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sexta-feira, 19 de junho de 2026
Sisters of Mercy - Dominion
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terça-feira, 4 de novembro de 2025
Desconstruindo a ideia de "povo lusitano", ou "povo português luso" em detrimento dos "imigrantes".
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| Zigurate em Ur (moderno Tall al-Muqayyar, Iraque). |
Quando a civilização suméria florescia na Mesopotâmia (aproximadamente entre 5.500 e 2.000 a.C.), a Península Ibérica também já era habitada — mas por povos pré-históricos que se encontravam na transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze.
A Mesopotâmia foi uma região localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Atualmente, corresponde aos territórios do Iraque, Irão e Jordânia, no Médio Oriente. O termo mesopotâmia tem origem grega e significa “terra entre rios”, uma referência à sua localização geográfica. Os povos que habitaram a região foram os babilónicos, assírios, sumérios e acádios. Os persas derrotaram os acádios em 539 a.C., encerrando o apogeu dos povos mesopotâmicos. A astronomia e a arquitetura são alguns legados culturais deixados pelos povos que habitaram a Mesopotâmia.
𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 à 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲? 𝗡ã𝗼 𝗲𝘅𝗶𝘀𝘁𝗶𝗮. É𝗿𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗽𝗼𝘃𝗼𝘀 𝗶𝗯é𝗿𝗶𝗰𝗼𝘀 𝐞... 𝐢𝐦𝐢𝐠𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬.
Muitos milénios depois dos mesopotâmicos. Aqui vai um resumo claro do que se passava na Península Ibérica nessa altura:
1. Neolítico Final e Calcolítico (c. 3500–2200 a.C.)As comunidades eram agrícolas e pastoris, com uso de ferramentas de pedra polida e cerâmica.
Começavam a formar-se aldeias permanentes e havia cultivo de cereais, criação de gado e tecelagem.
Surgiam monumentos megalíticos (como antas e dólmens) usados para sepulturas coletivas e rituais.
No sul da Península (especialmente no atual Alentejo, Andaluzia e região de Los Millares), aparecem as primeiras metalurgias do cobre — daí o termo Calcolítico (ou Idade do Cobre).
2. Início da Idade do Bronze (c. 2200–1500 a.C.)Desenvolve-se a metalurgia do bronze (liga de cobre e estanho).
Surgem sociedades mais hierarquizadas, com chefes locais e fortificações.
O famoso sítio arqueológico de Los Millares (Almería, Espanha) é um dos melhores exemplos dessa época.
Mais tarde, o povo de El Argar (também no sudeste ibérico) representa uma cultura avançada com estruturas sociais complexas e trocas comerciais.
Resumindo: Os primeiros povos que habitaram a Península Ibérica foram os iberos e os celtas, que mais tarde se fundiram nos celtiberos. Os iberos eram oriundos de África e estabeleceram-se na região, enquanto os celtas chegaram da Europa Central, trazendo consigo novas técnicas, como a metalurgia do ouro e ferro.
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| Anta de Zedes |
𝐄 𝐨𝐬 𝐋𝐮𝐬𝐢𝐭𝐚𝐧𝐨𝐬? 𝐍ã𝐨 𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐨𝐬 ú𝐧𝐢𝐜𝐨𝐬 𝐩𝐨𝐯𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐚𝐜𝐭𝐮𝐚𝐥
Os Lusitanos foram um dos povos indo-europeu ou pré-celta, formados entre 800 e 600 a.C., que ocuparam a região do Douro e Tejo, sem escrita própria, de organização tribal e rural.
Além dos Lusitanos, também tinham uma implantação muito importante os Túrdulos, Célticos, Cónios, Galaicos (ou calaicos), Gróvios, e Vetões, entre outros que continuam a ser objeto de estudo conforme se realizam descobertas arqueológicas
𝐄 𝐭𝐨𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐩𝐨𝐯𝐨𝐬 𝐞 𝐭𝐫𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥, 𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐛𝐢𝐨𝐥ó𝐠𝐢𝐜𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐟𝐚𝐥𝐚𝐧𝐝𝐨?Eram Homo sapiens, como nós — descendentes das populações que chegaram à Península após o fim da última glaciação (c. 10.000 a.C.).
No entanto, a forma mais segura de averiguar se nós, os humanos modernos, temos ou não antepassados neandertais era sequenciar o genoma destes últimos. Tal conquista, que parecia impossível, foi realizada pelo cientista sueco Svante Pääbo e valeu-lhe o Prémio Nobel em 2022. Sabemos agora que muitos seres humanos transportam – ou transportamos – uma pequena percentagem de genes neandertais nas células. Portanto, há 40 mil ou 45 mil anos, vieram ao mundo crianças mestiças, que teriam pai neandertal e mãe sapiens, ou vice-versa.
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sexta-feira, 16 de maio de 2025
Como apagar um Povo
domingo, 25 de agosto de 2024
Palestina: a agricultura como ato de resistência em Gaza
Beringelas, tomates, pimentos e pepinos continuam a prosperar no meio de explosões de obuses, fósforo branco e drones. É um pequeno milagre que está a acontecer em Gaza: os agricultores mantêm-se firmes perante a ofensiva israelita, que já matou mais de 40.000 habitantes de Gaza e obrigou 2 milhões de civis a fugir.
O colapso da agricultura em Gaza tem como consequência a fome. Em junho, 95% dos habitantes de Gaza, ou seja, 2,15 milhões de pessoas, sofriam de elevados níveis de insegurança alimentar. Dezenas de crianças já morreram de exaustão e fome e 50.000 estão em risco. Antes da guerra, Israel já estava a utilizar a fome como uma arma contra os habitantes de Gaza para os manter constantemente exaustos, subjugados e controlados. Antes de 7 de outubro, 65% dos habitantes de Gaza estavam em situação de insegurança alimentar e os agricultores estavam limitados pelo bloqueio israelita imposto desde 2007.
Israel está a bloquear as importações de equipamento agrícola. Os agricultores têm de se contentar com o que sobreviveu aos bombardeamentos, e a preços exorbitantes. Perante este cenário, algumas associações locais estão a tentar ajudar os agricultores. A APN, com sede em Amã mas com equipas em Gaza, lançou a campanha Revive Gaza's Farmland. Apoiam 162 agricultores fornecendo-lhes sementes, principalmente de legumes para alimentar o maior número de pessoas o mais rapidamente possível: pepinos, tomates, beringelas, curgetes, pimentos, etc..
Segundo dados recentes da ONU, Israel destruiu 57% das terras agrícolas da Faixa de Gaza e arrasou mais de 40% das estufas com bombas e escavadoras. A destruição é muito maior no norte da Faixa e na cidade de Gaza, onde desapareceram quase 90% das estufas. 37 celeiros, 484 explorações avícolas e 397 explorações ovinas foram destruídas, acabando com a infraestrutura agroalimentar de Gaza.
Mahmoud Alsaqqa, diretor de programas da Oxfam em Gaza afirma: "Os palestinianos são resistentes e vamos aguentar. O que precisamos é de um cessar-fogo e do levantamento do bloqueio. E que os habitantes de Gaza recuperem a sua autossuficiência em legumes. Acredito firmemente que lá chegaremos de novo. Hoje em dia, a agricultura é um ato de subsistência, mas também de resistência.”
