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quarta-feira, 20 de maio de 2026
Os Comentadores - Não queres o pacote laboral, faz a greve geral
sábado, 16 de maio de 2026
A mercantilização da vida: onde a poesia de Zeca Afonso enfrenta a frieza do "Trabalho XXI"
Vamos rebentar o Pacote Laboral do Luís?
Luís Montenegro chama-lhe reforma laboral, modernização do mercado de trabalho, adaptação aos novos tempos e reforço da competitividade das empresas. As palavras mudam conforme o governo, mas a lógica mantém-se sempre igual: retirar direitos a quem trabalha para aumentar a margem de manobra de quem manda. E é importante perceber isto com clareza, porque muitos destes pacotes laborais são apresentados de forma técnica, confusa e quase burocrática, precisamente para que a maioria das pessoas não compreenda imediatamente o impacto real que terão na sua vida quotidiana.
O problema começa logo na própria ideia de “flexibilidade”. Quando um governo fala em flexibilizar horários, facilitar mecanismos de gestão ou adaptar relações laborais às necessidades das empresas, quase nunca está a falar de melhorar a vida do trabalhador. Está a falar de dar ao patrão mais poder para alterar horários, reorganizar turnos, exigir disponibilidade constante e gerir os trabalhadores como peças ajustáveis de uma máquina.
Na prática, isto significa uma vida mais instável. Significa pessoas que deixam de conseguir organizar a semana, marcar consultas, acompanhar os filhos, planear fins de semana ou simplesmente descansar sem ansiedade. Hoje já existem milhares de trabalhadores que vivem permanentemente agarrados ao telemóvel à espera de alterações de turno, chamadas de última hora ou pedidos “urgentes” da empresa. O que este pacote faz é normalizar essa realidade e transformá-la num modelo de funcionamento quase permanente.
E há aqui uma dimensão humana que raramente aparece nos debates televisivos. Um trabalhador não é apenas força de produção. Não é um recurso humano, como gostam agora de dizer. É uma pessoa com corpo, desgaste físico, vida familiar, problemas pessoais, necessidade de descanso e limites emocionais. Quando o trabalho invade tudo, quando a pessoa deixa de conseguir separar vida profissional de vida pessoal, começa um processo lento de destruição psicológica que depois aparece disfarçado em palavras modernas como "burnout", ansiedade crónica ou fadiga emocional. Antigamente chamava-se simplesmente: esgotamento.
Outro aspecto profundamente perigoso deste pacote é a facilitação da precariedade. Contratos mais frágeis, períodos experimentais mais longos, despedimentos indirectamente simplificados e mecanismos que tornam mais fácil substituir trabalhadores permanentes por vínculos temporários criam uma sociedade assente no medo. E o medo é uma das ferramentas mais eficazes de controlo laboral.
Um trabalhador precário raramente reclama.
Aceita mais abusos, faz mais horas, tolera humilhações, evita conflitos e cala injustiças porque sabe que pode ser substituído rapidamente. Quando alguém vive com receio constante de perder o emprego, deixa de negociar condições, passa apenas a tentar sobreviver. É precisamente isso que interessa a muitos sectores patronais: mão-de-obra cansada, insegura e facilmente descartável.
Fala-se muito da necessidade de aumentar a produtividade, mas raramente se diz uma verdade simples: nenhum país constrói prosperidade sustentável à custa de salários baixos e insegurança permanente. Portugal é talvez o melhor exemplo disso. Tivemos décadas de “flexibilidade laboral”, salários comprimidos e precariedade massiva. O resultado não foi uma economia altamente desenvolvida. Foi uma geração inteira obrigada a emigrar, trabalhadores qualificados a ganhar perto do salário mínimo e milhares de pessoas empregadas em full-time que continuam pobres.
Depois existe uma questão central que quase nunca é explicada devidamente à população: o enfraquecimento da contratação colectiva e dos sindicatos. Quando se atacam mecanismos colectivos de negociação, o trabalhador fica isolado perante a empresa. E essa relação nunca é equilibrada. Nunca foi.
Uma empresa possui departamentos jurídicos, recursos financeiros, poder hierárquico e capacidade para pressionar. O trabalhador tem contas para pagar ao fim do mês. É por isso que os direitos laborais nasceram da luta colectiva e não da generosidade patronal. O descanso semanal, as férias pagas, o limite de horas de trabalho, a licença de maternidade, os subsídios e as indemnizações não apareceram porque os patrões decidiram ser bondosos. Foram conquistados com greves, repressão, despedimentos e décadas de conflito social.
Sempre que um governo tenta enfraquecer essa capacidade colectiva de resistência, está objectivamente a transferir poder para o lado empresarial. E quando o equilíbrio desaparece, os abusos aumentam inevitavelmente. Não por maldade individual deste ou daquele patrão, mas porque o próprio sistema funciona assim.
Se houver possibilidade de reduzir despesa à custa do trabalhador, grande parte das empresas acabará por fazê-lo para sobreviver à concorrência.
Há ainda outro problema profundamente grave que raramente entra no debate: a destruição lenta da própria ideia de estabilidade de vida. Durante décadas, trabalhar significava, pelo menos teoricamente, conseguir construir alguma segurança. Ter uma casa, formar família, fazer planos a médio prazo, acreditar minimamente no futuro. Hoje, cada vez mais trabalhadores vivem numa espécie de suspensão permanente. Não sabem quanto tempo ficarão empregados, não conseguem prever rendimentos, não conseguem planear a vida e vivem constantemente entre recibos, contratos curtos, avaliações de desempenho e medo de cortes.
Uma sociedade assim torna-se inevitavelmente mais ansiosa, mais individualista e mais frágil.
As pessoas deixam de participar civicamente, deixam de ter energia psicológica para contestar injustiças e acabam reduzidas a uma rotina de sobrevivência. Trabalham mais horas, vivem pior e sentem-se permanentemente culpadas por não conseguirem acompanhar tudo.
O mais perverso é que tudo isto é apresentado como inevitável, como se fosse uma lei da natureza. Dizem-nos que “o mercado exige”, que “a economia obriga”, que “a competitividade internacional impõe sacrifícios”. Mas não há nada de inevitável aqui. São escolhas políticas muito concretas. Escolhe-se proteger lucros ou proteger trabalhadores. Escolhe-se distribuir riqueza ou concentrá-la. Escolhe-se tratar o trabalho humano como parte digna da vida colectiva ou como mero instrumento de rentabilidade.
E aquilo que este tipo de pacote revela, no fundo, é uma visão muito clara da sociedade, uma visão onde quem trabalha deve estar permanentemente disponível, agradecido por ter emprego e disposto a sacrificar descanso, estabilidade e saúde mental em nome de uma produtividade que quase nunca beneficia verdadeiramente quem produz a riqueza.
É precisamente por isso que a Greve Geral de 3 de Junho é tão importante!
Porque chega um momento em que continuar calado deixa de ser prudência e passa a ser rendição. Quem hoje acha que isto não afectará directamente a sua vida acabará mais cedo ou mais tarde por sentir na pele horários mais desumanos, maior insegurança, mais pressão e menos qualidade de vida. Os direitos laborais nunca foram oferecidos, foram conquistados, e cada vez que os trabalhadores desistem de os defender, o poder económico avança mais um passo sobre aquilo que resta da sua dignidade.
No dia 3 de Junho, estar presente não é apenas um acto político. É um acto de defesa própria!
sábado, 9 de maio de 2026
Anúncios de emprego falsos: qual é a probabilidade de ser enganado na Europa?
Os anúncios de emprego falsos tornaram-se um problema grave na Europa, com novos casos registados regularmente em todo o continente.
Nos últimos anos, a Europol e os governos nacionais têm vindo a exortar os candidatos a emprego a serem mais cautelosos, num contexto de aumento acentuado das tentativas de fraude, sobretudo em plataformas online.
À medida que a IA e os deepfakes tornam as ameaças ainda mais difíceis de detetar, o LinkedIn tem estado a investigar a questão e descobriu que quase um em cada três responsáveis por recrutamento no Reino Unido e na Alemanha foi vítima de roubo de identidade com o objetivo de enganar potenciais candidatos.
A investigação foi realizada com um total de 4.000 pessoas e partilhada com o Europe in Motion.
Como é que os falsos empregadores conduzem as suas burlas?
A principal tática utilizada pelos burlões consiste em pedir às vítimas que paguem despesas adiantadas, especialmente por empregos no estrangeiro que não existem.
As desculpas são variadas e vão desde verificações de antecedentes a taxas de pedido de visto e custos de formação e de integração, bem como de equipamento como telefones e computadores portáteis.
Cerca de 43% dos candidatos a emprego da Geração Z no Reino Unido afirmaram que quase foram vítimas de burlas de emprego em geral, enquanto 31% afirmaram que foram efetivamente burlados.
Os números são ligeiramente inferiores, mas ainda assim significativos, na Alemanha, com cerca de um em cada três candidatos da Geração Z a afirmar que esteve perto de ser vítima de uma burla.
