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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Anne Teresa De Keersmaeker - Rosas danst Rosas


Leitura simbólica e filosófica de Rosas danst Rosas

1. O corpo como linguagem e pensamento
Anne Teresa De Keersmaeker parte da ideia de que o corpo pensa — que o gesto é uma forma de raciocínio.
Em “Rosas danst Rosas”, o corpo deixa de ser mero instrumento expressivo e torna-se um sujeito que reflete, insiste e questiona.
A repetição de movimentos banais (mexer o cabelo, cruzar as pernas, cair, reerguer-se) torna-se uma meditação física sobre a existência:

“Sou corpo, logo insisto.”
Assim, a peça aproxima-se de uma fenomenologia do corpo, no sentido de Merleau-Ponty — o corpo como modo de estar-no-mundo, como consciência encarnada.

2. Repetição e diferença
A repetição obsessiva dos gestos não é redundante; é criadora.
Inspirada no pensamento de Gilles Deleuze, podemos ver aqui uma “repetição que gera diferença”:
cada volta, cada gesto repetido, transforma-se subtilmente — porque o tempo, o corpo e a intenção mudam.
A dança torna-se um laboratório da diferença no seio do idêntico.

Esta repetição também evoca o ciclo da vida: o nascer, o cansar-se, o recomeçar — um ritmo existencial que espelha o modo como o ser humano insiste na construção do sentido.

3. O feminino como resistência
A presença de quatro mulheres que dançam até à exaustão é simultaneamente um gesto de poder e vulnerabilidade.
Os gestos femininos, por vezes sensuais ou domésticos, são reapropriados e amplificados, libertando-os da sua carga social ou sexualizada.
A mulher não é objeto, mas sujeito da sua própria repetição.
O corpo feminino, ao resistir à fadiga e à monotonia, afirma-se como força criadora, como uma espécie de revolta silenciosa.
Neste sentido, a obra pode ser lida como um manifesto feminista do corpo — não por representar “a mulher”, mas por fazer do corpo feminino um espaço de pensamento e autonomia.

4. O tempo e a duração
A peça é também uma reflexão sobre o tempo vivido — o tempo que não corre “para a frente”, mas que se dobra, se repete, se expande.
O tempo na dança é corporal: o público sente o peso da duração, o tédio que se transforma em transe.
Há aqui um eco de Henri Bergson, que via a duração (durée) como uma experiência interior, fluida e não mensurável.
“Rosas danst Rosas” faz o espectador sentir o tempo como matéria física, como respiração, como desgaste e renascimento.

5. A coletividade e o indivíduo
As quatro intérpretes formam uma unidade, mas cada uma tem um ritmo ligeiramente distinto — como vozes de um mesmo coro.
Simbolicamente, isso reflete o tenso equilíbrio entre o coletivo e o singular, entre o eu e o outro.
É uma metáfora da coexistência humana: seres que repetem o mesmo padrão, mas cada um à sua maneira, num mundo que partilham.

6. A estética do essencial
De Keersmaeker retira tudo o que é decorativo. O cenário é austero, o figurino simples, os movimentos mínimos.
Esse despojamento é ético — é uma busca pela verdade do movimento, pela essência da presença.
Nesse sentido, a coreografia aproxima-se de uma espiritualidade laica, onde o gesto repetido se torna ritual e meditação.

7. Síntese filosófica
Em “Rosas danst Rosas”, o corpo:
  1. Pensa (fenomenologia do gesto);
  2. Repete e transforma (Deleuze: diferença na repetição);
  3. Resiste e afirma-se (feminismo existencial);
  4. Habita o tempo (Bergson: duração vivida);
  5. Partilha e coexiste (ética do coletivo).
A obra, portanto, é uma metáfora do ser humano no mundo: persistente, cíclico, sensível, vulnerável e criador.
É uma dança da existência — onde o movimento é pensamento e o cansaço é revelação.

Saber mais:
Henri Bergson, vitalismo e teoria social

domingo, 6 de novembro de 2022

Bailado - Achterland (1990)


Achterland é uma coreografia seminal na obra de Anne Teresa De Keersmaeker. Nesta performance de 1990, pela primeira vez, a coreógrafa deu aos músicos uma posição central no palco e os deixou desempenhar um papel ativo na dinâmica geral – uma abordagem que ela repetiria em muitos projetos subsequentes. 

