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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

The Chameleons- Nathan's Phase

As Máscaras da Existência: A Alienação Urbana e o Lirismo Existencial em "Nathan's Phase" dos The Chameleons
Lançada originalmente na compilação The Fan and the Bellows (1986) e mais tarde desnudada numa versão íntima no álbum Strip (2000), "Nathan's Phase" ocupa um lugar singular no percurso dos The Chameleons. Longe das camadas etéreas e das guitarras mergulhadas em reverb que definiram o som atmosférico da banda de Manchester, esta faixa entrega uma energia crua, urgente e visceral. Movida por uma secção rítmica pulsante e guitarras cortantes, a música prescinde de videoclipes elaborados ou produções vistosas para se impor como uma das expressões mais genuínas do pós-punk e do gothic rock dos anos 80, sustentada pela força de uma narrativa de puro desgaste psicológico.

No centro da composição não está uma figura histórica, mas sim "Nathan", uma metáfora viva do indivíduo em colapso interior. A letra acompanha o peso sufocante de alternar entre diferentes papéis e aparências no dia a dia, registando o momento em que as dissimulações sociais ruem e deixam exposta uma vulnerabilidade inevitável. Esta viagem pela perda de identidade ressoa hoje com um impacto espantoso. Numa época em que a vida pública é moldada pelas aparências em rede e pelo esforço contínuo de sustentar personas perfeitas, a paralisia, a ansiedade e o esgotamento vividos por Nathan traduzem, com assustadora precisão, o isolamento e o burnout da vida contemporânea.

Versão acústica

Essa sensibilidade lírica ganha profundidade ao conectar-se com uma tradição poética e filosófica muito própria. Embora o vocalista Mark Burgess sempre tenha escrito a partir das suas vivências diretas na Inglaterra industrial, o seu texto respira o espírito do Romantismo britânico. Através daquilo a que John Ruskin chamou de "falácia patética", a paisagem cinzenta, fria e claustrofóbica de Manchester deixa de ser um mero pano de fundo para se transformar na própria extensão do estado de alma da personagem, numa ressonância direta com a poesia de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Há também um desencanto puramente moderno nessa atmosfera, que lembra as cidades desoladas e fragmentadas de T.S. Eliot em "The Waste Land" e a melancolia quotidiana de poetas como Thomas Hardy ou Philip Larkin.

Música presente no EP-Tomorrow Remember Yesterday (2024)
Nas entrelinhas desse retrato urbano, sobressai ainda uma forte dimensão existencial. A tensão constante entre aquilo que guardamos no íntimo e as máscaras que vestimos para o mundo dialoga com a filosofia de Jean-Paul Sartre e a sua reflexão sobre a inautenticidade das convenções sociais. Ao mesmo tempo, a sensação de deslocamento e sufoco perante a realidade aproxima a figura de Nathan do universo absurdo e claustrofóbico de Franz Kafka. No final, "Nathan's Phase" ultrapassa as fronteiras da sua época: é um retrato cru da solidão humana, um espelho da fragilidade da identidade e um dos momentos mais honestos da música britânica da sua era.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

In The Nursery - Artisans of Civilisation

Melhor Som aqui
A banda britânica In The Nursery, fundada em Sheffield em 1981 pelos irmãos gémeos Klive e Nigel Humberstone, é uma das maiores referências mundiais do género Neoclassical Darkwave e Martial Industrial. Conhecidos pelo som grandioso que combina percussão militarista, arranjos orquestrais cinemáticos e paisagens sonoras eletrónicas sobrepostas por vocais recitados em estilo spoken word, os In The Nursery sempre mantiveram uma forte ligação com a literatura, o cinema e a filosofia.

A faixa "Artisans of Civilisation", lançada em 2011 no álbum Blind Sound, aborda a relação ambígua entre o ser humano e as suas próprias criações intelectuais e tecnológicas. Ao proclamar versos como "Too much faith in systems / Look too little to men" e "Receive no help from without / Need help from within", a canção reflete sobre a vulnerabilidade da humanidade quando deposita uma confiança cega na engenharia social, na indústria e na mecânica das instituições. O significado central gira em torno da perda da autonomia individual, do discernimento e da intuição moral quando o homem se torna refém das próprias estruturas que concebeu para se organizar.

O videoclipe oficial do tema foi realizado e produzido de forma autónoma pelos próprios irmãos Humberstone através da sua editora independente, a ITN Corporation. Com uma estética minimalista, monocromática e de contornos documentais, o vídeo contrapõe imagens de arquitetura industrial, braille, engrenagens e mãos em trabalho artesanal, ilustrando visualmente a tensão entre a criação técnica, a repetição autómata e a perceção cega do progresso.

A relação com o pensamento do escritor Aldous Huxley - e em particular com a sua análise do perigo da sugestionabilidade das massas - é direta e central no conceito do tema e do álbum Blind Sound. Em obras como Admirável Mundo Novo (1932) e no ensaio Regresso ao Admirável Mundo Novo (1958), Huxley alertava para a facilidade com que o ser humano é condicionado e manipulado quando a tecnologia e o conforto anulam a necessidade de pensamento crítico. "Artisans of Civilisation" traduz exatamente esse aviso huxleyano: a sugestionabilidade contemporânea leva-nos a aceitar pacificamente o controlo do "sistema", alienando o indivíduo da sua consciência interior. Além de Huxley, o trabalho da banda bebe frequentemente do existencialismo, de visões distópicas como as de George Orwell e de explorações poético-filosóficas (tendo a banda colaborado anteriormente com o escritor Colin Wilson no álbum Anatomy of a Poet). A força e atualidade do tema residem no facto de antecipar a atual dependência dos algoritmos e da inteligência artificial, que funcionam hoje como os novos "sistemas" aos quais a sociedade se entrega de forma acrítica.

sábado, 15 de agosto de 2026

Minute Taker - Losing Self-Control

Letra
[Verse 1]
‎You fall in line
‎And you feel nothing much
‎Buried alive
‎For fear of what you’ll become
‎It makes you wanna die
‎When the highs turn to lows
‎But you learned to survive
‎The devils that you’ve known
‎By using self-control
‎
‎[Chorus] 2X
‎But I feel it now
‎I’m not afraid to go there tonight
‎When we’re alone
‎All I know is
‎I’m losing self-control
‎
‎[Verse 2]
‎I fall out of line
‎Tonight I’m a mess
‎Out of my mind
‎Into your bed
‎I’m coming back to life
‎All the highs and the lows
‎It's all worthwhile
‎With you
‎I’m exposеd
‎I’m losing self-control
‎
‎[Chorus] 2X
‎
‎[Bridge] 3X
‎Self-control
‎Self-control
‎Self-control
‎All I know is I’m losing self-control...
‎
‎[Outro]
Self-control
‎Self-control
‎Self-control
‎All I know is I’m losing my grip

A noite, a tela e o vazio: o universo sombrio e filosófico de Minute Taker em Losing Self-Control
Minute Taker é o nome artístico do músico, compositor e produtor britânico Ben Higgins, originário de Manchester, Inglaterra. A sua sonoridade insere-se num universo marcado pelo synth-pop, electro-pop e dark wave, caracterizando-se pela fusão de sintetizadores nostálgicos inspirados na década de 1980, arranjos de piano melancólicos e vocais expressivos de grande densidade emocional.
Na sua versão de Losing Self-Control (tema originalmente popularizado por Laura Branigan sob o título Self Control), o artista reinterpreta a composição através de uma estética sombria e retro-futurista. O significado da canção e do seu videoclipe gravita em torno do isolamento moderno, da perda de identidade e do fascínio doentio pela cultura do espetáculo e pelas telas digitais, retratando um indivíduo consumido pelos seus próprios desejos, obsessões e pela alteração da perceção da realidade durante as horas noturnas.
Sob o ponto de vista das inspirações literárias e filosóficas, a obra dialoga diretamente com as correntes do distopismo do século XX e com o existencialismo. A estética visual de vigilância, o alheamento do mundo real e a alienação tecnológica ecoam as críticas sociais presentes em obras como 1984 de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. 