Quem são as vítimas mais frágeis?
As preocupações com a falta de emprego aumentam ainda mais o risco.
Apesar de os jovens candidatos terem frequentemente fortes competências digitais, muitos ainda ignoram os sinais de alerta devido ao medo de perder oportunidades e ao elevado custo de vida, o que faz com que a Geração Z tenha 3,7 vezes mais probabilidades de ser burlada do que a Geração X, de acordo com a investigação do LinkedIn.
Este facto é também consistente com outros relatórios que indicam que os jovens são o grupo "favorito" para serem vítimas de burla.
"Em toda a Europa, estamos a assistir a um ambiente de contratação mais difícil, com uma diminuição das contratações em muitos mercados europeus. Este facto pode deixar os candidatos a emprego mais vulneráveis", disse ao Europe in Motion Oscar Rodriguez, vice-presidente de "Product Trust" no LinkedIn.
"A urgência pode levar os candidatos a emprego a não verem alguns dos sinais de alerta mais comuns, e é por isso que estamos a investir em ferramentas e proteções que ajudam os membros a tomar decisões mais informadas sobre a credibilidade, e a acrescentar passos para encorajar os membros a fazer uma pausa e a refletir durante a procura de emprego".
Atualmente, mais de 100 milhões de profissionais e mais de 700.000 responsáveis de recrutamento verificaram os seus perfis no LinkedIn.
Que sinais de aviso deve procurar?
Para além de quaisquer pagamentos adiantados ou da falta de contexto suficiente ao longo da comunicação, os candidatos devem estar atentos a pessoas que solicitem informações sensíveis no início do processo de seleção e que o apressem excessivamente a tomar uma decisão.
Acima de tudo, é crucial navegar no site da empresa para verificar a sua legitimidade, bem como a existência da vaga e do responsável em questão, antes de passar à fase de candidatura.
Na sua investigação, o LinkedIn constatou que quase metade dos recrutadores no Reino Unido e na Alemanha foram contactados proativamente por candidatos a emprego para verificar se uma função era genuína.
A grande maioria dos responsáveis (67%) admite, no entanto, que a criação de confiança se tornou mais difícil.
É por isso que "muitos também estão a ser mais transparentes sobre o emprego, a empresa e o processo desde o início", diz Rodriguez, porque sabem que os candidatos estão a analisar o alcance com mais cuidado.
Onde é que as pessoas estão mais em risco e qual é o impacto financeiro?
Outro estudo, efetuado pela empresa de tecnologia financeira Revolut, analisou a escala das burlas de emprego relativamente a todos os casos de fraude comunicados à empresa em vários países europeus.
Embora a taxa não seja tão elevada como a de outros tipos de fraude, como as relacionadas com compras ou investimentos, as candidaturas falsas continuam a representar uma parte significativa.
A Roménia está em primeiro lugar, com quase um quinto de todas as fraudes, seguida da Espanha (12%) e do Reino Unido (8%), enquanto a maioria dos países ronda os 4% ou 5%.
No entanto, o impacto financeiro relativo a todas as fraudes é muito maior do que o simples número de casos poderia sugerir, 10% em média nos países inquiridos.
Nos casos mais graves, a fraude no emprego representa 20% de todas as perdas financeiras relacionadas com a burla em Portugal, 19% no Reino Unido, 18% em Itália e 16% na Alemanha e na Roménia.
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segunda-feira, 30 de março de 2026
A infinita tristeza de Jason Molina
Melhor som aqui
Por Davide Pinheiro
Ainda há almas perdidas no vale da morte a aguardar por uma autópsia completa à psique. Com 39 anos, Jason Molina partiu demasiado tarde para encaixar no clube dos 27, cedo demais para ter vida além da decadência como Johnny Cash, e demasiado discreto para ter direito às placas Bowie, Cohen, Prince, Lou Reed ou Brian Wilson,. Operava sobre a mesma precariedade de meios e desarranjo emocional de Daniel Johnston, mas a catarse era revertida em maremotos intestinais, tímidos em excentricidade e teatralização. Faltava-lhe quase tudo, a começar pelo timbre angelical, para ser um ícone como Jeff Buckley, mas a biografia desgraçada e a morte afónica extraem analogias com o irmão de outra mãe Elliott Smith.
As antenas emitiam sinais interiores de nudez emocional e confidência, solenizados em cançōes estáticas, quase inertes, mas fulminantes no poder translúcido de narrar a história sem a justificar. Molina cedeu perante a dor para a poder sublimar. Custou-lhe a vida mas a partida sagrou-lhe a perenidade, e os borrōes autofágicos voltam como clarōes de uma América dessincronizada da incivilização mas não da legião de trovadores eléctricos, de MJ Lenderman a Kevin Morby, Waxahatchee, My Morning Jacket e Jim James a solo. I Will Swim to You: A Tribute to Jason Molina, um tributo organizado pela editora Run For Cover e assumido por contemporâneos como Lenderman, Trace Mountains, Sun June e Hand Habits, chega em setembro.
Entretanto, o há muito descatalogado Impala, assinado como Songs: Ohia, acaba de ser reeditado em vinil com a inédita Tess a extrapolar a (re)descoberta e a transmitir-lhe frescura de mar. As cançōes de Molina imitavam-lhe a vida. Eram perseguidas por fantasmas - reais ou metafóricos -, robustecidos pela insegurança e pavor grupal. Boa parte dos primeiros discos, assinados com o heterónimo geográfico, expōe a relação com o Ohio, onde cresceu na cidade industrial de Lorain a 25 milhas de Cleveland.
O ciclo de Songs: Ohia é de uma fertilidade irrefreada. O segundo álbum, agora com 27 anos de duração, reflecte o esplendor débil do lo-fi. Artesanal na manufactura, primário no instinto e brutalmente honesto - a verdade sempre se sobrepôs aos factores técnicos apesar de Molina se ter posteriormente aninhado num som mais compacto e burilado, já com largura de banda em Magnolia Electric Co.
O início de An Ace Unable To Change é sepulcral, como o obséquio para uma cerimónia fúnebre. Sete estáticos minutos condensadores de cataclismos fulminantes materializados em frases reditas como facas, e um final ruínoso. “Tonight i am damned to my soul”. Molina não contemplava o desprazer apenas pelo espelho. Soubera pelos pais a luta física e mental, em que acabaria por se encharcar, da classe operária. Uma questão de integridade em nome da luta pela sobrevivência digna. Morrer como as árvores.
A voz e guitarra de Molina iluminam o calvário com capacete de mineiro. Vinga a singeleza de fazer com pouco sobre a prosperidade da abundância. Quase tudo é dito na soberba Till Morning Reputations, gravura existencial de dois minutos sangrada pelo mesmo sangue de Mark Kozelek. Os 87 orgásmicos segundos da electrificada One Of Those Uncertain Hands são o turbo punk do álbum. A flexão de um homem e o seu vagar no ermo autodestrutivo da solidão.
Como tudo nele, Impala passa-se a dez mil metros de profundidade. E nem o ensaio hesitante de Separations tem o poder de o retirar com vida da caverna. “What a fine day to believe. What if I don't believe?”
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quinta-feira, 26 de março de 2026
Análise: como o capitalismo digital e o tecnofascismo estão a reproduzir antigas estruturas de dominação
Em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, o The Conversation Brasil publica uma série sobre os efeitos políticos, sociais e institucionais das redes digitais. Nesta edição, o investigador Vinício Carrilho Martinez, professor da UFSCar, analisa de que modo algoritmos, plataformas e a concentração de poder tecnológico reorganizam o espaço público, intensificam a polarização e abrem caminho para novas formas de autoritarismo. Para ele, o tecnofascismo é uma forma contemporânea de dominação em que a vigilância, o controlo e a indução de condutas passam a operar por meio de plataformas e algoritmos, sob a aparência de liberdade.
O momento global e, em especial, o brasileiro — num ano de eleições gerais no país —, não pode ser entendido apenas como um período de grande aceleração tecnológica, crise política conjuntural e geopolítica ou ainda como uma mutação do capitalismo. Há algo mais além do que a vista alcança: está em curso uma convergência entre o capitalismo digital, a reorganização das formas de controlo e a manutenção de estruturas históricas de dominação.
À escala mundial, as plataformas transformaram dados, atenção e comportamento em mercadoria e em instrumento de poder. No Brasil, este processo agrava-se porque encontra um terreno já marcado pelo racismo institucional, pelo patriarcalismo e pelo pensamento esclavagista. É desta articulação entre a hipermodernidade tecnológica e o passado que emerge a gramática do tecnofascismo.
Podemos considerar o capitalismo digital como uma atualização do próprio capitalismo. O centro da acumulação, porém, desloca-se da produção material para a produção de dados, da mercadoria física para a mercadoria informacional. O dado humano — ações, desejos, medos, rotinas, cliques, palavras digitadas — passa a ser o núcleo da valorização. O humano torna-se objeto de exploração total, já não apenas como força de trabalho, mas como fonte permanente de informação e vigilância.
