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quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Música do BioTerra: Amália Rodrigues - Sabe-se Lá


Lá porque ando embaixo agora
Não me neguem vossa estima
Que os alcatruzes da nora, quando chora
Não andam sempre por cima

Rir da gente ninguém pode
Se o azar nos amofina
Pois se Deus não nos acode
Não há roda que mais rode
Do que a roda da má sina

Sabe-se lá, quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá, amanhã o que virá
Breve desfaz-se uma vida honrada e boa
Ninguém sabe, quando nasce, pra que nasce uma pessoa

O preciso é ser-se forte
Ser-se forte e não ter medo
Porque na verdade a sorte, como a morte
Chega sempre, tarde ou cedo

Ninguém foge ao seu destino
Nem para o que está guardado
Pois, por um condão divino
Há quem nasça pequenino
Pr'a cumprir um grande fado

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Amália Rodrigues- Sou Filha das Ervas


Sou Filha das Ervas

Trago alecrim, trago ser amado
Cheira mais jasmim o resto que trago
Trago umas mezinhas para o coração
Foi tantas ervinhas que apanhei no chão

Sou filha das ervas, nelas me criei
Comendo-as azedas todas que encontrei
Atrás das formigas horas que passei
Sou filha das ervas e pouco mais sei

Rosa desfolhada, quem te desfolhou?
Foi a madrugada que por mim passou
Foi a madrugada que passou vaidosa
Deixou desfolhada a bonita rosa

Ramos de salgueiro, terra abrindo em flor
Amor verdadeiro é o meu amor
Papoila que grita no trigo doirado
Menina bonita, rainha do prado

Sou filha das ervas, nelas me criei
Sou filha das ervas e pouco mais sei


Dia de Amália Rodrigues


Em 1 de Julho de 1920 nasceu em Lisboa, Amália Rodrigues, fadista, cantora e actriz portuguesa, considerada a Rainha do Fado. Cantou os grandes poetas da língua portuguesa (Camões, Bocage), além dos poetas que escreveram para ela (Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira, Ary dos Santos, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill. 

Conhece também Alain Oulman, que lhe compõe diversas canções. 

Amália dá brilhantismo ao fado ao cantar o repertório tradicional de uma forma diferente, sintetizando o que é rural e urbano. Considerada a nossa melhor embaixatriz, difundiu a cultura portuguesa, a língua portuguesa e o fado. Ao longo da sua carreira recebeu inúmeras distinções. 

A 6 de Outubro de 1999, Amália Rodrigues morre em Lisboa, tendo o 1.º ministro decretado Luto Nacional por três dias. No seu funeral incorporaram-se centenas de milhares de lisboetas que assim lhe prestam uma última homenagem. Foi sepultada no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Em 2001, o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional, onde está sepultado ao lado de outros portugueses ilustres.

Até à sua morte, em outubro de 1999, 170 álbuns haviam sido editados com seu nome em 30 países, vendendo mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo, número 3 vezes maior que a população de Portugal.

Alguns Prémios e condecorações:

1948 - Prémio do SNI para a Melhor Actriz do Ano, pelo desempenho como actriz no filme "Fado, História de uma Cantadeira";

1958 - Grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago de Espada;
1959 - Grande Medalha de Prata da Cidade de Paris;
1965 - Prémio do SNI para a Melhor Actriz do Ano, pelo desempenho como actriz nos filmes "Fado Corrido" e "As Ilhas Encantadas";
1966 - Prémio Pozal Domingues para o EP "Fandangueiro";
1966 - Prémio Pozal Domingues para o EP "Vou dar de beber à dor";
1967 - Prémio M.I.D.E.M. 1965-1966 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1968 - Prémio M.I.D.E.M. 1966-1967 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1969 - Prémio M.I.D.E.M. 1967-1968 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1970 - Grau de Oficial da Ordem Militar da Ordem Militar de Santiago de Espada;
1980 - Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique;
1980 - Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (7 Julho), Teatro São Luis;
1985 - Grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras;
1986 - Medalha de Ouro da Cidade do Porto;
1990 - Grã Cruz da Ordem de Santiago de Espada;

Biografias e Sites

Documentário

domingo, 17 de abril de 2022

Música do BioTerra: Amália Rodrigues- Libertação



Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.

Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.

Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.

Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.

Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.

Nem as esperanças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Amália Rodrigues- do início de carreira ao estrelato internacional



A rainha do Fado Amália da Piedade Rodrigues nasceu em Lisboa, a 23 de julho de 1920 e não descendia da realeza: o pai era sapateiro e a mãe vendedora de fruta, ela própria iniciara como bordadeira, trabalhadora numa confeitaria e empregada de balcão numa loja. 

Mas já desde a escola primária cantava em público e numa festa de beneficência, Amália Rodrigues canta pela primeira vez em público acompanhada à guitarra, pelo tio João Rebordão. Em 1938, Concorre ao Concurso da Rainha do Fado dos Bairros, no qual não chega a participar pois as outras concorrentes ameaçam desistir se ela concorrer, e Amália acaba por desistir da participação.

Em 1939 estreou-se como fadista profissional no “Retiro Severa” e no ano seguinte apresentou-se numa peça de teatro como actriz no palco do Teatro Maria Vitória, como atração convidada, na revista Ora Vai Tu!, seguindo-se, nos anos seguintes, muitas outras participações. 

O êxito no Retiro da Severa como artista espalha-se por toda a Lisboa pela boca do público e imediatamente passa a cabeça de cartaz. Canta também no Solar da Alegria, Café Mondego como artista exclusiva e já com reportório próprio.

Multifacetada estreia-se o filme Capas Negras, um dos maiores êxitos de sempre no cinema português, 22 semanas consecutivas em cartaz, realizado em 1946 por Armando de Miranda, e que viria a ser a rampa de lançamento de Amália na sétima arte. Outros filmes se seguiriam como Fado – História de Uma Cantadeira, 1947; Sol e Toiros, 1949; Os Amantes do Tejo, 1954; Sangue Toureiro, 1958; As Ilhas Encantadas, 1964; e Fado Corrido, 1964.

Carreira internacional 
Feminina, brilhante, controversa, levou desde o inicio da sua carreira a portugalidade por esse mundo fora alargando as fronteiras da música portuguesa. Idolatrada pela crítica e o público Amália Rodrigues alcançou uma consagração sem precedentes.

O mais admirável talvez foi a sua capacidade de cantar em outras línguas e outros cancioneiros abrindo assim as portas a uma carreira internacional incrível cantando como ela própria costumava dizer aquilo que “lhe sabe a Fado”. Após a sua apresentação na embaixada portuguesa de Madrid ao público espanhol em 1943, iniciou uma nova fase e começou a interpretar canções espanholas, experimentando o flamenco, as sevilhanas estendendo-se depois aos boleros e aos corridos latinoamericanos. 

Em plena Guerra Mundial Amália já tinha feito duas digressões no estrangeiro e estreou-se no Brasil em 1944, alcançando um enorme sucesso no Casino de Copacabana. Foi aí que começou a sua paixão pelo Samba e o Baião brasileiro, e o seu  sucesso no Brasil foi tão grande que tornou-se num pistop obrigatório nas turnés seguintes e onde gravou alguns dos seus discos.

Nas décadas seguintes começou a interpretar canções francesas como “Ay, mourir pour toi”  de Charles Aznavour e italianas como “Una canzone per te” de Sergio Endrigo ou em dialecto napoletano o siciliano grandes clássicos como “Vitti na’ crozza”, “Ciuri Ciuri”, “La tarantella”  ou “O mia bela madunina”  levando as plateias ao êxtase. 

O pós-guerra e as décadas de 1950 e de 60 são um período de enorme curiosidade por músicas fora do cânone anglo-americano.  Em 1950 Amália fez alguns espetáculos inseridos no Plano Marshall em Berlim, Roma, Trieste, Dublin, Berna e Paris, como única intérprete ligeira no meio de um elenco predominantemente clássico.