Philippe Pernot, Reporterre
quarta-feira, 19 de junho de 2024
Calor extremo. Centenas de mortos em peregrinação a Meca
Segundo as atualizações mais recentes da AFP, o número de mortos subiu para 577, mais do dobro do ano passado. Destes, pelo menos 323 eram cidadãos egípcios e, de acordo com as autoridades locais, morreram devido a doenças relacionadas à exposição ao calor.
"Todos morreram de doenças relacionadas com o calor", com exceção de um peregrino que morreu depois de ter sido ferido numa debandada da multidão, disse um diplomata árabe à agência, acrescentando que o número total provém da morgue de um hospital no bairro de Al-Muaisem, em Meca.
Pelo menos 60 jordanos também morreram, mais do que o número oficial de 41 mortos anunciado anteriormente por Amã. Entre as vítimas estarão também cidadãos da Turquia, Indonésia, Irão e Senegal.
As novas mortes registadas elevam o total relatado até agora por vários países para 577, segundo a AFP. Já os diplomatas árabes disseram que o total no necrotério de Al-Muaisem, um dos maiores de Meca, era de 550.
Desconhece-se se as mortes aconteceram depois do início oficial do Hajj, na última sexta-feira, ou se já tinham sido registados falecimentos antes, entre os peregrinos que chegaram com antecedência ao local. Este ano, o Hajj atraiu cerca de 1,8 milhões de peregrinos à Arábia Saudita, sendo a maioria estrangeiros.
Mortes mais que duplicam
Debandadas, incêndios e outros acidentes têm causado centenas de mortes durante a peregrinação anual, nos últimos 30 anos. O número total de mortos durante esta peregrinação muçulmana compara com pelo menos 240 no ano passado, embora a maioria dos países não tenha especificado o número exato de casos relacionados com as elevadas temperaturas.
A peregrinação anual, uma das maiores reuniões religiosas do mundo, realizou-se novamente este ano em pleno verão numa das regiões mais quentes do mundo, com temperaturas que atingiram 51,8 graus Celsius em Meca, a cidade mais sagrada do Islão.
Para a peregrinação deste ano, autoridades locais adotaram medidas para ajudar os peregrinos a suportar o calor no país desértico, incluindo a instalação de nebulizadores na área externa e guardas que iam borrifando água nos fiéis.
O Hajj é um dos cinco pilares do Islão e determina que um muçulmano faça uma peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida, caso tenha condições de fazê-lo. A peregrinação começa com o ritual do "tawaf", que consiste em dar voltas na Kaaba, a estrutura cúbica preta na direção da qual todos os muçulmanos do mundo rezam, localizada no coração da Grande Mesquita.
Depois, os fiéis seguem para Mina, um vale cercado por montanhas rochosas a vários quilómetros de Meca, onde passam a noite em tendas climatizadas. Esta prática é uma fonte de prestígio e legitimidade para a Arábia Saudita, cujo rei leva o título de "Guardião das duas mesquitas sagradas" de Meca e Medina.
Mais de 2.700 casos de exaustão por calor foram registados no domingo, disse o Ministério da Saúde, no final da peregrinação. Já esta quarta-feira, as temperaturas atingiram os 51,8 graus Celsius em Meca.
terça-feira, 18 de junho de 2024
Pelo menos 19 mortos na peregrinação a Meca devido ao calor extremo
Pelo menos 19 muçulmanos morreram e cerca de 2.700 ficaram doentes devido a insolações causadas pelo calor extremo durante a peregrinação do Hajj em Meca, na Arábia Saudita.
Entre as vítimas mortais estão 14 jordanos e cinco iranianos. Outros 17 cidadãos da Jordânia estão desaparecidos, informa o Ministério dos Negócios Estrangeiros do país em comunicado.
Mais de 1,8 milhões de muçulmanos estavam a completar a sua peregrinação de cinco dias quando as temperaturas chegaram aos 48 graus Celsius, de acordo com o Centro Nacional Saudita de Meteorologia.
Os peregrinos aproveitaram as primeiras horas da manhã de segunda-feira para realizar o segundo dia do apedrejamento simbólico do demónio, um dos rituais integrados nas celebrações religiosas.
O apedrejamento dos pilares que representam o demónio tem lugar em Mina, uma planície desértica nos arredores da cidade de Meca. Para esta terça-feira está prevista uma terceira lapidação.
A peregrinação Hajj, um dos maiores encontros religiosos do mundo, é um dos cinco pilares do Islão. Todos os muçulmanos devem fazer o Hajj de cinco dias pelo menos uma vez na vida, se tiverem condições físicas e financeiras para tal.
Durante o Hajj do ano passado, pelo menos 240 pessoas - muitas das quais oriundas da Indonésia - morreram, de acordo com os números anunciados por vários países, que também não especificaram as causas das mortes.
Em 2023, foram registadas mais de 10 mil doenças relacionadas com o calor, 10% das quais por insolação, disse um funcionário saudita à AFP esta semana.
terça-feira, 16 de abril de 2024
José Goulão – o sionismo explicado pelos sionistas. Como pensa e age a “raça pura”
Os árabes e muçulmanos… Sempre os árabes e muçulmanos culpados por tudo de mau que acontece aos judeus, a começar por quererem manter-se numa terra que não lhes pertence, uma vez que, voltando a citar o ex-primeiro-ministro israelita Naftali Bennet em 2022, «ainda vocês trepavam às árvores já nós tínhamos um Estado». Esta é uma das essências do sionismo e do seu racismo fundamentalista. Não é que existam formas benignas de racismo mas, tal como o regime de apartheid – cujo ideólogo, Cecil Rhodes, foi tão enaltecido pelo fundador do sionismo –, a teoria e prática em que assentam o Estado de Israel são um caso extremo e psicopata de racismo cultivado num ambiente doentio em que se cruzam aberrações teológicas, a crueldade mística e sádica emanando do Antigo Testamento, os mitos do «povo escolhido» e da «terra prometida» encarados como preceitos divinos a respeitar acima de quaisquer leis terrenas e das decisões tomadas pelos humanos não-judeus, que afinal existem «apenas para nos servir».
À resultante desta mistela de elucubrações tonificadas por uma ficção delirante na qual o ser humano que não seja «judeu» é a menor das preocupações do deus do sionismo, chama o Ocidente colectivo «a única democracia do Médio Oriente».
A função de Israel como um «polo da civilização no meio da barbárie», ou seja, o argumento que está na base do papel colonial e imperial geostratégico que o regime de Telavive continua a desempenhar, com a crueldade inerente, vem dos primórdios do sionismo; isto é, a componente mística e a nova cruzada na Palestina tiveram também no bojo os interesses económicos, financeiros e o controlo de rotas comerciais e matérias-primas dos poderes mundiais dominantes, na altura o Império Britânico. Não é por acaso que este assumiu o mandato internacional da Palestina, preparando o terreno para que o papel de colonizador transitasse para o sionismo.
Theodor Herzl especificou, no seu trabalho fundador, que um Estado judaico construído pelo sionismo será «um muro de defesa da Europa na Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie (…) pelo que a Europa deverá garantir a nossa segurança». Herzl tinha, por certo, veia de «profeta», embora sem o mérito dos de antanho porque o desfecho era previsível perante um quadro de relação de forças tão definido como o da época, tal como o actual – embora este seja bem mais periclitante. Aliás, Joseph Biden parece ter herdado uma costela de Herzl: nos anos oitenta, quando ainda não era guiado pelos auriculares e pelo teleponto, dizia que «o Estado de Israel se não existisse teria de ser inventado».
