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sábado, 22 de agosto de 2026

Death Cab for Cutie - You Are A Tourist

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A deriva existencial num mundo de espetadores: Uma Análise a "You Are A Tourist"
Lançada em 2011 como o single de avanço do sétimo álbum dos Death Cab for Cutie, Codes and Keys, "You Are A Tourist" é uma das composições mais emblemáticas do rock alternativo e indie norte-americano do início do século XXI. Por trás de uma linha de baixo vibrante, guitarras pontuadas por um pulsar quase hipnótico e uma melodia contagiante, esconde-se uma reflexão profunda sobre a condição humana na contemporaneidade.

No seu cerne, a canção explora a metáfora do "turista" para criticar a passividade, o conformismo e a desconexão emocional. Um turista é, por definição, alguém que atravessa um território sem nele criar raízes: observa a realidade através de uma lente superficial, consome paisagens e parte sem se deixar transformar. Ben Gibbard utiliza esta imagem para confrontar o ouvinte com a sua própria vida. Estaremos verdadeiramente a viver com propósito, ou limitamo-nos a ser visitantes temporários e distantes da nossa própria existência? Frases como "If there's no burning in your output, then you're missing the fire" servem como um apelo direto para que se abandone a segurança da zona de conforto e se recupere a paixão genuína pelas escolhas que fazemos.

Esta dimensão filosófica encontra um eco límpido nas correntes do Existencialismo. A lírica de Gibbard ressoa com as ideias de Jean-Paul Sartre e Albert Camus sobre a "má-fé" e a necessidade imperativa de viver com autenticidade. Em vez de nos deixarmos levar pelo piloto automático ou pelas expetativas alheias, a canção exige que assumamos a responsabilidade pela criação do nosso próprio destino. Paralelamente, sente-se a influência da literatura Beat - nomeadamente de Jack Kerouac, uma referência constante na escrita do vocalista -, onde a viagem deixa de ser um mero deslocamento físico para se tornar numa demanda espiritual e interior.

É precisamente por essa razão que o videoclipe oficial, realizado por Aaron Stewart-Ahn com direção de arte de Tim Nackashi, recusa liminarmente mostrar monumentos ou cenários turísticos literais. O "turismo" aqui retratado é estritamente psicológico e emocional. Historicamente marcante por ter sido o primeiro videoclipe na história da música a ser gravado e transmitido totalmente ao vivo na internet - numa única tomada sem cortes -, o vídeo recorre à dança contemporânea, a jogos de luzes e a projeções geométricas. As bailarinas que rodeiam a banda e os seus movimentos fluidos corporizam os pensamentos, as distrações e as rotas mentais que nos desviam da nossa essência. A ausência de cenários exteriores reforça a mensagem central: o verdadeiro labirinto a superar e o território a explorar não estão no mapa, mas sim dentro de nós.

Página Oficial
Death Cab for Cutie

Biografia, discografia e muito mais aqui

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crise de memória RAM? A China está a adorar!


Por Nuno Miguel Oliveira
Como já disse várias vezes, a crise de memória RAM não é inocente. As 3 grandes fabricantes sofreram com excesso de stock durante algum tempo (o que resultou em margens mais curtas), e como tal, decidiram cortar na produção. Também decidiram cancelar planos para o desenvolvimento de novas linhas de produção. Tudo isso resultou na “crise” que agora se vive.

Mas, essa estratégia pode muito bem vir a resultar em algo extremamente curioso. As 3 grandes fabricantes (Samsung, Micron e SK Hynix), estão agora a ver um quarto concorrente a crescer de forma… Avassaladora. Dentro em breve, vamos ver um Big 4 e não um Big 3.

Pois é! O mundo não vive só de crises.
CXMT cresce 716% num ano e a China avança sem travões para esmagar o cartel da memória!

Quem pensava que as sanções dos Estados Unidos e as restrições de tecnologia iam matar a indústria de semicondutores na China pode começar a comer o pequeno-almoço, visto que está prestes a começar um novo dia.

A gigante chinesa de memórias CXMT não só sobreviveu, como se transformou na fabricante de DRAM com o crescimento mais rápido do planeta no segundo trimestre de 2026. De facto, os dados da Counterpoint Research mostram um disparo de receitas verdadeiramente de loucos: uns inacreditáveis 716% de aumento em comparação com o ano passado. É a China a mostrar que não precisa de pedir licença ao Ocidente para fazer chips de topo.

Assim, enquanto a Samsung tenta segurar a liderança do mercado com 39% de quota e a SK Hynix e a Micron andam à pancada pelo segundo lugar, a CXMT corre por fora e já ameaça entrar no clube.

Até a Apple quer estes chips!
Não vamos ser anjinhos e dizer que a China anda a vender chips mais baratos. Toda a gente gosta de dinheiro, e os chineses não são diferentes. De facto, os chips de memória da CXMT ainda não estão ao nível das outras 3 grandes fabricantes.

Mas, não estão muito longe, e apesar de caros, têm uma grande vantagem… Há stock!

E talvez mais importante que isto, a fabricante anda a aproveitar a onda para investir muito (e bem) no futuro. Afinal, ao contrário da SMIC, que ainda luta para ultrapassar certas barreiras na produção de processadores, a CXMT já está a produzir memórias de última geração e a fazer progressos sérios nos chips LPDDR6.

O motor deste crescimento avassalador assentou numa procura interna brutal na China e numa expansão agressiva das suas fábricas, financiada após a entrada na bolsa no início do ano. Aliás, a empresa já está a construir uma nova megafábrica em Pequim para produzir ainda mais.

E a ironia da história atinge o auge aqui! Até a própria Apple está a tentar fechar contratos com a CXMT para garantir o fornecimento de chips de memória para os seus equipamentos. Numa altura em que a crise da memória para a Inteligência Artificial encareceu tudo e forçou os americanos a subirem os preços dos seus produtos, Tim Cook bate à porta de Pequim a pedir socorro para não ficar sem stock.

A questão já não é “se”, é “quando”
A memória RAM e o armazenamento de alta velocidade são a espinha dorsal de tudo o que mexe na tecnologia moderna, desde os aceleradores de IA até ao smartphone que trazemos no bolso. Durante anos, Samsung, SK Hynix e Micron geriram o mercado quase a seu bel-prazer, ditando preços e volumes de produção.

A chegada da CXMT com apoio estatal, capacidade fabril massiva e preços competitivos vai virar o jogo ao contrário.

Curioso não é?

terça-feira, 9 de junho de 2026

Suave Punk - Dreams of Losing Teeth


Letra
Desperately I woke up last night
To my dreams of losing teeth
Got up this morning with tears in bed

I had a dream of when you said
I'll always be in your corner
Well, you know I'll do the same for you

As you turned away, my jaw gave into agony
Tearing roots through apathy
What the fuck happened to me?
We're caught up in this circumstance

It hurts to love with disconnect
I don't want to let you go
As new cuspids start to grow

Desperately I woke up last night
To my dreams of losing teeth
What it means I don't know
But sorry I don't have the lifetime warranty

Desperately I woke up last night
To my dreams of losing teeth
What it means I don't know
But sorry I don't have the lifetime warranty
Trying to find myself
I'll be in your corner

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Video original

Significado da canção e relação com o filme "Negócio arriscado"
A canção "Dreams of Losing Teeth", do projeto norte-americano Suave Punk, liderado por Justin Kim, carrega um significado profundamente enraizado na ansiedade, na vulnerabilidade e nas transições da juventude. O tema nasceu de uma experiência literal, um pesadelo real e muito vívido que o músico teve no final de 2020, onde o foco principal não era tanto o enredo do sonho, mas sim o desconforto sensorial e a sensação angustiante das raízes dos dentes a quebrarem. Na psicologia, sonhar que os dentes estão a cair é um dos arquétipos mais comuns e está universalmente ligado à perda de controlo, à impotência perante as mudanças da vida e à insegurança. Para Justin Kim, que na altura frequentava o seu primeiro ano de faculdade e lidava com sentimentos de isolamento e crises de identidade devido às suas raízes multiculturais, a música tornou-se uma forma de traduzir essa névoa mental e o medo do futuro numa densa parede de som shoegaze.

