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quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Ontologia da Teia Viva: Transcendência, Metafísica Ecológica e Espiritualidade Imanente


Introdução
A crise socioecológica contemporânea não é meramente um percalço técnico, produtivo ou de gestão de recursos; revela-se, fundamentalmente, como uma profunda crise ontológica e epistemológica da modernidade. O paradigma cartesiano-newtoniano, ao segmentar o cosmos entre res cogitans (o sujeito pensante) e res extensa (a matéria desprovida de espírito), desalmou a natureza e confinou o ser humano a uma posição de domínio predatório sobre o ecossistema.

Superar esta rutura exige repensar a própria estrutura da existência. É neste horizonte que a transcendência, a espiritualidade e a ecologia convergem numa metafísica renovada. Longe de ser uma evasão para o além incorpóreo, a transcendência ecológica reconfigura o "ir além": ultrapassar a prisão do ego antropocêntrico para ascender à consciência da interconexão radical de todas as coisas. A espiritualidade eco-metafísica emerge, assim, como uma experiência da sabedoria imanente da Terra, na qual o sagrado não habita fora do mundo, mas desvela-se na própria trama orgânica e cósmica do ser.

Desenvolvimento
1. A Metafísica da Interconexão: Superar o Antropocentrismo Ocidental
A metafísica ocidental clássica - particularmente na sua vertente dualista platónico-cristã e, mais tarde, na modernidade científica - definiu frequentemente o "ser" através do isolamento e da substância fixa. A natureza foi reduzida a um mecanismo causal cego, destituído de sentido intrínseco. Em contrapartida, uma metafísica ecológica (ou ecosofia) substitui a ontologia das substâncias isoladas pela ontologia das relações.

O filósofo norueguês Arne Næss, fundador da Ecologia Profunda (Deep Ecology), propôs uma viragem conceptual decisiva. Næss argumentou que a perceção ecológica não é um mero cálculo utilitarista sobre a conservação do meio ambiente, mas um questionamento filosófico profundo sobre quem somos. Para Næss, o processo de maturidade humana culmina no desenvolvimento do "Self" ecológico — uma expansão da identificação do "eu" que transcende os limites do ego individual para abraçar a totalidade da biosfera.

Nesta perspetiva, a metafísica deixa de ser a busca por entidades transcendentes num plano metafísico abstrato e passa a ser a revelação da imanência sagrada: a teia de dependências mútuas onde cada organismo carrega um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a espécie humana.

2. Transcendência Imanente e Espiritualidade Naturalista
A física quântica e a teoria dos sistemas complexos vieram fundamentar empiricamente o que a tradição mística e a filosofia ecológica há muito intuíam. O físico Fritjof Capra, na sua obra A Teia da Vida, demonstra como a biologia contemporânea aponta para padrões de auto-organização que desafiam o mecanicismo reducionista.

Do ponto de vista filosófico e teológico, autores como Thomas Berry e Brian Swimme formularam a ideia da "História do Universo" como o novo texto sagrado. Para Berry, o universo não é uma "coleção de objetos", mas uma "comunhão de sujeitos".

É neste ponto que a transcendência ganha a sua definição mais fecunda:
  1. Transcendência vertical (clássica): a busca por um Princípio Absoluto fora ou acima da criação material.
  2. Transcendência horizontal/ecológica: A experiência de autotranscendência dentro do tecido da criação - o momento em que a consciência humana supera os seus limites egoicos para experienciar o pertencimento à totalidade cósmica.
Como aponta a investigação contemporânea no âmbito da Ecologia Espiritual (Spiritual Ecology), esta espiritualidade não exige a adesão a dogmas institucionais, mas constitui um compromisso existencial de solidariedade com os seres não-humanos. Trata-se de uma espiritualidade corporizada (embodied spirituality), na qual a matéria é compreendida como o veículo vivo da própria revelação cósmica.

3. Evidência Científica, Psicologia e Epistemologia da Natureza
A convergência entre transcendência, espiritualidade e ecologia tem sido validada por diversos estudos no campo da psicologia existencial e da neurociência.
  1. Física Teórica e Teoria dos Sistemas: Gregory Bateson, na sua obra Steps to an Ecology of Mind, defendeu que a "mente" não se situa exclusivamente dentro do crânio individual, mas é um atributo de todo o sistema ecossistémico imerso em circuitos de informação.
  2. Psicologia Ecossistémica: o conceito de "Overview Effect" (Efeito de Visão Global), documentado em astronautas ao contemplarem a Terra a partir do espaço, demonstra uma experiência psicológica profunda de autotranscendência, onde a perceção das fronteiras geopolíticas desvanece e surge uma consciência espiritual imediata da fragilidade e unidade do planeta.
  3. Saúde Mental e Autotranscendência: estudos recentes no campo da psicologia positiva e da psiquiatria (como os trabalhos sobre a experiência do sublime e do awe/fascínio) demonstram que estados de transcendência provocados pelo contacto direto com a natureza reduzem significativamente a atividade da Rede de Modo Padrão (Default Mode Network - DMN) no cérebro. Esta redução neurológica correlaciona-se com a atenuação do "eu" egocêntrico e o aumento da empatia, do comportamento pró-social e da responsabilidade ecológica.

Conclusão
Conectar transcendência, ecologia e espiritualidade através de uma lente metafísica não é um exercício estético ou saudosista, mas uma urgência civilizacional. A verdadeira transcendência ecológica exige que desmantelemos a ilusão da separação.

