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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Tecnofascismo e carbofascismo: as novas formas de dominação do poder contemporâneo e o fim da política tradicional


Resumo
A reconfiguração geopolítica e sociotécnica do século XXI impõe a necessidade de ultrapassar as molduras teóricas herdadas da modernidade. Este ensaio desenvolve uma análise crítica sobre como a intersecção entre o tecnofascismo e o carbofascismo constitui a arquitetura de poder dominante do nosso tempo. Argumenta-se que, enquanto o tecnofascismo rege a subjetividade humana através de ecossistemas algorítmicos e do capitalismo de vigilância, o carbofascismo assegura a reprodução material do capital fóssil e a inércia sistémica perante a catástrofe ecológica. Perante esta aliança estrutural, o espetro político convencional (Esquerda e Direita institucionais) revela-se incapaz de resposta, resultando numa anestesia política generalizada.

1. Introdução: O Diagnóstico do Poder Contemporâneo
A teoria política clássica acostumou-se a definir o poder através da coerção estatal exercida dentro de fronteiras soberanas, medida pelo monopólio da violência legítima (Weber) ou pelas instituições disciplinares (Foucault). Contudo, o cenário contemporâneo apresenta um deslocamento fundamental: o exercício do controlo transicionou para mecanismos de modulação comportamental invisível e para a preservação forçada da infraestrutura energética de combustíveis fósseis.
A tese central deste ensaio assenta na premissa de que o poder atual é estruturado por dois eixos complementares:
1. O eixo imaterial/algorítmico (Tecnofascismo), que captura a atenção, atomiza a sociedade e modula o comportamento do cidadão;
2. O eixo material/extrativista (Carbofascismo), que impõe a continuidade do modelo fóssil, sacrificando a estabilidade ecomaterial do planeta em prol da acumulação de capital.

A convergência destas forças gera um nó cego institucional, no qual as vias tradicionais de representação política e reivindicação social se tornam obsoletas e inoperantes.

2. O Tecnofascismo e a Modulação Digital do Comportamento
O conceito de tecnofascismo descreve a consolidação do poder de corporações multinacionais de tecnologia (Big Tech) que operam além da soberania dos Estados e redefinem a esfera pública. Esta forma de dominação não necessita do terror físico tradicional dos regimes autoritários do século XX; em vez disso, atua por via da submissão voluntária e do condicionamento psíquico.

2.1. O Capitalismo de Vigilância e a Ilusão de Autonomia
Como analisa Shoshana Zuboff em The Age of Surveillance Capitalism (2019), o capitalismo digital opera através da apropriação unilateral da experiência humana privada, convertida em "excedente comportamental" (behavioral surplus). Este excedente é alimentado a sistemas de inteligência artificial desenhados para prever e modificar ações futuras.
Nesta arquitetura:
  • A coerção estatal é substituída pela psicopolítica digital (Han, 2014), em que o utilizador é constantemente induzido à auto-exposição e ao consumo atencional;
  • A arquitetura das redes sociais e das bolhas de ressonância (echo chambers) incentiva a polarização dirigida, transformando conflitos sociais estruturais em "guerras culturais" online estéreis;
  • A energia coletiva e a capacidade de organização no mundo físico degradam-se à medida que a atenção é atomizada e desprovida de eficácia política real.
2.2. A Substituição da Esfera Pública pelo Algoritmo
O filósofo e sociólogo Evgeny Morozov alerta para o perigo do "solucionismo tecnológico" — a ideia de que todos os problemas complexos da sociedade podem ser resolvidos por algoritmos e otimização de dados. O tecnofascismo manifesta-se precisamente quando a mediação algorítmica substitui o debate deliberativo democrático. O cidadão deixa de ser um sujeito político ativo para se tornar um ponto de extração de dados e um recetador passivo de estímulos otimizados para maximizar o engagement.

2.3. A Monetização da Intolerância (Bigotry) como Mecanismo de Dispersão 
A eficácia do tecnofascismo reside na capacidade de rentabilizar e amplificar a intolerância e o preconceito (bigotry). Dado que as arquiteturas algorítmicas priorizam métricas de reação emocional imediata, o discurso de ódio e a menorização do "outro" tornam-se mercadorias de alta rentabilidade. Esta dinâmica converte fraturas sociais profundas em mero espetáculo reativo, garantindo que o ressentimento popular seja drenado contra minorias vulneráveis em vez de se dirigir à infraestrutura material do capital fóssil e corporativo.

3. O Carbofascismo e o Imperativo do Capital Fóssil
Se o tecnofascismo domina a dimensão psíquica e informativa, o carbofascismo comanda a infraestrutura material da sobrevivência humana. O termo descreve a aliança coerciva e institucional entre o setor dos combustíveis fósseis, o capital financeiro e as elites políticas governamentais para manter a hegemonia do carbono a todo o custo.

3.1. A Dinâmica do Capital Fóssil
Na obra Fossil Capital (2016), o ecologista político Andreas Malm demonstra que o capitalismo histórico não se aliou às energias fósseis simplesmente por escassez de alternativas, mas pela capacidade que o carvão e o petróleo proporcionavam para disciplinar a força de trabalho e centralizar o poder de produção.

Atualmente, o carbofascismo manifesta-se no bloqueio sistemático da transição energética necessária:
  • Inércia sistémica: apesar de relatórios científicos conclusivos - como os do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) , a infraestrutura fóssil continua a receber subsídios massivos e investimentos estatais.
  • Violência extrativista: a degradação ambiental e as desigualdades do Sul Global são tratadas pelas elites financeiras como externalidades negativas e custos colaterais inevitáveis em nome da estabilidade dos mercados.
  • Autoritarismo fóssil: o recrudescimento da repressão policial e jurídica contra movimentos de justiça climática e ativistas ambientais sinaliza o endurecimento dos Estados para proteger os ativos energéticos corporativos.
4. A Obsolecência da Geometria Política Tradicional: Esquerda e Direita Institucionais
Um dos pontos centrais da análise reside na constatação de que as categorias políticas tradicionais perdem utilidade concetual e prática no contexto atual.

4.1. Limitações da Esquerda e Direita Institucionais
Tanto o centro-esquerda como a direita liberal ou conservadora continuam a operar dentro do paradigma do crescimento económico infinito e da gestão do Estado-Nação do século XIX:
  • A Direita Tradicional atua como facilitadora das exigências do capital financeiro e tecnológico, promovendo a desregulamentação do mercado de dados e da indústria extrativa.
  • A Esquerda Institucional, ao focar a sua ação na redistribuição marginal do rendimento sem questionar as matrizes tecno-energéticas do poder, limita-se a gerir os sintomas do sistema sem confrontar as suas causas estruturais.
4.2. A Incompetência perante o Poder Transnacional
Tanto o complexo Big Tech como o Big Oil funcionam através de redes transnacionais imunes à legislação dos Estados singulares. A representação partidária tradicional promete soberania popular através do voto, mas defronta-se com corporações que determinam os preços da energia, controlam os fluxos de informação e contornam a fiscalidade nacional. O ato eleitoral torna-se, assim, um ritual de legitimação impotente perante lógicas que não respondem ao sufrágio universal.

5. Anestesia Política, Paralisia Social e a Ineficácia das Formas de Luta Clássicas
A convergência do bloqueio ambientalista e da alienação digital resulta num estado de exaustão psíquica e paralisia coletiva.

5.1. A Carga Cognitiva e a Ecoansiedade
O fluxo contínuo de informação catastrófica sobre as crises globais - desde o colapso climático ao avanço desregulado da inteligência artificial - sobrecarrega o sistema nervoso dos indivíduos. Estudos na área da psicologia social e relatórios ambientais indicam que o excesso de alarmismo sem canais eficazes de transformação gera:
  • Ceticismo e cinismo: a perceção de que os problemas são gigantescos conduz à resignação;
  • Burnout político: a energia ativista é gasta em campanhas e petições digitais que pouca incidência têm na estrutura de poder;
  • Ecoansiedade e desespero: a sensação de colapso eminente desmobiliza a ação e incentiva o rali de sobrevivência individual.
5.2. A Perda de Eficácia das Formas de Reivindicação Tradicionais
Historicamente, as grandes conquistas sociais foram obtidas por via da greve, da manifestação de rua, da organização sindical e do debate partidário. Hoje, contudo, observa-se uma desarticulação destas ferramentas:
  • Manifestações de rua: são neutralizadas ou assimiladas enquanto "espetáculo digital", convertidas em conteúdo para redes sociais que gera métricas para as próprias plataformas que se pretende criticar.
  • Sindicatos: foram enfraquecidos pela precarização do trabalho e pela dispersão geográfica impostas pela economia de plataformas (gig economy).
  • Partidos políticos: encontram-se reduzidos a máquinas de marketing eleitoral dependentes dos algoritmos das plataformas digitais para comunicar com o seu eleitorado.
6. Conclusão: Horizontes para Além da Anestesia
O diagnóstico formulado demonstra que o tecnofascismo e o carbofascismo não são desvios temporários, mas a forma consolidada do capitalismo tardio. Eles sustentam-se mutuamente: os ecossistemas digitais dispersam e anestesiam a resistência social necessária para interromper a trajetória de devastação ecológica imposta pelo capital fóssil.

Superar este estado de paralisação exige um reconhecimento claro da falência dos métodos de reforma gradualista. A construção de alternativas políticas eficazes para o século XXI exigirá:
  1. Soberania digital crítica: A criação de redes, infraestruturas de informação e ferramentas algorítmicas de código aberto e propriedade comunitária, desvinculadas das dinâmicas do capitalismo de vigilância;
  2. Ação direta e desobediência civil energética: A transição de um ativismo focado na consciencialização para estratégias de interrupção direta da infraestrutura de reprodução do capital fóssil, tal como preconizado por correntes da ecologia política radical;
  3. Reconfiguração das formas de organização: O abandono da dependência exclusiva das instituições representativas tradicionais em favor de novas formas de poder popular local, regional e transnacional.
Apenas ao confrontar simultaneamente a infraestrutura do carbono e a mediação algorítmica da atenção será possível resgatar a política da sua anestesia atual e devolver ao corpo social a capacidade de autodeterminação.

Shoshana Zuboff explica o Conceito de Capitalismo de Vigilância
Este vídeo é relevante para o ensaio pois conta com a reflexão direta da Professora Shoshana Zuboff sobre como as grandes empresas tecnológicas capturam a experiência humana e alteram comportamentos sociais e políticos.