Embora o teledisco que partilhou seja uma edição não-oficial feita por um fã (do canal Kash Cuts), a escolha das imagens do filme "Risky Business" (1983), protagonizado por Tom Cruise, cria uma simbiose perfeita com a mensagem da canção. O filme retrata a história de Joel, um jovem pressionado pelas expectativas da família e da sociedade que, ao ver-se sozinho em casa, perde completamente o controlo da sua vida organizada numa espiral de decisões caóticas e perigosas. Esta perda de controlo e a imensa ansiedade juvenil do protagonista espelham na perfeição o significado metafórico de perder os dentes. Além disso, a estética visual do filme, marcada por viagens de comboio na penumbra, luzes de néon e a melancolia da noite urbana de Chicago, casa idealmente com a sonoridade dreampop e nostálgica do Suave Punk. Como o próprio Justin Kim é estudante de cinema e foca a sua música na criação de vinhetas visuais e texturas emocionais, a colagem destas imagens cinematográficas dos anos 80 funciona como uma extensão natural e poética da própria canção.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Desarmar a inteligência artificial, a mensagem do Papa ponto por ponto


Da ordenação de um robô-monge na Coreia à nova encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV junta-se a cientistas para lançar um aviso urgente: a IA e a Realpolitik ameaçam a nossa essência. O Pontífice exige reformas éticas globais para que permaneçamos, simplesmente, humanos

Conhece o robô de 130 cm chamado Gabi que foi, recentemente, ordenado monge num templo na Coreia do Sul? Se não conhece, faz mal, mas pode conhecê-lo através deste link. Este robô humanoide, recém-nascido (data de fabricação: 03.03.2026), recebeu há poucas semanas um colar de 108 contas de oração no templo sul-coreano de Jogyesa. Esta é, segundo a ordem de Jogye, a maior denominação budista da Coreia, uma tentativa de travar a falta de participação religiosa e de interesse pelo templo, em especial por parte da população mais jovem.

De facto, nada grita mais que o mundo está a mudar, se é que ainda era preciso gritá-lo, do que a ordenação de um robô-monge. Há 135 anos, a Igreja Católica pressentiu o mesmo, quando o Papa Leão XIII publicou a Carta Encíclica Rerum Novarum (‘Das Coisas Novas’), demonstrando a sua preocupação com a questão operária da época, ou seja, um clamor de ação para recuperar operários que pareciam cada vez mais distantes da Igreja.

Ora, se nos finais do século XIX a preocupação era com a possível perda de um grupo populacional das sociedades europeias modernas, agora, com o Papa Leão XIV, a preocupação é com a possível perda de toda a humanidade. A apresentação pública da encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA (link), pelo próprio Papa – algo bastante incomum – ao lado de especialistas em IA, como o autodeclarado ateu e cofundador da Anthropic, Chris Olah – algo ainda mais incomum – é uma demonstração da aceleração dos nossos tempos. Ou, como escreve o Papa Leão XIV, é uma forma de “sabedoria para interpretar as tendências do nosso tempo”. Em especial, a fuga do poder do monopólio dos Estados e a sua dispersão por sujeitos privados e transnacionais, com mais poder do que os próprios sistemas estatais e mais distantes de qualquer lógica de bem comum.

Leio esta encíclica em quatro eixos gerais.
Teologicamente, a IA desafia a dignidade ontológica – aquela que pertence a cada ser humano simplesmente porque existe, foi desejado, criado e amado por Deus. Pelo contrário, a era da IA acelera os processos e sonhos de autossuficiência e autoaperfeiçoamento infalível, desligando-os dos próprios sentidos de religação e comunhão. A IA conduz-nos para nós mesmos, tentando alcançar a plenitude ou a autossuficiência excluindo o Criador ou tentando corrigir a fragilidade que faz parte da condição humana.

Ao nível da política internacional, o Papa Leão XIV já havia manifestado a sua visão do mundo, em particular a Donald Trump. Na encíclica, essa visão torna-se mais clara. Denuncia a cultura do poder, “feita de polarizações e violências”, que normaliza a guerra; dispara os “imperialismos” e “potências que desejam conservar a sua supremacia e potências que aspiram a conquistá-la”; desconfia da corrida tecnológica a armas “cada vez mais poderosas”, “desumanizantes” e que “parecem não conhecer limites”. Sobre o recente entusiasmo pela realpolitik, é claro: é “irresponsável”, pois coloca-nos num estado resignado que aceita a guerra como inevitável, desqualificando sistematicamente a paz e o diálogo. A guerra, como instrumento reabilitado de política internacional, é assim criticada, reconhecendo-se, neste contexto, a “crise do multilateralismo” e as fragilidades das Nações Unidas. Para o Papa, são necessárias “reformas profundas” e não apenas “ajustes técnicos”, indo ao núcleo dos fundamentos éticos das nações, orientando o “multilateralismo para o verdadeiro bem comum”.

Relativamente à guerra, mais especificamente no que toca à teoria da “guerra justa”, há uma viragem: considera oficialmente superada a sua teoria clássica, reduzindo o uso das armas à legítima defesa. Além disso, no quadro da dimensão mediática e digital, denuncia que os conflitos atuais são culturalmente preparados e normalizados no ambiente digital através de narrativas maniqueístas, desinformação e medo, sendo amplificados por algoritmos concebidos para privilegiar o confronto. Neste campo, apela à memória histórica e critica a ilusão de uma guerra tecnológica “limpa” ou “inevitável”, reafirmando que o recurso à força é sempre um sinal de pobreza relacional com efeitos desastrosos para os civis. Insta, assim, a humanidade a ativar as suas ferramentas mais eficazes de promoção da vida: o diálogo, a diplomacia e o perdão.

Por fim, sobre os desafios atuais da IA, a encíclica não defende uma posição ludita; pelo contrário, reconhece o seu valor potencial. Todavia, alerta que ela não é eticamente neutra, refletindo a visão eficiente, uniformizadora e reducionista de quem a concebe, financia, regula e utiliza. Aqui, o Papa alerta-nos para o risco da síndrome de Babel: “a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital” que desumaniza. A encíclica apela a que se desarme a IA, que se quebre a equivalência entre poder técnico e direito de governar; ou seja, que sejam retirados os monopólios, tornando-a um bem comum, habitável e plural. Isto só é possível com o cultivo de um “saudável realismo” onde, segundo Leão XIV, a técnica é acolhida, mas enquadrada por valores éticos e espirituais.

A mensagem desta encíclica parece clara: permanecer humanos. O que, em si mesmo, diz muito do mundo em que vivemos – humanos a dizerem a humanos para se manterem humanos. Num mundo dominado pela técnica, o verdadeiro progresso mede-se pelo cuidado e pela relação, não pelo poder. O modelo é o de Neemias que reconstruiu Jerusalém “tijolo por tijolo” através da oração, planeamento e trabalho conjunto. O legado que o Papa quer construir é uma “civilização do amor” – por oposição à cultura do poder, do descartável, do desencontro, do imediato e da hiperestimulação –, um projeto social e político que coloca o amor, a fraternidade e a justiça como princípios organizadores da sociedade. Este amor deve traduzir-se em “estruturas de justiça”, dando corpo institucional à fraternidade, combatendo as desigualdades causadas pela tecnologia e tornando o “outro” um aliado necessário na construção do bem comum.

terça-feira, 7 de abril de 2026

SASAMI - Pacify My Heart


A artista SASAMI (nome artístico de Sasami Ashworth) é de nacionalidade norte-americana, nascida em Bronxville, Nova York,1990 e radicada em Los Angeles. Ela possui ascendência coreana (família Zainichi) e japonesa.

Pacify My Heart (e o álbum de estreia): Esta música específica pertence ao seu primeiro álbum homónimo (SASAMI, 2019)

[Verse 1]
Sometimes I wish I never met you (3X)
Because I don't have enough

[Chorus 1]
When you quantify my love
You may find it's not enough
But that's okay with me
Another day I'll see it through
I'll see it through

[Verse 2]
Some days I wish I could forget you (3X)
Because you don't have it all

[Chorus 2]
When you pacify my heart
I forget why it was hard
But that's okay with me
Another day I'll see it through
I'll see it through

A canção "Pacify My Heart", lançada pela norte-americana SASAMI em 2019, é uma composição densa que mergulha nas complexidades do luto afetivo e da exaustão emocional. A letra inicia com uma confissão amarga de arrependimento, onde a artista expressa o desejo de nunca ter conhecido a pessoa em questão, estabelecendo de imediato um tom de desilusão. O significado central da faixa repousa no conflito entre a razão, que reconhece a toxicidade de um relacionamento passado, e o coração, que ainda se encontra num estado de agitação e sofrimento. O título funciona como um apelo desesperado por tranquilidade e silêncio interno, uma tentativa de "pacificar" o turbilhão de memórias que persistem mesmo após o fim da união.