A fórmula segundo a qual "o produto és tu" ajuda a descrever uma parte do problema, mas não o esgota. Mais do que mercadoria, o sujeito torna-se um trabalhador invisível deste sistema: produz circulação, gera envolvimento (engagement), alimenta plataformas, treina mecanismos, deixa rastos, sustenta cadeias inteiras de rentabilidade sem que essa produção apareça como trabalho. E sem qualquer remuneração.
Convém retomar o problema desde as suas bases. A neutralidade técnica, neste contexto, é uma ficção conveniente. A própria internet, de acordo com as suas origens, não nasceu isenta: surgiu como um projeto militar. A ARPANET (rede de computadores criada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos no final dos anos 1960) é considerada a precursora da internet. A Guerra Fria (1947–1991), a ideia de vantagem estratégica no campo das comunicações e da guerra futura mostram que a técnica emergiu articulada com as necessidades do poder.
Houve processos de democratização, sem dúvida, mas ainda insuficientes para apagar a base originária de controlo. Esta associação entre técnica e política é antiga. O nazismo já o tinha demonstrado com a rádio, convertida em instrumento de difusão ideológica e de concentração do discurso autorizado. Hoje, o dispositivo mudou; a lógica autoritária de exclusão da crítica e de centralização da palavra não desapareceu. Apenas mudou de roupa.
Controlo por adesão
A compreensão dos algoritmos contém essa visão. Eles não são, obviamente, uma abstração neutra. Os algoritmos não se organizam sozinhos, não se responsabilizam, não se corrigem sozinhos e tendem a reproduzir e a aprofundar o imaginário social sedimentado. É o caso da IA (inteligência artificial) que reproduz uma reunião empresarial composta por homens brancos, regista a participação de mulheres apenas de forma subordinada e não consegue inserir a presença de uma mulher negra.
Pois bem: isto não é um erro lateral do sistema, é estrutura, uma codificação da exclusão. O mesmo vale para o regime de visibilidade: um vídeo vindo de uma comunidade indígena, ainda marcada pela sua ancestralidade, não circula; ao passo que a misoginia convertida em espetáculo e a brutalização transformada em recurso mediático encontram ampla difusão. O algoritmo organiza o visível e o invisível. Define o que aparece e o que desaparece.
É justamente aí que o tecnofascismo se diferencia do fascismo histórico e, ao mesmo tempo, o prolonga. O fascismo clássico dependia da coerção visível, da violência direta, da censura, da polícia, do aparato estatal ostensivo. No tecnofascismo, a dominação é internalizada. Torna-se difusa, invisível e quotidiana. O sujeito acredita estar a agir livremente, mas está dentro de uma arquitetura de controlo projetada por algoritmos e sistemas automatizados.
O tecnofascismo não precisa de calar, porque a própria lógica digital já define o que é visível e o que desaparece. O controlo não é imposto de fora; dá-se de dentro, pela adesão ao sistema. É por isso que pode ser definido como o fascismo do algoritmo, o fascismo do like, o fascismo do controlo sedutor. Disfarça-se de liberdade, mas opera como vigilância permanente e como colonização da subjetividade.
O eterno retorno
No plano global, as grandes plataformas (big techs) constituem o núcleo duro deste processo. Não são apenas empresas; configuram-se como novos impérios. Controlam a infraestrutura da comunicação global, privatizam a esfera pública, transformam a comunicação humana em negócio. O capital digital extrai valor do tempo, da atenção e da emoção. Trata-se, em sentido rigoroso, de um capitalismo da vigilância e da extração psíquica. O que se compra e se vende não é apenas consumo, mas comportamento.
Estas corporações não apenas registam o que fazemos; orientam o que devemos desejar, amar, temer ou odiar. O que antes aparecia como um poder mais difuso, hoje apresenta-se de forma ostensiva, mediática, visível. O Estado-plataforma deixou de ser uma hipótese e tornou-se uma realidade dominante.
No Brasil, porém, este processo encontra uma formação histórica específica. Quando se fala em modernidade tardia, não se trata apenas de um atraso cronológico em relação às economias centrais. Trata-se de um passado que está sempre presente, que não se descola. Patriarcalismo, patrimonialismo, nepotismo, racismo institucional, pensamento esclavagista: tudo isto se recompõe e reaparece. Muda de roupa, mas retorna.
O caso da professora negra aprovada em primeiro lugar para uma vaga em linguística africana e atingida pela anulação do concurso mostra exatamente isso: o passado a reaparecer por via do próprio Estado. O racismo institucional não é um acidente. É permanência histórica. É uma das formas pelas quais o passado continua a bater à porta.
A mesma lógica vale para a exploração do trabalho análogo à escravatura. A formação social brasileira entra na hipermodernidade sem ter rompido com formas económicas e mentais pré-capitalistas. A "uberização" talvez seja o exemplo mais evidente da atualização tecnológica da escravização.
O trabalhador sem garantias, sem proteção, sem estabilidade, sem direitos, submete-se ao ritmo de trabalho que conseguir suportar, ao bel-prazer da empresa a cada chamada, a cada serviço, a cada fatia retirada do seu trabalho, sem a contrapartida correspondente. Vale para o motorista, para o estafeta (motoboy), para o trabalhador da cultura, para o professor submetido à plataformização do ensino. Passado e presente, no caso brasileiro, estão absolutamente juntos.
Um passado que permanece presente
É baseado nesta junção entre capitalismo digital, pensamento esclavagista, regime algorítmico de visibilidade e mobilização política reacionária que o tecnofascismo ganha uma forma histórica concreta. A misoginia, o racismo, a adultização, a proliferação neonazi, os discursos anticientíficos e antivax (vacinas) não circulam apenas porque existem produtores desses conteúdos, mas porque há uma economia política da atenção que os favorece.
O envolvimento (engagement) do algoritmo premeia o extremismo. A lógica das plataformas amplia os conteúdos que melhor mobilizam o medo, o ódio e a adesão. O tecnofascismo encontra aí a sua base social real. Se antes ainda se podia insistir na categoria da manipulação, hoje isso já não basta. O que se vê é identificação. O sujeito não apenas consome o discurso; ele reconhece-se, adere à sua gramática, incorpora e reproduz os seus valores.
Os efeitos destes fenómenos são mais intensos no Brasil não apenas porque a regulação é insuficiente, mas porque as condições estruturais são terrivelmente frágeis. A democracia está em processo de fortalecimento, com marcos históricos recentes e fundamentais, como a responsabilização de militares de alta patente por crimes contra a democracia.
Mas isso também evidencia que a disputa segue aberta. O terreno continua fértil para o tecnofascismo porque aquilo que ainda coloniza o Brasil não foi superado. A hipermodernidade não o dissolveu; apenas lhe forneceu novos meios, novas linguagens e novos dispositivos. Talvez por isso a melhor definição do nosso tempo seja mesmo a de realismo trágico. Não se trata de uma distopia futura. Trata-se da forma contemporânea de uma tragédia já instalada no presente.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Black Swan Lane - Slip
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Unkle feat. Moby - God Moving Over The Face Of The Waters
O vídeo em questão, intitulado "UNKLE feat. Moby - God Moving Over The Face Of The Waters", é uma montagem que combina a música de Moby com cenas de um dos filmes mais icónicos do ano 2010, resultando numa fusão entre música eletrónica e cinema.
Significado da Canção
A música "God Moving Over The Face Of The Waters" foi composta por Moby para o seu álbum Everything Is Wrong (1995) e tornou-se famosa mundialmente como o tema de encerramento do filme Heat.
Título e Espiritualidade: O título é uma referência bíblica direta ao livro do Génesis 1:2 ("...e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas").
Interpretação de Moby: Moby descreveu a canção como a sua favorita, afirmando que a compôs com uma visão da criação — um estado de vazio e escuridão antes de algo novo surgir. Musicalmente, a mistura de arpejos de piano delicados com sintetizadores orquestrais simboliza a dualidade entre a luz e a escuridão, a esperança e a tristeza.
Quem é UNKLE?
No contexto deste vídeo específico, UNKLE aparece como o responsável pela mistura ou edição sonora. Fundado por James Lavelle em 1994, o UNKLE é um projeto britânico de música eletrónica e trip-hop conhecido por colaborar com grandes artistas (como Thom Yorke, DJ Shadow e o próprio Moby).
Conexão com o Cinema: O UNKLE tem uma relação profunda com o cinema. Neste caso, o UNKLE atua como um curador audiovisual. James Lavelle (o fundador) sempre teve a visão de que o UNKLE não é apenas uma banda, mas uma experiência estética. Ao colaborar com Ross Cairns, eles pegam em "Elite" (2010) um filme que por si só já é uma obra de arte sobre a condição humana - e dão-lhe uma nova camada emocional através da música.