Referências Bibliográficas
  1. Arora, Arush (2025). Social Media-Driven Polarisation in the United States:Mechanisms, Policy Gaps, and Recommendations
  2. Han, Byung-Chul (2014). Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power. London: Verso.
  3. IPCC (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press.
  4. IPCC (2023). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Seventh Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. Geneva: IPCC.
  5. Malm, Andreas (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming. London: Verso.
  6. Malm, Andreas (2021). How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso.
  7. Morozov, Evgeny (2013). To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. New York: PublicAffairs.
  8. Zuboff, Shoshana (2019). The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs.



quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A ciência da quietude: nictinastia e ritmos naturais


A quietude que se sente no solo da floresta ao anoitecer não é uma ilusão provocada pela penumbra, mas sim um processo biológico ativo. Cenoura-brava (Daucus carota), prestes a despertar no matagal: rodeada por botões no meio de uma densa folhagem, uma única flor branca suspendeu o seu desabrochar até ao amanhecer, repousando lado a lado com pequenas flores roxas companheiras (talvez violetas) no sub-bosque húmido e sombreado.

Esta reação dinâmica à transição entre o dia e a noite ocorre através da nictinastia - um movimento funcional em resposta à ausência de luz e à descida de temperatura. As células das plantas da família Apiaceae alteram a sua pressão de turgor (a pressão da água no seu interior), fazendo com que a umbela e os seus botões imaturos se dobrem ou se fechem hermeticamente. Este mecanismo protege os delicados órgãos reprodutivos contra o frio e a humidade noturnos. Enquanto o mundo dorme, toda a flora parece descansar e desacelerar, respeitando em silêncio os ciclos ancestrais da Terra.

Entre o Sinal e o Silêncio
Enquanto a rede pulsa em cabos de luz,
e o ecrã consome o olhar distraído,
a terra, em segredo, a si se reduz,
num ritmo antigo, calmo e esquecido.

Procuramos o mundo num brilho irreal,
hiperconectados, em febre e desterro,
esquecidos do sopro do chão ancestral,
presos à ilusão do vidro e do ferro.

Mas lá fora, na sombra, a flor sabe esperar.
A cenoura-brava dobra o seu manto,
suspende o desabrochar até o sol voltar,
coberta de orvalho, de noite e de encanto.

Sem pressa, sem rede, sem código ou sinal,
a vida recolhe na sua quietude profunda.
O verdadeiro mistério do mundo real
é o silêncio da terra quando a noite o inunda.

Poema de João Soares, 03.08.2026

«A ilusão da falta de vida é apenas isso: uma ilusão. Em todo o lado há a garantia de que o ciclo se cumpriu, contendo em si os meios para a sua própria renovação.» - Rachel Carson in O Mar que Nos Cerca

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

MDMC - World Beyond

Melhor som aqui

Letra
Forever in a world beyond
Forever in a world beyond

I feel the time erode
When your tentacles enter my mind
Rockstar overload
Emotions fire in rhyme

Lightning in my veins triggers the engine
Immune to disdain when drifting in the fourth dimension
I'm riding high on the wildest bronco
And never looking back below

Shatter my chains
Inject pure love
You can never ever let me go

Shatter my chains, inject pure love
You can never ever let me go
I can’t shake off this eternal bond
Forever in a world beyond

Forever in a world beyond
Forever in a world beyond

Feeling alive
I'm ready to go
Always on the run
Never looking back below

A sacred union to fill the abyss
Makes the soul forget, a flock of angels hiss
Soaring sky high with my tattered wings dislodged
Right into a timeless world beyond

Shatter my chains
Inject pure love
You can never ever let me go

Shatter my chains, inject pure love
You can never ever let me go
I can’t shake off this eternal bond
Forever in a world beyond

Forever in a world beyond
Forever in a world beyond

You can never ever let me go
Forever in a world beyond
Forever in a world beyond

MDMC - World Beyond: a sátira à conformidade social
A faixa "World Beyond", lançada pelo projeto do produtor e letrista alemão MDMC (Marcus Domenico), afasta-se de qualquer sonoridade pesada de guitarras para mergulhar numa estética eletrónica noturna e envolvente. No que diz respeito ao estilo musical, a obra navega primariamente pelas águas da darkwave e do synthwave, com marcas vincadas de EBM . A sonoridade é construída sobre uma linha de baixo sintética e contínua (pulsing bassline), sintetizadores analógicos marcantes e ritmos mecânicos cadenciados. A voz surge envolta em ecos e reverberações, conferindo aquela melancolia introspectiva e fria que caracteriza a música alternativa gótica e pós-punk, mas com uma produção moderna e contagiante.

O videoclipe oficial - concetualizado e realizado em parceria com a produtora alemã Hush&Hype (sob a direção de Philip Herbort) - atua como uma paródia visual em tom cinematográfico, invocando a estética dos anos 80 e narrativas ao estilo de Forrest Gump. A narrativa visual acompanha um homem que, em traje desportivo vintage, decide simplesmente começar a correr de forma ininterrupta por paisagens desérticas, florestas, praias e centros urbanos. A corrida é intercalada por reportagens ficcionais na televisão ("MBC News"), onde pivôs de notícias cobrem com humor e mistério "o homem que corre pelo mundo há meses", apelidando a sigla MDMC de "Mr. Marathon".

O significado central do vídeo orbita a ideia de escapismo, libertação interior e rotura com o quotidiano. O ato de correr sem olhar para trás simboliza a fuga das amarras psicológicas e da estagnação da sociedade moderna (evocado em versos como "shatter my chains" e "I feel the time erode"). A repetição física da corrida transforma-se numa catarse: o tal "mundo além" (world beyond) não é um lugar metafísico distante, mas sim um estado mental de libertação, transe e autonomia perante um mundo exterior que assiste a tudo estupefacto.

Ao integrar o conceito do despertar da "Gaiola de Aço", a sátira de World Beyond ganha uma dimensão sociológica e filosófica profunda sobre a alienação social. Sob esta perspetiva, a narrativa visual e conceptual aborda de forma direta a crítica à complacência do homem contemporâneo. Por um lado, dialoga com a "Gaiola de Aço" (gehäuse der hörigkeit) formulada pelo sociólogo Max Weber, que descreve como o capitalismo moderno e a burocracia hiper-racionalizada aprisionam o indivíduo num sistema mecânico de regras e eficiência, desprovido de espírito. O protagonista do videoclipe tenta furar precisamente essa estrutura rígida ao abandonar o seu papel funcional no sistema.

Esta rotura articula-se com a figura do "Último Homem" de Friedrich Nietzsche, em que o filósofo alemão alertava para o surgimento de um indivíduo moderno desprovido de ambição espiritual, totalmente conformado com o conforto medíocre da sociedade de massas. O videoclipe satiriza esse sujeito acomodado ao colocar em contraste a figura do "viandante" - aquele que prefere a incerteza da estrada, o desgaste físico e a busca pessoal ao vazio de uma conformidade passiva.

Por outro lado, esta recusa traduz-se no que o filósofo Byung-Chul Han define como a resistência à "sociedade do desempenho". Na contemporaneidade, o indivíduo é constantemente compelido a produzir, otimizar o seu tempo e competir no seio do sistema capitalista. O protagonista de World Beyond corre, mas recusa liminarmente a lógica da competição: não existe uma linha de meta, uma contagem de tempo, um prémio ou uma medalha a alcançar.

Paralelamente, a obra bebe no Absurdismo de Albert Camus e no seu ensaio O Mito de Sísifo. A ação de correr sem um destino final visível reflete a aceitação do absurdo da existência: o indivíduo encontra o seu próprio sentido e felicidade no movimento em si, ignorando a procura por uma meta imposta de fora. A corrida transforma-se, assim, num ato de desobediência civil passiva e numa manifestação da literatura da viagem (à semelhança de On the Road de Jack Kerouac), onde o sujeito reivindica a posse do seu próprio corpo e da sua energia vital para a sua própria emancipação, e não para o cumprimento de uma função na engrenagem social.

sábado, 13 de junho de 2026

Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia

Já tinha lido algumas obras de Byung-Chul Han aqui e aqui
A sua vida invulgar sempre despertou a minha curiosidade.
Para terem uma ideia, Han é um antigo metalúrgico que resolveu deixar a Coreia do Sul para estudar filosofia na Alemanha sem entender uma única palavra de alemão. Como não bastasse, debruçou-se sobre Heidegger e, pouco tempo depois, tornou-se uma espécie de celebridade.
A sua enorme popularidade não se deve à sua vocação para se expor; pelo contrário, Han vive afastado da turbulência gerada pelas redes sociais. Ainda assim, é popular. Creio que isso se deve ao facto de Han tratar-se, sobretudo, de um filósofo extremamente intuitivo e perspicaz. Os seus argumentos não se constroem em torno de uma linguagem técnico-filosófica fechada nos seus termos e conceitos, destinada apenas aos seus pares, mas antes a aforismos que deixam transparecer, com suavidade e leveza, a beleza do seu pensamento. Este pequeno ensaio é prova do seu brilhantismo.

Nesta obra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han faz um diagnóstico cirúrgico - e bastante sombrio - de como a internet, as redes sociais e os algoritmos mudaram a estrutura do poder.

Se no passado o capitalismo dominava os corpos e as indústrias, hoje o poder é exercido através do controle e da manipulação dos fluxos de dados. O livro defende que não vivemos mais numa democracia tradicional, mas sim em uma infocracia.

Os pilares centrais do livro
1. O regime de informação e a falsa liberdade
Han explica que saímos do modelo disciplinar (onde o poder reprimia as pessoas e era visto como um "vigia" violento) e entramos no regime de informação.
A grande armadilha da infocracia é que ela não opera pela proibição, mas pela sedução: nós nos sentimos livres e consumimos/produzimos dados voluntariamente o tempo todo. Essa sensação de liberdade é o que garante a eficácia da dominação. O poder agora é psicopolítico: ele entra na mente do indivíduo e prevê seus comportamentos sem que ele perceba.