Musicalmente, a estrutura da canção reforça esse sentimento de sufocamento e eventual libertação. O que começa como uma balada de indie rock contida e atmosférica evolui para um final instrumental longo e carregado de distorção shoegaze. Esse encerramento não é meramente estético; ele simboliza a catarse emocional, onde o ruído das guitarras substitui as palavras que já não são suficientes para expressar a dor e a frustração. Ao transformar o sentimento em som puro, SASAMI consegue transmitir a sensação de um colapso interno, tornando "Pacify My Heart" uma exploração visceral sobre como o desapego é, muitas vezes, um processo barulhento e violento dentro de nós mesmos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Richard Thorn


Richard Thorn (pintor/aquarelista Britânico, nascido em 1952)

Richard Thorn é um artista fundamentalmente pintor em aquarela, embora também trabalhe com acrílica, gouache e tintas aquosas, explorando a luz, a textura e a sensação de espaço nas suas composições. 

Técnica
A técnica de Richard Thorn caracteriza-se por:
  1. Aquarela como meio principal, usando também gouache, acrílico diluído e técnicas mistas.
  2. Lavagens amplas e transparentes, aplicadas em camadas, para construir atmosfera e profundidade.
  3. Uso frequente de pincel seco, raspagem e remoção de tinta para criar texturas naturais (vegetação, rocha, nuvens).
  4. Controlo da luz como elemento central: muitas obras são estruturadas a partir de contrastes subtis entre luz e sombra.
  5. Composição simplificada, evitando excesso de detalhe e focando-se na sensação do lugar, mais do que na descrição literal.
  6. Trabalho cuidadoso com valores tonais, frequentemente partindo de tons neutros e deixando a cor surgir de forma contida.
Em síntese, a técnica de Thorn privilegia a expressividade da aquarela, a economia de meios e a criação de paisagens atmosféricas e evocativas, próximas de uma abordagem impressionista contemporânea.

Estilo
A sua obra é frequentemente descrita como paisagística e inspirada pela natureza, captando as atmosferas do campo, da costa e da paisagem rural — especialmente no sudoeste da Inglaterra. 

Thorn busca retratar não apenas a imagem visual mas a “alma da cena” que pinta, com grande interesse pelo jogo de luz e a sensação de distância. 

Tem influências de impressionistas franceses e mestres ingleses da aquarela, como William Turner e John Cotman, bem como artistas americanos como Andrew Wyeth e Winslow Homer, que se refletem na sua sensibilidade à cor e atmosfera. 

Reconhecimento:
Robert foi premiado duas vezes com o Best Watercolour nas exposições abertas do Royal Institute of Painters in Water Colours — uma organização de prestígio para aquarelistas — e tem sido exposto internacionalmente (Inglaterra, Europa, EUA e China).

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Chen-Wen Cheng


Chen-Wen Cheng (aquarelista de Taiwan, nascido em 1964) - "Follow you", 2024   
O seu estilo é reconhecido por uma abordagem delicada e detalhada na pintura, com foco em capturar a essência das paisagens, da natureza e da vida quotidiana. Ele é amplamente admirado pelas suas habilidades técnicas excepcionais e pela capacidade de usar a aquarela de maneira inovadora, misturando realismo com toques de abstracção.
A obra de Chen-Wen Cheng costuma ser caracterizada pela fusão entre a precisão dos detalhes e uma sensibilidade expressiva, que são típicas da aquarela. Ele também utiliza um processo gradual de camadas finas de tinta, o que permite que a obra ganhe profundidade e luminosidade.
Além de ser um artista respeitado, Chen-Wen Cheng também é um professor e contribui activamente para a promoção e ensino da técnica de aquarela. Ele é frequentemente convidado para exposições internacionais e workshops, onde compartilha o seu conhecimento com outros artistas.
Prémios e reconhecimento
Chen-Wen Cheng conquistou vários prémios e reconhecimentos, entre os quais: Golden Prize (Medalha de Ouro) no World Watercolor Competition (França, 2014) pela obra “Loving Mother”. 
Prémios em várias exposições importantes em Taiwan. Espólio do autor encontra-se em alguns importantes museus de Arte (Nova Iorque, México, Seul,etc.)

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Brasil é um dos países que mais temem a IA


Estudo realizado em 25 países mostra que apenas 16% das pessoas estão mais animadas do que preocupadas com a IA

Só 16% das pessoas se consideram mais animadas do que preocupadas com os avanços da inteligência artificial no dia a dia, mostra um novo estudo global do Pew Research Center divulgado nesta quarta-feira (15). Realizada em 25 países, entre eles o Brasil, a pesquisa mostra que 34% consideram a preocupação maior, enquanto 42% relatam níveis iguais de angústia e otimismo com a nova tecnologia.

O Pew Research Center, um dos principais institutos de pesquisa do mundo, entrevistou quase 9.000 pessoas nos Estados Unidos e quase 30 mil em outros países, em todos os continentes.

O Brasil está em quarto lugar entre os países com maior nível de preocupação com os efeitos IA (47% dos entrevistados), depois de Estados Unidos (50%), Itália (50%) e Austrália (49%).

Ao mesmo tempo, 37% dos brasileiros consideram ter preocupação e animação quanto à IA em níveis iguais, e 10% estão mais animados do que preocupados.

A Coreia do Sul (16%) e a Índia (19%) são onde a angústia com a nova tecnologia é menor. Em lugar nenhum, contudo, aqueles que dizem estar animados com a IA passam de 3 em cada 10.

O Pew Research Center também indagou os entrevistados se eles confiam nos governos de seus países para regular a inteligência artificial -e também se confiam na União Europeia, nos Estados Unidos e na China para fazer isso.

A maioria diz confiar muito no próprio país (55%) e na União Europeia (53%) nessa seara. Os números caem quando o questionamento é sobre Estados Unidos (37%) e China (27%); nesses dois casos, a maioria diz confiar pouco ou nada nos americanos (48%) e nos chineses (67%) para impor regras no campo da IA.

O Brasil destoa da média geral: 45% confiam pouco ou nada no governo para isso, enquanto 36% confiam muito. Um número semelhante de brasileiros diz confiar nos EUA (35%) e na China (32%), enquanto 26% dizem o mesmo sobre a União Europeia.

Os números nessa questão variam em cada país, a depender da visão local que cada população costuma ter de Washington e Pequim.

Em vários lugares, posição ideológica ou alinhamento partidário também influenciam nessa questão. Nos Estados Unidos, por exemplo, 54% dos republicanos dizem confiar no governo para regular esse mercado, contra 36% dos democratas.

O Pew Center também questionou, nos 25 países pesquisados, se as pessoas consideram que ouviram falar ou leram muito, pouco ou nada sobre inteligência artificial.

No Brasil, 22% estão no primeiro grupo; 47%, no segundo; e 30%, no terceiro. Um patamar que destoa de países desenvolvidos, como os EUA (47%, 48% e 5%) ou a França (52%, 40% e 8%). Na Índia, que tem atraído diversos investimentos internacionais de IA, 35% das pessoas dizem não ter informações sobre o assunto.

O recorte aqui tem a ver com o tamanho da economia de cada lugar. Quanto maior o PIB, maior é a fatia da população que se considera bem informada sobre o tema.

Em todos os países, os índices também são maiores entre jovens adultos, homens e aqueles que tiveram acesso à educação.

