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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Democracia portuguesa vive o pior momento desde o 25 de Abril, alerta Sampaio da Nóvoa


António Sampaio da Nóvoa reflete sobre relatório do Estado Global das Democracias. Segundo o antigo representante português na UNESCO, há sinais preocupantes para Portugal. Para António Sampaio da Nóvoa, no que diz respeito a Portugal, o relatório sobre o Estado Global das Democracias resume-se assim: é "um retrato claro do pior momento da democracia em Portugal, a seguir ao 25 de Abril". É um retrato que, segundo o professor catedrático, deve motivar uma "profundíssima reflexão" no país.

O documento, produzido pelo Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral, avalia, há 51 anos, o desempenho democrático de 173 países, tendo em conta quatro categorias: representação, direitos, Estado de Direito e participação. Em todos eles, Portugal regrediu e, por isso, é hoje um dos países com mais retrocessos democráticos da Europa, atrás da Rússia e da Geórgia.

"Na representação, nos direitos, no Estado de Direito e na participação - em todos eles recuamos. E recuamos, particularmente no critério em que já estávamos pior, que era o da participação. Há uma certa debilidade, uma fragilidade imensa da nossa vida cívica, da nossa responsabilidade cívica, da nossa capacidade de nos envolvermos, como cidadãos, nas nossas decisões, de pensarmos e decidirmos coletivamente. Eu creio que é, talvez, a área que nos deve mais preocupar em termos do recuo que é traduzido neste relatório", considerou o antigo representante de Portugal na UNESCO.

Sampaio da Nóvoa está particularmente preocupado com a falta de participação democrática dos mais jovens, uma lacuna que descreve como "o maior problema na Europa e em Portugal" e que está relacionado, na sua perspetiva, com a falta de esperança no futuro.

"Sem uma promessa de futuro não há democracia, sem a capacidade de podermos aspirar a alguma coisa diferente... E parece que só anunciamos um futuro pior em todas as áreas: nas áreas climáticas, nas áreas da segurança, nas áreas das pensões.. Em todas as áreas anunciamos um futuro pior. É muito difícil construir um caminho democrático sem ser uma promessa de futuro", sublinhou.

Para o professor, antigo candidato à Presidência da República, importa não desistir dos mais novos. "O lugar dos jovens deve ser objeto de uma grande reflexão da nossa parte, para lhes darmos a capacidade de se inscreverem numa dinâmica democrática e de poderem ter uma voz e uma presença forte. Essa voz e pertença forte implicam o direito de construir o futuro, de pensar o futuro, de dar uma voz ao futuro que está nos jovens. Creio que este relatório é muito claro sobre essa debilidade, sobre essa fragilidade que atravessa o mundo inteiro, mas que atravessa também o nosso país", afirmou.

Destaca-se, nesse caminho, o papel das escolas e das universidades, mas António Sampaio da Nóvoa lembra que também elas, as instituições, estão fragilizadas em Portugal.

"Nós temos instituições muito frágeis, na área da educação, na área da saúde, na área da justiça, em várias áreas da segurança e do Estado, nas universidades - que são instituições hoje muito frágeis. E com esta fragilidade é muito difícil construir uma vida democrática, sólida, forte, participativa. A educação tem aqui um papel muito importante e as universidades têm de fazer uma reflexão profundíssima sobre o que é a sua vida, o que é a sua cultura, o que é o seu dia a dia, a maneira como se organizam, a maneira como inscrevem os jovens nas suas decisões. Precisamos muito da escola pública, esperamos muito da educação, precisamos muito das universidades neste tentar, ainda, ir a tempo de reconstruirmos uma vida democrática neste país", disse.

Deterioração da democracia "não é conjuntural"
Entrevistado esta manhã na rubrica Ponto Central, da Antena 1, António Sampaio da Nóvoa considerou que a crise global na democracia não parece ser passageira - ela é estrutural, está relacionada com o fim dos consensos estabelecidos depois da II Guerra Mundial e com uma "banalização do mal".

"Estamos a ser coniventes com a mentira, com a fraude, com a corrupção, estamos a banalizar coisas que são absolutamente insustentáveis e insuportáveis. O relatório fala muito da influência do Trump, nesta situação do mundo. Estamos num processo de banalização de coisas que nos deviam indignar profundamente", explicou.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O tempo despendido no consumo de conteúdos digitais e as suas implicações sociológicas: atomização social, alienação e o declínio da intervenção cívica

O ecossistema digital consolidou-se como o eixo central da vida quotidiana, com os utilizadores de internet em Portugal a demonstrarem uma ligação cada vez mais profunda às plataformas online. Os dados do relatório Digital 2026, elaborado pela We Are Social em parceria com a Meltwater, revelam que mais de 7,5 milhões de portugueses utilizam redes sociais, representando cerca de 8 em cada 10 internautas no país. Em média, o tempo despendido nas redes sociais situa-se nas 2 horas e 10 minutos por dia, com o TikTok a liderar no tempo médio de utilização (1 hora e 23 minutos diários por utilizador ativo) e o YouTube a destacar-se pelo alcance massivo. No entanto, o consumo apresenta uma forte assimetria geracional: os jovens dos 15 aos 24 anos lideram o tempo de ecrã com 2 horas e 25 minutos diários, ao passo que a faixa dos 25 aos 44 anos regista 1 hora e 45 minutos e os utilizadores com mais de 45 anos fixam-se em 1 hora e 15 minutos. Este comportamento mobile-first - impulsionado por 95,9% dos utilizadores que acedem à rede via smartphone - estende-se ao processo de compra, onde 65% dos jovens dos 16 aos 24 anos usam as redes para pesquisar marcas, e à integração massiva da Inteligência Artificial generativa, utilizada diariamente por mais de 40% dos internautas portugueses. 