2. A destruição da esfera pública e do discurso racional
Para que a democracia funcione, é preciso haver debate, escuta e um discurso racional (a ideia da esfera pública de Habermas). Han argumenta que a digitalização destruiu isso:
  • As redes sociais funcionam no modelo de "bolhas de filtro", onde os algoritmos nos mostram apenas o que já concordamos.
  • O debate deu lugar à polarização e à criação de "tribos digitais" que não dialogam entre si, apenas atacam.
  • A comunicação atual é rápida, fragmentada e guiada pelo like, o que impede a reflexão profunda e o amadurecimento das ideias políticas.
3. Da democracia à Pós-Democracia digital (Dataísmo)
O autor alerta para o perigo do "Dataísmo" — a crença cega de que os dados e a Inteligência Artificial podem resolver todos os problemas humanos. Na infocracia, a política perde a ideologia e a visão de futuro, transformando-se em uma mera gestão de sistemas baseada em Big Data. Os políticos correm o risco de serem substituídos por especialistas e cientistas de computação, esvaziando o verdadeiro sentido da ação política.

4. A crise da verdade e o novo niilismo
O último grande ponto do livro é o descolamento da informação em relação à realidade. Na era das fake news, dos exércitos de trolls e da desinformação em massa, a verdade factual perde a importância. O que importa é o impacto emocional e a velocidade com que a informação circula. Isso gera um niilismo contemporâneo: as pessoas perdem a crença na existência de uma verdade comum, fragmentando a base de confiança que sustenta a sociedade.

O grande aviso de Han: a informação, que teoricamente deveria nos libertar e nos manter informados, tornou-se a ferramenta mais sofisticada de vigilância, controle e deformação do processo democrático.

terça-feira, 19 de maio de 2026

O declínio da ordem democrática e a emergência da Pós-Democracia


Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Há sinais de que isso é evidente.

A ordem mundial estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial concebia a democracia como a forma ideal de governo, baseada em três ideias fundamentais: a eleição popular de autoridades através de sufrágios livres, competitivos, igualitários e secretos; a separação de poderes; e a expansão dos direitos humanos no âmbito do Estado de Direito. Tudo isto, além disso, ocorreu num contexto de crescente reconhecimento do pluralismo.

Este panorama consolidou-se no contexto da "terceira vaga" teorizada por Samuel Huntington, que abrange os processos democratizadores ocorridos nas duas décadas que separam os países do sul da Europa dos do leste. O fracasso do comunismo, do militarismo desenvolvimentista e de vários modelos de regimes sultanistas era evidente, e quase todos os países latino-americanos se viram imersos nesse movimento. Restaram apenas casos desviantes, como Cuba, mas a maioria aparentemente seguiu o caminho da chamada consolidação democrática.

O sucesso desta transformação no final do século passado traduziu-se num novo impulso na ciência política e numa agenda para a "qualidade da democracia", que consiste em mensurar o seu comportamento de acordo com abordagens teóricas pioneiras, desenvolvidas, entre outros, por Guillermo O'Donnell e Leonardo Morlino. Isto levou a avanços significativos na análise da democracia com base na avaliação dos seus componentes. A Freedom House, a The Economist Intelligence Unit, a Fundação Bertelsmann, a International IDEA e o Projeto V-DEM foram os agentes mais proeminentes na condução destes estudos.

Os Sintomas de Fadiga e a Revolução Digital
A reviravolta global provocada pela pandemia exacerbou os sintomas de fadiga que vários países, em diferentes níveis da estrutura democrática, vinham a experimentar. A desconfiança nas instituições, o desapego face à democracia e a crise de representação política — evidentes em partidos fragmentados e voláteis, com uma identidade reduzida e difusa — tornaram-se patentes. Isto foi também articulado pela centralidade de líderes inexperientes, empurrados para a arena política por consultores de comunicação especializados. Além disso, na maioria dos países latino-americanos, os fracos resultados no combate à insegurança pública e à corrupção desacreditaram ainda mais a política.

Este cenário completou-se com uma sociedade transformada pela revolução digital exponencial:
  1. O crescente individualismo e a articulação de diferentes identidades nas redes sociais emergentes (que romperam com as formas anteriores de interação social);
  2. Novos mecanismos de informação e comunicação que alcançavam as pessoas de forma personalizada, imediata e viral;
O domínio da pós-verdade, marcado por formas de manipulação da realidade.
Tratou-se, em suma, da consolidação de uma "sociedade do cansaço", segundo Byung-Chul Han, que explorou o estado da "sociedade líquida" descrita por Zygmunt Bauman ao teorizar sobre a sociedade de consumo.

Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Nada sugere que o inegável consenso estabelecido se mantenha. Os sinais são claros.

O Cenário Pós-Democrático e as Três Ameaças
O mundo é atualmente movido por conglomerados tecnológicos em constante crescimento, com uma escala financeira sem precedentes. Estes agem em conjunto com a alienação dos seres humanos, desenvolvendo novas formas de ação coletiva incompatíveis com a forma como a democracia, agora desarticulada, evoluiu ao longo de décadas, abrindo caminho para um cenário pós-democrático invulgar e incerto, onde a polarização emocional se mostra um instrumento eficaz.

Dentro da ambiguidade do termo, e em meio ao desmantelamento do multilateralismo como caminho para uma ordem mundial minimamente operacional, emergem três fenómenos, aos quais se soma agora a disrupção provocada pela inteligência artificial (IA):

1. A capacidade autodestrutiva inerente: Há atores internos cujo comportamento é desleal, ou mesmo "semileal", como denunciou Juan Linz. Um exemplo é Vladimir Putin, que já foi presidente graças ao voto popular, mas iniciou de imediato a erosão do credo democrático, esmagando a oposição e controlando todas as alavancas do poder. O chavismo, Daniel Ortega e Nayib Bukele fizeram o mesmo, com resultados devastadores para os seus países.

2. A retórica populista e nacionalista: Diz respeito ao caminho perigoso trilhado por Donald Trump e os seus seguidores na Europa e na América Latina. O seu comportamento mina os direitos humanos ao bloquear políticas de inclusão, diversidade e igualdade, e ao criar bodes expiatórios para escoar a ira de uma população seduzida por múltiplas formas de manipulação da realidade. A retórica nacionalista, bem como os ataques aos meios de comunicação independentes, a intelectuais e a grupos de oposição, minam qualquer estrutura de consideração e respeito pelo pluralismo.

3. O modelo autoritário de sucesso: Refere-se ao modelo chinês de inegável sucesso económico e enorme transformação social, impulsionado pela urbanização e pela elevação dos padrões educativos e de saúde. Assim, o autoritarismo chinês tornou-se um estímulo à manutenção de formas antidemocráticas noutros países.

O Impacto da Inteligência Artificial
Por sua vez, a IA está a revelar-se uma ferramenta disruptiva que impacta drasticamente a desinformação e fomenta o conhecimento profundo das preferências das pessoas, tornando a participação política convencional obsoleta. Não será surpresa, portanto, que a forma como os eleitores se deslocam regularmente às urnas seja em breve substituída, tal como a forma como elegem os seus representantes.

A pós-democracia, em suma, representa um espaço incerto que responde aos desafios da sociedade digital, sendo, ao mesmo tempo, a consequência do cerco histórico sofrido pela democracia representativa e das suas falhas em enfrentar os problemas dos cidadãos e responder às suas exigências.

E em Portugal? Marca na agenda: faz greve no dia 3 de Junho

sábado, 16 de maio de 2026

Vamos rebentar o Pacote Laboral do Luís?


Luís Montenegro chama-lhe reforma laboral, modernização do mercado de trabalho, adaptação aos novos tempos e reforço da competitividade das empresas. As palavras mudam conforme o governo, mas a lógica mantém-se sempre igual: retirar direitos a quem trabalha para aumentar a margem de manobra de quem manda. E é importante perceber isto com clareza, porque muitos destes pacotes laborais são apresentados de forma técnica, confusa e quase burocrática, precisamente para que a maioria das pessoas não compreenda imediatamente o impacto real que terão na sua vida quotidiana.

O problema começa logo na própria ideia de “flexibilidade”. Quando um governo fala em flexibilizar horários, facilitar mecanismos de gestão ou adaptar relações laborais às necessidades das empresas, quase nunca está a falar de melhorar a vida do trabalhador. Está a falar de dar ao patrão mais poder para alterar horários, reorganizar turnos, exigir disponibilidade constante e gerir os trabalhadores como peças ajustáveis de uma máquina.

Na prática, isto significa uma vida mais instável. Significa pessoas que deixam de conseguir organizar a semana, marcar consultas, acompanhar os filhos, planear fins de semana ou simplesmente descansar sem ansiedade. Hoje já existem milhares de trabalhadores que vivem permanentemente agarrados ao telemóvel à espera de alterações de turno, chamadas de última hora ou pedidos “urgentes” da empresa. O que este pacote faz é normalizar essa realidade e transformá-la num modelo de funcionamento quase permanente.

E há aqui uma dimensão humana que raramente aparece nos debates televisivos. Um trabalhador não é apenas força de produção. Não é um recurso humano, como gostam agora de dizer. É uma pessoa com corpo, desgaste físico, vida familiar, problemas pessoais, necessidade de descanso e limites emocionais. Quando o trabalho invade tudo, quando a pessoa deixa de conseguir separar vida profissional de vida pessoal, começa um processo lento de destruição psicológica que depois aparece disfarçado em palavras modernas como "burnout", ansiedade crónica ou fadiga emocional. Antigamente chamava-se simplesmente: esgotamento.

Outro aspecto profundamente perigoso deste pacote é a facilitação da precariedade. Contratos mais frágeis, períodos experimentais mais longos, despedimentos indirectamente simplificados e mecanismos que tornam mais fácil substituir trabalhadores permanentes por vínculos temporários criam uma sociedade assente no medo. E o medo é uma das ferramentas mais eficazes de controlo laboral.

Um trabalhador precário raramente reclama.
Aceita mais abusos, faz mais horas, tolera humilhações, evita conflitos e cala injustiças porque sabe que pode ser substituído rapidamente. Quando alguém vive com receio constante de perder o emprego, deixa de negociar condições, passa apenas a tentar sobreviver. É precisamente isso que interessa a muitos sectores patronais: mão-de-obra cansada, insegura e facilmente descartável.

Fala-se muito da necessidade de aumentar a produtividade, mas raramente se diz uma verdade simples: nenhum país constrói prosperidade sustentável à custa de salários baixos e insegurança permanente. Portugal é talvez o melhor exemplo disso. Tivemos décadas de “flexibilidade laboral”, salários comprimidos e precariedade massiva. O resultado não foi uma economia altamente desenvolvida. Foi uma geração inteira obrigada a emigrar, trabalhadores qualificados a ganhar perto do salário mínimo e milhares de pessoas empregadas em full-time que continuam pobres.