Em vários, também há uma correlação entre informação e visão positiva da IA. Na Coreia do Sul, por exemplo, 39% dos que estão muito bem informados sobre o assunto relatam otimismo com a tecnologia. Entre os que estão um pouco informados, o índice vai a 19%.

domingo, 29 de junho de 2025

Lucros que não se decompõem: a tragédia persistente do plástico


No meio da crise ambiental que se agrava a cada ano, cresce uma ameaça silenciosa e persistente, alimentada por interesses económicos que não se decompõem: a poluição plástica. Por trás do brilho da conveniência, escondem-se os lobbies dos combustíveis fósseis, que seguem ditando os rumos da produção global. Grandes potências petrolíferas e corporações multinacionais têm agido como forças contrárias à vida, bloqueando tratados, sabotando regulações e retardando o que já deveria ser urgente: o enfrentamento coordenado de um desastre ecológico anunciado. Nesta paisagem distorcida, a sustentabilidade do planeta é moeda de troca, sacrificada sem hesitação em nome de lucros que se acumulam — e permanecem, como o plástico, por tempo indefinido.

1- Crescimento global da produção e consumo de plásticos
Desde 1950, a humanidade produziu mais de oito mil milhões de toneladas de plástico, grande parte dos quais permanece até hoje nos ecossistemas, já que os plásticos podem levar centenas de anos para se decompor (Capomaccio, 2025). O crescimento exponencial da produção global de plásticos nas últimas décadas resultou numa crise ambiental sem precedentes. Atualmente, cerca de 460 milhões de toneladas de plástico são produzidas anualmente, e projeções alarmantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) indicam que esse volume poderá triplicar até 2060 caso não sejam implementadas políticas globais rigorosas (Cardial, 2024; Capomaccio, 2025).

Um estudo de 2024 revelou que menos de 60 multinacionais são responsáveis por mais da metade da poluição plástica global, com apenas seis empresas gerando um quarto desse total. A Coca-Cola sozinha respondeu por 11% dos resíduos plásticos rastreados, seguida pela PepsiCo, com 5%, enquanto a Danone e a Nestlé foram responsáveis por 3% cada. As empresas de tabaco Altria e Philip Morris International contribuíram com 2% dos resíduos plásticos identificados. Para realizar o estudo, voluntários recolheram mais de 1,87 milhão de resíduos plásticos em 84 países ao longo de cinco anos, constatando que a maioria era proveniente de embalagens descartáveis de alimentos, bebidas e tabaco. Apenas metade desses resíduos possuía identificação de marca, e 56 multinacionais foram responsáveis por essa parcela. Embora algumas empresas tenham adotado medidas voluntárias para reduzir sua pegada ambiental, a produção global de plástico dobrou desde 2000, enquanto a taxa de reciclagem permanece em apenas 9%. O estudo confirma uma correlação direta entre o aumento da produção de plástico e a intensificação da poluição ambiental (Cowger et al, 2024).

Este cenário alarmante é impulsionado principalmente pela indústria petroquímica, que vê na produção de polímeros uma alternativa económica diante da redução do consumo de combustíveis fósseis, resultado do avanço das energias renováveis e veículos elétricos (Planelles, 2024). Países como Rússia, Arábia Saudita e Estados Unidos têm apostado agressivamente na produção petroquímica, contrariando esforços internacionais por um tratado global que limite a fabricação de polímeros (Mena, 2024; Rodrigues, 2024).

A indústria petrolífera, diante da redução da procura por combustíveis fósseis, passou a direcionar os seus investimentos à produção de plásticos, garantindo lucros significativos e sustentando sua relevância económica global. Países como Arábia Saudita e Rússia lideram a oposição a tratados internacionais que buscam limitar a produção global de polímeros, insistindo que a reciclagem e a gestão de resíduos seriam estratégias suficientes para resolver a crise plástica (Planelles, 2024; Mena, 2024; Rodrigues, 2024). Essa perspetiva, contudo, ignora as evidências que mostram os limites práticos e económicos da reciclagem em larga escala.

Uma importante iniciativa no combate à poluição dos plásticos está no estabelecimento de um Tratado Global sobre Plásticos. Esse tratado começou a surgir a partir de uma resolução aprovada em 2022 por 175 membros da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, com o objetivo de eliminar a poluição plástica até 2040 por meio de um instrumento internacional juridicamente vinculativo.

Para a sua formulação, foi estabelecido o Comité de Negociação Intergovernamental (INC), que iniciou os seus trabalhos no segundo semestre de 2022, visando concluir as negociações até o final de 2024. Entretanto, devido à falta de consenso, o prazo foi estendido. A primeira parte da quinta sessão do INC (INC-5.1) ocorreu em novembro e dezembro de 2024, em Busan, Coreia do Sul, e a segunda parte (INC-5.2) está programada para agosto de 2025, em Genebra, Suíça. Nessa fase, serão debatidos temas como design e gerenciamento de resíduos, produtos químicos preocupantes, fornecimento e produção de plástico, além de mecanismos financeiros (UNEP, 2025).

A ratificação do tratado representará um marco na luta contra a poluição plástica, incentivando mudanças nos padrões de consumo, inovação tecnológica e maior engajamento de setores público e privado na busca por sustentabilidade.

As dificuldades na criação de um Tratado Global sobre Poluição Plástica revelam não apenas a resistência dos países produtores de petróleo, mas também o papel de grandes corporações. A Coca-Cola, por exemplo, que foi apontada como a maior poluidora plástica do mundo por seis anos consecutivos pela organização Break Free from Plastic, tem revisto silenciosamente os seus compromissos ambientais. Durante as negociações de 2024 na Coreia do Sul, a empresa removeu do seu site a meta de garantir que 25% de suas bebidas fossem vendidas em embalagens reutilizáveis até 2030. Auditorias realizadas em 40 países confirmam que as garrafas plásticas da empresa estão entre os resíduos mais encontrados em praias e parques, demonstrando o seu impacto na crise da poluição plástica. Além disso, no seu comunicado oficial de dezembro de 2024, a Coca-Cola reduziu as suas metas de conteúdo reciclado nas embalagens, passando de 50% até 2030 para 35-40% até 2035, e adiou as suas metas de recolha de embalagens para depois de 2035. A ausência de um compromisso renovado com embalagens reutilizáveis foi interpretada por ambientalistas como um retrocesso significativo, considerando que a Coca-Cola é uma das maiores poluidoras por plásticos globalmente, o que amplifica a gravidade da questão e a urgência por regulamentações mais rigorosas e comprometimento corporativo genuíno. (Gama, 2024).

2- Impactos da poluição plástica no meio ambiente
O impacto ambiental dos plásticos é visível em todo o planeta, com oceanos a transformarem-se em grandes depósitos desse resíduo. Cerca de 20 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos todos os anos, afetando profundamente a biodiversidade marinha (Cardial, 2024). Ecossistemas protegidos como o Parque Marinho de Abrolhos, no Brasil, já apresentam altos níveis de contaminação por microplásticos, evidenciando que mesmo áreas supostamente protegidas não estão imunes (Teixeira, 2025).

Um estudo recente revelou que a ingestão de plásticos está a causar danos cerebrais em filhotes de cagarra-negra (Puffinus griséus), semelhantes às doenças de Alzheimer e Parkinson em humanos. Os investigadores da Universidade da Tasmânia analisaram dezenas de filhotes dessa ave migratória e identificaram neurodegeneração, deterioração do estômago e ruptura celular causadas pelos resíduos plásticos ingeridos. Os filhotes, alimentados involuntariamente com plástico pelos pais, acumularam grandes quantidades desse material no estômago, comprometendo órgãos vitais como fígado, rins e cérebro. Exames de sangue indicaram padrões de proteínas similares aos encontrados em pacientes com Alzheimer. Estudos anteriores mostram que um único filhote pode carregar até 400 pedaços de plástico, representando 10% do seu peso corporal. Embora algumas aves vomitem parte do plástico antes de migrar, a ingestão excessiva compromete a sua sobrevivência, tornando a sua jornada quase impossível. O estudo reforça o impacto devastador da poluição plástica na vida selvagem marinha (de Jersey et al, 2025).

Os achados desse estudo são alarmantes e evidenciam o impacto profundo e irreversível da poluição plástica na vida selvagem marinha. A neurodegeneração observada em filhotes de Puffinus griséus reforça a gravidade da contaminação por plásticos, que compromete funções vitais e inviabiliza sua sobrevivência. A presença de biomarcadores similares aos de doenças neurodegenerativas humanas indica que os efeitos do plástico vão além do dano físico, alcançando processos biológicos fundamentais.

