam em simultâneo metas de mitigação e adaptação - como o arrefecimento baseado na natureza - devem ser priorizadas.

A adaptação implementada agora forma a base para os esforços futuros, mas tem de se tornar transformacional e capaz de responder a riscos não lineares e abruptos - incluindo aqueles que prejudicarão os esforços de mitigação.

O relatório enfatiza que o zero líquido é apenas um marco a caminho do líquido negativo, sendo a remoção de carbono (CDR) necessária além de - e não em substituição de - reduções sustentadas nas emissões. Contudo, a CDR só pode contribuir de forma credível para o regresso a valores abaixo de 1,5°C se o pico de aquecimento se mantiver bem abaixo dos 2°C e todas as emissões residuais forem reduzidas. Quadros de governação sólidos para a CDR serão críticos para permitir uma implementação responsável e gerir as implicações na integridade ambiental, equidade e escala.

Responder a um futuro alterado
Anos de inação significam que, mesmo que se assegure o regresso a valores inferiores a 1,5°C, perdas irreversíveis e condições permanentemente alteradas são certas. Muitas comunidades podem ser forçadas a relocalizar-se ou a mudar de meios de subsistência, enquanto as sociedades enfrentarão o desafio da readequação. Isto levanta questões de justiça, poder e legitimidade política, que exigirão novos acordos de governação inclusiva para resolver problemas complexos.

Este relatório é um lembrete de que a trajetória de ultrapassagem, pico e declínio é a próxima fronteira climática, mas que não pode ser deixada ao abandono para as próximas gerações resolverem. É necessária ação imediata para que tal caminho continue a ser possível.

quarta-feira, 25 de março de 2026

O Tratado Global sobre Plásticos: O Momento Decisivo

O planeta enfrenta uma crise que já não se mede apenas em ilhas de lixo flutuantes ou em praias desfiguradas. A invasão do plástico tornou-se biológica e sistémica. Todos os anos, milhões de toneladas de polímeros e as letais redes fantasma – armadilhas de nylon que perduram por séculos – invadem os nossos oceanos, dizimando baleias, tartarugas e aves marinhas, enquanto asfixiam ecossistemas vitais para a regulação do clima. Contudo, o perigo mais insidioso é aquele que não conseguimos ver a olho nu.

As milhões de toneladas de plástico que acabam no oceano chegam à nossa mesa e ao nosso corpo através do peixe, da água e até do sal. A ciência já confirmou: trata-se de um perigo para a saúde pública.

A ciência moderna confirmou o que há muito se temia: o plástico já faz parte da biologia humana. Microplásticos e nanoplásticos foram detetados no sangue, em órgãos vitais e até em placentas, o que significa que as novas gerações já nascem num ambiente de contaminação interna. De acordo com o estudo sobre Microplásticos na placenta humana, estas partículas não são inertes; elas transportam um cocktail de mais de 4.200 substâncias perigosas utilizadas na sua produção. 

Em Portugal, a preocupação com os microplásticos já saltou das páginas das revistas científicas para os alertas das autoridades de saúde. Substâncias como os bisfenóis, os ftalatos e os PFAS (químicos eternos) são classificados pela Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) e pelo National Institute of Environmental Health Sciences como disruptores endócrinos. Estes compostos têm a capacidade de interferir com o nosso equilíbrio hormonal, estando cientificamente ligados à infertilidade, ao aumento de doenças metabólicas como a obesidade e a formas agressivas de cancro. Não se trata de uma ameaça distante: o projeto europeu de biomonitorização (HBM4EU), no qual Portugal participou, confirmou que estes químicos estão presentes no organismo da vasta maioria dos cidadãos europeus, provenientes da nossa alimentação e da degradação desenfreada do plástico no meio ambiente.

Apesar da gravidade da situação exposta em relatórios sobre o impacto nos ecossistemas marinhos, a resposta global tem sido, até agora, insuficiente. Falar apenas em "limpar o lixo" ou em melhorar a reciclagem — que processa menos de 10% do plástico mundial — é ignorar a raiz do problema. Estamos a tentar secar um chão inundado sem fechar a torneira. É por isso que o Tratado Global sobre Plásticos, agora na sua fase decisiva de negociação nas Nações Unidas, não pode ser um acordo de intenções vagas.