À escala global, o estudo aponta para 6 mil milhões de utilizadores de internet e 5,66 mil milhões nas redes sociais (68,7% da população mundial), num cenário onde a publicidade social já ultrapassa a televisão e os motores de busca como principal meio de descoberta de marcas entre os 16 e os 34 anos.

A transição massiva para este ecossistema digital contínuo traz consigo profundas implicações sociológicas. A submersão em formatos de vídeo vertical e a personalização extrema por algoritmos favorecem a atomização social, um fenómeno em que os indivíduos se isolam em bolhas informacionais e de entretenimento hiperpersonalizado, fragilizando o tecido comunitário e as interações no espaço público físico.

Este consumo compulsivo acarreta igualmente riscos de alienação social, na medida em que a mediação do mundo real por ecrãs substitui a experiência interpessoal direta por laços parassociais e validação digital. Por sua vez, a saturação de estímulos rápidos e efémeros correlaciona-se com uma diminuição do escrutínio crítico e com uma baixa intervenção cívica, transformando o debate democrático num espetáculo de consumo individual e imediato, onde o ativismo muitas vezes se reduz ao slacktivism de redes sociais, distanciando os cidadãos do envolvimento comunitário tradicional e da ação política participativa.

Fontes e Hiperligações dos Estudos

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia. 

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics. 

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Da estagnação económica ao colapso climático: a ilusão da neutralidade política que ameaça a democracia


Acabei hoje de ler a crónica de Daniel Oliveira - “Não há TINA, há um consenso falhado” - e veio demonstrar aquilo que eu já tenho abordado no meu ensaio sobre a anatomia da extinção anunciada: a crise económica e o colapso ambiental não são dois problemas distintos, mas duas manifestações do mesmo modelo político-económico.

Durante quase meio século, incutiram-nos um dogma cómodo para quem detém o poder: a ideia de que a gestão da sociedade é um assunto puramente técnico. Vendeu-se a ilusão de que a economia e a gestão dos recursos naturais pertencem a uma esfera neutra, habitada por peritos, matemática e leis de mercado inquestionáveis — longe do alcance e da perturbação da escolha política. Hoje, diante de salários estagnados, desigualdade em máximos históricos e alertas científicos cada vez mais dramáticos sobre a degradação da biosfera, a máscara da "inevitabilidade" caiu. A suposta neutralidade técnica foi, e continua a ser, a escolha política mais consequente dos últimos cinquenta anos.

Trinta e cinco anos após a hegemonia do “Consenso de Washington” ter ditado a liberalização desregrada e a privatização sistemática, a revisão crítica operada por debates recentes sobre o chamado “Consenso de Londres” traz à tona uma verdade desconfortável: o modelo económico não falhou por acidente. Ele funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. Ao mesmo tempo, os alertas recorrentes da comunidade científica e da climatologia - que desenham o mapa do esgotamento planetário pós-2050 - demonstram que a degradação ambiental partilha exatamente a mesma génese. A crise social e a emergência ecológica não são dois problemas paralelos; são duas manifestações da mesma opção ideológica.

A falsa neutralidade e a captura do estado
O debate público foi propositadamente afunilado numa falsa dicotomia entre "Estado Mínimo" e "Estado Máximo". A verdadeira questão nunca foi o tamanho do Estado, mas sim ao serviço de quem ele trabalha. Quando o modelo económico desregulamentado colapsou na Grande Crise Financeira de 2007–2009, o suposto "Estado mínimo" transformou-se instantaneamente num Estado intervencionista máximo, injetando biliões em garantias e liquidez para salvar o setor financeiro. Socializaram-se os prejuízos privados e cobrou-se a conta aos cidadãos sob a forma de austeridade.

Esta mesma lógica de captura institucional replica-se com exatidão na esfera ecológica. A omissão governamental perante o esgotamento dos ecossistemas não resulta de ignorância ou falta de dados. Os modelos do GIEC/IPCC há décadas que preveem com precisão milimétrica os cenários de eventos extremos que hoje testemunham. Se os governos hesitam em impor limites estritos à extração de recursos, ao uso de combustíveis fósseis ou à poluição corporativa, é porque a capacidade regulatória do Estado foi subordinada à lógica do lucro de curto prazo. A regulação preventiva foi desmantelada para não perturbar a acumulação de capital, reservando-se ao Estado apenas o papel de absorver os estragos depois dos desastres consumados.

