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domingo, 27 de setembro de 2026

Bonjr - if it's real, then i'll stay

If it’s real, then I’ll stay, da autoria do produtor bonjr (nome artístico do músico angolano Daniel Almeida), insere-se na interseção de géneros como o Wave, o Ambient Chill e o Downtempo. A sonoridade da faixa distingue-se pelas suas texturas imersivas, pads profundos, graves ressonantes e por um vocal grave e sussurrado que transmite uma sensação imediata de vulnerabilidade. Curiosamente, essa linha vocal foi gravada pelo próprio artista de forma caseira e improvisada apenas como uma guia temporária, mas a sua textura crua e intimista acabou por definir a identidade estética e emocional da canção. 

A beleza do tema reside na forma como evoca a melancolia e a introspeção através do minimalismo, onde o próprio título encerra em si um dilema existencial profundamente marcado pela modernidade líquida de Zygmunt Bauman, em que a volatilidade das ligações humanas gera um medo constante da desilusão. A condicional que dá nome à música («se for real, então eu fico») funciona como um mecanismo de defesa emocional: o indivíduo recusa-se a investir a sua presença, a sua energia e o seu afeto num espaço ou numa relação que se possa revelar uma mera ilusão ou um encontro efémero. 

Filosoficamente, esta premissa remete para a hesitação ontológica diante do que é ilusório, dialogando com a dúvida metódica de René Descartes e com os simulacros de Jean Baudrillard, ao mesmo tempo que retrata o momento anterior ao "salto de fé" de Søren Kierkegaard - o instante em que o sujeito hesita perante o risco do vazio. Literariamente, esta atmosfera aproxima-se do conceito de liminalidade, colocando o ouvinte num espaço intermédio e suspenso entre a partida e a permanência, onde é convidado a contemplar a autenticidade da sua própria realidade.


Página Oficial
Bonjr Music
Youtube

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Felsmann + Tiley - Open Fields (feat. The Kite String Tangle)


Letra
[Verse]
I feel you close, I could hold you
But the walls are cold, I could fall through
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus]
Mmh oh, oh, oh, oh

[Verse]
I feel you close, I could touch you
But the air is cold all around you
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus] 2X

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be worlds apart, but I’ll see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just light intertwined (mmh oh, oh, oh, oh)

Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be lighting up when I see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just you and I (mmh oh, oh, oh, oh)

[Post-Chorus]

Open Fields de Felsmann + Tiley: estilo, significado e influências filosóficas
A canção "Open Fields", lançada em 2025 pelo duo alemão Felsmann + Tiley em colaboração com o artista australiano The Kite String Tangle (Danny Harley), aborda temas como a distância, a desconexão física e a presença emocional. A letra estabelece um contraste marcante entre o frio da separação física e o calor de uma ligação afetiva persistente, sugerindo que os chamados "campos abertos" representam um espaço metafórico ou pós-físico no qual a intimidade prevalece sobre a distância espacial.

No que respeita ao estilo musical, o tema enquadra-se na música eletrónica neoclássica e no ambient pop de cariz cinematográfico. Fiel à identidade estética de Felsmann + Tiley, a composição prescinde de percussão e bateria tradicionais, construindo a sua tensão dinâmica e carga emocional através da modulação de sintetizadores, de camadas harmónicas e do desempenho vocal intimista.

Do ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a narrativa da canção evoca o conceito de espaço liminar e a noção de "não-lugar", proposta pelo antropólogo Marc Augé, apresentando os campos abertos como zonas de transição onde as barreiras físicas se diluem em prol da memória. Adicionalmente, a obra reflete o dualismo corpo-mente de matriz cartesiana e fenomenológica - ao explorar como a perceção e o afeto transcendem os limites do corpo -, mantendo igualmente pontos de contacto com a tradição romântica, na qual a paisagem natural serve de espelho e extensão dos estados emocionais humanos.

terça-feira, 7 de julho de 2026

A rutura espinosana com o teísmo judaico-cristão e a defesa da liberdade de consciência


O texto aborda a profunda rutura filosófica de Baruch de Espinosa com o teísmo judaico-cristão tradicional, contrastando a sua visão com a de Blaise Pascal. Enquanto Pascal defendia o Deus da fé, da revelação e das Escrituras - o "Deus de Abraão, Isaac e Jacob"-, Espinosa propôs uma desconstrução radical desse modelo antropomórfico (que atribui características humanas a Deus).