Exigimos um tratado ambicioso que não se foque apenas na gestão do resíduo final, mas que imponha limites vinculativos à produção de plástico virgem. É imperativo banir os químicos tóxicos que impedem uma economia circular segura e responsabilizar financeiramente as empresas pelo ciclo de vida completo dos seus produtos. O tempo das soluções cosméticas terminou. O que está em causa não é apenas a preservação da natureza, mas a integridade da saúde humana e a viabilidade da vida nos oceanos. Precisamos de um compromisso que trave a produção na origem, antes que o plástico substitua permanentemente a vida no nosso planeta azul.

Assina e divulga esta petição

terça-feira, 3 de março de 2026

Dia Mundial da Vida Selvagem


Hoje, 3 de março celebra-se, anualmente, o Dia Mundial da Vida Selvagem. 

Este ano com o tema Plantas aromáticas e medicinais - preservar a saúde, o património e os meios de subsistência.
A 3 de março de 2026, das 12:30 h às 14:30 (hora de Lisboa) assista aqui à celebração oficial da ONU, que contará com histórias e apresentações sobre o uso sustentável e a conservação de plantas aromáticas e medicinais, por especialistas dos Estados-Membros, representantes de alto nível de organizações internacionais, partes interessadas da indústria, líderes comunitários locais e membros de redes juvenis.

Vídeo oficial (em inglês)
Sítio oficial da comemoração (versão espanhola - permite tradução para português).

Utilize ainda os materiais informativos e educativos no sítio do ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P.

Como pode ajudar?
- Descubra mais acerca das plantas nativas da sua região.
- Ajude a conhecer onde elas existem inserindo as suas observações em plataformas de ciência-cidadã como a Biodiversity4all.
- Evite a colheita de plantas selvagens, a menos que tenha formação e autorização para tal.
- Se usar produtos à base de plantas, escolha os de origem sustentável.
- Se é pai/mãe ou professor(a) ensine os seus filhos(as) e alunos(as) a conhecer e proteger as plantas nativas.
- Maximize o seu impacto contribuindo para iniciativas de conservação.
- Tenha plantas aromáticas ou medicinais nativas em casa ou no seu jardim ou quintal.

Sabia que?
- Cerca de 25% dos medicamentos modernos são derivados de plantas.
- Estima-se que entre 50.000 a 70.000 espécies de plantas são usadas medicinalmente e cerca de 1.500 delas estão listadas nos Anexos da CITES - Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção - e mais de 800 no seu Anexo II.
- Algumas farmacopeias indígenas documentam milhares de remédios à base de plantas.
- No mundo, as plantas selvagens sustentam milhões de família rurais, através do comércio, da medicina e do artesanato.
- As práticas de cultivo e colheita de plantas aromáticas e medicinais garantem recursos vitais para muitas famílias, sendo que, no mundo, uma em cada cinco pessoas depende de plantas silvestres, algas e fungos para a sua alimentação e rendimento.
- A identidade cultural, as práticas espirituais e as tradições curativas são, frequentemente, indissociáveis da biodiversidade vegetal.
O objetivo deste dia é consciencializar os cidadãos para a proteção da fauna e flora, especialmente as espécies ameaçadas. Pretende-se, também, demonstrar os benefícios que a conservação das espécies tem para a vida no planeta e para a sobrevivência do ser humano.

Sobre o Dia Mundial da Vida Selvagem
Este dia foi criado na 16.ª Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, em Março de 2013, por iniciativa da Tailândia. Mais tarde, a 20 de dezembro de 2013, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou este dia, através da Resolução 68/205

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Relatório aponta caminhos para evitar catástrofe ambiental planetária

A Marcha Mundial pelo Clima levou milhares de pessoas às ruas de Belém (PA) em 15 de novembro de 2025, durante a COP 30, incluindo indígenas e outros povos tradicionais da Amazónia 

Investir na sustentabilidade salvaria milhões de vidas e injetaria biliões de dólares na economia mundial, segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente

Se o objetivo é viver bem e produzir riqueza a longo prazo, preservar a natureza é o melhor negócio que os seres humanos podem fazer. Em resumo, esta é a mensagem central da sétima edição do relatório Panorama Ambiental Global (GEO-7, na sigla em inglês), produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e apresentado nesta terça-feira (9/12) como “a avaliação mais abrangente já realizada” sobre o estado de saúde do planeta Terra.

Produzido por um conjunto de 287 investigadores, de 82 países (incluindo vários brasileiros), o documento apresenta um diagnóstico detalhado de como as atividades humanas estão a impactar a natureza e o que precisa de ser feito para minimizar esses impactos, pelo bem da própria humanidade. “A nossa mensagem é muito simples: o tempo está a acabar, mas as soluções existem”, resumiu Ying Wang, uma das coordenadoras do GEO-7, no evento de lançamento do relatório.