O paralelismo com George Orwell manifesta-se em três aspetos fundamentais, particularmente visíveis na dinâmica do relacionamento entre Winston e Julia em 1984. Em primeiro lugar, o beijo surge como um verdadeiro ato de rebeldia: num mundo frio, alienante e absoluto no seu controlo, a intimidade física e o desejo transformam-se na forma mais pura de insurreição. O beijo não nasce de uma harmonia perfeita, mas antes de um impulso desesperado de resgatar a humanidade contra um sistema - ou um estado mental - que tudo sufoca.

Paralelamente, desenha-se uma união fundada no desespero e não no entendimento. Winston e Julia procuravam-se e amavam-se, mas o mundo ao seu redor encontrava-se tão fraturado que a relação estava irremediavelmente marcada pela tragédia iminente. Não precisavam de uma compreensão intelectual perfeita um do outro, pois o simples toque físico figurava como o único refúgio possível contra o vazio e a vigilância constante.

Por fim, a perda de controlo afirma-se como uma libertação temporária, onde ceder à atração representa a única forma de quebrar a rigidez da rotina e da alienação. Tal como os protagonistas de Orwell, as figuras do vídeo encontram no contacto físico uma breve trégua - um instante em que a mente finalmente cede e o corpo assume o comando.

No plano filosófico, o conceito de simulacros e simulação de Jean Baudrillard torna-se evidente no vídeo, onde as imagens e as projeções virtuais substituem a própria experiência humana autêntica. Por outro lado, a perspetiva existencialista de Søren Kierkegaard reflete-se na própria ideia da perda de autocontrolo, que surge como o confronto do indivíduo com o vazio existencial - uma tentativa desesperada, contudo ilusória, de escapar à angústia e à monotonia da rotina diária através da entrega aos impulsos da noite.

Página Oficial

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Valter Hugo Mãe - O Século dos Imbecis


No ano em que assinala três décadas de vida literária, Valter Hugo Mãe debruça-se sobre o paradoxo de "vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento". Povoado pelos sete pecados mortais, "O século dos imbecis" poderia, inclusive, ter-se chamado "o século dos pecadores". No entanto, e na ótica do escritor, "o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade".

Isto porque, ainda que "morrer de burro [seja] algo que se faz desde que há gente", o espanto reside "em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido". Aliás, conforme admitiu Valter Hugo Mãe ao Notícias ao Minuto, basta observar a forma como muitas lideranças políticas "se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente".

Ao encetar um ciclo de obras chamado Crimes e Vindouros, "O século dos imbecis" joga com as virtudes, a moralidade, a fé e a justiça, evidenciando que, "enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas", no advento da Inteligência Artificial (IA) e da "substituição de quem somos", o que culminará com a descida "à condição de animal, ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana".

O que é que o motivou a escrever esta obra, tendo em conta que a sociedade atual, de facto, tem tanto de informação como de desinformação?
O que me motiva neste trabalho é criar uma certa reflexão em torno deste paradoxo, que é vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento; não garantir que a informação produzida e que o acesso à informação se expresse através do conhecimento. Então, parece-me trágico que, num tempo de tanta preparação, de tanta oportunidade, estejamos a claudicar em tantos sentidos com uma certa folia pela facilidade e por aquilo que é mais destituído. É como se o mesmo gesto que abre a porta para um esplendor humano pudesse perigar por propor também um retrocesso. Eventualmente, seria de esperar que, podendo ser melhores, estejamos meio interessados em facilitar de tal maneira a nossa vida ao ponto de nos destituirmos de capacidades e nos tornarmos piores.

Até com o advento da Inteligência Artificial (IA)...
Sim, a tecnologia está a oferecer algo que é propenso a ser maravilhoso, mas que, perversamente, também sugere ou também seduz para uma abundante, uma larga desistência. E dá-me a sensação de que tudo quanto seja desistir de uma sofisticação do fazer e uma sofisticação do pensar é um passo dado no retrocesso da humanidade. É como se a tecnologia tivesse tudo para nos sofisticar enquanto gente, mas a tentação é usá-la para que nos simplifique e nos retire, em última análise, até a condição humana.

Sim, a IA devia ser usada para coisas como limpar a casa, curar doenças, mas está a ser usada para produzir arte, música… Como é que se explica isto?
Para criar uma espécie de substituição de quem somos. Que possa haver ali uma substituição de muito do que fazemos é uma coisa. Agora, que nos possa interessar uma substituição de quem somos é trágico, porque significa que não nos consideramos à altura e que não estamos predispostos a um esforço para estar à altura correspondendo àquilo que consideramos o que devíamos ser. É muito terrível, inclusive, porque mesmo para que as tecnologias substituam muito do que fazemos, isso acarreta perigos, porque fazer significa também melhorarmos quem somos. É a partir do fazer que as nossas capacidades se comprovam e se podem testar e, inclusive, podemos arriscar melhorar e potenciá-las. Se nos destituirmos do fazer, da condição de fazedores, eventualmente podemos destituir-nos das capacidades do fazer.

Linearmente encontrarmos um gadget qualquer que nos aspire a casa está muito bem, mas chegar ao limite de encontrar um gadget que substitua as nossas necessidades de cálculo, de avaliação… Eventualmente, até a nossa humanidade será reduzida, até a potência humana será reduzida, o que significa que descemos mais à condição de animal ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana.

Agilulfo morre de burro, como consequência do divertimento dos outros. Estamos a condenar vários ao mesmo destino, devido às redes sociais e à propaganda de que somos alvo? Estamos em risco de morrer de burros?
De algum modo, sempre se morreu de burro, porque a sofisticação do pensamento, a educação, digamos assim, é esplendorosa ou pode ser esplendorosa porque nos protege em relação a todos os males e a todos os perigos. Por isso, em última análise, numa vida minimamente normal, convencional, o conhecimento já é uma cura para muitas doenças, porque a pessoa escapa de muitas doenças por aprender a comer. Até a simples aprendizagem da travessia de um lado da rua para o outro já é uma salvação da vida ou, eventualmente, da saúde. Tudo o quanto nos instrui propende para nos salvar a vida, propende para cuidar da nossa saúde, por isso, cuida do lado material da vida, cuida do corpo. E tudo o quanto não nos instrui, por deferência, obviamente, propende para perigar o nosso corpo e para perigar a nossa vida. Por isso, morrer de burro é algo que se faz desde que há gente. Agora, o espanto está nisto, está em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido. E é só ver muitas lideranças políticas… A maneira como se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente. Para mim, isso traz um espanto grotesco, diria.

