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domingo, 16 de agosto de 2026

Greepeace alerta: um quarto da costa continental portuguesa está em recuo e décadas de pressão e construção urbanística agravam o risco no litoral

Assina a petição aqui e divulga

Novo relatório “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco” mostra como os impactos das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação e pressão urbanística e alerta para fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral.
• Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo e mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco.
• A vulnerabilidade do litoral não resulta apenas das alterações climáticas: décadas de ocupação, construção e pressão urbanística em zonas sensíveis aumentaram a exposição de pessoas, infraestruturas e ecossistemas e reduziram a capacidade natural de proteção do território.
• Portugal dispõe de legislação e instrumentos de ordenamento destinados a proteger a orla costeira, mas persistem fragilidades na aplicação, fiscalização, coordenação e atualização das regras face à evolução dos riscos.
• Um mapa interativo lançado com o relatório e que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis do território costeiro português, no continente, Madeira e Açores.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa está em recuo, mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco e a pressão sobre o litoral continua a aumentar.

A Greenpeace Portugal lançou no dia 23 de julho  um novo relatório nacional “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, que revela como os impactos crescentes das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação, construção e pressão urbanística sobre algumas das zonas mais vulneráveis do país.

O retrato é claro: a costa portuguesa está presa entre o avanço do mar e o avanço da construção.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e os fenómenos extremos estão a intensificar-se num território onde, ao mesmo tempo, se continua a exercer uma forte pressão urbanística e turística, a ocupar áreas vulneráveis e a degradar ecossistemas naturais que funcionam como primeira linha de proteção.

O problema, não é apenas a falta de adaptação à crise climática. É também o resultado de escolhas feitas ao longo de décadas sobre onde, como e quanto se constrói, e da distância que continua a existir entre as regras criadas para proteger o litoral e a sua aplicação efetiva no território.

“Portugal conhece há muito os riscos que ameaçam a sua costa. Temos conhecimento científico, legislação e instrumentos de ordenamento. Não podemos continuar a esperar que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agir. O desafio agora é transformar aquilo que sabemos em decisões políticas coerentes e numa estratégia de longo prazo capaz de proteger as pessoas, a natureza e um território que pertence a todos”, afirma Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal.

Entre o avanço do mar e o avanço da construção
Ao longo dos cerca de 2.500 quilómetros de costa portuguesa, entre o continente, Madeira e Açores, os riscos assumem diferentes formas.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo.

Mas olhar apenas para a erosão ou para o avanço do mar não permite compreender toda a dimensão do problema.

A vulnerabilidade atual resulta também da forma como o território foi ocupado ao longo de décadas. A expansão urbana e turística, a construção em áreas sensíveis e a artificialização da orla costeira aumentaram a exposição ao risco e, em muitos casos, reduziram a capacidade de adaptação dos sistemas naturais.

Para a Greenpeace Portugal, continuar a permitir novas ocupações em zonas que já são conhecidas como vulneráveis, significa criar hoje os problemas que o país terá de resolver amanhã, muitas vezes com custos públicos elevados e com consequências que poderão tornar-se irreversíveis.

Ana Farias Fonseca alerta que “Com mais de 25% do litoral continental em recuo e cerca de 100 mil pessoas a viver em zonas de elevado risco, não podemos continuar a permitir que a pressão urbanística e o desrespeito pelas regras de ordenamento e proteção ambiental ignorem os avisos da ciência. Para a Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal “A boa notícia é que estamos a tempo de salvar as praias portuguesas e, para isso, é imperativo travar novas ocupações em áreas vulneráveis e apostar na prevenção e no restauro de ecossistemas, garantindo que as decisões de hoje não se tornam em problemas irreversíveis e os custos públicos elevados de amanhã.”

Proteger a natureza é também proteger as pessoas
Dunas, sapais, zonas húmidas e outros ecossistemas costeiros desempenham um papel essencial na proteção do território.

Estes sistemas ajudam a absorver a energia das tempestades, reduzem os impactos da erosão e das inundações e aumentam a capacidade de adaptação da faixa costeira.

Quando são destruídos, degradados ou fragmentados, perde-se não apenas património natural, mas também uma parte das defesas que protegem pessoas e infraestruturas.

O relatório defende, por isso, que a resposta aos riscos costeiros não pode assentar apenas em intervenções realizadas depois dos danos. A recuperação dos ecossistemas e as soluções baseadas na natureza têm de fazer parte de uma estratégia preventiva de adaptação.

A lei existe. Falta fazê-la valer no território
O relatório conclui que Portugal não parte do zero. O país dispõe de legislação, planos de ordenamento da orla costeira, instrumentos de gestão territorial e conhecimento científico sobre grande parte dos riscos que afetam o litoral – um primeiro passo na direção certa. O problema está, em muitos casos, na implementação.

A Greenpeace Portugal identifica fragilidades na aplicação e fiscalização das regras, na articulação entre diferentes entidades e níveis de decisão e na capacidade de atualizar os instrumentos existentes à velocidade a que os riscos estão a evoluir.

O resultado é um território onde continuam a existir tensões entre a necessidade de proteger a costa e a pressão para ocupar e construir em áreas cada vez mais vulneráveis.

Para a Greenpeace Portugal, a proteção do litoral exige também maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos à costa e às praias.

Não se trata, sublinhamos, de impedir qualquer desenvolvimento económico ou atividade turística no litoral. Trata-se de garantir que as decisões tomadas hoje não aumentam os riscos de amanhã e que o interesse público e a proteção do território prevalecem sobre opções de curto prazo.

Um mapa para mostrar o risco no terreno
O relatório é acompanhado por um mapa interativo que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis da costa portuguesa. Da Costa da Caparica a Espinho, da Costa Nova à Figueira da Foz, de Tróia, Comporta, Carvalhal e Melides ao litoral alentejano, do Algarve à Madeira e aos Açores, o mapa permite visualizar diferentes faces de um mesmo problema: erosão e recuo da linha de costa, pressão urbanística, ocupação de zonas vulneráveis, degradação de ecossistemas e dificuldades de adaptação às alterações climáticas.