A má notícia é que estamos a caminhar a passos largos para um colapso generalizado de todos os sistemas naturais (terrestres, aquáticos, marinhos e atmosféricos) dos quais dependemos para a nossa sobrevivência e a nossa qualidade de vida. A crise climática, causada pela queima de combustíveis fósseis, é apenas parte do problema. Aquecimento global, desflorestação, perda de biodiversidade, desertificação, acidificação dos oceanos, caça e pesca predatórias, degradação e poluição de ecossistemas em geral - entre outros problemas - formam uma combinação cataclísmica de impactos socioambientais que precisam de ser revertidos com urgência.

“O consenso científico é que seguir os caminhos de desenvolvimento atuais levará a mudanças climáticas catastróficas, devastação da natureza e da biodiversidade, degradação debilitante da terra, desertificação e poluição mortal persistente - tudo isso a um custo enorme para as pessoas, o planeta e as economias”, alerta o PNUA.

O relatório enfatiza que a situação atual precisa de ser encarada não apenas como um problema ambiental, mas como uma crise económica, social e existencial de amplo espectro, que ameaça a saúde e a segurança alimentar, hídrica, energética e climática de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo. Só a poluição do ar, por exemplo, mata mais de 8 milhões de pessoas por ano.

Alguns indicadores do colapso ambiental destacados no relatório, segundo o PNUA
  1. Taxa de aquecimento global: provavelmente será maior do que as estimativas centrais das projeções anteriores do IPCC  aumentando o risco de ultrapassar irreversivelmente vários pontos de rutura climática (tipping points) nas próximas décadas, incluindo grandes mudanças na circulação oceânica, perda acelerada de mantos de gelo, degelo generalizado do permafrost, declínio de florestas e colapso de ecossistemas de recifes de coral.
  2. Ameaça de extinção: 1 milhão, das cerca de 8 milhões de espécies conhecidas, está ameaçado de extinção, algumas nas próximas décadas. As populações de muitas outras espécies estão em declínio e a sua diversidade genética está a ser significativamente reduzida.
  3. Degradação terrestre: entre 20% e 40% da área terrestre foi estimada como degradada em 2022. Entre 2015 e 2019, pelo menos 100 milhões de hectares (o equivalente ao tamanho da Etiópia ou da Colômbia) de terras férteis e produtivas foram degradados anualmente em todo o mundo.
  4. Volume de resíduos: o volume anual de resíduos sólidos produzidos já ultrapassa os 2 mil milhões de toneladas e, mantidas as tendências atuais, deve aumentar para 3,8 mil milhões de toneladas até 2050.
“Está muito claro que há uma crise ambiental global. O clima da Terra está a mudar, a biodiversidade está a ser perdida, a poluição está a aumentar e as terras estão a degradar-se, e todas essas questões estão interligadas e precisam de ser abordadas em conjunto. Coletivamente, estes problemas estão a minar o bem‑estar humano, a redução da pobreza, a saúde, a segurança alimentar e hídrica, e estão a causar danos económicos e sociais substanciais”, disse o investigador Robert Watson, um dos coordenadores do GEO-7, no lançamento do documento.

O relatório reforça muitos dos alertas feitos durante a COP30, a conferência do clima que ocorreu no mês passado em Belém do Pará, e faz um apelo pelo cumprimento das metas estabelecidas nas convenções sobre Alterações, Biodiversidade e Desertificação da ONU, além dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que “expiram” em 2030 e não serão alcançados pelas políticas atuais. “Sem uma ação rápida e transformadora, a humanidade corre o risco de enfrentar um aumento de três graus Celsius nas temperaturas globais, poluição desenfreada e uma perda catastrófica de biodiversidade”, escrevem os coordenadores do relatório, no prefácio do documento. “Se quisermos evitar uma catástrofe para a humanidade, é preciso agir agora - os próximos cinco anos são cruciais.”

Dentre todos os ecossistemas, os recifes de coral de águas quentes são os que correm risco mais iminente de colapso - justamente em função dessa combinação cumulativa de impactos associados às alterações climáticas, poluição marinha, degradação ambiental, pesca predatória e outras atividades humanas. Estudos citados no relatório indicam que 90% dos corais tropicais poderão desaparecer se o aquecimento global passar de 1,5 °C, o que implicaria prejuízos imensos para a biodiversidade marinha e para milhões de pessoas que dependem desses ecossistemas para a sua sobrevivência.