Depois, os seus apoiantes vão atrás e, mesmo confrontados com os factos, negam-nos completamente.
A única maneira destas ignorâncias imperarem é através do fanatismo, através de uma posição obstinada que não quer provas, que não precisa de provas e vive assente em emoções muitas das vezes justificadas por preconceitos. Significa que são posições na vida ou são visões na vida que não pretendem qualquer relação com noções de justiça, por exemplo. O que querem é uma imposição de uma vontade imperativa, despótica e, normalmente, excludente, o que é tudo ao avesso do projeto ou do ideal humano. É tudo ao avesso do que devia ser, do que, eticamente, devia ser. É mais do que uma bizarria, é um perigo. É um perigo porque, pela primeira vez, parece que se propõe uma mudança no paradigma humano que vai meio no sentido de acabar com o humano propriamente dito.

Lá está, quando Agilulfo sobe à torre e adquire todo o conhecimento, profere uma palavra que ninguém compreende, mas à qual é dado um significado aleatório e que todos fingem ter entendido logo. É este o estado da sociedade? Alguém diz alguma coisa e, para não sermos as ovelhas negras, concordamos sem questionar ou compreender o que está em causa?
Sim, é uma padronização de um conhecimento que não é conhecimento nenhum, que é algo que se propaga e que já não se consegue questionar por inteiro, que se instala com um sentido algo dogmático, e é a partir dos dogmas que o fanatismo pode ser levantado. Por isso, para um lado ou para o outro da barricada, as posições vão-se estremando a partir das suas convicções, que são quase convicções de fé.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro

Devo confessar que achei esta parte deliciosa porque, durante o julgamento, a defesa de Omobon e Omobestia disse, e passo a citar, que "queria apresentar as condolências à família daquele que não evitou a trágica consequência de perder a vida". O primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse isto em fevereiro, no rescaldo das intempéries.

Ai disse? Não sabia.
Não sabia?

Não.
Disse precisamente que queria apresentar as condolências "às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida". A minha pergunta era se foi de propósito, se não foi de propósito.

Oh, meu Deus! Foi uma coincidência, talvez no meu subconsciente tenha ficado a expressão… Não sei, não saberia dizer a expressão de cor, mas é eventualmente um lamento que acontece, que as pessoas fazem em relação a quem não evita perder a vida.

E é idêntica, portanto é muito engraçado ter sido uma coincidência.
Uma coincidência terrível.

Acha que vão interpretar mal?
Acho que vão entender que é algo que não se deve dizer. Que é algo muito estranho, atribuir a culpa à vítima. É elementarmente estranho.

Mas foi esse o seu objetivo, ou não?
Claro. É uma denúncia, é uma discordância. Discordo profundamente com culpar-se as vítimas. É uma boca, é uma provocação, é uma resposta. É uma resposta que a literatura cria em relação à contemporaneidade concreta, à mais concreta contemporaneidade. Sou licenciado em Direito. Não é possível que se estabeleça como justo um princípio que culpa a vítima. Não é possível. É mais do que um paradoxo, é uma imbecilidade.

Um bocadinho nessa linha, Omobon acaba com uma pena mais severa, mesmo mostrando-se arrependido, porque "à bondade exige-se responsabilidade". Considera que isso também acontece na nossa sociedade? Os bons e honestos são mais penalizados?
É, porque dos bons esperamos uma lisura, esperamos resultados condizentes. Dos maus, já de alguma forma os demitimos de servirem de exemplo para alguma coisa. E por isso há uma ironia, ou há um sarcasmo associado. Aliás, todo o livro é sarcástico, mas há um sarcasmo tremendo associado a essa condenação porque, de facto, tendemos a sofrer um desgosto muito maior quando vemos os bons falharem. E isso vai ao encontro do que Martin Luther King dizia, que mais do que temer o ruído dos maus, temia o silêncio dos bons. É um pouco isso. A passividade dos bons, perante uma hipótese de derrocada da humanidade, torna-se profundamente obscena, como se os bons fossem os culpados. Não bastará ser bom, é essencial agir no sentido de fazer com que a bondade seja um princípio ativo. Eu entendo muito assim. Até no foro dos ativismos, digamos assim, acho que estamos num tempo em que não podemos achar que somos só indiferentes a determinadas torpezas. Temos de ser ativamente contra essas torpezas. Por exemplo, não basta eu dizer que não sou racista; é preciso ser ativamente antirracista.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro. É um pouco o que está em causa entre os bons e os maus. Os bons, não basta que sejam bons, é preciso que sejam ativamente agentes do bem, que produzam o exercício do bem como uma obrigação coletiva.

É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo?
Até porque, depois da pandemia, ou durante a pandemia, dizia-se que as pessoas iam ficar mais próximas, mais solidárias, e estamos a ver um pouco o contrário, não é? Estamos cada vez mais individualistas.

Era uma coisa que a história também já explicava, que depois das pandemias voltam as guerras e voltam as atomizações e todos os oportunismos e avançam todos os sentidos de imperialismo e de domínio de uns perante os outros. A história explica que, com cada pandemia, há um ciclo que se inicia e que tem uma tramitação, digamos assim, que é repetida. Quem leu alguma coisa já sabia que era inevitável passarmos por esta fase. A candura que se criou no período da pandemia, que fez com que as pessoas achassem que, quando pudéssemos estar juntos, quando pudéssemos voltar às ruas e normalizar um pouco as nossas vidas, haveríamos de ser muito mais fraternos, estaríamos todos saudosos de nos vermos e de nos abraçarmos… Essa candura é exatamente um dos instrumentos mais valiosos para o oportunismo, porque as pessoas entorpecem, digamos assim, os sentidos, ficam iludidas com uma fantasia e acabam por estar meio predispostas para serem enganadas em todas as situações. Por isso é que a história também comprova que é nesse instante de candura universal que os malfeitores avançam.

Não deixa de ser estranho... Como é que a história já mostrou isso tantas vezes e, mesmo assim, continuamos repeti-lo?
É como se individualmente fôssemos todos muito capazes, mas coletivamente somos sempre um pouco mais falhos. É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo? É estranho, porque cada um de nós sozinho não tem interesse nenhum em seguir essa direção, mas no coletivo fazemo-lo. Enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas.

A Marquesa, mulher bicuda e propensa a diarreias que acha que "o povo é estúpido", tem um final aberto, associado ao cofre de Agilulfo. O cofre representa o quê exatamente? O desconhecido, o ideal da informação? A soberba?
O cofre, para mim, é um mistério que não é aceite, que algumas personagens não conseguem aceitar. É um mistério que acontece às vezes nos meus livros. É uma equação irresoluta, que não tem solução à vista. E, depois, as pessoas distinguem-se entre aquelas que tomam a rédea das suas vidas independentemente de tudo ou as outras que não conseguem avançar em sentido algum enquanto uma resposta não lhes for dada. Por isso, a Marquesa não consegue existir para lá daquela resposta e a Criada existe para lá daquela resposta.

