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domingo, 16 de agosto de 2026

Greepeace alerta: um quarto da costa continental portuguesa está em recuo e décadas de pressão e construção urbanística agravam o risco no litoral

Assina a petição aqui e divulga

Novo relatório “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco” mostra como os impactos das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação e pressão urbanística e alerta para fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral.
• Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo e mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco.
• A vulnerabilidade do litoral não resulta apenas das alterações climáticas: décadas de ocupação, construção e pressão urbanística em zonas sensíveis aumentaram a exposição de pessoas, infraestruturas e ecossistemas e reduziram a capacidade natural de proteção do território.
• Portugal dispõe de legislação e instrumentos de ordenamento destinados a proteger a orla costeira, mas persistem fragilidades na aplicação, fiscalização, coordenação e atualização das regras face à evolução dos riscos.
• Um mapa interativo lançado com o relatório e que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis do território costeiro português, no continente, Madeira e Açores.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa está em recuo, mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco e a pressão sobre o litoral continua a aumentar.

A Greenpeace Portugal lançou no dia 23 de julho  um novo relatório nacional “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, que revela como os impactos crescentes das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação, construção e pressão urbanística sobre algumas das zonas mais vulneráveis do país.

O retrato é claro: a costa portuguesa está presa entre o avanço do mar e o avanço da construção.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e os fenómenos extremos estão a intensificar-se num território onde, ao mesmo tempo, se continua a exercer uma forte pressão urbanística e turística, a ocupar áreas vulneráveis e a degradar ecossistemas naturais que funcionam como primeira linha de proteção.

O problema, não é apenas a falta de adaptação à crise climática. É também o resultado de escolhas feitas ao longo de décadas sobre onde, como e quanto se constrói, e da distância que continua a existir entre as regras criadas para proteger o litoral e a sua aplicação efetiva no território.

“Portugal conhece há muito os riscos que ameaçam a sua costa. Temos conhecimento científico, legislação e instrumentos de ordenamento. Não podemos continuar a esperar que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agir. O desafio agora é transformar aquilo que sabemos em decisões políticas coerentes e numa estratégia de longo prazo capaz de proteger as pessoas, a natureza e um território que pertence a todos”, afirma Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal.

Entre o avanço do mar e o avanço da construção
Ao longo dos cerca de 2.500 quilómetros de costa portuguesa, entre o continente, Madeira e Açores, os riscos assumem diferentes formas.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo.

Mas olhar apenas para a erosão ou para o avanço do mar não permite compreender toda a dimensão do problema.

A vulnerabilidade atual resulta também da forma como o território foi ocupado ao longo de décadas. A expansão urbana e turística, a construção em áreas sensíveis e a artificialização da orla costeira aumentaram a exposição ao risco e, em muitos casos, reduziram a capacidade de adaptação dos sistemas naturais.

Para a Greenpeace Portugal, continuar a permitir novas ocupações em zonas que já são conhecidas como vulneráveis, significa criar hoje os problemas que o país terá de resolver amanhã, muitas vezes com custos públicos elevados e com consequências que poderão tornar-se irreversíveis.

Ana Farias Fonseca alerta que “Com mais de 25% do litoral continental em recuo e cerca de 100 mil pessoas a viver em zonas de elevado risco, não podemos continuar a permitir que a pressão urbanística e o desrespeito pelas regras de ordenamento e proteção ambiental ignorem os avisos da ciência. Para a Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal “A boa notícia é que estamos a tempo de salvar as praias portuguesas e, para isso, é imperativo travar novas ocupações em áreas vulneráveis e apostar na prevenção e no restauro de ecossistemas, garantindo que as decisões de hoje não se tornam em problemas irreversíveis e os custos públicos elevados de amanhã.”

Proteger a natureza é também proteger as pessoas
Dunas, sapais, zonas húmidas e outros ecossistemas costeiros desempenham um papel essencial na proteção do território.

Estes sistemas ajudam a absorver a energia das tempestades, reduzem os impactos da erosão e das inundações e aumentam a capacidade de adaptação da faixa costeira.

Quando são destruídos, degradados ou fragmentados, perde-se não apenas património natural, mas também uma parte das defesas que protegem pessoas e infraestruturas.

O relatório defende, por isso, que a resposta aos riscos costeiros não pode assentar apenas em intervenções realizadas depois dos danos. A recuperação dos ecossistemas e as soluções baseadas na natureza têm de fazer parte de uma estratégia preventiva de adaptação.

A lei existe. Falta fazê-la valer no território
O relatório conclui que Portugal não parte do zero. O país dispõe de legislação, planos de ordenamento da orla costeira, instrumentos de gestão territorial e conhecimento científico sobre grande parte dos riscos que afetam o litoral – um primeiro passo na direção certa. O problema está, em muitos casos, na implementação.

A Greenpeace Portugal identifica fragilidades na aplicação e fiscalização das regras, na articulação entre diferentes entidades e níveis de decisão e na capacidade de atualizar os instrumentos existentes à velocidade a que os riscos estão a evoluir.

