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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Daniel Knutz - Victim of Time

Melhor som aqui
Letra
In the depths of Time I find my reflection
Cannot freeze the hours no escape no protection
Youth slips away like sand through my fingers
I'm just a prisoner as the clock forever lingers

[refrão] 3X
Victim of Time

Shadows of Time I'm lost and confined
A victim of hours that I can’t unwind
The hands keep turning as I fade away
Days are nights and nights are days

[refrão] 4X

Lines on my face tell stories of the years
Each wrinkle a reminder of joys and tears
I try to escape there is no way to go
But I'll keep dancing until Time fades my soul

[refrão] 6X

Significado da canção
A música aborda a crise da autoperceção perante o envelhecimento e a finitude. O eu lírico vê-se ao espelho ("In the depths of Time I find my reflection") e percebe que perdeu o controlo sobre a própria existência.
Há um forte sentimento de impotência ("no escape no protection"). O tempo é retratado como um carcereiro inflexível ("I'm just a prisoner") que transforma a rotina num borrão monótono onde o sentido se perde ("Days are nights and nights are days").
No entanto, o final traz uma reviravolta crucial: a aceitação resiliente. Em vez de se entregar totalmente ao desespero, ele decide resistir através da arte, do movimento e da vida ("But I'll keep dancing until Time fades my soul").

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

terça-feira, 2 de junho de 2026

Secos & Molhados - Sangue Latino


Jurei mentiras e sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa

A música "Sangue latino", dos Secos & Molhados, destaca a resistência e a afirmação da identidade latino-americana diante de influências externas e opressão. O verso “Os ventos do norte não movem moínhos” sugere que soluções vindas de fora não resolvem os problemas internos do povo latino, reforçando a necessidade de buscar força e respostas dentro da própria cultura. Ao repetir “meu sangue latino, minh'alma cativa”, a canção expressa o orgulho de pertencer a esse povo, mas também reconhece a condição de opressão e luta constante.

Lançada durante a ditadura militar no Brasil, a música ganha ainda mais força como símbolo de resistência. Versos como “rompi tratados, traí os ritos” e “o que me importa é não estar vencido” mostram a coragem de desafiar tradições e enfrentar a repressão, mesmo que isso traga sofrimento ou isolamento. A letra mistura sentimentos pessoais e coletivos, abordando culpa, luta e pertença. O “grito, um desabafo” representa a necessidade de se expressar diante da opressão. Assim, "Sangue latino" consolida-se como um hino de resistência cultural e celebração da identidade dos povos latino-americanos, refletindo a sua trajetória de superação.

Sangue Latino - Ney Matogrosso (Por Trás da Canção)
Secos & Molhados - Compilação dos anos 1973 e 1974

sábado, 30 de maio de 2026

Classificação: os países que alimentam o mundo


Um grupo relativamente pequeno de países fornece hoje uma enorme fatia dos alimentos comercializados no mundo. Os 10 maiores exportadores, por si só, representam quase metade das exportações agrícolas globais, conferindo a um punhado de economias uma enorme influência sobre os preços e as cadeias de abastecimento globais de alimentos.

As Américas constituem o núcleo do sistema global de comércio de alimentos. Os EUA, o Brasil, o Canadá e o México, em conjunto, representam quase 30% das exportações agrícolas globais, abrangendo desde cereais e carne a alimentos processados ​​e oleaginosas.

Enquanto isso, várias economias populosas apresentam classificações inferiores às esperadas. Apesar de ser o maior produtor agrícola do mundo, a China está muito atrás dos EUA e do Brasil em termos de valor de exportação, o que reflete a parcela da sua produção que é consumida internamente.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Meta analisa estrutura óssea para detectar menores de 13 anos nas redes sociais


A Meta está a implementar uma nova forma de detectar utilizadores com menos de 13 anos nas suas redes sociais Instagram e Facebook, analisando a estrutura óssea através de inteligência artificial (IA).

Com o objetivo de continuar a reforçar as medidas de controlo para os menores que utilizam as suas plataformas, sobretudo os menores de 13 anos, a empresa liderada por Mark Zuckerberg estendeu à União Europeia (UE) o sistema de IA que detecta perfis de adolescentes, mesmo que estes afirmem ser adultos.

Este sistema determina a idade do utilizador analisando o contexto do perfil, como celebrações de aniversário ou menções a boletins escolares, além de incorporar análises visuais em fotos e vídeos para identificar pistas que poderiam passar despercebidas com base apenas no texto.

No entanto, a Meta pretende ir mais além e, dentro da análise visual, está a implementar uma nova forma de detectar utilizadores com menos de 13 anos no Instagram e no Facebook, analisando especificamente a estrutura óssea e a altura das pessoas que aparecem nas publicações da conta em questão.