O objetivo não é criar um ranking das zonas mais graves, mas mostrar que o risco assume diferentes formas ao longo de todo o território e que nenhuma região pode ser analisada isoladamente da forma como Portugal decide ocupar, proteger e adaptar a sua costa.

Menos reação, mais prevenção
Para a Greenpeace Portugal, responder à erosão e à subida do nível do mar apenas com obras de emergência, alimentação artificial de praias ou estruturas rígidas de defesa não será suficiente para enfrentar a dimensão do problema.

A resposta exige uma política nacional que antecipe o risco e coloque a prevenção no centro das decisões.

A Greenpeace Portugal exige:
• O cumprimento efetivo da legislação e dos instrumentos de ordenamento e proteção do litoral, acompanhado de fiscalização adequada;
• A suspensão de novas ocupações e construções incompatíveis com zonas identificadas como vulneráveis ou de risco;
• A proteção, recuperação e renaturalização dos ecossistemas costeiros, incluindo dunas, sapais, zonas húmidas e outros sistemas naturais essenciais para a proteção do território;
• Maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos ao litoral;
• Uma estratégia de adaptação que antecipe os riscos, proteja as populações mais vulneráveis e integre critérios de justiça climática e social;
• A redução rápida das emissões de gases com efeito de estufa e da dependência dos combustíveis fósseis, enfrentando a causa da crise climática que está a acelerar os riscos sobre a costa.

Com “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a Greenpeace Portugal pretende colocar uma escolha no centro do debate público e político: continuar a reagir depois dos danos ou começar, finalmente, a evitar que o risco continue a aumentar.
Para uma melhor experiência de leitura, recomendamos a visualização em “Duas páginas”, com a opção “Mostrar a página de rosto em separado” ativada.

Material para os OCS: 
  1. Relatório completo Português: aqui
  2. Relatório completo Inglês: aqui 
  3. Resumo Executivo: aqui
  4. Mapa interativo: aqui
  5. Fotos e vídeos do relatório: aqui
  6. Petição: aqui

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Existe uma relação direta entre ecossistemas da machosfera e o movimento antivacina

Existe uma relação direta e documentada entre os ecossistemas da machosfera e o movimento antivacinas, uma convergência que é ilustrada na perfeição pelo conteúdo da imagem associado a Andrew Tate. Esta ligação assenta sobretudo na partilha de uma visão do mundo profundamente cética em relação às instituições estabelecidas e numa narrativa de resistência individual.

O principal ponto de contacto entre estas duas subculturas é a rejeição do que apelidam de "sistema" ou a Matrix. Tanto os grupos da machosfera como os ativistas antivacinas partilham a premissa de que os governos, os meios de comunicação social e a comunidade científica manipulam a população para manter o controlo. A metáfora da red pill - a ideia de tomar a pílula vermelha para "despertar" para a verdade oculta - é amplamente utilizada em ambos os universos, criando um terreno fértil para que teorias da conspiração sobre a saúde pública encontrem adesão junto de audiências que já desconfiam das narrativas oficiais.

Além disso, a cultura do fitness, da masculinidade dita "Alfa" e do biohacking, muito presente na machosfera, promove uma obsessão pela pureza biológica e pela autonomia física. Neste contexto, as vacinas são frequentemente retratadas como intervenções externas desnecessárias ou até prejudiciais à virilidade, à fertilidade e aos níveis naturais de testosterona. O cumprimento de orientações sanitárias ou a aceitação de vacinas é por vezes associado a traços de passividade, fraqueza ou submissão, enquanto a recusa é vendida como um ato de força, independência e rebeldia masculina.

Por fim, os próprios algoritmos das plataformas digitais facilitam esta sobreposição. Um utilizador que consome conteúdos sobre masculinidade tradicional ou conselhos de sedução é frequentemente direcionado para círculos de desinformação médica, teorias conspiratórias e políticas de extrema-direita.

Figuras influentes deste meio aproveitam estes tópicos fraturantes para gerar controvérsia, aumentar o envolvimento nas redes sociais e reforçar a sua imagem de líderes destemidos que desafiam o consenso geral.

Who is Andrew Tate?

Referências Bibliográficas
Ler mais:

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A geopolítica do cacau: soberania económica, agroecologia e a resistência à monocultura biotecnológica

A recente melhoria nas condições meteorológicas em importantes regiões produtoras trouxe um alívio temporário ao mercado internacional do cacau. De acordo com análises do setor (como as divulgadas pelo portal Mercado do Cacau), a chuva regular favoreceu o desenvolvimento das lavouras, permitindo que a cotação da matéria-prima ensaiasse uma recuperação. No entanto, esse impulso nas bolsas de commodities continua a ser limitado pela acumulação de estoques nos principais portos importadores e pela volatilidade da procura global.

Embora o suporte climático ofereça uma trégua a curto prazo, a cadeia de abastecimento global ainda carrega as cicatrizes do forte défice causado pelo fenómeno El Niño. Os países da África Ocidental - em especial a Costa do Marfim e o Gana, que juntos concentram mais de metade da oferta mundial, além da Nigéria e dos Camarões - continuam a enfrentar desafios estruturais profundos, como o envelhecimento dos pomares, a degradação dos solos e a persistência de doenças como a podridão-parda e o vírus do broto inchado.

Segundo dados estatísticos da International Cocoa Organization (ICCO), o mercado global caminha para um reequilíbrio delicado, passando dos déficits recordes de safras anteriores para uma projeção de pequeno superávit.

Análises detalhadas do International Food Policy Research Institute (IFPRI) revelam que a vulnerabilidade do setor não resulta apenas do clima, mas de uma rigidez estrutural: a dependência da exportação de grãos em bruto e o modelo de monocultura intensiva, que expõe os pequenos agricultores à especulação dos mercados globais.