Torna-se a patroa, não é?
É e, por isso, de alguma maneira, as pessoas ficam distintas, são distintas por esta atitude em relação a uma equação irresolúvel. Ou achamos que a vida é justa independentemente de nos responder ou não, ou, então, não aceitamos o facto de não nos responder e estabelecemos a vida como impossível.

Tendo em conta as referências à religião, às tantas dei por mim a tentar identificar os sete pecados mortais. Foi propositado ou eu é que levei a minha análise demasiado a fundo?
Não, tem, porque há um jogo com as virtudes no livro e, por isso, todos os pecados estão presentes, de alguma forma. Podia ser o século dos pecadores, mas o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade. Mas existe o uso das iniquidades todas.

Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta

Falou há pouco sobre a justiça. No livro escreveu que, "quanto mais se propagava a justiça, mais se notavam as falhas de carácter e o quanto a informação, afinal, não podia nada contra o prejuízo dos gestos" e que "a população aumentava de emoção, […] decidia por sentir e não por pensar". É um pouco isto que estamos a viver, não é?
É seguir as perceções. O sentimento é um bocadinho criado por uma perceção que pode ser completamente fantasiosa e que não se fundamenta por completo. Por isso, é uma espécie de ciência do achismo, que faz com que as pessoas se movam e tomem decisões a partir de um ponto de vista pessoalíssimo e normalmente errado – muitas vezes errado. De facto, uma das tragédias da contemporaneidade é fazermos ascender o sentimento à ciência, é confundirmos sentimento com ciência.

Até que os personagens criam uma nova santa.
Há uma Nossa Senhora que vai exatamente ser criada ao arrepio daquilo que as pessoas sentem. Em última análise, a religião é um sentimento, não consegue ser uma ciência, não fornece respostas concretas. Estabelece apenas dogmas, que é um bocadinho o que os sentimentos também vão fazendo. Vão criando em nós uns certos dogmas, umas certas inclinações para achar que as coisas são assim ou assado. E a religião é feita de dogmas e está cheia de decisões que temos de tomar e que têm que ver com acreditar em alguma coisa que não é minimamente comprovável e, às vezes, nem plausível. Então, achei interessante que o sentimento destas pessoas desse origem à criação de uma nova santa.

Às vezes, a religião é necessária para sobreviver, para suportar a vida, mas também cria bastante resistência ao conhecimento.
Sim. Tudo o quanto pode, a partir do ponto de vista do estabelecimento de um dogma, que não deixa de ser um preconceito, porque é um pré-conceito, um conceito prévio, acaba por ser modo de eventualmente perigar o conhecimento ou perigar a ciência. Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta.

Ao longo destes 30 anos enquanto escritor, que momentos colocaria no seu top três?
A edição do meu primeiro livro, que é um livro do qual eu hoje não gosto, mas que foi um livro que surge na minha vida um pouco de surpresa, sem que eu o tivesse procurado, mas que encontrei, digamos assim. Em 1996, foi absolutamente mudador, foi uma concretização tão gratificante que nunca esperaria que pudesse acontecer. Não tinha a convicção de que isso me pudesse acontecer. Depois, eventualmente, o instante de ganhar o Prémio Saramago, que me retira de uma lonjura e que me oferece a oportunidade de participar um pouco do teatro literário nacional. Diria, depois, a publicação no Brasil. A passagem por um grande festival no Brasil e a recetividade dos leitores brasileiros em relação à minha obra acabam por retificar ou legitimar, diria, uma relação forte que tinha com a cultura brasileira e que faz com que hoje me sinta balançando entre os dois países de um modo muito gratificante.

E faria tudo igual?
Talvez, se fazer tudo igual me trouxesse a este dia, a esta hora, desta maneira, sim, faria, sim. Não saberia fazer de outra maneira, porque o que decidi foi o que soube decidir. Estou muito feliz, sobretudo estou muito feliz com os livros que escrevi, com os livros que escrevo, com o novo livro, de maneira que este foi o percurso que me garantiu a possibilidade de escrever este livro, então foi o percurso certo.

Que outros projetos é que tem em mãos?
Este livro começa um ciclo chamado Crimes e Vindouros, por isso já estou com a cabeça no próximo romance. À partida será uma tetralogia também; gosto de funcionar por ciclos de quatro livros. Estou com a cabeça nestes assuntos, do que podem ser os grandes crimes de hoje, herdados pelas pessoas do futuro; que crimes estamos nós a deixar para que as pessoas do futuro herdem. É nisso que estou metido.

Gosto muito da imagem do Albuquerque Mendes, que é um mestre pintor português, um grande amigo, e que, ao longo da escrita do livro, me foi ouvindo falar sobre ele. Enquanto escrevia, falámos quase todos os dias, e fui contando ao Albuquerque o que estava a acontecer. Ainda antes de ler o livro, ele conseguiu criar essa imagem, que me parece perfeita para o clima do livro, para a desconfiança entre a Marquesa e a Criada, entre as mulheres, a presença da máquina de costura, e o fantasma do Agilulfo deitado como sombra delas mesmas. Então, foi muito especial ter uma imagem do Albuquerque Mendes neste livro, porque surge da nossa amizade e dessa partilha de uma coisa que ainda não acontece, ou que está a acontecer, mas que ainda não existe por inteiro. Ele ajudou-me a ver o livro antes que o livro estivesse completo. É muito especial ter esses bonecos, digamos, esses desenhos na capa do livro.

Sim, é muito bonita. É a cena em que estão a vender os vestidos.
Vendem os vestidos e estão, de alguma forma, transformadas em colegas de trabalho, e assim, meio que aldrabando a clientela, meio que impingindo à clientela a tralha que têm para vender.

Mais tarde ainda é pior, porque usam trapos e cortinados.
Exatamente, depois perdem a cabeça. É o desespero, é a fome.

sábado, 13 de junho de 2026

GENER8ION - Love and Tears, featuring Yannis Phillipakis

Letra
Out, out,
From the wall,
See it all fall.
And down, down around you,
All and out our way.

Out, out,
Seven feet tall,
Fool around then fall.
All, all around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven, seven,
Feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
From the wall,
See it all fall.
And down, down around you,
All and out our way.

Out, out,
Seven feet tall,
Fool around then fall.
All, all around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven, seven,
Feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out,
Into another face.

Out, out,
Seven, seven,
Feet tall,
Out, out,
All around you,
All the way out...