Segundo Espinosa, a superstição e o medo são utilizados pelas religiões tradicionais para instituir uma "interdição do pensar", transformando a fé em obediência cega e servindo como ferramenta de controlo político e social. Em contrapartida, o filósofo introduz o conceito de Deus sive Natura ("Deus ou a Natureza"), defendendo que Deus não é um monarca transcendente que julga ou faz milagres, mas sim a própria substância única, infinita e imanente do universo, que opera segundo leis racionais e necessárias.

O ensaio sublinha que, ao destronar o Deus punitivo e providencial, Espinosa liberta a razão humana das amarras do medo, transformando o conhecimento e o "amor intelectual a Deus" na verdadeira via para a liberdade. Adicionalmente, o seu pensamento surge como uma defesa pioneira e intransigente do Estado laico, da democracia e da liberdade de consciência e de expressão.

Podes ler o ensaio completo na sua plataforma de publicação original através da seguinte ligação:

sexta-feira, 15 de maio de 2020

"As Vidas dos Animais" de John Coetzee

Publicada originalmente em 1999, a obra "A Vida dos Animais" (The Lives of Animals) afirma-se como um dos textos mais singulares e influentes de J.M. Coetzee, tendo surgido a partir das Tanner Lectures on Human Values que o autor proferiu na Universidade de Princeton entre 1997 e 1998. Em vez de seguir o formato de um ensaio académico tradicional, Coetzee optou pela estratégia da metaficção, criando a personagem Elizabeth Costello, uma romancista idosa que, ao ser convidada para dar uma palestra, utiliza esse espaço para proferir um discurso visceral e perturbador sobre o tratamento humano dado aos animais. Esta estrutura permite a Coetzee utilizar a literatura para testar os limites da razão, com Costello a argumentar que a filosofia ocidental padece de uma obsessão pela "razão" como único critério de valor, o que serve apenas para excluir os animais da esfera de consideração moral. Em alternativa, a personagem propõe a comiseração — a capacidade profunda de sentir o que o outro sente — como base ética. O ponto mais polémico desta análise surge na analogia do Holocausto, onde Costello compara os matadouros modernos ao extermínio nazi, sugerindo que a humanidade vive num estado de negação coletiva semelhante ao dos cidadãos que ignoravam a existência dos campos de concentração ao seu redor.

A obra promove um verdadeiro embate com a tradição filosófica ao incluir respostas reais de académicos, gerando um diálogo interdisciplinar de grande fôlego. Entre os intervenientes destaca-se Peter Singer, filósofo de ética utilitarista e autor de Libertação Animal, que responde através de um conto onde debate se a base para os direitos deve ser a razão ou a capacidade de sofrer, focando-se nos interesses, enquanto a visão de Costello se centra na experiência subjetiva. Embora não esteja diretamente presente no livro, o pensamento de Tom Regan também ressoa na narrativa ao defender que os animais são "sujeitos-de-uma-vida", possuindo um valor inerente que transcende a utilidade humana. Esta crítica estende-se às perspetivas da biologia e da etologia, com Costello a atacar a ciência que reduz os animais a objetos de estudo mecânicos. Sobre este ponto, o primatologista Frans de Waal contribui com um comentário argumentando que a moralidade e a empatia têm raízes evolutivas profundas e não são exclusivas da nossa espécie, ideia reforçada pela frequente citação de Jane Goodall, que desafia o antropocentrismo radical ao demonstrar que os animais possuem personalidades e emoções complexas.

No âmago da obra reside a tese da falha da linguagem humana, considerada insuficiente para capturar a essência da existência animal. Coetzee sugere que apenas através da imaginação poética, e não da lógica silogística, podemos aspirar a compreender o "ser" de um animal. Nesta jornada intelectual, surgem referências fundamentais como René Descartes, alvo central das críticas de Costello por ter definido os animais como "autómatos" desprovidos de consciência, e a filósofa moral Mary Midgley, que defendeu deveres mistos para com a comunidade biológica. A obra evoca ainda Jeremy Bentham, o precursor do utilitarismo que famosamente instigou a humanidade a perguntar não se os animais podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer. Em conclusão, "A Vida dos Animais" transcende o debate sobre o vegetarianismo para se tornar uma exploração profunda sobre a solidão da consciência humana e a nossa dificuldade em reconhecer a alteridade radical, obrigando o leitor a confrontar o "crime silencioso" que sustenta os pilares da nossa civilização.

Saber mais:
J.M. Coetzee and Elizabeth Costello: Landscapes and Animals

Mirror neurons and literature: Empathy and the sympathetic imagination in the Fiction of J.M. Coetzee