1. A encruzilhada tecnológica: a pressão do CRISPR e da cultura celular
Como resposta à crise, o Norte Global e as multinacionais agroalimentares têm acelerado a promoção de soluções laboratoriais e patenteadas:
  • Edição genómica (CRISPR/Cas9): Investigações focam-se no desenvolvimento de cacaueiros geneticamente alterados para resistir a fungos e secas, com estudos publicados em revistas como a Nature. Nos EUA (via regras do USDA- SECURE) e progressivamente na UE (através da regulamentação de Novas Técnicas Genómicas - NGT 1 supervisionada pela EFSA), estas plantas caminham para a isenção do rótulo de OGM.
  • Cultura celular e sintéticos: Startups desenvolvem massa de cacau em biorreatores industriais ou alternativas sem cacau por fermentação de precisão, visando suprir a oferta sem depender do cultivo agrícola tradicional.
Para muitos peritos e organizações dos países produtores, este caminho não resolve as causas profundas da crise: transfere o controlo da produção agrícola para patentes corporativas e arrisca marginalizar milhões de pequenos agricultores na África Ocidental.

2. As vias de empoderamento e soberania dos países produtores
Em alternativa à dependência de patentes de laboratório, especialistas em agronomia tropical e economia de desenvolvimento apontam para quatro pilares fundamentais de autonomia e resiliência:

A. Agroecologia e Sistemas Agroflorestais (SAFs)
Em vez de modificar o DNA da planta para suportar solos degradados e Sol pleno, os Sistemas Agroflorestais recriam o ecossistema original do cacaueiro. Ao cultivar cacau sob a copa de árvores nativas, fruteiras e espécies florestais:
  • Mantém-se a humidade do solo e reduz-se a temperatura local em vários graus, anulando os efeitos térmicos do El Niño.
  • Promove-se o controlo biológico de pragas, eliminando a necessidade de pesticidas sintéticos.
  • Garante-se a diversificação de rendimentos dos agricultores com a venda de frutas, madeira e outros alimentos.
B. Processamento Local e Retenção do Valor Acrescentado
A África Ocidental exporta tradicionalmente a matéria-prima em bruto, retendo menos de 10% do valor final de um mercado global avaliado em mais de 100 mil milhões de dólares. O verdadeiro empoderamento passa pela industrialização nacional na Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões, transformando o grão em manteiga, massa e chocolate acabado antes da exportação, retendo os lucros e gerando emprego qualificado localmente.

C. Negociação Coletiva de Mercado (LID - Livelihood Income Differential)
Através de alianças regionais entre governos produtores, a implementação do prémio fixo por tonelada (LID) sobre o preço de mercado assegura um rendimento mínimo digno aos agricultores. O fortalecimento do comércio justo (Fairtrade) e o poder de negociação em bloco impedem que as multinacionais imponham preços abaixo do custo de produção.

D. Seleção Tradicional e Bancos de Germoplasma
O melhoramento agronómico tradicional - com seleção de variedades locais naturalmente resistentes a pragas e secas, aliado a técnicas de enxertia - permite renovar os pomares sem recorrer a transgenia ou CRISPR, preservando o património genético nativo e a autonomia das sementes.

3. Matriz Comparativa de Modelos de Desenvolvimento
DimensãoModelo Tecnológico Ocidental (CRISPR / Biorreatores)Modelo de Soberania Agroecológica (SAFs / Industrialização Local)
Soberania e PropriedadeDependência de patentes e empresas de biotecnologiaControlo comunitário, estatal e dos pequenos agricultores
Resiliência ClimáticaModificação genética da planta (solução laboratorial)Restauração do microclima e da biodiversidade florestal
Modelo EconómicoManutenção da importação de matérias-primas baratasProcessamento local e retenção do valor acrescentado
Rácio de RiscosPerda de mercado para os produtores tradicionaisProteção da biodiversidade e diversificação de rendimentos
A crise do cacau na África Ocidental expôs os limites da monocultura tradicional. No entanto, o futuro do setor não precisa de passar pela entrega do património agrícola a laboratórios estrangeiros: a combinação de agroecologia, justiça comercial e industrialização nos países de origem posiciona-se como a resposta mais duradoura, justa e sustentável.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Bem-vindo a 2030": por que razão não terá nada (e não será feliz)


“Bem-vindo a 2030. Eu sou dono de nada, não tenho privacidade e a vida nunca foi melhor”. Esta frase aparentemente contraditória é o título de um artigo publicado pelo Fórum Económico Mundial em 2016, da autoria de Ida Auken, uma parlamentar da Dinamarca.
A ideia dela nunca foi fazer uma profecia, mas sim especular sobre um futuro dominado pela economia circular - e ali descreve uma realidade em que ficou tão fácil, rápido e barato simplesmente alugar e usar imediatamente qualquer coisa, que já nem faz sentido ser proprietário de algo. Na teoria detalhada no texto, este verdadeiro ecossistema de acesso contínuo permitiria a todos ter o que quisessem quando desejassem, tudo isso com energia limpa, zero desperdício e muito mais tempo livre.
Ainda faltam alguns anos para chegarmos a 2030, mas na prática o que este caminho tem vindo a gerar é uma dependência crescente e escassez artificial.

Nos últimos 10 anos, pode dizer-se que a imaginação de Ida Auken conseguiu antecipar uma dinâmica real, mas errou redondamente no diagnóstico humano e económico. A nossa realidade está a caminhar na direção de não sermos donos de coisa nenhuma e não termos privacidade, mas tanto as causas como as consequências desta situação não têm o mesmo tom cor-de-rosa de otimismo da previsão.

O ciclo da "Merdificação": do encanto da Netflix à morte dos suportes físicos
Um bom exemplo de como e por que razão as coisas descarrilaram é o mercado do entretenimento, especificamente o de filmes e séries. A plataforma de streaming da Netflix mostrava em 2016 quão bom poderia ser abdicar de querer ser dono das coisas. Em vez de gastar rios de dinheiro a construir coleções de DVDs e a subscrever canais e mais canais de TV por cabo, bastava pagar uma mensalidade mais barata do que uma pizza e tinha-se acesso imediato e irrestrito a um catálogo de filmes e séries que continha praticamente tudo o que se poderia querer ver.