Ao reconhecer que o ser humano não está na Terra como um visitante externo, mas é a própria Terra a pensar, sentir e contemplar a sua existência, o ato de proteger o planeta deixa de ser um dever ético exterior para se tornar num ato de autocuidado sagrado. A espiritualidade ecológica devolve o mistério e a reverência à matéria. Ao reaprender a transcender a pequenez do ego, a humanidade poderá finalmente reocupar o seu lugar legítimo na grande teia da vida: não como senhora ou proprietária, mas como a expressão consciente da harmonia do cosmos.

Referências Bibliográficas
  1. Bateson, G. (1972). Steps to an Ecology of Mind: Collected Essays in Anthropology, Psychiatry, Evolution, and Epistemology. San Francisco: Chandler Publishing Company.
  2. Berry, T. (1988). The Dream of the Earth. San Francisco: Sierra Club Books.
  3. Capra, F. (1996). The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. New York: Anchor Books.
  4. Chatlos, J. (2025). Spiritual Experience: Scientific, Philosophical, and Theological Implications. Zygon: Journal of Religion and Science, 59(4), 949–981.
  5. Devall, B., & Sessions, G. (1985). Deep Ecology: Living as if Nature Mattered. Salt Lake City: Peregrine Smith Books.
  6. Eliade, M. (1957). O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. Lisboa: Livros do Brasil.
  7. Næss, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
  8. Sponsel, L. E. (2012). Spiritual Ecology: A Quiet Revolution. Santa Barbara: Praeger.
  9. Taylor, B. (2010). Dark Green Religion: Nature Spirituality and the Planetary Future. Berkeley: University of California Press.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Anna von Hausswolff - The Mysterious Vanishing of Electra


My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
Oh, to save me

Oh, to save me

His search is not enough
His search is not enough
Oh, to find me

Oh, to find me

My love is not enough
Oh, my love is not enough-ough
To save me
Oh, to save me

You search through the forest and the bottomless sea
And you cry
Push the trees, push the sky, push the air aside
You look at their faces and their meaningless loss
And you cry
Who is she, who is she, who is she who is she to say goodbye?


A Impotência perante a erda
Em "The Mysterious Vanishing Of Electra", o tema central do álbum Dead Magic (2018) ganha uma forma visceral. Anna von Hausswolff não se limita a cantar sobre o luto; ela constrói um exorcismo sonoro que explora a paralisia e a frustração humana perante o que é irreversível.

O Simbolismo da busca e o peso do Mito
O título remete imediatamente para Electra, um nome com fortes raízes na tragédia grega (o complexo de Electra) No entanto, a letra expande este arquétipo para uma narrativa de perda universal e desesperada.

A composição assenta na ideia de insuficiência:
  1. A limitação humana: A repetição de frases como "My feet are not enough" (Os meus pés não são suficientes) e "My love is not enough" sublinha que nem o esforço físico nem a devoção emocional conseguem resgatar quem se partiu.
  2. Cenários míticos: Ao evocar buscas por "florestas e mares sem fundo", a artista transporta o desespero do plano terreno para um cenário quase lendário, onde a "desaparição" de Electra parece definitiva.
  3. A incompreensão: A pergunta "Who is she to say goodbye?" (Quem é ela para dizer adeus?) revela a perplexidade e a revolta de quem fica para trás, incapaz de aceitar o destino.
Uma Performance de Pura Urgência
A estrutura da canção reflete uma urgência que é tanto física como espiritual. A repetição exaustiva dos versos, aliada aos vocais de Anna — que evoluem de melodias introspectivas para gritos guturais —, simboliza uma dor que já não cabe em palavras comuns. É o som de uma alma a tentar conter o inconformável.

A catedral de som: o Órgão de Tubos
O peso emocional da obra é sustentado por uma base sonora monumental, fruto de uma escolha artística rigorosa:
  1. O local: o instrumento foi registado na Marmorkirken (Igreja de Mármore), em Copenhaga. Anna escolheu este local pela acústica única do enorme domo, afirmando que o som do órgão parecia "cristalizar" e disparar notas como ondas hipnotizantes.
  2. O instrumento: trata-se de um órgão Marcussen & Søn de 1963, que incorpora tubos originais de 1894, conferindo uma textura histórica e imponente à faixa.
  3. Produção: gravado ao vivo em estéreo com o produtor Randall Dunn, o órgão cria o drone cavernoso que serve de fundação à música.
Embora o videoclipe oficial, realizado por Maria von Hausswolff, apresente uma estética visual sombria em cenários exteriores, é a reverberação das paredes desta igreja dinamarquesa que ancora a sensação de isolamento e transcendência da canção.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

