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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Boom da IA que sustenta mercados pode causar próxima queda, alertam bancos centrais


No seu Relatório Económico Anual, publicado no domingo, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, alertou que o enorme volume de gastos em IA está a acumular vulnerabilidades financeiras que podem amplificar qualquer choque futuro e propagar-se dos mercados à economia em geral.
Ao apresentar as conclusões, o diretor-geral do BIS, Pablo Hernández de Cos, afirmou que a mensagem é de "urgência", apelando a que os decisores políticos atuem antes de qualquer inversão tornar o ajustamento final mais doloroso.
No centro do alerta está a dimensão do investimento, apesar de o forte fluxo de capitais ter sustentado o crescimento mundial no último ano.
Os cinco maiores "hyperscalers", os gigantes tecnológicos que correm para construir a infraestrutura de IA, deverão comprometer mais de 1 bilião de dólares (878 mil milhões de euros) em investimento ligado à IA em 2025 e 2026, a um ritmo que ultrapassa os lucros e o fluxo de caixa livre e leva alguns a endividarem-se fortemente para acompanhar.
O BIS considera que esta corrida é alimentada pela convicção de que apenas um pequeno número de atores dominantes acabará por prevalecer, o que incentiva as empresas a canalizar dinheiro para projetos cuyos retornos permanecem profundamente incertos.

Ecos de manias passadas
O relatório compara o boom atual da IA com uma longa sucessão histórica, da mania dos canais na década de 1830 e da mania ferroviária britânica nos anos 1840 à eletrificação dos anos 1920 e à bolha das dotcom.
Cada episódio começou com uma verdadeira inovação tecnológica que atraiu mais capital do que os retornos comerciais justificavam, assinala o BIS, tendo todos terminado "com uma eventual inversão do investimento, que desencadeou recessões em toda a economia".
A agravar o risco estão cotações esticadas e esquemas de financiamento pouco transparentes.
O BIS destaca a proliferação de "financiamento circular", em que fabricantes de chips e gigantes da computação em nuvem tomam participações em laboratórios de IA que se comprometem depois a comprar os seus chips e capacidade de computação, reciclando na prática o dinheiro de volta para os investidores originais sob a forma de receitas.
Grande parte do financiamento passa agora por fundos de cobertura e veículos de crédito privado sujeitos a uma supervisão mais leve do que os bancos.
Segundo Zhang Tao, representante-chefe do BIS para a Ásia e o Pacífico, essa dependência de canais não bancários significa que uma desaceleração da IA pode transformar-se numa correção mais acentuada e rápida do que uma crise bancária tradicional.

Custos ocultos dos centros de dados
Para lá dos mercados financeiros, críticos defendem que o verdadeiro custo da expansão da IA está a ser escondido à vista de todos.
Uma preocupação central, analisada pelo Wall Street Journal, é a forma como os gigantes tecnológicos registam contabilisticamente os seus centros de dados.
Ao assumirem que o equipamento dispendioso no interior destes centros permanecerá útil durante mais tempo, as empresas podem diluir o seu custo por mais anos, reduzindo a depreciação registada contra os lucros em cada período e fazendo com que os resultados pareçam mais saudáveis do que o real consumo de caixa sugere.
Mas os chips especializados que estão no coração destas instalações podem tornar-se obsoletos muito mais depressa do que esses calendários prolongados pressupõem, abrindo um fosso entre os lucros reportados e a realidade económica e deixando o balanço mais exposto do que aparenta, caso a procura decepcione ou surjam necessidades significativas de substituição de hardware.