“A nossa IA baseia-se em características gerais e pistas visuais, como a altura ou a estrutura óssea, para estimar a idade aproximada de uma pessoa”, explicou a empresa numa publicação no blogue, referindo que esta medida começou a ser implementada em países selecionados, incluindo os Estados Unidos, antes do seu lançamento geral.

A Meta enfatizou, contudo, que este não é um sistema de análise de "reconhecimento facial", já que "não identifica a pessoa específica na imagem".

Em vez disso, concentra-se na estrutura óssea, ou seja, no tamanho físico e na altura da pessoa.

Se a estrutura do seu perfil corresponder à de uma pessoa com menos de 13 anos, a Meta terá isso em conta, juntamente com o resto da análise dos "temas gerais e sinais visuais" das suas publicações, para determinar se é, em última análise, um utilizador menor de idade que não pode utilizar os seus serviços e desativar a sua conta ou adaptá-la às suas necessidades.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Mais de 40 organizações pedem apoio do Brasil a resolução da ONU sobre clima


Mais de 40 organizações da sociedade civil, incluindo a Conectas Direitos Humanos, enviaram uma carta ao governo brasileiro pedindo apoio à resolução de acompanhamento da Opinião Consultiva do Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) sobre as obrigações dos Estados diante da crise climática. A proposta será discutida na Assembleia Geral das Nações Unidas em 22 de abril.

A iniciativa é liderada por Vanuatu, com apoio de um grupo inter-regional de países, e busca transformar o parecer jurídico da corte em ações concretas de cooperação internacional, incluindo transição justa para longe dos combustíveis fósseis, adaptação climática e respostas a perdas e danos.

A carta foi enviada ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e à ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. As organizações pedem que o país participe das negociações e apoie a adoção de uma resolução ambiciosa.

Link para o documento na íntegra (PDF): Carta à Missão Brasileira na ONU - TIJ e Crise Climática

sábado, 28 de março de 2026

'Crime mais grave contra a humanidade': o que significa a resolução da ONU sobre a escravatura e o que pode mudar?


Decisão tem peso simbólico, mas reforça o debate global sobre reparações, memória e responsabilidades históricas

A decisão da Assembleia Geral da ONU de classificar o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como “o crime mais grave contra a humanidade” amplia o reconhecimento internacional sobre a gravidade do sistema escravagista e os seus efeitos duradouros. Embora não tenha caráter vinculativo — ou seja, não obriga os países a adotar medidas concretas —, a resolução é vista como um marco político que pode fortalecer as pressões por reparações e por medidas de reconhecimento histórico.

A formulação destaca o tráfico de africanos entre os séculos XV e XIX, período em que entre 12 e 15 milhões de pessoas foram levadas à força para as Américas, registando-se cerca de 2 milhões de mortes durante a travessia.

Para o secretário-geral António Guterres, o sistema foi “construído sobre vidas roubadas e trabalho roubado” e constituía “uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças”.

Reconhecimento político e efeitos práticos
Na prática, a resolução não obriga os países a adotar medidas concretas, mas eleva o estatuto do tema dentro das Nações Unidas.

“Já é um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico”, afirmou Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo na Human Rights Watch, à BBC.

Especialistas apontam que o principal efeito pode ser o fortalecimento das exigências de reparações, que incluem:
  1. Compensações financeiras;
  2. Pedidos formais de desculpa;
  3. Criação de fundos;
  4. Investimentos em educação.
Para a líder do Fórum Africano da Diáspora, Erieka Bennett, o reconhecimento tem um impacto emocional direto:
“Isto significa que eu sou reconhecida, significa que o meu ancestral finalmente descansa. Para mim, pessoalmente, como afro-americana, estou emocionada. Até que faça parte do que aconteceu, é muito difícil entender o que isso realmente significa.”

A resistência e os valores em debate
O tema enfrenta resistência de países como os Estados Unidos e o Reino Unido, que rejeitam reparações financeiras diretas. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Lammy, afirmou que “não se trata de transferência de dinheiro”. Entre os argumentos contrários estão a dificuldade de responsabilizar as gerações atuais e de identificar os descendentes diretos.

Os valores em discussão variam amplamente. As estimativas citadas incluem:
  • Pelo menos 33 biliões de dólares, em propostas associadas à Caricom;
  • Até 107 biliões de dólares, segundo Patrick Robinson.
Para o analista jurídico Luke Moffett, “legalmente, é uma montanha enorme que não pode ser escalada".
“Mas isso não significa que as partes envolvidas não devam sentar-se e negociar. As pessoas, no entanto, não devem esperar biliões de dólares. Também é provável que estas discussões levem décadas para chegar a algum tipo de acordo”, explica.

Além do dinheiro
Há uma crescente ênfase em medidas não financeiras. Segundo a representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Sara Hamood, o aspeto financeiro é "apenas uma parte".
“Temos dito repetidamente que nenhum país enfrentou plenamente o legado da escravatura ou contabilizou de forma abrangente os seus impactos na vida das pessoas de ascendência africana. Pedidos formais de desculpa, o esclarecimento da verdade e a educação fazem parte de um amplo conjunto de medidas”, afirma.