Não é por acaso que o actual presidente dos Estados Unidos se define como «um cristão sionista». O sionismo assegura os interesses terrenos dominantes; a religião, que afinal pode não ser apenas a judaica, garante a mistificação da História e das realidades próprias do colonialismo, quando não do fascismo, independentemente das épocas. Um singelo exemplo doméstico: D.ª Lucinda Ribeiro Alves, uma fundadora do Chega, diz-se uma «evangélica cristã sionista», além de seguidora de Bolsonaro.
O sionismo é uma doutrina doentia, aberrante, oportunista e violenta que não pode, nem deve, ser confundida com o judaísmo e a cultura hebraica, muito menos com os povos semitas. O sionismo, seguindo a teoria e a prática dos seus mentores, é uma ideologia antissemita. David Ben Gurion, considerado o fundador do Estado de Israel, que se considerava laico e trabalhista, não deixou dúvidas quanto a isso ao afirmar que «as considerações sionistas prevalecem sobre os sentimentos judaicos e quando o digo não faço mais do que ter em conta os preceitos sionistas».
Os conceitos de «raça pura» e «povo escolhido» elevam, porém, o Estado de Israel para um patamar transcendente; são conceitos assustadores a todos os níveis e sob quaisquer perspectivas porque sustentam uma entidade supostamente dotada de imunidade, impunidade e de uma missão escatológica associada ao fim do mundo, o Armagedão, a luta final entre o bem e o mal biblicamente programada para o lugar de Meggido, por sinal no interior do território israelita. Não se creia que estamos apenas perante delírios místicos. Ariel Sharon, criminoso de guerra com o sangue dos mártires de Sabra e Chatila nas mãos e ex-primeiro ministro de Israel, garantiu numa entrevista ao jornal britânico Guardian que, em caso de confrontação limite no planeta, «temos capacidade para destruir o mundo e garanto que isso acontecerá antes de Israel se afundar».
Sharon nunca foi conhecido por ter muita garganta e ser um fanfarrão.
«Um projecto nacionalista, mais nada»
Sionismo e racismo são indissociáveis. Assentam na ficção mística e têm como objectivo terreno a expansão do poder judaico de origem europeia, dotado de um estatuto civilizacional e humanista de que o Ocidente colectivo se declarou proprietário, através de vastas zonas de influências económicas, estratégicas e, sobretudo, militares do Médio Oriente.
Pode dizer-se que o Estado de Israel é um pequeno território. Pode até acrescentar-se um desabafo da antiga primeira-ministra sionista Golda Meir: «A única coisa que tenho contra Moisés é ele ter andado 40 anos no deserto para nos conduzir ao único lugar no Médio Oriente que não tem petróleo. Se Moisés tivesse virado à direita em vez de ter virado à esquerda teríamos petróleo e os árabes areia».
O errado palpite geográfico de Moisés, no entanto, é uma coisa que se corrige. Segundo a mesma Golda Meir, «a fronteira de Israel é onde os judeus vivem, não onde existe uma linha no mapa».
Considerações afins já tinham sido proferidas por Ben Gurion vinte a trinta anos antes ao enunciar o dogma de que «a pedra de toque do sionismo é a verdadeira colonização conduzida por judeus em todas as regiões da Terra de Israel», um conceito que então ainda deixou em aberto. Posteriormente o primeiro primeiro-ministro de Israel avançou na especificação dessa ideia, embora sem desvendar ainda totalmente o jogo, ao declarar que «o Estado será apenas uma etapa na realização do sionismo e a sua tarefa é preparar a expansão; o Estado deverá preservar a ordem não apenas pregando a moralidade mas também com metralhadoras, se necessário».
Dito e feito. No «protocolo de governo» quando se tornou primeiro-ministro, em 1948, Ben Gurion estabeleceu que «devemos partir para a ofensiva com o objectivo de esmagar o Líbano, a Transjordânia (actualmente Jordânia) e a Síria». Citado pelo Times of Israel, o lendário dirigente sionista e israelita desvendou a sua estratégia militar: «quando bombardearmos Amã eliminaremos também a Cisjordânia e então a Síria cairá; sem qualquer esforço militar especial que ponha em perigo as outras frentes, apenas usando as tropas já designadas para essa tarefa, poderemos limpar a Galileia», no norte do território actual de Israel até à fronteira com o Líbano, o que implicou a expulsão de pelo menos 100 mil palestinianos. Ben Gurion «limpou» a Galileia, é certo, mas outras alíneas do programa continuam por cumprir – percebendo-se, no entanto, que não foram retiradas do pacote de ambições sionistas.
Num conselho ao então jovem oficial Ariel Sharon, dado no seguimento do massacre na aldeia de Qibya em 1953 – chacina de 70 pessoas, dois terços das quais eram mulheres e crianças, não faltaram mestres aos genocidas de agora em Gaza – Ben Gurion disse que «a única coisa que interessa é podermos existir aqui na terra dos nossos antepassados; e que mostremos aos árabes que há um alto preço a pagar pelo assassínio de judeus». «Existir» nesta terra, de acordo com o pensamento do primeiro chefe de um governo israelita, significa «que devemos aceitar as fronteiras de hoje, mas os limites das aspirações sionistas são uma questão do povo judaico e nenhum factor externo será capaz de limitá-lo». Palavras que são todo um inequívoco programa político-militar genocida, ignorando deliberadamente o direito internacional.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2023
Novo governo de Israel representa um retorno às raízes fascistas
Com a posse do governo de extrema direita de Israel, o sionismo finalmente abraçou a ideologia fascista que inspirou os principais setores do movimento durante seus anos de formação há um século.
No mês passado, Israel iniciou o que é, de fato, o primeiro governo fascista em sua história.
O Estado de Israel foi o produto do movimento nacionalista judeu oriundo da violência antissemita da Rússia czarista do final do século XIX e início do século XX. Grande parte do mundo, incluindo as comunidades judaicas europeias, se manteve impotente enquanto as milícias cossacas organizadas e outros pogromistas se multiplicavam através dos shtetls judeus ucranianos violando, pilhando e assassinando dezenas de milhares de judeus indefesos.
Um idealista jornalista húngaro desenvolveu um plano para salvar os judeus da Europa Oriental, ameaçados de extinção. Theodore Herzl previu que a pátria judaica se tornaria uma nação próspera para esses milhões, que de outra forma seriam destinados à penúria, privação e morte. Em vez de esperar que o czar e seus capangas selaram o destino desses judeus, Herzl idealizou um êxodo em massa dos judeus dessas terras de aflição para um novo estado que os aguardava.
No início, Herzl viu este estado como um paraíso para os judeus da Europa Oriental que enfrentavam uma grave ameaça. Mas, mais tarde os líderes sionistas desenvolveram uma visão muito mais ampla do futuro, na qual todos os judeus escolheriam ou seriam forçados pela violência sistêmica a buscar refúgio e construir um Estado na Palestina.