A dimensão física é impressionante.
O economista da Universidade de Columbia Stijn Van Nieuwerburgh estima que esta expansão poderá custar cerca de 8 biliões de dólares (7 biliões de euros) nos próximos seis anos, financiados em parte através de acordos fora de balanço do tipo que o BIS assinalou.
Os custos também já não se limitam às contas das empresas.
Alguns economistas alertam agora para uma chamada "terceira vaga" de inflação, após a pandemia e as tarifas, alimentada desta vez pela expansão da IA. À medida que os fabricantes de chips dão prioridade às peças de maior margem para servidores de IA, a pressão sobre memória e armazenamento repercute-se na eletrónica de consumo.
Na semana passada, a Apple aumentou os preços dos MacBooks, iPads e outros dispositivos, citando um "surto extraordinário de procura de memória e armazenamento" e afirmando nunca ter visto "um aumento do preço de componentes tão elevado, em tão pouco tempo".
As ações da empresa caíram cerca de 6%, a sua pior sessão em mais de um ano, numa altura em que a Microsoft, a Nintendo e a Sony também tomaram medidas semelhantes.
A recente queda da SpaceX, que perdeu mais de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado num espaço de três dias, representa um evento de proporções históricas que cruza a volatilidade financeira com a alta geopolítica.
Para lá dos custos ocultos e das pressões inflacionistas, o impacto poderá sentir-se de forma mais alargada na energia.
A Goldman Sachs prevê que os centros de dados representem quase metade do crescimento da procura de eletricidade nos Estados Unidos até 2030, com os preços da energia para os consumidores a deverem subir cerca de 6% ao ano em 2026 e 2027.
O próprio BIS assinala que a fome de eletricidade desta expansão já está a pressionar preços e custos de produção, com possíveis efeitos sobre a inflação, embora sublinhe, tal como muitos economistas, que a IA poderá ainda revelar-se desinflacionista se as prometidas melhorias de produtividade se materializarem.

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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Milionários, economistas e políticos eminentes imploram ao G20 para “tributar os super-ricos”




A pressão aumenta sobre o G20 para liderar um esforço global para aumentar os impostos sobre os cidadãos mais ricos de volta aos níveis anteriores que a maioria das pessoas acredita serem mais justos e mais úteis para a sociedade.

Sem este ajustamento, a riqueza e a desigualdade extremas continuarão a disparar. Na última década, os multimilionários mais do que duplicaram a sua riqueza, de 5,6 para 11,8 biliões de dólares.

Numa carta aberta ao G20, perto de 300 milionários, economistas e representantes políticos de quase todos os países do G20 apelam a um novo acordo internacional sobre impostos sobre a riqueza para “impedir que a riqueza extrema corroa o nosso futuro colectivo”. Diz que as pessoas em todo o mundo estão “desesperadas por mudanças”.

Dinheiro, conhecimento e poder estão unidos no apelo à acção e ao G20 para colocar a tributação dos mais ricos no centro da sua agenda na sua próxima Cimeira na Índia, e não só.

Os signatários incluem a herdeira e filantropa da Disney Abigail Disney, ex-líderes da Roménia, Croácia, República Tcheca e Bulgária, o senador dos EUA por Vermont Bernie Sanders, o representante dos EUA Brendan Boyle, antigos e atuais parlamentares europeus, incluindo Aurore Lalucq, os artistas Brian Eno e Richard Curtis, A ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, Maria Espinosa, e economistas como Gabriel Zucman, Jayati Ghosh, Kate Raworth, Jason Hickel, Lucas Chancel e Thomas Piketty.

A acumulação maciça de riqueza extrema por parte dos indivíduos mais ricos é “um desastre económico, ecológico e de direitos humanos” que está “ameaçando a estabilidade política em todo o mundo”, dizem eles.

Negando a “falsa promessa de que a riqueza no topo beneficiaria de alguma forma todos nós”, dizem que o G20 deve agir agora para desbloquear um regime fiscal mais justo que irá arrecadar os biliões de dólares necessários para enfrentar enormes ameaças globais, como a pobreza e a desigualdade. , deflação salarial e crise climática. Conseguir um acordo internacional sobre como aumentar os impostos sobre os super-ricos “não será fácil, mas valerá a pena”.

“Muito trabalho já foi feito. Há uma abundância de propostas políticas sobre a tributação da riqueza apresentadas por alguns dos principais economistas do mundo. O público quer isso. Nós queremos. Agora só falta a vontade política para o concretizar. É hora de você encontrá-lo.

Morris Pearl, Presidente dos Patriotic Millionaires e antigo Diretor-Geral da BlackRock, afirmou: “Nas últimas décadas, a desigualdade de riqueza disparou em todo o mundo. O fosso crescente entre ricos e pobres desestabilizou a economia global, exacerbou a ascensão de políticas extremistas e desgastou a própria estrutura da nossa ordem social. Como pessoa ultra-rica, representando uma organização de pessoas ricas com ideias semelhantes, peço ao G20 que nos imponha impostos.

“Os líderes das maiores economias do mundo devem coordenar ações rápidas e decisivas para reduzir níveis perigosos de desigualdade; se não conseguirem tributar a riqueza extrema, os resultados serão uma economia global perpetuamente enfraquecida, o declínio das instituições democráticas e o agravamento da agitação social. O G20 deve agir.”