O fetiche do PIB e a desigualdade estrutural
Esta convergência reflete-se com clareza na forma como medimos o sucesso de uma sociedade. O produto interno bruto (PIB) e os indicadores macroeconómicos convencionais tornaram-se métricas cegas: contabilizam a extração desenfreada e a transação financeira de soma zero como "crescimento", enquanto ignoram tanto a destruição do património natural como o esvaziamento do poder de compra de quem trabalha.

Nos últimos quarenta anos, assistimos ao crescimento exponencial da concentração de mercado e à perda de poder negociador dos trabalhadores. O capital desviou-se do investimento produtivo e da inovação real para a engenharia financeira. O resultado traduz-se numa divergência gritante: a produtividade aumentou, mas a quota do rendimento captada pelo 1% mais rico disparou, enquanto os salários médios permaneceram estagnados. À escala global, a livre circulação de capital aliada à competição fiscal entre Estados transferiu o ónus dos impostos para o trabalho e desmantelou o tecido comunitário de regiões inteiras.

Paralelamente, a biosfera - subordinada a limites biofísicos invioláveis - foi tratada como um armazém infinito de recursos e um depósito ilimitado de resíduos. Ao dissociar a economia da física e da ecologia, o sistema financeirizado passou a promover a ilusão de um crescimento ilimitado num planeta finito, tratando a destruição ecológica como uma mera "externalidade" sem valor contabilístico.

O esvaziamento da democracia e a destruição do TINA
As consequências moram ao nosso lado. A estagnação salarial, a degradação dos serviços públicos, o sentimento de abandono regional e a perda de coesão social não são apenas estatísticas económicas; são os motores primordiais da erosão democrática, da fragmentação política e da ascensão do populismo extremista. Quando a população perceciona que as instituições democráticas foram instrumentalizadas para proteger os interesses de quem concentra riqueza, a confiança no sistema representativo desmorona-se.

Durante décadas, a máxima TINA (There Is No Alternative / "Não Há Alternativa") foi utilizada como um espartilho intelectual. Dizia-se que a globalização sem regras, a desregulação laboral e a mercantilização da vida eram forças inelutáveis da natureza às quais restava apenas a resignação.

Contudo, nada disto foi inevitável. As regras da economia foram desenhadas e escritas por escolhas humanas para servir determinados objetivos; por conseguinte, podem ser desmanteladas e reescritas. A física do clima impõe limites reais e invioláveis; a economia, pelo contrário, é uma construção social submetida à vontade política.

Rejeitar o determinismo tecnológico e económico implica devolver a economia ao seu lugar de origem: o da política e da ética. Enfrentar a emergência do século XXI exige um novo compromisso que associe a progressividade fiscal, a valorização do trabalho e a regulação financeira a uma transição ecológica justa baseada nos princípios do decrescimento, na transição para uma economia circular e na regulamentação estrita da inteligência artificial e do consumo de recursos. Reconhecer que a economia é política é o primeiro passo para resgatar a democracia e impedir que a crónica de uma catástrofe anunciada se torne o nosso destino final.

Saber mais:
  1. Interessante escutar este painel de debate How do we fix climate change? promovido pela London School of Economics and Political Science. Conheça os oradores aqui
  2. A ilusão do consumo e o silêncio da extinção: uma crítica da ecologia política ao poder corporativo

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Alerta de Jean Jouzel: A Catástrofe de 2050 e a Ecologia Política

No seu mais recente alerta, o climatologista Jean Jouzel traça um diagnóstico incisivo sobre o futuro do planeta, articulado em quatro eixos fundamentais. Em primeiro lugar, deixa um aviso severo sobre o período pós-2050 («Nous voyons venir la catastrophe après 2050»), sublinhando que, sem cortes drásticos nas emissões de gases de efeito de estufa, a humanidade enfrentará uma crise estrutural irreversível na segunda metade do século XXI. Em segundo lugar, destaca a precisão dos modelos científicos, lembrando que os eventos extremos dos últimos anos cumprem com exatidão o que o GIEC/IPCC previu há décadas. Em terceiro lugar, manifesta uma profunda preocupação com a inércia política, denunciando a apatia dos decisores globais diante da evidência empírica. Por fim, reforça a urgência de uma transição imediata, alertando que adiar metas transfere um custo insustentável para as gerações futuras.

Esta tomada de posição de Jouzel não ressoa num vácuo de informação, mas numa estrutura desenhada para ignorar o conhecimento. A verdadeira tragédia da emergência climática reside na incapacidade de resposta do modelo político-económico vigente, e é precisamente neste impasse que a denúncia do cientista encontra a sua fundamentação crítica no ensaio do Bioterra. Ao analisar a ilusão do consumo e o silêncio da extinção, revela-se que a omissão dos governos não é uma falha acidental, mas o resultado direto de um projeto de alienação e captura corporativa.