O sionismo, na verdade, negou toda a existência de uma diáspora judaica, alegando que os judeus estavam condenados à destruição diante do ódio esmagador dos “gentios”. Este princípio ficou conhecido na ideologia sionista como “negação do exílio“. Seu corolário era um “retorno à história“, significando que o sionismo representava um retorno do povo judeu ao seu legítimo lugar físico e espiritual na terra bíblica de Israel. Isso significava também uma regularização dos judeus, para que em vez de serem fracos, sem esperança e à margem das sociedades diásporas, eles pudessem estar no centro e no controle de seu destino. Esse projeto logo se tornaria bem sucedido — tão bem sucedido que, em muitos aspectos, viria a se assemelhar ao fascismo.
Sionismo e socialismo
Desde o início, o movimento nacional judeu quase ofereceu uma resposta à questão de governar a nova política judaica. A abordagem que dominou as primeiras oito décadas do movimento refletia o modelo socialista, que havia prevalecido na Rússia pós-tsarista e em grande parte da Europa Oriental.
O processo revolucionário que precedeu a revolução bolchevique de 1917 teve um profundo impacto sobre os judeus que aderiram ao movimento sionista. Eles abraçaram valores socialistas e procuraram incorporá-los à nova colônia hebraica: isto é, o valor global do trabalho e do trabalhador; ou, na terminologia da época, “trabalho hebraico“. Talvez o principal exemplo disso tenha sido o movimento coletivista agrícola kibbutz. Eles também exigiam a formação de empresas estatais e a nacionalização da economia, incluindo as principais indústrias.
O oposto do Sionismo socialista era o Revisionismo. Seu fundador, Ze’ev Jabotinsky, defendeu uma forma de nacionalismo judeu militante. Como os socialistas, Jabotinsky era um filho de judeus do Leste Europeu. Mas ele rejeitou os argumentos de Karl Marx e Friedrich Engels. Em vez disso, ele tomou como seu modelo os movimentos populistas e fascistas em ascensão na Itália e na Alemanha. Benito Mussolini era especialmente do seu agrado: ele não tinha ideias explicitamente antissemitas, como Adolf Hitler tinha claramente. Como seu ídolo italiano, Jabotinsky projetou o poder judaico e uma nação judaica unida com a intenção de alcançá-lo.
Ele entendeu que os “árabes palestinos”, como eram chamados, não queriam fazer parte da nova colônia judaica. Ele reconheceu que os judeus eram colonizadores e que seria necessário usar a força para reprimir sua oposição. Nada poderia, a seu ver, impedir o projeto nacional judaico.
Em “O Muro de Ferro” (1923), ele expressa seu desdém pelos habitantes locais:
Culturalmente, eles [árabes palestinos] estão 500 anos atrasados, não têm nossa resistência nem nossa determinação; mas são tão bons psicologicamente quanto nós. . . . Podemos dizer a eles o que quisermos sobre a inocência de nossos objetivos, enfraquecendo-os e adoçando-os com palavras melosas para torná-los palatáveis. Mas eles sabem o que nós queremos, assim como nós sabemos o que eles não querem. Eles sentem pelo menos o mesmo amor instintivo pela Palestina, que os velhos astecas sentiam pelo México antigo, e os Sioux por suas pradarias ondulantes.
No ensaio, ele sugere que existem apenas duas formas de criar o Estado que ele prevê: ou a imposição por potências coloniais, como os britânicos, que promulgaram a Declaração Balfour, exigindo a criação de uma “pátria judaica”, ou pelos próprios sionistas através da força, na forma de um exército judeu. Ele argumenta ainda que é inútil tentar chegar a um acordo com os palestinos. Nenhum compromisso, nenhum entendimento, é possível. Esta tem sido a política dos governos de direita do Likud israelense dos últimos 50 anos.
Jabotinsky prosseguiu:
A colonização sionista deve parar ou então prosseguir, independentemente da população nativa. O que significa que ela pode prosseguir e se desenvolver somente sob a proteção de um poder independente da população nativa – atrás de um muro de ferro, que a população nativa não pode romper…
Não podemos oferecer nenhuma compensação adequada aos árabes palestinos em troca da Palestina. E, portanto, não há nenhuma probabilidade de se chegar a qualquer acordo voluntário. Para que todos aqueles que consideram tal acordo como uma condição sine qua non para o sionismo possam também dizer “Não” e retirar-se do sionismo.
Neste assunto, não há diferença entre nosso “militarismo” e nossos “vegetarianos”. Exceto que os primeiros preferem que o muro de ferro seja formado por soldados judeus, e os outros se contentam em serem britânicos.
Em 1939, dois meses após o início da Segunda Guerra Mundial, Jabotinsky imaginou uma ordem caótica do pós-guerra na qual milhões de pessoas seriam arrancadas de suas casas centenárias e forçadas a viver em estados étnicos. Ele – com David Ben-Gurion, que escreveu uma carta de 1937 a seu filho defendendo a transferência da população (ou seja, a limpeza étnica) – argumentou: “Eles [árabes palestinos] terão que abrir espaço para os judeus [sobreviventes] e partir, talvez para a Arábia Saudita, com o apoio de um empréstimo internacional”.
Menos de um ano após a morte de Jabotinsky em 1940, a milícia armada Revisionista que havia sido criada como parte de seu movimento se dividiu. O ramo mais violento e radical fundou Lehi, ou a Organização Militar Nacional de Israel (OMNI), que propôs um acordo com os nazistas no qual os judeus palestinos se tornaram um aliado alemão. Em troca, a Alemanha reconheceria um Estado independente na Palestina.
O documento de Lehi em Ankara previa uma aliança entre o novo Estado e os nazistas, baseada na vitória destes últimos na guerra:
A Organização Militar Nacional de Israel, que foi bem recebida com a boa vontade do governo do Reich alemão e de suas autoridades em relação à atividade sionista dentro da Alemanha e aos planos de emigração sionista, é da opinião que:poderiam existir interesses comuns entre o estabelecimento de uma nova ordem na Europa, em conformidade com o conceito alemão, e as verdadeiras aspirações nacionais do povo judeu, tal como são encarnadas pela Organização Militar Nacional de Israel.
A criação do Estado judeu tradicional numa base nacional e totalitária, vinculado por um tratado com o Reich alemão, seria do interesse de manter e fortalecer a futura posição de poder da Alemanha no Oriente Próximo.
Seria possível a cooperação entre a nova Alemanha e um novo hebraico folclórico nacional,
Partindo destas considerações, a Organização Militar Nacional de Israel, sob a condição [de] que as aspirações nacionais acima mencionadas do movimento de liberdade israelense sejam reconhecidas do lado do Reich alemão, se oferece para participar ativamente da guerra do lado da Alemanha.
O termo em itálico acima foi traduzido originalmente do alemão, völkisch-nationalen Hebräertum, como hebraico popular-nacional. Mas creio que os autores Lehi desta proposta procuraram alinhar sua própria visão nacional com a Alemanha nazista e que poderíamos traduzir a frase como um nacional-socialismo hebraico. Apesar de não declarado, este novo Estado militantemente nacionalista trataria a população palestina de forma semelhante ao que era feito com os judeus alemães antes que a política explícita de genocídio fosse promulgada.