O que é a Metaética? Conceito, Questões e Principais Filósofos

Nota 1 (embaixo)
A metaética é o ramo da filosofia moral que recua um passo para analisar a própria natureza da ética. Em vez de perguntar "O que devemos fazer?" (o objeto da ética normativa) ou "A eutanásia é moralmente aceitável?" (o foco da ética aplicada), a metaética interroga o próprio edifício concetual do discurso moral, questionando: "O que significa dizer que algo é 'bom' ou 'mau'?" e "Os valores morais existem de forma objetiva no mundo?". 
Para estruturar esse campo, a metaética divide-se habitualmente em três dimensões centrais. 
A primeira é a semântica moral, que investiga o significado da linguagem moral e contrapõe o cognitivismo - a ideia de que os juízos morais expressam crenças e descrevem factos suscetíveis de serem verdadeiros ou falsos - ao não-cognitivismo, que entende os enunciados morais como meras expressões de emoções, desejos ou ordens. 
A segunda dimensão é a ontologia moral, que aborda o estatuto de existência das propriedades morais, dividindo-se entre o realismo moral, para o qual existem factos morais independentes das opiniões humanas, e o anti-realismo moral, que interpreta os valores como construções sociais, ilusões ou projeções subjetivas. 
A terceira dimensão é a epistemologia moral, dedicada a compreender como obtemos conhecimento moral, quer seja por meio da intuição direta, do raciocínio lógico, da experiência empírica ou dos sentimentos.
Embora a metaética enquanto disciplina autónoma e analítica se tenha consolidado a partir do século XX, as suas preocupações ontológicas, semânticas e epistemológicas remontam à Antiguidade e atravessam toda a história da filosofia. Na Grécia Antiga, Platão inaugurou uma forma radical de realismo moral ao propor que o "Bem" é uma Forma ou Ideia transcendente e objetiva, acessível apenas através do intelecto. Em contraste, Aristóteles adotou uma postura naturalista, ancorando a moralidade na teleologia humana e argumentando que o bem reside no desenvolvimento das virtudes e no florescimento biológico e racional (eudaimonia). Entre os sofistas, como Protágoras, surgiram as primeiras reflexões de cariz anti-realista e relativista, ao sustentar que "o homem é a medida de todas as coisas".
No início da Idade Moderna, Thomas Hobbes introduziu uma visão mecanicista e subjetivista, afirmando que as palavras "bom" e "mau" servem apenas para significar os desejos e aversões de cada indivíduo, emergindo a moralidade objetiva unicamente através do pacto social. Mais tarde, David Hume desferiu um dos golpes mais marcantes na ontologia e na epistemologia morais ao postular o sentimentalismo moral - segundo o qual a moral deriva das nossas reações emotivas e não da razão - e ao formular o famoso problema do "is-ought" (a Guilhotina de Hume), que denuncia a impossibilidade lógica de derivar um dever-ser (juízo moral) a partir do ser (factos descritivos). 
Em resposta a Hume, Immanuel Kant propôs uma abordagem construtivista e racionalista, sustentando que os princípios morais não dependem de factos empíricos externos nem de sentimentos voláteis, mas são leis a priori impostas pela própria estrutura da razão prática sob a forma do Imperativo Categórico.
No século XIX, G. W. F. Hegel criticou o abstracionismo kantiano, sugerindo no seu conceito de Sittlichkeit (vida ética) que os valores morais são construídos e desenvolvidos historicamente através das instituições de uma comunidade. Em contrapartida, Arthur Schopenhauer fundamentou a ética no sentimento inato de compaixão perante o sofrimento alheio, enquanto John Stuart Mill, aprofundando o utilitarismo de Jeremy Bentham, defendeu um naturalismo assente na maximização do bem-estar e da felicidade empírica. No final do século, Friedrich Nietzsche realizou uma crítica genealogicamente demolidora aos valores morais ocidentais, argumentando que os conceitos de "bem" e "mal" não possuem fundamento transcendente ou objetivo, sendo antes manifestações de relações de poder e de construções históricas ao serviço da "vontade de poder".
Com a viragem linguística no início do século XX, G. E. Moore inaugurou a metaética analítica moderna no seu livro Principia Ethica (1903). Moore defendeu o intuicionismo ao argumentar que o "bem" é uma propriedade simples, não-natural e indefinível (análoga à cor amarela) e que qualquer tentativa de a reduzir a conceitos naturais ou científicos, como o prazer ou a evolução, incorre na falácia naturalista, testada pelo seu famoso Argumento da Questão Aberta. W. D. Ross expandiu esta linha ao propor um intuicionismo de deveres prima facie, sustentando que conhecemos os nossos deveres morais básicos por intuição racional direta. Em oposição ao intuicionismo, o positivismo lógico do Círculo de Viena deu origem a vertentes não-cognitivistas radicais. A. J. Ayer, na sua obra Linguagem, Verdade e Lógica (1936), formulou o emotivismo, sustentando que as afirmações morais não possuem valor de verdade e servem unicamente para expressar sentimentos de aprovação ou repulsa - pelo que dizer "Matar é mau" equivale simplesmente a gritar "Abaixo o assassinato!". Charles Stevenson desenvolveu e refinou o emotivismo ao demonstrar como a linguagem moral é usada não apenas para ventilar emoções, mas também para influenciar dinamicamente as atitudes dos interlocutores. Decénios mais tarde, R. M. Hare apresentou o prescritivismo universal, argumentando que a linguagem moral não é meramente emotiva, mas funciona como um conjunto de imperativos e instruções que exigimos que se apliquem universalmente a qualquer pessoa em circunstâncias análogas.
No campo das teorias anti-realistas cognitivistas, J. L. Mackie chocou a comunidade filosófica ao propor a Teoria do Erro (Error Theory) em Ethics: Inventing Right and Wrong (1977). Mackie argumentou que, embora a nossa linguagem moral quotidiana pretenda referir-se a factos e propriedades morais objetivas (cognitivismo), tais propriedades exigiriam a existência de entidades "estranhas" (argument from queerness) sem paralelo no mundo natural; assim, por falta de correspondência com a realidade, todas as afirmações morais positivas são rigorosamente falsas. Na mesma linha expressivista e anti-realista, Simon Blackburn desenvolveu o quasi-realismo, procurando explicar como podemos falar legitimamente "como se" existissem factos morais sem ter de aceitar uma ontologia realista pesada, enquanto Allan Gibbard formulou o expressivismo de normas, focando-se no papel da linguagem moral para expressar a aceitação de sistemas de regras. Em reação às correntes subjetivistas e emotivistas, a segunda metade do século XX assistiu a um forte ressurgimento do realismo e do naturalismo moral. Philippa Foot, juntamente com G. E. M. Anscombe, rejeitou o subjetivismo e ajudou a refundar a ética das virtudes e o naturalismo moral, argumentando que os conceitos morais estão ancorados na própria natureza humana e no florescimento biológico e social da espécie, de forma análoga a como avaliamos a saúde ou a qualidade funcional de qualquer outro organismo vivo. No âmbito do realismo analítico, a chamada Escola de Cornell - representada por filósofos como Richard Boyd, Nicholas Sturgeon e David Brink - defendeu que as propriedades morais são propriedades naturais complexas que sobredeterminam os factos físicos e desempenham um papel explicativo real no mundo, sendo descobertas do mesmo modo que as ciências naturais descobrem propriedades como a água ser H2O.
Na filosofia contemporânea de matriz kantiana, Christine Korsgaard e Stephen Darwall destacam-se no desenvolvimento do construtivismo moral. Korsgaard argumenta que a fonte da normatividade não reside em propriedades morais independentes e flutuantes no universo, mas é ativamente construída pela estrutura da razão humana, pela autonomia da vontade e pelas exigências do respeito mútuo impostas pela nossa identidade prática. Em suma, a metaética contemporânea continua a dissecar as ferramentas epistemológicas, ontológicas e semânticas com que pensamos, articulamos e justificamos a moralidade, desvelando a complexa teia que sustenta o nosso discurso sobre o bem e o mal.