Não é por acaso que a Netflix fez o sucesso que fez e cresceu ao ponto de, durante muitos anos, ter impacto até na pirataria. O problema é que a forma como o mercado internacional funciona impede que algo assim continue por muito tempo, uma vez que a situação da Netflix em 2016 só era possível por uma combinação de subsídio vindo de capital de risco, o que era viabilizado apenas por políticas de juros baixos, e por licenças baratas que só existiam porque os estúdios tradicionais ainda não sabiam fixar o preço da distribuição digital de conteúdos. Era uma questão de tempo até que alguns fatores mudassem a situação.

Por um lado, outras empresas percebem o potencial do novo mercado e passam a competir por um espaço próprio nele; como algumas dessas empresas são as produtoras dos conteúdos que estavam disponíveis na Netflix, faz-lhes mais sentido retirar as suas produções de lá e colocá-las nos seus próprios serviços, pulverizando o acesso. Por outro lado, a própria Netflix, até então inquestionavelmente dominante no espaço do streaming, passa a ter de investir cada vez mais na caríssima produção de conteúdos próprios enquanto, simultaneamente, vê o crescimento do número de utilizadores desacelerar com a chegada de concorrentes de peso.

Para os acionistas, não existe a opção de aceitar que o valor das suas ações não vá aumentar o máximo possível para manter a qualidade e a relação custo-benefício da plataforma para o público. Assim, com a aquisição de novos utilizadores em queda, a solução é espremer lucros daqueles que já existem. Por isso, os preços aumentam, surgem planos com anúncios e os novos conteúdos de qualidade são substituídos cada vez mais por produções pasteurizadas, com fórmulas repetitivas e uso de IA no que for possível para tornar o processo mais ágil e barato.

Este processo, popularmente conhecido como “enshittification” (ou “merdificação”, em tradução livre), não é exclusivo da Netflix e já foi observado numa quantidade enorme de mercados, plataformas e produtos.

Ilusão da licença digital
Um exemplo mais recente foi o anúncio da Sony sobre o seu plano para encerrar de vez a fabricação de suportes físicos para os seus jogos. Com o fim dos discos, agora vai ser tudo digital através da loja oficial da PlayStation – esqueça a possibilidade de revender jogos que já terminou ou emprestar jogos facilmente aos seus amigos. Se por algum motivo algum título que comprou for retirado da loja e não o tiver descarregado, adeus, sem hipótese de o recuperar.

Caso a sua conta seja pirateada e a Sony decida que não quer ajudar a recuperá-la por iniciativa própria, terá de ser você a lutar na Justiça para tentar forçar a gigante corporativa a fazer o mínimo. E antes que alguém me acuse de terrorismo psicológico, aconteceu exatamente isso a um utilizador brasileiro identificado pela gamertag Ordo_Liberal: a conta Xbox dele foi invadida mesmo com a autenticação de dois fatores ativada e a Microsoft recusou-se a recuperá-la, argumentando que, como ele apenas tinha acesso a uma licença dos jogos, teria de comprar tudo novamente numa conta nova. O jogador teve de derrotar uma verdadeira equipa de advogados da empresa para conseguir forçar a recuperação da conta original com a biblioteca completa.

Caberiam mais uma série de exemplos aqui, desde a Uber e Lyft até ao motor de busca do Google, às recomendações (e fabrico) de produtos da Amazon e até aos smartglasses da Meta, mas cada um destes casos tem contextos socioeconómicos ligeiramente diferentes por trás da merdificação. Ainda assim, já dá para ter uma ideia de quão universal é a presença desta regra informal quando falamos de produtos e serviços, não é?

Hoje, esta dinâmica de subscrição forçada já avança sobre os eletrónicos físicos: desde smartphones de última geração alugados até construtoras automóveis que exigem mensalidades para libertar funções de hardware que já estão instaladas no seu próprio carro. E isto vale também para setores de produtos fora da área que costumamos associar mais à tecnologia.

Crise das memórias: IA devora o hardware do consumidor
Ao mesmo tempo que esta triste realidade do mundo corporativo já nos empurrava para o modelo de subscrições infinitas, a chegada da IA generativa e dos robôs não só acelerou este comboio para a velocidade máxima, como também cortou todos os travões da locomotiva. Estes sistemas ameaçam de forma não muito velada o trabalho de absolutamente toda a gente, eliminando a fonte de rendimento de grande parte da população mundial e concentrando ainda mais a riqueza nas mãos de poucos.

A IA não está a libertar o ser humano do trabalho braçal para que este produza mais arte, cultura e entretenimento enquanto aproveita melhor a vida. Está a precarizar o trabalho intelectual, a roubar trabalho autoral sem permissão nem distribuição de receita, e a usar mão de obra sub-remunerada em países mais pobres para treinar os robôs que vão ocupar os seus postos de trabalho no futuro.

A falta de regulamentação e o comportamento das Big Techs de “agir primeiro, pedir desculpa depois” já se transformou em vários processos de direitos de autor movidos por consórcios de artistas e órgãos de comunicação social contra as gigantes da IA. Nos escritórios, a transição é imposta à força: profissionais de criação e programadores enfrentam metas de produtividade absurdas sob a justificativa de que a IA deve acelerar o processo - ignorando a perda de qualidade e o aumento de erros no produto final.

Ao mesmo tempo, os centros de dados que vão permitir que as capacidades das IAs aumentem cada vez mais exigem expansão e atualização constantes. Isto deu origem a uma competição desequilibrada por semicondutores, especialmente no que diz respeito à memória RAM, e os três grandes fornecedores de memória que basicamente dominam quase toda a produção global escolheram, logicamente, vender às Big Techs dispostas a pagar o preço que for preciso, em vez de venderem a quem produz dispositivos para o consumidor final. O ritmo é tão intenso que mais de 70% da produção de memória de alta velocidade é consumida hoje justamente pelo mercado da inteligência artificial, deixando o mercado de eletrónicos de consumo a disputar as migalhas a preços inflacionados.