Ao unir as imagens de "Elite" (violência pura, esforço físico e dor) com esta música espiritual, o vídeo representa a beleza no sofrimento.Os golpes são reais. O filme é um retrato visceral de boxeadores de "bare-knuckle" (combate sem luvas) e lutadores profissionais. Cairns utilizou câmaras de alta velocidade (Phantom) para captar o impacto real dos punhos no rosto, a ondulação da pele e o suor, criando uma estética crua e hipnótica Os "socos genuínos" tornam-se metáforas para as pancadas da vida, enquanto a música de Moby sugere uma elevação espiritual ou superação através dessa dor.
Este vídeo é considerado por muitos fãs como a união perfeita entre a estética da dor e a euforia sonora.
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Greve Geral e Manifestação - é já amanhã
Se os patrões vão perder quase 800 milhões de euros por causa da greve, isso quer dizer que os trabalhadores que a fizerem produzem essa riqueza toda num dia só? E quanta dessa riqueza lhes cabe? Uma migalha? Duas?
De tanto quererem denegrir a greve, os patrões estão a abrir demais o jogo. Afinal, os trabalhadores são capazes de lhes fazer mais falta do que eles aos trabalhadores.
Saber mais:
Uma grande greve geral para derrotar o pacote laboral, por Armando Farias
domingo, 16 de novembro de 2025
Palácio da Horta Seca - Isto não é política. É um banquete.
No exato momento em que o discurso oficial exige "moderação salarial" aos trabalhadores, em que a inflação esmaga o poder de compra e em que se negoceia um pacote laboral desenhado para "flexibilizar" (leia-se precarizar) ainda mais a vida de quem produz a riqueza, o Governo decide celebrar os seus verdadeiros parceiros.
E como o faz? Com um brinde simbólico, a entrega de um palácio.
Não é um escritório vago num bairro periférico. É o Palácio da Horta Seca, um símbolo de luxo e poder na artéria mais cara de Lisboa, um edifício histórico que o povo português pagou para restaurar.
Isto é mais do que um favor, é uma declaração de vassalagem. É o Estado, que devia ser o garante do bem comum, a curvar-se e a premiar a confederação patronal que, por definição, representa os interesses dos grandes grupos económicos, os mesmos que exigem menos direitos, menos salários e menos impostos.
É um ato de profundo desdém. É olhar nos olhos dos trabalhadores em greve, dos jovens precários, dos reformados com pensões miseráveis, e dizer-lhes, sem pudor: "Para vocês, sacrifícios e contas certas. Para eles, o luxo dos palácios que vocês pagaram."
Não se trata de uma simples cedência de instalações. Trata-se da materialização da captura do poder político pelo poder económico. É a transformação do património de todos na gorjeta luxuosa para o topo da pirâmide. É um escárnio que transforma a concertação social numa farsa, onde um dos lados negoceia no conforto de um palácio e o outro na incerteza do fim do mês.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Num País de rastos e a exigir austeridade para todos, afinal há dinheiro - estudo de caso do Paulo Pedroso
Por muitas justificações que Paulo Pedroso invoque, 46.000 euros é muito dinheiro. Apesar de a decisão ter sido justificada com o “preço mais baixo”, a opção por uma empresa ligada a um ex-governante do PS é favorecimento político com impacto nos negócios com o Estado. Em 13 de Julho PP afirmava o seguinte: "A Iniciativa Liberal, na moção de Mariana Leitão, é um partido conservador liberal, encostado à direita, mas totalmente despido de consciência social. O elogio rasgado a Milei, sintetiza-o."
Coerência? Nenhuma! Não sei como quebrar este imbróglio, mas revolta-me.
Cai por terra o que aqui escreve: "Aos liberais que acreditam que a solução para as relações de trabalho é o regresso ao paradigma da igualdade entre as partes não podemos deixar de recordar que essa foi a base do desastre do capitalismo liberal da segunda metade do século XIX, com as insanáveis contradições da “questão social”, o empobrecimento generalizado dos trabalhadores numa sociedade que gerava cada vez mais riqueza. Esse foi o quadro social que gerou as reações críticas de setores tão dispares quanto os movimentos socialistas de vários matizes e a doutrina social da igreja."
Claro que é um pagamento abusivo. O orçamento de Estado para a Ciência, para a Educação e para a Saúde são miseráveis. O da Cultura e Ambiente (quase a zeros)!!! E agora que seja uma equipa que vai trabalhar por 2 meses e 3 semana pedir 46.000 euros é revoltante! Onde está a "consciência social" que ele escreve no artigo da Revista "Solidariedade"? E mais, o referido contrato foi assinado um dia após a data da nova lei do Código dos Contratos Públicos (CCP) - Decreto‑Lei n.º 112/2025, de 23 de outubro de 2025. Houve claramente um aproveitamento político e abuso.
Nesta nova Lei, os ajustes directos têm a seguinte redacção:
1.Procedimento de consulta prévia simplificada com convite a pelo menos cinco entidades: valor inferior a € 143.000 (quando adjudicante central/Estado) ou € 221.000 (outras entidades)
2. Procedimento de ajuste direto (regime geral): valor igual ou inferior a € 30.00 euros
3. Procedimento de ajuste direto simplificado: valor igual ou inferior a € 15.000
Preparemo-nos: vamos assistir nos próximos meses a situações muito escabrosas. E o nosso erário público e reserva do Banco de Portugal a saque!!!!
Trabalho precário - Portugal a caminho do Laos do Ocidente
Por Tiago Franco, 9 de Novembro
Enquanto as eleições do Benfica ocupavam boa parte do espaço mediático e das transmissões televisivas, mais de 100 000 trabalhadores saíram à rua para se manifestarem contra as alterações às leis laborais. Eu sou Benfiquista, daqueles que levam aquilo mesmo no osso, mas consigo perceber, acho eu, onde devem estar as prioridades de uma sociedade sob ataque.
Enquanto escrevo isto vejo um noticiário da CNN que abre com um direto, a partir de uma feira qualquer, onde a jornalista entrevista anónimos Benfiquistas a propósito do resultado de ontem. Às vezes acredito mesmo que temos o que merecemos.
As alterações ao código do trabalho, que foram passando entre burcas, futebol e imigrantes, serão, provavelmente, o momento que marcará a passagem de Montenegro pelo governo português e que, nos anos seguintes, ficará como a sua imagem de marca. Passos Coelho ficou colado, para a vida, à emigração dos professores. O Luís, da Spinumviva, ficará agarrado ao maior ataque aos trabalhadores desde Abril de 74. A propósito...algum dia teremos desenvolvimentos no caso dessa empresa extraordinária, que nunca teve conflitos laborais entre patrão e empregados?
O novo pacote laboral, para a minha geração pelo menos, deveria ser a primordial preocupação. Era este o debate que nos devia ocupar as horas televisivas. Era importante que os portugueses, que vivem do seu trabalho, percebessem o que está a ser alterado e de que forma isso os afecta.
O governo PSD-Chega vai conseguir ir para lá daquilo que seria o sonho molhado dos liberais em relação ao código do trabalho. Horários maiores, contratos mais precários e durante mais tempo. Facilitação do despedimento, maiores limitações às greves e ao trabalho sindical. Flexibilização de horários de trabalho nocturnos ou ao fim-de-semana. Possibilidade de fazer outsourcing (trabalho externo) para substituir trabalhadores despedidos (ou seja, incentivar mão de obra mais barata e precária).
Curiosamente...nem uma palavra sobre o aumento do salário mínimo. Em resumo, o novo código do trabalho far-nos-á mais pobres (se é que isso ainda é possível) e muito mais precários. Para quem não acompanha esta coisa dos sindicatos, pensem apenas nisto meus amigos...quando a CGTP e UGT dão a mão, é porque a coisa está mesmo preta.
Acho importante desmistificar aqui uma ou duas coisas que ouço, aqui e ali, dos liberais e radicais de direita, quando tentam defender estas medidas como um avanço em direção à Europa do norte. Meus amigos...há duas diferenças enormes, nisto do trabalho, entre Portugal e os países mais ricos a norte.
A primeira é o nível de formação da população e, como consequência disso, o tipo de trabalho desenvolvido.
Não é a mesma coisa flexibilizar as leis laborais num país cheio de indústrias ou hubs tecnológicos ou, noutro, que vive de serviços e turismo. A facilidade de encontrar novos empregos é muito maior no primeiro.
A segunda é que, ao contrário do que nos vendem, os sindicatos são fortíssimos nos países do norte e parceiros indispensáveis para a concertação social. Já para não falar da rede social de apoio. Portanto, os trabalhadores são protegidos e os sindicatos ouvidos.
Na minha área laboral é particularmente chocante perceber onde Portugal chegou nas últimas duas décadas. Deixámos de ser um país formador com potencial para passarmos a ser o hub da engenharia europeia do baixo custo. Já perdi a conta às multinacionais que vão para Portugal porque há "engenheiros bem formados, que falam inglês e trabalham 10h por dia por 1.000 e tal euros por mês". Este tipo de discussão é frequente e eu ouço-a envergonhado.
