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sábado, 8 de agosto de 2026

No mundo dos pássaros, as fêmeas têm vidas mais curtas do que os machos. Mas não se sabe bem porquê



A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.
Ao contrário do que, regra geral, acontece nos mamíferos, em que as fêmeas tendem a viver mais do que os machos, no mundo dos pássaros elas têm vidas mais curtas do que eles.

A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.

Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, os cientistas dizem ter percebido que, em média, as fêmeas de 35 espécies apresentam, depois de atingirem a idade adulta, uma taxa de sobrevivência 12,4% inferior à dos machos da mesma espécie.

“O que me pareceu interessante foi o facto de este padrão ser consistente em muitos tipos diferentes de aves, de papa-moscas e toutinegras a cardeais e tanagrídeos”, diz Joanna Wu, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e primeira autora do estudo.

A sobrevivência na vida adulta é fortemente influenciada por fatores como gastos de energia e outros custos biológicos associados à reprodução, ao movimento e à competição por recursos. As migrações exigem muito em termos energéticos e expõem as aves a predadores e ao risco de ferimentos. Quando não estão em viagem, as aves têm de defender o seu território e os seus recursos.

Para as fêmeas, os custos acrescidos associados à produção e postura de ovos são mais um fator de pressão, ainda que o cuidado das crias possa, dependendo das espécies, ser partilhado pelos dois progenitores.

Ao olharem para as várias décadas de dados em mãos, os investigadores perceberam que os machos têm taxas de sobrevivência mais elevadas tanto em espécies migradoras como não migradoras, embora sejam maiores em migradores de longas distâncias. Além disso, percebeu-se que nas espécies com asas mais pontiagudas os machos também tendem a viver mais que as fêmeas, algo que também se constatou em machos com níveis mais altos de gordura corporal.

A equipa reconhece que, além desses aspetos, não conseguiram, para já, encontrar uma explicação clara para as diferenças entre machos e fêmeas no que toca à longevidade. Ainda assim, há algumas hipóteses em cima da mesa, e uma delas tem a ver com a genética.

A hipótese cromossómica
Nos mamíferos, as fêmeas têm duas cópias do mesmo cromossoma sexual - XX - e os machos têm dois cromossomas sexuais diferentes - XY. Como explicam os investigadores, isso significa que se um dos cromossomas tiver algum gene defeituoso, as fêmeas têm um “substituto”, mas os machos não.

Nos machos humanos (ou seja, nos homens), problemas nos cromossomas sexuais e falta de um “plano B” estão associados a uma maior suscetibilidade, por exemplo, a doenças cardíacas e cancro à medida que o avanço da idade faz degenerar o cromossoma Y.

Por isso, há cientistas que consideram haver uma relação entre a longevidade e o par de cromossomas sexuais. Contudo, nas aves esses cromossomas estão invertidos: as fêmeas têm XY e os machos XX.

“Nas aves, ao contrário dos mamíferos, são as fêmeas que transportam dois cromossomas diferentes, enquanto os machos carregam dois do mesmo”, diz Wu. “Isto pode ser mais uma prova que associa o cromossoma sexual a uma menor longevidade nas aves fêmeas, mas essa é uma questão que ainda não investigámos diretamente”, acrescenta.

A investigadora diz que investigações futuras devem também tentar perceber se existe alguma relação entre a reduzida longevidade das aves fêmeas e o declínio acentuado de várias populações de aves que está a ocorrer pelo mundo fora.

“Se as fêmeas se tiverem já reproduzido com sucesso antes de morrerem, o facto de as suas vidas serem mais curtas não faz grande diferença. Mas não sabemos ainda se é esse o caso ou não”, explica.

“Sabemos que a perda de habitat e as alterações climáticas são os principais culpados, mas queremos perceber se esses fatores podem estar a tornar a sobrevivência ainda mais difícil para as fêmeas do que para os machos, num mundo que os humanos estão a transformar rapidamente.”

Foto: Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

França e Espanha tentam sobreviver a um fenómeno que está a atingir o Mediterrâneo e que ainda não chegou a Portugal

Os incêndios que destruíram parte de Vouzela e Alijó nos últimos dias são um exemplo de que é preciso estar atento, mas Portugal vai-se livrando, pelo menos para já, do inferno que está a atingir os países aqui ao lado.