Os componentes tornaram-se tão escassos que até gigantes dos dispositivos de consumo direto, como a Apple e a Samsung, estão a ter de aumentar os preços dos seus produtos para manter parte das suas margens de lucro.

Com margens ainda menores, fabricantes de escala global, mas um pouco mais pequenas, sofrem agravamentos mais significativos – isto quando não são forçadas a adiar lançamentos e a revelar novidades com preços que há dois anos seriam considerados delirantes, como a nova Steam Machine a partir de 1050 $. As consolas de jogos, que tradicionalmente deveriam ir ficando mais baratas com o tempo, passam por aumentos grandes e consecutivos mesmo 6 anos após o lançamento.

Quando é que a crise acaba?
A pior parte é que não dá para dizer que esta seja uma crise passageira. As empresas de memória estão a lucrar como nunca. Segundo analistas, a receita operacional da Micron só em 2026 deverá ficar entre os 90 e os 100 mil milhões de dólares, o que é mais do que a soma de todo o lucro acumulado pela empresa nos 35 anos anteriores.

A situação é muito parecida na Samsung e na SK Hynix, que compõem o resto do trio que domina 90% do mercado de DRAM e também a totalidade da produção de memórias HBM, as mais rápidas e desejadas. Por isso, é óbvio que não têm qualquer motivação para mudar a situação, ainda para mais considerando que, antes da explosão da IA, estas mesmas fabricantes sofriam para fechar o balanço financeiro no verde, já que tinham de ceder às pressões das grandes empresas de eletrónicos e vender a sua produção com descontos agressivos.

Ao ritmo atual, a previsão é que a parte mais dolorosa desta crise dure no mínimo até 2028, com escassez e subida de preços a continuarem pelo menos até meados de 2030; mesmo depois disso, é improvável que os preços voltem ao “normal” de antigamente – deverão apenas parar de aumentar tanto e tão rapidamente. E mesmo isto pode ser otimismo, com o CEO da SK Hynix, uma das três grandes fabricantes de memória, a avisar que 2027 vai ser o pior ano de todos nesta crise e que a procura deverá continuar maior do que a oferta mesmo depois de 2030.

Também não adianta torcer pelo “rebentamento da bolha da IA”, uma vez que o nível de investimento associado às gigantes do setor é hoje tão grande que isso provavelmente afundaria o mundo numa depressão económica de níveis catastróficos.

A escolha forçada: por que razão não terá nada?
Com a combinação desta provável concentração de rendimento acelerada pela IA e pelos robôs, somada aos aumentos de preços de todo o tipo de produtos devido à crise das memórias, um futuro em que não seremos donos de nada parece-me cada vez mais inevitável. Não por causa de uma realidade utópica em que os produtos como serviço são melhores e mais baratos – a merdificação encarregar-se-á de eliminar o que surgir nesse sentido –, mas sim porque, em breve, a maioria de nós já não terá o poder de compra necessário para possuir algo próprio.

E aí, o que resta para todos nós, os 99% de não-milionários, é escolher entre três opções bastante difíceis: ou aceitamos a crescente realidade em que tudo é um serviço por subscrição e nos submetemos aos caprichos das Big Techs, ou desistimos de tudo e acabamos cada vez mais marginalizados e desatualizados, ou então apertamos os cintos para resistir por conta própria enquanto exigimos a políticos e entidades reguladoras legislações que, para ser sincero, provavelmente virão tarde demais.

Se, como eu, acha a terceira opção mais interessante, então a forma de resistir é estudar. Como utilizar sistemas abertos como as diferentes distribuições de Linux? Como fazer jailbreak em dispositivos como smartphones para estender o seu suporte de hardware por mais tempo? Como montar um servidor próprio (NAS) usando o que tiver de máquinas velhas em casa para armazenar os seus ficheiros e centralizar os seus conteúdos multimédia sem depender de nuvens pagas? Como reaproveitar tablets e portáteis antigos para dar uma nova vida a equipamentos que iriam para o lixo? Estes conhecimentos não vão mudar o contexto macroeconómico que nos trouxe até aqui, mas são o único escudo real para o ajudar a continuar no controlo da sua própria vida digital, na medida do possível.

Ler mais:
  1. Sophia Harris (2015) - Netflix helps reform hard-core movie pirates, but at a cost
  2. Mauritaz Wagner (2020) - The effect of Netflix on movie piracy and its impact on the movie industry
  3. Sarah Frick, et al (2023) - Pirate and chill: The effect of netflix on illegal streaming
  4. "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

domingo, 26 de julho de 2026

Porque é que a Inteligência Artificial consome tanta energia e água?


Toda a pergunta feita a um chatbot - até um simples "bom dia"- passa por servidores que consomem eletricidade. Na maioria dos casos, essa infraestrutura também usa água para arrefecimento, o que torna esse consumo hídrico um dos principais pontos de tensão sobre a sustentabilidade da IA.

De acordo com o relatório de eletricidade da Agência Internacional de Energia (IEA), os centros de dados consumiram cerca de 415 terawatt-hora (TWh) em 2024, perto de 1,5% de toda a eletricidade do planeta, com previsão de duplicar até 2030.

Mas o que mais preocupa é que boa parte dos centros de dados já opera em regiões com stresse hídrico, aumentando a pressão sobre um recurso escasso e mal distribuído.

Vejamos a seguir por que razão os modelos de IA consomem tanta energia e água, como funcionam os centros de dados por trás desta tecnologia e quais as soluções que as empresas testam para reduzir este impacto.

Por que razão a inteligência artificial consome tanta energia?
O principal motivo do consumo elevado é o processamento paralelo em escala industrial. Treinar um modelo de linguagem exige milhares de GPUs a operar simultaneamente durante semanas, analisando volumes massivos de dados até ajustar mil milhões de parâmetros.