Depois existe uma questão central que quase nunca é explicada devidamente à população: o enfraquecimento da contratação colectiva e dos sindicatos. Quando se atacam mecanismos colectivos de negociação, o trabalhador fica isolado perante a empresa. E essa relação nunca é equilibrada. Nunca foi.

Uma empresa possui departamentos jurídicos, recursos financeiros, poder hierárquico e capacidade para pressionar. O trabalhador tem contas para pagar ao fim do mês. É por isso que os direitos laborais nasceram da luta colectiva e não da generosidade patronal. O descanso semanal, as férias pagas, o limite de horas de trabalho, a licença de maternidade, os subsídios e as indemnizações não apareceram porque os patrões decidiram ser bondosos. Foram conquistados com greves, repressão, despedimentos e décadas de conflito social.

Sempre que um governo tenta enfraquecer essa capacidade colectiva de resistência, está objectivamente a transferir poder para o lado empresarial. E quando o equilíbrio desaparece, os abusos aumentam inevitavelmente. Não por maldade individual deste ou daquele patrão, mas porque o próprio sistema funciona assim.

Se houver possibilidade de reduzir despesa à custa do trabalhador, grande parte das empresas acabará por fazê-lo para sobreviver à concorrência.

Há ainda outro problema profundamente grave que raramente entra no debate: a destruição lenta da própria ideia de estabilidade de vida. Durante décadas, trabalhar significava, pelo menos teoricamente, conseguir construir alguma segurança. Ter uma casa, formar família, fazer planos a médio prazo, acreditar minimamente no futuro. Hoje, cada vez mais trabalhadores vivem numa espécie de suspensão permanente. Não sabem quanto tempo ficarão empregados, não conseguem prever rendimentos, não conseguem planear a vida e vivem constantemente entre recibos, contratos curtos, avaliações de desempenho e medo de cortes.

Uma sociedade assim torna-se inevitavelmente mais ansiosa, mais individualista e mais frágil.
As pessoas deixam de participar civicamente, deixam de ter energia psicológica para contestar injustiças e acabam reduzidas a uma rotina de sobrevivência. Trabalham mais horas, vivem pior e sentem-se permanentemente culpadas por não conseguirem acompanhar tudo.

O mais perverso é que tudo isto é apresentado como inevitável, como se fosse uma lei da natureza. Dizem-nos que “o mercado exige”, que “a economia obriga”, que “a competitividade internacional impõe sacrifícios”. Mas não há nada de inevitável aqui. São escolhas políticas muito concretas. Escolhe-se proteger lucros ou proteger trabalhadores. Escolhe-se distribuir riqueza ou concentrá-la. Escolhe-se tratar o trabalho humano como parte digna da vida colectiva ou como mero instrumento de rentabilidade.

E aquilo que este tipo de pacote revela, no fundo, é uma visão muito clara da sociedade, uma visão onde quem trabalha deve estar permanentemente disponível, agradecido por ter emprego e disposto a sacrificar descanso, estabilidade e saúde mental em nome de uma produtividade que quase nunca beneficia verdadeiramente quem produz a riqueza.

É precisamente por isso que a Greve Geral de 3 de Junho é tão importante!
Porque chega um momento em que continuar calado deixa de ser prudência e passa a ser rendição. Quem hoje acha que isto não afectará directamente a sua vida acabará mais cedo ou mais tarde por sentir na pele horários mais desumanos, maior insegurança, mais pressão e menos qualidade de vida. Os direitos laborais nunca foram oferecidos, foram conquistados, e cada vez que os trabalhadores desistem de os defender, o poder económico avança mais um passo sobre aquilo que resta da sua dignidade.

No dia 3 de Junho, estar presente não é apenas um acto político. É um acto de defesa própria!

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Auto- exploração


Byung-Chul Han é um dos filósofos de referência da atualidade. Nascido na Coreia do Sul, naturalizou-se alemão, pois foi nesse país que desenvolveu grande parte da sua carreira académica – permanece lá a trabalhar – e dos seus contributos à filosofia.

Discursa sobre conceitos primordiais da atualidade, nomeadamente sobre o impacto da tecnologia na sociedade contemporânea, assim como nos próprios mecanismos do capitalismo. É na Universidade das Artes de Berlim que vem trabalhando e onde continua a exercer o seu peso como catedrático e meditador sobre os desafios que o mundo enfrenta.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

A crise da narração, de Byung-Chul Han


Como uma sociedade cada vez mais informada pode perder a capacidade de narrar?
Essa é a questão central do livro de Byung-Chul Han. O autor reflete sobre o fim da habilidade humana de contar histórias com profundidade, bem como atribui este fato ao acúmulo de informações e conteúdos digitais. Esse excesso, para Han, se reflete em um corpo social vazio de sentido e incapaz de se expressar de forma significativa. Vivemos em uma época “pós-narrativa”. Um smartphone não permite a narração, pois permite apenas uma troca acelerada de informações.

Somos nós que temos que dar sentido à nossa própria narrativa
Numa busca metafísica. Han afirma que “devido à falta de orientação externa, devido à falta de ancoragem narrativa do ser, é do próprio eu que tem que emanar a força para contrair o intervalo de tempo entre o nascimento e a morte, transformando-o em uma unidade viva que permeia ou engloba todos os eventos e acontecimentos”. Contudo, se estamos entregues, por horas, ao feed, aos stories, às selfies, ao algoritmo, às apostas online, quando tomamos as rédea de nossa própria história narrada (interna e externamente)? As plataformas são feitas com o intuito aditivo, não narrativo – ao contrário de nossa memória e de como lembramos nossa história. Além disso, a plataforma tem pretensão à completude, ao registro total da vida. Enquanto isso, nossas recordações são necessariamente falhas, imperfeitas, imprecisas, sendo justamente essa dubiedade que enriquece as narrativas.

A escassez de conexões comunitárias seria o principal desencadeador dessa falta de sentido na modernidade
Essa escassez de conexões se evidencia nas redes sociais, que nos permitem ficar permanentemente confortáveis. Afinal, um like não precisa de narrativa nenhuma. Embora a internet tenha trazido a possibilidade de agilizar e multiplicar o contato humano, este é breve e intangível. Para Han, a efemeridade das redes sociais alimenta a obsessão pelo novo, o que estaria debilitando a sociedade contemporânea. A curta temporalidade “evoca uma sensação de impermanência que cria uma sutil compulsão para se comunicar mais”. Dessa forma, o vício no contato imediato seria resultado de um processo de hiper informatização iniciado pela popularização do ambiente digital. A durabilidade das relações interpessoais perdeu espaço para a impermanente e passageira conexão virtual. As informações que desabam sobre nós fragmentam o tempo, que passa a ser reduzido a “uma estreita faixa de coisas atuais”.

Quase no fim do texto, o autor define o contorno daquilo que dá nome ao livro:
“Na época do storytelling como storyselling, narração e anúncio são indistinguíveis. Nisso consiste a crise da narrativa”. Dessa forma, o sistema económico atual também ocuparia um importante papel na morte da capacidade narrativa. A característica do capitalismo moderno de absorção dos hábitos para convertê-los em produtos, transformou a narração num objeto de consumo. Para o autor, o storytelling, como uma forma mercantilizada de contar histórias, roubou a essência humana da habilidade discursiva. Em diálogo evidente com vários de seus outros livros, como “A Sociedade do Cansaço”, existe uma forte crítica ao neoliberalismo e à sua narrativa de desempenho e meritocracia, que “faz com que cada um seja um empreendedor de si mesmo. Todos estão em competição contra todos. A narrativa do desempenho não cria a coesão social, não cria um Nós. Pelo contrário, ela desmantela tanto a solidariedade quanto a empatia”. A promoção da ideia de autorrealização teria como consequência o isolamento das pessoas, dificultando a formação de narrativas comunitárias.

Apesar da perspectiva ser distinta, o tema não é inédito no ITS
Ronaldo Lemos dedicou uma coluna em 2021 sobre o que chamou de “A Grande Ruptura”. Vale a pena ler. A Grande Ruptura seria “uma nova forma de representação e comunicação para a qual o cânone é irrelevante ou não tem significado textual, apenas instrumental. Os sinais da Grande Ruptura estão em toda parte. Tanto na cultura mainstream como, principalmente, nas culturas de nicho (ou melhor, de meganichos, já que milhões de pessoas participam deles)”. Outra característica da Grande Ruptura é que “seu objetivo final não é transmitir informação, mas modular experiências imediatas, especialmente estados emocionais; é muito mais experiência do que conteúdo”. Tais conteúdos acessam diretamente “sentimento de ansiedade e variações (medo, pânico, apreensão, stress, tensão, horror) ou contraposições (relaxamento, distração, meditação, cura, dissipação, luta permanente contra ataques de pânico)”. Ou seja, não há aqui qualquer privilégio da narrativa. Existe uma informação emocional intensa e passageira, que nada conta, que nada explica. A crise da narração e a grande ruptura se dão pela sobreposição do sentimento efêmero ao cânone narrado.

Viver é narrar
Assim começa o último parágrafo, síntese do livro de Byung-Chul Han. Ele afirma que “a narração tem o poder de um novo começo. Toda ação que transforma o mundo pressupõe uma narração”. Somos uma sociedade que narra. Crianças que começam a falar começam também a exercitar o dom de contar histórias. Não à toa, a autobiografia de Gabriel García Márquez se chama “Viver para Contar”. Onde/quando a narrativa está em crise, Byung-Chul Han vê perigo. Em essência, segundo o autor, falta narrarmos histórias uns aos outros porque, em vez disso, “nos comunicamos excessivamente. Postamos, compartilhamos e curtimos”. Sua mensagem final é um convite para retomarmos as conversas em torno das fogueiras – na sua falta, servem as mesas dos bares, dos restaurantes, das salas de aula e das casas dos amigos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Não é o fim do mundo é apenas tarde

The Man in the High Castle (1963) is an alternative history novel by American writer Philip K. Dick

Por Nuno Ramos de Almeida
Vivemos num tempo estilhaçado. Uma das figuras centrais do nosso novo mundo é a fragmentação dos espaços de encontro, das expectativas em relação ao futuro e até da ideia do tempo.
Na realidade, passado e futuro parecem ter desaparecido, e ser substituídos por um imenso presente, em que a cadência da sucessão acelerada das “coisas” que acontecem parece retirar qualquer possibilidade de construir um sentido que se projete para além deste tempo repetido num presente sem fim.
A multiplicação das identidades e a tentativa neoliberal de reduzir todos os problemas sociais a questões de biografia individual, tornaram mais difícil a existência de um sentimento coletivo de pertença e de identificação numa comunidade de luta.