Além dos oceanos, micro e nanoplásticos, resultantes da fragmentação dos plásticos maiores, tornaram-se uma ameaça omnipresente, infiltrando-se em alimentos, água potável, ar e até mesmo no corpo humano. Estudos recentes revelam a presença dessas partículas em órgãos como cérebro, fígado e pulmões, indicando uma ameaça potencialmente grave à saúde humana, cujas consequências ainda estão sendo compreendidas. Revelaram ainda maior risco de doenças cardiovasculares, inflamações e danos celulares devido à presença dessas partículas em tecidos humanos.

A poluição por microplásticos também ameaça a segurança alimentar global ao reduzir a fotossíntese de plantas terrestres em cerca de 12% e algas marinhas em 7%. Essa contaminação pode causar perdas de 4% a 14% na produção de trigo, arroz e milho e reduzir a pesca em até 24 milhões de toneladas anuais. Como resultado, até 400 milhões de pessoas podem enfrentar insegurança alimentar nas próximas décadas. O estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, analisou mais de 3.000 observações e revelou que os microplásticos prejudicam a absorção de luz pelas plantas, danificam solos e carregam toxinas. Além da crise alimentar, a redução da fotossíntese impacta a captura de carbono, dificultando a mitigação das mudanças climáticas. Os pesquisadores alertam que as perdas agrícolas causadas pelos microplásticos são comparáveis às da crise climática e destacam a urgência de reduzir essa poluição para proteger o suprimento global de alimentos (Zhu et al, 2025).

A presença de micro e nanoplásticos também está a ser detetada na água potável, inclusive na engarrafada. Investigadores da Universidade de Columbia analisaram três marcas populares de água engarrafada nos Estados Unidos e descobriram que um litro de água pode conter, em média, 240.000 fragmentos de plástico detectáveis, sendo 90% deles nanoplásticos (Garcia, 2025).

Um outro estudo, Garcia (2025) revela a gravidade adicional da contaminação por micro e nanoplásticos na água engarrafada. Um estudo da Universidade de Barcelona mostrou que a Espanha é o terceiro país europeu em consumo desse tipo de água, com até 107 litros anuais por habitante. Analisando amostras por microscopia Raman estimulada, foi descoberto que a água engarrafada contém entre 110.000 e 370.000 fragmentos plásticos por litro, número que excede até cem vezes estimativas anteriores. Cerca de 90% dessas partículas são nanoplásticos, majoritariamente PET, provenientes da quebra das próprias garrafas, especialmente sob calor ou compressão. Outros polímeros detectados incluem poliamidas, poliestireno, cloreto de polivinila e polimetilmetacrilato.

Além disso, estudo realizado pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) e Instituto de Saúde Global de Barcelona analisou 280 amostras de água de diferentes marcas e constatou presença similar de microplásticos e aditivos químicos, como estabilizantes e plastificantes. Esses aditivos, principalmente plastificantes, representam riscos significativos à saúde humana, comparáveis às taxas detectadas na água da torneira, porém com predominância distinta dos tipos de polímeros encontrados. Os investigadores estimam que, ao beber dois litros de água por dia, uma pessoa ingere 262 microgramas de partículas plásticas por ano. Esses contaminantes representam um risco significativo para a saúde humana, uma vez que estudos indicam que microplásticos estão associados a inflamações, doenças cardiovasculares e danos celulares (Garcia, 2025).

3- Limitações e desafios da reciclagem
Embora a reciclagem seja frequentemente apresentada como solução, a realidade global revela um cenário menos otimista. Apenas cerca de 9% do plástico produzido no mundo é efetivamente reciclado. Países como o Brasil possuem índices ainda mais baixos, reciclando pouco mais de 1% (Capomaccio, 2025). Dificuldades técnicas e económicas limitam significativamente a reciclagem, especialmente no caso de plásticos complexos, como embalagens coloridas, produtos compostos por múltiplos polímeros e embalagens de cosméticos, que acabam frequentemente em aterros sanitários ou na natureza (Gama, 2024).

Além disso, iniciativas corporativas destinadas a resolver o problema da reciclagem têm demonstrado ser mais marketing do que soluções efetivas. A Aliança para Acabar com o Lixo Plástico (AEPW), formada por gigantes petroquímicas, prometeu retirar milhões de toneladas de plástico do meio ambiente, mas acabou colhendo menos de 0,1% da quantidade produzida, caracterizando um evidente caso de “greenwashing” (Leri, 2024).

É essencial olhar criticamente para essas iniciativas corporativas, já que muitas vezes elas representam uma estratégia para melhorar a imagem pública sem mudar substancialmente práticas produtivas nocivas. A sociedade deve exigir maior transparência e responsabilidade real das empresas envolvidas.

4- Entraves internacionais e interesses económicos
As negociações para um tratado global juridicamente vinculante têm enfrentado forte resistência da indústria petroquímica e de países dependentes da produção de petróleo. Em Busan, Coreia do Sul, representantes de mais de 170 países fracassaram em alcançar consenso devido à resistência de países produtores de petróleo, que argumentaram contra restrições obrigatórias na produção de polímeros. Esses países insistem que as medidas deveriam ser voluntárias e focar apenas na gestão de resíduos e reciclagem, não na redução da produção de plásticos (Cardial, 2024; Mena, 2024; Rodrigues, 2024).

Questões relacionadas ao financiamento também são fontes de conflito, pois países em desenvolvimento reivindicam apoio financeiro justo dos países desenvolvidos para a implementação de medidas sustentáveis. O Brasil, por exemplo, questiona o papel do Global Environment Fund (GEF) na gestão dos recursos devido à falta de influência dos países mais pobres na governança dessas instituições (Cardial, 2024).

A indústria petroquímica tem desempenhado papel decisivo ao bloquear avanços regulatórios e promover estratégias de manipulação da opinião pública. Um exemplo emblemático é a campanha coordenada pela Associação Nacional de Recursos de Contêineres de PET (NAPCOR), que contratou influenciadores digitais para promover mensagens favoráveis ao plástico, omitindo informações sobre as baixas taxas reais de reciclagem (Tabuchi, 2024).

Essas ações expõe uma questão ética e política fundamental, evidenciando como interesses económicos específicos podem dificultar a implementação de políticas ambientais globais. Essa situação reflete o conflito entre desenvolvimento económico e a urgência de medidas sustentáveis. O caso específico dos Estados Unidos, sob a administração Trump, também ilustra como políticas ambientais podem retroceder rapidamente. Trump revogou restrições anteriores ao uso de plásticos descartáveis e incentivou o uso de produtos altamente poluentes como canudos plásticos, ignorando evidências científicas e preocupações globais sobre poluição (Holland & Hunnicutt, 2025; Debusmann, 2025).

Esses retrocessos políticos reforçam a ideia de que, sem uma abordagem global coordenada e coerente, avanços nacionais isolados podem facilmente ser revertidos. A cooperação internacional é indispensável, e políticas isolacionistas representam um risco à sustentabilidade global.

5- Conclusão
Diante da catástrofe ambiental e social representada pela poluição plástica, é imperativo rejeitar a falsa narrativa sustentada pelos interesses económicos da indústria petroquímica, que insiste em soluções paliativas enquanto amplia continuamente sua produção. A resistência de países dependentes dos combustíveis fósseis às regulamentações internacionais expõe claramente o conflito entre lucro e preservação ambiental, exigindo uma resposta vigorosa e urgente da comunidade global. Para evitar o agravamento dessa crise, é fundamental a implementação imediata de acordos internacionais juridicamente vinculantes, capazes de obrigar os produtores a assumir plena responsabilidade sobre o ciclo de vida dos plásticos. Além disso, é necessário intensificar investimentos na economia circular, promover a substituição do plástico por alternativas sustentáveis e garantir uma educação ambiental maciça que conscencialize a sociedade sobre a gravidade do problema.

Referências

Capomaccio, S. (2025, fev 26) Poluição plástica é a segunda maior ameaça ambiental ao planeta. Jornal da USP. 


Cowger, W., Willis, K. A., Bullock, S., Conlon, K., Emmanuel, J., Erdle, L. M., … & Wang, M. (2024). Global producer responsibility for plastic pollution. Science Advances, 10(17), eadj8275. 