Com a Europa em pânico perante ondas de calor consecutivas, França e Espanha são os melhores exemplos de um verão terrível que está deixar milhares e milhares de pessoas em sobressalto.

Depois de Almería ter vivido o pior incêndio de sempre da Andaluzia, com 13 mortes contabilizadas, mais acima cerca de 20 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas perante os fogos fogos florestais de França.

É uma nova onda de calor vinda do mar que os investigadores não temem apelidar de “dantesca”, com a costa atlântica francesa a ter um impacto particularmente intenso.

Mais abaixo, e não muito longe de Almería, a província de Murcía vai sofrendo com dias constantes acima dos 40 graus. Esta terça-feira foram 44,7 em Cieza, de acordo com a agência de meteorologia de Espanha, a Aemet.

Antes disso tinham sido cidades como Albacete, Ávila ou Teruel a registar temperaturas recorde para julho, com os termómetros a chegarem aos 42 graus. Já nos arredores de Madrid tiveram de ser retiradas mais de três mil pessoas perante o perigoso aproximar das chamas.

De acordo com o Sistema de Monitorização do Mediterrâneo, esta onda de calor está a afetar 80% da superfície do mar que banha o sul da Europa, provocando temperaturas por vezes extremas, algumas delas com anomalias de cinco graus acima do expectável. Portugal, até porque tem a costa já em mar aberto, vai conseguindo escapar a este fenómeno.

Os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apontam mesmo um ano recorde em termos de área ardida nesta altura do ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período registado nas últimas duas décadas.

Em França a situação não é muito diferente. O fogo que começou junto à vila de Saumos, a 40 quilómetros de Bordéus, já queimou 3.700 hectares em pouco mais de 24 horas.

Não há registo de vítimas, mas muitas vidas não voltarão a ser as mesmas, até porque muitas casas foram totalmente consumidas pelas chamas. Nas últimas horas chegaram a estar 800 operacionais apoiados por vários meios aéreos a tentar conter as chamas, mas a situação continua “desfavorável” e longe de estar controlada.

“O fogo está altamente errático e a ganhar força muito significativa”, avisou o chefe do serviço regional de bombeiros, Marc Vermeulen, citado pelo jornal The Guardian.

“Uma das principais frentes está muito próxima de uma área semi-urbana. Estamos a defender casa a casa”, acrescentou.

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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Reno, Danúbio, Elba, Loire. Alguns dos maiores rios da Europa vão secar este verão


Uma vaga de calor prolongada e a ausência persistente de precipitação na Europa estão a deixar os principais cursos de água do continente a níveis criticamente baixos. Rios vitais como o Reno, o Danúbio, o Elba e o Loire estão a registar reduções drásticas no seu caudal, ameaçando a navegação comercial, a geração de energia hidroelétrica e nuclear, a agricultura e os ecossistemas aquáticos.

O Danúbio, o segundo maior rio da Europa depois do Volga, caiu para o nível mais baixo dos últimos 30 anos na Roménia, onde desagua no Mar Negro, segundo a agência governamental Romanian Waters.
De acordo com a agência, o caudal do Danúbio em Baziaș, onde o rio entra no país, desceu para cerca de 1.700 m³ por segundo, pouco mais de um terço da média de julho, que ronda 4.700 m³ por segundo.

A seca deixou longos trechos de areia exposta nas margens junto à fronteira com a Bulgária, com vários serviços de ferry suspensos e barcaças de transporte de cereais paradas, reportou a Reuters. A agência acrescentou que a situação deverá melhorar a partir de 20 de julho, quando se previa chuva em vários condados.

Do outro lado do continente, o outro grande rio europeu, o Reno, também foi afetado pela onda de calor e pela seca. A imprensa europeia notou que o nível da água no ponto crítico de medição em Kaub desceu recentemente para 80–90 centímetros.

O Reno é uma rota de transporte essencial para mercadorias como cereais, minerais, minérios, carvão e produtos petrolíferos, incluindo gasolina. Os baixos níveis do rio têm afetado a navegação, obrigando os navios de carga a navegar parcialmente carregados, o que aumenta significativamente os custos de transporte nos centros industriais europeus.

A Reuters noticiou recentemente que o rio deverá subir ligeiramente após chuvas inesperadas no sul da Alemanha, permitindo que os navios transportem cargas maiores.