Aliás, é curioso, a propósito de um texto que aqui escrevi sobre deslocação de trabalho (meu) para o Vietname e, contas feitas, Portugal está em condições de competir com o custo do sudeste asiático. Algo absolutamente impensável em qualquer país da Europa civilizada.
O que Luís Montenegro e seus comparsas tentam é baixar, ainda mais, o nível já de si sofrível, deixando-nos à mercê dos baixos salários com a chantagem do despedimento ao virar da esquina. E mais do que isso, fazer com que a precariedade seja regra e o planeamento de uma vida familiar uma autêntica aventura.
Quem é que quer viver num país assim, pergunto. Quem é que fica, depois, surpreendido, que a imigração para Portugal se resuma a povos de países ainda mais miseráveis? Não é por demais óbvio que, em momento algum, o triunvirato PSD-Chega-Il poderá melhorar a qualidade de vida do português comum?
Aliás...qual é a diferença, nos dias de hoje, entre as políticas de Montenegro, Ventura ou Mariana Leitão?
É importante que compreendam o seguinte. Com a realidade do tecido empresarial português, a nossa formação e os empregos que a economia gera, este pacote laboral não nos leva para o norte europeu. Nem a Espanha chegamos, quanto mais ao norte.
Tudo o que podemos aspirar é continuar a formar gente que se vai embora, deixando para trás uma população envelhecida, pobre e com ódio ao vizinho do lado.
Esta é a grande luta que nos bateu à porta. Não são os tik-toks do Ventura, os paquistaneses da Uber ou a bola que foi ao poste. Temos que interromper, por uns tempos, a degustação de palha e focar no essencial.
Caso contrário, não nos poderemos queixar se, um dia, acordarmos no Laos do Oeste.
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sexta-feira, 7 de novembro de 2025
The October Revolution lives on!
We celebrate with great joy today the 108th anniversary of the Great October Socialist Revolution in Russia.
This was the first successful revolution built on the foundations of Marxism, with leadership by V.I. Lenin and the Bolsheviks. The revolution brought food, housing, education, and healthcare to all the people of the new Soviet Union. But that isn’t all. It brought women’s emancipation and put into place special pro-equality measures dealing with the struggles of previously oppressed minorities. It ushered working and oppressed people, including women, into the exercise of political power.
The same struggles that propelled the October Socialist Revolution exist today. Working people continue to struggle in the United States for democratic self-determination and an end to economic exploitation for private profit. Peoples in Cuba, Vietnam, China, Laos, and elsewhere are already working collectively to meet their needs.
The United States is in the grip of a pro-democracy, anti-fascist struggle that is bringing peoples’ movements into motion. They are countering MAGA’s attacks on programs to help with food access, education, voting rights, and fundamental democratic participation in the national political dialog. All these rights are dramatically curtailed by the Trump–MAGA movement. The struggles to protect these rights build the foundation for a stronger, more organized U.S. working class.
The fightback includes the election of Communist Party USA candidates in various parts of the country. These candidates tend to be young. Their campaigns reflect a broad struggle, including those of organized labor, the fight to stop MAGA’s attack on working people and migrants, for peace in Gaza, and for a government that helps workers meet their subsistence needs to survive and thrive.
In 2023, 47.4 million people in the U.S.A. lived in food insecure households. Food insecurity has only deepened post-2023 due to the Trump–MAGA economic policies like the imposition of tariffs which raise prices, including food prices. Rental units and owner-occupied home ownership are likewise both growing in expense. There is an open war on the working class in the United States today. Workers are fighting back.
Over the past year alone, Oxfam noted, the wealth of the 10 richest U.S. billionaires soared by $698 billion.
“The data confirms what people across our nation already know instinctively: the new American oligarchy is here,” said Abby Maxman, president and CEO of Oxfam America. “Billionaires and mega-corporations are booming while working families struggle to afford housing, healthcare, and groceries.”
The fundamental contradiction between workers who sell their labor power to survive and exploiters who use that labor power to produce profit that they then seize for their own use is sharply drawn in a country where the wealth is so inequitably distributed.
U.S. workers’ experience is part of a global trend. Globally today, 700 million people live in extreme poverty, while 3.5 billion more struggle to survive below the poverty line. In contrast, just 3 thousand capitalists now control a total wealth of 16 trillion dollars.
Workers suffer deeply from this assault of impoverishment. While millions of workers live below the hunger and poverty thresholds, the ten richest capitalists have increased their wealth from 20.9 to 31.9 billion dollars in just five years.
Immense poverty feeds the insatiable greed of the capitalists, fueling the growth of their already boundless fortunes. To end this, workers in the U.S. are exercising their right to to engage in struggle for change, and winning. Communist candidates won in Bangor, Maine and Ithaca, N.Y.
The Russian October Revolution showed that building a society led by workers that meets workers’ needs is realistic. Building an organized working class movement in the United States to do the same for working and migrant peoples, indigenous folks, Black, Brown, Asian, and all oppressed peoples, and ending NATO and U.S. imperialism, are intertwined struggles. Move money from the U.S. military budget to meet human needs now!
The struggle for socialism is a global struggle. We salute our fraternal parties — all built from the same political “big bang” of the Russian Revolution. We join them, and all people in the United States who struggle for workers’ needs and power, in solidarity.
La lucha continua.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2025
Portugal cai para 13.ª posição no índice de pluralismo dos media na UE
Portugal desceu nove pontos percentuais na Monitorização do Pluralismo dos Media na União Europeia (MPM), caindo do 7.º lugar em 2022, primeira edição da avaliação, para a 13.ª posição em 2025.
Na edição deste ano, Portugal surge na 13.ª posição entre os 27 países da União Europeia (UE) e iguala, nesta matéria, a média da UE (49%), apresentando um "risco médio-baixo", enquanto em 2022 o país registava um índice de 40%.
Para o autor e investigador do Observatório da Diversidade e do Pluralismo do ICNOVA, Rui Cádima, a principal razão para esta queda "prende-se com a tendência crescente de agravamento da sustentabilidade económica do setor dos media", explicou à agência Lusa.
Rui Cádima salienta a existência de "redações fragilizadas, muito pressionadas pela precariedade, colocando a liberdade editorial em causa e o jornalismo de investigação como primeira vítima", acrescentando "uma cada vez maior dificuldade de filtrar a desinformação e a informação de múltiplos intermediários, apesar do surgimento dos 'fact-checkers'".
A disputar o primeiro lugar do índice, desenvolvido pelo Centre for Media Pluralism and Media Freedom para avaliar os riscos ao pluralismo dos media, estão a Alemanha (28%) e a Suécia (28%), seguidas pela Dinamarca (31%) e os Países Baixos (33%), com os quatro a apresentarem um nível de risco considerado "muito baixo".
Portugal regista um índice de pluralismo de 49%, estando entre França (46%) e a Letónia (50%), enquanto o último lugar é ocupado pela Hungria, com um nível de risco "muito alto" (74%).
Em 2022, Portugal ocupava a 7.ª posição entre 32 países e em 2024 encontra-se na 11.ª posição.
Abrangendo os 27 estados-membros da UE, o índice MPM (do inglês 'Media Pluralism Monitor') avalia o pluralismo mediático com base em múltiplas componentes.
Na área de 'Proteção Fundamental', Portugal mantém o nível "médio baixo", sendo que a proteção da liberdade de expressão é o indicador mais crítico, pois "continua a ser manchada em Portugal pela legislação do Código Penal que pune a difamação com pena de prisão".
"Outro aspeto preocupante tem a ver com a necessidade de legislar rapidamente disposições "anti-SLAPP", designadamente para proteger os jornalistas contra ações judiciais abusivas que visam silenciá-los", alerta o documento.
A pluralidade de mercado já apresenta um risco "médio-alto", devido à situação económica cada vez mais difícil das pequenas e médias empresas, às receitas dos meios de comunicação tradicionais que têm vindo a diminuir, bem como ao facto da profissão de jornalista estar a tornar-se cada vez mais precária.
No diz respeito à independência política, o país apresenta um "baixo risco", enquanto na inclusão social regista um risco alto, dado que "os meios de comunicação social locais são cada vez mais afetados por pressões financeiras e enfrentam vários desafios para garantir a estabilidade económica", lê-se no relatório.
Neste sentido, a "situação de maior risco surge no domínio da Inclusão Social, que apresenta agora um risco elevado. No domínio da Pluralidade de Mercado há também problemas persistentes de concentração de mercado. No caso da Proteção Fundamental, a situação piorou ligeiramente, uma vez que Portugal ainda tem questões críticas a resolver […] no caso da independência política, esta continua a ser o domínio mais estável, apresentado um nível de risco baixo".
Os resultados do relatório foram apresentados numa conferência na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa.
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quinta-feira, 28 de agosto de 2025
A Doutrina Invisível - A História Secreta do Neoliberalismo
O neoliberalismo (eu sugeria anarco-capitalismo) instalou-se nas nossas vidas como se fosse algo natural. Geralmente temos dificuldade em defini-lo e em perceber o mal que nos pode trazer. Este livro vem mudar isso.