Nota 1- A minha arte digital mostra um homem de meia-idade a segurar uma câmara reflex e a olhar atentamente pelo visor, focado em capturar um momento num mercado ao ar livre.

Se olharmos para esta cena como uma metáfora filosófica, a ética do quotidiano é tudo o que acontece na feira: as trocas, as escolhas e o comportamento das pessoas. A ética normativa funciona como o conjunto de regras do local, indicando o que ali é correto fazer. A metaética, por sua vez, é a análise da própria câmara. Não se foca nas pessoas ou nas bancadas da feira, mas sim no equipamento que usamos para capturar o mundo.

O gesto de olhar pelo visor ilustra na perfeição as três grandes dúvidas da metaética. Na vertente semântica, questiona se a fotografia mostra o mundo tal como ele é ou apenas o resultado dos filtros e da luz do sensor — ou seja, se quando dizemos que algo é "bom" estamos a descrever um facto real ou apenas a expressar uma perceção pessoal. Na vertente ontológica, pondera se as cores e as formas da imagem existem de forma independente no mundo ou se dependem do aparelho para ganhar forma, o que equivale a perguntar se os valores morais existem por si só na realidade ou se são puras criações humanas. Por fim, na vertente epistemológica, questiona a forma como ajustamos o foco para ver bem, indagando se o conhecimento moral surge de um estalo intuitivo, de um cálculo técnico da lente ou de uma aprendizagem contínua.

No fundo, aquele fotógrafo representa a própria postura da metaética: o ato de dar um passo atrás para entender como funcionam as lentes e os mecanismos com que julgamos o bem e o mal.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

A revolução dos algoritmos: passado, presente e futuro da Inteligência Artificial


“Proponho que consideremos a questão: "Podem as máquinas pensar?" Esta é a primeira linha de um documento publicado em outubro de 1950, por Alan Turing. O cientista e matemático britânico tinha tido, na década anterior, um papel determinante na Segunda Guerra Mundial, ao descodificar mensagens decisivas dos nazis. Estava neste momento na linha da frente do pensamento que refletia sobre a capacidade de tornar um computador em algo mais, algo que pudesse trazer inteligência.

Ao longo de quase sete décadas, as máquinas têm vindo a evoluir: passaram de sistemas reativos, que desempenham apenas uma tarefa, sem capacidade para criar memória, para mecanismos que conseguem olhar para o passado; tomam decisões e aproximam-se cada vez mais da inteligência humana.

Uma luz sobre o futuro
"De alguma maneira os computadores também permitem um sonho antigo da Humanidade, que é a inteligência digital. E neste momento estamos a assistir a desenvolvimentos significativos nessa frente", diz Arlindo Oliveira, académico, investigador e escritor português, autor do livro “Inteligência Artificial”.

“Até que ponto é que vamos deixar esses sistemas evoluir até terem níveis muito elevados de consciência e de autonomia é uma boa pergunta porque podemos ficar demasiado preocupados com os riscos disso. Podemos ficar preocupados que sistemas como esses não sejam inteiramente controláveis e que passem a ter objetivos seus que não estejam alinhados”, acrescenta.

O efeito Chat GPT
Nos últimos anos, e muito depois da entrada em cena do Chat GPT, em finais de 2022, foi relançada a discussão sobre inteligência artificial. Falamos de machine learning, a verdadeira capacidade das máquinas aprenderem, ou de inteligência artificial generativa, ou seja, a partir de algoritmos é possível criar algo, seja uma imagem a partir de um texto ou modelos avançados de linguagem que nos dão respostas a questões complexas.

A revolução dos algoritmos: passado, presente e futuro da Inteligência Artificial
São criadas as redes neuronais, com os cientistas a tentar replicar em laboratório, dentro das máquinas, através dos algoritmos, a dinâmica de um cérebro humano.