Os alemães falharam em cumprir a promessa. Mas isso não abalou a ambição de Lehi de atacar seu inimigo imperial. Em 1943, o futuro primeiro-ministro Yitzhak Shamir comandou uma conspiração que levou ao assassinato do principal diplomata britânico no Cairo, Lord Moyne.
Ao contrário dos guerrilheiros europeus (incluindo judeus da Europa Oriental) que estavam matando soldados alemães, os revisionistas viram seu único inimigo como sendo os britânicos. Os nazistas, no que lhes dizia respeito, eram uma forma de terminar o mandato e conquistar a independência nacional.
Mas à medida que viam a guerra mudar a favor dos Aliados, Lehi se voltou cada vez mais para outro estado totalitário: a União Soviética de Joseph Stalin. Na verdade, os judeus-militantes começaram a usar a frase “bolchevismo nacional hebraico” (um eco inverso do völkisch-nationalen Hebräertum) para descrever sua própria visão para o futuro Estado sionista. Esta vertente do Revisionismo não tinha nenhuma fidelidade absoluta a nenhuma das ideologias. Ela abraçava qualquer uma que parecesse provável sair vitoriosa na época pós-guerra: o vencedor seria aquele que melhor poderia avançar o objetivo do Revisionismo de estabelecer um estado.
Mas havia um princípio subjacente comum a ambos os sistemas: um modelo totalitário de controle estatal nas esferas política, econômica e até individual.
Religião e Fascismo
As versões do fascismo do século XX variaram em sua abordagem em relação à religião. Hitler e Mussolini não procuraram especialmente incorporá-la em suas próprias filosofias políticas. Por outro lado, a Espanha de Francisco Franco, o Ustaše croata e a Guarda de Ferro romena eram – e a Rússia de Vladimir Putin é hoje – estados nacionalistas cristão-étnicos. Da mesma forma, uma espécie de fundamentalismo teocrático reina agora no governo israelense atual.
O revisionismo, como a marca do fascismo de Mussolini, era um movimento inteiramente secular. Na verdade, ele, e grande parte do movimento sionista, rejeitou o judaísmo como uma relíquia da diáspora e do sofrimento do passado judaico. O “hebraico”, como uma referência ao Novo Homem Judaico, era para substituí-lo.
Mas depois de 1967, o movimento Grande Israel, inspirado pelo nacionalismo messiânico do rabino Avraham Kook, integrou a supremacia religiosa com o nacionalismo secular. Isto, por sua vez, deu origem ao movimento dos colonos, o movimento político mais influente desde a fundação do Estado. Os dois, combinados, tornaram-se um fenômeno muito mais poderoso do que eram separadamente. Assim, as forças israelenses que saíram vitoriosas nas últimas eleições representam uma combinação do talibanismo judeu e do fascismo europeu.
O sionismo e o Holocausto
A reivindicação do sionismo do início do século XX, de que a diáspora judaica estava condenada devido ao antissemitismo histórico das nações, previa o Holocausto. Foi um aviso premonitório contra confiar na Diáspora como sendo seguro para a vida judaica.
Mas, surpreendentemente, o Yishuv, a autoridade governante da Palestina, pouco fez para resgatar os judeus europeus durante este período catastrófico. Ao contrário dos judeus americanos e britânicos, o Yishuv concentrou-se na construção da colônia palestina e na sua preparação para o estado independente. Mesmo quando os sionistas tentaram salvar os judeus (como no Acordo de Haavara para trazer judeus alemães para a Palestina), eles o fizeram somente quando isso pôde beneficiar diretamente os Yishuv.
Por que os sionistas na Palestina estavam dispostos a deixar os judeus europeus à sua sorte? O sionismo argumentou que um Estado-nação oferecia os meios para acabar com o sofrimento judeu e garantir a sobrevivência do povo judeu. Mas era mais do que um meio – para os sionistas, era o único meio. A vida judaica fora daquele estado, segundo eles, estava condenada à aniquilação ou ao desaparecimento por assimilação. A assimilação dos exilados significava, com efeito, o definhamento de todos os judeus fora de seu estado.
Uma construção ideológica tão rígida constituía, em si, uma forma de supremacia israelense e de negação da diáspora – um discurso do coração do mundo judaico que era o único caminho para a sobrevivência. Todos os outros eram, na melhor das hipóteses, uma distração da soberania judaica e, na pior das hipóteses, um impedimento e, portanto, um perigo para ela.
Os sionistas abriram uma exceção ao princípio. Eles viram um benefício chave para manter uma relação com a diáspora. Líderes como o primeiro-ministro fundador Ben-Gurion confiaram em países ricos como os Estados Unidos para financiar projetos militares caros, como o programa de armas nucleares. Eles também compreenderam a necessidade de aliados poderosos para armá-los e oferecer apoio político diante de seus inimigos árabes. A fundação do lobby de Israel com a incorporação do Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (CAAPI) em 1953 foi outro desenvolvimento crítico para as relações Israel-Diáspora.
No entanto, Israel nunca viu a diáspora judaica como um parceiro pleno. Ao contrário, a diáspora sempre foi um enteado, um espetáculo paralelo do povo judeu. Este conflito fundacional entre as duas principais frações da diáspora judaica mundial foi, durante décadas, marcado por protestos de amor e lealdade ao empreendimento sionista por parte de muitos judeus da diáspora.
Mas com o tempo, tornou-se uma fenda cada vez maior e talvez irreparável, à medida que Israel se afastou dos valores democráticos de grande parte dos judeus do mundo e abraçou a supremacia judaica, uma versão do judaísmo que defende o poder absoluto e o triunfalismo sobre os valores dos profetas bíblicos.
Apesar de prever o caos que se abateu sobre o judaísmo europeu, o sionismo, de fato, entendeu uma coisa muito errada: a diáspora não era um beco sem saída.
Apesar do assassinato de seis milhões de judeus, a diáspora não só sobreviveu como prosperou. E sobreviveu não suprimindo a identidade judaica para assimilar com o mundo não-judeu, mas incorporando-se, suas tradições e seus valores dentro da sociedade ( não-judaica) e da cultura popular.
Este é um sucesso que venceu o dogma sionista. Levou a uma relação esquizóide: a diáspora, de acordo com o sionismo clássico, eventualmente vai desaparecer. Mesmo que tenha sobrevivido, Israel deveria se manter independente dele e ficar de pé. No entanto, a diáspora prospera e até oferece centenas de bilhões a Israel através da filantropia da comunidade e da ajuda dos EUA.
Enquanto isso, a Diáspora judaica tem apostado em uma identidade independente, cada vez mais em desacordo com Israel, tanto política quanto religiosamente. O primeiro é em grande parte secular, progressista e democrático – valores que se tornaram anátema no novo Israel fascista. A nova agenda da homofobia, da violência em massa e da supremacia judaica confronta as comunidades judaicas estrangeiras com um dilema preocupante. Enquanto os líderes das comunidades estão acorrentados a seu tradicional apoio a Israel, os judeus de posição são afastados de um fenômeno que os repele e enojam.
Israel: O Fascismo Ascendente
O fascismo encontra sua origem no sofrimento. A Alemanha foi derrotada na Primeira Guerra Mundial e encarregada de um tratado de rendição que impunha uma dívida punitiva, levando ao colapso econômico. Como resultado, os alemães alimentaram um profundo ressentimento contra a França e as outras potências europeias, que lhes impuseram um fardo insuportável. O movimento nazista explorou este ressentimento e ofereceu aos alemães orgulho e esperança, com um desejo de vingança por sua humilhação nacional.