Até agora, a temperatura média do planeta já aumentou 1,3 °C, em comparação com a média da era pré-industrial, e alguns cientistas estimam que a marca de 1,5 °C de aquecimento será ultrapassada nos próximos cinco a dez anos.

Boa notícia
A boa notícia é que ainda dá tempo de reverter esta situação, se agirmos com urgência, e que isso pode ser extremamente benéfico, não só como estratégia de sobrevivência, mas também de promoção do desenvolvimento económico e social. “Embora existam custos iniciais, o custo económico da inação é muito maior e o retorno a longo prazo do investimento na transformação é nítido”, alerta o documento do PNUA.

Segundo o relatório, a transição para um modelo mais sustentável de desenvolvimento - que não sobreaqueça o planeta nem destrua a natureza - geraria um retorno para a economia mundial de até 20 biliões de dólares por ano a partir de 2050 e de até 100 biliões de dólares por ano a partir de 2070, ao mesmo tempo que evitaria milhões de mortes e tiraria milhões de pessoas da pobreza. O custo das mudanças necessárias para fazer essa transformação positiva, comparativamente, seria de 3 biliões de dólares ao ano até 2040.

O retorno sobre esse investimento, porém, só se concretizará com uma reforma estrutural profunda dos sistemas económico e financeiro globais. “Essa é uma premissa básica do relatório”, diz o cientista Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e cocoordenador do Centro de Estudos Amazónia Sustentável da USP, que foi um dos revisores do GEO-7. “Tem de se transformar o modelo que nós temos hoje em algo que seja minimamente sustentável do ponto de vista social, económico, ambiental e climático.”

Algumas mudanças fundamentais, segundo o relatório, incluem a eliminação de subsídios e outros incentivos fiscais para atividades geradoras de grande impacto ambiental (como a produção de combustíveis fósseis) e a incorporação do custo de externalidades ambientais e sociais no preço de produtos, de forma a refletir o custo real da sua produção - por exemplo, incorporando os custos dos impactos decorrentes das emissões de carbono e do uso de recursos hídricos e pesticidas no preço de mercadorias agrícolas.

Os investigadores reconhecem que isso poderá elevar o custo de alimentos e energia para o consumidor final, mas argumentam que se trata de um dilema incontornável e que é preciso criar mecanismos de compensação económica e social para amortecer esse impacto. “É um trade-off necessário, que cada sociedade precisa de discutir como implementar”, avalia Artaxo. Ignorar os custos dessas externalidades hoje, segundo ele, só aumenta o custo que as próximas gerações, inevitavelmente, terão de pagar por eles no futuro. “Alguém vai pagar essa conta”, diz Artaxo. “O problema é que o preço aumenta exponencialmente com o tempo, conforme se caminha para a intensificação das alterações climáticas.”

Também é fundamental transitar rapidamente para sistemas agrícolas e energéticos de baixo impacto ambiental, e para modelos de economia circular, capazes de reduzir a produção de resíduos sólidos (como lixo plástico e eletrónico) e a procura por recursos naturais e minerais para a fabricação de novos produtos.

O esforço precisa de ser coletivo e envolver todos os setores, com indivíduos, instituições, empresas e governos a trabalhar em sinergia para produzir uma mudança sistémica de larga escala — incluindo mudanças nos hábitos de consumo, desenvolvimento (e adoção) de novas tecnologias, promoção (e implementação) de políticas públicas favoráveis à sustentabilidade, e assim por diante.

Outro ponto crucial, destacado ao longo de todo o relatório, é a importância da integração e da valorização do conhecimento de populações indígenas e outros povos tradicionais na construção de soluções sustentáveis. “Um planeamento inclusivo envolve conciliar as contribuições, os interesses concorrentes e as diversas visões de múltiplos atores da sociedade, incluindo os povos indígenas e as comunidades locais. A colaboração entre os povos indígenas e os governos locais, regionais e nacionais é essencial nesse sentido”, diz o documento.