Em França, o Loire, com 625 milhas (cerca de 1.005 km), ficou recentemente reduzido a um leito seco com poças isoladas após semanas de calor intenso em Montjean-sur-Loire, segundo relatos da imprensa. O Doubs também secou, evidenciando o agravamento das condições de seca.

Impactos Socioeconómicos e perspetivas
A diminuição dos caudais dos rios afeta não só o comércio e as redes de logística industrial, mas agrava também a crise energética no continente. A escassez de água fria limita a capacidade de refrigeração das centrais nucleares e térmicas, enquanto as albufeiras hidroelétricas operam com reservas mínimas.

Segundo as projeções da Agência Europeia do Ambiente e do Observatório Europeu da Seca, a frequência e a intensidade destes eventos extremos tendem a aumentar devido às alterações climáticas, exigindo reformas urgentes na gestão sustentável dos recursos hídricos na Europa.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Neil Young a tireless righteous contrarian


Letra

Won't need no shadow man 
Runnin' the government 
Won't need no stinkin' WAR 
Won't need no haircut 
Won't need no shoe shine 

[refrão] 3x
After the garden is gone 
 
What will people do? 
After the garden is gone 
What will people say? 
After the garden 

Won't need no strong man 
Walkin' through the night 
To live a weak man's day 
Won't need no purple haze 
Won't need no sunshine

[refrão] 3x
After the garden is gone 

Where will people go?  
After the garden is gone 
What will people know? 
After the garden 

 [refrão] 2x

O videoclipe oficial de "After The Garden", integrado no projeto Living With War de Neil Young, cruza de forma crua o rock de protesto e o ativismo ecológico. Visualmente, o vídeo simula a urgência de um canal de notícias fictício, utilizando a imagem do ex-vice-presidente americano Al Gore e do seu documentário An Inconvenient Truth para expor a crise climática mundial. Os rodapés informativos na tela dividem as atenções entre a contagem de baixas de guerra e os alertas sobre o degelo, traçando um paralelo direto entre a destruição militar e o ecocídio provocado pela ganância industrial. A nível político, o "jardim" surge como uma metáfora óbvia para o planeta Terra e a natureza que a humanidade está prestes a esgotar, terminando com um apelo explícito à ação individual e coletiva, desde o consumo de energias limpas à pressão sobre os governos.

Musicalmente, a faixa assenta num rock de garagem denso e distorcido, onde a aspereza das guitarras traduz a gravidade e a pressa que o tema exige. A voz cética de Neil Young une-se a um coro potente no refrão, transformando a pergunta sobre o destino da humanidade "depois do jardim" num hino coletivo e numa espécie de prece fúnebre pelo planeta. É um rock de intervenção direto, sem artifícios, desenhado para incomodar e mobilizar.

English analysis
He is throwing back 1970 "After the Gold Rush (song)"
Now THIS
"After the Garden" serves as the powerful opening statement for Neil Young’s fiercely political album Living With War. Originally written in 2006 as a blistering critique of the George W. Bush administration and the Iraq War, it has taken on a new life with Young's Living With War 2026 archival project, reframing the music to parallel today's political landscape.

The song acts as a bridge between environmental destruction and the futility of war. Young uses "the garden" to represent pristine nature, Eden, or a peaceful Earth, posing the stark, driving question: "What will people say after the garden is gone?" He immediately follows this warning by asserting that in a devastated world, we "won't need no stinkin' war" because humanity will already be dealing with the fallout of its own survival. He sharply criticizes the public's desire for aggressive, authoritarian leaders, arguing that true strength is built on peace and preservation rather than military dominance or fear-mongering.

Musically, Young describes the track's style as "metal folk protest music." It features gritty, raw garage-rock guitar work and a steady, march-like rhythm that evokes the feeling of a protest movement. A massive, multi-voiced choir echoes his lyrics, giving the song the weight of a communal hymn rather than just a solo rant.

While the core vocal and instrumental performances remain from the original recording, Young remixed the entire project for this 2026 archival release to give it a refocused mix for the present day. In this edition, the 100-voice choir is mixed much higher and given a heavier, more distinct presence in the soundscape. By amplifying the wall of human voices, Young deliberately draws a straight line from his 2006 anti-war sentiments to modern anxieties, suggesting that the fight for the planet and against political division is more urgent than ever.