A biosfera, subordinada a limites biofísicos invioláveis, foi reduzida a um mero recurso de um sistema capitalista focado na acumulação perpétua. Enquanto a sociedade permanece absorta pela validação digital e pelo fetiche da mercadoria constante, a degradação ecológica é sistematicamente mascarada por indicadores macroeconómicos cegos ao património natural. Diante do esgotamento da pedagogia ambientalista tradicional e da submissão das democracias liberais ao poder de mercado, a física do clima de Jouzel e a análise sociopolítica do Bioterra convergem para a mesma constatação: manter a rota de crescimento cego enquanto a biosfera colapsa deixou de ser uma hesitação política para se converter na crónica de uma catástrofe programada.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Imperativo Biológico: Ecologia Pura e sobrevivência na Era da Simulação


No fecho desta década de 2020, a humanidade encontra-se numa encruzilhada moldada por uma profunda contradição. Por um lado, enfrentamos o esgotamento dos sistemas biofísicos da Terra; por outro, assistimos à ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), uma infraestrutura tecnológica abstrata que consome recursos tangíveis a um ritmo sem precedentes. Tentamos curar uma ausência profunda de contacto com o mundo natural através de ecrãs brilhantes, mas a verdade subjacente permanece inalterável: a IA nunca saciará a nossa fome biológica pelo toque da terra, pelo voo de uma borboleta ou pelo aroma da floresta.

Quando escolhemos pausar, observar e registar um ser vivo real, estamos a exercer um ato de resistência cultural. A inteligência artificial é apenas uma ferramenta; ela não pode substituir o dever sagrado da preservação da natureza. A verdadeira conservação significa muito mais do que qualquer tecnologia simulada alguma vez poderá oferecer. Precisamos, urgentemente, de regressar à Ecologia Pura - o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos vivos na sua essência não domesticada - e de regular a tecnologia para salvaguardar a nossa própria sobrevivência.

A Década do rebound e a ilusão da desmaterialização
Ao olharmos para os desafios desta década que agora chega ao fim, o maior deles foi a ilusão de que o mundo digital era etéreo. A expansão dos modelos de linguagem e da computação generativa transformou os bits em fardos ecológicos massivos. Estudos recentes sobre a pegada carbónica e hídrica da IA indicam que o consumo elétrico dos centros de dados duplicou substancialmente nos últimos anos (Wheeler, 2026).

O impacto ambiental da IA segue uma dinâmica conhecida como o Paradoxo de Jevons: à medida que a tecnologia se torna mais eficiente, o seu custo diminui, o que gera um aumento explosivo na procura que anula os ganhos ecológicos iniciais. O treino e a inferência contínua de grandes modelos exigem volumes críticos de dissipação de calor, gerando uma pegada hídrica local severa em regiões que já sofrem de stress hídrico (Pinheiro Privette, 2026). Proteger a nossa sobrevivência exige reconhecer que a computação não flutua numa nuvem; está, sim, ancorada na biosfera.

A Filosofia da teia viva: Capra, Abram e a Matriz Biológica
Para compreender a urgência da regulação da IA, é crucial resgatar o pensamento sistémico de Fritjof Capra e a ecologia fenomenológica de David Abram. Capra demonstrou que a vida é uma rede de padrões interdependentes, onde nenhum elemento subsiste isoladamente. A mentalidade mecanicista que vê a IA como o apogeu da evolução humana comete o erro elementar de isolar a mente do corpo e o organismo do seu habitat.

David Abram, em The Spell of the Sensuous, lembra-nos de que a nossa própria perceção e linguagem nasceram do diálogo com um ecossistema animado. O vento, o sol e a terra não são estímulos secundários; são os coautores da consciência humana. A IA carece desta reciprocidade sensorial. Ela processa sintaxe, mas não experiencia o significado. Substituir a nossa orientação na Terra por arquiteturas algorítmicas cria uma forma profunda de solipsismo tecnológico, uma cegueira ecológica que nos permite destruir os suportes da vida planetária enquanto otimizamos métricas digitais virtuais.

O Princípio de "Metade da Terra" como meta de sobrevivência
A Ecologia Pura lembra-nos de que a natureza tem limites invioláveis de resiliência. O ecologista Edward O. Wilson, um dos maiores defensores da biodiversidade, formalizou a teoria da biogeografia de ilhas (Handel, 2022), demonstrando como a fragmentação dos habitats acelera a extinção de espécies. Diante disso, Wilson e a nova geração de cientistas que lhe seguiu as pisadas consolidaram o princípio do "Half-Earth" (Metade da Terra): a necessidade imperativa de destinar cerca de metade da superfície terrestre e marítima do planeta à conservação estrita, livre da intervenção industrial humana 

A premissa científica é exata e matemática:

Espécies Preservadas ∝ Área Conservadaz

De acordo com este modelo de área-espécies, se protegermos 50% dos habitats globais de forma estrategicamente otimizada, garantiremos a sobrevivência de aproximadamente 85% a 90% da biodiversidade planetária (Pimm et al., 2018). Sem esta meta, os ecossistemas colapsarão num efeito dominó, comprometendo os ciclos de carbono, azoto e oxigénio de que dependemos. A inteligência artificial pode mapear estes dados, mas apenas a governação humana e a contenção económica podem implementar esta reserva de vida (Ellis & Mehrabi, 2019).