Debusmann Jr, B. (2025, feb 10) Trump signs order shifting US back toward plastic straws. BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c2k574ydyyqo

de Jersey, A. M., Lavers, J. L., Bond, A. L., Wilson, R., Zosky, G. R., & Rivers-Auty, J. (2025, mar 12). Seabirds in crisis: Plastic ingestion induces proteomic signatures of multiorgan failure and neurodegeneration. Science Advances, 11(11), eads0834. 


Garcia, J. (2025, Feb 20) Unos investigadores analizaron 280 muestras de agua embotellada. Solo una de las marcas estaba libre de microplásticos. España Xataka. Disponível em: https://www.xataka.com/ecologia-y-naturaleza/unos-investigadores-analizaron-280-muestras-de-agua-embotellada-solo-una-de-las-marcas-estaba-libre-de-microplasticos

Holland , S. & Hunnicutt, T (2025, feb 11) Trump signs executive order on plastic drinking straws. Reuters. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/trump-signs-executive-order-plastic-drinking-straws-2025-02-10/

Leri, M. (2024, nov 21) Empresas produzem 1.000 vezes mais plástico do que conseguem limpar, revela Greenpeace. Um só planeta. Disponível em: https://umsoplaneta.globo.com/financas/negocios/noticia/2024/11/21/empresas-produzem-1000-vezes-mais-plastico-do-que-conseguem-limpar-revela-greenpeace.ghtml

Mena, F. (2024 Dez 3) Sem acordo, tratado global contra a poluição plástica é adiado para 2025. Folha de São Paulo, p A40.

OCEANA-WWF (2024) Oportunidades na transição para um Brasil sem plásticos descartáveis. Resumo Executivo. https://wwfbrnew.awsassets.panda.org/downloads/res-exec_estudo_socioeconomico_final_1.pdf

Planelles, M.(2024, dic 05) De la gasolina al plástico: la estrategia de negocio de las petroleras que bloquea tratados medioambientales. El País. Disponível em: https://elpais.com/clima-y-medio-ambiente/2024-12-05/de-la-gasolina-al-plastico-la-estrategia-de-negocio-de-las-petroleras-que-bloquea-tratados-medioambientales.html?utm_source=chatgpt.com

Rodrigues, M. (2024 dez 3) Catadores cobram mais proteção em meio a negociações frustradas. Folha de São Paulo, p. A40


Tabuchi, H. (2024, nov 27)Inside the Plastic Industry’s Battle to Win Over Hearts and Minds. The New York Times. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/11/27/climate/plastic-industry-internal-documents.html

Teixeira, A.(2025, jan 19) Expedição baiana encontra microplásticos em áreas de preservação ambiental no Parque Marinho de Abrolhos. G1Globo. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2025/01/19/expedicao-baiana-encontra-microplasticos-em-areas-de-preservacao-ambiental-no-parque-marinho-de-abrolhos.ghtml

UNEP (2025) Intergovernmental Negotiating Committee on Plastic Pollution. https://www.unep.org/inc-plastic-pollution

Vasques, L. (2025, mar 10) Estudo sobre contaminação do camarão do litoral de SP tem resultado assustador. Fórum. Disponível em: https://revistaforum.com.br/sp/santos-regiao/2025/3/10/estudo-sobre-contaminao-do-camaro-do-litoral-de-sp-tem-resultado-assustador-175429.html

Zhu, R., Zhang, Z., Zhang, N., Zhong, H., Zhou, F., Zhang, X., … & Xing, B. (2025). A global estimate of multiecosystem photosynthesis losses under microplastic pollution. Proceedings of the National Academy of Sciences, 122(11), e2423957122. https://doi.org/10.1073/pnas.2423957122

Zorzetto, R. (2025, fev 13) Equipe da USP encontra microplásticos no cérebro humano. Revista Pesquisa Fapesp. edição 347. https://revistapesquisa.fapesp.br/equipe-da-usp-identifica-microplasticos-no-cerebro-humano

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Crise populacional no Japão atinge ponto crítico


O Japão tem lutado para lidar com uma combinação de crescimento económico anémico e uma população em declínio há mais de 30 anos. 2025 marca o ponto de viragem, quando os custos crescentes superam a capacidade do país para os pagar. O chefe da redação do Financial Times em Tóquio, Leo Lewis, analisa a forma como o país geriu a sua lenta crise demográfica e o que o resto do mundo pode aprender com a sua experiência.

Se pensa que a migração vai mudar alguma coisa, vai ter uma grande surpresa.75% dos países do mundo estão abaixo da taxa de reposição populacional, pelo que a crise é global (até a Índia começa a perder população nas zonas mais densamente povoadas).

O problema é que hoje em dia tudo é inacessível, ter filhos é muito caro. O problema deve-se principalmente à questão económica.

O que se está a ver é apenas capitalismo em fase terminal: foco nos ganhos dos acionistas das megacorporações, que precisam de aumentar os lucros a cada trimestre, até que isso deixe de acontecer. Assim, a única forma de aumentar os lucros é cortando nos custos e aumentando o horário de trabalho. No final, a maior parte da riqueza está concentrada em mãos privadas, com algumas empresas a fornecer a maior parte dos bens e serviços, enquanto a maior parte da população acaba por ter dificuldades em pagar a habitação, a alimentação e, claro, ter filhos. No final, as corporações acabarão por ter fábricas muito eficientes, cheias de robôs e IA, prontas para vender bens e serviços a ninguém, uma vez que ninguém pode comprar nada. Perfeito: autodestruição infligida pela ganância.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Auto- exploração


Byung-Chul Han é um dos filósofos de referência da atualidade. Nascido na Coreia do Sul, naturalizou-se alemão, pois foi nesse país que desenvolveu grande parte da sua carreira académica – permanece lá a trabalhar – e dos seus contributos à filosofia.

Discursa sobre conceitos primordiais da atualidade, nomeadamente sobre o impacto da tecnologia na sociedade contemporânea, assim como nos próprios mecanismos do capitalismo. É na Universidade das Artes de Berlim que vem trabalhando e onde continua a exercer o seu peso como catedrático e meditador sobre os desafios que o mundo enfrenta.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Ha-Joon Chang


Ha-Joon Chang é um economista institucional especializado em economia do desenvolvimento. Actualmente, é membro do Departamento de Política Económica do Desenvolvimento na Universidade de Cambridge no Reino Unido.

sábado, 12 de agosto de 2023

As alterações climáticas são invisíveis?


Esta visualização mostra o CO2 sendo adicionado à atmosfera da Terra ao longo de um ano, dividido em quatro principais contribuintes:
Combustíveis fósseis em laranja
Queima de biomassa em vermelho
Ecossistemas terrestres em verde
Oceano em azul
Observe como a maior parte do CO2 tem origem no norte global e quanto CO2 o continente africano absorve durante o verão.
Como isto é justo?
Créditos: NASA

Aqui estão os 10 maiores emissores cumulativos de dióxido de carbono a partir de 2017 (os dados disponíveis mais recentes):

1. China
2. Estados Unidos
3. Índia
4.Federação Russa
5. Japão
6.Alemanha
7. Coreia do Sul
8. Irão
9.Canadá
10. Arábia Saudita

Fonte: UCSUSA

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Documentário: Byung-Chul Han - Sociedade do Cansaço


Este ensaio-filme envolve o fenómeno do cansaço nas nossas sociedades capitalistas e os seus sintomas como depressão, esgotamento e burnout. A artista visual Isabella Gresser tece as observações cinematográficas, fotográficas e desenhadas que fez na Coreia do Sul e Berlim, com textos falados e trechos de palestras de Byung-Chul Han. 

Neste documentário o filósofo traz discussões sobre sociedade disciplinar, sociedade do controle, sociedade do cansaço e sociedade da transparência. Além disso comenta sobre Hegel, Peter Handke, Wim Wenders, conversa com o diretor de cinema Park Chan-wook, fala da sua juventude e visão atual sobre Berlim e Seul. Por fim, cabe destacar também as reflexões que Han faz acerca dos suicídios na Coreia do Sul.

Há uns meses, encontrei um livro de um filósofo coreano, Byung-Chul Han, que me deu luzes em relação a uma característica da nossa sociedade: a livre autoexploração dos indivíduos por eles mesmos.

A quantidade assustadora de burnouts e depressões leves a que assistimos ou da qual até nós mesmos já fomos vítimas, faz-nos pensar no que possa ser a causa destes fenómenos. O trabalho parece ser sempre mais exigente do ponto de vista físico, intelectual e psíquico e muitas pessoas saudáveis acabam por se ver afetadas por episódios depressivos.