Dizia Baudelaire que o maior feito do Diabo era ter-nos convencido da sua inexistência. O maior feito do capitalismo é precisamente o contrário: é ter-nos convencido da sua eternidade. Nesse sentido o capital foi erigido em divindade com a sua poderosa teodiceia. Afiançam-nos que goza da omnipresença, está em todo o lado; de omnipotência, é superior a qualquer forma pensada alternativa; e omnisciência, o mercado tudo compreende e tudo faz.

Escrevia Frederik Jameson, numa passagem muito citada pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek, que ninguém mais considera seriamente alternativas ao capitalismo, enquanto a imaginação popular é assombrada pelas visões de um futuro “colapso da natureza”, da eliminação de toda a vida na Terra. Parece mais fácil imaginar “o fim do mundo” que uma mera mudança muito mais modesta de modo de produção, “como se o capitalismo liberal fosse o 'real' que de algum modo sobreviverá, mesmo na eventualidade de uma catástrofe ecológica global. Assim pode-se afirmar categoricamente a existência da ideologia como uma matriz geradora que regula a relação entre o visível e o invisível, o imaginável e o inimaginável, bem como nas mudanças nessa relação”.

Estamos, também, numa época em que cada vez mais o Estado de Direito se mistura com o Estado de Exceção. O crescimento do neofascismo não se mede por votos e pelo seu reforço orgânico e de massas, mas principalmente pela sua capacidade de conseguir espalhar os seus conceitos no Estado, instituições, política e violência mediática.A resposta a este regresso aos tempos negros que elegem os pobres, os imigrantes, os “de outra raça” como inimigos passa por construir comunidades de luta que redescubram que a humanidade transcende a nossa existência individual.

Há um belíssimo texto de Luiz Pacheco que se chama “A comunidade”, em que se descreve um tipo muito particular de laços: uma família que sobrevive à miséria. É numa espécie de jangada que se torna a cama de família que ganha forças para as tempestades. O texto é mágico e começa assim: “Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecinha de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos e suor uns com os outros, uns pelos outros, tão aconchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva”.

Num tempo em que estamos atomizados e isolados – em que só “socializamos” pelo consumo; em que, segundo estudos científicos, somos definidos pelos likes automáticos que colocamos nas redes sociais; em que a imagem que damos é reflexo dinâmico dos condicionamentos que nos impõem; em que os estudos que sobre nós fazem permitem otimizar aquilo que querem que sejamos: grandes consumidores –, perdemos essa capacidade de nos tornar sujeitos, passamos a ser só objetos.

Contra isso é preciso formar comunidades que tenham como ponto de partida a igualdade. Só conseguindo poder para todos será possível que o fim do trabalho como o conhecemos não seja a divisão total e espacial entre os muito ricos e os 99% restantes, confinados a zonas cada vez mais selvagens nas nossas sociedades. Para inverter este processo de destruição social e ambiental é preciso redescobrir a movimentação coletiva que não se fundamentem apenas na situação social em que vivemos, mas se projetem naquilo que pretendemos que o mundo seja.

Saber mais:

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Documentário: Byung-Chul Han - Sociedade do Cansaço


Este ensaio-filme envolve o fenómeno do cansaço nas nossas sociedades capitalistas e os seus sintomas como depressão, esgotamento e burnout. A artista visual Isabella Gresser tece as observações cinematográficas, fotográficas e desenhadas que fez na Coreia do Sul e Berlim, com textos falados e trechos de palestras de Byung-Chul Han. 

Neste documentário o filósofo traz discussões sobre sociedade disciplinar, sociedade do controle, sociedade do cansaço e sociedade da transparência. Além disso comenta sobre Hegel, Peter Handke, Wim Wenders, conversa com o diretor de cinema Park Chan-wook, fala da sua juventude e visão atual sobre Berlim e Seul. Por fim, cabe destacar também as reflexões que Han faz acerca dos suicídios na Coreia do Sul.

Há uns meses, encontrei um livro de um filósofo coreano, Byung-Chul Han, que me deu luzes em relação a uma característica da nossa sociedade: a livre autoexploração dos indivíduos por eles mesmos.

A quantidade assustadora de burnouts e depressões leves a que assistimos ou da qual até nós mesmos já fomos vítimas, faz-nos pensar no que possa ser a causa destes fenómenos. O trabalho parece ser sempre mais exigente do ponto de vista físico, intelectual e psíquico e muitas pessoas saudáveis acabam por se ver afetadas por episódios depressivos.

É comum pensar que são os empregadores e as lideranças que exigem que as pessoas trabalhem acima de níveis considerados razoáveis. Embora possa ser verdade que um ou outro gestor exige demasiado dos seus trabalhadores, corresponde muito mais à minha experiência o facto de os líderes estarem preocupadas com estes fenómenos, mas não conseguirem mudar os seus comportamentos e os das equipas que coordenam. E qual seria a causa? A interpretação de Byung-Chul Han é que estamos num momento em que os próprios indivíduos se constituíram em exploradores de si próprios: “se posso mais, devo mais!” As motivações podem ser muitas: a incerteza de um mundo em constante mudança, o contacto permanente com todos os países que nos faz querer pertencer ao grupo dos melhores ou que nos faz sentir responsáveis por todos os desastres do planeta, o prazer de nos sentirmos reconhecidos.

É difícil encontrar uma só motivação, são muitas e subtis, de tal modo que o indivíduo continua a explorar-se e a sentir-se livre. Explica Byung-Chul Han “o excesso de trabalho e de produção conduz, a um nível mais elevado, à autoexploração. Esta é mais eficaz do que a exploração por terceiros, uma vez que vem associada a um sentimento de liberdade. O ser explorado é simultaneamente o que explora – agente e vítima já não se distinguem entre si. Esta autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercivas que lhe são intrínsecas, se converte em violência. As doenças psíquicas da sociedade da produção nada mais são do que manifestações patológicas desta liberdade paradoxal.”[fonte]

Se a hipótese de Byung-Chul Han é verdadeira, só será possível devolver à sociedade e a cada indivíduo um estilo de vida que promova uma liberdade autêntica, através de um esforço concertado por mudar hábitos, formas específicas de educação e características culturais. As organizações poderão e deverão alertar para este facto, aumentando o nível de awareness, e criando políticas promotoras do equilíbrio dos indivíduos e da sua saúde mental, mas apenas isto não será suficiente.

É desconcertante e paradoxal que vivendo num mundo com muito mais possibilidades do que as gerações e sociedades anteriores, vivamos mais infelizes e mais débeis. Convido a todos a tomar uma atitude resoluta e audaz: não podemos dar-nos ao luxo de assumir que as pessoas são mais fracas do que noutras épocas. Parece-me importante iniciar uma plataforma de reflexão e debate que seja capaz de chegar a perceber o modo mais humano e equilibrado de gerir a informação e as possibilidades a que temos acesso.

Byung- Chul Han diz que a nossa sociedade tem “excesso de positividade” – que pode ser excesso de possibilidades, excesso de estímulos, excesso de responsabilidade – e que o perigo do excesso de positividade em relação ao excesso de negatividade é não termos anticorpos ou mecanismos de defesa que reajam a um elemento agressor. É mais difícil combater um inimigo sem rosto, mas eu diria que é urgente, sob pena de perecermos no âmbito de tanta positividade.

sábado, 29 de julho de 2023

Capitalismo e Pulsão de Morte


Sinopse

Aquilo a que hoje chamamos crescimento é na verdade uma excrescência, uma proliferação cancerosa que destrói o organismo social. Essas excrescências metastizam-se com uma vitalidade inexplicável. A certa altura, esse crescimento já não é produtivo, mas destrutivo. Há muito que o capitalismo ultrapassou este ponto crítico. As suas forças destrutivas produzem não apenas catástrofes ecológicas ou sociais, mas também mentais. Os efeitos devastadores do capitalismo sugerem a existência de um instinto de morte.
Depois de inicialmente Sigmund Freud ter introduzido o conceito de instinto de morte de forma hesitante, confessou que «não poderia pensar de outra forma», porque a ideia ganhara poder sobre ele.
Pensar hoje no capitalismo é impossível sem considerar o instinto de morte.

" Aquilo a que hoje chamamos crescimento é, na realidade, uma proliferação carcinomatosa, desprovida de objectivo. Atualmente assistimos a uma euforia de produção e de crescimento que faz lembrar um delírio de morte. Simula uma vitalidade que oculta a aproximação de uma catástrofe mortal. A produção assemelha-se cada vez mais a uma destruição. É possível que a autoalienação da humanidade tenha atingido aquele grau que lhe permite experimentar o seu próprio aniquilamento como uma fruição estética. O que Walter Benjamim disse outrora sobre o fascismo pode hoje aplicar-se ao capitalismo."

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Byung-Chul Han e a Psicopolítica


Em "Psicopolítica. Neoliberalismo e novas técnicas de poder" (Pschopolitik, 2014, tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio D’Água), Byung-Chul Han, pensador prolífico e bem-amado (europeu tardio, veio para a Alemanha depois de abandonar um curso superior relacionado com a metalurgia na Correia do Sul, de onde é originário), defende que a biopolítica, de Michel Foucault e Giorgio Agamben, se transformou em psicopolítica. Nesta nova forma de organização do poder, «O sujeito do rendimento, que se pretende livre, é na realidade um escravo. É um escravo absoluto, na medida em que sem qualquer senhor se explora a si próprio de forma voluntária. Não tem diante de si um senhor que o obrigue a trabalhar.» (p. 12) Além disso, a universalização do smartphone, alvo de uma profunda «devoção digital», universalizou o «exame e controle de si». Este livro prolonga Topologie der Gewalt, 2011, (Topologia da Violência, tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio D’Água), no qual observa que a violência deixou de ser exercida do exterior, passando a ser autoengendrada: ela «afasta-se cada vez mais da negatividade do outro ou do inimigo e incide cada vez mais sobre o próprio sujeito.» (p. 11) Passando de uma «deformação» da sociedade disciplinar para uma «depressão» da sociedade do rendimento. A pior das violências não é a da negatividade e do visível, mas a da positividade e do invisível, «exercida sem necessidade de inimigos nem dominação.» (idem, p. 10) Mas acrescenta também linhas de sentido a Was ist Macht? de 2005 (Sobre o Poder — não percebo porque alteraram tanto o título —, tradução Miguel Serras Pereira, Relógio D’Água, 2017), por vezes tanto que parecer ser outro Byung-Chul Han. Neste livro trata-se sobretudo, a partir de Michel Foucault, de criticar a ideia de que o «poder opera unicamente inibindo ou destruindo.» (p. 16) Pelo contrário, ele funciona como um catalisador que influencia ou acelera determinados processos, ele é produtivo. Claro que também há o poder destrutivo, o da opressão de um ditador, que retira liberdade ao sujeito. E talvez seja até maioritário. Mas, o que Han quis fazer neste livro foi realçar o poder como possibilidade de autoafirmação e a sensação de prazer e liberdade que daí emerge.