  • Na última década, aqueles com mais de 50 milhões de dólares desfrutaram de um crescimento de 18,3% na sua riqueza, enquanto os multimilionários viram a sua riqueza crescer 109%.
  • Apenas 4 cêntimos em cada dólar de receita fiscal provêm dos impostos sobre a riqueza.
  • Desde 2020, o 1% mais rico capturou quase dois terços de toda a nova riqueza. As fortunas dos bilionários estão aumentando em US$ 2,7 bilhões por dia.
  • Por cada dólar de nova riqueza ganho por alguém dos 90 por cento mais pobres, um dos bilionários do mundo ganhou 1,7 milhões de dólares.
  • Metade de todos os milionários não pagará nenhum imposto sobre herança e repassará US$ 5 triliões livres de impostos para a próxima geração.
  • A taxa média de imposto sobre os mais ricos caiu de 58 por cento em 1980 para 42 por cento nos países da OCDE.
  • Os impostos sobre mais-valias – normalmente a fonte de rendimento mais importante para o 1% mais rico – são de apenas 18%, em média, em mais de 100 países.
  • Nos anos de expansão das décadas de 1950-60, a taxa marginal máxima do imposto federal sobre o rendimento dos EUA era de 91 por cento, o imposto sobre heranças era de 77 por cento até 1975 e o imposto sobre as sociedades acima de 50 por cento.
Notas aos editores

A carta aberta foi organizada pelos defensores da desigualdade Patriotic Millionaires, Institute for Policy Studies, Earth 4 All, Millionaires for Humanity e Oxfam. Baixe a lista completa de signatários .

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Franco “Bifo” Berardi - Desejo, Depressão e Deserção

Desejo depressão e Deserção
"Uma onda de depressão parece engolir a primeira geração que aprendeu mais palavras com uma máquina do que com a mãe. Mas será realmente depressão?
Notas sobre a depressão. Lendo Mark Fisher, Depressão e desejo
Desaparecimento do sexo na evolução da humanidade. Hiper-semiotização do desejo
Desejo, sexualidade ou antes deserção. O que é a deserção?"

Três anos depois de ter estado em Lisboa para a inauguração do TBA, dois anos passados desde o início da pandemia e da publicação das suas Crónicas da Psicodeflação pelo TBA e pelo Jornal Punkto, e um ano após o deflagrar da guerra da Ucrânia, Franco “Bifo” Berardi regressa a Lisboa para falar sobre desejo, depressão e deserção numa conversa com Ideal Maia,  ativista climático. Trata-se de pensar os tempos que correm a um ritmo nunca antes experienciado. 

Franco "Bifo" Berardi é uma figura de destaque do operaísmo italiano, em particular na sua ala mais criativa e dedicada à experimentação com os media e a produção cultural. Fundou a Rádio Alice, primeira rádio livre em Itália (1976-1978), e a revista A/traverso (1976-1981), que combinava maoísmo e dadaísmo numa crítica antiautoritária. Exilado em Paris, trabalhou com Félix Guattari em esquizoanálise. Desde os anos 1990 que o seu trabalho tem incidido sobre a relação entre psicopatologia, tecnologias da informação e capitalismo.

sábado, 9 de janeiro de 2021

O risco económico da década: a deflação

A deflação tornou-se o fantasma que ameaça as economias mais ricas do planeta e nenhuma sabe como deve ser enfrentada ou, menos ainda, como pode ser vencida.


Ao longo da década de 1970, a inflação média anual nas economias mais desenvolvidas foi de 10%. Na década passada, essa média anual foi inferior a 2%, e todas as políticas postas em prática para chegar a essa meta fracassaram. Em alguns casos, incluindo na Alemanha, os preços reduziram-se, e a zona euro tem sofrido um risco permanente de deflação que assusta o BCE. A deflação tornou-se o fantasma que ameaça as economias mais ricas do planeta e nenhuma sabe como deve ser enfrentada ou, menos ainda, como pode ser vencida.

O poder da deflação

Sabe-se pouco sobre como funcionam economias desenvolvidas em deflação, as experiências têm sido limitadas. Quando o FMI fez um estudo sobre este perigo, só registou o caso da Itália em 1912, da Suíça em 1996 e em 2001, do Japão em 1986 e, depois, na longa década que vai até 2013. Pior, enquanto durou, o Japão não soube o que fazer: nem injeções de liquidez, nem reduções de impostos, nem discursos inflamados conseguiram mudar a tendência. O que se compreendeu com este exemplo é que a deflação pode ser uma armadilha prolongada.