Para os defensores, a resolução é um avanço, mas ainda insuficiente. A académica e ativista Esther Xosei duvida que a votação da ONU, por si só, tenha efeitos reais:
“É uma boa vitória [para o movimento por reparações], mas lembremo-nos de que isto é apenas uma declaração de intenções. Os corações e as mentes não serão conquistados na ONU. A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão desinformadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

A classificação também gerou críticas. Para o vice-embaixador dos EUA na ONU, Dan Negrea, há um equívoco em hierarquizar os crimes contra a humanidade:
“A afirmação de que alguns crimes contra a humanidade são menos graves do que outros diminui objetivamente o sofrimento de inúmeras vítimas e sobreviventes de outras atrocidades ao longo da história”, explica.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Rede Mais Sombria: no interior dos cantos mais ocultos da internet para salvar crianças

Este documentário relata a perspetiva de agentes de infiltração online e analistas de várias agências internacionais que dedicam as suas vidas a combater as redes mais extremas de abuso sexual de menores na dark web. Através de relatos na primeira pessoa, o documentário detalha investigações marcantes:

  • O Caso "Lucy": Uma investigação minuciosa que durou meses. A equipa conseguiu localizar uma criança abusada nos EUA através da análise detalhada de elementos em segundo plano nas imagens — especificamente, o modelo de um conjunto de mobília e a identificação do tipo exato de tijolo usado na parede do quarto (Flaming Alamo), o que permitiu delimitar a busca geográfica e prender o agressor.

  • A Operação "Twinkle": A caça a um dos administradores do fórum Babyheart, dedicado ao abuso de bebés. O suspeito foi traído pelo uso inadvertido de uma expressão idiomática traduzida do português ("custou-me os olhos da cara") e pela identificação de uma condição de pele visível nas fotos da sua mão. Acabou por ser detido numa zona rural em Portugal, onde tinha enterrado os discos rígidos com as provas.

  • O Caso "Lubasa": A detenção, no Brasil, do "mestre marionetista" responsável pela gestão técnica e alojamento de vários dos maiores fóruns criminosos da dark web.

  • O Resgate de LBO (Lover Boy Only): O caso urgente de um utilizador que raptou um menino de sete anos na Rússia. Graças ao trabalho transfronteiriço e à análise de base de dados, a equipa identificou o agressor (Dmitriy Kopylov) através do cruzamento de dados sobre esquizofrenia, a profissão do irmão e a morte da mãe. O rapaz foi resgatado com vida após mais de 50 dias em cativeiro.

O documentário também aborda o profundo impacto psicológico e o trauma secundário sofrido pelos próprios investigadores (como depressão, isolamento e stresse pós-traumático) devido à exposição contínua a conteúdos de extrema violência.

Saber mais:

  1. A prisão de brasileiro que abalou rede global de abusadores de crianças
  2. Greg Squire in Storyville: The Darkest Web

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Ego Eris - Tempo Implacável


Curiosidade sobre o nome
O nome vem da frase em latim "Tu fui, ego eris", que significa "O que tu és, eu fui; o que eu sou, tu serás". É uma expressão clássica encontrada em epitáfios e mementos mori, lembrando a todos sobre a inevitabilidade da morte — um tema central na estética da banda.

Letra
Se abraçando à fúria que sufoca 
Pra tentar esquecer
Se agarrando à fuga que lhe trás a paz
Sem ter que adormecer

Aprisionado em tristes e simples ilusões 
Não há mais nada para ver
Feliz enquanto voa em seus sonhos
Antes do anoitecer

Encontraria a chave que lhe prende
Libertaria todo aquele mal
Sem pensar

Como podemos ter tempo se é o tempo que nos tem?
Não conhecemos o nosso fim, mas o nosso fim nos conhece [2X]

sábado, 31 de janeiro de 2026

José Lemos e Brio - Las estreyas


Pintura Kees van Dongen (1877-1968) - "Recuerdo de Toledo"

Resenha do álbum Romance (with Brio, 2008)
"Se ainda não ouviu Lemos cantar — e deveria realmente presenciar a sua performance ao vivo, pois é um artista muito carismático — irá reparar como a sua qualidade vocal e expressividade possuem uma intensidade quase 'nervosa', que difere da técnica de legato mais lírica e cristalina de, digamos, David Daniels ou Andreas Scholl. Parte disso deve-se à natureza das canções, que exigem ênfases emocionais que, ocasionalmente, priorizam a paixão profunda em detrimento da pura beleza do timbre. E Lemos domina completamente tanto o seu material musical, que envolve em grande parte os floreados e as melodias microtonais características da música do Médio Oriente, como a língua, seja o espanhol ou o ladino (a 'língua nativa dos judeus ibéricos')."