Como os primeiros anos de Hitler no deserto político cheio de aprisionamento e obscuridade, o Revisionismo também foi difamado pela parte dominante da facção sionista socialista antes de 1948. Passou décadas depois às sombras, visto em grande parte como uma relíquia histórica. Esses insultos alimentaram um sentimento de ressentimento contra a elite governante trabalhista. No entanto, o Revisionismo não morreu.
A chama do Jabotinskyismo permaneceu acesa nos corações de discípulos como Benzion Milikovsky, que serviu como secretário pessoal de Jabotinsky nos Estados Unidos até a morte de Jabotinsky em 1940. Depois disso, Milikovsky retornou a Israel. Mas Menachem Begin havia assumido a liderança política, e Milikovsky não tinha nenhum papel para desempenhar. Ele voltou ao exílio que impôs a si mesmo nos Estados Unidos como um acadêmico, vivendo uma vida cheia de ressentimentos pela frustração de seus objetivos. Mas seus dois filhos mudaram o nome da família para Netanyahu, e nasceu uma nova lenda hebraica.
O Kahanismo na corrente principal israelita
A figura política fascista israelense mais influente do último meio século foi o rabino Meir Kahane, nascido no Brooklyn. Ele começou sua carreira política adotando o movimento judaico soviético nos anos 1960, que buscava permitir que os judeus perseguidos emigrarem.
A Liga de Defesa Judaica (LDJ), que ele fundou em 1968, tornou-se o primeiro grupo terrorista judeu na história dos EUA. Ela traficava armas e preparava explosivos, usando violência extrema para engrandecer sua causa: a JDL conspirou para bombardear edifícios soviéticos nos Estados Unidos e enviou uma carta-bomba ao escritório de um empresário judeu que produziu eventos para artistas russos, matando um empregado do escritório.
O outro grande impulso da JDL foi uma campanha racista contra um grupo de pais em grande parte afro-americanos e porto-riquenhos na região de Ocean Hill-Brownsville, no Brooklyn, que buscava o “controle comunitário” de suas escolas públicas locais em 1968. O sindicato dos professores respondeu convocando uma greve. A maioria dos professores e líderes sindicais eram brancos e judeus, o que provocou ataques antissemitas por parte da comunidade. Kahane, embora dificilmente fosse um líder do movimento sindical, estava determinado a ir para a guerra, procurando transformar a batalha política no equivalente a uma campanha de guerrilha.
Depois que ativistas da JDL foram presos sob acusações de porte de armas e o FBI desmantelou sua rede criminosa, Kahane fugiu dos Estados Unidos para Israel. Lá, o principal alvo de seu racismo passou dos afro-americanos para o que ele chamou de “os árabes”.
Nos anos 1980, ele fundou o partido político Kach, tendo em sua agenda muitas das leis de Nuremberg. Foi preso várias vezes por incitar ao terror pela polícia israelense. Após ganhar um assento no Knesset, Kahane foi expulso e Kach foi proscrito como uma organização terrorista em 1988, classificação mantida pelo governo dos EUA até 2023.
Ironicamente, os Estados Unidos retiraram Kach da lista negra porque já não existia há várias décadas. Mas logo depois disso, o partido declaradamente Kahanista, o Poder Judaico, obteve uma vitória surpreendente nas eleições nacionais.
Kahane foi assassinado por um egípcio muçulmano em Nova York, em 1990. Mas em vez de desvanecer-se no obscurantismo, ele se tornou um profeta do fascismo israelense. A agenda do novo governo israelense reflete a filosofia política de Kahane.
Kahane era obcecado pela pureza racial judaica e insistia na estrita separação entre judeus e “árabes”. Ele especialmente se opunha às relações entre os judeus e os “árabes”. Os nazistas também defendiam a pureza da “raça ariana”, proibindo as relações sexuais entre alemães e judeus. Líderes de alguns dos mais extremos partidos religiosos israelenses também se insurgem contra os “árabes” que, em seu relato, atraem mulheres judias para relações sexuais, para convertê-las ao islamismo.
Em sua época, Hitler exigiu um boicote às empresas judaicas e pressionou os cidadãos para patrocinarem as lojas alemãs. Da mesma forma, importantes políticos israelenses pediram que os judeus não fizessem compras em empresas palestinas nem contratassem palestinos para trabalhar em suas próprias lojas.
Kahane viu os palestinos como uma quinta coluna cujo objetivo era a destruição do “Estado judaico”. Isto é paralelo aos nazistas que, antes da Conferência Wannsee de 1943, apoiaram a emigração de judeus da Europa como uma solução para o “problema judeu”. Kahane também exortou à expulsão em massa dos palestinos de Israel. Itamar Ben Gvir, por outro lado, se diferencia de seu mentor, Kahane, ao exigir a expulsão de apenas cidadãos palestinos “desleais”.
Assim como os nazistas usaram a violência em massa em seu caminho para o poder, visando judeus e outros inimigos políticos, Ben Gvir e seus aliados colonos usam as mesmas táticas, incluindo incêndio criminoso, profanação de locais sagrados muçulmanos e até mesmo assassinato. Todos os anos, ele marcha através de Jerusalém Oriental Palestina com dezenas de milhares de extremistas religiosos cantando “Morte aos árabes”.
Antes do assassinato do Primeiro-ministro do Trabalho Yitzhak Rabin em 1995, Gvir gabou-se de que ele e seus colegas poderiam “chegar” ao Primeiro-ministro. Apenas semanas depois, Yigal Amir, um radical de extrema-direita que tinha muitos ideais nacionalistas de Ben Gvir, assassinou Rabin.
Kahane denunciou a democracia ocidental e disse que o judaísmo era incompatível com ela. Ele defendeu, ao invés disso, uma teocracia baseada na supremacia da lei religiosa. Os partidos ortodoxos israelenses, a maioria dos quais estarão no novo governo israelense, preferem um estado teocrático governado pela lei religiosa (halakha) à democracia. Embora tenham sido eleitos e serviram no Knesset, eles exploram a democracia para manter os extravagantes benefícios fiscais derramados pelos cofres do Estado sobre seus seguidores. Eles legislam para impor o halakha ao país.
Os nazistas transformaram a Alemanha em um Estado de partido único com um aparato de polícia que reprimiu impiedosamente a dissidência da SS. Também erradicaram tipos “desviantes” como homossexuais, comunistas e judeus e os enviaram para campos de concentração. O sistema legal e judiciário alemão era subserviente ao nazismo, tendo perdido qualquer tipo de independência.
O novo governo israelense planeja aprovar uma lei que se sobrepõe a qualquer decisão da Suprema Corte a que se oponha. Isso será feito com uma maioria simples de votos no Knesset. Isto, observaram analistas políticos israelenses, destruirá o Estado de Direito e, na verdade, desmantelará um Judiciário independente.
O sistema jurídico de Israel consagra a impunidade para crimes contra palestinos por parte das autoridades estatais. O promotor de justiça do Estado se recusa rotineiramente a processar soldados e policiais que executam palestinos – às vezes militantes, mas muitas vezes também civis desarmados. Quase todas as queixas de tortura de palestinos nas mãos de interrogadores da polícia são descartadas. As prisões de segurança palestinas são acusadas de crimes de segurança em quase 100% dos casos.