Regressando à Psicopolítica, não há qualquer tipo de revolução que a partir da incubadora marxista (refere-se sobretudo às ilusões de Antonio Negri com a sua «multidão cooperante») consiga estancar este novo modo de servidão, auto-servidão, auto-exploração. A «sociedade neoliberal do rendimento» abafou toda a resistência possível. Os mecanismos de contrapoder e de escrutínio são tão reduzidos que quase se resumem a um vago imperativo de transparência (criticado, contra a vox populi, pelo autor) para denunciar escândalos políticos (atacam-se as pessoas mais do que as ideias). 

Durante o século xx, o poder foi sobretudo disciplinar e dominado pela negatividade. Este poder, seguindo Foucault (Surveiller et punir, 1975; Histoire de la sexualité Vol. 1. La volonté de savoir, 1975; e, do mesmo ano, o curso no Collège de France, Il faut défendre la société),  surgiu no século xvii e deixou de ser o poder de morte que detinham os soberanos, como se fossem Deus, sobre os súbditos: «Em vez de torturar o corpo, o poder disciplinar fixa-o a um sistema de normas.» (Psicopolítica, p. 29) É um poder normativo que atua sobre o corpo e a mente do sujeito da obediência e do dever. Mas esse poder, coagindo com alguma violência através de preceitos e proibições, foi substituído por um muito mais eficaz: amável, manipulador, afirmativo e sedutor. «Seduz em vez de proibir. Não enfrenta o sujeito, concede-lhe facilidades.» (idem, p. 24) «O neoliberalismo é o capitalismo do “Gosto”. Distingue-se substancialmente do capitalismo do século xx, que operava por meio de coações e de proibições disciplinares.» (idem, p. 25) E Foucault (morreu em 1984, com 57 anos), segundo Han, não efetuou a passagem, apesar dos vários indícios que se podiam ler na realidade social, da biopolítica (poder disciplinar sobre a vida) à psicopolítica. Tal teria acontecido, ainda segundo Han, se Foucault não tivesse morrido precocemente. Han não concede a mesma lucidez a Giorgio Agamben. 

Se o capitalismo do século xx se preocupava, em primeiro lugar, com o biológico, o neoliberalismo atende à psique. Para o conseguir, «A psicopolítica neoliberal é uma política inteligente que procura agradar em vez de submeter.» (idem, p. 46) É por isso que se trabalha tanto o campo das emoções do «sujeito narcísico», a sociedade de consumo compra emoções e significações, muito mais o valor emotivo do que o de uso: «O capitalismo do consumo introduz emoções para estimular a compra e engendrar necessidades.» (idem, p. 55) Daí que, no mercado de trabalho, as competências emocionais quase tenham destronado as cognitivas. E tudo isto se joga ao nível pré-reflexivo, o que dificulta ainda mais a denúncia e a resistência. Tanto mais que o Big Data consegue, a partir das interações digitais, representar com extrema exatidão a «nossa pessoa, [a] nossa alma — uma representação talvez mais precisa ou completa do que a imagem que fazemos de nós próprios.» (idem, p. 71) Essa «lupa digital» favorece uma psicopolítica capaz de ler os nossos desejos mais profundos (talvez ininteligíveis para nós).

É preciso regressar a Topologia da Violência para sabermos o que a sociedade do rendimento, com os seus princípios de liberdade e desregulação, provocou na sociedade. Um campo patológico, vasto e profundo, governa uma grande parte dos indivíduos: na depressão vê-se o «fracasso de sujeito forçado à iniciativa perante o incontrolável» (p. 45); no burnout «é a relação tensa, de sobrecarga excessiva, de si mesmo consigo, que assume traços destrutivos.» (ibidem) Duas formas de autoagressão que não estavam inscritas na sociedade disciplinar. Para um dos seus principais teóricos, Karl Schmitt, a política vive da luta contra o inimigo, a possibilidade real da violência é a essência do político. Agora, o sujeito do rendimento, sem a negatividade do inimigo, vira-se para e contra si, «compete consigo mesmo e procura superar-se a si mesmo. Entra assim numa competição fatal consigo mesmo, num círculo infinito que, a certo momento, caba num colapso.» (idem, p. 62)

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Ecosofia


A palavra “hermenêutica” vem do grego e significa “interpretação”. No coração de hermenêutica há um nome próprio: “Hermes”. “Hermenêutica” : “arte relativa a Hermes”. Quando Dioniso foi despedaçado por seus carrascos , Hermes guardou de Dioniso o coração , semente da arte de renascer. Deus mensageiro, Hermes agora também transportava o coração como mensagem primeira . Simbolicamente, isso significa que o sentido das mensagens que alguém lê e interpreta depende , em primeiro lugar, do coração que a pessoa tem : se o coração for pequeno, apequenará o sentido; se o coração for generoso, enriquecerá a mensagem ; se o coração for ignorante, surdo será a toda mensagem; se o coração for sábio, aprenderá a ouvir a mensagem ( por mais simples que a mensagem seja).
A Constituição Brasileira está fundada na seguinte mensagem: a “Dignidade da Pessoa Humana”. Essa mensagem tem sentido político, social, sanitário, educacional...O coração dessa mensagem é a ideia de “pessoa”. Mas pessoa não é o mesmo que ego, tampouco é uma dimensão apenas individual-neoliberal. A própria linguagem nos auxilia a compreender a dimensão plural da pessoa, pois existem seis pessoas: as três pessoas do singular ( eu, tu , ele) mais as três pessoas do plural ( nós, vós , eles). Deleuze afirma que há ainda uma “quarta pessoa do singular”, a que se expressa no pronome reflexivo “se” ( como em “pensa-se”).
Assim, a “pessoa humana” não é apenas o “eu”, ela é também o “nós”. Quando a pessoa individual sofre uma injustiça ou se vê no hospital à beira da morte por culpa de um governo genocida, é a pessoa coletiva “nós” que também se vê ameaçada e atingida, pois faz parte desse nós aquela pessoa que o poder trata como mera estatística. Uma das características de todo poder genocida é tratar o nós, o nós coletivo e plural, como um “eles”. Pois o pronome “ele” também pode ser aplicado a uma coisa, como na frase: “onde guardei ele, o celular?” . O poder genocida reduz toda pessoa ao “ele” da coisa : para fazer da morte de uma pessoa apenas um “CPF cancelado”...
O que caracteriza toda pessoa , e a distingue das meras coisas , é a capacidade de pensar, sentir e agir. Não é apenas a primeira pessoa do singular que é capaz disso, também é capaz a primeira pessoa do plural, o nós. Não é somente o “eu” que tem coração, o nós também precisa ter, pois é desse coração coletivo que podem nascer empatias, agenciamentos e a interpretação ativa do que precisamos fazer para mudar uma situação de indignidade e opressão. “Coragem” vem do latim “cor”: “coração”.
Assim, pensa pouco quem apenas diz ensimesmado: “Eu penso, logo existo”. Espinosa ensina que há mais potência libertária quando conjugamos o pensar , o sentir e o agir na primeira pessoa do plural , pois o coração da democracia é esta mensagem: “nós devemos pensar, sentir e agir coletivamente para tornarmos nossa existência social digna”.

sábado, 20 de junho de 2020

O Elogio da Rebeldia

A obra de Lamberto Maffei, condensada de forma magistral no seu tríptico constituído por Elogio da Lentidão, Elogio da Palavra e Elogio da Rebeldia, ganha uma nova e inquietante espessura quando se corrige a grelha de leitura cronológica do autor, onde as siglas a.P. e d.P. significam, com precisão histórica, "antes da Pandemia" e "depois da Pandemia". O pensador e neurocientista italiano não se limita a tecer uma crítica cultural superficial sobre os malefícios do isolamento tecnológico; ele ancora a sua reflexão na biologia do cérebro humano para demonstrar como o trauma civilizacional da Covid-19 acelerou geometricamente a migração definitiva da nossa vida social para o interior dos ecrãs, forçando uma mutação patológica na nossa ecologia mental. Esta viragem histórica projeta a análise de Maffei diretamente para o campo da biopolítica, uma vez que o confinamento normalizou o controlo, a vigilância e a mediação algorítmica de todas as esferas da vida, transformando o próprio cérebro no território definitivo onde o poder contemporâneo opera.

Ao cruzar este diagnóstico com a sociologia, percebe-se que a transição para o cenário d.P. materializou o solipsismo militante de Gilles Lipovetsky e radicalizou a tese de Zygmunt Bauman, revelando uma sociedade que ultrapassou o estado líquido para se tornar completamente liquefeita. Trata-se de uma rede de comunicação crescentemente sofisticada que, sob o pretexto de nos manter conectados em segurança sanitária, funcionou como uma parede invisível que aprisionou o indivíduo num isolamento entristecedor. Para um neurocientista, a biopolítica do século XXI já não se exerce apenas através de decretos de Estado ou cercas físicas, mas sim na modelação mecânica do sistema nervoso das populações através da captura dos circuitos biológicos de dopamina. Ao habituar-se à ausência de corpos reais e tridimensionais, o cérebro humano, devido à sua plasticidade sináptica, adapta-se à reclusão digital, gerando uma atrofia das áreas ligadas à empatia e ao pensamento crítico lento, o que torna as massas mais dóceis, previsíveis e fáceis de governar.