Las estreyas de los cielos,querida,
Eyas son que arrelumbran,
En eyas no hay firmeza,Nin~a de mi corazon,
Ya me abasta la mia passion.

Prima vez que yo te vide, querida,
En mi alma entrates,
Rayos de sol me dates,
Nin~a de mi corazon.
En mis ojos relumbrates.

Una cosa te dire', querida,
El mundo no queda ansi',
Muchas cosas yo pensi',
Nin~a de mi corazon Ainda no te alcanci'.

Ten pasiensia con ti,querida,
En estos dias speras tu avenir,
Que mos sera' briyante,
Nin~a de mi corazon
Mi amor en ti fondi yo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Elektrokohle - Vollmond



A canção “Vollmond” do Elektrokohle foi lançada como single e vídeo oficial em março de 2023, sendo parte do EP de estreia do grupo - que saiu primeiro em 22 de fevereiro de 2023 e depois teve o vídeo de Vollmond publicado em 19 de março de 2023.

“Vollmond”, que significa literalmente “lua cheia” em alemão, é uma música bilíngue (alemão e italiano) que explora a sensação de inquietação e mudança provocada pela lua cheia. Liricamente e sonoramente, a canção utiliza a lua como símbolo de emoções intensas que sobem e descem como as marés, refletindo ansiedade e pensamentos que emergem à tona, enquanto cria uma atmosfera noturna sombria e quase hipnótica, com um ritmo que sugere tensão e inquietação sob a luz lunar.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Carbofascismo

Um odor pútrido emana das margens do Lago Maracaibo, no oeste da Venezuela, uma região pontilhada por plataformas petrolíferas.

O que é “carbofascismo”?
Carbofascismo é um termo teórico usado para descrever uma tendência político‑ideológica que combina negação das crises ecológicas, defesa irrestrita de combustíveis fósseis e respostas autoritárias à política ambiental, refletindo um tipo de reação de direita que protege interesses carboníferos e a fossilização política da sociedade em detrimento de democracia ecológica ou justiça climática. Em outras palavras, ele denuncia uma visão política que prioriza a expansão contínua do uso de carbono fóssil (petróleo, carvão, gás) mesmo quando isso ameaça ecossistemas, sociedades e direitos humanos.

O termo é usado em pesquisas críticas sobre as conexões entre dependência de combustíveis fósseis, políticas autoritárias e resistência à transição ecológica. Não se refere a um partido ou movimento claramente definido historicamente, mas a um padrão ideológico observável em certas respostas políticas às crises climáticas e ecológicas.

Quem e quando foi cunhado?
O conceito de carbofascismo foi proposto pelo historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz, segundo estudos posteriores de outros pesquisadores.

Jean‑Baptiste Fressoz é um historiador ambiental francês que aparece como a pessoa que coincidentemente introduziu o termo (ou pelo menos sua forma teórica original) para descrever essa combinação de negacionismo climático, defesa de combustíveis fósseis e elementos autoritários de governo e política.

O ensaio de Antoine Acker intitulado What Could Carbofascism Look Like? (Que aspecto o carbofascismo poderia ter?) expõe e discute este conceito a partir de uma perspectiva histórica e crítica, indicando que o termo foi cozinhado no debate académico sobre crise climática e política autoritária no contexto da pandemia de COVID‑19 e das respostas políticas globais.

Ou seja: não é um termo histórico clássico como “fascismo” (inventado nos anos 1910), mas sim um neologismo relativamente recente no debate académico, especialmente na historiografia ambiental crítica da última década.

Contexto de uso
O carbofascismo aparece em análises críticas de políticas públicas, movimentos sociais e respostas governamentais à crise climática, frequentemente ligadas ao estudo de como interesses econômicos fósseis influenciam e moldam democracias para preservar combustíveis sujos e bloquear medidas ambientais urgentes.

Isso é diferente, por exemplo, de ecofascismo — outro neologismo na crítica política — que costuma focar em extrema direita que usa a ecologia como pretexto para políticas autoritárias ou racistas, enquanto o termo carbofascismo enfatiza a defesa de combustíveis fósseis e a resposta política autoritária à crise climática.

Resumo rápido
Definição: ideologia política crítica que conecta defesa de combustíveis fósseis, negação de crises ecológicas e tendências autoritárias.

Origem do termo: cunhado no debate académico contemporâneo, ligado ao historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz e analisado em ensaios como o de Antoine Acker.

Quando surgiu: no debate ecológico e político das últimas décadas (especialmente na era COVID‑19 e da intensificação do debate climático), portanto é um neologismo recente.

Fontes:

sábado, 20 de dezembro de 2025

Clarice Lispector - Estado de Graça

Santuário Cósmico
"Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. E uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável."