A canção "Love and Tears" é uma colaboração artística marcante que une o projeto multimédia francês GENER8ION, liderado pelo produtor Surkin em parceria com o realizador Romain Gavras, à voz do músico luso-grego ou britânico Yannis Philippakis, conhecido como o vocalista da banda Foals. Esta fusão cultural resulta num estilo musical que transita pelo pop eletrónico alternativo e pelo indie dance, combinando uma produção eletrónica densa, com sintetizadores cinemáticos de travo french touch, à interpretação vocal crua e melancólica típica do indie rock. Toda a envolvência sonora é descrita como hipnótica e nostálgica.
Todo o álbum "Love and Tears" trata-se de uma instalação artística visual ambientada num futuro distópico no ano de 2034.A obra aborda a fragmentação social, a saturação emocional e o impacto da inteligência artificial/tecnologia na identidade humana.
O significado da canção expande-se através do seu conceito visual, funcionando como a faixa-título de um projeto mais amplo ambientado num futuro distópico. A obra aborda a fragmentação social, a saturação emocional e o impacto da tecnologia na identidade humana. No aclamado videoclipe, protagonizado pela atriz Charlize Theron, a câmara foca-se obsessivamente nas suas expressões faciais enquanto um motor de renderização digital a replica, transitando de uma euforia radiante para um desespero profundo. A letra, interpretada por Philippakis, reflete sobre o desejo e o isolamento, retratando a forma como o amor e a dor se transformam em espetáculo num mundo cada vez mais sintético e alienante.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

The Jesus and Mary Chain - Blues From a Gun

Melhor som aqui

Letra
I don't care about the state of my hair
I got something out of nothing
That just wasn't there
And your kiss kiss kiss
Is never gonna blow me away

Dreams of escape keep me awake
I'm never gonna get out and make it away
I'm a stone dead tripper
Dying in a fantasy

Like a cracked open sky it helps you to die
Don't split it scrape it
You're screaming automatic pain

Too young kid you're gonna get hit
Looks like your never gonna make it
Off the government list

I don't mind about the state of my mind
But you know it's good for nothing
And I left you behind
It's a sick sick city
But it's never gonna make me insane

If you're talking for real
Then go cut a deal
You're facing up to living out
The way that you feel
And you shake shake shake
'Cause you know you'll never make it away

Well I guess that's why I've always
Got the blues


Outra exibição ao vivo brilhante

Significado da canção
Na canção "Blues From a Gun", lançada em 1989 no álbum Automatic, a sonoridade da banda ganha contornos ainda mais mecânicos e industriais devido ao uso de baterias eletrónicas e sintetizadores. O significado da letra mergulha numa profunda angústia existencial, na paranoia e na autodestruição. O título liga a melancolia do blues ao perigo iminente de uma arma, servindo como uma metáfora para uma crise psicológica volátil. Através de uma interpretação vocal apática que contrasta com o caos das guitarras, a faixa transmite uma sensação de isolamento, alienação urbana e o sentimento de estar sob o escrutínio destrutivo do mundo, funcionando como uma catarse barulhenta para o desespero interior.
Há uma forma indireta de ler uma crítica social na canção, se olharmos para o contexto da época. No final dos anos 80, o Reino Unido vivia o auge do Thatcherismo, um período marcado pelo individualismo extremo, desemprego em massa e desmantelamento das comunidades industriais (especialmente na Escócia, terra natal da banda). O niilismo e a sensação de "não haver futuro" que a canção transmite não nascem no vácuo; são o produto de uma juventude sufocada por esse ambiente cinzento e sem perspetivas.
Ainda assim, a banda nunca teve a intenção de assinar uma panfletagem anticapitalista. Se há uma revolta em "Blues From a Gun", ela é puramente existencial. É o indivíduo encurralado pelos seus próprios demónios e pela hostilidade do mundo exterior, preferindo o barulho e a apatia como refúgio à dor de tentar encaixar na sociedade. É niilismo puro, mas com a marca e a frustração da sua própria era.
Em resumo, é uma faixa que capta a urgência, o desalento e o lado mais sombrio da juventude e da alienação urbana no final dos anos 80.

terça-feira, 19 de maio de 2026

O declínio da ordem democrática e a emergência da Pós-Democracia


Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Há sinais de que isso é evidente.

A ordem mundial estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial concebia a democracia como a forma ideal de governo, baseada em três ideias fundamentais: a eleição popular de autoridades através de sufrágios livres, competitivos, igualitários e secretos; a separação de poderes; e a expansão dos direitos humanos no âmbito do Estado de Direito. Tudo isto, além disso, ocorreu num contexto de crescente reconhecimento do pluralismo.

Este panorama consolidou-se no contexto da "terceira vaga" teorizada por Samuel Huntington, que abrange os processos democratizadores ocorridos nas duas décadas que separam os países do sul da Europa dos do leste. O fracasso do comunismo, do militarismo desenvolvimentista e de vários modelos de regimes sultanistas era evidente, e quase todos os países latino-americanos se viram imersos nesse movimento. Restaram apenas casos desviantes, como Cuba, mas a maioria aparentemente seguiu o caminho da chamada consolidação democrática.

O sucesso desta transformação no final do século passado traduziu-se num novo impulso na ciência política e numa agenda para a "qualidade da democracia", que consiste em mensurar o seu comportamento de acordo com abordagens teóricas pioneiras, desenvolvidas, entre outros, por Guillermo O'Donnell e Leonardo Morlino. Isto levou a avanços significativos na análise da democracia com base na avaliação dos seus componentes. A Freedom House, a The Economist Intelligence Unit, a Fundação Bertelsmann, a International IDEA e o Projeto V-DEM foram os agentes mais proeminentes na condução destes estudos.

Os Sintomas de Fadiga e a Revolução Digital
A reviravolta global provocada pela pandemia exacerbou os sintomas de fadiga que vários países, em diferentes níveis da estrutura democrática, vinham a experimentar. A desconfiança nas instituições, o desapego face à democracia e a crise de representação política — evidentes em partidos fragmentados e voláteis, com uma identidade reduzida e difusa — tornaram-se patentes. Isto foi também articulado pela centralidade de líderes inexperientes, empurrados para a arena política por consultores de comunicação especializados. Além disso, na maioria dos países latino-americanos, os fracos resultados no combate à insegurança pública e à corrupção desacreditaram ainda mais a política.

Este cenário completou-se com uma sociedade transformada pela revolução digital exponencial:
  1. O crescente individualismo e a articulação de diferentes identidades nas redes sociais emergentes (que romperam com as formas anteriores de interação social);
  2. Novos mecanismos de informação e comunicação que alcançavam as pessoas de forma personalizada, imediata e viral;
O domínio da pós-verdade, marcado por formas de manipulação da realidade.
Tratou-se, em suma, da consolidação de uma "sociedade do cansaço", segundo Byung-Chul Han, que explorou o estado da "sociedade líquida" descrita por Zygmunt Bauman ao teorizar sobre a sociedade de consumo.

Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Nada sugere que o inegável consenso estabelecido se mantenha. Os sinais são claros.

O Cenário Pós-Democrático e as Três Ameaças
O mundo é atualmente movido por conglomerados tecnológicos em constante crescimento, com uma escala financeira sem precedentes. Estes agem em conjunto com a alienação dos seres humanos, desenvolvendo novas formas de ação coletiva incompatíveis com a forma como a democracia, agora desarticulada, evoluiu ao longo de décadas, abrindo caminho para um cenário pós-democrático invulgar e incerto, onde a polarização emocional se mostra um instrumento eficaz.