O resultado é um território onde continuam a existir tensões entre a necessidade de proteger a costa e a pressão para ocupar e construir em áreas cada vez mais vulneráveis.

Para a Greenpeace Portugal, a proteção do litoral exige também maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos à costa e às praias.

Não se trata, sublinhamos, de impedir qualquer desenvolvimento económico ou atividade turística no litoral. Trata-se de garantir que as decisões tomadas hoje não aumentam os riscos de amanhã e que o interesse público e a proteção do território prevalecem sobre opções de curto prazo.

Um mapa para mostrar o risco no terreno
O relatório é acompanhado por um mapa interativo que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis da costa portuguesa. Da Costa da Caparica a Espinho, da Costa Nova à Figueira da Foz, de Tróia, Comporta, Carvalhal e Melides ao litoral alentejano, do Algarve à Madeira e aos Açores, o mapa permite visualizar diferentes faces de um mesmo problema: erosão e recuo da linha de costa, pressão urbanística, ocupação de zonas vulneráveis, degradação de ecossistemas e dificuldades de adaptação às alterações climáticas.

O objetivo não é criar um ranking das zonas mais graves, mas mostrar que o risco assume diferentes formas ao longo de todo o território e que nenhuma região pode ser analisada isoladamente da forma como Portugal decide ocupar, proteger e adaptar a sua costa.

Menos reação, mais prevenção
Para a Greenpeace Portugal, responder à erosão e à subida do nível do mar apenas com obras de emergência, alimentação artificial de praias ou estruturas rígidas de defesa não será suficiente para enfrentar a dimensão do problema.

A resposta exige uma política nacional que antecipe o risco e coloque a prevenção no centro das decisões.

A Greenpeace Portugal exige:
• O cumprimento efetivo da legislação e dos instrumentos de ordenamento e proteção do litoral, acompanhado de fiscalização adequada;
• A suspensão de novas ocupações e construções incompatíveis com zonas identificadas como vulneráveis ou de risco;
• A proteção, recuperação e renaturalização dos ecossistemas costeiros, incluindo dunas, sapais, zonas húmidas e outros sistemas naturais essenciais para a proteção do território;
• Maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos ao litoral;
• Uma estratégia de adaptação que antecipe os riscos, proteja as populações mais vulneráveis e integre critérios de justiça climática e social;
• A redução rápida das emissões de gases com efeito de estufa e da dependência dos combustíveis fósseis, enfrentando a causa da crise climática que está a acelerar os riscos sobre a costa.

Com “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a Greenpeace Portugal pretende colocar uma escolha no centro do debate público e político: continuar a reagir depois dos danos ou começar, finalmente, a evitar que o risco continue a aumentar.
Para uma melhor experiência de leitura, recomendamos a visualização em “Duas páginas”, com a opção “Mostrar a página de rosto em separado” ativada.

Material para os OCS: 
  1. Relatório completo Português: aqui
  2. Relatório completo Inglês: aqui 
  3. Resumo Executivo: aqui
  4. Mapa interativo: aqui
  5. Fotos e vídeos do relatório: aqui
  6. Petição: aqui

terça-feira, 30 de junho de 2026

Greenpeace alerta para falhas na prevenção dos incêndios em Portugal

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

A Greenpeace Portugal apresentou hoje  o relatório “Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, um estudo inédito que analisa a evolução dos incêndios florestais em Portugal desde 1943 e conclui que o país continua demasiado dependente das condições meteorológicas e da resposta à emergência, falhando na prevenção estrutural do risco.

O relatório foi desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), da ADAI/Universidade de Coimbra, sob coordenação científica do professor Domingos Xavier Viegas, e reúne mais de oito décadas de dados sobre incêndios em território nacional.

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

Apesar da redução significativa do número de ignições nas últimas duas décadas, o relatório alerta que Portugal continua altamente vulnerável quando se conjugam fenómenos de calor extremo, seca e vento forte com uma paisagem pouco gerida.

Entre os anos analisados, 2003, 2005, 2017 e 2025 destacam-se pela dimensão da área ardida e pelo número de vítimas mortais, evidenciando um padrão de risco que, segundo os autores, permanece sem resposta estrutural. O estudo refere ainda que a maioria das ignições continua a ter origem humana, reforçando a necessidade de investir na investigação das causas, na sensibilização da população e em medidas preventivas.

Para o professor Domingos Xavier Viegas, a evolução dos incêndios resulta da conjugação de vários fatores, entre eles a crescente florestação do território, a redução da atividade agrícola, o despovoamento do interior e o agravamento das alterações climáticas.

“O conhecimento científico que hoje temos não nos permite continuar a fazer mais do mesmo”, afirma o coordenador do relatório, defendendo uma transformação profunda da gestão florestal e da paisagem. O investigador sublinha que, embora a capacidade de deteção e combate aos incêndios tenha melhorado significativamente nas últimas décadas, essa evolução não tem sido suficiente para evitar grandes incêndios em anos de condições meteorológicas extremas.