Similar ao estado policial nazista, Israel mantém um sistema draconiano de vigilância em massa contra a Palestina ocupada que inclui interceptação de todas as formas de comunicação, instalação de milhares de câmeras CCTV monitorando todas as cidades, e prisões noturnas de suspeitos da segurança, muitas vezes acompanhadas pelo assassinato de palestinos que protestam contra as invasões das tropas israelenses.
Assim como Hitler aterrorizou os judeus alemães com pogroms organizados como Kristallnacht, que saquearam empresas judaicas e queimaram sinagogas históricas no chão, Ben Gvir e muitos no movimento colonizador israelense sonham em destruir o terceiro santuário mais sagrado do Islã, o santuário de Jerusalém al-Ḥaram al-Sharīf, e substituí-lo por um Terceiro Templo reconstruído.
Na verdade, no início desta semana, ele cumpriu um compromisso de campanha com seus seguidores, fazendo uma “peregrinação” ao que ele considerava o Monte do Templo. Ele ficou apenas treze minutos: tempo suficiente para filmar um vídeo que se vangloriava da soberania israelense sobre o local sagrado. Em seguida, ele foi levado pelas forças de segurança. Em 2000, Ariel Sharon fez a mesma visita, o que provocou a raiva entre os palestinos. Isso deu início à Segunda Intifada, na qual morreram seis mil israelenses e palestinos.
O mundo condenou universalmente a provocação de Ben Gvir. Um dos aliados árabes mais próximos de Israel, os Emirados Árabes Unidos, exigiu uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas para protestar contra a visita. O rei Abdullah da Jordânia, guardião dos locais sagrados de Jerusalém, disse à CNN: “Se as pessoas quiserem entrar em conflito conosco, estamos bem preparados”. . . Traçamos certas linhas vermelhas… . . E se as pessoas quiserem forçar essas linhas vermelhas, então vamos cuidar disso”. O governo de Joe Biden, infelizmente, achou por bem apenas expressar “preocupação” por uma violação do status quo religioso no local sagrado.
O Novo Governo Fascista-Teocrático de Israel
As brasas do fascismo israelense têm ardido sob Israel por pelo menos 70 anos, se não mais. O antissemitismo da virada do século XX pode ter acendido um fósforo que impulsionou a fundação do sionismo. Mas hoje, o fascismo sionista, que acompanhou e sustentou o sionismo quase desde seu início, explodiu em chamas com a estrondosa vitória eleitoral de novembro.
Antes da eleição israelense de novembro, um bando de líderes colonos formou o Partido do Poder Judaico (a frase “Poder Judaico” remete ao fundador do fascismo israelense, Kahane) e conquistou seis cadeiras no novo Knesset, concorrendo em uma lista conjunta com os partidos religiosos sionistas de extrema-direita e Noam; a lista conquistou um total de catorze cadeiras. Isto proporcionou a Benjamin Netanyahu uma vitória estrondosa e os votos necessários para uma maioria. Mas a vitória tem um custo.
Os líderes desses partidos extremistas são criminosos políticos virtuais. O líder do Partido do Poder Judaico, Ben Gvir, é um discípulo de Kahane que se refere ao falecido terrorista usando expressões como “meu Rebbe”. Ben Gvir já foi condenado por incitação ao terrorismo cinquenta vezes. Ele também é o líder das milícias mais extremistas dos colonos, Hilltop Youth, que passaram por aldeias palestinas destruindo propriedades e até queimando uma família até a morte.
Seu parceiro principal, o líder do Partido Religioso Sionista Bezalel Smotrich, foi preso pelo Shin Bet com um explosivo em seu carro. Ele tinha a intenção de cometer um ataque terrorista para protestar contra a retirada de Israel de Gaza.
Sob o próximo acordo da coalizão, Ben Gvir se tornará ministro da polícia, responsável pelos próprios policiais que o investigaram por seus crimes passados. Ele também comandará a Polícia de Fronteira de Israel, uma das forças mais violentas para aterrorizar os palestinos.
Smotrich será responsável pela Coordenação das Atividades Governamentais nos Territórios (COGAT), a gestão militar para os territórios ocupados. A partir de seu posto, Smotrich vai administrar todos os assentamentos israelenses, inclusive os postos avançados que, até agora, têm sido ilegais. Como escreve um colunista de Haaretz, eles não são extremistas – eles são “incendiários políticos”.
Outro rabino que faz parte do novo governo lidera um partido cuja missão declarada é destruir os direitos LGBTQ. Ele pede especificamente o cancelamento do desfile anual do orgulho gay. Vai liderar uma nova unidade do Ministério da Educação responsável por atividades extracurriculares como programas de ciência e arte. Vai controlar o acesso às escolas e proibir as ONGs da sociedade civil de oferecer programas que ele considere condenáveis.
A nova coalizão governamental vai tentar eliminar o máximo possível de vestígios de democracia, para substituí-los por um estado teocrático governado pela Torah, em vez de uma legislação laica. Fundirá o fundamentalismo religioso com o poder político puro para formar o primeiro governo judaico-fascista da história da nação.
Fascismo e Palestinianos
Embora a fundação de um Estado como um paraíso para judeus perseguidos possa ter oferecido segurança a centenas de milhares de judeus sujeitos a pogroms, o sionismo nunca contou com os povos palestinos da terra, que pretendia que fosse a pátria judaica. Esta recusa levou inexoravelmente ao conflito entre os dois povos e eventualmente à guerra total e ao Nakba.
Sete décadas de ódio e sangue-frio permanente, por sua vez, azedou os israelenses em qualquer acordo que envolvesse o comprometimento das aspirações do país. Na medida em que identificaram tal disposição de compromisso com o Partido Trabalhista, eles rejeitaram o partido e a agenda política que ele representava. Isto, por sua vez, levou à vitória do Likud em 1977 e seu domínio das próximas quatro décadas da política israelense.
Durante esse período, os sucessores de Jabotinsky se voltaram progressivamente mais à direita, até hoje são quase uma pura encarnação do fascismo clássico. Assim, eles retomam as tradições mais violentas e totalitárias de Lehi.
O fascismo venceu em Israel. Agora, ele vai provocar uma devastação santa tanto nos israelitas – que podem nem mesmo perceber seu impacto sobre eles — quanto nos palestinianos, que estão cientes demais dessa devastação em sua própria carne e ossos.
Sobre os autores
Richard Silverstein escreve para o blog Tikun Olam, onde cobre o estado de segurança nacional israelita. Contribuiu para a coleção de artigos, A Time to Speak Out: Independent Jeweish Voices on Israel, Zionism and Jewish Identidy e Israel and Palestine: Alternate Perspectives on Statehood.