Alguns economistas otimistas apontam que a deflação é o efeito da queda duradoura dos preços do petróleo. É certo que a oferta tem aumentado (com o fracking) e a procura diminuído (com a diversificação de usos energéticos). Essa seria uma boa nova se correspondesse a uma alteração estrutural do modo de uso da energia, mas estamos ainda muito longe desse objetivo. Em todo o caso, nem o preço do petróleo é hoje determinante da média da inflação nem este fator se alterará a curto prazo. Pelo contrário, a deflação parece estar mais diretamente relacionada com a queda estrutural da procura agregada e com o mar de liquidez que abunda nas economias desenvolvidas, tanto pelo aumento da poupança quanto pelas excecionais medidas públicas que determinam taxas de juro baixas, o “eterno zero”, criando assim um padrão de comportamento que se pode prolongar no tempo.

Considerando a profundidade da recessão mundial de 2020, que o FMI estima agora ser da ordem dos 5%, ou a maior desde a II Guerra Mundial (a crise de 2009 provocou uma redução do PIB mundial de 0,1% ou 50 vezes menos do que a que agora vivemos) e, portanto, esta drástica redução da procura, as condições para a deflação agravaram-se. Como as autoridades monetárias só conseguem responder a esta crise baixando os juros de referência (o prometido e necessário aumento de investimento está por concretizar), as condições para a deflação são autossustentáveis.

A ameaça da deflação

A deflação alimenta-se de quatro processos perigosos. O primeiro é o adiamento de decisões de consumo, tanto mais que, mesmo sendo o juro baixo, a poupança aumenta, dada a incerteza decorrente da crise. Além disso, algumas despesas tornam-se agora impossíveis (turismo).

O segundo é o aumento do peso das dívidas, beneficiando os emprestadores. E toda a economia moderna se baseia na gestão das dívidas.

O terceiro é que, temendo a redução dos preços dos seus produtos, as empresas reduzem o investimento e o emprego, tanto mais que não podem utilizar o efeito ilusório da inflação para conter os salários reais.

No entanto, é a quarta consequência que é a mais perigosa. A redução duradoura dos juros distorce a aplicação das poupanças, ao promover a busca do risco (o investimento ou o depósito bancário deixam de ser alternativas motivadoras), deslocando os capitais para o mercado financeiro. Assim, o preço das ações e de outros títulos dispara, como se verifica neste paradoxo de termos a maior recessão de 80 anos e os recordes históricos das bolsas de valores. A bolha agiganta-se e atrai os capitais como se fosse um buraco negro no firmamento.

Deste modo, acentua-se a desigualdade. Os beneficiários desta economia vudu são os detentores de títulos financeiros, que enriquecem como Midas: as cinco maiores empresas tecnológicas valorizaram-se em 56% ao longo de 2020 e os seus acionistas são quem menos pesa na procura global. Ora, como o investimento é reduzido, a euforia financeira alimenta-se a si própria, enquanto durar. Estando os bancos centrais paralisados, não podem aumentar os juros, pois provocariam uma catástrofe nas dívidas públicas. Portanto, a deflação e o delírio financeiro estão para durar. Não são boas notícias.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 31 de dezembro de 2020

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Documentário: The Secret of Oz (2010)



O documentário "The Secret of Oz" (2010), dirigido por Bill Still, é uma obra que mistura história económica, política e simbolismo literário para analisar o sistema financeiro global.

Aqui estão os pontos principais abordados pelo filme:

1. A Metáfora do "Mágico de Oz"

O cerne do documentário é a tese de que o livro O Maravilhoso Mágico de Oz (1900), de L. Frank Baum, é, na verdade, uma alegoria política sobre a reforma monetária nos Estados Unidos do final do século XIX. Segundo o filme:

A Estrada de Tijolos Amarelos: Representa o Padrão-Ouro, que Still critica por limitar a oferta de dinheiro.

Os Sapatinhos de Prata (no livro original são de prata, não rubi): Simbolizam o movimento pela "Prata Livre" (Bimetalismo), que visava aumentar a circulação de moeda.

O Espantalho e o Homem de Lata: Representam, respectivamente, o agricultor e o operário industrial, vítimas da deflação da época.

A Cidade Esmeralda: Representa o dinheiro fiduciário (o "Greenback" ou papel-moeda), cujo valor é determinado por lei, não por lastro em metal.