Mudanças necessárias para evitar o colapso ambiental global, organizadas em cinco áreas-chave, segundo o PNUMA
  1. Economia e finanças: ir além do conceito de PIB (Produto Interno Bruto) para incluir métricas de riqueza mais inclusivas e abrangentes, que contemplem valores naturais e sociais; precificar as externalidades positivas e negativas para valorizar corretamente os bens; eliminar progressivamente e reorientar subsídios, impostos e outros incentivos que resultem em impactos negativos na natureza.
  2. Materiais e resíduos: implementar design circular de produtos, transparência e rastreabilidade de produtos, componentes e materiais; direcionar os investimentos para modelos de negócio circulares e regenerativos; mudar os padrões de consumo em direção à circularidade por meio da mudança de mentalidades e comportamentos.
  3. Energia: descarbonizar o fornecimento de energia; aumentar a eficiência energética; apoiar a sustentabilidade social e ambiental nas cadeias de valor de minerais críticos; ampliar o acesso à energia e combater a pobreza energética.
  4. Sistemas alimentares: transição para dietas saudáveis e sustentáveis; aumentar a circularidade e a eficiência da produção; e reduzir a perda e o desperdício de alimentos.
  5. Ambiente: acelerar a conservação e restauração da biodiversidade e dos ecossistemas; apoiar a adaptação e a resiliência climática, recorrendo a Soluções Baseadas na Natureza; implementar estratégias de mitigação climática, com redução nas emissões de gases do efeito de estufa.
O relatório completo tem mais de 1200 páginas e 21 capítulos, cada um redigido e revisado por dezenas de cientistas, com base em centenas de estudos e relatórios científicos. O lançamento oficial ocorreu em Nairóbi, no Quénia (onde fica a sede do PNUA), durante a sétima sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente, o órgão máximo de deliberação sobre temas ambientais no sistema da ONU.

“Não precisamos de caminhar no escuro”, diz o investigador Jean Pierre Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos autores brasileiros do relatório. Ele destaca que o documento, ao mesmo tempo que faz alertas preocupantes, aponta os caminhos e oferece as informações científicas para executar as mudanças de rota necessárias. “Não é só que há uma luz no fim do túnel; nós estamos com a lanterna na mão”, disse Ometto ao Jornal da USP. “O que precisamos de fazer é iluminar os cantos certos, para não pisar no buraco.”

Soluções personalizadas
Além do diagnóstico global, o GEO-7 também traz análises e recomendações personalizadas para cada uma das cinco grandes regiões do mundo reconhecidas pela ONU: América Latina e Caraíbas; Europa Ocidental e Outros Estados (incluindo Estados Unidos, Canadá e Austrália); África; Europa Oriental (incluindo a Rússia) e Ásia-Pacífico.

Uma das características diferenciais da América Latina, segundo Ometto, é a sua dependência de recursos naturais e estabilidade climática para a produção de energia e alimentos - uma relação que traz ao mesmo tempo vantagens e vulnerabilidades. No caso do Brasil, alterações nos padrões de chuva causadas pela desflorestação e pelas alterações climáticas, por exemplo, podem ser desastrosas para a agricultura e para a segurança energética do país, já que a maior parte da eletricidade produzida ali vem de hídricas, que dependem da chuva para funcionar.

“Na América Latina e nas Caraíbas, o cenário de Tendências Atuais terá implicações significativas para os sistemas humanos e naturais”, diz o relatório. “As consequências para a biodiversidade e para os sistemas humanos devem intensificar-se devido ao aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor e secas extremas. Esses efeitos, agravados por eventos extremos de inundação, exercerão uma pressão crescente sobre os recursos hídricos, com sérias consequências para a pesca e a agricultura.”

“A relação dos países da América Latina com os bens naturais é muito forte. A transição (para um novo modelo de desenvolvimento) precisa de respeitar e resgatar essa relação”, afirma Ometto. Ele é um dos autores principais do Capítulo 20 do relatório, que trata dessas realidades regionais, ao lado da investigadora Danielle Denny, do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), e do Centro de Pesquisa em Carbono na Agricultura Tropical (CCarbon), ambos da USP.

“A América Latina e as Caraíbas são uma região-chave para a transição ecológica, tanto na parte de adoção de tecnologias como na de mudanças de comportamento”, disse Denny, que também é pós-doutoranda na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

Este olhar regionalizado do relatório é essencial para desenvolver soluções que sejam compatíveis com a realidade de cada país ou região, aponta Artaxo. “Isso é fundamental, porque não existe uma solução que funcione para todo o mundo. As soluções que funcionam para a China, Estocolmo e Montreal não servem para o Brasil, Rio de Janeiro e Salvador”, compara o investigador.

Uma das implicações disso, segundo Artaxo, é que a ciência brasileira precisa de ser fortalecida para desenvolver essas estratégias personalizadas para a realidade nacional. “Ou nós desenvolvemos, com a nossa própria ciência, estratégias de mitigação e adaptação para cada cidade e cada região brasileira, ou vamos sofrer consequências económicas pesadas”, sacramenta o professor da USP.