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domingo, 15 de maio de 2022
Música do Bioterra: Coldplay - When I Need A Friend
[Verse]
Holy, Holy
Dove descend
Soft and slowly
When I'm near the end
Holy, Holy
God defend
Shield me, show me
When I need a friend
[Chorus]
Slowly, slowly
Violence, end
Love reign o'er me
When I need a friend
[Outro: Don Agustín]
Hombre, mire
Ah, propiamente
Para toda la gente ha sido motivo de burla
Por que todo el mundo piensa que es una cosa imposible
Que es cuestión de locos
El problema es que todo es increíble
Y la gente no lo acepta
Em "When I Need A Friend", do Coldplay, a presença do trecho em espanhol ao final da música adiciona uma dimensão importante ao seu significado. A fala de Don Agustín, que dedicou sua vida a um sonho considerado impossível, reforça a ideia de que a fé e a esperança muitas vezes são vistas como loucura por quem não entende a profundidade dessas motivações. Isso conecta a busca espiritual da letra à resiliência diante do julgamento e da incompreensão dos outros.
Baseado no documentário Everything Is Incredible, que conta a história sobre o falecido Don Agustín López Pacheco
A letra principal traz versos como “Holy, Holy / Dove descend / Soft and slowly / When I'm near the end” (“Santo, Santo / Pomba desce / Suave e devagar / Quando estou perto do fim”), usando símbolos religiosos para expressar um pedido de proteção e conforto em momentos de vulnerabilidade. A pomba, símbolo do Espírito Santo e da paz, representa uma força serena e protetora. A repetição de “Holy, Holy” reforça o tom de oração, enquanto “Dark defend / Shield me, show me / When I need a friend” (“Defenda-me da escuridão / Me proteja, me mostre / Quando eu preciso de um amigo”) deixa claro o desejo de amparo diante das dificuldades. O pedido para que “violence end” (“a violência acabe”) e “love reign o'er me” (“o amor reine sobre mim”) amplia o significado da música, sugerindo uma aspiração por paz e amor universais.
Assim, "When I Need A Friend" vai além de um simples pedido de ajuda espiritual. A música se transforma num um hino à coragem de manter a fé e buscar apoio, mesmo quando o mundo duvida ou não compreende.
segunda-feira, 25 de maio de 2020
Holy Land Living Water - Short Film
During the first week of February 2020, UNITY EARTH, URI, EcoPeace, and other partners brought 94 spiritual leaders to the Middle East for a special event "Holy Land Living Water". The group travelled for 7 days to sacred sites in Jordan, Palestine and Israel. The journey was part of the U Day Festival series of events, building on Ethiopia 2008 and Thailand 2012.
Organizadores
To see more from the same film maker Ben Arend Reisman visit: TheDwarf In China
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sábado, 8 de agosto de 2015
Islam: The Untold Story
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Neturei Karta, judeus que apoiam os inimigos de Israel
O movimento ultra-ortodoxo judeu Neturei Karta apoia a causa palestina, em linha com um ferrenho ideário antissionista que o levou a se aproximar de alguns dos maiores inimigos de Israel como Mahmoud Ahmadinejad e Yasser Arafat.
Uma recente visita solidária à Faixa de Gaza, após a ofensiva israelita de novembro, e sua recente presença em Ramala durante os atos comemorativos pelo reconhecimento da Palestina como Estado observador da ONU, são apenas algumas das últimas atividades de um grupo cujos membros costumam aparecer na imprensa defendendo posições claramente anti-israelitas, embora muitos ignorem o porquê.
Fundada em 1938 em Jerusalém sob mandato britânico, Neturei Karta é um termo aramaico que significa "Guardiões da Cidade" e alude a custódios espirituais da fé talmúdica que lutavam contra o laicismo que o sionismo defendia na época.
O seu ideário defende o desmantelamento pacífico de Israel segundo a crença mais ortodoxa que os judeus estão proibidos de ter um Estado próprio até que não aconteça o advento do messias, segundo um castigo que aparece no livro do profeta Amós.
"A ideia sionista é contrária à religião judia, e nós como judeus autênticos nos opomos a ela", defende em entrevista à Agência Efe o rabino Meir Hirsch, líder do grupo, em sua casa do bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim, de Jerusalém.
Filho do ex-ministro para Assuntos Judeus da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Moshé Hirsch, Meir aponta que inclusive a utilização de "Israel" como nome do Estado representa uma "usurpação", porque "os sionistas escolheram se separar do povo judeu" e não têm nenhum direito de falar em seu nome.
Sustenta que após o castigo divino do exílio, ocorrido no século I, as profecias sagradas só falam de um "reino celestial" e que não é missão do homem forçar o estabelecimento de um Estado.
Trata-se de uma postura que há três décadas caracterizava quase toda a ultra-ortodoxia judaica, embora com o tempo boa parte dos setores que a formam tenha claudicado e participado da vida do Estado e inclusive do jogo político.
"Eles se assimilaram", sentencia o rabino, considerado popularmente pela imprensa israelita como "o ministro das Relações Exteriores" do grupo, uma função que herdou do seu pai, amigo de Arafat, ex-líder palestino que, garante, "foi assassinado pelos sionistas".
Tachados por alguns como seita radical, Hirsch afirma que o seu grupo é integrado por dezenas de milhares de pessoas com comunidades espalhadas principalmente entre Jerusalém e Nova York.
Com cidadania americana, Hirsch é consequente com as suas crenças e aponta que a sua comunidade vive de doações estrangeiras, à margem do Estado de Israel, que diz deixar a cada três meses por contar com um visto de turista.
Pelas ruas de Mea Shearim são frequentes os cartazes do seu grupo nos quais adverte que o movimento nacional judeu perpetra um "Holocausto" de seu próprio povo porque "tenta transformar pela força um povo crente num povo infiel".
Hirsch explica que, segundo o Talmude, os judeus não estão autorizados a dominar, matar, magoar ou degradar outro povo e não devem ter nada a ver com a iniciativa sionista e as suas guerras.
Por isso se opõem a desempossar os palestinos de suas terras e lares e defendem como solução ao conflito do Médio Oriente "o desmantelamento de Israel e a criação em todo o território de um único Estado", o da Palestina.
"Sabemos que o Estado sionista desaparecerá do mapa. Como? Nós não comandamos a agenda divina", acrescentou.
Estes zelotes, que se consideram os únicos guardiões verdadeiros da lei judaica, descendem de comunidades na Hungria e Lituânia que se assentaram no século 19 na Cidade Antiga de Jerusalém.
E, embora vivam em Israel, se consideram ainda no exílio da diáspora, um exílio "muito pior" ao do que se estivessem a viver "nos Estados Unidos ou França", opina.
Mas talvez o mais controverso da sua agenda sejam os seus apoios a inimigos declarados, passados e presentes, do Estado judeu.
No marco das atividades do movimento judeu contra ao que ele classifica como "desgraçada resolução" de partilha da Palestina em 1947, fizeram sua a causa da OLP, hoje em dia a do Hamas, e em 2006 a de Ahmadinejad, ao participar em Teerão de um seminário repleto de figuras que negam o Holocausto.
"Os sionistas colaboraram para o extermínio dos judeus na Europa a fim de obter o seu Estado", assegura Hirsch, que se mostra contrário ao "uso cínico do Holocausto", em linha com um ideário atribuído entre outros ao presidente iraniano, a quem classifica de "carismático" e "moral".
Com a sua posição radical, o Neturei Karta não só colheu iradas críticas entre os israelitas, mas também entre os demais ultra-ortodoxos, que consideram o grupo uma avis rara do variado povo judeu, empenhado em seguir a penitência do exílio até que Deus lhes devolva ao "reino dos céus".
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