Fontes:
Neil Young Archives
Living with War (2006)

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alterações climáticas e ignorância, ou pior, agnotologia

Índice de Risco Climático,2025 [fonte]

Estamos a atravessar uma onda de calor. O tema das alterações climáticas está na ordem do dia. Por bons motivos? Depende. Como a ignorância é muita, tropeço a cada passo por esses murais fora numa notícia antiga (1930) em como a temperatura em Lisboa subiu a 38° e numa outra de 1944 também indicava Lisboa com 39º C à sombra. Os "doutores" das redes sociais já decidiram: é tudo uma aldrabice, "verão sempre houve", estão a ver como sempre ocorreram temperaturas altas? E a felicidade desta ignorância "moderna" logo se apoia nas mensagens políticas dos novos arautos da negação científica, das teorias da conspiração e do populismo que se alimenta de desinformação como pão para a boca.

Isso são notícias de Agosto, habitualmente mais quente no Verão e relacionadas com o anticiclone dos Açores. Ora  o Anticiclone dos Açores tem sofrido alterações profundas no seu comportamento e na sua "morada" habitual devido ao aquecimento global. Historicamente, a sua dinâmica sempre oscilou entre as estações: no verão, expande-se e move-se para nordeste, fixando-se mais perto da Península Ibérica e do Golfo da Biscaia, onde funciona como um "escudo" que afasta as tempestades atlânticas para norte e garante dias secos e frentes quentes em Portugal. Já no inverno, contrai-se e recua para sul ou sudoeste, mais perto das latitudes subtropicais e das Caraíbas, abrindo a "porta" para que as frentes chuvosas cheguem à costa ibérica.

No entanto, estudos climatológicos recentes demonstram que, devido às alterações climáticas, este sistema de altas pressões está a expandir-se substancialmente e a cobrir uma área muito maior no Atlântico Norte. Esta expansão faz com que o "escudo" de alta pressão empurre a precipitação de inverno cada vez mais para norte, em direção ao Reino Unido e à Escandinávia, tornando os outonos e invernos na Península Ibérica anormalmente secos e prolongando as dinâmicas de seca crónica. Por outro lado, em períodos específicos de desregulação climática recente, o anticiclone tem sofrido desvios anómalos para sul ou sudoeste, mesmo em épocas em que deveria estar robusto a norte, deixando a Península Ibérica vulnerável a frentes muito cavadas e a rios atmosféricos severos.

Resumindo, embora geograficamente continue a ter o seu centro de ação no Atlântico Norte subtropical - na região que se estende dos Açores até às Bermudas -, a sua área de influência cresceu significativamente. O resultado prático desta transformação é a persistência de secas mais severas e a ocorrência de verões mais propensos a bloqueios atmosféricos, que arrastam o ar quente do Norte de África diretamente para Portugal. 

Relembro também que agora as ondas de calor são cada mais cedo, mais prolongadas, ano atrás de ano. O climatologista e professor Carlos da Câmara tem sido uma das vozes mais contundentes ao analisar a gravidade das recentes ondas de calor de junho, alertando repetidamente que a situação atual é muito pior e muitíssimo mais complicada do que os registos históricos sugeriam para esta época do ano. O especialista enfatiza que o grande perigo destes episódios precoces já não reside apenas nas temperaturas máximas extremas atingidas durante o dia, mas sim no fenómeno das noites tropicais consecutivas, onde os termómetros teimam em não baixar dos trinta graus em algumas regiões. Esta ausência de arrefecimento noturno impede que o corpo humano recupere do esforço térmico diário, gerando um impacto direto e severo na saúde pública e no aumento da mortalidade. Para explicar a frequência destes extremos, Carlos da Câmara recorre frequentemente à metáfora estatística da curva de distribuição do clima, demonstrando que um pequeno desvio na temperatura média global provocado pelas alterações climáticas é suficiente para multiplicar drasticamente a probabilidade de ocorrência de fenómenos que antes eram considerados virtualmente impossíveis. O investigador deixa claro que olhar para estes eventos como mero calor normal de verão é um erro perigoso, sublinhando a urgência de encarar estas dinâmicas como um problema estrutural profundo que exige uma adaptação imediata da sociedade.