A combinação incomum da música de György Ligeti e Eugène Ysaÿe inspirou De Keersmaeker e ós seus dançarinos a criar uma banda sonora original com um delicado equilíbrio entre virtuosismo energético e desaceleração. 

Essa também foi a primeira vez que a coreógrafa escreveu material de dança especificamente para homens; ela acrescentou três dançarinos ao que até então era uma companhia predominantemente feminina. Em Achterland, a feminilidade e o minimalismo predominantes de vários dos trabalhos anteriores de Rosas deram lugar a uma terra de ninguém ambígua caracterizada por uma indefinição de limites e símbolos.

Em 1995, De Keersmaeker fundou em Bruxelas a escola P.A.R.T.S. (Performing Arts Research and Training Studios), em associação com De Munt/La Monnaie.




Natureza criadora: o projecto bio-filosófico de Henri Bergson

sábado, 1 de outubro de 2022

Música do BioTerra: HOLYGRAM - Still There

Hoje celebra-se em todo o mundo o Dia Mundial da Música

Melhor som aqui

Letra
I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I don’t know why 
We started falling apart 
So ease my mind 
With your dystopian hands 
And I’m still there 

And I don’t know why 
We started falling apart 
I saw you change 
In our dandelion grave 
And I’m still there 
I’m still there… 

I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I’m still there 
Standing there 
You started walking away 

I saw you 
You started walking away 
The sea was wild

A letra de "Still There" é minimalista, poética e intencionalmente ambígua, mas carrega uma forte carga de isolamento urbano e desilusão amorosa. A música narra um distanciamento, no qual o eu lírico descreve um momento em que ele e outra pessoa "começaram a caminhar em linhas" - uma metáfora para uma rotina rígida e sem conexão real - até que, de repente, tudo começou a desmoronar sem que ele consiga compreender o motivo real.

Este cenário de ambientes distópicos e cinzentos é reforçado pelo uso de termos como "dystopian hands" (mãos distópicas) e "dandelion grave" (túmulo de dentes-de-leão), que traduzem perfeitamente a identidade do álbum Modern Cults, focado na exploração da vida nas grandes metrópoles, na solidão moderna e na forma como as relações humanas se tornaram frias, mecânicas e quase industriais.

Por fim, o refrão e o próprio título da canção entregam o verdadeiro peso psicológico da narrativa através da frase "And I'm still there" (E eu ainda estou lá). Enquanto a outra pessoa seguiu em frente e mudou, o narrador permanece estático, preso mentalmente ao exato momento e lugar em que o relacionamento acabou, transformando a faixa numa obra sobre a incapacidade de superar o passado e sobre como a memória se pode tornar uma espécie de assombração ou um "holograma" que se repete indefinidamente na mente.

Inspirações Filosóficas, Romancistas e Poéticas
No plano filosófico, a faixa ancora-se fortemente no conceito de Hauntology (Hantologie), teorizado por Jacques Derrida e mais tarde transposto para a cultura pop por Mark Fisher. Esta linha de pensamento aborda a persistência de fantasmas do passado que continuam a infetar e a moldar o presente, uma ideia que o Holygram traduz na dor de viver num loop temporal onde o ontem nunca morre. Esta suspensão do tempo remete também para o filósofo Henri Bergson e o seu conceito de "Duração" (Durée), que defende o tempo psicológico da mente — onde as memórias se sobrepõem à realidade cronológica do relógio — como a verdadeira experiência humana.

Na romancística, "Still There" bebe diretamente da literatura da memória involuntária de Marcel Proust em Em Busca do Tempo Perdido, onde pequenos fragmentos do quotidiano desencadeiam recordações avassaladoras, embora aqui despovoadas de doçura e transformadas numa prisão psicológica. A narrativa da canção aproxima-se ainda da literatura gótica de suspense de autores como Henry James, em A Volta do Parafuso, ou Daphne du Maurier, em Rebecca, obras onde os espaços físicos e as habitações estão permanentemente impregnados e assombrados pelo eco de traumas e de relações passadas, tornando o quarto do protagonista num espelho da sua própria ruína emocional.