“Funciona com uma arquitetura complexa de múltiplos neurónios espalhados, uma quantidade infindável de pequenas unidades, que fazem pequenos processos como se fossem um computador”, refere o neurocientista Bruno Miranda, que investiga o que nos vai na cabeça com apoio da inteligência artificial. “O que já se percebeu é que, realmente, tem poder computacional. O que é que isto quer dizer? Tem, realmente, a possibilidade de fazer uma previsão de múltiplos passos à frente que às tantas o cérebro humano tem dificuldade em continuar”, diz

“Vai-nos ajudar a criar desafios de como conseguimos estudar todo o processo da consciência. Eu acho que devemos aproveitar estas oportunidades para trazer alguns temas que se calhar até estavam afastados da neurociência, para criarmos novas maneiras de olharmos para o cérebro. E sobretudo focarmo-nos em aprendermos mais do que é que nós somos, do que é que o cérebro é”, acrescenta.

O peso da consciência
E é claro, que tudo isto, tem vindo a levantar várias questões, nem sempre consensuais. No início de 2023, depois de o mundo despertar para o efeito do Chat GPT, Geoffrey Hinton colocou à disposição o lugar que tinha na Google. Considerado o padrinho da inteligência artificial, preocupado com o impacto destes avanços, decidiu lançar vários avisos a quem navega nestes mares ainda desconhecidos: “A partir do momento em que estas coisas começarem a criar alguns objetivos, a serem muito inteligentes, elas vão-se aperceber, se tiverem mais controlo, podem ter noção dos seus objetivos mais facilmente. E quanto tiverem controle, as coisas vão começar a ficar piores para as pessoas”, referiu o cientista de computação, numa das várias entrevistas que deu.

A revolução dos algoritmos: passado, presente e futuro da Inteligência Artificial
Uma das questões passa pela consciência, até que ponto podem ir as máquinas, o que poderemos deixar que elas sejam e naquilo que se podem tornar. É preciso relembrar que em causa estão mecanismos alimentados com dados. E quanto mais variados, em termos de quantidade e diversidade, melhor o algoritmo e mais aprumada será aquela ferramenta de inteligência artificial.

“A partir do momento em que estas coisas começarem a criar alguns objetivos, a serem muito inteligentes, elas vão-se aperceber, se tiverem mais controlo, podem ter noção dos seus objetivos mais facilmente. E quanto tiverem controle, as coisas vão começar a ficar piores para as pessoas”, diz à SIC Paulo Castro, especialista em Filosofia da Ciência. Sublinha que existe uma “preocupação tremenda de que essas IA , desses sistemas, que são tão sofisticados que podem, facilmente, sair do controle humano ou serem, por lapso, não se verem as consequências previsíveis, ou serem utilizadas por grupos maliciosos, para o que quer que seja”.

O risco dos enviesamentos
E de regresso aos dados. Há o risco dos enviesamentos. A forma como podem, de alguma maneira, levar a que sejam tomadas decisões preconceituosas, os chamados enviesamentos. “Nós sabemos que a nossa sociedade é enviesada, nós sabemos que há problemas, e criámos a ilusão de que, usando dados de uma sociedade enviesada, conseguimos criar modelos neutros. E que o modelo é menos enviesado do que a sociedade. E não temos razão nenhuma para pensar que isso é verdade. Pelo contrário”, sublinha Joana Gonçalves de Sá.

A revolução dos algoritmos: passado, presente e futuro da Inteligência Artificial
Em todo o mundo, o valor de mercado da inteligência artificial rondava os 125 mil milhões de euros em 2022. No ano seguinte atingiu os 180 mil milhões e deverá continuar a crescer na ordem dos 40% por ano, até 2030. Para já, na dianteira desta locomotiva estão os Estados Unidos e a China. Quanto à Europa tem vindo a focar-se, mais que tudo, na regulamentação.

Será a primeira, a nível mundial e será um marco em todo este processo. De Bruxelas vão sair quatro níveis de risco: inaceitável, elevado, limitado e mínimo. As instituições europeias prometem ser rigorosas no acompanhamento de cada um dos produtos alimentados pela Inteligência Artificial. E não só, esta mesma exigência terá em conta os dados que alimentam as máquinas, que até aqui têm estado concentrados nos gigantes tecnológicos.

O risco dos enviesamentos
Confiar no algoritmo para tomar decisões complexas pode conduzir ainda é um risco, seja no mundo do emprego ou até mesmo na justiça. E neste caso, em Portugal, ainda se está a tentar perceber que caminho se deve seguir. Há grupos de reflexão e algumas certezas em cima da mesa, entre elas as especificidades que diferenciam cada um dos tribunais. Mas há um ponto que começa a ficar bastante claro: o fator humano é imprescindível.

Não se retira desta equação o papel do juiz, podendo a inteligência artificial ajudar na parte da burocracia. E é esta a ideia que ganha forma em diferentes quadrantes da investigação relacionada com este avanço tecnológico. Permitir a cada um ter mais tempo e permitir que as máquinas consigam dar apoio nas variáveis mais burocráticas da sociedade.

O peso da IA
Em Portugal, existe a estratégia nacional de inteligência artificial, publicada em 2019, com horizonte até 2030. Pretende promover a investigação e a inovação nesta área. Em 2022 (dados do INE), menos de 8% das empresas usava inteligência artificial. No ano seguinte, um estudo independente mostrava que 35% tinha já integrado esta tecnologia. Até ao final da década, o impacto económico da inteligência artificial poderá atingir os 61 mil milhões de euros.

O futuro do trabalho
O que se segue, é incerto. Estão a ser feitas investigações através da Inteligência Artificial para se conseguirem diagnósticos precoces de cancro no pulmão. Exemplo disso é o trabalho que está a ser desenvolvido no Hospital de São João, no Porto. Há os desafios colocados na educação, entre o proibir ou abraçar ferramentas como o Chat GPT. E até na agricultura, com estas novas tecnologias a desenharem um esboço do que poderemos ter no futuro, num equilíbrio constante com a biodiversidade e proteção da natureza.