Conclusão: a urgência da regulação e o regresso à Terra
Regular a IA nesta viragem de década não é apenas uma questão de mitigar a desinformação, salvaguardar a propriedade intelectual ou proteger postos de trabalho; é um imperativo de segurança ecológica. A regulamentação deve impor limites estritos ao consumo energético e hídrico das infraestruturas digitais (Vandenbergh, 2026), obrigando as corporações tecnológicas a subordinarem-se aos limites biofísicos da Terra.

A biosfera é a única tecnologia verdadeiramente insubstituível. Ela carrega ADN, luta pela sobrevivência e reage de forma dinâmica ao vento e ao sol. Salvaguardar a nossa própria existência exige que libertemos o olhar dos ecrãs e olhemos para o solo que pisamos. O futuro não pertence às máquinas que simulam o pensamento, mas às comunidades vivas que protegem a integridade do planeta que respira.

sábado, 4 de julho de 2026

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários

Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.

Saber mais:

sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Dia Mundial do Ambiente - Relatório global oferece uma alternativa ao colapso climático, ao extremismo político e às tensões económicas

A humanidade pode elevar os padrões de vida, reduzir a desigualdade e manter o aquecimento global abaixo dos 2 °C, de acordo com uma visão abrangente para a sobrevivência do planeta.

O relatório do World Inequality Lab (WIL) pretende ser a tentativa mais detalhada até à data de navegar pela policrise que está a empurrar o mundo para o colapso climático, o extremismo político e tensões económicas e sociais cada vez maiores.

O documento oferece um conjunto de propostas políticas ousadas, incluindo impostos pesados sobre a riqueza dos multimilionários, reduções acentuadas no horário de trabalho, uma alteração nas dietas e uma transferência de investimento de setores materialmente intensivos, como a indústria e a mineração, para a educação e a saúde.

Se estas e outras medidas forem tomadas, diz o relatório, os rendimentos de 89% da população mundial duplicariam até 2100 e o aquecimento global seria mantido abaixo dos 2 °C em relação à média pré-industrial.

Os autores afirmam que a sua visão fornece uma alternativa positiva às projeções sombrias dos tecnoextrativistas de extrema-direita, nacionalistas e multimilionários que afirmam que o futuro trará inevitavelmente mais combustíveis fósseis, perturbação climática e desigualdade.

«Está a decorrer uma enorme batalha cultural, intelectual e política. E todos nós temos um papel a desempenhar», afirmou Thomas Piketty, codiretor do WIL e professor na Escola de Economia de Paris.

«A ideologia que vemos com [Donald] Trump e com todos os "pequenos Trumps" que temos por toda a Europa e por todo o mundo simplesmente não vai dar resultados. No final de contas, teremos de chegar a este tipo de redistribuição cooperativa de recursos e de poder, porque a alternativa levará simplesmente a resultados desastrosos, tanto no ambiente e no clima, como a nível social.»

O Global Justice Report (Relatório sobre a Justiça Global), publicado na quinta-feira, tenta superar as lacunas das abordagens tradicionais à policrise, incluindo a ênfase excessivamente materialista dos partidos tradicionais de esquerda, a eficácia questionável do decrescimento económico proposto por muitos ecologistas e a falta de estudos de impacto social por parte do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU.

O relatório visa retificar essas limitações incorporando estudos sobre a desigualdade, a ciência climática e propostas para a criação de uma coligação política capaz de reformar a arquitetura financeira mundial.

Este «plano para a igualdade e a prosperidade dentro dos limites planetários» é o produto de 45 autores, com base em bases de dados compiladas por mais de 200 investigadores de todo o mundo.

Na sua génese está o conceito de suficiência — a ideia de que as pessoas podem desfrutar de uma vida próspera e saudável sem procurarem constantemente consumir ou acumular mais bens materiais que degradam o mundo natural do qual depende toda a vida.

Para alcançar este objetivo, os autores preveem três etapas: reduzir para mais de metade o tempo médio de trabalho, passando de 2100 horas por ano para 1000 horas (o equivalente aproximado a uma semana de trabalho de dois dias e meio); incentivar as pessoas a comerem menos carne vermelha, que é o principal motor da desflorestação e da destruição ecológica; e redirecionar a economia para atividades de baixo consumo, duplicando o investimento na educação para 8400 € por pessoa e na saúde para 14 400 €.

Piketty explicou: «Um euro extra de PIB na educação e na saúde tem uma pegada material e um consumo de energia três a quatro vezes menor do que um euro extra de PIB no setor transformador. É por isso que as mudanças setoriais são imensamente importantes.»

Combater a desigualdade é um objetivo central. Segundo o plano, o rendimento nacional bruto médio per capita em todo o mundo seria de 5000 € por mês até ao final do século — um aumento para quase toda a gente, com os maiores ganhos no Sul Global. A exceção seriam os megarricos, que seriam fortemente tributados por serem os maiores responsáveis pela crise climática. A quota da riqueza global detida pelos multimilionários, que representam apenas 0,001% da população mundial, cairia de 6% para 0,05%, enquanto os 50% mais pobres veriam a sua quota de riqueza aumentar de 2% para 30%.