O aquecimento é global, existe e a tendência é para uma real crise climática, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo. . A recente agitação política, em meados de Maio, que causou satisfação em setores alinhados com Donald Trump e com a indústria dos combustíveis fósseis deveu-se, na verdade, às intensas batalhas diplomáticas na aprovação do calendário e do âmbito do futuro Sétimo Relatório de Avaliação (AR7). Nestas reuniões, países produtores de petróleo e alas políticas conservadoras pressionam frequentemente para atrasar os prazos de entrega dos estudos ou para suavizar a linguagem nos resumos executivos destinados aos decisores políticos, tentando evitar metas explícitas de eliminação de energias fósseis. Contudo, os cientistas do IPCC sublinham que estas negociações políticas em nada alteram os factos físicos já demonstrados no AR6. Os dados empíricos recolhidos continuam a provar que a temperatura global está a subir de forma acelerada, e as projeções mais severas continuam válidas, independentemente das tentativas de desaceleração diplomática que ocorrem nos bastidores das Nações Unidas. 

Além disso, o consenso científico de que a Terra está a aquecer e que essa mudança é principalmente causada por actividades humanas é esmagador. Este consenso é apoiado por vários estudos de milhares de cientistas em todo o mundo e por declarações de posicionamento de organizações científicas, muitas das quais explicitamente concordam com os relatórios de síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Quase todos os cientistas de clima com obra publicada (97–98%) apoiam o consenso sobre mudança climática antropogénica e os 3% restantes de estudos contrários ou não podem ser replicados ou contêm erros. Um estudo de novembro de 2019 mostrou que o consenso entre cientistas de investigação cresceu para 100%, baseado numa revisão de 11.602 artigos revistos por pares publicados nos primeiros sete meses de 2019! Cf. Powell, James (20.11.2019). «Scientists Reach 100% Consensus on Anthropogenic Global Warming». Bulletin of Science, Technology & Society.
A medida das alterações climáticas não é a olhómetro. São décadas de estudo, observações, medições. E uma onda de calor anual é diferente de duas, três, quatro, cinco, etc. E é diferente um pico máximo de temperatura a cada três ou cinco anos, ou uma frequência mais curta. É a intensidade, frequência e duração dos fenómenos meteorológicos que contam para avaliar as mudanças climáticas. A meteorologia é outra coisa.

A meteorologia é a ciência que estuda o estado da atmosfera e os seus fenómenos no curto prazo (o tempo que está a fazer agora ou que fará nos próximos dias). O clima representa o padrão e a condição média da atmosfera observados ao longo de longos períodos, geralmente entre 10 e 30 anos. Enquanto pessoas comuns falam de meteorologia, cientistas falam de clima.

E convém ter presente! Apesar da forte evidência, o negacionismo climático persiste frequentemente através da desinformação alimentada por grupos com interesses económicos focados em atrasar transições energéticas e políticas de mitigação. Ou seja, há muitos palermas que, inocentemente, vão na conversa para papalvos. À custa disso, outros vão ganhando milhões e batem palmas. Também é sabido que agentes políticos e influenciadores são pagos ao serviço desses interesses económico- financeiros para espalhar desinformação.
Ouçamos a ciência! Não os vendedores de banha da cobra

Saber mais:

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ativista condenada após plantar árvores em Alcochete. "Desproporcional"

Uma ativista do movimento Climáximo foi condenada a uma pena de prisão suspensa de um ano e seis meses, num tribunal militar, no rescaldo de uma "ação simbólica" de plantação de árvores no Campo de Tiro de Alcochete, apontado como o local de construção do novo aeroporto de Lisboa. O coletivo denunciou, na quarta-feira, "que julgar um civil em tribunal militar trata-se de um ato de repressão completamente desproporcional e violento", tendo em conta que a ação decorreu "sem qualquer ocorrências ou violência".

O caso remonta a 23 de maio de 2025, dia em que os ativistas levaram a cabo "uma ação simbólica" nos terrenos do Campo de Tiro de Alcochete, que consistiu na "plantação de sobreiros e exibição de uma faixa com a frase ‘Aeroporto de Alcochete p’ró cacete – Nem aqui, nem em lado nenhum!’, numa clara rejeição à expansão aeroportuária e à política de crescimento das emissões poluentes".