Pedro Domingos, professor emérito na Universidade de Washington, investigador nesta área envolvido em algumas discussões mais polémicas sobre o tema, acredita que ainda estamos no início: “Se o caminho, desde a inteligência zero, até à inteligência humana são mil quilómetros, nós percorremos talvez uns 10. Dez quilómetros já é muita coisa, é muito progresso, mas faltam ainda 990 para se chegar à inteligência humana”, refere.

A questão “não é quando é que os algoritmos vão atingir a inteligência humana, porque não vai haver um momento único em que isso acontece”, aponta. “Vai chegar a uma altura em que eles fazem tudo melhor que nós, eu penso que sim, mas é muito difícil prever se isso vai ser daqui a 10 anos, ou cem ou mil”.
Fonte

domingo, 3 de julho de 2022

Sobre o Dia Mundial do Naturismo - Minha reflexão e autobiografia

I have been practicing naturism for years. Naturism isn't just about taking off your clothes - it's a way of being that completes me and the friends I have here.

Sure, I respect non-naturists and have no desire to impose naturism on anyone. Just consider this: take away the Gucci or the Levi’s, and we are all the same. The human body and its natural sensuality are not inherently shameful - what is truly shameful is how our society normalizes violence, harm, and the destruction of life, yet turns the natural human form into something taboo, offensive, or prudish.


For those who practice it, naturism offers a profound sense of completeness and shared humanity.

At its core, clothing serves as a primary marker of social hierarchy, wealth, and status. When we remove brand labels and societal uniforms, we strip away the artificial barriers that divide us. Naked, every human being exists on equal footing. In a naturist environment, individuals meet not as CEO and worker, wealthy and poor, or insider and outsider, but simply as human beings existing in their most authentic, unvarnished form.

It is one of the great hypocrisies of modern culture that the unadorned human body - the most natural thing in existence -is routinely treated as something taboo, offensive, or shameful, while visual and structural violence, harm, and environmental destruction are normalized and consumed as everyday entertainment. Society has systematically hyper-sexualized and censored the physical form, conflating natural presence with impropriety. Naturism challenges this distortion by intentionally decoupling social nudity from sexualization, creating a safe, neutral space that fosters genuine self-acceptance, healthy body image, and a harmonious connection with the natural world.

To embrace naturism is to reject the manufactured shame imposed by cultural conditioning and to reclaim the human body as inherently worthy, peaceful, and free.


Foundational and Historical Texts
Ungewitter, Richard. Nacktheit (1906). A foundational text from the early 20th-century German Freikörperkultur (FKK) movement, advocating for physical health, mental well-being, and social egalitarianism through natural body acceptance.


Sociological and Philosophical Critiques of Body Taboos
Elias, Norbert. The Civilizing Process (1939). A classic sociological study detailing how European notions of shame, manners, and body concealment evolved over centuries as mechanisms of class division and social control.
Foucault, Michel. The History of Sexuality, Vol. 1: An Introduction (1976). An influential analysis of how state and cultural institutions regulate, police, and discourse-control the human body.
Baudrillard, Jean. The Consumer Society: Myths and Structures (1970). Examines how modern consumerism hyper-sexualizes and commodifies the human body while alienating individuals from their natural form.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O Pensamento de David Hume


David Hume é conhecido por seu ceticismo quanto à nossa capacidade de conhecer a realidade que nos cerca. Chegou a negar que a causalidade seja um aspecto objetivo e afirmou que a razão está subordinada aos aspectos conativos da psicologia humana. Essa interpretação aproxima-o da tradição sentimentalista, especialmente após ler Anthony Ashley Cooper (Conde de Shaftesbury) e continuar a proposta de Francis Hutcheson. Suas observações morais influenciaram Adam Smith, que foi um amigo próximo, e, recentemente, muitas teorias metaéticas.

Decidiu desde jovem a dedicar-se aos estudos e planejou tornar-se um intelectual. Sua primeira obra, em todo caso, não teve boa recepção, mas, logo depois, foi considerado um dos pensadores mais difíceis de ser refutado. Sabe-se que seu estudo sobre os limites epistemológicos da mente humana foi influenciado pela máxima de Isaac Newton: Hypotheses non fingo (Não adoto hipóteses), baseando-o, assim, em um modelo experimental. Sua crítica a toda metafísica e a perspectivas dogmáticas é mencionada por Immanuel Kant como um fator de reviravolta em seu pensamento.

Biografia de David Hume

David Hume nasceu em abril de 1711, em Edimburgo (Escócia), e foi batizado no mesmo dia. Viveu sua infância em Ninewells, região localizada na atual cidade de Dundee (Escócia). Seus pais, Joseph Home e Katherine Falconer, tiveram ainda John e Katherine. Seu pai faleceu em 1713, e foi sua mãe quem ficou responsável pelos filhos, incluindo a educação.

Com 11 anos, é enviado junto com o irmão para ter aulas na Universidade de Edimburgo, em especial de grego e latim, vindo a matricular-se em Direito em 1726. Enquanto considerava o curso de Direito desgastante, seu interesse por literatura e filosofia aprofundava-se. Já havia adquirido gosto pela leitura de Cícero e outros autores clássicos.

Abandona os estudos no ano seguinte e torna-se um leitor e escritor ávido. Acreditava que o conhecimento poderia ser adquirido pelos livros, pensamento que indica sua decepção com a academia. Decidiu estudar tão arduamente que ficou doente em 1729. Ainda não totalmente recuperado, sem conseguir expressar com clareza seus pensamentos, decide, no início de 1734, deixar os estudos para cuidar da saúde.