A outra prioridade é reduzir os riscos climáticos, cortando as emissões para o valor mais próximo possível de zero. O relatório analisa três cenários de descarbonização até meio do século delineados pela Agência Internacional da Energia (AIE) e projeta-os até 2100. Sob o seu plano mais ambicioso, o capital seria redirecionado dos indivíduos mais ricos do mundo e investido em tecnologia eólica, solar e outras energias renováveis para acelerar a descarbonização total e a eletrificação do abastecimento energético até 2050. Reduções adicionais de emissões viriam da redução do horário de trabalho e da mudança nas dietas e na atividade económica.

Prevê-se que isto mantenha o aumento da temperatura global nos 1,8 °C até ao final do século — consideravelmente abaixo das estimativas catastróficas de 4 °C a 4,5 °C em cenários de descarbonização lenta e de procura cada vez maior de bens materiais. É também um resultado melhor do que os 1,9 °C projetados num cenário de decrescimento económico generalizado.

Entre os passos práticos fundamentais necessários para alcançar as metas do relatório estaria a criação de um fundo de justiça global para financiar a transição energética e supervisionar um aumento dos gastos em educação e saúde para 38% do PIB mundial (atualmente fixado nos 13%). Este trabalho seria apoiado por um fundo soberano mundial, que reequilibraria as detenções globais de riqueza pública e privada para proporções semelhantes às vistas pela última vez em 1970.

«Um século XXI habitável e igualitário é materialmente possível», conclui o relatório. «O que impede a sua concretização não é a impossibilidade técnica, mas sim a escolha política e o trabalho árduo, mas crucial, de construir uma coligação que a apoie.»

Cornelia Mohren, coautora e coordenadora ambiental do WIL, admitiu que o relatório era «visionário e talvez utópico», mas afirmou que isso era necessário para mostrar que outros caminhos são possíveis.

«É bom saber que podemos combinar um mundo igualitário com o cumprimento dos orçamentos de carbono», disse. «Esse é um resultado muito útil. Dá-me esperança. Vimos o que é possível e também vemos o quão difícil é com esta realidade política, o que pode ser deprimente.»

Piketty afirmou que a história recente mostra que os objetivos do relatório são plausíveis. Países como a Suécia e a Noruega já foram extremamente divididos do ponto de vista económico, mas fizeram progressos rápidos na redução da desigualdade graças a políticas governamentais e ao redirecionamento do investimento para a educação e a saúde. Além disso, o horário de trabalho na Europa reduziu-se para metade desde o século XIX, o que vai ao encontro do objetivo traçado no relatório.

A chave, acrescentou Piketty, é abordar a desigualdade e a habitabilidade do planeta em conjunto. Sem essa abordagem dupla, afirmou, os governos correm o risco de repetir os erros que causaram os protestos dos gilets jaunes (coletes amarelos) na França, contra um imposto sobre o carbono que teria afetado as classes trabalhadora e média muito mais do que os ricos.

«Se não colocarmos isto no centro da análise e se falarmos de políticas verdes e de ambiente de forma abstrata, isto simplesmente não vai funcionar», sublinhou.

O relatório será apresentado e debatido na Conferência Mundial sobre a Desigualdade, que decorre de 4 a 6 de junho em Paris, contando com oradores como Ha-Joon Chang, Jean Drèze, Jayati Ghosh, Mariana Mazzucato, Branko Milanović, Lea Ypi e Gabriel Zucman.

Jason Hickel, professor na Universidade Autónoma de Barcelona e membro sénior visitante na LSE (London School of Economics), afirmou: «É uma intervenção importante e oportuna. Tudo isto é tecnicamente viável de alcançar — podemos ter vidas boas para todos dentro dos limites planetários — mas exigirá uma luta política organizada para que aconteça.»

Toda a informação, com gráficos ilustrativos aqui

Página Oficial do Dia Mundial do Ambiente 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