O coletivo assinalou, em comunicado, que "umas pessoas entraram no terreno, colocaram uma faixa, plantaram umas árvores, fizeram um vídeo, e saíram tranquilamente do espaço", sem provocar "qualquer impacto ou dano". Ainda assim, o Ministério Público acusou uma porta-voz da iniciativa, identificada como Bianca Castro, de entrada ou permanência ilegítima, tendo o caso sido tratado "como um crime estritamente militar".

Na quinta-feira, a jovem pronunciou-se nas redes sociais, onde publicou um vídeo em que comparou a sua sentença com outras decisões judiciais, nomeadamente em casos de abuso sexual e prostituição de menores.

"Quero pôr a minha sentença em perspetiva. Um ex-dirigente do Chega foi condenado por prostituição infantil a um ano e três meses de pena suspensa. Três anos e meio de pena suspensa para o polícia que matou Odair Moniz. Pena suspensa de um ano e oito meses para um padre condenado por tentativa de abuso sexual de menor. Um professor foi condenado a três anos de prisão com pena suspensa por abuso sexual de crianças. Eu plantei árvores e [recebi] uma pena mais pesada do que um condenado por prostituição infantil, e quase metade do que apanhou o polícia que matou Odair. Isto é justiça para quem?", questionou.

Várias personalidades demonstraram publicamente o seu apoio à ativista, incluindo nomes como Capicua, Hélio Morais e Diogo Carmona.

Também o Climáximo considerou que "julgar um civil em tribunal militar trata-se de um ato de repressão completamente desproporcional e violento", recordando "que, apesar de o terreno estar a ser tratado como zona militar, estamos a falar de um terreno considerado para uso de aviação civil, sendo atualmente uma ampla área de preservação ambiental que está em risco de destruição com a construção do novo aeroporto".

O grupo sublinhou ainda que a "ação simbólica visava travar a construção deste novo aeroporto e alertar sobre a crise climática, que poucos meses depois [...] já causou um comboio de tempestades que destruiu vários territórios em Portugal e atualmente provoca ondas de calor mortíferas".

"A Bianca foi condenada a uma pena de prisão suspensa de um ano e seis meses, à entrada de um dos verões mais quentes nos registos. A crise climática continua a agravar-se; as políticas públicas negacionistas do clima continuam em curso. O movimento pela justiça climática, pelo mundo inteiro, continua a resistir ao sistema político e económico que leva a Humanidade ao colapso climático", acrescentou.

Na altura, Bianca Castro argumentou que a construção do novo aeroporto era "o equivalente a lançar bombas de carbono na atmosfera", pelo que o protesto representava "uma semente de resistência e perseverança, desafiando a morte e desolação que um novo aeroporto traria".

Este caso levanta importantes questões sobre a utilização de tribunais militares para julgar civis em ações de protesto, e a forma como a justiça portuguesa equilibra as sentenças de crimes ambientais e outros delitos graves, provocando um debate contínuo sobre a proporcionalidade e equidade no sistema judicial. Até onde deve ir o direito ao protesto? A lei deve ser cega ao motivo de uma invasão pacífica?

terça-feira, 23 de junho de 2026

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

domingo, 14 de junho de 2026

The most polluting FIFA world cup ever has begun!

As the Men's 2026 World Cup kicks off, FIFA continues to present itself as a champion of sustainability, "particularly in relation to climate-related aspects."
But the tournament itself tells a different story.
FIFA is one of the most powerful non-state organizations in the world. Football's global governing body has 211 member associations, more than the United Nations has member states, and oversees one of the most watched sporting events on the planet: the FIFA World Cup. Its financial power is enormous, and rapidly growing. During the 2023–2026 cycle FIFA expects approximately $13 billion in revenue, largely driven by the expanded 2026 World Cup. This is almost twice the revenue of the previous cycle.
Countries compete fiercely to host FIFA tournaments and often change laws, spending priorities, and security arrangements to meet FIFA requirements. Academic analyses of FIFA governance note that FIFA has substantial influence over host-country decision-making and negotiations.