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Hilda Hirst


Dez chamamentos ao Amigo
"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento." ~ Hilda Hirst

Foto minha.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A Colômbia proíbe todos os novos projetos de petróleo e mineração no seu território


Colombia will no longer approve new oil or large-scale mining projects in its Amazon biome, which covers 42% of the nation’s territory, according to a Nov. 13 statement by its environment ministry.

Acting Environment Minister Irene Vélez Torres said the entire Colombian Amazon will be made a reserve for renewable natural resources. She made the announcement at a meeting of ministers with the Amazon Cooperation Treaty Organization, during COP30, the U.N. climate summit taking place in Belém, Brazil.

“This declaration is an ethical and scientific commitment. It seeks to prevent forest degradation, river contamination and biodiversity loss that threatens the continent’s climate balance,” Vélez said.

She also called on other Amazonian nations to adopt similar protections, highlighting that Colombia controls just 7% of the Amazon biome. Across the Amazon, 871 oil and gas blocks cover an area roughly twice the size of France; 68% of the blocks are still in the study or bidding phases.

“We do this not only as an act of environmental sovereignty, but as a fraternal call to the other countries that share the Amazon biome, because the Amazon does not know borders and its care requires us to move forward together,” Vélez added.

Brazil, which controls nearly 60% of the Amazon, has moved in the opposite direction over the past year, despite successfully cracking down on deforestation. The nation auctioned off several oil blocks near Indigenous lands and approved drilling for an offshore site at the mouth of the Amazon River.

Peru is courting foreign oil companies to restart production at Lot 192, a huge Amazonian crude oil site in in the north of the country. The Ecuadorian government is planning to auction off 49 oil and gas projects worth more than $47 billion, despite protests.

In Colombia, 43 oil blocks and 286 mining requests haven’t yet broken ground. The new measure, the ministry says, will prevent these projects from going forward. “Their activation could put the climate balance of the continent at risk,” the environment ministry wrote in a statement.

At another COP30 event, Vélez criticized a mechanism that allows corporations to sue governments for losses caused by environmental policies, saying it infringes on state sovereignty. Such a system, she noted, makes it difficult for a nation to outlaw existing extractive industries without facing significant penalties.

“Future generations must be able to find nature in a healthy state, the way we have known it,” María Soledad Hernández, coordinator of the sustainability program with the Colombia-based Amazonian Institute for Scientific Research, said in a video statement.

“Talking about conservation does not mean talking about not making use of it. Talking about conservation means being sustainable, being responsible and having activities that are balanced and in harmony with nature,” she added.

A 2023 U.N. report called “Paying polluters” found that the ISDS, referred to as a “secretive international arbitration process,” had awarded more than $100 billion to fossil fuel and mining industries.

The report highlighted a case of three Australian mining corporations seeking $37 billion from the Republic of Congo for revoking their iron ore mining permits, citing project delays. The amount claimed is more than twice the nation’s annual GDP.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Novo relatório "A COP dos Lobbies" alerta que muitas corporações usam a COP30 para promover interesses privados sob a fachada de sustentabilidade

Pode descarregar aqui

Para além da denúncia do Intercept, outro relatório "A COP dos Lobbies" alerta que muitas corporações usam a COP30 para promover interesses privados sob a fachada de sustentabilidade.

A investigação de 94 páginas analisou oito grandes companhias — Bayer, BTG Pactual, Cosan, Itaú, Marfrig/MBRF, Norsk Hydro, Suzano e Vale — e concluiu que essas empresas têm usado a COP30 como vitrine para reforçar as suas marcas sob o discurso da “transição verde”, apesar de acumularem extensos passivos ambientais. O documento aponta que a conferência vem sendo moldada para favorecer projetos de descarbonização e créditos de carbono, que transformam a preservação ambiental em oportunidade de mercado.

Segundo o relatório, as empresas vêm financiando pavilhões e eventos paralelos em Belém, como a AgriZone, patrocinada pela Bayer, e a Estação do Desenvolvimento, ligada à Cosan, muitas vezes em parceria com ministérios e governos locais. A prática levanta suspeitas sobre conflitos de interesse, uma vez que os mesmos órgãos públicos responsáveis por fiscalizar essas companhias participam dos espaços financiados por elas.

Um exemplo citado é o fato de que o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, deverá despachar da AgriZone, espaço custeado pela Bayer, durante a conferência. Para os pesquisadores, essa aproximação entre poder público e corporações enfraquece a independência das negociações e legitima a agenda empresarial dentro da COP.

Greenwashing
Além da presença física nos espaços da COP30, o relatório aponta uma estratégia coordenada de greenwashing estrutural. As corporações investem pesado em comunicação e patrocínios à mídia para se apresentarem como líderes da sustentabilidade.
Cinco das oito empresas analisadas financiaram a cobertura jornalística da COP30 em grandes veículos de comunicação, como Globo, Folha, Estadão, CNN e Liberal. Há ainda o registro de treinamentos e viagens para jornalistas custeados por Itaú e Norsk Hydro, com o objetivo de influenciar a percepção pública sobre seus projetos “verdes”.