Mas o consumo não termina com o treino. Cada nova pergunta feita a um chatbot ativa esse modelo novamente - e são mil milhões dessas consultas por dia, sustentando uma procura contínua por eletricidade.

O funcionamento constante gera calor, que precisa de ser dissipado por sistemas de arrefecimento. É por isso que, além da energia, o consumo de água também entra na equação dos centros de dados.

Uma análise publicada pela MIT Technology Review estima que treinar o GPT-4 consumiu cerca de 50 gigawatt-hora, energia suficiente para abastecer a cidade de São Francisco durante três dias inteiros.

Mas esse gasto de treino é pontual - a fase de uso diário, chamada de inferência, responde por entre 80% e 90% de toda a capacidade computacional da IA hoje, segundo investigadores ouvidos pela publicação.

O papel das GPUs no processamento
As GPUs (unidades de processamento gráfico) - aquelas mesmas usadas para renderizar gráficos em jogos de vídeo - ganharam com a IA um novo papel. Elas conseguem realizar milhões de cálculos ao mesmo tempo, algo essencial para treinar e executar os sofisticados modelos de linguagem.

Hoje, chips avançados, como o H100 da Nvidia, são projetados especificamente para este tipo de tarefa intensiva; consomem grandes quantidades de energia e exigem sistemas robustos de refrigeração para evitar o sobreaquecimento.

Em centros de dados de grande porte, é comum encontrar mais de 10 mil GPUs a funcionar em conjunto. Quanto maior o modelo de IA, mais chips são necessários - e maior o consumo total de eletricidade.

Por que razão a IA também consome água?
Como os servidores aquecem absurdamente, boa parte dos centros de dados usa água para os arrefecer o tempo todo e evitar falhas por sobreaquecimento. Outros, porém, dependem apenas de arrefecimento a ar, sem uso de água.

O consumo acontece de três formas: diretamente, no arrefecimento dos centros de dados; indiretamente, na geração da eletricidade que os abastece; e também na fabricação dos componentes eletrónicos que sustentam a IA.

Esta escala só tende a crescer. Um levantamento divulgado pela aliança GDSA projeta que o uso global de água pela IA pode saltar de 1,1 mil milhões para 6,6 mil milhões de metros cúbicos até 2027 - mais da metade do consumo anual do Reino Unido.

Como funciona o arrefecimento dos centros de dados
Os centros de dados removem o calor dos servidores por meio de dois métodos principais:
  1. Arrefecimento a ar: usa ar condicionado industrial para direcionar o ar gelado pela frente dos computadores e recolher o ar quente pelo corredor traseiro dos equipamentos.
  2. Arrefecimento líquido: fixa placas com canais de água tratada diretamente sobre os processadores, ou mergulha os próprios servidores em tanques com óleo dielétrico (que não conduz eletricidade), enviando o fluido aquecido para torres externas, onde é arrefecido.
O uso de água para controlar a temperatura dos servidores

Uma análise do Lincoln Institute of Land Policy sobre o impacto hídrico e territorial dos data centers estima que um centro de dados de médio porte consome tanta água quanto uma pequena cidade. Já instalações de grande escala chegam a gastar até 19 milhões de litros (5 milhões de galões) por dia, segundo o centro de investigação.

No Texas, um estudo do Houston Advanced Research Center (HARC) projeta que os centros de dados da região vão consumir 399 mil milhões de galões de água em 2030, o equivalente a 1,51 mil milhões de metros cúbicos.

O que são os centros de dados e por que razão importam tanto?
Espécie de "cérebros" da internet, os centros de dados são instalações físicas que albergam computadores, servidores e sistemas de armazenamento de uma organização para guardar e processar dados.

No contexto da IA, a importância dos centros de dados explodiu com a chegada dos complexos de hiperescala (Hyperscale), que revolucionaram a infraestrutura física ao trocar processadores comuns (CPUs) por superchips (GPUs e TPUs) focados em cálculos massivos.

O sobreaquecimento sem precedentes gerado por estes superchips exigiu a troca do ar condicionado tradicional por sistemas de arrefecimento líquido direto no chip. Mas quem realmente empurra o consumo elétrico para um patamar monstruoso são os próprios chips - a ponto de empresas de tecnologia estarem a comprar e a reativar centrais nucleares dedicadas para dar conta da procura.

Neste cenário, estas estruturas gigantescas tornaram-se o epicentro de uma corrida geopolítica por infraestrutura e capacidade computacional, na qual o grande desafio é garantir respostas em tempo real e, ao mesmo tempo, conter a procura por energia.

Infraestrutura necessária para executar modelos de IA
A operação de um modelo de IA depende de uma cadeia de equipamentos interligados. Entre os principais estão:
  1. Servidores com GPUs e CPUs: processam e armazenam os dados dos modelos;
  2. Sistemas de armazenamento: guardam dados de treino e backups;
  3. Equipamentos de rede: conectam os servidores entre si e à internet;
  4. Sistemas de arrefecimento: mantêm a temperatura sob controlo e evitam falhas;
  5. Geradores e baterias de emergência: garantem funcionamento contínuo durante cortes de energia.
Quais são os impactos ambientais da IA - e o que estão as empresas a fazer?
A IA gera impactos ambientais concretos, como emissões de carbono, consumo excessivo de água e lixo eletrónico, enquanto as empresas de tecnologia testam soluções que ainda não resolvem completamente o problema.

Segundo um artigo de investigação da Penn State University, o crescimento dos centros de dados amplia as emissões de gases de efeito de estufa, uma vez que boa parte da eletricidade usada ainda vem de fontes fósseis.
As iniciativas das empresas ainda não cobrem todos os riscos potenciais e efetivos.