Dentro da ambiguidade do termo, e em meio ao desmantelamento do multilateralismo como caminho para uma ordem mundial minimamente operacional, emergem três fenómenos, aos quais se soma agora a disrupção provocada pela inteligência artificial (IA):

1. A capacidade autodestrutiva inerente: Há atores internos cujo comportamento é desleal, ou mesmo "semileal", como denunciou Juan Linz. Um exemplo é Vladimir Putin, que já foi presidente graças ao voto popular, mas iniciou de imediato a erosão do credo democrático, esmagando a oposição e controlando todas as alavancas do poder. O chavismo, Daniel Ortega e Nayib Bukele fizeram o mesmo, com resultados devastadores para os seus países.

2. A retórica populista e nacionalista: Diz respeito ao caminho perigoso trilhado por Donald Trump e os seus seguidores na Europa e na América Latina. O seu comportamento mina os direitos humanos ao bloquear políticas de inclusão, diversidade e igualdade, e ao criar bodes expiatórios para escoar a ira de uma população seduzida por múltiplas formas de manipulação da realidade. A retórica nacionalista, bem como os ataques aos meios de comunicação independentes, a intelectuais e a grupos de oposição, minam qualquer estrutura de consideração e respeito pelo pluralismo.

3. O modelo autoritário de sucesso: Refere-se ao modelo chinês de inegável sucesso económico e enorme transformação social, impulsionado pela urbanização e pela elevação dos padrões educativos e de saúde. Assim, o autoritarismo chinês tornou-se um estímulo à manutenção de formas antidemocráticas noutros países.

O Impacto da Inteligência Artificial
Por sua vez, a IA está a revelar-se uma ferramenta disruptiva que impacta drasticamente a desinformação e fomenta o conhecimento profundo das preferências das pessoas, tornando a participação política convencional obsoleta. Não será surpresa, portanto, que a forma como os eleitores se deslocam regularmente às urnas seja em breve substituída, tal como a forma como elegem os seus representantes.

A pós-democracia, em suma, representa um espaço incerto que responde aos desafios da sociedade digital, sendo, ao mesmo tempo, a consequência do cerco histórico sofrido pela democracia representativa e das suas falhas em enfrentar os problemas dos cidadãos e responder às suas exigências.

E em Portugal? Marca na agenda: faz greve no dia 3 de Junho

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Trabalho precário - Portugal a caminho do Laos do Ocidente

Por Tiago Franco, 9 de Novembro
Enquanto as eleições do Benfica ocupavam boa parte do espaço mediático e das transmissões televisivas, mais de 100 000 trabalhadores saíram à rua para se manifestarem contra as alterações às leis laborais. Eu sou Benfiquista, daqueles que levam aquilo mesmo no osso, mas consigo perceber, acho eu, onde devem estar as prioridades de uma sociedade sob ataque.

Enquanto escrevo isto vejo um noticiário da CNN que abre com um direto, a partir de uma feira qualquer, onde a jornalista entrevista anónimos Benfiquistas a propósito do resultado de ontem. Às vezes acredito mesmo que temos o que merecemos.

As alterações ao código do trabalho, que foram passando entre burcas, futebol e imigrantes, serão, provavelmente, o momento que marcará a passagem de Montenegro pelo governo português e que, nos anos seguintes, ficará como a sua imagem de marca. Passos Coelho ficou colado, para a vida, à emigração dos professores. O Luís, da Spinumviva, ficará agarrado ao maior ataque aos trabalhadores desde Abril de 74. A propósito...algum dia teremos desenvolvimentos no caso dessa empresa extraordinária, que nunca teve conflitos laborais entre patrão e empregados?

O novo pacote laboral, para a minha geração pelo menos, deveria ser a primordial preocupação. Era este o debate que nos devia ocupar as horas televisivas. Era importante que os portugueses, que vivem do seu trabalho, percebessem o que está a ser alterado e de que forma isso os afecta.

O governo PSD-Chega vai conseguir ir para lá daquilo que seria o sonho molhado dos liberais em relação ao código do trabalho. Horários maiores, contratos mais precários e durante mais tempo. Facilitação do despedimento, maiores limitações às greves e ao trabalho sindical. Flexibilização de horários de trabalho nocturnos ou ao fim-de-semana. Possibilidade de fazer outsourcing (trabalho externo) para substituir trabalhadores despedidos (ou seja, incentivar mão de obra mais barata e precária).

Curiosamente...nem uma palavra sobre o aumento do salário mínimo. Em resumo, o novo código do trabalho far-nos-á mais pobres (se é que isso ainda é possível) e muito mais precários. Para quem não acompanha esta coisa dos sindicatos, pensem apenas nisto meus amigos...quando a CGTP e UGT dão a mão, é porque a coisa está mesmo preta.

Acho importante desmistificar aqui uma ou duas coisas que ouço, aqui e ali, dos liberais e radicais de direita, quando tentam defender estas medidas como um avanço em direção à Europa do norte. Meus amigos...há duas diferenças enormes, nisto do trabalho, entre Portugal e os países mais ricos a norte.
A primeira é o nível de formação da população e, como consequência disso, o tipo de trabalho desenvolvido.

Não é a mesma coisa flexibilizar as leis laborais num país cheio de indústrias ou hubs tecnológicos ou, noutro, que vive de serviços e turismo. A facilidade de encontrar novos empregos é muito maior no primeiro.

A segunda é que, ao contrário do que nos vendem, os sindicatos são fortíssimos nos países do norte e parceiros indispensáveis para a concertação social. Já para não falar da rede social de apoio. Portanto, os trabalhadores são protegidos e os sindicatos ouvidos.

Na minha área laboral é particularmente chocante perceber onde Portugal chegou nas últimas duas décadas. Deixámos de ser um país formador com potencial para passarmos a ser o hub da engenharia europeia do baixo custo. Já perdi a conta às multinacionais que vão para Portugal porque há "engenheiros bem formados, que falam inglês e trabalham 10h por dia por 1.000 e tal euros por mês". Este tipo de discussão é frequente e eu ouço-a envergonhado.

Aliás, é curioso, a propósito de um texto que aqui escrevi sobre deslocação de trabalho (meu) para o Vietname e, contas feitas, Portugal está em condições de competir com o custo do sudeste asiático. Algo absolutamente impensável em qualquer país da Europa civilizada.

O que Luís Montenegro e seus comparsas tentam é baixar, ainda mais, o nível já de si sofrível, deixando-nos à mercê dos baixos salários com a chantagem do despedimento ao virar da esquina. E mais do que isso, fazer com que a precariedade seja regra e o planeamento de uma vida familiar uma autêntica aventura.

Quem é que quer viver num país assim, pergunto. Quem é que fica, depois, surpreendido, que a imigração para Portugal se resuma a povos de países ainda mais miseráveis? Não é por demais óbvio que, em momento algum, o triunvirato PSD-Chega-Il poderá melhorar a qualidade de vida do português comum?

Aliás...qual é a diferença, nos dias de hoje, entre as políticas de Montenegro, Ventura ou Mariana Leitão?