Que somos nós? Éramos cidadãos, mas, hoje, parece que fomos reduzidos a consumidores. Da década de 1930 para cá, a ideia de que é a competição que nos define como espécie foi sendo adoptada e alimentada por elites, determinadas em preservar as suas fortunas e o seu poder. Think tanks, corporações, os media, as universidades e os políticos tornaram-se a força motriz para difundir e cristalizar uma ideologia que nos esvazia enquanto pessoas, que exclui direitos e promove o neoliberalismo como doutrina que regula, secreta e silenciosamente, a nossa existência. Mas o que é o neoliberalismo? Por que razão estamos subjugados a ele?
George Monbiot e Peter Hutchison traçam a história do nascimento e da ascensão do neoliberalismo. Os autores argumentam que o neoliberalismo está por trás de crises como as alterações climáticas, a precariedade dos serviços públicos, as catástrofes financeiras e a pobreza infantil, tudo isso enquanto enfraquece a democracia em favor do poder económico.
O livro também conecta o neoliberalismo ao ressurgimento de formas autoritárias de governo e propõe uma alternativa de democracia participativa baseada no conceito de "suficiência privada, luxo público".
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quinta-feira, 24 de julho de 2025
Maravilha. Quando um patrão já não precisa do trabalhador, basta dizer: “Fica em casa, estás de férias... extra.” Sem salário, claro.
Aliás, já existe a possibilidade de, em conjunto com a empresa, o trabalhador tirar dias — mas agora esses dias têm preço. Basicamente, trata-se de mercantilizar as férias.
As férias tornaram-se um produto. No futuro, quem quiser férias terá de pagar. É sempre assim: cada vez mais à direita, cada vez pior e sempre um pouco de cada vez, para ninguém dar por isso.
Um mimo do “empreendedorismo moderno”.
E depois há quem vote na direita porque tem medo de imigrantes.
Pois bem, agora trabalham para os donos dos Ferraris. Estão a colher o que semearam.
E não me venham os bonecos dos bilionários comentar que “o trabalhador tem de dar permissão para isso”.
Qual permissão, qual quê? Todos sabemos como funciona: o patrão diz “ou assinas ou faço da tua vida um inferno”.
Liberdade? Só se for para os de cima.
E nem falei da precariedade gourmet: trabalhas 12 meses, mas a empresa só te quer durante 10.
Vais para o desemprego e, depois, contratam-te por outsourcing durante os mesmos 10 meses. E nos outros dois? Passas fome.
A mesma direita que, cinicamente, fala de família e crianças é a que as destrói através da precariedade e da exploração.
Mas pronto, a culpa é sempre do imigrante — nunca do dono do Ferrari que compra o CHEGA ao quilo e mete avenças em políticos.
quinta-feira, 17 de julho de 2025
A pobreza habitacional no Reino-Unido no início da década de 70
Entre 1968 e 1972, enquanto os homens caminhavam pela superfície lunar e os hippies tomavam ácidos, um jovem de vinte e poucos anos fotografava um mundo completamente diferente: as péssimas condições de vida da população urbana pobre em Inglaterra e na Escócia, onde pouco tinha mudado desde a era vitoriana. As fotografias tiradas por Nick Hedges durante este período foram utilizadas numa campanha nacional pela habitação que teria um profundo impacto no público britânico e ajudaria a defender uma mudança na lei. Esta mudança chegou finalmente com a Lei da Habitação (Pessoas em Situação de Sem-Abrigo) de 1977, que foi um grande avanço na proteção legal para as pessoas em situação de sem-abrigo.
O trabalho do fotógrafo Nick Hedges, falecido aos 81 anos (8 Junho 2025) , revelou a realidade das péssimas condições de vida da população urbana pobre do Reino Unido nas décadas de 1960 e 1970. O seu trabalho compassivo transformou percepções e ajudou a galvanizar a mudança social.
No final da década de 1960, em plena crise imobiliária em que 3 milhões de pessoas ainda viviam em bairros de lata e casas consideradas "impróprias para habitação", a Shelter contratou o fotógrafo Nick Hedges para documentar estas condições de vida precárias em toda a Grã-Bretanha.
Mais fotografias aqui
quinta-feira, 26 de junho de 2025
A riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.
Um relatório divulgado esta quinta-feira pela Oxfam Internacional concluiu que a riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.
No documento "Do lucro privado ao poder público: Financiar o desenvolvimento, não a oligarquia", a organização não governamental (ONG) denunciou que a riqueza dos 1% mais ricos aumentou 33,9 biliões de dólares (cerca de 29 biliões de euros) em termos reais desde 2015, quando foram acordados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
O montante seria o suficiente para acabar com a pobreza anual 22 vezes, denunciou a ONG, no relatório publicado no âmbito da preparação da Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento, que se realiza na próxima semana em Sevilha, no sul de Espanha.
Esta nova análise revelou um "aumento astronómico" na riqueza privada entre 1995 e 2023, com um crescimento de 342 biliões de dólares (296,4 biliões de euros), oito vezes maior que o da riqueza pública.
O documento acusa os governos ricos de estarem a fazer os maiores cortes na ajuda ao desenvolvimento, "algo essencial para a sobrevivência", desde que os registos de ajuda começaram em 1960.
"A riqueza de apenas três mil multimilionários aumentou 6,5 biliões de dólares [5,63 biliões de euros] em termos reais desde 2015 e representa agora o equivalente a 14,6% do PIB mundial", afirmou a ONG.
A análise argumentou ainda que só os países do G7 (grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo), que representam cerca de três quartos de toda a ajuda oficial, estão a reduzi-la em 28% até 2026, em comparação com 2024.
Ao mesmo tempo, a crise da dívida "está a levar à falência os países pobres, que estão a pagar muito mais aos seus credores ricos do que podem gastar em salas de aula ou hospitais".
O relatório também examina o papel dos credores privados, que "representam mais de metade da dívida dos países de baixo e médio rendimento, exacerbando a crise da dívida com a sua recusa em negociar e as suas condições punitivas".
"Os países ricos colocaram Wall Street no comando do desenvolvimento global. Trata-se de uma tomada de controlo global das finanças privadas que ultrapassou as estratégias com base empírica, para combater a pobreza através do investimento público e de uma tributação justa", afirmou o diretor-geral da Oxfam, Amitabh Behar.
A Oxfam apelou aos governos para que subscrevam as propostas políticas "que propõem uma mudança radical, combatendo a desigualdade extrema e transformando o sistema de financiamento do desenvolvimento".
Estas propostas incluem:
- desenvolvimento de novas parcerias estratégicas contra a desigualdade;
- rejeição do financiamento privado como uma "solução milagrosa" para o desenvolvimento;
- tributação dos ultraricos;
- reforma da arquitetura da dívida, bem como a revitalização da ajuda.
"É tempo de rejeitar o consenso de Wall Street e, em vez disso, dar o controlo aos cidadãos. Os governos devem atender às exigências generalizadas de tributar os ricos e acompanhá-las com uma visão de construção de bens públicos, desde os cuidados de saúde à energia", acrescentou Behar.
A investigação foi elaborada pela empresa de estudos de mercado Dynata, entre maio e junho, no Brasil, Canadá, França, Alemanha, Quénia, Itália, Índia, México, Filipinas, África do Sul, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.
Em conjunto, estes países representam cerca de metade da população mundial, segundo a Oxfam.
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terça-feira, 22 de abril de 2025
Papa Francisco - doze anos de novos dinamismos e portas abertas
Papa Francisco foi o primeiro em muitas coisas. Primeiro Papa jesuíta, primeiro Papa originário da América Latina, primeiro a escolher o nome Francisco sem um numeral, primeiro a ser eleito com seu antecessor ainda vivo, primeiro a residir fora do Palácio Apostólico, primeiro a visitar terras nunca antes tocadas por um pontífice - do Iraque à Córsega -, primeiro a assinar uma Declaração de Fraternidade com uma das autoridades islâmicas mais importantes. Também foi o primeiro Papa a se equipar com um Conselho de Cardeais para governar a Igreja, a atribuir funções de responsabilidade a mulheres e leigos na Cúria, a lançar um Sínodo que envolvia diretamente o povo de Deus, a abolir o segredo pontifício para casos de abuso sexual e a remover a pena de morte do Catecismo. O primeiro também, a liderar a Igreja enquanto no mundo não há “a” guerra, mas muitas guerras, pequenas e grandes, travadas “em pedaços” nos diferentes continentes. Uma guerra que “é sempre uma derrota”, como repetiu nos mais de 300 apelos, mesmo quando sua voz falhava, e que ocuparam todos os últimos pronunciamentos públicos desde o início da violência na Ucrânia e no Oriente Médio.