As contradições
O relatório dedica capítulos específicos para ilustrar as contradições das empresas que se apresentam como protagonistas da agenda climática.
A Bayer, por exemplo, é acusada de violações de direitos em comunidades da América do Sul e de pulverizar agrotóxicos sobre aldeias do povo Ava Guarani, em Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, lidera iniciativas de “agricultura tropical” e promove uma nova “Revolução Verde” na COP30.
Já a Vale é lembrada pelos desastres de Mariana e Brumadinho. Segundo o estudo, enquanto a mineradora investe R$ 430 milhões em negócios de impacto socioambiental, enfrenta ações judiciais relativas a degradação ambiental, contaminação de poços e danos à saúde pública, cujo valor é 65 vezes maior que o investimento.

Os bancos Itaú e BTG Pactual, embora se apresentem como financiadores da restauração florestal, ocultam o histórico de apoio a desmatadores e setores de alto impacto ambiental. No caso do BTG, o relatório destaca a comercialização de créditos de carbono baseados em plantações comerciais de eucalipto e pinus.

A influência empresarial também se manifesta na criação de coalizões e grupos de lobby que buscam legitimar a presença corporativa nas negociações climáticas. Entre elas estão a Sustainable Business COP30 (SBCOP), a Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E.) e a Brazil Restoration and Bioeconomy (BRB) Finance Coalition, todas patrocinadas por bancos e mineradoras.

Essas articulações, segundo o relatório, consolidam a financeirização da natureza e deslocam o debate climático para um eixo econômico, em detrimento de pautas de justiça ambiental e dos direitos de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, que historicamente protegem os ecossistemas e agora lutam por espaço dentro da conferência.

COP30 favorece protagonismo de corporações
O relatório “A COP dos Lobbies” alerta que, sem mecanismos robustos de transparência e regulação do lobby empresarial, as conferências do clima correm o risco de se tornarem plataformas de legitimação do greenwashing corporativo.

Para os pesquisadores, o protagonismo das corporações na COP30 ameaça o caráter público e científico das negociações, transformando a conferência em um evento voltado mais à reputação empresarial do que à busca por soluções reais para a crise climática.

O estudo sinaliza que os verdadeiros defensores da natureza, as comunidades tradicionais, cientistas e movimentos sociais, estão sendo empurrados para os espaços secundários, enquanto os principais poluidores conduzem o debate global sobre o clima.

A COP30 é patrocinada por empresas com notórias responsabilidades em violações e desastres ambientais



Primeira cúpula do clima na Amazônia, a COP30 deveria ser um espaço de discussão de soluções e metas para enfrentar a crise climática. Mas ela pode virar palanque de quem quer lucrar mais enquanto destrói o planeta. Nossa cobertura mostra os interesses corportativos e políticos por trás do discurso de sustentabilidade promovido durante a COP30.

Envolvida nos rompimentos das barragens de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, duas das principais tragédias socioambientais do Brasil na última década, a Vale é a principal patrocinadora da cobertura da imprensa tradicional brasileira sobre a COP30.

Um levantamento do Intercept Brasil mostra que a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal.

Mas a Vale não é a única empresa envolvida em desastres e crimes ambientais na última década que está financiando a cobertura jornalística brasileira da maior conferência sobre clima do mundo.

As notícias sobre a COP30, evento que começa oficialmente nesta segunda-feira, 10, em Belém e almeja traçar compromissos e metas globais para lidar com a crise climática, também estão sendo bancadas por outras corporações apontadas como grandes contribuintes do colapso do planeta.

A segunda empresa que mais está patrocinando a cobertura da mídia tradicional sobre a conferência, segundo o levantamento, é a gigante da indústria da carne JBS, financiando sete veículos: CBN, Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Valor Econômico, Veja e Neofeed.

Maior produtora de proteína animal do mundo, a JBS é também a empresa do setor de carne que mais emite gases do efeito estufa no planeta, segundo um relatório recente da ONG Profundo que avaliou o impacto climático da indústria de carne e laticínios.

Completam a lista das empresas que mais patrocinam as coberturas da COP neste ano no Brasil duas gigantes com histórico de violações ambientais. A primeira é a Hydro, multinacional norueguesa do setor de alumínio, condenada pela Justiça Federal no ano passado a pagar R$ 100 milhões por um desastre ambiental em Barcarena, no Pará.

A segunda é a Suzano, gigante do setor de papel e celulose, envolvida em denúncias de uso de agrotóxicos e violações de direitos contra comunidades quilombolas em diferentes regiões do país.

Ambas patrocinam quatro veículos cada. A Hydro está apoiando a cobertura de CNN, Estadão, Exame e do jornal O Liberal, do grupo Liberal de comunicação, do Pará, estado-sede da COP30. Já a Suzano patrocina CBN, O Globo, Valor Econômico e Capital Reset.