Em 1952 dá um salto qualitativo decisivo, com a estreia em Nova Iorque, na discoteca “La Vie en Rose”. O Time Magazine testemunha que “a multidão fica extasiada” e o New Yorker considera-a “a cantora estrangeira mais arrebatadora que os nossos clubes nocturnos apresentaram desde há muitos anos. […] trata-se de qualquer coisa de muito especial”. 

São para recordar alguns grandes marcos da sua carreira: 
  • Em 1966 no Lincoln Center de Nova Iorque, com a New York Philharmonic e no Hollywood Bowl de Los Angeles, com a Los Angeles Philharmonic, regida ambas por André Kostelanetz.
  • Em 1967 apresentou-se com êxito esmagador em Cannes e recebe das mãos do actor Anthony Quinn, o prémio MIDEM 1965/66, destinado a premiar o artista que mais discos vende no seu país, proeza só alcançada pelos Beatles
  • Em 1968 e 1969 em dois concertos muito famosos: na Roménia e o espetáculo que apresentou na União Soviética, onde actua pela primeira vez apesar de todos os obstáculos diplomáticos inerentes à passagem da Cortina de Ferro por uma artista portuguesa.
  • Em 1970 na Feira de Osaka e o Sankei Hall de Tóquio, que foi gravado para edição em disco. Existem alguns vídeos que foram registados no Japão com o público a cantar “Coimbra” e podem ser vistos no youtube.
  • Em 1971 no teatro Lírico de Milão e o Palladium de Londres
  • Em 1972 um show dirigido por Ivon Curi no Canecão do Rio de Janeiro 
Saber mais:

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Música do BioTerra: Durutti Column - Fado


A man with pictures
He tries to fill your pockets
When all your charm has left you
It doesn't take much to make it go
He speaked to me in pictures
He talked to me in stories
They're someone else's stories
You never had a thing
That you could call your own
And when I left you
There's someone else's burden
I never thought I'd see you here with me
Here today

A man with pictures
He tries to fill your pockets
When all your charm has left you
And it doesn't take much to make it go away
He speaked to me in pictures
I answered you in stories
They're someone else's stories
I never had a thing
That I could call my own


Mesmo sendo uma faixa puramente instrumental e sem uma letra falada, o significado de "Fado" reside inteiramente na atmosfera e na intenção cultural que Vini Reilly imprimiu à composição. A canção faz parte do álbum Sex and Death, editado em 1994, um período particularmente cinzento e de grande incerteza para o projeto The Durutti Column após a falência da mítica editora Factory Records. Ao batizar a faixa com o nome do género musical mais tradicional de Portugal, o músico britânico procurou canalizar o sentimento universal da saudade — o peso do destino, a dor da ausência e a melancolia existencial — adaptando-o à sua própria linguagem musical.

Estruturalmente, a composição vive de um contraste fascinante que a crítica da época descreveu como um "funk descontraído e maleável". Sobre esta base rítmica moderna e urbana, Reilly sobrepõe os seus característicos dedilhados de guitarra elétrica, que aqui mimetizam o dramatismo e a tensão da guitarra portuguesa. Os vocalizados etéreos e sem palavras de Cowie Eastwood surgem não para contar uma história com início, meio e fim, mas sim para funcionar como um lamento abstrato. A voz é utilizada como um instrumento puro de emoção e transe, imitando a entrega visceral de uma fadista, mas despida de barreiras linguísticas.

Em suma, o significado de "Fado" não deve ser decifrado de forma intelectual, mas sim sentido como uma pintura impressionista em formato de áudio. É a reinterpretação britânica de um lamento sobre o destino humano, fiel à própria filosofia de Vini Reilly, que sempre defendeu que os ouvintes não se deviam prender à forma da sua música, mas sim focar-se inteiramente no seu conteúdo emocional.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Centenário de Amália Rodrigues