Processos
Mas Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, provavelmente não gostaria que o conceito de “primeiro” fosse associado ao seu pontificado, projetado nesses 12 anos não para atingir metas ou conquistar primados, mas para iniciar “processos”. Processos em andamento, processos concluídos ou distantes, processos que provavelmente são irreversíveis até mesmo para quem o sucederá no trono de Pedro. Ações que geram “novos dinamismos” na sociedade e na Igreja - como está escrito na road map do pontificado, a Evangelii Gaudium - sempre no horizonte do encontro, da troca, da colegialidade.
Do fim do mundo
“E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo”, foram as primeiras palavras pronunciadas da Sacada Central da Basílica de São Pedro, no final da noite de 13 de março de 2013, para uma multidão que lotava a Praça São Pedro há um mês, sob os refletores após a renúncia de Bento XVI. Para aquela multidão, o recém-eleito Papa de 76 anos, escolhido por seus irmãos cardeais, originário “do fim do mundo”, pediu uma bênção. Com o povo, quis recitar uma Ave Maria, tropeçando em um italiano que até então não havia praticado assiduamente, dadas as raras visitas do pastor de Buenos Aires a Roma, pronto para fazer as malas imediatamente após o Conclave. E ao povo, no dia seguinte, ele quis prestar sua homenagem íntima, dirigindo-se à paróquia de Santa Ana no Vaticano e depois à Basílica de Santa Maria Maior, agradecendo à Salus Populi Romani, protetora de seu pontificado, a quem ele continuou a prestar homenagem em todos os momentos mais fortes. E exatamente nessa Basílica, Francisco expressou seu desejo de ser enterrado.
Pastor no meio do povo
A proximidade com o povo, um legado do ministério argentino, foi manifestada pelo Papa em todos os anos seguintes de várias maneiras: com visitas aos funcionários do Vaticano nos seus escritórios, com as Sextas-feiras da Misericórdia no Jubileu de 2016 em locais de marginalização e exclusão, com as celebrações da Quinta-feira Santa em prisões, asilos e centros de acolhida, com o longo tour em paróquias nos subúrbios romanos, com visitas e telefonemas surpresa. E manifestou essa proximidade em todas as viagens apostólicas, começando pela primeira ao Brasil em 2013, herdada de Bento XVI, da qual nos lembramos a imagem do papamóvel bloqueado no meio da multidão.
Primeiro Papa no Iraque
O Pontífice argentino completou quarenta e sete peregrinações internacionais, feitas com base em eventos, convites de autoridades, missões a serem realizadas ou algum “movimento” interno, como ele mesmo revelou no voo de volta do Iraque. Sim, exatamente o Iraque: três dias em março de 2021 entre Bagdá, Ur, Erbil, Mosul e Qaraqosh, terras e vilarejos com cicatrizes ainda evidentes da matriz terrorista, com sangue nas paredes e tendas de pessoas deslocadas ao longo das estradas, em meio à pandemia da Covid e preocupações gerais com a segurança. Uma viagem desaconselhada por muitos por causa da saúde e do risco de atentados; uma viagem desejada a todo custo. A “mais bela” viagem, como o próprio Francisco sempre confidenciou, o primeiro Papa a pisar na terra de Abraão, onde João Paulo II não conseguiu ir, e a conversar com o líder xiita Al-Sistani.
A Porta Santa em Bangui e a mais longa viagem ao Sudeste Asiático e à Oceania
Uma boa obstinação o levou ao Iraque, a mesma que em 2015 o levou a Bangui, a capital da República Centro-Africana ferida por uma guerra civil que, nos mesmos dias da visita, deixou mortos pelas ruas. No país africano, onde disse que queria ir mesmo ao custo de saltar “de paraquedas”, Francisco abriu a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia em uma cerimônia comovente que também marca o recorde de um Ano Santo aberto não em Roma, mas em uma das regiões mais pobres do mundo. Também pode ser descrito como uma boa obstinação a que animou sua decisão de empreender a viagem mais longa do pontificado em setembro de 2024, aos 87 anos: Indonésia, Papua-Nova Guiné, Timor-Leste, Cingapura. Quinze dias, dois continentes, quatro fusos horários, 32.814 km percorridos de avião. Quatro universos diferentes, cada um representando os principais temas do Magistério: fraternidade e diálogo inter-religioso, periferias e emergência climática, reconciliação e fé, riqueza e desenvolvimento a serviço da pobreza.
De Lampedusa a Juba
Não se pode esquecer, repercorrendo as viagens apostólicas e as visitas pastorais, a primeira viagem fora de Roma, à pequena ilha de Lampedusa, cenário de grandes tragédias migratórias, com a coroa de flores lançada no “cemitério a céu aberto” do Mediterrâneo. A denúncia também se repetiu na dupla viagem a Lesbos (2016 e 2021) nos contêineres e tendas de refugiados e pessoas deslocadas.
Na história do pontificado, ficaram marcadas também a viagem à Terra Santa (2014); à Suécia, em Lund (2016) para as celebrações do 500º aniversário da Reforma Luterana; ao Canadá (2022) com o pedido de perdão às populações indígenas pelos abusos sofridos por representantes da Igreja Católica. E, em seguida, na República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, em Juba (2023), esta última etapa compartilhada com o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, e o Moderador da Assembleia Geral da Igreja da Escócia, Ian Greenshields, para sublinhar a vontade ecumênica de curar as feridas de um povo. As mesmas que ele implorou que fossem curadas aos líderes sul-sudaneses, reunidos em 2019 para dois dias de retiro na Casa Santa Marta, concluídos com o gesto perturbador de beijar seus pés.
Também, Cuba e Estados Unidos (2015), uma viagem para selar o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Um evento histórico para o qual Francisco passou meses, enviando cartas a Barack Obama e Raúl Castro, instando-os a “iniciar uma nova fase”. Foi o próprio Obama quem agradeceu publicamente ao Pontífice. Em Havana, houve também o encontro com o Patriarca Kirill e a assinatura de uma declaração conjunta para colocar em prática o “ecumenismo da caridade”, o compromisso dos cristãos para uma humanidade mais fraterna. Um compromisso que se tornou, anos depois, tragicamente atual e um tanto desconsiderado com a eclosão da guerra no coração da Europa.
Por último, mas não menos importante, entre as viagens, Abu Dhabi (2019) e o Documento sobre a Fraternidade Humana assinado em conjunto com o Grão Imame al-Tayeb, coroando o degelo com a universidade sunita de Al-Azhar que começou com um abraço na Casa Santa Marta e terminou com a assinatura de um texto que imediatamente se tornou a pedra angular do diálogo islâmico-cristão, também transposto para várias Constituições.
As encíclicas
As experiências, os diálogos e os gestos vividos nessas viagens fluíram para os documentos do pontificado. Quatro encíclicas: a primeira, Lumen Fidei, sobre o tema da fé, a quatro mãos com Bento XVI; depois, Laudato si', um grito para invocar uma “mudança de rumo” para a “casa comum”, em crise pelas mudanças climáticas e pela exploração excessiva, e para estimular ações para erradicar a miséria e para o acesso equitativo aos recursos do planeta. A terceira encíclica, a Fratelli Tutti, o eixo fundamental do Magistério, fruto do Documento de Abu Dhabi, profecia - antes da deflagração de novas guerras - da fraternidade como o único caminho para o futuro da humanidade. Por fim, a Dilexit Nos para repercorrer a tradição e a atualidade do pensamento “sobre o amor humano e divino do coração de Jesus” e lançar uma mensagem a um mundo que parece ter perdido seu coração.
Exortações Apostólicas e Motu Proprio
São sete exortações apostólicas: desde a já mencionada Evangelii Gaudium até C'est la confiance, para o 150º aniversário do nascimento de Teresa do Menino Jesus. Entre elas, as exortações pós-sinodais - Amoris Laetitia (Sínodo sobre a família), Christus Vivit (Sínodo sobre os jovens), Querida Amazonia (Sínodo para a Região Pan-Amazônica) -, Gaudete et Exsultate sobre o chamado à santidade no mundo contemporâneo, Laudate Deum, uma sequência ideal da Laudato si' para completar seu apelo para reagir pela Mãe Terra antes de um “ponto de ruptura”.
Foram emitidos cerca de 60 Motu Proprio para reconfigurar as estruturas da Cúria Romana e do território da Diocese de Roma, para alterar o Direito Canônico e o sistema judiciário do Vaticano, para emitir regras e procedimentos mais rigorosos na luta contra os abusos. Esse é o caso do Vos estis lux mundi, um documento que incorporou resultados, indicações e recomendações do Summit sobre a Proteção dos Menores, realizado no Vaticano, em fevereiro de 2019. Uma cúpula que representou o auge do trabalho para combater a pedofilia do clero e os abusos não só sexuais; uma expressão da disposição da Igreja de agir com verdade e transparência em uma atitude penitencial. Com o Vos estis lux mundi, Francisco estabeleceu novos procedimentos para a denúncia de assédios e violências e introduziu o conceito de accountability, ou seja, garantir que bispos e superiores religiosos prestem conta de suas ações.