É comum pensar que são os empregadores e as lideranças que exigem que as pessoas trabalhem acima de níveis considerados razoáveis. Embora possa ser verdade que um ou outro gestor exige demasiado dos seus trabalhadores, corresponde muito mais à minha experiência o facto de os líderes estarem preocupadas com estes fenómenos, mas não conseguirem mudar os seus comportamentos e os das equipas que coordenam. E qual seria a causa? A interpretação de Byung-Chul Han é que estamos num momento em que os próprios indivíduos se constituíram em exploradores de si próprios: “se posso mais, devo mais!” As motivações podem ser muitas: a incerteza de um mundo em constante mudança, o contacto permanente com todos os países que nos faz querer pertencer ao grupo dos melhores ou que nos faz sentir responsáveis por todos os desastres do planeta, o prazer de nos sentirmos reconhecidos.

É difícil encontrar uma só motivação, são muitas e subtis, de tal modo que o indivíduo continua a explorar-se e a sentir-se livre. Explica Byung-Chul Han “o excesso de trabalho e de produção conduz, a um nível mais elevado, à autoexploração. Esta é mais eficaz do que a exploração por terceiros, uma vez que vem associada a um sentimento de liberdade. O ser explorado é simultaneamente o que explora – agente e vítima já não se distinguem entre si. Esta autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercivas que lhe são intrínsecas, se converte em violência. As doenças psíquicas da sociedade da produção nada mais são do que manifestações patológicas desta liberdade paradoxal.”[fonte]

Se a hipótese de Byung-Chul Han é verdadeira, só será possível devolver à sociedade e a cada indivíduo um estilo de vida que promova uma liberdade autêntica, através de um esforço concertado por mudar hábitos, formas específicas de educação e características culturais. As organizações poderão e deverão alertar para este facto, aumentando o nível de awareness, e criando políticas promotoras do equilíbrio dos indivíduos e da sua saúde mental, mas apenas isto não será suficiente.

É desconcertante e paradoxal que vivendo num mundo com muito mais possibilidades do que as gerações e sociedades anteriores, vivamos mais infelizes e mais débeis. Convido a todos a tomar uma atitude resoluta e audaz: não podemos dar-nos ao luxo de assumir que as pessoas são mais fracas do que noutras épocas. Parece-me importante iniciar uma plataforma de reflexão e debate que seja capaz de chegar a perceber o modo mais humano e equilibrado de gerir a informação e as possibilidades a que temos acesso.

Byung- Chul Han diz que a nossa sociedade tem “excesso de positividade” – que pode ser excesso de possibilidades, excesso de estímulos, excesso de responsabilidade – e que o perigo do excesso de positividade em relação ao excesso de negatividade é não termos anticorpos ou mecanismos de defesa que reajam a um elemento agressor. É mais difícil combater um inimigo sem rosto, mas eu diria que é urgente, sob pena de perecermos no âmbito de tanta positividade.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Hackers norte-coreanos roubaram 1,2 mil milhões de dólares em bens digitais

A principal agência de espionagem da Coreia do Sul, o National Intelligence Service, disse que a capacidade da Coreia do Norte para roubar bens digitais é considerada entre as melhores do mundo.


Os hackers norte-coreanos roubaram cerca de 1,2 mil milhões de dólares em criptomoeda e outros bens virtuais, nos últimos cinco anos, anunciou na quinta-feira a agência de espionagem da Coreia do Sul.

Especialistas e oficiais dizem que a Coreia do Norte se voltou para a pirataria criptográfica e outras atividades cibernéticas ilícitas, como fonte de moeda estrangeira, muito necessária para apoiar a sua frágil economia e financiar o seu programa nuclear, na sequência das duras sanções da ONU e da pandemia de covid-19.

A principal agência de espionagem da Coreia do Sul, o National Intelligence Service, disse que a capacidade da Coreia do Norte para roubar bens digitais é considerada entre as melhores do mundo devido ao foco em crimes informáticos desde que as sanções económicas da ONU foram endurecidas em 2017, em resposta aos seus testes nucleares e de mísseis.

As sanções das Nações Unidas impostas em 2016-17 proíbem exportações norte-coreanas fundamentais, tais como carvão, têxteis e mariscos, e também levaram os Estados membros a repatriar trabalhadores norte-coreanos no estrangeiro.

A economia sofreu novos retrocessos, após a imposição de algumas das restrições mais draconianas do mundo contra a pandemia.

O NEI afirmou que os hackers norte-coreanos patrocinados pelo Estado terão roubado 1,5 triliões de won (cerca de 1,2 mil milhões de dólares) em bens virtuais em todo o mundo, desde 2017, incluindo cerca de 800 mil milhões de won (626 milhões de dólares), só este ano.

Mais de 78 milhões de dólares terão origem na Coreia do Sul.

É esperado que os hackers norte-coreanos realizem mais ciberataques no próximo ano para roubar tecnologias sul-coreanas avançadas e informação confidencial sobre a política externa e segurança nacional sul-coreana.

No início deste mês, diplomatas superiores dos Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão concordaram em aumentar os esforços para refrear as atividades cibernéticas ilegais norte-coreanas.

Em fevereiro, um painel de peritos da ONU afirmou que a Coreia do Norte continuava a roubar centenas de milhões de dólares a instituições financeiras e a empresas e bolsas de divisas criptográficas.

Apesar das suas dificuldades económicas, a Coreia do Norte realizou este ano um número recorde de testes de mísseis, no que alguns peritos dizem ser uma tentativa de modernizar o seu arsenal e aumentar a sua influência em futuras negociações com os seus rivais para obter alívio de sanções e outras concessões.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Author of 'Silent Invasion' warns against non-citizens' right to vote

'Beijing will certainly exploit it to influence elections,' Australian academic says


Only several weeks ago, a Chinese woman living in Delhi under a false identity was arrested on suspicion of spying on senior officials of the Indian government. In January, a British lawyer of Chinese heritage was named by the U.K.'s spy agency as an "agent" of Beijing, seeking to influence its parliamentarians.

Given the many reports of such episodes, an Australian scholar claims it is naive to assume that the Chinese Communist Party (CCP) will not exploit the voting rights of non-citizens in Korea ― because it will.

"The Chinese government will certainly exploit the non-citizen right to vote in an attempt to influence the elections and the composition of the government," Clive Hamilton, a professor of public ethics at Charles Sturt University in Canberra, Australia, and the author of "Silent Invasion: China's Influence in Australia," told The Korea Times. "Koreans should be very worried about CCP influence. All important institutions, or rather the elites that lead them, are targets of CCP influence campaigns."

His warning comes several days after Justice Minister Han Dong-hoon said he would press to reform the current voting system in cooperation with the National Assembly, because giving non-citizens that right "may distort the will of the people."

Concerns have been raised here over the growing political influence of non-citizen F-5 visa holders (permanent residents), most of whom are Chinese nationals, who could help determine the winners of regional elections, such as city mayors, provincial governors and education superintendents. In the Gyeonggi governor election on June 1, Kim Dong-yeon of the opposition Democratic Party of Korea defeated then rival Kim Eun-hye of the ruling People Power Party by just 8,900 votes. Government data showed more than 50,000 non-citizen voters live in the province.

Permanent residents in Australia do not have the right to vote in federal, state or territory elections with a few exceptions for "British subjects." Yet the CCP has been accused repeatedly of trying to influence politics there. The efforts are believed to include placing its agents in the offices of politicians as well as giving donations to certain politicians through businessmen it had ties to. Such allegations prompted Australia's parliament to pass laws in 2018 aimed at preventing foreign interference in the country.

Hamilton said that Australian citizens of Chinese heritage have become the main targets of the CCP's influence campaigns, which he thinks could also happen in Korea.

"A number of people with secret allegiance to the CCP have been elected to positions in local and state governments in Australia, and even one or two to the federal government," he said. "The CCP has a name for using people of Chinese heritage to influence democratic processes, 'huaren canzheng (ethnic Chinese participation in overseas politics)' … If Koreans loyal to the CCP want to run for election, then that is their right. But they should declare it publicly so voters know who they are voting for."

Hamilton warned of the CCP's ability to "use democracy to undermine democracy," urging the public to keep an eye out for any such attempts.