Curva de Keeling: o gráfico que tirou a "pressão arterial" à Terra

Se pudéssemos tirar a pressão arterial à Terra para avaliar a sua saúde climática, o gráfico resultante seria, sem dúvida, a Curva de Keeling. Este registo gráfico, considerado um dos documentos científicos mais importantes da era moderna, mostra a acumulação contínua de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre desde o final da década de 1950. Mais do que um simples conjunto de dados estatísticos, a curva funciona como o espelho do impacto da atividade humana no planeta e um aviso claro sobre o futuro do nosso clima.
Até meados do século passado, a comunidade científica sabia que a queima de combustíveis fósseis libertava gases, mas não havia certezas se esse dióxido de carbono se acumulava na atmosfera ou se era totalmente absorvido pelos oceanos e pelas florestas. Tudo mudou quando o cientista americano Charles David Keeling desenvolveu um método de alta precisão para medir o CO2 e, em 1958, começou a recolher amostras de ar no topo do vulcão Mauna Loa, no Havai. A escolha do local foi estratégica: isolado no meio do Oceano Pacífico e a grande altitude, o observatório ficava longe da poluição direta das grandes indústrias, oferecendo uma amostra limpa e global da atmosfera terrestre.
Ao olhar para a Curva de Keeling, saltam imediatamente à vista duas características principais: um padrão anual em forma de ziguezague e uma subida vertical implacável ao longo das décadas. O ziguezague regular representa aquilo a que os cientistas chamam a "respiração" da Terra. Durante a primavera e o verão do Hemisfério Norte - onde se concentra a maior parte da vegetação do planeta -, as florestas crescem e absorvem grandes quantidades de CO2 através da fotossíntese, fazendo os níveis atmosféricos descerem. No outono e no inverno, o processo inverte-se; a vegetação entra em dormência e decompõe-se, libertando o gás de volta para o ar.
No entanto, embora o planeta expire e inspire todos os anos, o topo de cada ziguezague é sucessivamente mais alto do que o do ano anterior. Esta tendência de subida contínua a longo prazo é o resultado direto da atividade humana, impulsionada pela queima de carvão, petróleo e gás natural, além da desflorestação global. 
Quando Keeling fez a sua primeira medição em 1958, a concentração de $CO_2$ era de 315 partes por milhão (ppm). Hoje, esse valor já ultrapassou a barreira dos 420 ppm. Através do estudo de bolhas de ar presas no gelo profundo da Antártida, sabemos que, nos últimos 800 mil anos, estes níveis nunca tinham ultrapassado os 300 ppm. Em menos de um século, a humanidade alterou a composição química do ar de uma forma sem precedentes na história da evolução humana.
O dióxido de carbono atua como um manto térmico em redor do planeta, retendo o calor do Sol que, de outra forma, escaparia para o espaço. À medida que a Curva de Keeling continua a subir, esse cobertor torna-se cada vez mais espesso, alimentando o aquecimento global, o degelo dos glaciares, a subida do nível do mar e a multiplicação de fenómenos meteorológicos extremos. 
No fundo, a Curva de Keeling deixou de ser apenas uma monitorização laboratorial no Havai para se tornar no diagnóstico mais urgente da nossa civilização, lembrando-nos diariamente de que a estabilidade do clima do futuro depende da rapidez com que conseguirmos travar esta subida.

sábado, 30 de maio de 2026

O adeus a Edgar Morin. 104 a resistir, pensador global, herdeiro do iluminismo

Quando em 2001 lhe perguntaram, à beira da celebração dos 100 anos de vida, onde é que ele ia buscar a transbordante vitalidade, Edgar Morin respondeu: ”É porque consigo ser ao mesmo tempo infantil, juvenil e velho. Admito que mais ou menos adulto, mas não muito.” 

Edgar Morin, um dos últimos mestres do pensamento da cultura contemporânea, sociólogo, filósofo, antropólogo e epistemólogo, morreu a pouco mais de um mês de em 8 de julho chegar aos 105 anos de vida (n.1921, em Paris).

Morin, sempre luminoso e generoso (veio muitas vezes a Portugal, arranjava sempre tempo para quem queria conversar com ele), é um dos últimos herdeiros do Iluminismo. Com mais de 100 livros publicados, continuou até ao fim da longa vida a intervir e a a posicionar-se em muitos dos debates dos nosso tempo (sobre ecologia, sempre sobre a educação, também  questões sensíveis como as caricaturas de Maomé ou a política de colonização israelita, de que era muito crítico). Edgar Morin também ousou imaginar o futuro e interrogar as incertezas do tempo pela frente. Ele gostava de repetir que, do ponto de vista da evolução do pensamento, “ainda estamos na pré-história.”

Ao pensarmos em Edgar Morin pensamos sempre em humanismo. Admirado pelo espírito corajoso e livre, fez da dúvida e da autocrítica ferramentas indispensáveis ​​para a reflexão orientada para enfrentar e entender as metamorfoses e a complexidade do mundo contemporâneo.

Em toda a vida foi um e resistente aos esquematismos ideológicos e aos guetos disciplinares, combateu as arrogâncias, aliou o gosto pela reflexão à relevância da observação, com abordagem interdisciplinar orientada para a concretização da ecologia de ideias que, a par da centralidade da ética, considerava indispensável para chegarmos a uma sociedade mais justa. Para Morin, o trabalho intelectual só faz sentido se resultar em propostas políticas realistas e exequíveis. E, nesta perspetiva, embora consciente dos muitos riscos que o planeta enfrenta, acreditava que os períodos de crise como o tempo de agora são, ainda assim, ricos em potencial, desde que “a civilização ocidental renuncie à obstinada busca de uma ideia de progresso baseada exclusivamente na fé cega no poder da tecnologia e da economia".

Nascido em Paris numa família judaica sefardita, Edgar Nahoum participou ativamente na resistência anti-nazi no início da década de 1940, adotando então pela primeira vez o pseudónimo Morin, que manteria durante toda a sua vida. Após a guerra, frequentou regularmente os meios intelectuais, foi próximo de Marguerite Duras.