Reforma da Cúria
Portanto, processos. Os processos de reformas foram uma constante no papado de Francisco, que não quis ignorar as recomendações dos cardeais nas congregações pré-conclave que pediam ao futuro novo Papa que reestruturasse a Cúria Romana e, em particular, as finanças do Vaticano, que durante anos estiveram no centro de escândalos. Logo após sua eleição, o Papa criou um Conselho de Cardeais, o C9 (que se tornou C6 e C8 ao longo dos anos, conforme os vários membros foram mudando), um pequeno “senado” para ajudá-lo a governar a Igreja universal e trabalhar na reforma da Cúria. Fusões de Dicastérios e outras mudanças de títulos e organogramas foram os sinais do work in progress; o passo final foi a Constituição Apostólica Praedicate evangelium: aguardada por anos, promulgada em 2022, sem aviso prévio ou preâmbulo, introduzindo novidades significativas. Entre elas, a instituição do novo Dicastério para a Evangelização, presidido diretamente pelo Pontífice, e o envolvimento dos leigos “em funções de governo e responsabilidade”. Nessa onda de mudanças, devem ser vistas as nomeações do primeiro prefeito leigo, Paolo Ruffini, para o Dicastério para a Comunicação, da primeira “prefeita” para o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada, Irmã Simona Brambilla, e da primeira governadora da Cidade do Vaticano, Irmã Raffaella Petrini.
As Mulheres
As mulheres, outra vertente destes anos de Bergoglio no trono de Pedro, o Papa que, mais do que outros, confiou a figuras femininas papéis de responsabilidade, que criou duas comissões para o estudo das diaconisas, que nunca deixou de recordar o “génio” feminino e a dimensão materna da Igreja (que “é mulher” porque “é a Igreja, não o Igreja"). Além disso, colocou as mulheres lado a lado com cardeais e bispos nas mesas do último Sínodo sobre a Sinodalidade, irmãs, missionárias, professoras, especialistas, teólogas, às quais deu, pela primeira vez, o direito de voto.
Uma abertura, como tantas outras feitas por Francisco. Aberturas e não extirpações, nem saltos; para alguns muito rápidos, para outros cautelosos demais. De fato, também esses, processos. Como a concessão dos sacramentos aos divorciados recasados, na perspectiva da Eucaristia como “remédio” para os pecadores e não como “alimento para os perfeitos”; a acolhida às pessoas Lgbtq+ com o convite à proximidade pastoral, porque dentro da Igreja há espaço para “todos, todos, todos”; a obstinação em dialogar com representantes de outras denominações e religiões cristãs, após séculos de preconceitos e suspeitas, também em virtude do “ecumenismo do sangue”. Também, o olhar à China, com o Acordo Provisório para a Nomeação de Bispos, assinado em 2019 e renovado três vezes. Um sinal de diálogo, entre tropeços e retomadas, com um “povo nobre” que ele desejou visitar por todos esses anos. Um desejo que remonta às aspirações missionárias da juventude.
Missionariedade e sinodalidade
Missão, este também é um tema central. De fato, a “missionariedade”, é um convite recorrente em textos e homilias, assim como a “sinodalidade”, outro termo que ressoou tantas vezes nesses doze anos. O Papa dedicou nada menos que duas sessões do Sínodo (2023 e 2024) à “sinodalidade”, renovando a estrutura e o funcionamento da assembleia, percebendo a necessidade de começar o caminho sinodal “de baixo” e instituindo também dez grupos de estudo para aprofundar temas doutrinários, teológicos e pastorais após os trabalhos.
Pobres e migrantes
Neste pontificado serão lembrados também os axiomas que encapsularam inteiras realidades eclesiais, políticas e sociais: “Cultura do descarte”, “globalização da indiferença”, “Igreja pobre para os pobres”, “Igreja em saída”, “pastores com cheiro de ovelhas”, “ética global da solidariedade”. Permanecerá a atenção aos pobres com a instituição, em 2017, de um Dia dedicado a eles, sempre caracterizado pelo almoço do Papa na Sala Paulo VI, lado a lado com pessoas em situação de rua e sem-teto. Permanecerá o ensinamento sobre os migrantes, declinado nos quatro verbos “acolher, proteger, promover e integrar”, como indicações programáticas para enfrentar “uma das maiores tragédias deste século”. Assim como permanecerá o convite para elaborar “compromissos honrosos” como soluções para os conflitos que estão dilacerando a Europa, o Oriente Médio e a África.
Compromisso em prol da paz
Conflitos, angústia dos últimos anos, denunciados em apelos ressonantes e cartas a núncios e povos vítimas de violências, aliviados por meio de videochamadas - sobretudo a diária para a paróquia de Gaza - ou missões de cardeais e o envio de produtos de primeira necessidade. “Não pensei que seria um Papa em tempo de guerra”, confidenciou no primeiro e único podcast com a mídia do Vaticano no décimo aniversário de sua eleição.
A paz foi o objetivo constante. Pela paz, o Papa Francisco pediu continuamente orações, convocando Dias de jejum e oração - pela Síria, Líbano, Afeganistão, Terra Santa - envolvendo os fiéis de todas as latitudes; consagrou a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria em 2022; organizou momentos históricos, como o plantio de uma oliveira nos Jardins do Vaticano em 8 de junho de 2014 com os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Palestina, Mahmoud Abbas. Em prol da paz, o Papa fez gestos inusitados, como entrar em seu carro e ir, no dia seguinte ao lançamento da primeira bomba em Kiev, ao escritório do embaixador russo na Santa Sé, Alexander Avdeev, tentando iniciar contatos com o presidente Putin e assegurando-lhe sua disposição de mediar. Francisco repreendeu várias vezes os chefes de Estado e de governo, advertiu os senhores da guerra de que eles prestarão contas diante de Deus pelas lágrimas derramadas entre os povos, estigmatizou o florescente mercado de armas lançando uma proposta para usar os gastos com armas para criar um Fundo Mundial para erradicar a fome. Pediu a construção de pontes e não a construção de muros, e insistiu em colocar o bem comum acima das estratégias militares, sendo às vezes mal interpretado e criticado.
Inovações
Em todos esses anos não faltaram críticas contra o Papa argentino, que comentou escaladas e os ventos contrários com aquele humor que é o que “mais se aproxima da graça de Deus”. Francisco questionou e surpreendeu, talvez tenha feito alguém torcer o nariz pela quebra de tabus e a ruptura de protocolos e velhos costumes, ou pela remodelação do próprio papado com roupas diferentes, uma residência diferente, uma inusual gestualidade, um estilo pastoral original. Ou aparecendo em transmissões ao vivo pela Internet e em programas de TV, usando a conta X @Pontifex, em 9 idiomas, ou como um canal para transmitir mensagens de divulgação e imediatismo necessários.
Momentos difíceis e problemas de saúde
Nesses anos sempre densos, com raríssimos momentos de descanso (e o cancelamento das tradicionais férias papais em Castel Gandolfo), não faltaram momentos difíceis, em meio a processos judiciais - liderados pelo longo e complexo processo pela gestão dos fundos da Santa Sé -, o caso Vatileaks 2, escândalos de abusos e corrupção e a publicação de livros sem “nobreza e humanidade”. Também não faltaram problemas de saúde entre as operações no Hospital Gemelli em 2021 e 2023, a internação no mesmo hospital, novamente em 2023, as complicações respiratórias, e depois os resfriados, as gripes e as dores no joelho que o forçaram a usar a cadeira de rodas nos últimos três anos.
Dados estatísticos
Tantas dificuldades que nunca impediram uma intensa atividade ou sua presença em eventos. Várias estatísticas testemunham isso: mais de 500 audiências gerais, dez Consistórios para a criação de 163 novos cardeais que restituíram caráter de universalidade ao rosto da Igreja; mais de 900 canonizações (incluindo três predecessores: João XXIII, João Paulo II, Paulo VI); os “Anos Especiais”, entre os quais os da Vida Consagrada (2015-2016), São José (2020-2021) e a Família (2021-2022); quatro Jornadas Mundiais da Juventude: Rio de Janeiro, Cracóvia, Panamá, Lisboa. Dois Jubileus: o extraordinário sobre a Misericórdia em 2016 e o ordinário em 2025, atualmente em andamento, com o tema “Peregrinos da Esperança”.
A Statio Orbis durante a pandemia da Covid
Jorge Mario Bergoglio foi um Papa que buscou a proximidade com o grande público também por meio de entrevistas, livros, prefácios, autobiografias. Um Papa do qual, talvez, mais do que as muitas palavras e escritos, será recordado com uma imagem: ele, sozinho, mancando, na chuva, no silêncio geral do lockdown e com o único som de fundo de uma ambulância, enquanto atravessa a Praça São Pedro no tempo suspenso da pandemia. Era a Statio Orbis de 27 de março de 2020, com o mundo fechado dentro de casa vendo em streaming um homem idoso que parecia carregar sobre os ombros todo o peso de uma tragédia que revirou cotidianidade e hábitos. A humanidade estava aflita, mas o Papa falou de esperança. E de fraternidade: “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo todos chamados a remar juntos”.
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