É importante que compreendam o seguinte. Com a realidade do tecido empresarial português, a nossa formação e os empregos que a economia gera, este pacote laboral não nos leva para o norte europeu. Nem a Espanha chegamos, quanto mais ao norte.

Tudo o que podemos aspirar é continuar a formar gente que se vai embora, deixando para trás uma população envelhecida, pobre e com ódio ao vizinho do lado.

Esta é a grande luta que nos bateu à porta. Não são os tik-toks do Ventura, os paquistaneses da Uber ou a bola que foi ao poste. Temos que interromper, por uns tempos, a degustação de palha e focar no essencial.

Caso contrário, não nos poderemos queixar se, um dia, acordarmos no Laos do Oeste.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Escritor Amin Maalouf diz que “humanidade vive momentos mais perigosos”

O escritor libanês Amin Maalouf disse esta segunda-feira, no México, que a humanidade vive um dos seus momentos mais perigosos, mas está confiante de que as sociedades encontrarão “uma onda de humanidade” para resistir.

“Acredito que há uma onda de humanidade que nos permitirá ultrapassar este período, mas é verdade que este é provavelmente o período mais perigoso da história”, destacou Amin Maalouf, após ter sido anunciado como o vencedor do Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas de 2025.

“Acredito que nos espera muita devastação, mas penso que nos devemos convencer de que eventualmente encontraremos a força interior para sobreviver”, indicou Amin Maalouf, numa conferência de imprensa realizada na cidade de Guadalajara, no oeste do México.

Maalouf ganhou o prémio pela obra “As Cruzadas Vistas pelos Árabes”, “que ocupa um lugar essencial na literatura contemporânea por explorar com grande lucidez as fraturas e fusões do mundo moderno”, anunciou a porta-voz do júri, Carmen Alemany.

“Os seus romances e ensaios exploram a memória e o exílio, rejeitando a estreiteza de espírito nacionalista ou religiosa”, e o seu “pensamento humanista, crítico e generoso (…) recorda-nos que a esperança reside no reconhecimento das nossas heranças partilhadas”, sublinhou a porta-voz.

O autor de ‘Lion, o Africano’ e ‘Samarkand’ observou que o fortalecimento da identidade é uma das formas de lidar com um mundo onde existe pouca solidariedade.

O autor criticou ainda os países desenvolvidos que beneficiaram do talento de milhares de pessoas que chegaram aos seus territórios para construir as suas economias e o seu legado cultural, e que agora “se questionam se devem ou não acolher os migrantes”.

O escritor, radicado em Paris desde 1976, nasceu em Beirute em 1949 e vai receber o prémio no dia 29 de novembro, na cerimónia de abertura da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a decorrer de 29 de novembro a 08 de dezembro, este ano dedicada a Barcelona.

O Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas tem o valor de 150 mil dólares (perto de 128 mil euros) e reconhece o conjunto de uma obra de qualquer género literário.

A edição deste ano, segundo a organização da FIL de Guadalajara, recebeu 63 nomeações, num total de 48 escritores de seis línguas e 18 países: Espanha, El Salvador, Colômbia, México, Argentina, Nicarágua, Cuba, Chile, Japão, Líbano, França, Senegal, Marrocos, Guiné, Itália, Cabo Verde, Brasil e Portugal.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

She Past Away - Disko Anksiyete

Melhor som aqui
Disko Anksiyete
Letra Original (Turco)
Gözler kapalı, ruhlar firari
Karanlık çöker, vakit daralıyor
Ritmin içinde kaybolan sesler
Zamanın ötesinde bir yer burası

Sanki bir rüya, bitmek bilmeyen
Soğuk nefesler, titreyen eller
Işıklar söner, dans başlar yine
Korkularla yüzleşme vakti şimdi

[Nakarat]
Disko anksiyete, kalbim çarpıyor
Disko anksiyete, dünya dönüyor
Disko anksiyete, kaçış yok artık
Disko anksiyete, her şey bitiyor

Tradução (Português)
Olhos fechados, almas em fuga
A escuridão desce, o tempo está a esgotar-se
Vozes perdidas dentro do ritmo
Este é um lugar para além do tempo

Como um sonho que não quer acabar
Sopros frios, mãos trémulas
As luzes apagam-se, a dança começa de novo
Agora é o momento de enfrentar os medos

[Refrão]
Ansiedade de discoteca, o meu coração bate forte
Ansiedade de discoteca, o mundo gira
Ansiedade de discoteca, já não há fuga
Ansiedade de discoteca, tudo está a acabar

Dançar no vazio: a eletrónica darkwave do Século XXI e a nova ansiedade dos She Past Away

Em vez de se limitar a uma simples nostalgia retro dos anos 80, Disko Anksiyete propõe uma abordagem marcadamente contemporânea ao darkwave. O duo turco desconstrói os velhos clichés do género ao infundir a faixa com uma produção cristalina e minimalista típica da música eletrónica do século XXI. A linha de baixo não é apenas o eco de uma era passada; é um motor pulsante, gélido e quase hipnótico que bebe do minimal techno e do EBM moderno, criando uma experiência sonora pensada para as pistas de dança atuais, sem perder a densidade sombria.

Essa roupagem musical inovadora serve de veículo para uma reflexão profunda sobre a alienação na era da hiperconexão. Ao contrariar a expectativa tradicional do darkwave - que muitas vezes se foca no romantismo dramático ou no gótico melancólico -, a canção transforma a discoteca num microcosmo da ansiedade social contemporânea. O espaço da pista, historicamente associado à libertação e à fusão coletiva, passa a ser uma prisão de sobrecarga sensorial. Rodeado de luzes, corpos e ruído, o indivíduo enfrenta uma paralisia emocional sufocante: a obrigação social de performar euforia enquanto lida com um vazio interior absoluto.

Esta tensão constante entre a batida dançável e o isolamento psicológico encontra ecos diretos na filosofia e na literatura. A multidão sufocante materializa o conceito existencialista de Jean-Paul Sartre de que "o inferno são os outros", onde o olhar alheio atua como uma força julgadora. Ao mesmo tempo, a busca por pertença num ambiente efémero reflete o Absurdo de Albert Camus e a fragilidade das relações na "modernidade líquida" de Zygmunt Bauman. Em vez dos monstros clássicos do horror gótico de Edgar Allan Poe ou E.T.A. Hoffmann, a ameaça aqui é inteiramente interior e psicológica- uma claustrofobia moderna que se dança no ritmo gélido do presente.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Lebanon Hanover - Babes of the 80s (She Past Away Remix)

Letra
[Verse 1]
These days it's crucial
To be silent and comfortable
The exploitation of humanity
They learned to accept it all
In my generation I will never fit in
I should be saint but I want to murder, murder everyone

[Chorus]
Babes of the late 80s, why are you looking so rundown?
Without posture there's no movement
In my pathetic age group there's confusion
Go and section us into a mental institution
Because we dreamed of a revolution

[Verse 2]
You would fantasize about the world elimination
I didn't agree but now I must say
At least you had imagination
People my age have no attitude
I should give in but I want to murder, murder everyone

[Chorus]
Babes of the late 80s, why are you looking so rundown?
Without posture there's no movement
In my pathetic age group there's confusion
Babes of the late 80s if you could put on a frown
How can absence be improvement?
Ooh well, in my age group there's confusion

Eco de néon e decadência: a convergência sombria entre Lebanon Hanover, She Past Away e Last Night in Soho
A interseção entre a música dos Lebanon Hanover, remisturada pelos She Past Away, e o filme Last Night in Soho (2021) representa uma convergência estética fascinante onde a melancolia, o romantismo sombrio e a nostalgia perversa se encontram num diálogo contínuo.