2. Crítica ao Sistema Bancário
Bill Still utiliza essa metáfora para explicar problemas modernos, focando na reserva fracionária e no sistema de moeda baseada em dívida. Ele argumenta que:

A maioria do dinheiro em circulação é criada pelos bancos comerciais através de empréstimos, o que gera uma dívida perpétua e impagável.

O controle da quantidade de dinheiro em uma nação não deveria estar nas mãos de bancos privados (como ele descreve o Federal Reserve), mas sim do governo, de forma soberana e sem juros.

3. Soluções Propostas
Diferente de outros documentários que apenas apontam o problema, "The Secret of Oz" foca numa solução específica:

A transição para um sistema de dinheiro soberano, onde o próprio Estado emite a moeda necessária para a economia sem precisar "pegá-la emprestada" de bancos centrais privados.

Ele cita exemplos históricos, como os "Greenbacks" de Abraham Lincoln durante a Guerra Civil Americana e as "Tally Sticks" na Inglaterra medieval, como modelos de sucesso de moedas emitidas pelo Estado.

Em resumo
O filme é uma sequência espiritual do trabalho anterior de Still, "The Money Masters", mas com uma abordagem mais didática e focada no populismo econômico. Ele defende que a verdadeira liberdade de uma nação depende de quem controla a quantidade de dinheiro em circulação, e não do que o dinheiro é feito (ouro, prata ou papel).

Saber mais: Exclusive Interview With Bill Still

Para entender por que a Islândia é a "peça-chave" no argumento de Bill Still, precisamos primeiro olhar para as soluções que ele propõe e como o país se tornou um laboratório real para essas ideias após a crise de 2008.

Aqui está a explicação sobre os sistemas e a conexão islandesa:1. Padrão-Ouro vs. Dinheiro Soberano (A briga técnica)

O documentário defende que o problema não é o "papel-moeda" em si, mas quem o controla.

SistemaO que é?Visão de Bill Still
Padrão-OuroA moeda é limitada pela quantidade de ouro físico que o país possui.Crítica: É perigoso porque permite que quem tem o ouro (grandes bancos) controle a economia. Se o ouro acaba, a economia trava (deflação).
Dinheiro SoberanoO governo emite o dinheiro diretamente, sem dívida e sem juros, para servir à economia.Elogio: É a solução ideal. O governo decide a quantidade de moeda com base na necessidade da população, não na ganância dos bancos.
2. Por que a Islândia é mencionada?
A Islândia aparece no contexto de Bill Still (especialmente em atualizações e discussões pós-2010 relacionadas ao filme) como o exemplo de coragem contra o sistema financeiro.

A Queda e a Resposta Única
Em 2008, os três maiores bancos da Islândia colapsaram. Enquanto o resto do mundo (EUA e Europa) usou dinheiro público para salvar os bancos (bailout), a Islândia fez o oposto:
  1. Deixou os bancos falirem: O governo não assumiu as dívidas impagáveis dos bancos privados.
  2. Protegeu os cidadãos: Focou em garantir os depósitos internos e manter os serviços sociais.
  3. Prendeu banqueiros: Foi um dos poucos países a processar e encarcerar executivos financeiros por fraude.

O Relatório de 2015 (A conexão direta)
Embora o filme seja de 2010, Still e outros reformadores monetários citam a Islândia porque, em 2015, o governo islandês encomendou um relatório oficial para estudar a proibição de os bancos comerciais criarem dinheiro.

A proposta islandesa era exatamente o que Still defende: o Banco Central teria o poder exclusivo de criar dinheiro, e os bancos privados seriam apenas intermediários de dinheiro já existente. Isso acabaria com a "reserva fracionária" que o documentário tanto critica.

3. A Islândia como "A Nova Oz"
No documentário e em sua filosofia, a Islândia representa a possibilidade de quebra do "feitiço" do Mágico. Para Still, o país provou que:
  1. Uma nação pode sobreviver dizendo "não" aos credores internacionais.
  2. É possível retomar a Soberania Monetária.
Resumo: A Islândia é citada porque foi o "estudo de caso" mais próximo de uma revolta bem-sucedida contra o sistema de dívida que Still descreve como o grande vilão da história moderna.

sábado, 30 de novembro de 2013

Jan Kregel: The Continuing Risk of Derivatives


Todos conhecem agora a narrativa da Grande Recessão Financeira de 2008, em particular, o impacto que os derivados tóxicos tiveram no agravamento da crise. E a defesa habitual daqueles que diagnosticaram erradamente a crise é que a própria natureza do chamado "sistema bancário paralelo" dificultou a determinação da natureza sistémica da crise e a correspondente extensão dos passivos dos bancos.