Esta rutura comunicacional d.P. afeta diretamente os processos identitários descritos por Paul Ricoeur, que defendia que o si-mesmo só se conhece verdadeiramente através do outro. Para compreender a gravidade desta fratura, é essencial convocar o olhar da psicanálise de Sigmund Freud e os seus conceitos de transferência e contratransferência. A alteridade necessita do atrito e da presença do interlocutor para que o sujeito descodifique os seus próprios traços de personalidade, seja por oposição ou por identidade. Quando a biopolítica pós-pandémica confina os corpos e substitui o próximo por uma imagem plana filtrada pelo ecrã, a contratransferência real é amputada, o diálogo converte-se num monólogo estéril e o autoconhecimento fica gravemente comprometido.

Face a este cenário de liquefação social e domesticação cognitiva, a resposta que emana da obra de Maffei assume o caráter de uma contra-biopolítica urgente. Dado que a plasticidade cerebral garante que não estamos biologicamente condenados ao determinismo digital, a rebeldia proposta pelo autor deixa de ser um mero manifesto intelectual para se tornar num ato de resistência biológica defensiva. Educar os indivíduos no espírito crítico, forçando a suspensão do juízo e o confronto presencial com a contradição, é uma forma de terapia ocupacional que reabilita o córtex pré-frontal contra os automatismos da pressa digital. Rebelar-se na era depois da pandemia significa, portanto, resgatar deliberadamente a lentidão e a palavra dita para abrir caminhos sinápticos alternativos, salvaguardando a soberania do pensamento e a profundidade da condição humana perante os sistemas de controlo da modernidade.

Para aprofundar este diagnóstico diretamente a partir das palestras do autor, a intervenção Lamberto Maffei - Le nuove frontiere delle neuroscienze: ambiente e cervello ilustra com clareza como o neurocientista detalha a vulnerabilidade do sistema nervoso às pressões ambientais e a urgência de defender a nossa biologia. Adicionalmente, para compreender a transição teórica do controlo dos corpos para o controlo digital das mentes, o ensaio sobre a Psicopolítica de Byung-Chul Han oferece uma excelente ponte filosófica para a anatomia da resistência proposta por Maffei.

domingo, 10 de maio de 2020

A visão futurista de um ‘Comunismo Automatizado de Luxo’


A chamada “economia pós-escassez” é um cenário hipotético da teoria económica em que há abundância de recursos a serem produzidos por uma quantidade mínima de mão-de-obra humana, o que possibilita a sua comercialização a preços baixos ou, em última instância, a disponibilização gratuita.

Esta situação especulativa teve os seus primeiros esboços feitos por Karl Marx, num trecho do seu livro “Grundrisse” (1858) intitulado “Fragmento sobre as Máquinas”, no qual fala sobre a transição para uma sociedade pós-capitalista na qual os avanços na automação possibilitariam este cenário de redução de trabalho humano, abundância de recursos e maior tempo livre para o lazer e para os estudos.

Este discurso talvez não pareça novidade àqueles que vêm acompanhando conteúdos produzidos por futuristas como o americano Peter Diamandis, um dos fundadores da Singularity University. Coautor do livro “Abundância”, Diamandis afirma que a humanidade está a entrar num período de transformação radical, no qual a tecnologia carrega o potencial de elevar os padrões de vida básicos de todas as pessoas no planeta. Eles defendem que essa cena aconteceria por volta de 2040, quando serviços outrora restritos à minoria rica serão disponibilizados a todos os que precisarem e desejarem.

Em tempos de Covid-19, crise económica e política, fica difícil acreditar num tal desdobramento para o nosso futuro interrompido por uma pandemia. Mas, para futuristas como Diamandis, mais do que exercitar o otimismo é preciso ver como, apesar de tudo, o mundo industrializado nunca esteve tão seguro e nunca vivemos por tantos anos. A expectativa de vida das pessoas, em 2000, já era 60% maior do que em 1900 e, além disso, cada vez mais somos surpreendidos por inovações tecnológicas que prometem revolucionar todos os aspetos das nossas vidas: da penicilina às chamadas tecnologias exponenciais, assim intituladas devido à exponencialidade do seu desenvolvimento.

Tecnologias como a realidade virtual, blockchain, inteligência artificial, fontes de energia sustentável, internet das coisas, big data, robótica, bioengenharia ou mesmo a mineração espacial prometem mudar o mundo e levar-nos a uma possível Quarta Revolução Industrial ou Terceira Disrupção, como nomeia Aaron Bastani, autor do livro “Fully Automated Luxury Communism”, de 2019.

Apesar de o título lembrar algum meme ou uma página de humor irónico no Facebook, o termo traduzido como “Comunismo Automatizado de Luxo” e encurtado a partir da sigla FALC, em inglês, traz em si a ideia de uma futura economia que supera a lógica da escassez, tanto no sentido da disponibilidade de recursos quanto da criação artificial de escassez na lógica de mercado capitalista. Bastani usa as quase 300 páginas do livro para dar contexto e ponderação à proposta que, de facto, suscita dúvida e ceticismo. Apesar de ser visto como um pensador utópico, Bastani procura manter as suas proposições o mais objetivas e racionais possíveis. Para isso, boa parte da obra dedica-se a elencar exemplos de tecnologias e empresas que estão a trabalhar em ferramentas e produtos que possibilitem a automação e a conquista de um futuro pós-escassez.

Antes de iniciar um longo relatório tecnológico, Bastani primeiro faz a provocação sobre como o senso comum tende a pensar que o capitalismo é inevitável e insubstituível. Provavelmente já ouviu alguém dizer algo parecido com esse tuíte de Olavo de Carvalho, mas o que o autor britânico procura defender é que esse é apenas mais um sintoma do que Mark Fisher chama de realismo capitalista, resumido na sugestão de que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Por outras palavras, a perceção geral é de que o capitalismo não apenas é o único sistema económico viável, como também é “impossível de se imaginar uma alternativa coerente”, afinal, como escreve Bastani, “como contribuir com uma alternativa à própria realidade?”. Já nas palavras do filósofo francês Alain Badiou, citado por Bastani:

“Nós vivemos numa contradição … na qual toda a existência … nos é apresentada como ideal. Para justificar o conservadorismo, os partidários da ordem estabelecida não podem realmente chamar (ao modelo) de ideal ou maravilhoso. Então, em vez disso, decidiram dizer que tudo o resto é horrível … a nossa democracia não é perfeita. Mas é melhor do que as malditas ditaduras. O capitalismo é injusto. Mas não é criminoso como o estalinismo. Nós deixamos milhares de africanos morrerem de Sida, mas nós não fazemos declarações nacionalistas e racistas como Milosevic”.

Se, depois de ler esta citação, pensou numa campanha publicitária protagonizada por representantes de comunidades marginalizadas e em como essas mesmas pessoas não são empregadas pela própria marca, percebeu a ideia. No mundo do realismo capitalista, nada muda; porém, como diagnostica Bastani, sofremos uma grande crise em 2008 e hoje vislumbramos novamente um sinal de alerta: no Reino Unido, o suicídio é a principal causa de morte de homens com menos de 50 anos e a depressão pode tomar a liderança nos gastos de saúde por volta de 2030. Além disso, há ainda a crise migratória na Europa, o Brexit, a ascensão da extrema-direita e de líderes opressivos, as alterações climáticas e os seus negacionistas e, finalmente, la pandemia que já soma mais de 190 mil mortes e a perspetiva de uma nova crise económica — que, aliás, vai sair muito mais cara para alguns.

Bastani cita Francis Fukuyama no seu livro porque o escritor, no início dos anos 1990, declarou que o fim da União Soviética também instaurava o fim da história. Contudo, Bastani reforça não apenas o absurdo dessa constatação como também afirma que a ideia apenas provou a instauração do chamado realismo capitalista. Com o insucesso do socialismo na União Soviética, ficou mais óbvio que apenas o capitalismo pode funcionar. Mas o que o FALC quer argumentar é justamente o contrário: é possível pensar em alternativas e esta é uma delas.

O que estamos prestes a assistir é ao fim do capitalismo pelas suas próprias mãos. Aliás, esta é a perspetiva que Slavoj Zizek vislumbra face à crise do novo coronavírus (apesar de Byung-Chul Han defender justamente o oposto). Mesmo que não enfrentássemos esta pandemia, Bastani já diagnosticava que o próprio imperativo do capitalismo é a competição em encontrar sempre a forma mais barata e eficiente de produzir commodities (mesmo que isso signifique substituir humanos por máquinas). Por outras palavras, o próprio modus operandi do capitalismo pode ser responsável por criar aquilo que o vai tornar obsoleto.

A começar pela crise energética e a sua respetiva escassez de recursos naturais, os seus fatores políticos e económicos, bem como os seus efeitos colaterais no ambiente. Bastani, então, comenta como a eletrificação e o uso da energia solar já estão a ser consideradas mais relevantes e cada vez mais disseminadas ao redor do mundo. No Reino Unido, por exemplo, há a perspetiva de usar apenas fontes de energia renovável até 2040. Na China, durante os últimos cinco anos, grandes cidades têm feito o processo de eletrificação nos seus transportes públicos como uma forma de reduzir o problema da poluição do ar, mas também sonora.

Já no caso de outros recursos naturais, matérias-primas como o ferro não precisarão de ser mais extraídas do nosso planeta. Levando em consideração a perspetiva de crescimento da população para até 9,8 mil milhões de pessoas até 2050, fica impossível manter a mesma lógica de consumo atual e acreditar que a Terra poderá dar conta da procura. Na realidade, um estudo de 2015 já demonstrou que se todos no planeta tivessem os mesmos hábitos de consumo dos norte-americanos, seriam necessários quatro planetas Terra para sustentar o mercado em termos de recursos naturais. Só que o que Bastani argumenta não tem a ver apenas com uma mudança no consumo ou mesmo com uma intensificação dos processos de reciclagem e criação de produtos biodegradáveis, por exemplo. O investigador britânico entende que a mineração espacial é o caminho para a aquisição de recursos minerais virtualmente infinitos e que, portanto, atingirão um custo muito baixo devido à sua abundância.

E parece que muitos empresários estão de olho neste setor industrial: Jeff Bezos, fundador da Amazon, por exemplo, já se mostrou interessado no mercado. O futurista Peter Diamandis é um dos fundadores da Planetary Resources, uma empresa de mineração de asteroides. No caso da PR, o interesse está especialmente focado nos NEAs, ou asteroides mais próximos da Terra. Além da vantagem de proximidade com o planeta, também há o facto de que as suas riquezas minerais são tão grandes que chegam a ultrapassar a nossa compreensão. Bastani afirma no seu livro que uma das estimativas sobre a cintura de asteroides é algo como 825 quintiliões de toneladas de ferro, com 63kg de níquel para cada tonelada de ferro, o que possibilitaria a geração de uma riqueza capaz de prover 100 mil milhões de dólares para cada pessoa no mundo inteiro. Para investigar isso, os japoneses colocaram em órbita a sonda Hayabusa2 em junho de 2018. Ela deve voltar à Terra no final de 2020.