Visionária desde o início, bom gosto, inteligência, argúcia, sabia sempre de antemão o que poderia funcionar ou não… imensamente dotada a todos os níveis… sem as ferramentas que temos hoje, apenas com o seu imenso talento conquistou o Mundo.
Graças a ela, podemos ter um pequeno vislumbre do que é poder cantar pelo Mundo fora. 
Se vivesse nos tempos de hoje e com tudo o que temos à nossa disposição, acredito que ainda faria mais, muito mais do que qualquer um de nós.
Obrigado Amália por tudo e tanto que nos deu e continua a dar. Sem ela, Mulher, sem a sua beleza , arte e obra , nada seria possível. 


domingo, 6 de outubro de 2019

Amália e o Estado Novo


Depois do 25 de Abril de 1974, Amália Rodrigues sofreu uma certa indiferença por parte de políticos portugueses, dificultando o contacto com o público português porque a imagem da fadista estava associada ao Estado Novo e a ditadura portuguesa.

Após a sua morte em 1999, o escritor José Saramago revelou em Paris que a Amália “celebrada pelo salazarismo” fez chegar dinheiro ao Partido Comunista Português que na época trabalhava na clandestinidade. Testemunhos reunidos ao longo dos anos foram confirmar que a artista não só se limitou a ajudar pobres e as famílias dos presos políticos, mas apoiou economicamente, por diversas vezes, portugueses exilados, amigos anti-fascistas e tentou influenciar a libertação de presos políticos, nomeadamente de Alain Oulman, o compositor com quem colaborou nas décadas de 60 e 70.

sábado, 25 de maio de 2013

Alcino Frazão - Portugalicia: Uma plenitude________intensa!


Guitarra portuguesa
Alcino Frazão nasceu em 1961 na Parede, Cascais, e faleceu prematuramente num violento desastre de automóvel na Estada Marginal Lisboa-Cascais, em 1988.
A mãe cantava o fado, o pai, António Frazão, marceneiro de profissão e fadista de alma e coração, tinha em casa uma guitarra, e o Alcino desde muito miúdo começou a tocar as músicas que ouvia na telefonia. Os pais, sendo ele ainda muito miúdo, levavam-no ao Galito, com cerca de uns sete anos de idade, quando o conheci, era na altura em que o José Inácio tocava guitarra, acompanhado pelo Pirolito da Ericeira, que era simultaneamente o porteiro. Ora mal o José Inácio nos intervalos pousava a guitarra, logo o Alcino se agarrava a ela, e começava a dedilhar à sua maneira, o que já sabia.

Tal era a sua vocação e gosto pelo instrumento, ao qual se dedicou intensamente, permitindo que se estreasse profissionalmente a acompanhar o ir­mão, o fadista Carlos Zel, entretanto falecido.

Fez a sua primeira gravação a solo aos 15 anos.

Cedo começou a ser contratado para guitarrista em diversos recintos de fado.

Fez deslocações profissionais às Ilhas, Suíça, Brasil e Canadá, acompanhando fadistas de nomeada.

Alcino Frazão foi convidado para o grupo que acompanhava Amália, mas o seu sentido de respon­sabilidade levou-o a não aceitar por «não se sentir preparado».

Foi talvez dos pri­meiros guitarristas de uma nova geração cujo virtuosismo e espírito de inovação levou a gui­tarra ao acompanhamento de cantores como Paulo de Carvalho e Fernando Pereira, contri­buindo decisivamente para um novo enquadra­mento da guitarra entre músicos e intérpretes mais jovens e de outras áreas, que não exclusiva­mente o Fado.

Foi uma perda muito grande, pois teria decerto muito a dar à guitarra portuguesa e ao fado.

Spotfy

Na RTP

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Música do BioTerra: Amália Rorigues - Grito

"Grito" foi a canção que Amália quis que fosse tocada no seu funeral.


Silêncio
Do silêncio faço um grito
O corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco

De sombra a sombra
Há um céu tão recolhido
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido

Ao céu
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela

E eu
A quem o sol esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora

Solidão
Que nem mesmo essa é inteira
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura

Ai, solidão
Quem fora escorpião
Ai, solidão
E se mordera a cabeça

Adeus
Já fui pra além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede

Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai, como dói
A solidão quase loucura

Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai, como dói
A solidão quase loucura