Segue para a cidade de Bristol, na Inglaterra, para trabalhar. É nesse período que decide alterar seu sobrenome para Hume, em função de uma dificuldade de pronúncia por parte dos ingleses. Poucas semanas, contudo, foram suficientes para abandonar o emprego e mudar-se para a França. É nesse período que escreve a maior parte de Tratado da natureza humana, sua primeira obra, dividida em três partes, publicadas separadamente entre os anos de 1739 e 1740.

As publicações não obtiveram sucesso, e o filósofo acreditou que as críticas recebidas estavam relacionadas a problemas na forma de apresentação das ideias, e não especificamente em seu conteúdo. Nos próximos dois livros, Investigação sobre o entendimento humano (1748) e Uma investigação sobre os princípios da moral (1751), então, desenvolveu, em uma linguagem mais atrativa, os temas presentes já na primeira obra.

O próprio David Hume considerava que este último é sua contribuição mais brilhante. O que o fez ganhar certa notoriedade, em todo caso, foram as reflexões breves (o tipo de texto é chamado essay em inglês) sobre política, ética e literatura, publicadas, em sua maioria, em 1741 e em edições posteriores.

Apesar de ter tentado em duas ocasiões, não conseguiu conquistar uma carreira acadêmica e tampouco se profissionalizou em outras áreas. Trabalhou como tutor, bibliotecário e secretário em diversas funções. Aproveitou o período como bibliotecário, de 1752 a 1756, para iniciar a escrita de seu aclamado História da Inglaterra, publicado em seis volumes e que lhe concedeu a estabilidade financeira tão esperada.

Foi como secretário para a embaixada britânica na França, entre 1763 e 1765, que fez contato com alguns filósofos do iluminismo francês, como Denis Diderot, Jean-Jacques Rousseau e Jean Le Rond d’Alembert, com o qual fez amizade.

David Hume sempre esteve preocupado em revisar e corrigir seus escritos, ao que se dedicou após 1762. Em 1769, já após seu último emprego, compra uma casa em Edimburgo e muda-se com sua irmã, em 1771. Após apresentar sinais de doença, visita médicos em abril de 1776, mesmo período em que promete ao seu editor, William Strahan, novas revisões de alguns textos. Meses antes de falecer, no mesmo ano, fez alterações no testamento, indicando como deveria ser o monumento sob seu túmulo e especificando até o valor total que deveria ser gasto nele.

Teoria do conhecimento de David Hume

A teoria do conhecimento desse filósofo é baseada em sua interpretação das operações da mente. Ele propõe que todo o conteúdo da mente (o que John Locke havia nomeado de modo semelhante como “ideias”) seja considerado como percepção. Esse termo é usado em um sentido mais amplo do que o do cotidiano e abrange as diversas operações e capacidades da mente.

As percepções só são distinguidas pelo grau de vivacidade com o qual nos afetam, assim, qualquer desejo, reflexão ou sentimento será sempre mais intenso do que uma recordação ou uma imaginação dessas situações. A lembrança do nascimento de um filho ou uma filha, por exemplo, não poderia comparar-se com o momento do nascimento em si. Sendo assim, teríamos as impressões, que são as percepções mais intensas, e os pensamentos (ou ideias), que são as percepções mais fracas. David Hume afirmou, por isso, que mesmo o pensamento mais intenso não se compara à impressão mais fraca.

Esse filósofo defendeu que os pensamentos representam o que originalmente apreendemos pelas impressões. Isso explicaria não apenas por que algumas percepções são fracas mas por que alguns pensamentos ocorrem apenas na mente e não na realidade. Podemos, por exemplo, imaginar uma montanha de ouro, mas nenhuma existe concretamente. Decompondo esse conteúdo em elementos mais simples (montanha e ouro), descobriríamos que esses conteúdos resultaram de experiências anteriores. É por meio dessa identificação que concluiríamos que todos os conteúdos da mente originam-se de alguma impressão.

Tendo explicado as operações da mente e identificado que os pensamentos têm origem empírica, seria esperada uma explicação sobre a origem do que percebemos pelos sentidos ou das sensações, que advêm de uma realidade extra mental, mas isso não ocorre! David Hume limita o entendimento humano às próprias percepções, de modo que essas percepções originárias simplesmente surgiriam na mente. Isso significa que não se pode experimentar o que está além dessas percepções mais simples.

Tendo indicado a origem dos pensamentos (ou das ideias), resta ainda indicar como se pode alcançar conhecimento ou certeza. Sobre isso há três principais relações: semelhança, contiguidade no tempo e no espaço, e causa e efeito. Embora as ideias possam ser associadas livremente, como ao imaginar-se uma montanha de ouro, apenas as duas primeiras relações são válidas para estabelecer-se verdades conceituais.

O que será mais inovador em seu pensamento é a investigação das questões de fato, na qual encontramos as causalidades. Todos os fatos seriam explicados por essa relação, no entanto, a causalidade em si não seria um fator objetivo, mas subjetivo, uma vez que não podemos ter uma impressão da força que põe as coisas em relação causal, mas apenas dos eventos observados subsequentemente.

O que se supõe ser uma questão de causa, afirma David Hume, é antes fruto do hábito. É por meio de muitas experiências e com o auxílio da memória que entendemos haver uma conjunção constante entre certos eventos, quando não haveria nenhuma necessidade lógica nessas relações de causa e efeito.

Em seu famoso exemplo, afirma que é pelo hábito que acreditamos que o Sol nascerá todos os dias, e com isso quer dizer que esse evento é apenas uma probabilidade, não uma verdade estabelecida pela razão. Todas as questões de fato seriam contingentes, ou seja, poderiam deixar de ser, mas as propriedades do triângulo, por outro lado, que são conceituais, permanecem por necessidade lógica.