Por enquanto, os gastos necessários para a exploração, desenvolvimento e implementação de um sistema robusto de mineração espacial ainda são muito altos (tanto que Bastani menciona como mesmo as iniciativas privadas na área aeroespacial ainda assim contam com recursos governamentais). Contudo, assim como acontece com qualquer tecnologia (pense no computador e em como foi barateado e miniaturizado no telemóvel, seguindo a chamada Lei de Moore), haverá um momento em que a mineração espacial será mais barata ao ponto de as commodities por si só passarem a ter preços tão irrisórios devido à própria abundância. E isso vale para todas as outras tecnologias exponenciais: a inteligência artificial, a robótica, a bioengenharia, tudo ficaria mais barato e acessível, bem como mais eficiente. Vale lembrar, também, que tudo isto aconteceria num cenário em que as pessoas envelhecem cada vez mais, a taxa de natalidade diminui e alcançamos um pico de crescimento populacional que Bastani prevê por volta do fim deste século.

Claro, parece estranho pensar que chegaremos a um ponto em que a população irá parar de crescer quando se conquistam novas tecnologias que facilitam a vida e quando se tem acesso a recursos virtualmente infinitos. Já foi observado durante as revoluções industriais como as taxas de natalidade aumentaram, as de mortalidade diminuíram e a longevidade se estende cada vez mais. Com exceção de um evento catastrófico, como uma guerra ou uma epidemia, fica difícil imaginar que desaceleraremos o crescimento populacional. Contudo, para este e outros problemas de solução ainda difícil de ser vislumbrada, Bastani traz como exemplo a grande crise do estrume de cavalo na Londres de 1894.

Naquela época, o crescimento da cidade levou à multiplicação de cavalos nas ruas e à concentração de dejetos que não conseguiam ser removidos, ao ponto de publicações como o The Times acreditarem que “em 50 anos, cada rua de Londres estaria coberta por três metros de esterco”. Esta passagem histórica que transformou os dejetos equinos de recursos a serem vendidos num problema de limpeza acabou por se tornar uma analogia para momentos que parecem insuperáveis, até que uma nova tecnologia (como foi o caso dos carros, nesse contexto) muda completamente o cenário. É aí onde entram as tecnologias exponenciais.

Mas mesmo que Bastani gaste páginas e páginas a elencar como a eletrificação eliminará os combustíveis fósseis da equação, como a mineração espacial trará recursos infinitos e como a biotecnologia pode curar doenças e criar carne em laboratório capaz de tornar a pecuária uma indústria obsoleta, fica difícil acreditar que chegaremos a um ponto em que, de facto, todos terão acesso a isso – afinal, não é isso que o comunismo propõe? O autor sabe-o e, por isso, traz como exemplo o filme de ficção científica “Elysium”, no qual, apesar de existirem tecnologias de ponta, elas só são acessíveis a uma classe mais privilegiada. Isto porque, como o britânico explica, essa sociedade futurista ainda vive sob um regime capitalista, o qual mesmo diante da abundância cria escassez artificial para manter a concorrência e a lucratividade.

É por isso que, por mais que as tecnologias continuem a evoluir, elas nunca serão acedidas por todos se não houver uma mudança política acima da inovação tecnológica. Nas palavras de Bastani:

“… na ausência de uma política apropriada, isso só será uma nova forma de gerar lucro. Marx expressou isso perfeitamente quando escreveu que ‘a mais avançada máquina então força o trabalhador a trabalhar por mais horas do que um selvagem, ou do que ele próprio trabalhava quando usava as ferramentas mais simples e rudimentares.’ Em resposta a essa admissão, uma afirmação: qualquer política de sucesso que procure direcionar as possibilidades da Terceira Disrupção às necessidades das pessoas em vez da lucratividade deve ser populista. Senão, é certo que irá falhar. O realismo capitalista é simplesmente muito adaptável para as políticas radicais de administração e tecnocracia, o que significa que qualquer rutura precisa de ser compreensível para a maioria das pessoas, numa linguagem capaz de ser rapidamente entendida.”

Ou seja, o que Bastani argumenta é que não adianta manter estas ideias num nível académico e elitista. Quando o autor fala de populismo, sugere uma abordagem de retórica política que seja simples e atraente para que não afaste ou confunda as pessoas. Acontece que, no nosso caso latino-americano, fica difícil ler esta palavra e não trazer à mente as memórias de políticos populistas que não se apropriaram de uma comunicação acessível para beneficiar as pessoas, mas sim para se fazerem eleger e depois tomarem decisões em benefício próprio.

Além disso, quando Bastani sugere a implementação do comunismo, não traz em si a perspetiva do que foi o comunismo no século XX, até porque o que o mundo vivenciou até então foi um socialismo ainda definido pela escassez e pela existência de empregos. Na Terceira Disrupção, não só haverá abundância de recursos e riquezas como o trabalho também deixará de existir como necessidade de sobrevivência para se tornar um lazer — afinal, “produtividade é para robôs”, como já disse o futurista Kevin Kelly. E é nesse ponto que entra o luxo proposto pelo investigador.

No futuro, os robôs trabalharão por nós para que possamos ter lazer e trabalhar com aquilo que nos dê prazer, não para sobreviver.

Ao aproximar-se dos partidos verdes com as suas preocupações em relação ao ambiente e ao bem-estar animal, o FALC também se aproxima dos partidos de esquerda até divergir das suas narrativas que glorificam a simplicidade ou até mesmo uma perspetiva idílica de fuga da cidade e da modernidade. O FALC não só é contra esse chamado de volta à natureza como também contra os hábitos de consumo sob o capitalismo pautado por combustíveis fósseis, com a sua lógica de comutação, publicidade omnipresente, trabalhos sem sentido e obsolescência programada. Para viver uma boa vida num cenário de abundância de recursos, é possível que vivamos uma vida parecida com a dos multimilionários de hoje, caso queiramos. “O luxo estará em tudo conforme a sociedade baseada em trabalho assalariado se tornar uma relíquia histórica do mesmo modo que o camponês feudal e o cavaleiro medieval”, escreve Bastani.

Não se trata, portanto, de emular os costumes niilistas dos multimilionários da contemporaneidade, até porque as suas práticas se baseiam, justamente, na lógica da escassez. Enviar um carro da Tesla para o espaço não faz sentido nenhum a não ser demonstrar que Elon Musk o pode fazer porque tem dinheiro. Do mesmo modo, também não significa que o FALC defenda discursos de “consumo ético” ou mesmo a narrativa de que “o local” é mais virtuoso. Num cenário no qual tudo é acessível, barato e possível, narrativas que ainda mantêm contrastes não fazem sentido. E isso só pode ser conquistado não através de uma renda básica universal, como muitas vezes ouvimos dizer, mas sim através de um sistema básico de serviços públicos.

No Brasil, já desfrutam de um sistema de saúde público, bem como de instituições de ensino públicas. O que Bastani propõe é estender isso a todos os países do mundo, tornando educação, habitação, transporte, saúde e informação direitos garantidos e gratuitos para todos. Diferente de distribuir um rendimento mínimo para as pessoas, o qual poderia gerar inflação aos governos e manter a lógica desses serviços como se fossem commodities capazes de terem os seus preços manipulados pelo mercado, possibilitar o acesso generalizado e gratuito garante uma maior conquista de bem-estar social e de independência dos cidadãos — afinal, como escreve Bastani, “pessoas necessitadas não são pessoas livres e um sistema de serviços básicos universais acaba com essa necessidade.”

Agora, se o seu problema está no facto de Bastani se inspirar em Marx ou mesmo propor o comunismo como o sistema político-económico a ser seguido com a chegada da Terceira Disrupção, saiba que também os economistas Keynes e Drucker pensaram algo semelhante, uma sociedade na qual a inovação tecnológica nos pode levar à abundância e na qual a informação se tornaria a nova moeda. Contudo, o capitalismo não tem como funcionar nesse cenário de automação e abundância de recursos. Bastani comenta que os níveis de automação diminuíram nos últimos anos, o que poderia significar um maior pessimismo para a chegada da Terceira Disrupção, mas o motivo não está na tecnologia, mas sim no facto de os salários estarem cada vez mais baixos, tanto que substituir trabalhadores por máquinas não é lucrativo. Além disso, o autor ainda conta uma anedota na qual Ford teria dito que não poderia automatizar completamente a sua linha de montagem ou baixar demais os salários dos seus funcionários porque, no fim de contas, eles próprios seriam os compradores dos seus produtos.

Afinal, muitas das tecnologias que prometem vir com a Terceira Disrupção, na verdade, não são novas: elas apenas se moveram das “margens” da sociedade para tomarem o seu centro (como explora a futurista Amy Webb no seu livro “The Signals Are Talking”). Se elas já estavam entre nós e não se desenvolveram tão rapidamente quanto poderiam é porque o motivo pelo qual vivemos no mundo de hoje não é tecnológico, mas político. O mesmo vale para este novo mundo para o qual nos podemos dirigir. Para Bastani, de facto, não há nenhum motivo real pelo qual as empresas e os mais ricos desejem libertar as pessoas ou manter os ecossistemas do nosso planeta — na verdade, faz mais sentido continuar a intensificar a desigualdade económica e o colapso generalizado para que algum novo algoritmo preditivo ou uma startup unicórnio venham com a solução. Pelo contrário, a mudança não virá através destes, mas sim da política a ser feita coletivamente.

Apesar de promover algo tão marcante, Bastani provoca, afirmando que “Fully Automated Luxury Communism” não é um livro sobre o futuro, mas sim sobre um presente que não está visível (colocado à vista) pelas pessoas. É uma isca que nos possibilita fugir da caverna de Platão do realismo capitalista e, no mínimo, questionar se, de facto, faz sentido acreditar que é mais fácil o mundo acabar do que o capitalismo deixar de existir. Mesmo que não adotemos o FALC, mesmo que sequer adotemos o comunismo, tem de haver algo além dos espetros do capitalismo que habitam a nossa caverna.