Por fim, a fundação poética da canção assenta na melancolia e na decadência do Spleen de Charles Baudelaire e dos poetas simbolistas franceses do século XIX, que encontravam uma beleza trágica na agonia do isolamento. No entanto, é a obsessão de Edgar Allan Poe com a perda da mulher amada e a eterna vigília dos amantes face à morte — como nos poemas O Corvo ou Annabel Lee — que ressoa de forma mais pungente na lírica da canção, condenando o eu lírico a habitar a penumbra, crente de que aquela presença intangível continua, obstinadamente, ali.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Emil Cioran - O filósofo da melancolia



Preparem-se para pensamentos melancólicos. Para ideias desconcertantes. Para ideias que nos incomodam. Se forem de natureza macambúzia e com pouco senso de reflexão, sugiro que não se apercebam do filósofo romeno Emil Cioran, que nasceu em Rășinari, uma área rural da Transilvânia (portanto, conterrâneo do Conde Drácula) em 1911 e que faleceu em Paris, no ano de 1995. Ainda na Roménia, aos 17 anos ingressou na Faculdade de Filosofia, e encantou-se pela política partidária aderindo a um Partido Nacionalista, inspirado no Nazismo, mas na fase adulta reconheceu este erro e acabou por se desculpar; mas foi em Paris que se radicou e tentava viver como estudante apenas.

Tanto é que foi chamado à responsabilidade pela administração da Sorbonne, pois já estava com 40 anos e havia estado há muito na instituição, aproveitando-se das refeições baratas nos bandejões da cantina da universidade. Assim, teve que se desligar da instituição (ou desligaram-lhe) e entronizou a característica com a qual gostaria de ser conhecido e reconhecido: a de um eterno estudante.

Nos primeiros ensinamentos da Filosofia, encantou-se com Immanuel Kant (1724-1804), Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Contudo, refutou a Filosofia como o grande esquema de explicação do mundo e de Nietzsche herdou a característica de se expressar por aforismos, tais como:

“Amo o pensamento que guarda um gosto de carne e sangue, e a uma abstração vazia prefiro mil vezes uma reflexão surgida de uma exaltação dos sentidos ou de uma depressão nervosa“.

Cioran é de um pessimismo impressionante. Mas, quando leio alguns dos seus pensamentos, consigo encontrar humor, mesmo que negro, das suas provocações. Na fase adulta, foi acometido por uma insónia que não o deixava aspirar a novos começos, pois, segundo ele, só aqueles que dormem e se levantam normalmente na manhã seguinte têm o direito de aspirar a coisas novas, sonhos novos, projetos novos.

Saindo do seu quarto barato de hotel, pela madrugada lá ia Cioran perambular pela Cidade Luz, em becos escuros contando com a companhia de putas tristes que formavam as cenas. Sem aspiração alguma, pessoal ou profissional, sem compromissos e sem ter que prestar contas a ninguém, Cioran tinha tempo de sobra para refletir e tirar extratos destas sinapses, tais: “O paraíso é a ausência do homem“.

O mundo de Cioran é cinza e não intenta nenhuma metafísica. Ele mesmo desejava uma vida de inseto, tipo “A Metamorfose” de Franz Kafka e fico aqui a pensar se este desapego à vida é que não fez com que, contraditoriamente, vivesse tanto, afinal, morreu aos 84 anos, precedido pelo Mal de Alzheimer.

Os seus livros mais conhecidos são “A Tentação de Existir“, “Exercícios de Admiração“, “Breviário de Decomposição” e “Silogismos da Amargura“. Citando fontes, o filósofo foi-me apresentado pelo excelente artigo de Paulo Jonas de Lima Piva, “Cioran Uma Mente Desconcertante“, publicado na Revista Discutindo Filosofia (Ano 1, n.º 2). Do mesmo modo que a partir desta apresentação procurei inteirar-me mais sobre Cioran, espero que este artigo em questão lhes possa proporcionar isso.

Deixo-lhes alguns pensamentos, e esclareço que não me aprofundei mais para dar um certo estilo às intenções de Cioran: mais vale uma vida vivida com toda a sua contrariedade a esquemas de reflexões e de salvação do mundo, pelo menos a nossa própria. Tentem não se matar ao lerem estas reflexões tortas. Ao menos para mim, significou deleite puro, pois, para além da seriedade das sentenças, percebi um certo sorrisinho de mofa.

“No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!“;

“O momento em que pensamos ter compreendido tudo dá-nos ar de assassinos“;

“O destino do homem é esgotar a ideia de Deus“;

“A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade“;

“Que vale mais: realizar-se na ordem literária ou na ordem espiritual, ter talento ou força interior? Parece a segunda fórmula a preferível, pois mais rara e enriquecedora. O talento destina-se ao olvido, em contrapartida a força interior aumenta com os anos, podendo atingir o seu apogeu no momento em que a pessoa expira“.