Empirismo de David Hume

David Hume é mundialmente conhecido por suas observações sobre o conhecimento. Elencado como integrante do chamado empirismo britânico, é o mais radical de todos. Esse pensador questionou-se por que as ciências naturais avançavam em prover novos conhecimentos enquanto os estudos filosóficos estagnavam-se. Considerou que o problema estava em teorizar sem considerar os fatos e a experiência, o que o faz ser extremamente crítico de propostas metafísicas ou com viés teológico.

Já em sua primeira obra, propôs-se a adotar o método experimental para investigar a natureza humana, o que o faz aproximar-se das ciências naturais e ser considerado um dos precursores dos estudos cognitivos contemporâneos.

Principais citações de David Hume

•Investigações sobre o entendimento humano

“Um homem tomado de um acesso de fúria é afetado de maneira muito diferente de um outro que apenas pensa nessa emoção. Se você me diz que uma certa pessoa está enamorada, eu entendo facilmente o que você quer dizer e formo uma ideia adequada da situação dessa pessoa, mas jamais confundiria essa ideia com os tumultos e agitações reais da paixão.” |1|

“O contrário de toda questão de fato permanece sendo possível, porque não pode jamais implicar contradição, e a mente o concebe com a mesma facilidade e clareza, como algo perfeitamente ajustável à realidade. Que o sol não nascerá amanhã não é uma proposição menos inteligível nem implica mais contradição que a afirmação de que ele nascerá; e seria vão, portanto, tentar demonstrar sua falsidade.” |1|

“Se um objeto nos fosse apresentado e fôssemos solicitados a nos pronunciar, sem consulta à observação passada, sobre o efeito que dele resultará, de que maneira, eu pergunto, deveria a mente proceder nessa operação? Ela deve inventar ou imaginar algum resultado para atribuir ao objeto como seu efeito, e é óbvio que essa invenção terá de ser inteiramente arbitrária. O mais atento exame e escrutínio não permite a mente encontrar o efeito na suposta causa, pois o efeito é totalmente diferente da causa e não pode, consequentemente, revelar-se nela.” |1|

• Tratado da natureza humana

"[N]ão apenas nossa razão nos falha na descoberta da conexão última entre causas e efeitos, mas, mesmo após a experiência ter-nos informado de sua conjunção constante, é impossível nos convencermos, pela razão, de que deveríamos estender essa experiência para além dos casos particulares que pudemos observar. Nós supomos, mas nunca conseguimos provar, que deve haver uma semelhança entre os objetos de que tivemos experiência e os que estão além do alcance de nossas descobertas." |2|

Notas

|1|HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

|2|HUME, David. Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais, 2ª ed rev e ampl. Tradução de Déborah Danowski. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Fritjof Capra: pandemia evidencia urgência em frear desigualdade social e agressão ao ambiente



A humanidade está colhendo, com a pandemia, frutos plantados por décadas de mau crescimento econômico e descontrole populacional. Palestrante na noite desta quarta-feira (18) em conferência online do Fronteiras do Pensamento, o físico teórico Fritjof Capra explicou por que, em sua visão, a propagação do coronavírus deixa claro que é preciso inverter a lógica da busca ilimitada pelo lucro por um modelo que priorize a igualdade social e a preservação do ambiente.

A covid-19 pode ter chegado para salvar da extinção boa parte da vida na Terra — resumiu o austríaco.

Capra pensa que a pandemia não pode ser analisada como fenómeno individual, resultado do imponderável. Sua opinião é de que o contágio — como todas as coisas — deva ser estudado sob a ótica sistêmica. Ou seja, a ponta mais visível de uma ilha de desequilíbrios sociais, avanço econômico desmedido e falta de controle da superpopulação.

A pandemia é uma resposta biológica do planeta à emergência ecológica e social que o ser humano causou a si mesmo — afirmou.

Esse desbalanço seria resultado do apetite desmedido de empresas por crescimento e lucro, incentivando o consumismo (e o descarte), a produção fabril em áreas de preservação e a poluição. Outra consequência desse modelo é ampliação da distância entre riscos e pobres. Essa soma de fatores retirou de seus habitats naturais hospedeiros de vírus desconhecidos do ser humano e ainda os aproximou de zonas superpovoadas.

O vírus não conhece limites económicos e políticos, não distingue ricos de pobres. Ele representa o triunfo da biologia sobre a economia e a política — reforçou.

Assim como a pandemia não deve ser vista como infortúnio ou fato isolado, sua resolução também precisa se conectar com mais desenvolvimento social, avanço económico responsável, cuidado ambiental e controle da densidade populacional — modelo que ele chama de crescimento qualitativo, e não meramente quantitativo.

Ao levar ao isolamento e ao fechamento de fábricas, o vírus eliminou mais poluição do que qualquer política pública já colocada em curso pelo homem havia conseguido. Isso mostra o que podemos fazer quando a vida está em jogo, individual e coletivamente — exemplificou.

Capra analisa que alguns países já demonstram aprendizado com o avanço da doença, o que é positivo para a civilização. A Espanha passou a nacionalizar hospitais particulares, como forma de oferecer igualdade de tratamento para ricos e pobres. O Estado americano da Califórnia ampliou a oferta de moradias à população de rua. São movimentos que tanto podem trazer um mundo melhor imediatamente quanto evitar — ou pelo menos adiar — uma nova pandemia.

 A questão é o quanto teremos de sabedoria e vontade política para aplicar em escala global essas lições  provocou.