Logo a seguir ao final da II Grande Guerra, Morin, oficial da Resistência francesa, foi mobilizado para a Alemanha ocupada. Tinha 24 anos, publicou L’an zéro de l’Allemagne (1946), em que corajosamente propõs a superação do rancor, com aposta na reconciliação franco-alemã. Foi o primeiro título de uma notável bibliografia que, no final da sua vida, contaria com mais de 100 livros. La Méthode, monumental e fundamental obra sociológica e filosófica, foi publicada em seis tomos, ao longo de 17 anos, de 1977 a 2004.

Em Autocritique (1959),Morin relata como foi expulso do Partido Comunista Francês (PCF), de que fora figura de relevo, e reconhece a “cegueira inicial em relação ao estalinismo” que viria a criticar veementemente. Tornou-se também um dos fundadores do comité de intelectuais contra a Guerra da Argélia.

No tempo final de vida, Morin lastimou recorrentemente o estado sombrio do mundo. Quis intervir ativamente em censura à invasão russa da Ucrânia. Publicou um último ensaio,  De guerre en guerre: de 1940 à l’Ukraine (De guerra em guerra: de 1940 à Ucrania). Assentou então: “Estamos a assistir à escalada da desumanidade e ao colapso da humanidade, à escalada do pensamento simplista e ao colapso da complexidade. E, acima de tudo, à escalada para uma guerra mundial que representa o mergulho da humanidade no abismo.” 

No livro de memórias, Les souvenirs viennent à ma rencontre (As Lembranças vêm ao meu encontro), publicado em 2019, quando tinha 97 anos, prenunciou o fim que chegou neste final de 2026 “Eu também partirei para a terra onde cresce a flor de laranjeira.”

Morin resistiu sempre. Contra o populismo, contra o totalitarismo, contra o nacionalismo, contra a violência, contra as ofensas ao ambiente,  contra a desigualdade, contra o ódio, contra a estupidez, contra tudo o que divide e separa. Nunca desistiu, nunca se rendeu.

Morin argumentou ferozmente contra o «reducionismo» — o hábito de dividir os problemas em caixas isoladas e unidisciplinares. Em vez disso, acreditava que os maiores desafios do mundo estão fundamentalmente interligados.

Conceitos-chave que deixa como legado
O trabalho de Morin deu-nos lentes totalmente novas para olhar para as crises modernas:
  1. A Policrise: um termo que co-pioneou para descrever como as crises ambientais, económicas, sociais e políticas não acontecem de forma isolada. Pelo contrário, alimentam-se e amplificam-se mutuamente de forma dinâmica.
  2. O Princípio hologramático: a ideia de que, tal como num holograma, a parte está no todo, mas o todo também está embutido na parte (por exemplo, um indivíduo carrega em si toda a cultura da sua sociedade).
  3. Religação (Reliance): a capacidade humana de construir e sustentar laços significativos, que ele defendeu como a nossa ferramenta máxima de solidariedade num mundo profundamente fragmentado.
«Enquanto for possuído pelas forças da vida, o espetro da morte recua.» — Edgar Morin

Era, como em França gostam de classificar, um maître à penser. O presidente Macron foi certeiro no primeiro comentário ao fim da vida de Edgar Morin: “era o Humanismo feito pessoa.”

Saber mais:

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Adaptação Profunda - os 6R de James Bendell

1. Resiliência
O que mais VALORIZAMOS que queremos manter, e como?
2. Renúncia
Do que precisamos nos DESFAZER, para não piorar as coisas?
3. Restauração
O que poderíamos TRAZER DE VOLTA para nos ajudar à medida que situações difíceis se desenrolam?
4. Reconciliação
Com quem e com o que eu poderia FAZER AS PAZES para reduzir o sofrimento?
5. Reapropriação
O que em nossas vidas, comunidades, economias e na natureza podemos TOMAR DE VOLTA dos sistemas e crenças dominantes?
6. Regeneração
O que ou quem podemos NUTRIR devido ao nosso amor pela Vida?

A adição de uma 5ª e 6ª perguntas incorpora de forma mais eficaz todos os tipos de reflexões pessoais e conversas comunitárias que as pessoas estão tendo ao se tornarem conscientes do colapso. Elas envolvem mais atenção à ação social em escala comunitária para aumentar as possibilidades dentro de sistemas em colapso. Elas nem exigem nem convidam a negação de nossa situação, mas ampliam como encontramos caminhos para nossa própria ação positiva dentro de uma metacrise e colapso.

Vários Rs foram propostos como adições ao framework original, e muitos mais poderiam ser propostos no futuro. Os que propus desde os três no artigo Deep Adaptation de 2018 foram todos pelo mesmo motivo pelo qual propus aqueles: como incentivar o tipo de reflexões e conversas que não são tão normais nem de uma cultura ou mentalidade progressista nem derrotista. Para esse propósito, agora os considero um conjunto completo, então não vou propor mais.

Escrevi sobre o 5º R de Reapropriação no livro Breaking Together, fiz uma súmula dos 5R´s neste artigo e abordo o 6º R num ensaio sobre Regeneratividade. Como a origem deste framework dentro da consciência ambiental, escolhi representar os 6Rs do Deep Adaptation com um símbolo amplamente reconhecível de vida.