Na lista das empresas patrocinadoras do jornalismo tradicional durante a COP ainda estão empresas como a Ambipar, que patrocina a cobertura da Exame, Folha de S.Paulo e Estadão, enquanto lidera projeto de carbono que pretende usar terras públicas e está impedindo pescadores de trabalhar na Ilha do Caju, no Maranhão, em aliança com um empresário sueco. Procurada, a Ambipar afirmou que não irá se posicionar.

Outra patrocinadora é a Philip Morris Brasil, gigante do setor de tabaco que já teve entre seus fornecedores, segundo a Repórter Brasil, uma fazenda investigada por manter um cemitério de animais silvestres em canais de irrigação. Procurada pela reportagem, a Philip Morris Brasil afirmou que “seus contratos com empresas de mídia não envolvem qualquer influência em conteúdo jornalístico” e que “todos os conteúdos institucionais produzidos pela empresa são devidamente sinalizados em todas as publicações”.

No total, segundo o levantamento do Intercept, 59 entidades diferentes, entre empresas privadas, multinacionais, governos, farmacêuticas, bancos, supermercados e ONGs, patrocinam a cobertura da imprensa na COP30.

Para fazer o levantamento, o Intercept considerou dados de TVs, rádios, veículos impressos e online com maior alcance, segundo o Reuters Digital News Report 2025, relatório produzido anualmente pelo Instituto da Reuters na Universidade de Oxford, na Inglaterra, que analisa as tendências de consumo de mídia.

Também foi feita uma pesquisa manual, por meio de buscadores online, utilizando termos combinados como “patrocínio”, “cobertura”, “apoio” e “COP30”, entre os meses de setembro e outubro, além de uma pesquisa nas redes sociais dos veículos.

O levantamento ainda apontou que pelo menos 13 veículos de comunicação brasileiros tiveram patrocínios de empresas privadas, ao longo deste ano, com foco na conferência do clima. Além do patrocínio direto à cobertura, também foi disponibilizada verba corporativa para a realização de séries de debates e formações para jornalistas.
Os interesses por trás do patrocínio

O patrocínio dessas empresas à cobertura da COP30 não significa necessariamente uma influência na linha editorial das reportagens publicadas. No entanto, segundo Melissa Aronczyk, professora da escola de comunicação da Rutgers University, uma das principais pesquisadoras do mundo sobre influência das empresas poluidoras na mídia e autora do livro “Natureza Estratégica”, a atitude das empresas deve no mínimo acender o alerta sobre interesses corporativos ao se vincular a uma agenda de sustentabilidade.

“Não existe patrocínio neutro. Nenhuma organização e certamente nenhuma empresa privada dará dinheiro, apoio ou seu nome a outra organização ou evento, a menos que veja um benefício para si mesma”, afirma Aronczyk.

Para a professora, por meio do patrocínio da cobertura noticiosa, as empresas querem promover uma associação positiva na mente das pessoas entre a marca delas e a COP30, e isso tem preceito histórico. Foi também no Brasil, durante a Rio 92, conferência considerada a mãe das COPs, que observou-se pela primeira vez na história o patrocínio corporativo tomando conta das cúpulas do clima da ONU. 

“Em 1992, líderes de empresas, agências de relações públicas, publicitários e lobistas vieram ao Rio para garantir que a voz das empresas fosse representada. E isso só piorou a cada ano, desde então. Temos mais de 30 anos de cooptação da Cúpula das Nações Unidas sobre o Clima”, diz Aronczyk.

O que mineradoras e empresas do agro tentam fazer agora na COP do Brasil, com tentativas de usar os veículos de comunicação para limpar a própria imagem, está no DNA da expansão de setores como os da mineração, carvão, produtos químicos e petróleo e gás.

“Os primeiros clientes das empresas de relações públicas eram empresas poluidoras que tinham o desejo de promover uma imagem positiva, mesmo enquanto continuavam poluindo”, analisa Aronczyk.

Nas décadas de 1970 a 1980, com a ascensão do discurso sobre mudanças climáticas, as empresas de combustíveis fósseis passaram a trabalhar em estreita relação com agências de relações públicas. Mas, enquanto naquela época o foco delas era negar as mudanças do clima, hoje o objetivo dessas empresas ao usar a mídia é outro: atrasar a busca e o encontro de soluções.

“São formas sutis de obstrução climática, que envolvem manipular jornalistas ou manipular os veículos de comunicação, com o uso de mídias sociais e influenciadores também, para divulgar mensagens e outros tipos de campanhas que atrasam as ações contra as mudanças climáticas, questionando a necessidade de políticas e regulamentações climáticas”, afirma a professora.