Na verdade, esta é uma racionalização frágil, como observa Jan Kregel nesta entrevista. Kregel salienta correctamente que já vimos este espectáculo antes na Ásia durante a crise financeira de 1997-98.

O cenário normal para uma crise financeira num país em desenvolvimento envolveria as empresas nacionais contrair empréstimos em moeda estrangeira junto de bancos estrangeiros a taxas de juro que são reajustadas num curto período de renovação. Note que faz pouca diferença se os empréstimos têm um prazo curto ou longo; a questão é a variação dos custos de juros sobre os fluxos de caixa produzida pelo curto intervalo de ajustamento das taxas de juro. Períodos de ajustamento curtos significam que um aumento das taxas de juro estrangeiras se transforma rapidamente num aumento do compromisso de fluxo de caixa para o mutuário, reduzindo instantaneamente as margens de segurança.

Se a alteração dos diferenciais das taxas de juro internacionais conduzir a uma depreciação da moeda nacional em relação à moeda estrangeira emprestada, a margem de segurança é ainda mais corroída pelo aumento do montante em moeda nacional dos compromissos de caixa e do capital a pagar no vencimento. E, finalmente, se o governo responder à fraqueza da moeda nacional nos mercados internacionais através do aumento das taxas de juro, isso irá claramente agravar ainda mais a situação.

Como sublinha Kregel, todas estas condições estavam presentes em 1997-98, mas o que conferiu à crise uma força particularmente formidável foi a utilização de derivados de balcão (OTC) personalizados, a maioria dos quais mascarava a natureza dos riscos reais assumidos pelo mutuário, para além de subestimar a extensão das exposições ao crédito. Em muitos casos, estes derivados foram estruturados de forma a evitar as directrizes regulamentares prudenciais nacionais do país em causa. Em alguns casos, não houve mercado envolvido nestes contratos, que podem incluir a estipulação de contratos de futuros e de opções padrão fora do mercado organizado, numa base bilateral com clientes individuais.

No entanto, a maior parte da actividade de balcão (OTC) envolve combinações personalizadas, muitas vezes altamente complexas, de instrumentos financeiros padrão, agrupados com contratos derivados concebidos para satisfazer as necessidades específicas dos clientes. Estes pacotes de contratos envolvem muito pouco empréstimo direto dos bancos aos clientes e, portanto, geram pouca receita líquida de juros. Contudo, como são frequentemente executados por meio de veículos de propósito específico (como empresas de investimento especializadas com capital próprio), eles têm a vantagem, sob as regras de adequação de capital de Basileia, de exigir pouco ou nenhum capital, ou de serem classificados como itens fora do balanço, porque não representam uma exposição directa ao risco para o banco. Além disso, geram receitas substanciais de taxas e comissões.

Em vez de comprometerem o seu próprio capital nestas transacções, os bancos actuam como intermediários cujos serviços envolvem não só a ligação de mutuários e credores, mas também actuam como inovadores de mercado para criar veículos de investimento que atraiam credores e mutuários. Contudo, estas actividades exigem frequentemente que os bancos aceitem alguns dos riscos associados aos derivados criados para produzir pacotes com as características desejadas pelos mutuários e credores finais. Mas, em muitos casos, os próprios derivados são tão complexos e tão inadequadamente "testados sob stress" que os seus efeitos destrutivos só podem ser percebidos mais tarde, como foi claramente o caso, tanto em 2008 como na anterior crise financeira asiática.

Outra característica comum observada por Kregel é que o principal objectivo das instituições financeiras globais activas já não é a maximização dos lucros procurando os fundos de menor custo e canalizando-os para o maior retorno ajustado ao risco. Em vez disso, estão mais interessadas em maximizar o volume de fundos intermediados para maximizar as taxas e comissões, maximizando assim a taxa de rendibilidade do capital bancário. Isto significa uma mudança da avaliação e monitorização contínua do risco de projectos de investimento financiados que geram fluxos recorrentes de pagamentos de juros ao longo do tempo, para a identificação de "operações" sem risco que geram grandes pagamentos únicos, sendo a maior parte possível do risco residual assumido pelos compradores do pacote.

Em síntese, a maioria dos pacotes de derivados mascara o risco real envolvido num investimento e aumenta a dificuldade em avaliar o retorno final do capital investido.

Kregel discute todos estes fatores em detalhe neste vídeo.