Commitment vs reality
So from a climate and environmental perspective, how is FIFA using all this power? On its website, the organization says it is "committed to enabling sustainable development, particularly in relation to climate-related aspects."
Sounds promising. But how is this commitment playing out in reality?
Let’s look at some stats and research.
According to researchers at the University of Manchester, the 2026 World Cup could become the most polluting in the tournament's history. FIFA has expanded the competition to 48 teams and 104 matches, spread across 16 host cities in three countries spanning an entire continent.
Even before the knockout rounds, some supporters are being pushed into multi-thousand-kilometre itineraries by FIFA’s continent-wide format.
If you, for instance, want to follow Bosnia and Herzegovina in the group stage, the first game is in Toronto; the second in Los Angeles and the third in Seattle. A total distance of more than 5,000 km. Most of these trips will be done by air travel.

Extreme heat
Climate and health are interconnected, and the FIFA World Cup is no exception.
Researchers from Queen's University Belfast have warned that the 2026 World Cup could become one of the hottest ever staged. Their analysis found that 14 of the tournament's 16 venues exceed safety thresholds associated with extreme heat, flooding or heavy rainfall. The researchers warned that dangerous heat conditions could pose serious risks to players, officials and supporters.
The hotter conditions could also affect the individual game. Climate Central has just released an information hub where you can explore how heat could slow down player performance across all of the 2026 World Cup matches — and how climate change is increasing the odds of heat.
As an example, the Japan-Sweden game, to be played in Dallas Stadium on June 24, has a 98% change of performance-imparing heat.
The irony is difficult to ignore. Football's biggest event is helping drive the climate crisis while simultaneously becoming increasingly vulnerable to its consequences.
The host nation amplifies the contradiction. Since the return of the Trump administration, the United States has (again) withdrawn from the Paris Agreement and accelerated support for fossil fuel development while cutting climate research and support for renewable energy. The country hosting the world's largest sporting event is moving in the opposite direction of what climate scientists say is necessary to avoid the worst impacts of global warming.

An oily deal
FIFA's commercial partnerships raise even more questions. In 2024, FIFA signed a four-year partnership agreement with Saudi Aramco, one of the world's largest oil companies and among the biggest corporate contributors to greenhouse gas emissions. Just a few weeks before the agreement was signed, Saudi Aramco's CEO Amin Nasser said the current energy transition strategy is failing, and that the world should abandon ”the fantasy” of phasing out oil.
Research from Scientists for Global Responsibility (SGR) indicates that FIFA’s sponsorship deal with Aramco, the Saudi state-owned oil company, could induce an additional 30 million tonnes of CO2e in 2026 alone.
Climate campaigners condemned the deal as a clear example of sportswashing, arguing that football's global popularity is being used to improve the image of an industry at the heart of the climate crisis.
“FIFA has made elite men’s football the primary target of Petrostate sportswashing. This World Cup, with the ridiculous Trump Peace Prize and having Saudi Aramco, the world’s largest polluter, as its main sponsor, reaches new levels”, said Dr Oscar Berglund, Senior Lecturer in International Public and Social Policy at the University of Bristol, and one of the researchers behind the "Football and Climate Change" study.
And the relationship between FIFA and the fossil fuel industry is only set to deepen. The previous Men’s World Cup was held in Qatar, and in 2034, it will be hosted by Saudi Arabia, a country that has repeatedly been obstructing progress at the annual United Nations Climate conferences while continuing to expand oil production.
Taken together, these decisions paint a troubling picture. FIFA speaks the language of sustainability while embracing business models, sponsors and tournament formats that push emissions in the opposite direction.
In the long run, this will affect the sport as well. In a hotter world, extreme weather events will be more frequent, more fierce, and harder to predict.
In fact, this is evident already today.´

Pitches under water
Across Great Britain, an increasing number of matches are being cancelled because of extreme weather, particularly flooding. According to reporting by the BBC, clubs at all levels of the game are struggling to adapt to more frequent and severe weather events. And this is only the beginning. The UK's Met Office projects that, under a high-emissions scenario, winters could become up to 30% wetter by 2070.
Football is often described as the world's game and a uniting force. It has a unique ability to influence billions of people and billions of dollars. FIFA could use that influence to accelerate climate action, reduce emissions and distance itself from fossil fuel interests.
Instead, the organization is preparing to launch a tournament that may become a symbol of the opposite: a World Cup played in increasingly dangerous heat, sponsored by one of the world's largest oil companies, hosted across a continent in a format that researchers warn could be the most polluting ever.
The games are about to begin.
The climate bill will arrive later.

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