O diretor do CEIF destaca ainda que 2025 voltou a demonstrar a vulnerabilidade do país, com uma época marcada por temperaturas elevadas, seca meteorológica em grande parte do território e um aumento expressivo da área ardida durante o mês de agosto.

Para a Greenpeace Portugal, o relatório pretende contribuir para que o debate sobre os incêndios deixe de depender apenas da memória de cada verão e passe a assentar numa base científica sólida. O diretor da organização, Toni Melajoki Roseiro, considera que o documento deve servir como instrumento de escrutínio das políticas públicas e apoiar decisões sobre prioridades orçamentais e estratégias de prevenção.

Já Ana Farias Fonseca, coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, alerta que o país precisa de atuar sobre as causas estruturais dos incêndios, defendendo que a prevenção deve decorrer durante todo o ano. “Sem prevenção estrutural, o combate chegará sempre tarde demais”, afirma.

Na sequência das conclusões do estudo, a Greenpeace apresenta um conjunto de exigências dirigidas ao poder político, entre as quais uma ação climática mais ambiciosa, uma gestão estratégica da paisagem, maior envolvimento do setor privado, reforço da prevenção social das ignições, maior transparência na aplicação dos recursos públicos, revitalização económica do mundo rural e a criação de um pacto ibérico para aumentar a resiliência aos incêndios florestais.

Segundo a organização ambiental, o conhecimento acumulado ao longo de mais de 80 anos demonstra que Portugal dispõe hoje da informação necessária para alterar o paradigma da prevenção e reduzir o impacto dos grandes incêndios nas populações, na economia e nos ecossistemas.

Petição: aqui

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terça-feira, 3 de março de 2026

O olival Português transformado num activo financeiro

Greenpeace Portugal exige “moratória imediata à expansão do olival superintensivo”


Um relatório de investigação internacional divulgado pela Greenpeace, intitulado "O Campo como Ativo", expõe a face oculta da expansão do olival superintensivo em Portugal. O documento revela que o país se tornou o "porto seguro" para fundos de investimento canadianos e britânicos, que utilizam o Alqueva e milhões de euros em fundos públicos portugueses para substituir a agricultura tradicional por um modelo industrial de lucro rápido e elevado risco ambiental. 
Ao contrário de Espanha, onde o olival tradicional ainda resiste, a expansão em Portugal (liderada por empresas como a Innoliva) foca-se quase exclusivamente no modelo superintensivo. Dos 4.800 hectares geridas pelo grupo na última década, mais de 65% (3.168 hectares) estão em solo português. 
O relatório detalha como o Estado Português, através do IFAP, financiou diretamente esta transição. Um único projeto de um fundo estrangeiro recebeu 6,5 milhões de euros a fundo perdido, a que se somaram mais 3 milhões para lagares industriais de alta capacidade (como o de Carapetal). 
A investigação confirma o impacto devastador na biodiversidade. As colheitas noturnas com máquinas cavadeiras, fundamentais para a rentabilidade destes fundos, provocam a mortalidade em massa de aves, o que forçou as autoridades a suspender a prática, embora o modelo económico destes grupos continue a depender da mecanização extrema. 
O relatório alerta que o modelo superintensivo, embora eficiente "por árvore", consome volumes totais de água por hectare muito superiores ao tradicional, colocando em causa a resiliência hídrica do Alentejo em períodos de seca extrema. 
Para o Diretor da Greenpeace Portugal, "Estamos a trocar pessoas por máquinas e comunidades por folhas de Excel. O Governo gasta milhões em subsídios para um modelo que não fixa um único jovem no Alentejo. 
O que vemos hoje é uma forma de extrativismo moderno: os fundos de investimento a sugar a nossa água e o nosso solo, pagos com os nossos impostos, deixando para trás um território vazio, biologicamente devastador e socialmente abandonado. 
O Alqueva não pode ser o cemitério das nossas aldeias." Toni Melajoki Roseiro acrescenta que “não é agricultura, é extração de valor. Transformaram a nossa oliveira numa franquia industrial onde tudo é uniformizado e mecanizado, controlado à distância a partir de um escritório em Toronto ou Londres. O resultado é um Alentejo mais frágil; ´água sob pressão, território a esvaziar-se e o azeite português tratado como um ativo financeiro, em vez de ser parte da nossa terra.” 
Parte da riqueza produzida no regadio de Alqueva é encaminhada para fundos de pensões de funcionários públicos, Forças Armadas e Polícia Montada do Canadá, bem como da Igreja Mormón.
Perante este cenário, a Greenpeace Portugal exige uma moratória imediata à expansão do olival superintensivo. O governo português tem de escolher: ou continua a ser o facilitador dos fundos de investimento, ou assume o seu papel de protetor do território e da soberania alimentar de Portugal. O campo não é um banco. O campo é a nossa vida.