Sonoramente, a faixa enquadra-se no universo da música alternativa underground, cruzando o darkwave, o coldwave e o post-punk. A versão original dos Lebanon Hanover- duo formado em 2010 pela vocalista e guitarrista suíça Larissa Iceglass e pelo baixista e vocalista britânico William Maybelline - destaca-se pelo seu minimalismo cru, linhas de baixo pulsantes e uma atmosfera gelada. Contudo, ao ser remisturada pela banda turca She Past Away (liderada por Volkan Caner), a canção ganha uma roupagem marcadamente gothic rock e synthwave, adicionando sintetizadores densos, ritmos dançáveis de caixas de ritmo retro e uma cadência magnética, tipicamente herdada da vaga dos anos 1980. A escolha de She Past Away para remisturar "Babes of the 80s" assenta na mestria da dupla turca em injetar uma energia dançável e uma produção obscura sem perder a essência melancólica original, transformando a ode nostálgica num verdadeiro hino para as pistas de dança góticas contemporâneas.

A nível conceptual, o universo dos Lebanon Hanover bebe diretamente de influências literárias e filosóficas profundas. No plano filosófico, destaca-se o Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus, visível na tematização do absurdo, do isolamento do indivíduo e do peso da liberdade numa sociedade alienante. Encontra-se também uma forte marca do Niilismo de Friedrich Nietzsche e da perspetiva do pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer, em que o sofrimento e a futilidade da existência são encarados de frente.

No âmbito literário, a estética da banda inspira-se no Romantismo Obscuro (Dark Romanticism) de autores como Edgar Allan Poe, explorando o macabro, a vulnerabilidade psicológica e a obsessão pela morte. Há igualmente uma herança direta do Decadentismo do século XIX, evocando poetas como Charles Baudelaire (As Flores do Mal) no retrato da decadência urbana, da melancolia e da busca obsessiva por uma beleza trágica. A poesia da Beat Generation e o isolamento romantizado da literatura gótica clássica terminam de moldar letras que expressam uma forte anomia social, a rejeição do consumismo moderno e a romantização contínua de um passado irrecuperável.

A razão pela qual os fãs editam music videos não oficiais cruzando esta remistura com imagens do filme Last Night in Soho (2021) reside na ressonância temática e estética perfeita entre ambas as obras. Por um lado, existe a crítica à nostalgia perigosa: a letra de "Babes of the 80s" ironiza e lamenta a fascinação romantizada por uma década passada, enquanto no filme Eloise sofre da mesma obsessão em relação aos anos 60, com ambas as obras a desmistificarem a ideia de que o passado era uma época dourada. Por outro lado, a sonoridade soturna e sensual do remix espelha a estética visual do filme - dominada por luzes de néon vermelhas e azuis, sombras, espelhos e uma atmosfera de pesadelo elegante. Finalmente, o ritmo hipnótico e dançável dos She Past Away encaixa perfeitamente nas sequências de clube, dança e alucinação do filme, acentuando a transição da euforia para a paranoia. Um fã decide criar este tipo de edição para materializar visualmente o sentimento que a música evoca, criando uma narrativa visual simbiótica onde a ilusão, a decadência urbana e o terror psicológico ganham uma nova camada de intensidade poética.

Melhor som aqui

Lebanon Hanover e a Desconstrução da nostalgia dos Anos 80
Musicalmente, a faixa constrói um curioso paradoxo: utiliza um ritmo pulsante e envolvente para criar um contraste direto com a sua mensagem profundamente melancólica e niilista. O Lebanon Hanover recorre à própria linguagem estética da década de 1980 - com sintetizadores analógicos frios e ritmos minimalistas - não para celebrar a era, mas para a desconstruir. Ao mergulhar nessas referências sonoras e visuais, a banda desmistifica a nostalgia idealizada dos anos 80, exposto a futilidade e o vazio que muitas vezes se escondem por trás de uma fachada estilosa.

Tematicamente, a canção funciona como uma crítica social mordaz e um lamento pela perda do espírito contestador na juventude contemporânea. Em vez de uma incitação literal à violência, as imagens mais agressivas e sombrias presentes no tema devem ser entendidas como uma metáfora forte para o desejo visceral de romper com o conformismo e sacudir a apatia geral. A banda expressa uma profunda frustração com a falta de ambição e a passividade das novas gerações (Geração Y / Millennials e Gen Z) diante do sistema, criticando quem aceita a exploração sem se revoltar., criticando a tendência atual para aceitar confortavelmente a exploração e as injustiças da sociedade em troca de um silêncio complacente.

Ao questionar a desconexão e a postura estática da juventude, o Lebanon Hanover aponta para um sentimento sufocante de alienação e falta de rumo. A ausência de espaços de liberdade e de verdadeira atitude é apresentada como a causa principal para a estagnação cultural do presente. Há uma clara nostalgia, não do glamour superficial do passado, mas do tempo em que as pessoas ainda possuíam imaginação, radicalismo e um desejo genuíno de transformação. No fundo, a faixa consolida-se como uma reflexão amarga sobre uma sociedade que perdeu a capacidade de se revoltar e se rendeu à conformidade.


domingo, 2 de dezembro de 2007

Música do BioTerra: Johan & Djuret - Kom & Köp

 
Dogma cut, pirate-arty, anti-commercialism music video with the swedish hiphop and reggae band Johan & Djuret. Some people where possibly hurt doing the recording while others got a bit of stamina exercise. Dont try this at home!

O tema "Kom & Köp" (que se traduz literalmente do sueco como "Vem e Compra") faz parte do álbum de estreia de 2013, intitulado Något Mer, e reflete perfeitamente a identidade interventiva da banda Johan & Djuret. Fiel à longa tradição do reggae político e social, a canção constrói uma sátira mordaz e uma crítica aberta ao capitalismo desenfreado e à sociedade de consumo contemporânea. Através do seu refrão e da mensagem central, o grupo ironiza a falsa premissa de que tudo está à venda, expondo a forma como as pessoas são constantemente bombardeadas por campanhas publicitárias que as empurram a comprar bens materiais na ilusória tentativa de preencher vazios emocionais. Além disso, a letra aborda o problema da alienação social, demonstrando como o sistema moderno mercantiliza a vida quotidiana e transforma os cidadãos em meros consumidores, distraindo-os de causas humanas e sociais muito mais profundas. Assim, as letras do projeto Johan & Djuret destacam-se no panorama sueco por serem diretas, altamente politizadas e carregadas de um forte sentimento de justiça social, sem nunca perderem a capacidade de contagiar o público com ritmos dançantes e dinâmicos.