Under the Korean election law, F-5 visa holders can vote in elections for local government positions, after three years have passed since they acquired their visas. More than 126,000 people falling into that category were eligible to vote in the latest local elections. Among them, Chinese nationals accounted for nearly 79 percent, followed by Taiwanese (8.4 percent), Japanese (5.7 percent), Vietnamese (1.2 percent) and Americans (0.8 percent).

Some people have voiced their opposition to revising the law, saying that non-citizens should keep the right to vote as they pay taxes in Korea. But Hamilton disagrees.

"Foreign tourists pay taxes, should they have the right to vote? Rich Koreans find ways of avoiding taxes, should (they) be banned from voting? Citizenship involves much more than simply paying taxes. It means commitment to one's country," he said.

On Monday, Rep. Cho Jung-hun of the minor opposition party, Transition Korea, said he proposed a bill to take away the voting rights of most non-citizens based on the principle of reciprocity.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Shinzo Abe: o que é a Igreja da Unificação, do reverendo Moon, citada por assassino de ex-primeiro ministro do Japão para cometer crime

Tetsuya Yamagami, assassino confesso de Abe, disse que agiu movido pelo rancor contra uma organização religiosa



Controvérsia e escândalo assombram há décadas a Igreja da Unificação, um grupo religioso com negócios milionários fundado pelo reverendo Sun Myung Moon que agora está sendo ligado ao assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, na última sexta-feira (08/07).

Segundo a imprensa japonesa, Tetsuya Yamagami, o assassino confesso de Abe, disse à polícia que agiu movido pelo rancor contra uma organização religiosa que havia pressionado sua mãe a doar grandes quantias de dinheiro, arruinando assim sua família.

Ele acreditava que Abe havia favorecido esta instituição religiosa no Japão.

Embora a polícia não tenha revelado o nome da organização religiosa, a Federação das Famílias para a Paz Mundial e Unificação (nome usado atualmente pela Igreja da Unificação) confirmou que a mãe de Yamagami era membro da mesma.

Tomihiro Tanaka, responsável pela organização no Japão, confirmou que ela ingressou em 1998, depois saiu e retornou neste ano.

Segundo a imprensa japonesa, a mãe de Yamagami vendeu a sua casa e terrenos há mais de duas décadas para fazer uma doação de cerca de US$ 700 mil.

A Igreja da Unificação afirma que todas as doações são voluntárias.

Embora as razões pelas quais Yamagami considerasse que Abe favorecia a Igreja da Unificação não sejam totalmente claras, sabe-se que o falecido ex-primeiro ministro chegou a participar como palestrante pago num dos muitos eventos organizados por esse grupo religioso.

Além disso, em junho passado, Akihiko Kurokawa, líder do partido NHK do Japão, chamou a Igreja da Unificação de "culto antijaponês" e culpou o avô materno de Abe, o ex-primeiro-ministro Nobusuke Kishi, por ter permitido a chegada dessa organização ao país em 1958.

Mas qual é a origem desta instituição e por que ela causa polémica?

Da Coreia para o mundo
O reverendo Moon e a esposa oficializando um casamento coletivo em Seul em 2000

A Igreja da Unificação foi criada em 1954 na Coreia do Sul por Sun Myung Moon.

É uma variação da teologia cristã baseada na ideia de que, ao pecar, Adão e Eva falharam no plano divino — e que o mundo precisa de um novo messias que seria o próprio Moon.

Segundo suas crenças, a perda da graça divina se deveu ao fato de Eva ter tido relações sexuais ilícitas com o diabo no plano espiritual, o que levou à posterior queda de Adão, e toda a humanidade acabou replicando a linhagem do demónio.

O fundador da Igreja da Unificação, Sun Myung Moon, faleceu em 2012 aos 92 anos

A Igreja da Unificação considera a família como a pedra fundamental da sociedade e do desenvolvimento espiritual, razão pela qual atribui grande importância ao matrimónio — e, de fato, é conhecida mundialmente por organizar grandes casamentos coletivos.

Da Coreia do Sul, esta instituição passou para o Japão e, no final da década de 1950, começou a se deslocar para o Ocidente, onde por décadas foi tachada como uma "seita".

Conseguiu-se estabelecer nos Estados Unidos, onde Moon morou na década de 1970, e desde os anos 1980 está presente em vários países da América Latina, especialmente no Brasil.

Moon visitou a Argentina várias vezes, onde se encontrou com políticos proeminentes, incluindo o ex-presidente Carlos Menem.

Fé e negócios

A Igreja da Unificação é conhecida por sua capacidade de captar recursos financeiros, tarefa na qual tem sido muito bem-sucedida no Japão, onde, segundo especialistas, originam-se cerca de 70% dos fundos que administra, estimados em centenas de milhões de dólares.

Na verdade, um ex-membro do alto escalão da instituição chegou a dizer ao jornal americano The Washington Post que, entre as décadas de 1970 e 1980, Moon levou cerca de US$ 800 milhões do Japão para os Estados Unidos.

Parte desses recursos seriam provenientes da venda de objetos religiosos com supostos poderes espirituais fabricados por empresas que pertenciam à família Moon, mas sobretudo das chamadas "vendas espirituais".

Por meio deste mecanismo, pediam-se aos fiéis doações financeiras para "ajudar a elevar o espírito" de seus entes queridos falecidos.

Segundo pessoas que pertenciam à organização, seus membros no Japão revisam os obituários e depois visitam as casas dos enlutados para dizer a eles que a pessoa falecida entrou em contato com a Igreja e pediu à família que pegasse dinheiro no banco para doar, no intuito de alcançar assim sua elevação espiritual.

Esse mecanismo de arrecadação de fundos gerou vários processos no Japão, nos quais centenas de pessoas afetadas foram recompensadas nos tribunais.

Elgen Strait, ex-membro desta organização, falou ao jornal britânico The Telegraph sobre a pressão que existe para fazer doações.

"Há uma ideia presente em toda a organização de que sua posição espiritual é diretamente afetada pela quantidade de dinheiro que você dá. Nos Estados Unidos, espera-se que você doe 10% da sua renda bruta a cada mês. No Japão, é 30%. Mas isso é só para começar", declarou.

Moon, que em 1982 foi preso nos EUA por evasão fiscal, também se tornou um homem de negócios que, segundo estimativas, tinha uma fortuna de cerca de US$ 900 milhões quando faleceu em 2012, aos 92 anos.

Na época, ele possuía investimentos em um clube de futebol, uma fábrica de automóveis, uma fábrica de armas e no jornal The Washington Times, entre outros negócios.

No Brasil, Moon era dono de grandes extensões de terra na fronteira com o Paraguai. Pela localização estratégica, o Exército brasileiro chegou a manifestar preocupação em 2002, segundo reportagem publicada na época pela revista Istoé.

Poder que atrai

Durante décadas, Moon e a Igreja da Unificação procuraram se relacionar com políticos e figuras conhecidas, e os convidavam como palestrantes pagos nos vários eventos que organizavam.

Segundo especialistas, isso fazia parte de uma estratégia para obter maior credibilidade, por meio da associação com figuras conhecidas.

Assim, por exemplo, na mesma conferência de 2021 da qual Abe participou, chamada "Rally of Hope", também estiveram presentes o ex-presidente americano Donald Trump e o ex-primeiro ministro canadiano Stephen Harper.

Ex-presidentes dos EUA, como Gerald Ford e George H.W. Bush, participaram das conferências dessa organização em meados da década de 1990, assim como o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev e o humorista Bill Cosby.

Como o investigador Larry Zilliox, que passou anos investigando Moon, disse ao jornal americano The Washington Post, essa iniciativa tem um objetivo claro.

"Eles vão pagar a quem der a eles legitimidade. Os grandes nomes atraem os nomes menores, que são as pessoas que podem ajudá-los com suas iniciativas locais", afirmou.

Desde a morte de Moon, sua viúva, Hak Ja Han Moon, está à frente da Igreja da Unificação, enquanto dois dos seus filhos estão no comando de organizações menores.

Embora em 2012, a organização tenha dito que contava com cerca de 3 milhões de fiéis em todo o mundo, especialistas acreditam que esse número é superestimado.

O número real varia entre 50 mil e 600 mil membros, segundo diferentes estimativas.