Coordenadora geral de pesquisa do Netlab, o Laboratório de Internet e Redes Sociais da UFRJ, a pesquisadora Deborah Salles também pondera que não é possível fazer uma correlação direta entre o patrocínio das empresas e a linha editorial das coberturas, mas alega que o financiamento levanta suspeitas sobre a capacidade de o jornalismo brasileiro cobrir temas complexos e sensíveis, inclusive para os seus patrocinadores.

“A ideia de jornalismo patrocinado é, em si, algo problemático”, pontua. Para Salles, a busca pelo patrocínio nas coberturas midiáticas da COP30 tem a função, ainda, de frear o senso crítico com relação à mineração, à exploração de petróleo e gás, mas também de garantir que os interesses dessas empresas não estejam em risco em um momento tão sensível como é o de negociações por metas e financiamento climático.

“Ao influenciar a opinião pública e tomadores de decisão e garantir que a cobertura vai continuar sendo pouco incisiva, a gente continua com essa possibilidade de passar projetos de lei da devastação e derivados. Em alguma medida, a comunicação corporativa tem como objetivo garantir mais espaço para essas empresas, e mais espaço é menos estresse para as suas atividades”, analisa Salles.

Relatório "A COP dos Lobbies" denuncia avanço do lobby corporativo na COP30 em Belém.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cop30: Desmascarar os bloqueios e exigir acção real

Em novembro de 2025, Belém do Pará, no coração da Amazónia, acolherá a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30). O lugar não é neutro: é o epicentro de uma floresta que regula o clima global e, ao mesmo tempo, uma das regiões mais ameaçadas pela desflorestação, pela exploração predatória e pela desigualdade social. Realizar a COP na Amazónia é um gesto político e simbólico: o debate climático no território onde se decide o destino do planeta.

Mas o simbolismo não basta. O mundo chega a Belém dividido, com emissões recorde e promessas incumpridas. A diplomacia climática vive uma crise de confiança, e os interesses fósseis continuam a ditar o ritmo da ação global. A COP30 será, por isso, um momento de verdade sobre o futuro coletivo da humanidade.

A crise climática é hoje uma evidência incontornável. Secas, cheias e ondas de calor extremo afetam todos os continentes e o tempo para agir esgota-se. O clima precisa de todos, mas sobretudo precisa de coragem política.

Mais de metade das emissões globais provém de empresas estatais sediadas em regimes autoritários. Das vinte maiores companhias de combustíveis fósseis do mundo, dezasseis são públicas e controladas por governos como os da China, Rússia, Irão e Arábia Saudita. Estes países tornaram-se o principal travão à descarbonização. A Rússia usa a energia como arma geopolítica; a China, responsável por cerca de 30 % das emissões globais, continua a construir centrais a carvão; o Irão e a Arábia Saudita financiam a dependência global do petróleo e bloqueiam sistematicamente o avanço dos acordos internacionais. Enfrentar esta realidade é uma exigência civilizacional.

Durante demasiado tempo, a diplomacia internacional preferiu o silêncio à verdade. Tratou por igual quem age e quem sabota, quem investe na transição e quem lucra com a destruição. Esse modelo está esgotado: não se vence uma emergência planetária com concessões a quem nega o futuro.

Mas a hipocrisia não é exclusiva das autocracias. Democracias como o Reino Unido, o Japão e o Canadá continuam a subsidiar combustíveis fósseis enquanto proclamam metas de neutralidade carbónica. Esta duplicidade mina a confiança global e fragiliza a liderança moral do mundo democrático.

A União Europeia deve abandonar a complacência e assumir o papel de força motora. É urgente aplicar de forma firme o ajustamento de carbono nas fronteiras, eliminar os subsídios ao petróleo e ao gás, e investir decisivamente na transição justa - dentro e fora de fronteiras. A diplomacia climática precisa de ser estratégica, transparente e corajosa.

A COP30 será um teste. Mais do que uma conferência, é a fronteira entre o discurso e a ação. O mundo precisa de recuperar a confiança na cooperação internacional e provar que ainda é capaz de convergir em torno do essencial: garantir um futuro habitável. A crise climática é também uma crise de desigualdade. Não haverá transição justa sem redistribuição de poder, de riqueza e de oportunidades. 

Combater a emergência climática é construir justiça social e regeneração económica. A humanidade precisa de decisões.

A justiça climática exige clareza, coragem e ação. Agora.

Diário de Coimbra, 4 de novembro de 2025

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Encontros Improváveis - Carlos Drummond de Andrade e Olga Kvasha

Olga Kvasha (pintora Ucraniana, nascida em 1976)
A Palavra Mágica

"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.

Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra."

Carlos Drummond de Andrade

Leituras importantes:
  1. O Chega e o Ódio
  2. Não há Raças: A Unidade Biológica da Humanidade
  3. Desconstruindo a ideia de "povo lusitano", ou "povo português luso" em detrimento dos "imigrantes"

terça-feira, 14 de outubro de 2025