Principais riscos ambientais:
  1. Emissões de carbono ligadas à eletricidade de origem fóssil;
  2. Stresse hídrico em regiões que já enfrentam escassez de água;
  3. Geração de lixo eletrónico pela vida útil curta das GPUs;
  4. Uso de geradores a gasóleo como reforço energético, poluindo o ar local.
Iniciativas para reduzir o impacto:
  1. Arrefecimento por imersão ou circuito fechado, que poupa água;
  2. Contratos de energia sem emissão de carbono, como o acordo assinado pela Microsoft para reativar a central nuclear de Three Mile Island;
  3. Metas de "zero água" para arrefecimento assumidas por grandes empresas de tecnologia;
  4. Modelos de IA menores e mais eficientes, treinados para tarefas específicas.
Mesmo com os avanços, investigadores do Lincoln Institute of Land Policy afirmam que a falta de transparência das empresas dificulta medir o real impacto ambiental da IA no mundo.

O futuro da inteligência artificial será mais sustentável?
A resposta a esta pergunta ainda é um grande ponto de interrogação: as soluções em desenvolvimento podem reduzir o consumo por tarefa de IA, mas a procura por centros de dados cresce mais rápido do que qualquer refinação conseguiria compensar.

Investigadores da Penn State University sobre eficiência energética e IA apontam que, sem mudanças, os centros de dados podem responder por até 20% do consumo elétrico global entre 2030 e 2035, pressionando redes já sobrecarregadas.

A eficiência energética por watt tem melhorado a cada nova geração de chips, reduzindo a energia gasta em cada cálculo - mas não ao ritmo necessário para compensar o crescimento da procura. Modelos de IA menores, treinados para tarefas específicas, também ajudam a evitar o desperdício de capacidade.

Para tornar o setor mais transparente, a União Europeia exige, desde 2024, através do regulamento de monitorização da Comissão Europeia, que os centros de dados comuniquem o seu consumo de energia e água. Contudo, o primeiro ciclo de relatórios mostrou falhas: apenas cerca de um terço das instalações enviou dados, e os números do consumo de água continuam pouco fiáveis.

As perspectivas apontam que, mantido o ritmo atual, a IA tende, sim, a tornar-se mais eficiente - mas não necessariamente mais sustentável.

O grande problema da IA não é apenas quanto cada sistema consome, mas quantas vezes é utilizado: quanto mais pessoas recorrem a chatbots e geradores de imagem, maior é a pressão sobre recursos naturais já escassos.

Formulada assim, a pergunta certa é: até que ponto a conveniência de uma resposta instantânea da IA vale o custo ambiental por trás dela - e quem deve pagar essa conta?

terça-feira, 21 de julho de 2026

Do ADN às 2.100 Línguas: o que a genética e o Ethnologue revelam sobre África


Se a África decidisse desenhar as suas fronteiras com base nas identidades reais do seu povo - como a Europa fez ao longo de séculos -, o resultado seria um mapa com milhares de países. Só a África sozinha teria mais Estados soberanos do que todos os países do mundo atual juntos. [mapa interactivo: aqui]

E isto não é um exagero poético. Trata-se de uma realidade confirmada tanto pelos linguistas como pelos geneticistas.

Enquanto a base de dados do Ethnologue regista mais de 2.100 línguas vivas no continente, a genética da população humana diz-nos algo ainda mais fascinante: a África alberga a maior diversidade de ADN de todo o planeta. Como o Homo sapiens surgiu lá e ali permaneceu durante centenas de milhares de anos antes de pequenos grupos migrarem para o resto do mundo, a variação genética acumulada entre duas comunidades africanas vizinhas pode ser muito maior do que a diferença entre um europeu e um asiático.

Quando cruzamos a história das línguas com a história do ADN, este mosaico humano organiza-se em cinco grandes grupos:

1. Níger-Congo
É o maior gigante demográfico e linguístico do continente, reunindo cerca de 1.650 grupos. Inclui as grandes populações da África Ocidental — como os Yorubá, Igbo, Akan e Fulas — e toda a família de povos Bantu (como os Zulus, Xhosas e Kikuyus). O seu ADN reflete a maior expansão agrícola e demográfica da história africana, que se espalhou do oeste para todo o centro e sul do continente ao longo dos últimos três milénios.

2. Afro-Asiática
Ocupando o Sahara, o Norte de África e o Chifre da África, este grupo (que junta Bérberes, Hausas, Amharas e Somalis) soma entre 200 e 300 etnias. Os seus genes e idiomas contam a história de pontes milenares e trocas constantes entre o continente africano e o Médio Oriente.

3. Nilo-Saariana
Distribuídos ao longo do Vale do Nilo e da faixa do Sahel, povos como os Dinka, Maasai e Nuer mantêm linhagens genéticas profundamente antigas. São populações históricas de pastores e guerreiros adaptados aos ecossistemas de savana, com características físicas e linguísticas muito próprias.

4. Khoisan
Os povos San (os chamados Bosquímanos) e Nama do sul da África representam um dos capítulos mais antigos do ser humano. Famosos pelas suas línguas compostas por sons de "cliques", o seu ADN revela um ramo que se separou do tronco principal da humanidade há mais de 100.000 anos. São, literalmente, uma janela viva para a história genética mais remota da nossa espécie.

5. Austronésia
Localizado exclusivamente na ilha de Madagáscar, o povo Malgaxe é um caso fascinante. Embora a ilha faça parte da geografia africana, a sua população nasceu de uma fusão extraordinária: navegadores vindos do Sudeste Asiático há 1.500 anos cruzaram-se com as populações Bantu vindas do continente.

No fundo, os mapas políticos que estudamos na escola apenas cobrem a superfície. Por trás de linhas desenhadas à régua em conferências coloniais no século XIX, a África continua a ser o maior reservatório de diversidade biológica e cultural que a humanidade tem para oferecer.

Fonte

Os rostos por trás do mapeamento humano e linguístico de África
A compreensão do mosaico humano africano resultou do trabalho complementar de antropólogos, linguistas e geneticistas de renome ao longo do último século. No campo da antropologia e da cartografia étnica, um dos primeiros grandes marcos foi estabelecido pelo antropólogo norte-americano George Murdock que, na sua obra de 1959, Africa: Its Peoples and Their Culture History, delineou e catalogou territorialmente mais de 800 regiões étnicas no continente. Esta base histórica de Murdock abriu caminho para iniciativas de catalogação sistemática como o compêndio Ethnologue, impulsionado inicialmente por Richard S. Pittman na década de 1950 e posteriormente expandido por Barbara Grimes, transformando-se na maior referência científica mundial para a identificação e classificação de mais de 2.100 línguas vivas africanas.

Paralelamente ao desenvolvimento das bases de dados, a organização estrutural deste vasto universo de idiomas deve-se ao trabalho do linguista Joseph Greenberg. A sua obra seminal de 1966, The Languages of Africa, revolucionou a linguística ao classificar a totalidade dos idiomas do continente nas quatro grandes macrofamílias tradicionais: Níger-Congo, Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. A rigorosa taxonomia desenvolvida por Greenberg permitiu aos cientistas rastrear não apenas a evolução dos idiomas, mas também os padrões de expansão e migração dos povos ao longo dos milénios.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Matemático diz ter usado modelo de IA para refutar problema matemático com 87 anos


Um matemático da Universidade de Harvard afirma ter utilizado um sistema de inteligência artificial da Anthropic para encontrar um contraexemplo à Conjetura Jacobiana, um dos mais antigos problemas em aberto da geometria algébrica. Se o resultado for confirmado pela comunidade científica, poderá pôr fim a um desafio matemático que resistia desde 1939.

O matemático Levent Alpöge anunciou, na noite de domingo, na rede social X, que utilizou o Fable 5, um modelo de IA da Anthropic, para refutar a Conjetura Jacobiana.

Conjetura Jacobiana, o que é?
A Conjetura Jacobiana foi proposta por Ott-Heinrich Keller, em 1939, e afirma que, se uma função polinomial tem um determinante jacobiano que é uma constante diferente de zero (ou seja, o volume e a orientação em torno de cada ponto são perfeitamente preservados), então essa função possui uma função inversa que também é polinomial.

A Conjetura Jacobiana é um dos problemas em aberto mais conhecidos da geometria algébrica e desafia matemáticos há 87 anos. O problema foi incluído nos "Problemas de Smale", uma lista de problemas matemáticos por resolver apresentada pelo matemático Stephen Smale em 1998.

Fable 5 e a alegada refutação da conjetura
Apesar de este problema ter uma história de mais de oito décadas, para o sistema de inteligência artificial avançada Fable 5 não terá sido um obstáculo. Levent Alpöge afirmou, na rede social X, que a Conjetura Jacobiana é, na verdade, falsa, apresentando como prova um pequeno contraexemplo gerado pelo sistema de IA, com apenas 216 caracteres, segundo a New Scientist. O matemático não revelou como o modelo produziu esse contraexemplo.

O Fable 5 é o modelo mais recente de IA da Anthropic. A empresa disponibilizou anteriormente uma versão de demonstração, designada Claude Mythos Preview, mas afirma que as capacidades de cibersegurança do modelo são demasiado avançadas para permitir o seu lançamento para utilização pública.

Descoberta do Fable 5 é um avanço na IA ou na Matemática?
Em declarações ao Mashable, o professor e matemático Andrew Blumberg afirmou: “Isto não alterou as minhas expectativas sobre o que a IA pode ou não fazer.”

Acrescentou: “É exatamente o tipo de coisa que eu esperaria que a IA fosse capaz de fazer. Se existisse um contraexemplo conciso e fácil de formular que as pessoas ainda não tivessem encontrado porque é complicado explorar todas as possibilidades, a IA acabaria por encontrá-lo.”

O professor de Matemática e Ciência da Computação da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, participa no projeto First Proof, uma iniciativa que procura testar as capacidades dos modelos de linguagem de grande escala na resolução de problemas matemáticos de investigação.

"Queremos aprender alguma coisa com a resposta", afirmou.

Apresentar um contraexemplo à Conjetura Jacobiana continua a ser uma conquista significativa para a inteligência artificial na matemática, observa Blumberg. No entanto, considera que existe uma grande diferença entre demonstrar um grande problema matemático e apresentar apenas um contraexemplo que o refute.

“Suponhamos que Moisés descia da montanha com as tábuas e nelas estava escrito: 'O cancro tem cura.' Ficaria satisfeito apenas com isso? Não basta ter a resposta. Queremos perceber porquê. E a razão pela qual Smale considerava este problema importante é que acreditava que, ao resolvê-lo, compreenderíamos melhor a forma como a natureza está estruturada.”

Por outras palavras, acrescenta Blumberg, “este contraexemplo não nos diz, essencialmente, nada. Mostra apenas que existem muitos polinómios e que é difícil para as pessoas verificá-los todos, mas não para as máquinas.”

A Conjetura Jacobiana não é o único problema matemático que a IA abordou nos últimos meses. A OpenAI anunciou, em maio, que um modelo interno tinha refutado a conjetura da distância unitária de Erdős, uma conjetura central da geometria discreta.

Nesse caso, porém, o resultado foi mais produtivo, considera Blumberg, porque a OpenAI não se limitou a apresentar um contraexemplo, mas uma refutação acompanhada de argumentos matemáticos que permitiram aos especialistas desenvolver novos trabalhos.

"A refutação já deu origem a coisas interessantes, porque os especialistas na área analisaram o que se passava na demonstração e depois utilizaram essas ideias para fazer outras coisas", afirmou.

O caso da Conjetura Jacobiana é diferente, embora Blumberg reconheça que não se considera especialista suficiente para avaliar "se existe algo de especial na estrutura deste contraexemplo com que possamos aprender". Ainda assim, conclui que, "por si só, não é particularmente interessante".

Levent Alpöge integra atualmente a Society of Fellows da Universidade de Harvard, um programa de pós-doutoramento destinado a investigadores promissores, que oferece três anos de liberdade académica sem avaliações formais. O seu perfil no LinkedIn indica também uma afiliação à Anthropic.